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12 julho 2024

«QUANDO SE FIZER A HISTÓRIA DOS ACONTECIMENTOS...»

12 de Julho de 1934. No noticiário internacional, lê-se que Adolf Hitler se tenta demarcar da autoria da purga interna do seu partido, acção essa que ocorrera duas semanas antes e que veio a ficar conhecida pelo título de «Noite das Facas Longas» e que tivera a sua maior expressão política e mediática na execução de Ernst Röhm, o dirigente supremo das SA (Sturmabteilung). Como se pode ler acima, Hitler concedera uma entrevista a um jornal italiano, proclamando a sua impotência em deter a horda de sublevados que assassinara Röhm, nomeadamente porque Röhm não seguira os seus conselhos. No remate da mais despudorada hipocrisia, Adolf Hitler vai ao ponto de dizer que «quando mais tarde se fizer a história dos acontecimentos se verá que ele não é o culpado do fuzilamento de Röhm»... Este é um caso exemplar de quanto a mentira tem a perna curta, muito curta. No dia seguinte ao desta notícia, a 13 de Julho de 1934, Adolf Hitler proferia um discurso no Reichstag que foi radiodifundido e em que ele justificou os assassinatos alegando uma teoria da conspiração e um suposto golpe de Estado iminente por parte das SA: afinal, e ao contrário daquilo que estivemos a ler acima, Röhm fora muito bem assassinado...

Este é o tipo de actuação política típica da extrema direita (como agora temos oportunidade de apreciar em Portugal com André Ventura): um dia dizem uma coisa, no dia seguinte dizem outra completamente distinta, sem se incomodarem sequer a explicar as razões da pirueta.

11 julho 2024

UM INCIDENTE DE «FOGO AMIGO»

No quadro de uma profunda opacidade informativa quanto a muitos dos acontecimentos associados às guerras que as tropas portuguesas travavam então em Angola e na Guiné, não deixa de ser surpreendente ver esta admissão publicada, de um incidente por «fogo amigo», quando tropas portuguesas dos fuzileiros foram alvejados pela própria FAP no Sul da Guiné, incidente esse de onde haviam resultado três mortos e um número não publicado de feridos. Não é o género de notícia que qualquer serviço de informação de quaisquer forças armadas goste de dar publicidade. O incidente teve lugar em 8 de Julho, três dias antes desta notícia, depreende-se que a presença de forças anfíbias no Sul da Guiné seja ainda uma consequência da Operação Tridente, que decorrera nos três primeiros meses de 1964, mas nada de mais substantivo encontrei sobre o assunto nas pesquisas que efectuei na internet.

10 julho 2024

OS BOLETINS CLÍNICOS QUE DEFINIAM A «SAÚDE» DO REGIME (1)

Dois meses e meio depois do 25 de Abril, Portugal podia agora contemplar de forma distanciada a importância pessoal de um ditador quando ele personificava o regime (como acontecera no próprio país com Salazar). Era só preciso acompanhar as notícias que, a 10 de Julho de 1974, chegavam de Espanha e a importância noticiosa que era concedida ao internamento do caudillo Francisco Franco, e tudo por causa de uma tromboflebite. «Comeu gaspacho, frango e fruta e viu, depois, um programa de televisão a cores num aparelho que foi colocado especialmente no seu quarto» (a televisão a cores era então uma novidade em Espanha). A Espanha entrava então numa fase em que os boletins clínicos a respeito do ditador se tornavam progressivamente mais importantes para a definição de qual era a saúde do regime franquista. Franco contava então 81 anos, a idade com que morrera Salazar.

08 julho 2024

A INAUGURAÇÃO DO AEROPORTO DO FUNCHAL

8 de Julho de 1964. Com a pompa e a circunstância como estas ocasiões eram vividas durante o Estado Novo, inaugurava-se na tarde daquele dia o novo aeroporto do Funchal, como se dá conta na primeira página do Diário de Lisboa do mesmo dia. O inauguração foi presidida pelo almirante Américo Thomaz e o primeiro avião comercial a ali aterrar foi um Lockheed L-1049G Super Constellation da TAP (veja-se a fotografia com a assistência ao fundo). Contudo e talvez por causa dos seus quase 70 anos e ainda da sua formação como oficial de Marinha, naquilo que não pode deixar de ser considerado como um anacronismo, o presidente da República deslocara-se para a Madeira... de navio. Não se pode dizer que Américo Thomaz se incomodasse muito a tentar galvanizar os portugueses, dando um exemplo pessoal de adaptação aos tempos modernos, utilizando o transporte aéreo e o novo aeroporto. Ou isso, ou então a confiança na segurança da obra não seria nada por aí além e não quiseram pôr a segurança do presidente em risco - o aeroporto veio a ser local de um grande acidente em Novembro de 1977.

04 julho 2024

APARENTEMENTE, NO CHEGA TÊM QUE ORGANIZAR MELHOR O «FÜHRERPRINZIP» DE ANDRÉ VENTURA

Afinal, a votação do programa do governo madeirense foi rodeada de intervenções muito assertivas do Chega - «deixa ultimato a Miguel Albuquerque para viabilizar o Programa» seguido de «Miguel Albuquerque volta a não ser claro sobre o que fará se for acusado» - para se concluir com este acima - «Ventura só soube da votação na Madeira no fim do debate». Uma votação em que, ainda por cima, os quatro deputados regionais se dividiram no sentido do voto. Ora qualquer formação política que se preze não gosta de dar estas mostras de descoordenação. Para mais se for uma formação política de extrema direita, descendente dos saudáveis princípios de unidade de comando e de obediência ao líder - o conhecido Führerprinzip. Quando isso não funciona... a referência história e organizar-se uma noite das facas longas, para sanear o partido dos membros mais renitentes como parece estar a acontecer lá pela Madeira. Não sei é se esta última hipótese de trabalho se coloca a André Ventura... (Ah, e não venham com a desculpa que o homem andava entretido com os polícias).

30 junho 2024

A NOITE DAS «FACAS LONGAS»

(Republicação)
30 de Junho de 1934. Depois de 17 meses no poder, Adolf Hitler procede a um ajuste de contas com aqueles que, dentro do próprio aparelho do partido e mesmo das áreas ideológicas que lhe são adjacentes, ele considera ainda passiveis de o desafiar. Para ilustrar a vaga de execuções que então teve lugar, o cabeça de cartaz costuma ser Ernst Röhm (acima vemo-lo ao lado de Adolf Hitler e na foto abaixo, autoconfiante, aparece acompanhado de um Heinrich Himmler que parece escutá-lo atentamente). A entrada da Wikipedia em alemão relativa aos acontecimentos, em vez da referência às facas longas comuns a todos os outros idiomas, tem até o título de «Röhm-Putsch», como que a validar a versão oficial de que houvera uma tentativa de golpe a justificar a violência que se seguiria. A identidade dos executados caracterizou-se afinal pela sua heterogeneidade, porque para além de Röhm e outros que lhe eram considerados próximos, incluiu pessoas de perfis tão díspares quanto um antecessor do próprio Hitler como chanceler (chefe de governo), dissidentes da ala esquerda do partido nazi e políticos bávaros com quem os dirigentes nazis tinham contas pessoais a ajustar. Quanto ao número de assassinados, cerca de uma centena, talvez menos, ele pode afinal ser considerado pequeno, considerando tudo aquilo que o III Reich virá a fazer, mas convém não perder de vista a forma intimidatória como os acontecimentos foram apreciados na época, ao assistir-se ao próprio regime que está no poder a permitir-se recorrer a execuções extrajudiciais para regular as suas disputas políticas internas, qual gangue de mafiosos. Esta última comparação até faria sentido se na Alemanha houvesse mafiosos; ora na Alemanha não há mafiosos: os alemães são um povo muito organizado em tudo, menos no crime - o crime organizado que exista na Alemanha deve-se às mafias italianas, turcas, russas, etc. Mafias alemãs não há, nem nunca ninguém ouviu falar...

23 junho 2024

A ÓPERA INFANTIL DE THERESIENSTADT

A ópera infantil Brundibár foi composta originalmente em 1938 pelo compositor Hans Krása, baseada num libreto de Adolf Hofmeister (os dois autores são judeus checos). E porque Krása fora inicialmente internado no gueto de Theresienstadt (hoje Terezín), a ópera veio a ser representada umas dúzias de vezes naquele gueto durante a Segunda Guerra Mundial. Uma dessas representações aconteceu há precisamente oitenta anos, a 23 de Junho de 1944, quando o gueto foi visitado por uma delegação do Comité Internacional da Cruz Vermelha. A delegação era composta por três elementos, encabeçada pelo suíço Maurice Rossel, acompanhado de dois funcionários dinamarqueses (a Dinamarca estava ocupada pela Alemanha). A visita foi programada para durar todo o dia, mas seguia uma cenografia preparada pelos alemães de antemão, uma verdadeira encenação de aldeia Potenkin, onde se incluía a representação da ópera do vídeo acima. A realidade era outra: o menino com bigode que acima vemos a desempenhar o papel principal - o de Brundibár - chamava-se Hunze Triechlinger e foi um dos 33.000 mortos que viriam a morrer de subnutrição, doença e outras más condições que vigoravam no gueto de Theresienstadt. Outros 88.000 internados - como o compositor Hans Krása - foram deportados para Auschwitz, onde a grande maioria veio a morrer. Dos 140.000 internados que passaram por Theresienstadt durante a guerra, cerca de 23.000 terão sobrevivido. O instante de felicidade aparente do vídeo acima também não deve esquecer o facto de que o relatório de Maurice Rossel nada assinalava de anómalo, era um endosso da narrativa que os alemães das SS haviam preparado. Mais do que o homem, é um dos momentos mais embaraçosos da história da Cruz Vermelha que falhou clamorosamente nos objectivos que se proclama defender. Significativamente o relatório de Maurice Rossel só se tornou público em 1992, 48 anos depois dos factos.
Embora não haja a certeza que o vídeo inicial seja da representação de Brundibár feita para os membros da delegação da Cruz Vermelha de há 80 anos, esta última fotografia foi tirada pelo próprio Maurice Rossel nesse dia 23 de Junho de 1944, fotografia que apensou ao seu relatório.

28 maio 2024

OS POSTAIS COMEMORATIVOS DO ESTADO NOVO

28 de Maio era o dia comemorativo do Estado Novo. Este postal foi publicado por ocasião do 28º aniversário da data, há precisamente 70 anos. A dupla em destaque é a do incontornável presidente do Conselho, Oliveira Salazar (à esquerda) e o presidente da República em exercício, Craveiro Lopes. Entre os dois, aquele que fora o primeiro presidente do Estado Novo durante 25 anos, Óscar Carmona, falecido em 1951. Entrara-se numa fase em que, parafraseando o seu homem forte, mais do que Portugal, até mesmo quem o dirigia subsistia como habitualmente.

27 maio 2024

«ESTÃO FORA DE CONTROLO»: BANDO DE CEM GALINHAS SELVAGENS ASSOLA UMA ALDEIA

Para os mais veteranos, como eu, é impossível ler notícias deste teor, a de uma aldeia inglesa atormentada por um bando de galinhas tornadas selvagens, sem pensar em clássicos da sociologia galinácea como é o caso do filme de animação «Chicken Run» (A Fuga das Galinhas) (2000)...
...ou então associando aquele comportamento agressivo e descontrolado à psicologia galinácea contida na música-paródia «Psycho Chicken» dos The Fools (1979), que foi uma paródia ao sucesso musical «Psycho Killer» aparecido dois anos antes, interpretado pelos Talking Heads.
Mas isso será apenas a atitude de quem quererá criar um mínimo de empatia com a causa das galinhas. A atitude prevalecente pode já não ser essa, considerado o sucesso das formações de extrema direita (o Reform UK no caso britânico), e a solução de demagogos como Nigel Farage para os problemas que afligem Senettisham, Norfolk, será torcer-lhes o pescoço a todas e organizar um churrasco. Aqui, e por se tratar de galinhas, ao menos parece ser menos controverso do que as soluções que eles costumam dar para resolver a imigração.   

09 maio 2024

A GREVE DE 8 E 9 DE MAIO DE 1944

Se há alguma coisa que faz pouco sentido em Democracia é que, à censura oficial que se verificava sob o Estado Novo, que impedia que os pontos de vista do regime fossem contraditados, se sucedeu, depois do 25 de Abril, outro género de unilateralismo, que peca por omissão, em que agora as narrativas dos acontecimentos são feitas apenas pelo outro lado. Por exemplo, a greve de 8 e 9 de Maio de 1944, que foi fomentada e organizada pelo Partido Comunista Português torna-se numa narrativa heróica, com um generalizado apoio popular, um acontecimento sem mácula, quando é evocada por aquela organização. Do lado direito da imagem temos um panfleto da altura e a primeira página da edição seguinte do jornal clandestino Avante! E no entanto, e como já aqui se verificara aquando da evocação do 75º aniversário da prisão de Álvaro Cunhal, uma consulta aos jornais da época, mostra todo um distanciamento em relação às acções dos comunistas. Aquilo que aconteceu não foi nada como eles agora contam e os comunistas estavam muito longe de granjear o apoio popular que se subentende das suas narrativas. E repare-se como acima, do lado esquerdo, a notícia de dia 9 de Maio, que dá conta dos acontecimentos, é antecedida de um editorial intitulado A Ordem. Pelo menos para o editorialista do Diário de Lisboa (presumivelmente o seu director Joaquim Manso), fomentar greves num país neutral numa Europa em guerra não lhe parecia gesto que se saudasse.

07 maio 2024

A «ALMOÇARADA» NA TRAFARIA

(Republicação)
Domingo, 7 de Maio de 1944. «O 1º batalhão da Brigada Naval da Legião Portuguesa, acampado desde ontem na mata da Trafaria, terminou hoje o seu exercício de campo. Esta manhã, depois da alvorada e da missa campal, com a presença do sr. comandante Henrique Tenreiro, efectuou-se um exercício de progressão na praia entre a Cova do Vapor e a Trafaria.
Partia-se da hipótese que os legionários tinham levado a cabo um desembarque naquela zona, onde encontraram resistência. O exercício, dirigido pelo comandante do 1º batalhão, 1º tenente Horácio de Carvalho, desenvolveu-se normalmente e o batalhão, utilizando todos os serviços de transmissões, fez a sua progressão até ao local do acampamento.
Ás 13 e 30 realizou-se, á sombra do pinhal, um almoço de confraternização, a que presidiu o sr. comandante Henrique Tenreiro e com as presenças dos srs. capitão de mar e guerra Alberto dos Santos e major Nascimento, Chefe de Estado Maior da Brigada Naval, bem como de muitos oficiais, graduados, etc.
Aos brindes, usou da palavra o sr. comandante Henrique Tenreiro, que pronunciou um caloroso discurso, entrecortado de grandes aplausos.
Começou por lembrar que o sr. comandante Alberto dos Santos, grande amigo da Brigada Naval, completava hoje 70 anos, passando por isso à reforma, motivo pelo qual traçou o seu elogio.
Continuando, o sr. comandante Tenreiro afirmou que, "certos da vitória de Salazar, os legionários continuam unidos e prontos a obedecer-lhe à primeira voz".
Acentuou que a união da Brigada Naval tem sido timbre daquela corporação, sendo necessário que continue a sê-lo enquanto Salazar assim o entender.
Terminou lembrando aos legionários navais, que, sendo eles soldados da Revolução Nacional, cumpre-lhes manter cabeças ao alto, fé em Deus e na política do Estado Novo.
O sr. major Carlos Nascimento, chefe de Estado Maior da Legião, exaltou depois o espírito de unidade e a força espiritual e material dos legionários, afirmando que o comandante Henrique Tenreiro tinha na Brigada Naval um dos grande expoentes do seu espírito de grande organizador.
Por último, o sr. comandante Alberto dos Santos agradeceu as palavras que lhe tinham sido dirigidas e incitou os legionários a cumprirem sempre os seus deveres.
O batalhão regressou a Lisboa ao fim da tarde
O que acabaram de ler é a transcrição completa da notícia. Num Mundo então em guerra, esta história de umas manobras navais na outra banda quase parece uma paródia provocatória. Se do outro lado do Mundo fuzileiros navais americanos arriscavam e perdiam a vida em operações anfíbias, por cá esses exercícios eram encenados com a seriedade de um piquenique ao fim de semana: houvera uma noitada de acampamento, seguida de alvorada e missa (não houve café da manhã?...), com o prato de resistência a ser constituído por uma passeata de uma meia hora entre duas praias (cova do vapor e trafaria) para apanhar a brisa do mar e assim se ir abrindo o apetite para o almoço, servido à sombra dos pinheiros, a seguir ao qual houve uma sequência de discursos para ajudar a digestão. Houvesse ele invasão e a Pátria estava salva graças ao 1º batalhão da Brigada Naval da Legião Portuguesa!

05 maio 2024

A ASSINATURA DO TRATADO DE FUNDAÇÃO DO CONSELHO DA EUROPA

Londres, 5 de Maio de 1949. Representantes de dez países europeus - Bélgica, Dinamarca, França, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Noruega, Países Baixos, Reino Unido e Suécia - assinam naquela cidade um tratado que é também o acto fundador da organização conhecida por Conselho da Europa. Como se pode ler no subtítulo da notícia do New York Times, no acto a Grécia e a Turquia foram convidados a aderir à organização. Aparecem assim associados ao acontecimento quase todos os países europeus situados fora da esfera de influência soviética. As excepções são os dois países ibéricos, um gesto de marginalização que tem um evidente significado político, tanto mais que se segue à assinatura do Tratado da Nato, realizada no mês anterior. Depois da adesão à NATO, esta proscrição é uma desfeita para o país, para o regime e para a diplomacia portuguesa. Por isso não é de estranhar o silêncio da nossa imprensa a não noticiar aquilo que acontecera em Londres. Como se comprova, a omissão não se devera à dificuldade em seleccionar os assuntos em destaque: a primeira página do Diário de Lisboa dedicava quase uma coluna inteira ao óbito aos 88 anos do dramaturgo belga Maeterlinck - quem?!...

12 abril 2024

PORTUGAL UNO E MULTIRRACIAL... MAS CONTAS À PARTE S.F.F.

12 de Abril de 1974. Em vésperas do 25 de Abril, o Portugal de Marcello Caetano continuava a ser o «uno e multirracial» de Salazar (o marcelismo até criara um novo slogan, melhor adaptado aos novos tempos, o dos «vinte e cinco milhões de portugueses»), mas a compartimentalização financeira do «Portugal Uno» perpetuava, por detrás da propaganda, a concepção imperial da estrutura do conjunto: Portugal e cada uma das suas colónias mantinham em circulação moedas distintas e os acertos de contas das transacções financeiras entre a metrópole e as colónias (e entre estas, também), faziam-se ao ritmo que fosse mais conveniente para Lisboa. E as colónias que registavam saldos comerciais superavitários no seu comércio externo, como era o caso mais flagrante de Angola, ficavam anos à espera que Lisboa procedesse à devida compensação. Esses montantes designavam-se eufemisticamente por «atrasados» e esta notícia acima, de há precisamente 50 anos, dá conta das queixas - muito suaves - apresentadas pelo então «secretário provincial das Finanças e Planeamento», Walter Marques, a respeito da situação que se percebe que já se arrastava desde 1971. Um dos aspectos realçados era que, apesar de - teoricamente - as cotações das duas moedas - o escudo metropolitano e o angolano - se equivalerem, as duas moedas já eram cambiadas em Luanda no mercado livre - ali denominado acintosamente «mercado negro» - à cotação de 0,70 ou 0,75 para 1. Os mercados demonstravam que a colónia (Angola) estava a ser lesada à custa da metrópole (Portugal). E, para além disso, as previsões de Walter Marques para 1975 é que o problema se continuaria a manter («... tal não implica que se inicie o período de licenciamento livre...»). Hoje sabemos que o ano de 1975 veio a ser completamente diferente daquele que Walter Marques estaria a antecipar naquela altura: a questão das finanças terá sido o menor dos problemas com que Angola se confrontou até à independência. Mas estes problemas que aqui recordo, e que acabaram sendo atropelados por outros de gravidade superior depois do 25 de Abril, mostram que, para além da questão política e militar, a estrutura do Portugal de Marcello Caetano, falho das reformas que ele não tivera a coragem de iniciar, essa estrutura estava a ranger em mais do que apenas aqueles aspectos que depois se tornaram mais evidentes.

28 março 2024

É SÓ UMA QUESTÃO DE (EXPLORAR A) OPORTUNIDADE...

O que é notícia nesta notícia não é o conteúdo da dita, mas a ressonância que lhe é dada por um canal (Euronews) enfeudado à comissão europeia e a Bruxelas. Estes denominados escândalos de corrupção ocorrem com costumeira regularidade por todos os países membros da União. (Vale a pena referir entre parêntesis que aquela organização misteriosa e pouco transparente, ela própria, denominada Transparência Internacional, publicou no princípio deste ano um relatório a que deu o nome de Índice das Percepções de Corrupção 2023, abrangendo os países da União Europeia. A Hungria ficou em último lugar, mas a pouca distância da Bulgária, Roménia e Grécia. Nós não demos pelo relatório porque nele Portugal aparece a meio da tabela. Se estivéssemos no fim, tínhamos dado por isso com certeza e o Paulo Morais tinha-se fartado de aparecer na televisão...) Mas, regressando ao último escândalo de corrupção na Hungria, este merece o destaque que acima se pode apreciar especialmente por ter ocorrido na Hungria, um país europeu que é dirigido pelo pária de extrema-direita Viktor Orbán. E como Orbán é detestado por Bruxelas, tudo aquilo que o embarace politicamente é bom para propagandear. Parafraseando: para quem dirige a União «Pimenta no cu do Orbán é refresco». E, já agora e falando agora do nosso caso, se lhes dermos oportunidade à malta do Ventura que acabou de chegar, também havemos de os encontrar com as mãos sujas, não se armem eles por agora em ingénuos a falar da corrupção apenas dos outros...

26 março 2024

COMO ERA O ALGARVE HISTÓRICO DE HÁ OITENTA ANOS

26 de Março de 1944. Leia-se atentamente esta notícia de Olhão com oitenta anos, sobre a prisão de uma «numerosa quadrilha de larápios» cujas imaginativas alcunhas («Giba», «Caxita», «Belchior», «Chona», «Tripa» ou «Rabiça») nos indicam, para além de qualquer dúvida, ser composta de elementos de etnia cigana. Já era assim o Algarve histórico de há oitenta anos, mesmo antes dos problemas provocados pela chegada dos imigrantes e das soluções para tal propostas pelo partido de André Ventura. Nas eleições legislativas de dia 10 deste mês, o Chega ganhou em Olhão. O «Giba» e os seus companheiros é que já não devem fazer parte deste mundo.

25 março 2024

A PRISÃO DE ÁLVARO CUNHAL

Álvaro Cunhal foi preso pela PIDE na madrugada de 25 de Março de 1949 num palacete do Luso. Esta notícia do Diário de Lisboa data, porém, de 31 de Março, seis dias depois. Como se depreende pela leitura do artigo (que recomendo), o anúncio público da prisão foi precipitado por uma iniciativa dos próprios comunistas, que fizeram publicar um anúncio críptico num jornal portuense (O Primeiro de Janeiro), anunciando que Álvaro Cunhal Duarte se mudara para a rua do Heroísmo (a sede da PIDE no Porto, onde ele estava preso). Vale a pena ler o artigo no original, porque, ao contrário das versões que apareceram depois do 25 de Abril, a redacção do artigo é bastante parcimoniosa quanto à simpatia pelos protagonistas. Por exemplo, de um lado temos «o distinto Inspector Superior da PIDE, sr. capitão José Catela» que, por outro lado, «teve ensejo (...) de lamentar que se perdesse por tão ínvios caminhos um rapaz que poderia ser cidadão prestimoso» (Cunhal). Sintomático de quem seria o vencedor do momento, a inclusão do último trecho do artigo, em que se faz referência a um «comentário» de um «colega»: - «Como é que o general três pontinhos se meteu com esta gente?!» (os comunistas) O «general três pontinhos» era o general Norton de Matos que fora o candidato às eleições presidenciais de 13 de Fevereiro daquele mesmo ano e que desistira no dia anterior ao escrutínio, invocando falta de condições. Não era difícil perceber para onde, na circunstância, penderiam as simpatias do redactor em 1949. E imaginar aquilo em que se transformou este mesmo jornal dali por 25 anos!

19 março 2024

OUTROS TEMPOS... MUITO MAIS INOCENTES

19 de Março de 1964. Por ocasião da cerimónia do jantar anual para atribuição dos prémios do Variety Club of Great Britain, é o recente líder da oposição britânica, o trabalhista Harold Wilson, que os entrega aos quatro membros dos popularíssimos The Beatles. Como se vê no vídeo abaixo, a ocasião é, do ponto de vista televisivo e na melhor das hipóteses, mediana ou mesmo medíocre. Outra coisa é o que ela poderia ser aproveitada do ponto de vista fotográfico em prol da projecção da imagem de Wilson, e é assim que a fotografia daquele mesmo momento correu mundo, aparecendo mesmo numa primeira página de um jornal português no dia seguinte (acima vê-se a cópia do jornal ao lado de uma fotografia mais nítida e repare-se na nota inconfundível de jornal português, a referência que havia sido «Visado pela Comissão de Censura»). Pelos vistos, promover descaradamente Wilson não era censurável... ou o censor tinha outras preocupações. Harold Wilson viria a tornar-se no primeiro-ministro dali por sete meses (Outubro de 1964), depois de disputar uma renhida eleição, e estes pequenos expedientes promocionais alguma coisa o terão ajudado.

14 março 2024

O OUTRO LADO DOS IMPASSES POLÍTICOS PROVOCADOS PELO CRESCIMENTO DA EXTREMA DIREITA EUROPEIA

Ainda bem que a greve dos jornalistas portugueses de hoje não teve repercussão na difusão da notícia acima (ao contrário de outras notícias do noticiário internacional, mesmo sem greves...). A notícia é oriunda dos Países Baixos, e versa o impasse político que se vive naquele país. Recapitulando o que por lá aconteceu desde há três meses e comparando com o que acabou de acontecer em Portugal. Em Novembro de 2023, há três meses e meio, o PVV, partido político da extrema-direita holandesa liderado por Geert Wilders, ganhou as eleições gerais, recolhendo quase 2,5 milhões de votos (23,5%) correspondentes a 25% da representação parlamentar (37 lugares). Embora o Chega português só tenha ficado em terceiro lugar nas eleições de 10 de Março passado, estes resultados do PVV comparam-se, sem desmerecimento para o Chega, com o 1,1 milhão de votos (18%) e 21% da representação parlamentar (48 lugares) que acabaram de ser alcançados pela formação de André Ventura. Mas a comparação termina aí...

O facto de, nos Países Baixos, o seu partido ter ficado em primeiro lugar, entregou a Geert Wilders a responsabilidade de ser ele a ter de promover as iniciativas para a formação de uma coligação que apoiasse o novo governo holandês que ele viesse a formar na sequência daquelas eleições de Novembro de 2023. E embora o ritmo a que essas negociações decorrem possa ser, naquelas paragens da Europa, absurdamente lento (a Bélgica já esteve mais de ano e meio à espera de um novo governo!), a notícia de hoje (que acima se destaca) é que, ao fim de mais de três meses de esforços baldados, Geert Wilders desistiu de prosseguir as negociações para a formação de um executivo. Agora a iniciativa terá de passar para outro dirigente de outra formação política e a tarefa afigura-se ainda mais complicada. Para quem, como nós em Portugal, se prepara para assistir ao mesmo processo, só que com a formação de extrema-direita (o Chega) no papel oposto ao que desempenho até agora a holandesa, é interessante perceber que o fosso que separa as formações de extrema-direita das da direita democrática é, não apenas profundo, como também se vê por este exemplo que esse fosso não dependerá da posição negocial - mais activa ou mais passiva - dos intervenientes. Haverá aspectos que são estruturalmente muito difíceis de ultrapassar.

Previsivelmente, aquilo que acontecerá entre nós será uma disputa feroz entre os maiores intervenientes políticos imediatos - Marcelo, Montenegro, Ventura, Pedro Nuno, António Costa ou Lucília Gago - num jogo para se vitimizarem e desresponsabilizarem de um (mais do que) previsível impasse político, que será muito semelhante àquele que já há três meses está em curso nos Países Baixos.

A BRIGADA DO REUMÁTICO

(Republicação)
A 14 de Março de 1974 tinha lugar em São Bento uma demonstração de lealdade ao regime por parte das mais altas patentes das Forças Armadas, num episódio que veio a ser designado, posterior e desdenhosamente, pela Brigada do Reumático. Numa passagem premonitória do que viria a ser a sua ultrapassagem (e do resto do generalato) pelos acontecimentos, ouve-se o orador acima, o General Leite Brandão (Chefe do Estado-Maior do Exército) a proclamar (ao 1:10): «...as Forças Armadas não fazem política...» A proclamação era de uma hipocrisia indescritível: Leite Brandão até chegara a ser deputado à Assembleia Nacional entre 1953 e 1957! Mas já pouco interessaria, porque iria ser apenas a primeira de muitas hipocrisias durante os quase dois anos que se seguiriam. O 25 de Abril estava a seis semanas de distância e o início do PREC - Processo Revolucionário Em Curso - à distância de um ano, época em que as Forças Armadas fizeram tanta política que houve quem, de dentro delas, se concebesse a substituir os partidos políticos, ao contrário daquilo que ficara prometido pelo programa do MFA de Abril de 1974.
Significativo daqueles tempos de censura, era preciso aprender a ler o que acontecera e que não podia ser escrito explicitamente. Abaixo pode ver-se a forma como o Diário de Lisboa noticiou os acontecimentos. O mais importante dos conteúdos da primeira página (imediatamente abaixo) é, não o discurso do Presidente do Conselho Marcello Caetano, mas o anúncio da nomeação do novo Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Joaquim Luz Cunha (o que não se podia dizer é que o anterior titular do cargo, Francisco da Costa Gomes, fora afastado porque faltara ostensivamente à cerimónia). Outro indício de que algo anómalo mas politicamente significativo se passara é a realização de uma renovação ministerial conforme se pode ler numa página interior do mesmo jornal.

05 março 2024

«NÃO TRANSIGIREMOS»


5 de Março de 1974. Naquela tarde, o presidente do Conselho Marcello Caetano profere um discurso perante a Assembleia Nacional sobre política colonial, questão que o orador considera «o mais grave problema que presentemente se põe à nação Portuguesa». Ora isto é anunciado num momento em que todos os países ocidentais se confrontam com as severas consequências económicas da crise petrolífera do Outono de 1973. Portugal, apesar de ser um dos países expressamente visados pelo embargo das exportações de petróleo dos países da OPEP, mostra aqui, através das declarações do seu chefe de governo, que atribui mais importância a outras prioridades, o que  mostrará, analisado a esta distância, até que ponto o relógio da História em Portugal se encontrava desacertado. E a substância do discurso de Marcello Caetano, abaixo sintetizada no título que foi escolhido pelo Diário de Lisboa, é que a política colonial não mudara e que não ia mudar. Fazê-lo seria «transigir».

Embora hoje, para explicar os acontecimentos, se saiba muito mais sobre o que então estava a decorrer nos bastidores, na época este discurso surgiu sem qualquer explicação prévia - de um dia para o outro - quando as transmissões em directos televisivos e radiofónicos estavam normalmente guardadas para as ocasiões solenes. Mas, apesar de inesperado, a importância do conteúdo daquilo que viria a ser dito era inequívoca. Tanto assim que, transmitido em directo de tarde, ele viria a ser repetido naquele mesmo dia ao serão. O discurso pode ser lido nestas páginas abaixo, ou então escutado na página dos arquivos da RTP. Desconfio que algum do vocabulário que é empregue por Marcello Caetano em prol da manutenção da política colonial deixou de ser inteligível para as gerações mais jovens.