26 setembro 2022

A NOTA DA PIDE ACERCA DO TERRORISMO

26 de Setembro de 1972. A PIDE envia uma nota aos jornais fazendo uma avaliação das mais recentes acções terroristas que haviam ocorrido naqueles dois últimos anos de 1971 e 1972. Nessa nota, a polícia política fazia uma diferenciação entre as três principais organizações, identificando as responsabilidades de cada uma: as do PCP, as do PRP - BR e as da LUAR. Um parágrafo adicional era dedicado ao MRPP e a outros grupos de nomes revolucionariamente imaginativos, mas, no fundo, inócuos. Na nota, a PIDE não perdia a oportunidade para ironizar com o facto de que todas as organizações reclamavam agir em nome da classe operária, mas que os membros oriundos dessa classe eram uma minoria entre os quadros dessas organizações. Quanto à identificação dos seus quadros, percebia-se que a PIDE andava bastante aos papéis na identificação de quem era quem dentro das três principais organizações que constituíam o seu alvo principal. Beneficiando nós da clarividência dos acontecimentos depois do 25 de Abril, constata-se agora que a PIDE acerta em Raimundo Narciso no caso do PCP; que também acerta em Carlos Antunes no caso do PRP - BR, mas que, fruto provável do preconceito de género, a PIDE não valoriza devidamente Isabel do Carmo; e que falha rotundamente no caso da LUAR, nomeando uma figura secundaríssima, e deixando de parte figuras como Palma Inácio ou Fernando Marques. Contudo, vale a pena assinalar a publicação desta nota para que se perceba que, antes do 25 de Abril, um vulgar leitor de jornal atento tinha oportunidade de conhecer as actividades das organizações clandestinas. Podiam não querer saber, queixar-se da censura, mas a informação, como se vê, e apesar de ser transmitida de uma forma parcial, estava disponível.

25 setembro 2022

«NÓS, AS ELITES...»

«Nós, as elites...» é uma locução que aprendi de um conhecido meu, que a empregou despudoradamente ao pretender referir-se a si e a todos aqueles a quem endereçava aquela nota, frequentadores e comentadores activos ou passivos das redes sociais. Aproveitei-a e uso-a entredentes, pelo excesso ridículo, creio que o utilizador original a iria considerar deturpada do sentido original que lhe dera. Neste pedacinho de dissertação pedante de facebook as elites estão à vista, com (mais de) uma hora transcorrida de publicação e com 58 passantes a gostarem, rirem e adorarem o que fora escrito, não apareceu uma alminha caridosa entre essas 58 que chamasse a atenção ao autor do texto que o autor do filme (Voando sobre um ninho de cucos) foi Milos Forman e não o «extraordinário Kubrick». Ou então, até houve quem chamasse, mas mais discretamente que as manifestações dos 58... e sem consequências. Mas, quiçá, o que será mais importante no texto, para o seu autor, será a pose, a analogia da enfermeira Fletcher com a presidente da comissão Leyen. E, por outro lado, há que compreender que rectificar o erro do texto, será chamar indirectamente a alguns dos seus leitores uns ignorantes... de elite.

A NOTÍCIA SOBRE A MORTE DO REI FOI MANIFESTAMENTE EXAGERADA

25 de Setembro de 1962. Em Sanaa, capital do Iémen (país cuja localização escaparia à grande maioria dos leitores do Diário de Lisboa acima), deu-se um golpe de Estado, que terminara com a morte do recém entronizado monarca Muhammad al-Badr e a proclamação da república. Veio-se depois a saber - acima a edição do jornal dois depois - que o golpe se revestira de alguns daqueles aspectos de malandrice traidora que estes episódios costumam conter: quem encabeçara o golpe fora o comandante da própria guarda real e o processo de tomada do poder culminara num bombardeamento de artilharia do palácio real, palácio que ficara em tal estado que os revoltosos presumiam que o rei morrera, soterrado no entulho... Contudo, como se viria depois a descobrir e citando Mark Twain, «a notícia da morte do rei fora manifestamente exagerada»... O monarca escapara, o anúncio da sua morte terá sido um expediente dos revoltosos para atenuar a resistência que enfrentavam, só que a difusão da notícia lhes escapara ao controlo. Essa notícia da pretensa morte do rei resultara no imediato, mas a história está muito longe do fim: seguir-se-á uma guerra civil que perdurará por oito anos (1962-70). Quanto à precocidade do anúncio da morte do rei, ele juntar-se-ia a uma enorme colecção de asneiras idênticas, asneiras factuais de um género que só pessoas com o perfil do actual provedor do Público têm o descaramento de tentar justificar.

UM DAQUELES REFERENDOS EM QUE A CAPITAL É «DERROTADA» PELO RESTO DO PAÍS

25 de Setembro de 1972. Tem lugar na Noruega um referendo sobre a adesão daquele país à então CEE. O desfecho foi a vitória do "Não", o que foi surpreendente, considerada a perspectiva que se antecipava na capital, Oslo, onde a superioridade dos votos "Sim" veio a ser na proporção de 2 para 1. Mas o país rejeitara globalmente a proposta e no dia seguinte, o primeiro-ministro e o governo norueguês confessavam-se derrotados, preparando-se para se demitir (abaixo).

24 setembro 2022

A IMPORTÂNCIA PROPAGANDÍSTICA DA BATALHA DE ESTALINEGRADO

24 de Setembro de 1942. O destaque que as páginas do Diário de Lisboa desse dia dão à batalha de Estalinegrado mostram até que ponto a confrontação entre alemães e soviéticos extravasara o carácter estritamente militar para se transformar numa outra coisa muito mais importante. Subindo assim a parada do que estaria em disputa, uma atitude tomada com a concordância implícita dos dois beligerantes, as consequências do desfecho que ali viria a acontecer teria um significado simbólico maior do que as suas consequências reais. As pessoas tendem a esquecer que decorrerá cerca de um ano e meio de guerra na Rússia até a Alemanha perder esta batalha de Estalinegrado; mas que, depois disso, virão a decorrer ainda mais quase dois anos e meio até à Alemanha ser definitivamente vencida. Estalinegrado foi importante. Estalinegrado esteve muito longe de ser decisivo.

23 setembro 2022

A FRANÇA ADMITE OFICIALMENTE QUE O SEU IDIOMA PASSOU A SER MARGINAL

Independentemente do seu conteúdo, pelo seu simbolismo, esta entrevista dada pelo presidente Macron à CNN poderá ser considerada um marco histórico, apesar de não ter sido assim reconhecida pelos órgãos de comunicação social que adoram assinalar eventos históricos a esmo. Todavia, para aqueles, atentos, que acompanham desde há décadas a incansável batalha dos franceses pela preservação do estatuto internacional do seu idioma em paridade com o inglês, esta comparência do chefe de Estado francês, do sucessor do grande Charles, numa entrevista em que dialoga e se exprime fluentemente em inglês (outra coisa será apreciar o seu sotaque, mas não se pode pedir tudo ao mesmo tempo...), representará a concessão oficial por Paris da primazia do idioma inglês como instrumento de comunicação internacional. Até o próprio presidente francês a utiliza quando quer transmitir a um auditório mundial qual é a posição oficial do governo francês sobre o comportamento da Rússia!

AS CONSEQUÊNCIAS DE UMA GUERRA VÃO PARA ALÉM DO FIM DA MESMA

23 de Setembro de 1947. Mais de dois anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, as autoridades norte-americanas que ocupavam a Alemanha ainda se preocupavam em levar a tribunal aqueles alemães que se haviam excedido em tempo de guerra. Durante a guerra haviam-se cometido inúmeros excessos, de que a maioria deles era agora impossível remir, mas notava-se esta descriminação dos americanos quando a vítima fora um deles. No caso, a vítima fora um membro não identificado da tripulação de um B-17 que se despenhara na Alemanha durante uma missão de bombardeamento a 17 de Março de 1945 - pouco mais de mês e meio antes do fim da guerra. Ao contrário do que a notícia informa, o condenado, Heinrich Franke, não era propriamente um polícia, mas antes um cabo (scharführer) das SS. O tripulante do B-17 saltara de pára-quedas e fora capturado. Franke fora encarregue por um oficial das SS de o escoltar para um posto onde se recolhiam os prisioneiros aliados feitos naquelas mesmas circunstâncias e... não chegou lá. O prisioneiro apareceu executado com um tiro na nuca, alegando Franke que «ele tentara fugir». Depois do fim da guerra, Heinrich Franke refugiara-se na zona francesa de ocupação da Alemanha para tentar fugir à justiça americana, mas, para mais como antigo membro do partido nazi, ele era um exemplar bom demais para que não se fizesse dele um exemplo dos castigos impostos aos que haviam servido o III Reich com demasiado zelo: a sentença foi levada até ao fim e ele foi enforcado a 29 de Outubro de 1948 na prisão de Landsberg.

DESCOBERTA... OU TALVEZ NÃO

Do ponto de vista astronómico, a descoberta de «bolhas de gás quente a orbitar a grande velocidade à volta de buracos negros» é muito bem capaz de ser a novidade que merece o destaque da notícia acima. Contudo, e se se atender à redacção dada à notícia, há que reconhecer que, de um ponto de vista biológico, aquelas mesmas «bolhas de gás quente a orbitar a grande velocidade à volta de buracos negros», poderão ser também uma descrição científica (e imaginativa) dos peidos. O jornalista Guilherme Gonçalves não terá pensado nestes últimos, apenas terá pensado no gás quente, mas não se devia ter descuidado, porque a imaginação popular é tão infinita quanto a densidade da matéria nos buracos negros a que ele se estava originalmente a referir.

22 setembro 2022

O AVIÃO QUE NADA SOFREU

22 de Setembro de 1952. Por esta vez, convido o leitor a não prestar grande atenção ao que aconteceu, e a concentrar-se no formato como o acontecimento é narrado. Hipoteticamente, o jornalista que a escreve poderia ter destacado a tragédia da morte das quatro pessoas («três mulheres e um homem») que viajavam no «automóvel esmagado» em cima do qual aterrou o «avião de transporte militar», presumindo-se, embora o texto também não seja explícito quanto a isso, que a aterragem tenha sido um acidente porque feita de emergência. Mas não. O destaque do título vai para os estragos materiais, o «automóvel esmagado» e, em contraste, «o avião que nada sofreu». É uma felicidade, contrapor assim a ausência de sofrimento do avião com as quatro pessoas que morreram - sem sofrerem muito, deseja-se... Quanto ao conteúdo da notícia, os detalhes complementares sobre o acidente são os seguintes: tratava-se de um C-47 da USAF que operava a partir da base aérea de Truax Field em Madison, no Wisconsin. Nada se sabe sobre o que aconteceu aos pilotos e quem mais viajasse no avião. Como aconteceu com o material, presume-se que também não devem ter «sofrido nada».

21 setembro 2022

ELE COMEÇAVA A HAVER DIAS INTERNACIONAIS DE TANTA COISA...

...que a partir de 1982 se começou a assinalar a 21 de Setembro o Dia Internacional da Paz. Mal não faz. Rima e é verdade. Mas tudo isto acontece no dia em que o presidente russo ameaça recorrer a armamento nuclear. Parece-me (muito pouco) apropriado... 

20 setembro 2022

...QUEM PÔS LISBOA A ARDER

Esta súbita pulsão do novo ministro da Saúde para mostrar um «esforço de descentralização do governo» é uma daquelas notícias que se torna cómica, tal o desplante em evitar falar do elefante do meio da sala. Até apetece tomar o assunto pelo seu valor facial e perguntar ao ministro que locais estaria ele a considerar nesse «esforço de descentralização»? Coimbra? Faro? Funchal? Mas isso - confrontar os ministros com as consequências das suas declaração infelizes - não é para jornalistas, ficará guardado para o programa do Ricardo Araújo Pereira. O elefante de que o ministro Pizarro não quer falar, daí esta evolução descentralizadora súbita, num governo que já tomou posse vai para seis meses, sem que o assunto tivesse sido abordado previamente, terá sido a consequência de uma das condições colocadas pelo mister que vem revolucionar o SNS a partir do exemplo do Norte, Fernando Araújo. Fernando Araújo não é somente um nome que se fala para ocupar o cargo mítico de CEO-que-vai-salvar-o-SNS. É o nome da salvação, já que não se ouve mais nenhum. Sendo um homem do Norte, o seu nome é como aquele clássico slogan da pasta medicinal Couto (que também é do Norte): anda na boca de toda a gente. E, provavelmente por andar na boca de toda a gente, é que Fernando Araújo se sente com a capacidade negocial de não se dispor a vir para Lisboa se aceitar o cargo. Aquela minha metáfora do mister tripeiro cada vez se consolida mais.

OS CHARROS DO CASAL MCCARTNEY

20 de Setembro de 1972. O antigo beatle Paul McCartney e a sua mulher, Linda, são ambos detidos por algumas horas quando se descobriu numa das suas propriedades escocesas uma colecção de vasos, cujas plantas se vieram a revelar ser Cannabis. O casal McCartney veio a ser condenado por «cultura ilegal», sancionado com uma multa de 240 libras, enquanto Paul fazia a figura de ingénuo para a televisão que as imagens abaixo mostram, contando, sem se rir, uma história inverosímil: que um admirador lhe tinha dado as sementes que ele depois plantara sem saber o que dali germinaria... Era tão patusco que nem era sequer para fingir que se acreditava. Na verdade, no ano anterior já Paul fora multado na Suécia por ter sido apanhado com uns charros. Depois desta, voltaria a ser detido em 1975 na Califórnia, Estados Unidos, precisamente pela mesma razão, em 1980 aconteceria no aeroporto de Tóquio, Japão, após lhe revistarem a bagagem, e em 1984 seria na ilha caribenha de Barbados. Nestas duas últimas vezes, algemaram-no e tudo. Sabendo isso tudo, esta (pretensa) contrição de Paul diante das câmaras de TV tem toda uma outra piada...

19 setembro 2022

ELEGÂNCIA CONCISA E HONESTA

O antigo presidente norte-americano, Bill Clinton, durante uma entrevista que ele deu ontem ao canal CNN, foi de uma elegância concisa quando questionado sobre o antigo procurador Kenneth Starr, que faleceu recentemente, e que se havia celebrizado pelo dito Escândalo Lewinsky, desencadeado por um perjúrio do próprio presidente Clinton em 1998, quando, investigado inicialmente por eventuais irregularidades completamente diferentes, acabara questionado a respeito das suas actividades sexuais com uma estagiária da Casa Branca. Essencialmente e a respeito do falecido, Clinton limitou-se a responder que «havia lido o obituário (de Starr), e que se apercebera o quanto a sua (dele) família o amava, o que é sempre qualquer coisa pela qual se deve estar grato. Quando a vida de alguém acaba, é o que há para dizer», rematou. Seco e sincero. Mas elegante. De nada interessaria mostrar os escândalos e as contradições do resto da carreira do defunto. Quem se houvesse interessado pela sua consistência moral, conheceria o percurso posterior de Starr, que viria a passar ainda, com um requinte patético, por integrar a equipa de defesa de Donald Trump no processo de impeachment equivalente ao que ele desencadeara contra Bill Clinton! (Em suma, quanto menos se disser sobre a verticalidade ética de Starr, tanto melhor...) Nestes tempos em que há tanta gente a dizer coisas, com total falta de estilo e sem qualquer preocupação com a própria coerência, há que fazer estas notas assinalando devidamente estes episódios de concisão elegante... e honesta. Tornaram-se raros!

OPERAÇÃO DÂMOCLES

19 de Setembro de 1962. De Munique transcreve-se uma estranha notícia do desaparecimento de dois cientistas alemães (Heinz Krug e Wolfgang Pilz) que estariam associados a projectos para a construção de foguetões de grande porte - derivados da V-2 - para o Egipto. A notícia é dominada pelo que não se sabe - nomeadamente o paradeiro dos desaparecidos e de quem os teria raptado - mas também pela economia na especulação sobre a identidade de quem seriam os principais suspeitos. Afinal, «qualquer país adversário da República Árabe Unida» (como então o Egipto era conhecido), a fórmula encontrada pelo Diário de Lisboa para indiciar os suspeitos, era uma maneira rebuscada e perifrástica de nomear Israel. De facto, este episódio de há sessenta anos, seria apenas um, talvez o primeiro, de tantos outros desencadeados pela Mossad (serviços secretos israelitas), envolvendo raptos e assassinatos (como o de Krug), o envio de encomendas armadilhadas (como acontecerá com Pilz) ou então a intimidação de familiares próximos (como acontecerá com uma filha de um especialista em electrónica chamado Paul-Jens Goercke. Não se sabia então, mas o conjunto de acções foi baptizado em Telavive por Operação Dâmocles, do nome do cortesão grego que experimentou os perigos do exercício do poder com uma espada pendurada por uma crina de cavalo sobre a sua cabeça. Assim era a ameaça que pendia sobre os antigos cientistas do III Reich que estavam a ajudar o Egipto. Contudo, não só certas acções correram mal como, sobretudo, irritaram a Alemanha Ocidental com quem Israel não estava nada interessado naquela altura em dar-se mal: acabara de ser assinado um tratado sobre indemnizações da Alemanha a Israel por causa do Holocausto. Assim, depois de serem incensados pelo rapto e posterior julgamento de Adolf Eichmann, os responsáveis da Mossad vieram a ser demitidos em Março de 1963 pela deficiência de análise e pela inoportunidade da Operação Dâmocles. Coincidência ou não, o pagamento das indemnizações alemãs a Israel só começou a partir daí.

18 setembro 2022

MARCELO A MEIA HASTE

Se vemos hoje a bandeira do palácio de Belém a meia haste é por duas razões, como se apressaria a explicar o inquilino Marcelo Rebelo de Sousa: a primeira é porque a rainha Isabel II morreu e foi decretado luto nacional; a segunda razão é porque a Cristina Ferreira não pode ir ao funeral da rainha. O Marcelo vai ao funeral, eles dão-se tão bem, e por isso ele terá muita pena que ela não possa ir também. Mas, como a própria Cristina reconhece: «...gostava de estar presente no momento e sentir a energia do povo na despedida à rainha mas é o que é. Está o Big Brother primeiro.» Não se sabe se Marcelo Rebelo de Sousa terá telefonado desta vez para Cristina Ferreira... Em directo, como da outra vez, não.

HÁ OITENTA ANOS A ALDRABAR OS CARECAS!

Apesar de naquela altura estar a decorrer uma guerra mundial, isso não queria dizer que não houvesse preocupações com outras questões mais pacíficas. Como a recuperação do cabelo que caíra aos carecas. O Diário de Lisboa anunciava um produto denominado Silvikrine que «fertilizava (sic) o couro cabeludo» e quantificava os resultados que se obtinham: «um aumento de 35% no crescimento dos cabelos». Faz lembrar o António Costa, os números da inflação e os aumentos prometidos por ele para a combater. O dinheiro vai regressar proporcionalmente à carteira dos portugueses como renasceriam os cabelos dos carecas...

COMO SE PASSA RAPIDAMENTE DE «UMA CRISE NAS URGÊNCIAS» PARA «UM DOS MELHORES MOMENTOS DA SAÚDE EM PORTUGAL»

Bastou a anterior titular da pasta, Marta Temido, apresentar a demissão para que, nestes últimos três fins-de-semana, as notícias enumerando os encerramentos das urgências de obstetrícia pelos diversos hospitais de todo o país, tenham perdido a proeminência noticiosa de que haviam beneficiado «nos últimos meses», para não dizer mesmo que aquele género de notícias - os hospitais X, Y e Z têm as urgências de ginecologia encerradas - essas notícias desapareceram abruptamente de todo. Contudo, os operadores do SNS e os utentes que têm de recorrer àqueles serviços sabem que aquelas situações se continuam a verificar. Apenas deixaram de ser noticiadas. Mas a hora noticiosa é agora de mostrar satisfação. Como se lia num patético artigo plantado no Expresso de ontem, em substituição do elenco de serviços de obstetrícia que estariam fechados durante o fim de semana, «Marcelo (está) satisfeito com mudanças na Saúde» e o antecessor de Marta Temido (Adalberto Campos Fernandes) é citado dizendo que «Estamos a viver um dos melhores momentos da saúde em Portugal». Pelos vistos, o antigo ministro não saberá consultar o site informativo posto à disposição dos utentes pela DGS, site informativo esse que nos dá conta que, por exemplo, o bloco de partos do hospital do Barreiro/Montijo está encerrado hoje entre as 09H00 e as 21H00. Se o assunto fosse para ser tratado de boa fé, seria um pormenor. Mas, como já se percebeu que não é, para mim este encerramento daria para mais um cabeçalho a matraquear a opinião pública com «as falhas e fragilidades do Serviço Nacional de Saúde» (sic)... Não me digam que elas se resolveram em menos de três semanas!?

O 75º ANIVERSÁRIO DA CIA

18 de Setembro de 1947. O National Security Act promove uma vasta reorganização dos órgãos de defesa e segurança norte-americanos, nomeadamente a fusão dos Departamentos da Guerra e da Marinha num só, o da Defesa, a criação da Força Aérea como um ramo independente nas forças armadas, a criação de um Conselho de Segurança Nacional para assessorar o presidente nestes assuntos e, last but not least, a criação da Central Intelligence Agency (a famosa CIA). É difícil pensar que a CIA só tem 75 anos e que a incontestada supremacia mundial dos Estados Unidos pouco mais tem do que isso.

17 setembro 2022

«ESTA É A DITOSA PÁTRIA MINHA AMADA»

Há que concordar que uma expressão da nossa nacionalidade se pode condensar numa fotografia feliz de uma travessa de cozido à portuguesa, a destacar os pedaços gulosos de farinheira, chouriço preto e orelheira, enquanto lá para o fundo a travessa de arroz e o jarro de vinho tinto compõem discretamente o conjunto. Não sei se já havia cozido à portuguesa no século XVI, mas o famoso verso de Camões pode muito bem ser vertido para legenda desta fotografia. Uma visão de uma travessa destas em qualquer parte do Mundo funciona como um estandarte nacional.

16 setembro 2022

PARA QUANDO UM ARTIGO DESTES CONTENDO TAMBÉM OS ENTREVISTADOS QUE NÃO FAZEM A MÍNIMA IDEIA QUEM SÃO OS NOVOS SECRETÁRIOS DE ESTADO?

É que me parece tão importante informar o público sobre o que se consegue saber sobre os novos nomeados, como informar o mesmo público que eles são grandes desconhecidos, como acontece aliás normalmente com os secretários de Estado de um governo. O único aspecto que, para mim, vale a pena destacar é que o secretário de Estado não é do Porto, ao contrário da secretária, do ministro e do prometido futuro CEO do SNS. O mouro (alentejano) está ali a destoar, carago!

A AUSÊNCIA RELEVANTE DE CRISTINA FERREIRA

Uma ausência significativa. Só mesmo um pretexto destes poderia contrariar o meu completo desinteresse pelo funeral de Isabel II: a notícia da ausência de Cristina Ferreira das cerimónias. Devanear não faz mal, mas perder a noção do ridículo é ridículo. Daquele género de ridículo que nos faz ter vergonha pelos outros.

CONTRA O RACISMO, QUEIJADAS FINAS DE SINTRA

15 setembro 2022

ERA EM SETEMBRO...

Embora actualmente a época balnear já se possa prolongar até ao dia 31 de Outubro, a minha referência de fim de Verão permanecerá para sempre este dia 15 de Setembro, quando os concessionários começavam a retirar os toldos, os bares da praia começavam a funcionar em serviços mínimos, as carreiras dos barcos para as ilhas mudavam para o horário de Inverno. E, talvez paradoxalmente, a minha voz preferida para esse estado de espírito de fim de feira é a de Gilbert Bécaud…

A «SINTONIA» ENTRE GOVERNO E OPOSIÇÃO JÁ NÃO É OBRIGATORIAMENTE O FIM DA HISTÓRIA

Antigamente, uma situação de sintonia de opinião entre o governo e a oposição correspondia ao fim da discussão do problema. Neste caso da tributação suplementar das empresas de energia, se Medina e Montenegro se mostram de acordo, não se discutiria mais e quem tivesse outra opinião restar-lhe-ia o protesto de ver o assunto a desaparecer mediaticamente, como por milagre. Só que agora deixou de ser assim. A nossa autonomia política passou a ser condicionada pelo que se pensa em Bruxelas. Dessa forma o assunto incómodo já não pode ser varrido discretamente para debaixo do tapete, porque PS e PSD se vêem confrontados com uma terceira força que também sabe operar muito bem a comunicação social. E a grande ironia é que esta capacidade de interferência de Bruxelas na política portuguesa, esta perda de soberania, foi concedida precisamente por um desses consensos entre governo e oposição, sem que tivesse havido uma verdadeira discussão do problema e um processo eleitoral de legitimação - um referendo. E assim se conclui que a responsabilidade desta triangulação é das próprias direcções políticas que mais se vêem lesadas por ela. Deve ser chato concordarem em alguma coisa para vir depois alguém de Bruxelas estragar-lhes o arranjinho, sem precisar de falar-lhes directamente. Habituem-se, como recomendava o António Vitorino aos jornalistas, só que agora devolvido à precedência e aos dirigentes políticos.

14 setembro 2022

AS FÉRIAS: OUTROS TEMPOS, OUTROS COSTUMES... OU TALVEZ NÃO

14 de Setembro de 1922. Há cem anos, era só agora, meados de Setembro e quando quase todos vieram ou estão para vir de férias, que o Parlamento encerrava os seus trabalhos, para os reabrir dali por mais de um mês. O membros do governo aproveitavam a mesma ocasião para também descansarem. Entretanto, para quem já se tenha esquecido de como era o ambiente político português em Setembro de 1922, o presidente da República também gozava as suas férias mais prolongadas num cruzeiro num paquete que tardava em chegar ao Brasil devido às sucessivas avarias. A cerimónia do centenário da independência brasileira decorrera a 7 de Setembro e uma semana depois ainda o navio se arrastava pelo Atlântico. Este mesmo dia 14 de Setembro assiste a uma das cenas mais embaraçosas a respeito do escândalo, quando o navio presidencial português (o Porto), que ainda ia para as cerimónias, se cruza com o «cruzador» (couraçado!) norte-americano Maryland, que já trazia a delegação norte-americana que estivera presente nessas mesmas cerimónias... O artigo do enviado especial do Diário de Lisboa, Norberto de Araújo, limitando-se a descrever, sem analisar o significado, do que acontecera, é uma demonstração de como a cumplicidade do jornalismo com a política é antiga. Não ia ser pela imprensa que os portugueses se aperceberiam do fiasco que fora aquela visita presidencial ao Brasil...

13 setembro 2022

ATÉ OS COMEMOS, CARAGO! - O MISTER TRIPEIRO

Depois de uma campanha descarada para que ocupasse a pasta da Saúde que não terá convencido António Costa, o mais apropriado que se pode dizer é que a Fernando Araújo, ao não lhe ter saído a taluda, saiu-lhe ao menos a aproximação, com esta sua nomeação para o novo cargo de CEO do SNS (Expresso). Mas tenho a impressão que Fernando Araújo anda com azar com o modo como anda a ser promovido. Se a campanha para ministro foi o descaramento que o encadeado de títulos da esquerda demonstra, António Costa ontem fez-lhe a descortesia de o apresentar com o primarismo de presidente de clube de futebol, com Fernando Araújo a ser uma espécie de novo mister em quem o clube deposita as suas esperanças para esta época 2022/23 que agora arrancou. «Não tenho dúvidas nenhumas que Lisboa tem muito a aprender com o Porto, nomeadamente em relação ao funcionamento das urgências, tem muito a aprender com o Porto». Só que neste caso, em vez do mister ser estrangeiro, o mister é tripeiro, tal como tripeiro é também o novo director do departamento de futebol, o ministro Manuel Pizarro. Mas a simplicidade primária do discurso de António Costa visa mais fundo do que concorrer com qualquer programa de paineleiros da CMTV. Ao simplificar os problemas das urgências a questões que se resolvem no Porto mas não em Lisboa, o que o primeiro-ministro fez foi considerar implicitamente que as causas dos problemas nada terão de estrutural e da competência do governo, trata-se de problemas de gestão. Seria como se fossem novos métodos de treino e novas tácticas de jogo que os do Porto dominam e que os de Lisboa «têm muito que aprender». Não há nada a criticar nas políticas governamentais e nos pedidos para reforçar o plantel, como também não há nada a comentar sobre a formação de jogadores das camadas jovens. Segundo se depreende do diagnóstico de António Costa, grassa a incompetência em Lisboa, os jogadores têm que se aplicar mais. Honestamente, parece-me uma explicação inverosímil, mas também há que dar oportunidade a Fernando Araújo. Afinal, ele há sempre o exemplo recente de Jorge Jesus que chegou ao Brasil e demonstrou aos brasileiros arrogantes, com resultados, que eles não percebiam nada de futebol.

PS - A rematar isto tudo, e brilhando o tópico pela ausência, que é que é feito da nomeação dos secretários de Estado da Saúde que deveriam acompanhar Manuel Pizarro? (Enquanto terminava este texto fiquei de sobreaviso com a advertência noticiada por outros jornais que não o Expresso acima, que, afinal, «Fernando Araújo ainda não aceitou qualquer cargo».)

A EMIGRAÇÃO CLANDESTINA PARA FRANÇA

Esta notícia de 13 de Setembro de 1962 dá uma excelente imagem da marginalidade como então se queria apresentar o fenómeno da emigração clandestina para França. A 29 de Junho daquele ano, o governo português até produzira um par de decretos (44.427 e 44.428) a definirem as bases do regime emigratório e a estabeleceram as normas do condicionamento emigratório em Portugal mas, apesar da actuação da PIDE, a realidade tornara aqueles documentos letra morta mesmo acabados de promulgar. Ainda hoje, os números que se possam dar sobre a emigração para a Europa naqueles anos da década de 60 não passam de estimativas esforçadas. O artigo descreve, em formato condenatório, a (curta) odisseia de 16 potenciais emigrantes e de mais 4 choferes de praça em outros tantos carros (todos identificados metodicamente por nome, idade e residência, o que torna o artigo extenso e enfadonho), todos oriundos da região de Cabeceiras de Basto (Braga), que foram interceptados à saída de Portugal por um agente da PIDE, quando se preparavam para realizar a viagem até França (cinco por carro!), viagem essa pela qual haviam pago entre 8 a 9 contos (cerca de 4 mil euros actualmente). Na notícia, a culpa vem a recair toda no promotor, «um comerciante sem escrúpulos», que recebera uma data de dinheiro («134 contos») e que agora andava «fugido» (à PIDE). A clarividência de conhecer o futuro faz-nos perceber claramente que notícias destas não vão ter qualquer impacto dissuasor na emigração clandestina.

12 setembro 2022

A CRÍTICA E OS CRÍTICOS QUE NÃO SE ENXERGAM ou O SOBRINHO CONDESCENDENTE E AMNÉSICO

Há críticas que, sendo justas, se tornam insuportáveis considerando aquilo que sabemos de quem as faz. É o caso crasso desta crítica acima ao carácter hiperdinâmico da presidência de Marcelo Rebelo de Sousa e às suas viagens ao exterior. Um actividade francamente excessiva como é evidenciada pela lista anexa. A crítica é justíssima: 110 viagens até agora. O problema é quem eu vejo a promovê-la no facebook: Alfredo Barroso. Conhecido por ser o sobrinho do tio. E o tio era Mário Soares e este seu sobrinho notabilizou-se por ser um contínuo apêndice do seu círculo político próximo. Nos seus tempos de presidente entre 1996 e 2006, essa apendicite crónica consubstanciava-se no cargo formal de chefe da Casa Civil do presidente da Republica. Que, por acaso, era tio dele (não há mais nenhum caso de um parente próximo de um presidente em funções dessa responsabilidade - a este género de abuso chama-se nepotismo). Enfim, reconheça-se que um tal cargo confere a Alfredo Barroso a sua quota-parte de co-responsabilidade naquilo que caracterizou os dez anos da presidência do seu tio. E a presidência do tio caracterizou-se precisamente pela mesma crítica que vemos Alfredo Barroso a assacar agora ao actual presidente: o uso e abuso das viagens ao estrangeiro. Claro que já houve quem tivesse feito e publicado uma compilação metódica de todas as viagens de Mário Soares. E claro que apetece arrumá-las de uma mesma forma, para as chapar nas trombas do sobrinho. Pelo mesmo critério, Mário Soares realizou 152 viagens* (Marcelo ainda vai nas 110). Entre os destinos preferidos de Mário Soares, 25 viagens a Espanha (contra 16 de Marcelo), 21 a França (12), 8 a Itália (5), 7 aos Estados Unidos (8) e à Alemanha (2) e ainda 6 ao Brasil (7).
Tão boas como as danças africanas que celebrizaram Marcelo em Moçambique (e que António Costa procurou recentemente emular), também Mário Soares trouxe das suas 152 viagens ao estrangeiro imagens impressionantes (embora menos dançarinas...), como será o caso desta passeata às costas de uma tartaruga gigante nas ilhas Seychelles que aqui escolho para ilustrar e recordar o exotismo de tal profusão de viagens. E a pergunta que se impõe será: o que é que fez o chefe da Casa Civil de Mário Soares para obstar a uma tal exibição? Ou será o sobrinho a achar que aquilo que era natural no tio é só criticável quando é feito pelos seus sucessores? Aparentemente, Alfredo Barroso, ao manifestar-se a respeito do assunto sem mais, considerará que pessoalmente não necessita de se pronunciar sobre a contradição em que incorre, contradição que, como estamos a ver, é enorme. Para mais, quando uma consequência das deambulações do tio Mário pelo Mundo torna ainda mais evidente o ridículo da crítica que o sobrinho Alfredo faz a Marcelo. Na lista de condecorações recebidas por Alfredo Barroso (constam da sua página da wikipedia), 21 da 22 condecorações que lhe foram concedidas foram-no por governos estrangeiros (abaixo). Ou admitimos que todo este reconhecimento que lhe manifestaram se deverá à reputação mundial alcançada pelo «cronista, jornalista, ex-deputado e ex-secretário de Estado» (sic) Alfredo Barroso (uma ilusão), ou então aceitamos que o mais provável é que toda esta parafernália de Grã-Cruzes (concedidas por países tão díspares e improváveis quanto o Senegal, Chipre, Equador ou a Tunísia) lhe foram concedidas por cortesia quando acompanhava o tio naquelas suas voltas pelo Mundo fora... As mesmas voltas que agora o vemos a criticar a Marcelo... Embora nunca tenha sido capaz disso, Barroso devia enxergar-se. E deixar as críticas a Marcelo Rebelo de Sousa para quem não tenha "telhados de vidro" tão fininhos quanto os dele.
* E mais precisamente: 1 viagem (Angola, Argentina, Áustria, Bulgária, China, Colômbia, Coreia do Norte, Dinamarca, Equador, Egipto, Filipinas, Grécia, Hungria, Índia, Irlanda, Islândia, Israel, Letónia, Luxemburgo, Malta, México, Noruega, Países Baixos, Palestina, Paquistão, Polónia, Seychelles, Suécia, Tunísia, Uruguai, Venezuela e Zaire); 2 viagens (Cabo Verde, Chile, Costa do Marfim, Checoslováquia, Guiné Bissau, Hong Kong, Marrocos, Moçambique, Rússia, São Tomé e Príncipe e Turquia); 3 viagens (África do Sul); 4 viagens (Japão, Macau, Reino Unido e Suíça); 5 viagens (Bélgica); 6 viagens (Brasil); 7 viagens (Alemanha e Estados Unidos); 8 viagens (Itália); 21 viagens (França); 25 viagens (Espanha).

...ESTE FICOU COM O NÚMERO 1509

A prática de destacar o número prisional de um detido para realçar a sua submissão forçada perante a lei é prática antiga e bastante difundida. O senhor da fotografia acima foi colocado decerto num estabelecimento prisional bastante maior que o de Évora, para ter recebido um número assim tão elevado em vez do 44 de José Sócrates. Chama-se Abimael Guzman (1934-...), era peruano e havia sido, até alguns dias antes de a fotografia ter sido tirada, o líder incontestado de um movimento guerrilheiro de inspiração maoista designado por Sendero Luminoso (Caminho Luminoso). A personalidade de Guzman, muito cultivada como costuma acontecer em qualquer organização genuinamente maoista e que se fazia tratar deferentemente por presidente Gonzalo, pode ser comparada pela ambição, pela brutalidade e pela discricionariedade de como exercia o poder ao angolano Jonas Savimbi da UNITA, mas também pela arrogância e pelo estardalhaço da sua retórica aos nossos estimados camaradas Arnaldo Matos e Garcia Pereira do nosso MRPP. O problema é que, para lá da retórica, os membros do Sendero Luminoso comportavam-se para com as populações das regiões que pretendiam libertar de uma forma tão ou mais repressiva do que os agentes do governo peruano que combatiam. A popularidade do presidente Gonzalo não seria particularmente elevada entre os peruanos quando, em 12 de Setembro de 1992, ele foi capturado escondido num apartamento de um bairro de classe alta dos arredores de Lima. E a fotografia acima, encenada pouco mais de uma semana depois numa conferência de imprensa, destinava-se a diminuir ainda mais essa popularidade, exibindo um presidente num fato riscado de presidiário, atrás de grades, gordo, de óculos e barba e sofrendo de psoríase, uma doença de pele que contribuíra para a sua captura (tubos de pomada vazios encontrados no caixote do lixo aumentaram as suspeitas dos vigilantes de que Guzman – que se sabia sofrer dessa doença – ali se escondia). A raiva do detido não consegue camuflar a humilhação pública de quem fora, até aí, incensado pelos seus seguidores como a Quarta Espada do Marxismo...
Completam-se hoje precisamente trinta anos dessa captura de Abimael Guzman, falecido há um ano, ainda na prisão. Os anos que ali passou tê-lo-ão feito perder alguma raiva, perder toda a barba e perder bastante peso. Quando regressou ao tribunal para novos julgamentos por outros crimes pelos quais fora considerado responsável, até parecia um velhote simpático (a fotografia abaixo é de 2013), algo alheado do que o rodeava, como acontecera com Adolf Eichmann em Telavive. Uma outra imagem que, ao contrário da inicial, nos suscitava a questão se ele teria sido mesmo capaz de ter sido responsável por tudo aquilo de que era acusado. Segundo os melhores cálculos, a insurreição no Peru terá custado a vida a um total de 70.000 pessoas (entre mortos e desaparecidos); segundo outros cálculos, esses mais contestados pelo governo, pela igreja e pelos militares, atribui-se a responsabilidade de ½ das vítimas à guerrilha e ⅓ delas ao governo. De toda a maneira, uma estimativa de 35.000 mortos continua a ser absurda qualquer que seja a causa e qualquer que seja o grande timoneiro.

ROSA MOTA: A PRIMEIRA MEDALHA DE OURO PORTUGUESA NUMA GRANDE COMPETIÇÃO ATLÉTICA

As expectativas do dia anterior eram muito prudentes (uma «pequena alegria?»), mas Rosa Mota superou-as ao conquistar a 12 de Setembro de 1982 o título da maratona feminina no último dia dos campeonatos europeus de atletismo em Atenas. Não se sabia então, mas este foi apenas o primeiro de um conjunto de grandes títulos alcançados pela atleta naquela prova.

11 setembro 2022

LINGUAGEM CORPORAL

É uma prova de mediocridade do jornalismo televisivo que os seus operadores não consigam explorar noticiosamente as possibilidades oferecidas pelas imagens que transmitem. Tome-se este exemplo de ontem, de cerimónia de fim de tarde que assinalou a tomada de posse do novo ministro da Saúde (Manuel Pizarro) no palácio de Belém. Da reportagem transmitida pela RTP3, seleccionei estas duas imagens contrastantes - que, na reportagem são obviamente um filme - da forma como a ministra cessante (Marta Temido) acolheu os cumprimentos do presidente da República (acima) e do primeiro-ministro (abaixo). A diferença de linguagem corporal é óbvia nas fotografias, e é muito mais óbvia em vídeo. Embora não o tenha exprimido na ocasião, é, por mais este indício, lícito deduzir, como já aqui frisei, que a demissão da ministra não se terá processado no melhor dos termos e isso se terá reflectido na atitude para com António Costa. Contudo, parece-me que o assunto não terá seguimento político, apesar do folclore político promovido por aquele no Congresso do PS de Portimão ainda há um ano. Marta Temido anunciou que ocupará o seu lugar de deputada, mas antecipo que será apenas uma fase de transição, como aconteceu com inúmeros casos análogos ao dela. Mas, do ponto de vista noticioso e como se costuma dizer nestes casos: foi algo que esteve à vista de todos... menos dos jornalistas.

UMA TARDE DESPORTIVA INESQUECÍVEL - DE QUE HOJE JÁ NINGUÉM SE LEMBRA!

11 de Setembro de 1932. O Diário de Lisboa dedica quatro das suas oito páginas a uma reportagem ilustrada cobrindo a última etapa da 3ª Volta a Portugal em bicicleta, acontecimento que foi acompanhado por «cerca de vinte mil pessoas», escreve-se no jornal. O vencedor foi Alfredo Trindade e é a sua fotografia que preenche toda a primeira página do jornal, dispensando identificação, tal seria a sua popularidade. A rivalidade do vencedor com José Maria Nicolau constituiu um dos atractivos da prova. Dá para perceber a importância que atribuíram à época a esta tarde desportiva inesquecível... de que hoje ninguém se lembra!

10 setembro 2022

AQUELE SENTIDO DE HUMOR DOS BRITÂNICOS, QUE INFELIZMENTE NÓS NÃO TEMOS

Agora que Liz Truss se tornou primeira-ministra britânica, ainda para mais quando essa posse quase coincidiu com a morte da rainha Isabel II, houve alguém que, com todo aquele sentido de humor que os britânicos dão mostras, foi recuperar este seu discurso arrebatadamente anti-monárquico que fora proferido por ela em 1994. Entretanto passaram-se 28 anos e, provavelmente, Liz já deve ter mudado de opinião. O mesmo que aconteceu a uma maioria da nossa elite política quando confrontada com o que dizia nos tempos do PREC. O que é uma pena é que não haja, nem arquivos audiovisuais, nem o mesmo espírito de humor, para recordar aquilo que diziam então figuras gradas do regime, como era o caso do anterior presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, que militava no MES, Movimento da Esquerda Socialista, que defendia aquilo que se pode ler mais abaixo nos cabeçalhos do jornal da organização. Em defesa de Liz Truss, esclareça-se que ela tinha apenas 19 anos quando a ouvimos e vemos no vídeo acima tão empenhadamente anti-monárquica. Ferro Rodrigues já teria os seus 26 anos por ocasião das suas convicções contra as eleições e a democracia burguesa.
Cada vez que surgem as recorrentes controvérsias sobre os modos como se pode e deve celebrar a data de 25 de Novembro de 1975, convenço-me que um poderoso factor a considerar na relutância em assinalar a data, é a circunstância de que uma apreciável percentagem dos vultos da República esteve do lado errado da História naquele momento nuclear da consolidação do regime democrático português. A transumância de muitos deles para as convicções verdadeiramente democráticas só se veio a processar depois. É o caso acima de Eduardo Ferro Rodrigues. E é o caso do seu actual sucessor Augusto Santos Silva. Mas não é o caso do presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa. O que comprova que, sendo giro, não é obrigatório ter-se sido de extrema esquerda nos tempos do PREC. É apenas um embaraço quando apreciado a esta distância, para ser apreciado com fleuma... britânica.

O PENETRA DA MARATONA OLÍMPICA DE MUNIQUE (1972)

10 de Setembro de 1972. Ainda a pretexto dos Jogos Olímpicos de Munique, e mais precisamente da sua prova atlética mais simbólica, a da maratona, conta-se aqui o episódio da entrada no estádio de um falso vencedor. Houve um imaginativo estudante alemão chamado Norbert Südhaus que se equipou à maneira e aguardou que os atletas se aproximassem do final para entrar na corrida, dando a impressão ao entrar no estádio (acima), que era o atleta que liderava a prova e que a iria vencer. A multidão aclamou-o, como costuma acontecer nessas ocasiões, até os juízes de pista se aperceberem do erro e o retirarem da pista, o que transformou as aclamações numa assuada de idênticas proporções. É nesse preciso momento que o verdadeiro líder da corrida, o norte-americano Frank Shorter, entra por sua vez no estádio, e a fotografia abaixo mostra a sua reacção, entre o surpreendido e o inquieto, ao escutar uma enorme atitude hostil colectiva, cujas causas ele desconhecia e que lhe pareciam destinadas…

O AFUNDAMENTO DE UM NAVIO HOSPITAL ITALIANO

10 de Setembro de 1942. Aviões da RAF britânica afundam o navio hospital Arno quando este se dirigia para o porto líbio de Tobruque, com o intuito de evacuar soldados italianos que haviam sido feridos nos combates que então se travavam no Norte de África. De acordo com as convenções de guerra, e como assinalavam os italianos na notícia que depois difundiram (abaixo), o navio navegava iluminado, assinalando com grandes cruzes vermelhas a sua condição, seria difícil de confundir com um alvo militar, como se depreenderá pela fotografia acima, tirada também de um avião (amigo). O afundamento provocou a morte de 27 tripulantes. Os britânicos apressaram-se a justificá-lo, afirmando que a descodificação de uma mensagem de rádio alemã de 31 de Agosto tê-los-ia convencido que o navio também era usado para transportar suprimentos para Bengazi, em clara violação das convenções de guerra. Sem provas adicionais. O episódio perdeu-se, esquecido, no meio de tantos outros associados à campanha do Norte de África durante a Segunda Guerra Mundial. Uma certeza, porém. Se tivessem sido os italianos (ou os alemães) a afundar um navio hospital britânico (ou norte-americano), o episódio não teria sido assim esquecido da mesma forma.
Por curiosidade, refira-se que este mesmo navio hospital Arno afundado há 80 anos fora o tema central de um filme de propaganda de 1941 que se intitulara «La Nave Bianca». O realizador viria a celebrizar-se com outras obras posteriores: Roberto Rossellini

09 setembro 2022

A «FINTA» DE MARTA TEMIDO

Tudo isto que vou descrever é do domínio das aparências, mas o que é estranho é que, num mundo jornalístico em que as especulações são moeda corrente, há aquelas deduções que nos entram pelos olhos dentro e os jornalistas, estranhamente, nunca lá chegam. Ou são estúpidos, ou não há qualquer vantagem material em se mostrarem inteligentes ou ainda, e esta última não é incompatível com as duas anteriores, quando deduzem, resulta-lhes melhor deduzirem acompanhados. Neste processo da apresentação da demissão por Marta Temido em finais do mês passado, percebeu-se que o primeiro ministro António Costa havia amarrado por uma última vez a ex-ministra às conveniências do seu calendário, empurrando a nomeação do sucessor daquela pasta pelo menos por uma quinzena de dias: (Marta Temido) «...tinha neste momento em curso um conjunto de propostas importantes para robustecer o Serviço Nacional de Saúde...» era a treta da desculpa de Costa, e a apresentação dessas tais propostas seria a missão que a amarraria ao cargo, dando ao primeiro ministro a folga para uma nomeação de um novo titular para a pasta da Saúde, nomeação para a qual já começou uma campanha, por sinal, intensíssima. Lendo as notícias de ontem (acima), fica-se a saber que Marta Temido terá cumprido a sua parte do acordo, mas que entretanto fintou o primeiro-ministro, despachando o assunto numa semana: adeuzinho! Evidentemente que os spin doctors do gabinete de António Costa já se terão posto a correr atrás do prejuízo, anunciando a promessa da anunciação do nome de um novo ministro da Saúde antes do próximo fim de semana, mas o facto, inelutável, é que, num processo de comunicação bem gerido, ao anúncio da saída de Marta Temido se deveria seguir imediatamente o anúncio do nome do seu sucessor, para não deixar a bola bater no chão. O que é patente que não aconteceu. Estará António Costa com dificuldades em obter alguém que queira aceitar a pasta? Enfim, o que me parece seguro aceitar é que, no fim desta história, construída apenas a partir dos dados à vista, terá sido Marta Temido que, com toda a solidariedade política, deu a volta a António Costa e o deixou a falar sozinho. A ter sido, acho que foi bem feito!

PS - E quatro horas depois da publicação deste poste, torna-se notícia a nomeação de Manuel Pizarro para o cargo. A tomada de posse do novo ministro terá lugar no dia seguinte ao que escrevo, ao fim da tarde, em Belém. Ainda assim, e embora não se veja ninguém a comentá-lo, o esforço que foi feito para cobrir o buraco destapado pela saída previsível, mas abrupta, de Marta Temido é notório. Entre os despojos do incidente fica a derrota nítida de uma das facções da saúde do PS a que, mais uma vez, a comunicação social deu crédito e cobertura acriticamente (abaixo), abrindo as suas páginas à promoção do seu candidato à desgarrada, sem agora se penitenciar sequer do logro.

OS «PARAÍSOS SOCIALISTAS» NA IMPRENSA COMUNISTA PORTUGUESA

9 de Setembro de 1982. Os aniversários da Revolução Socialista na Bulgária e da fundação da República Popular Democrática da Coreia eram efemérides obrigatoriamente assinaladas nos jornais comunistas em Portugal e pretexto para a publicação de peças de propaganda completamente inverosímeis sobre aqueles países. Depois do colapso do comunismo em 1989, todos os supostos «avanços» que abaixo se descrevem se esfumaram porque não passavam de aldrabices. Em 2021 o rendimento per capita português foi o dobro do da Bulgária. Continua a não existir números fiáveis sobre a Coreia do Norte.

A GUERRA DO CHACO QUE COMEÇOU OU TALVEZ NÃO HÁ NOVENTA ANOS

A Guerra do Chaco, que envolveu a Bolívia e o Paraguai entre 1932 e 1935, evoluiu de forma tão progressiva que a doutrina se divide quanto à data a considerar para o início das hostilidades. As páginas da wikipedia em espanhol, inglês e francês escolhem este dia 9 de Setembro de 1932, enquanto as escritas em português, alemão e russo preferem o dia 15 de Junho. Em abono desta última versão, a constatação que na edição de há 90 anos do Diário de Lisboa não se assinalava nada de particular na situação permanente tensa daquela região da América do Sul (notícia abaixo, à esquerda). Mais, passar-se-iam mais três dias antes do jornal regressar dia 12 ao mesmo assunto, com notícias oriundas das duas capitais: Assunção (Paraguai) e La Paz (Bolívia), mas ainda sem mencionar expressamente alguma alteração substantiva no grau de conflitualidade entre os dois países. Mas também se pode tratar de um desinteresse pelo tópico, num momento em que haveria tantos outros assuntos interessantes na actualidade internacional. Quanto ao conflito propriamente dito, tive oportunidade de escrever em 2011 um pequeno texto a respeito dele.