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24 novembro 2019

A EXTINÇÃO DA PIDE E A CRIAÇÃO DA DGS

24 de Novembro de 1969. Com a publicação do Decreto-Lei nº 49 401, procede-se à extinção da PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado) e à criação da DGS (Direcção Geral de Segurança). Podia ter sido significativo mas não o foi. Um caso evidente em que se percebe que não se deve esperar que as modificações semânticas acabem por modificar a natureza das organizações.

18 novembro 2019

CEREJEIRA, O CARDEAL PATRIARCA

18 de Novembro de 1929. Quase a completar os 41 anos, Manuel Gonçalves Cerejeira (1888-1977) é nomeado patriarca de Lisboa. Demonstração da elevada consideração em que é tido no Vaticano, logo no mês seguinte é elevado à dignidade de cardeal pelo papa Pio XI (foto acima). Até 1946, e apesar das nomeações de Pio XI e de Pio XII, o cardeal português permaneceu o cardeal mais novo do colégio de cardeais. Durante o período de vigência do Estado Novo (1933-1974), as suas aparentes relações próximas com Salazar (abaixo) serviram, durante muito tempo, de demonstração de uma cumplicidade íntima entre a Igreja e o Estado. A investigação histórica de há uns dez anos para cá, tem, contudo, demonstrado que talvez não fosse bem assim, que os conflitos entre as duas partes foram muito bem dissimulados, naquele jeito que os príncipes da igreja tanto gostam.

11 novembro 2019

A «INSPIRAÇÃO» DA LEI DE IMPRENSA EM ESPANHA

A edição de há cinquenta anos do Diário de Lisboa incluía um desenvolvido artigo (pp. 3/4) a respeito da lei de imprensa que então vigorava em Espanha. O autor do texto era Adelino Amaro da Costa, que viria a ser vice-presidente do CDS dali por cinco anos, nessa altura ainda com 26 anos. A lei de imprensa espanhola, que fora aprovada três anos e meio antes, por proposta de Manuel Fraga Iribarne, era então tida como um embrião de abertura do regime (franquista), já que suspendera a censura prévia, a obrigatoriedade de apresentar as publicações antes da sua edição, como então ainda acontecia em Portugal. Mas «a abertura para a liberdade de expressão» (para recuperar a expressão empregue por um entusiasmado, mas ingénuo Adelino Amaro da Costa), já era muito pouco e muito tarde para salvar a reputação da abertura marcelista. O que não aparecia escrito no artigo era que o caminho que viera a ser trilhado em Espanha chegara a um beco sem saída: o próprio Manuel Fraga abandonara o governo duas semanas antes, e o diário «Madrid», cuja entrevista com o director serve de suporte ao entusiasmado artigo acima de Amaro da Costa, irá ser encerrado pelas autoridades espanholas dali por dois anos. Para jovens ambiciosos próximos da Opus Dei, como era o caso de Adelino Amaro da Costa, não era nada fácil preconizar reformas para os dois regimes monolíticos da península naqueles tempos - sobretudo porque as poucas que se tentavam implementar ou ficavam no papel ou retrocediam...

31 outubro 2019

A REMODELAÇÃO DO GOVERNO FASCISTA ITALIANO

31 de Outubro de 1939. O Mundo continuava em guerra, embora não se desse muito por isso. Esta edição acima do Diário de Lisboa de há oitenta anos esclarecia os seus leitores, em primeira página, sobre o que acontecera a respeito de operações militares terrestres: «Não se registaram quaisquer acontecimentos de importância». O que não impedia que uma coluna ocupando um quarto da página contivesse muitos outros acontecimentos relacionados com a guerra. Um deles era esta remodelação governamental ocorrida em Itália, uma Itália que, por aquela altura, ainda permanecia neutral. Não interessará ao leitor moderno saber quem entrara e quem saíra, mas surpreenderá porventura esse nosso leitor, saber que as mudanças eram interpretadas como contrárias à facção pró-alemã dentro do regime. A verdadeira história das relações entre o fascismo e o nazismo mostra que, para além das aproximações óbvias, também houve afastamentos subtis. No caso, ao demarcar-se de um dos lados em guerra, Benito Mussolini estaria provavelmente a pensar apresentar-se como mediador das facções beligerantes.

27 outubro 2019

DEVAGARINHO E SEM GRANDE EMOÇÃO...

(Também) 27 de Outubro de 1969. O jornal do dia seguinte ao das eleições legislativas que haviam decorrido em Portugal, as primeiras sob a égide do marcelismo, descrevia-as de uma forma gráfica, sem necessidade de explicações, neste quadro acima, publicado numa das páginas do interior do jornal (p. 10). O escrutínio prosseguia sob um entusiasmo mortiço, consubstanciado nos vários campos em branco do quadro, que a demora na publicação dos resultados oficiais dificilmente se explicaria pela carga de trabalho. Exemplos: houvera 90.702 votantes no primeiro distrito do quadro, Aveiro; serão 330.999 em Abril de 1975 (3,65 vezes mais); houvera 19.224 votantes no distrito seguinte, Beja, que se transformarão em 129.191 em Abril de 1975 (6,72 vezes mais); e assim sucessivamente. Mas o que retirara interesse jornalístico ao acto eleitoral era a ausência de disputa eleitoral e de emoção. Se a «vitória da oposição na Baixa da Banheira» se transformava numa notícia, era porque as eleições em geral não tinham tido interesse nenhum.

17 outubro 2019

AS TROPAS COMUNISTAS ESTAVAM A APROXIMAR-SE DE HONG-KONG... MAS NÃO DE MACAU

17 de Outubro de 1949. Esta edição de há 70 anos do Diário de Lisboa mostra como a interferência da Censura podia produzir efeitos caricatos. Comecemos por descrever a situação internacional: após terem proclamado a República Popular da China no dia 1 de Outubro, as tropas comunistas chinesas consumavam a vitória, ocupando as últimas cidades que ainda permaneciam sob controle dos nacionalistas. Naquele mesmo dia, por exemplo, isso acontecera com o importante porto costeiro de Xiamen. O enigma que pairava e de que o jornal se fazia eco, era sobre o comportamento que as autoridades comunistas chinesas iriam adoptar quando atingissem as duas cidades do Sul da China que eram possessões ocidentais: Hong-Kong, britânica, e Macau, portuguesa. Este artigo do Diário de Lisboa conseguia a proeza de exprimir a preocupação das autoridades britânicas de Hong-Kong «perante o avanço das tropas comunistas na China», desenvolver o assunto incluindo o que «se pensa em Londres» e «a atitude dos Estados Unidos» e nem por uma vez fazer referência ao que as autoridades portuguesas (locais e em Lisboa) poderiam pensar do mesmo assunto, considerando a pertinência de que a colónia portuguesa de Macau dista uns meros 60 Km de Hong-Kong. É verdade que o desfecho do problema estava muito para além da nossa capacidade de intervenção, mas a atitude de fingir que não era nada connosco afigurava-se completamente ridícula.

20 setembro 2019

OS CANDIDATOS DA C.E.U.D. PELO DISTRITO DE LISBOA

20 de Setembro de 1969. A edição desse dia do Diário de Lisboa publica nas suas páginas centrais a identificação dos doze candidatos que se irão apresentar em Lisboa às próximas eleições legislativas pela lista da Comissão Eleitoral de Unidade Democrática (CEUD). Já aqui frisámos quanto as simpatias daquele jornal eram indisfarçáveis a favor das candidaturas oposicionistas. Passe a coincidência irónica de, ainda há dois dias, aqui termos falado duma ausência de preocupação da imprensa actual com a (ausência) da publicidade dada às listas com a identidade dos candidatos para as eleições de 2019 (terá mudado bastante o estilo da informação nestes 50 anos!...), vale a pena referir que entre os membros dessa lista da CEUD aparecem vários nomes que irão dar muito que falar deles a partir de 25 de Abril de 1974: pela ordem em que são apresentados, destacam-se os nomes de Francisco Sousa Tavares, Jaime Gama, Raul Rêgo, Gonçalo Ribeiro Telles, Francisco Salgado Zenha e Mário Soares. Para quem tenha estranhado, e ao contrário do que acontece actualmente, em que o número de deputados é repartido proporcionalmente ao número de votos recebidos por cada lista começando pelos que primeiro se apresentam, em 1969 vigorava o sistema de que a lista vencedora elegia todos os deputados. A ordem pela qual os candidatos se apresentavam era irrelevante e é por isso que vamos encontrar Mário Soares colocado num discreto e cavalheiresco último lugar.

09 setembro 2019

«TIRAR A BARRIGA DE MISÉRIAS»

Páginas centrais da edição de 9 de Setembro de 1969 do Diário de Lisboa. Aproveitamento o relaxe da censura induzido pelos preparativos para as próximas eleições legislativas de 26 de Outubro, o vespertino lisboeta não esconde para onde vão as suas simpatias. A área colorida a amarelo são as notícias referentes às actividades da oposição, a pequena área sombreada a azul claro é a notícia que fala das actividades da União Nacional. Seria um momento de desforra para os jornalistas mas, para quem levasse as aparências a sério, até parecia que a oposição corria o risco de alcançar uma vitória esmagadora nas urnas! Cinquenta anos depois, ele há coisas que parece que não mudaram: a imprensa entusiasma-se a si mesma... e arrasta os leitores crédulos atrás de si.

06 setembro 2019

OS ESCÂNDALOS DE HÁ CINQUENTA ANOS QUE HOJE DEIXAM DE SER ESCANDALOSOS

6 de Setembro de 1969. O jornal francês L'Aurore publicava uma entrevista com Salazar onde o grande destaque era a revelação que o entrevistado - incapacitado desde há um ano por causa de um AVC que ocorrera na sequência de uma cirurgia - estava convencido de que ainda era o presidente do Conselho e que continuava a governar Portugal. Aos olhos do Mundo, a ditadura portuguesa aparecia exposta de uma forma caricata, os próximos do ditador aconchegando-o numa mise-en-scène de uma realidade virtual. Consequentemente, a repercussão da entrevista foi abafada pela censura, que cortou qualquer referência a ela na comunicação social em Portugal. Compreende-se: há cinquenta anos, ver-se um ex-ditador totalmente iludido na sua senilidade constituía um escândalo. Hoje, com o padrão de ilusões do discurso político que foi estabelecido nestes últimos anos por Donald Trump, tenho quase a certeza que já não o seria.

23 agosto 2019

A DEFECÇÃO DA ROMÉNIA

23 de Agosto de 1944. Numa típica manobra de camarilha de corte, o ditador romeno Ion Antonescu (1882-1946) é preso depois de ter sido convocado para uma audiência com o rei Miguel I (1921-2017). A intriga é uma repetição quase integral do que acontecera no Verão do ano anterior em Itália com Mussolini e o rei Vítor Manuel III. A grande diferença é o ritmo a que os acontecimentos se precipitaram depois da deposição de Antonescu, todas aquelas vénias e mesuras que perduraram por mais de um mês entre a Itália prestes a desertar e a sua aliada Alemanha, no caso da Roménia duraram... um dia. Do Verão de 1943 para o de 1944, a posição estratégica global da Alemanha degradara-se tanto que o menor dos problemas seria o de acautelar a provável reacção encrespada de Adolf Hitler.
Estas monarquias balcânicas e mediterrânicas haviam aceitado aquelas figuras ditatoriais enquanto elas haviam sido benéficas para o prestígio próprio e do país, mas agora constatavam que a aposta se viera a revelar a errada com a chegada dos reversos da guerra: como a Itália em 1943 o fora pelos Aliados, também a Roménia se via agora na contingência de ser invadida, pelos soviéticos. Como previsto, as irritações de Hitler, que mandou a Luftwaffe bombardear o palácio real em Bucareste, trouxeram a indignação popular e a consistência moral a uma manobra diplomática duvidosa. Na sua alocução radiofónica ao povo romeno, em que anunciava a assinatura de um armistício com os Aliados (na realidade, só os soviéticos é que tinham importância...), o rei Miguel I anunciava:

Romenos,
Na hora mais difícil de nossa história, considerei, em total concordância com o meu povo, que há apenas um caminho para salvar o país de uma catástrofe total: a nossa saída da aliança com as potências do Eixo e o fim imediato da guerra com as Nações Unidas.(...) O novo governo marca o início de uma nova era em que os direitos e liberdades de todos os cidadãos do país são garantidos e serão respeitados. (...)

Esta última parte, era aquilo que o rei Miguel até podia desejar, mas não podia prometer. Na verdade, o futuro virá a demonstrar que se tratava da troca de uma ditadura por outra. Durante os 45 anos que se seguirão, o dia 23 de Agosto vai ser o feriado nacional do regime comunista.
Na fotografia inicial o rei Miguel I é apresentado a generais soviéticos. Na seguinte, Miguel e Antonescu. A imagem de baixo é a notícia do acontecimento no Diário de Lisboa mas que foi publicada apenas do dia seguinte porque as atenções mediáticas estavam concentradas na libertação de Paris.

09 agosto 2019

A CIMEIRA IBÉRICA

9 de Agosto de 1929. Os chefes de governo português e espanhol, os generais Ivens Ferraz e Primo de Rivera, encontraram-se numa Cimeira em Viana do Castelo. Em ambos os países estava-se sobre ditadura. Mas, apesar da sintonia (a ditadura espanhola, implantada em 1923, influenciara em vários aspectos a portuguesa de 1926), a posição doméstica de qualquer um dos participantes era frágil. Aliás, ambos os generais virão a cair dali por cinco meses, em Janeiro de 1930. São assaz conhecidos os encontros havidos entre Salazar e Franco, mas esta cimeira, pela falta de repercussão política posterior é-o bastante menos. Apenas por mera curiosidade, refira-se que o almoço íntimo que destaquei do resto da notícia foi servido a 25 talheres (convivas). Eram outros tempos, outros conceitos de intimidade.

20 julho 2019

O ATENTADO

20 de Julho de 1944. Atentado contra Adolfo Hitler. Uma pasta carregada de explosivos é deixada por um dos conspiradores na sala de conferências onde este recebia os seus generais. Quatro destes morrem, mas não o principal visado. O atentado era para ser acompanhado de um pronunciamento militar, que foi facilmente desmantelado a partir do momento em que os conspiradores constaram que o objectivo principal - a morte de Hitler - falhara. Mas o acontecimento não pôde ser abafado e desfez a imagem de uma Alemanha unida, que a propaganda alemã (mas também a dos aliados) forjara para efeitos de propaganda de guerra. O fracasso da conspiração foi mau para a saúde dos conspiradores mas foi bom para a sua reputação histórica porque não tiveram que se confrontar com a realidade da consequência do seu acto. Golpes político-militares como estes, a antecipar o colapso iminente de regimes em guerra, raramente têm impacto significativo no desfecho final dos conflitos (lembre-se do golpe de Casado a precipitar o fim da guerra civil espanhola), além de não melhorarem a capacidade negocial dos novos poderes junto dos inimigos. Numa especulação contrafactual o sucesso do putsch poderia ter encurtado a Segunda Guerra Mundial de alguns meses, mas não teria evitado a divisão da Europa nas mesmas duas grandes esferas de influência do pós-guerra. Acontecendo como aconteceu, o episódio veio a revelar-se mais importante depois do fim da guerra do que durante a mesma, para uma utilização política que dissociasse os alemães em geral e o regime do III Reich: ao contrário do que a propaganda de guerra fizera crer, nem todos os alemães haviam sido nazis...

10 julho 2019

A CONDENAÇÃO DE JULIÁN BESTEIRO

A edição de há oitenta anos do Diário de Lisboa até dedicava todo um quarto de página à situação em Espanha, três meses depois do fim da guerra civil (1936-39). O âmbito das notícias variava desde o que dissera o conde Ciano (ministro dos Estrangeiro italianos) até um estranho enxerto de porrada sofrido pelo cônsul de França em Madrid, enquanto frequentava um «dancing». Mas a notícia que eu quero destacar não é nenhuma daquelas: o Diário de Lisboa não a publicou, embora o assunto estivesse a ser acompanhado pela imprensa britânica (leia-se abaixo). O Julián Besteiro (1870-1940) cujo desfecho do julgamento interessava os jornais ingleses era um catedrático e político espanhol, antigo presidente do PSOE e do parlamento espanhol durante a república (1931-33). Representava a ala mais moderada dos socialistas espanhóis e desempenhara um papel discreto e ponderado do lado dos republicanos ao longo do conflito que acabara de terminar. O caso de Besteiro seria importante para perceber como seria a atitude do regime franquista para com os vencidos. O que o jornal português não podia dizer (e que se soubera em Londres) era que o colectivo dos generais do conselho de guerra que julgara Julián Besteiro o condenara à prisão perpétua pelo delito de «rebelião militar», comutada de imediato em trinta anos de prisão. Um insulto cínico desnecessário, esta última benevolência, quando se sabe que Julián Besteiro iria completar 69 anos daí a dois meses... E cumpriu pouco mais de um ano, pois faleceu em Setembro de 1940. Estava dado o sinal de como o regime franquista pretendia não cicatrizar as feridas que haviam sido deixadas pela guerra. Da próxima vez que se voltar a falar da exumação de Franco, lembrem-se deste episódio.

09 julho 2019

O REGRESSO DE MÁRIO SOARES A LISBOA

Em lugar discreto (última página), mas mesmo assim destacado para o que havia para noticiar (nada), a edição de há cinquenta anos do Diário de Lisboa dava conta que «regressara naquela manhã a Lisboa o conhecido advogado e homem público e nosso (do jornal) distinto colaborador, dr. Mário Soares.» Não se especificava de onde viera, mas a novidade de 1969, consistia no fenómeno de Mário Soares andar pelas páginas dos jornais, fruto da Primavera Marcelista, que permitia que se noticiasse que os dirigentes oposicionistas andavam por aí. Convém relembrar que por aqueles anos o Diário de Lisboa de Ruella Ramos era um vespertino lisboeta conotado com a oposição e, nesse aspecto, detentor de muito mais prestígio que A República, dirigida por Raul Rego. Este último era um jornal trauliteiro de tanto engajamento. O que lhes aconteceu depois do 25 de Abril, nomeadamente a captura do primeiro pelos comunistas e a guerra que se travou à volta do segundo entre comunistas e socialistas é que veio a reescrever a história do que os dois haviam representado antes do 25 de Abril. A Fundação Mário Soares penitenciar-se-á de tal falta, preservando on-line o arquivo do Diário de Lisboa, uma preciosidade que me tem sido de tanta utilidade.

08 julho 2019

SALAZAR VENCE A «CRISE DOS SINOS»

8 de Julho de 1929. No mês anterior, uma portaria do ministro da Justiça, Mário de Figueiredo, passara a permitir a realização de procissões e outros actos religiosos que haviam sido proibidos com a implantação da República. O documento, que veio a receber a designação simplista mas jocosa de portaria dos sinos, provocou uma reacção negativa de uma ala do governo conservadora mas anti-clerical que foi encabeçada pelo ministro da Guerra, Júlio Morais Sarmento. Do embate interno resultou uma crise governamental, que principiou com a demissão de Mário de Figueiredo, mas que encalhou na demissão solidária de Salazar, titular das Finanças que, por sinal, na altura estava internado no hospital com uma perna partida. Óscar Carmona, o presidente da República, que visitou Salazar no hospital, não a aceitou, forçando, em vez disso, a demissão colectiva do governo. Há precisamente noventa anos era notícia a resolução da crise política com a constituição de um novo governo da Ditadura (o VI), em que o presidente do ministério passava a ser o general Ivens Ferraz (na foto, acima), mas onde o destaque inteirinho do cabeçalho da notícia ia para a continuidade do titular da pasta das Finanças. Salazar ganhara o braço de ferro com o que os observadores mais imaginativos consideravam ser os poderes sempre discretos mas sempre presentes da maçonaria.

03 julho 2019

QUANDO NÃO HAVIA DÚVIDAS SOBRE A SUPERIORIDADE DOS GENERAIS SOBRE OS JUÍZES

3 de Julho de 1969. Uma notícia discreta na última página do Diário de Lisboa dava-nos conta do que acontecera a três advogados gregos que haviam tentado desafiar juridicamente a Junta Militar que governava a Grécia.

«Três advogados gregos, que tinham ganho o apelo para que 21 proeminentes juízes fossem reinstalados nos seus cargos judiciários (juízes que haviam sido depurados pelo governo há 18 meses), foram hoje exilados para pequenas aldeias nas montanhas. Os três causídicos faziam parte de uma equipa de cinco homens que fizera apelos perante o Conselho de Estado, o Supremo Tribunal Administrativo da Grécia, em 24 de Junho passado, para que os juízes fossem readmitidos. Dizem familiares que os dois homens, George Maghakis e Theofylos Zoukas, foram presos esta madrugada, após buscas feitas nas suas residências, e levados para a sede dos serviços de Segurança. O terceiro dos advogados chama-se Evangelos Giannopoulos. Os três homens em causa serão obrigados a viver no exílio, em residências e aldeias separadas, fora da capital grega, uma vez que são considerados como um perigo para a segurança pública da Grécia.»

Quando eu era pequeno e estava a aprender, era assim que se entendiam as relações de poder. Os militares davam golpes de Estado. O que ocorrera da Grécia em 21 de Abril de 1967 fora promovido por coronéis. Porque qualquer golpe de Estado é, pela sua própria circunstância, uma subversão da legalidade vigente, os militares costumavam adoptar uma atitude bastante abrangente da estrutura jurídica sobre a qual fundamentavam o seu poder. Assumiam o poder executivo, suspendiam os membro do poder legislativo e os elementos do poder judicial que não cooperassem iam de férias, como acima se pode perceber. O local das férias dependia da insistência com que acatassem os novos poderes. Há cinquenta anos era assim que funcionava, não apenas na Grécia, como também no Brasil assim como viria a acontecer no Chile, e em tantos outros países: os generais mandavam e os juízes faziam o que os generais mandavam, revestindo as vontades dos generais de pomposidade jurídica. Nas entrelinhas da notícia acima percebia-se que arranjar os mandatos que permitissem mandar os advogados para um rincão esquecido fora apenas uma minudência despropositada. E subentendia-se que (aspecto omisso na notícia) o destino dos juízes que haviam despachado favoravelmente o requerimento dos advogados, não se adivinhava nada promissor. 

Hoje, tudo se inverteu. Os juízes alcançaram o estrelato. E os generais foram rebaixados a limitados. Nos países civilizados as ameaças de golpe de Estado perderam credibilidade. Os juízes é que podem virar qualquer regime de pernas para o ar com a ameaça de um daqueles mega-processos que vise as pessoas destacadas da sociedade. Por isso, até mesmo no Brasil (que ainda não é civilizado), quando general ameaça de quartelada é em prol do juiz, e a fazer figura de subordinado a ele...

22 maio 2019

SALAZAR E A EUROPA

22 de Maio de 1939. A propósito de uma planeada viagem presidencial às várias colónias africanas, ocasião em que o presidente Óscar Carmona e a sua comitiva iriam tocar portos sul-africanos e assim um país estrangeiro, a Assembleia Nacional reuniu-se para produzir a necessária autorização constitucional e também pretexto para o presidente do Conselho apresentar um discurso sobre política externa, que se veio a revelar um elaborado exercício de equilíbrio entre o tradicional vector marítimo, consubstanciado na aliança luso-britânica e a parceria ibérica, forjada no apoio ao regime franquista, recém vencedor da sua guerra civil. A visita era a África, mas o discurso concentrou-se na Europa. Estranhamente, para um discurso desta importância, para mais quando proferido por alguém (Salazar) não muito propenso a discursos públicos, o quórum dos deputados presentes era estranhamente baixo: apenas 73 em 90 (81%). A legitimidade política dos deputados também não era assim muito elevada...
E, contudo, a importância do tópico da política externa, assim como a seriedade da evolução da situação internacional, mormente na Europa, justificava-se por si mesma: naquele mesmo dia, em Berlim, a Alemanha e a Itália formalizavam a sua aliança, que pomposamente vieram a designar por Pacto de Aço. Repare-se abaixo como a notícia é introduzida no mesmo Diário de Lisboa do dia: «O Bloco dos Países Totalitários», excluindo-nos desse grupo. Eu não me canso de chamar a atenção para que os regimes nacionalistas autoritários de direita e extrema direita, pela sua própria natureza, não funcionam de forma concertada, antes rivalizam entre si. A Alemanha nazi começou a Segunda Guerra Mundial invadindo uma Polónia que tinha um regime desses, autoritário; depois, a Itália fascista fez precisamente o mesmo com a Grécia. As notícias que se publicam por aí sobre alianças das extremas-direitas europeias podem concitar as atenções do leitor, mas, descontando o dinheiro russo que as financiará a todas e talvez o guru da moda, Steve Bannon, pouco mais haverá a uni-las, no dia em que tiverem responsabilidades executivas...

19 maio 2019

A PARADA DA VITÓRIA DA GUERRA CIVIL ESPANHOLA

Madrid, 19 de Maio de 1939. Francisco Franco preside à Parada da Vitória na Guerra Civil de Espanha. Um momento de nostalgia para um certo núcleo de espanhóis que actualmente, e através do partido Vox, recuperou um formato de expressão política de que terá estado privado nestes últimos quarenta anos. E estas paradas da vitória devem ser todas evocadas, e não só aquelas em que o desfecho da guerra foi simpático para as nossas convicções. Porque a falta de prática (e o Ocidente não tem participado em muitas guerras) tende a fazer-nos esquecer que a guerra, para além de ser uma continuação da política por outros meios (como a definiu Clausewitz), tende, pela sua própria natureza, a que se crie uma imagem diabolizada do inimigo, imagem essa que é muito difícil de modificar findo o conflito.

16 maio 2019

O PARLAMENTARISMO BRASILEIRO


Abraham Weintraub é o nome um pouco arrevesado do actual ministro da Educação brasileiro. Já é o segundo ministro da pasta nomeado pelo presidente Jair Bolsonaro, e este só tomou posse há quatro meses e meio. O novo ministro compareceu recentemente numa audição parlamentar na Câmara dos Deputados e o vídeo acima é um resumo de cerca de 15 minutos dessa audição. Resumo que me parece simbólico de como é a dinâmica do parlamentarismo no nosso grande país irmão, agora potenciado por um governo de extrema-direita. Em vez de esperar que seja a oposição a partir a loiça, como é tradicional noutros parlamentos, aqui são as próprias bancadas governamentais a tomar a iniciativa de desencadear a baderna. Para os mais atentos e inquisitivos, esclareço que o deputado Alexandre Frota que ali aparece (com óculos!) é esse mesmo que estão a pensar: ex-actor, ex-director, ex-actor pornô, ex-modelo, ex-comediante, ex-jogador de futebol americano, ex-apresentador, ex-marido de Cláudia Raia, empresário e agora político (pelo menos, é assim que ele é apresentado na wikipedia e todos esses atributos, presentes e pretéritos, não contrastam com o ambiente). A próxima vez que houver outra sessão de impeachment naquela casa, que os comentadores das redes sociais não se indignem tanto, porque tudo aquilo é trivial, ou para citar um imorredouro verso de Manuel Alegre: Tu não viste nada em Nambuangongo!

A ADMINISTRAÇÃO TRUMP E A LIBERDADE DE EXPRESSÃO

Desde ontem, o twitter da Casa Branca, e porque «a Administração Trump se dispõe a lutar pela liberdade de expressão on-line», passou a acolher queixas de quem suspeitasse que a parcialidade política os tivesse levado a ter sido calados ou censurados. É uma daquelas iniciativas que apenas dão ressonância a fantásticas teorias da conspiração e que nos deixam sem comentários, só que, perante tal desplante, as analogias disparatadas acabam por fervilhar: isto faz tanto sentido como imaginar uma caixinha de sugestões pendurada à entrada do palacete de São Bento, para que os portugueses pudessem nela depor o seu contributo sobre a forma como eles achavam que o professor Salazar deveria governar Portugal...