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16 julho 2024

O IMPACTO EM JÚPITER DO PRIMEIRO FRAGMENTO DO COMETA SHOEMAKER-LEVY 9

(Republicação)
16 de Julho de 1994. O primeiro de vários fragmentos em que se desagregara o cometa Shoemaker-Levy 9 colidiu com o planeta Júpiter. Ao longo dos seis dias seguintes mais vinte fragmentos viriam a embater com o planeta, sempre no hemisfério meridional, deixando observar, à laia de "cicatrizes", as marcas dos violentos impactos, cada um deles libertando quantidades de energia capaz de desafiar a nossa imaginação. Com o maior deles, o G (cada um dos impactos foi designado pelas letras encadeadas do alfabeto), ocorrido em 18 de Julho, estima-se que terá sido libertada uma energia equivalente a seis teratoneladas de TNT (milhão de milhões de toneladas). Impressionante que seja, trata-se de um valor dezasseis vezes inferior ao que se estima que terá sido libertado há 67 milhões de anos na Terra, com o impacto do corpo celeste que pôs fim ao Cretáceo, muito embora aquilo que presenciámos em Júpiter há trinta anos se tenha multiplicado por vinte fragmentos o que aproximará a dimensão dos dois fenómenos. As cicatrizes dos impactos permanecerem visíveis em Júpiter por meses, criando um novo respeito por tudo aquilo que anda por aí a vogar pelo espaço próximo.

30 maio 2024

FAÇAM ASSIM: PONHAM A ESCREVER OS ARTIGOS CIENTÍFICOS ALGUÉM QUE COMPREENDA AQUILO QUE ESTÁ A ESCREVER

Escolham alguém que não confunda a antiguidade da galáxia e a época em que ela terá aparecido, 290 milhões de anos depois do "big bang", com a própria antiguidade do "big bang". Numa página da RTP ensina pode aprender-se que o "big bang" terá ocorrido «há cerca de 14 mil milhões de anos». Se nessa página a RTP ensina, neste artigo é evidente que a Lusa e a CNN não aprenderam nada com o que a concorrência anda a ensinar. Mesmo traduzindo os artigos da AFP (como se lê, no fim), os tradutores destes artigos científicos têm que saber mais qualquer coisa para além de inglês. Senão equivalem-se a papagaios, só que em vez de emitirem sons que reproduzem, copiando, mas sem entenderem, fazem precisamente o mesmo com a palavra escrita - umas cacatuas literárias.
Em jeito de remate, constate-se como o Correio da Manhã consegue acrescentar à ignorância, negligência e estupidez de todos os seus colegas da comunicação social uma notável capacidade de síntese. Ou seja, no CM são tão estúpidos como os outros, mas conseguem exibi-lo de uma maneira mais directa e as audiência parecem preferir isso!

30 março 2024

À DESCOBERTA DE MERCÚRIO

(Republicação)
30 de Março de 1974. Descobria-se como era a aparência do planeta Mercúrio. A sonda responsável pelo envio das primeiras fotografias do primeiro planeta do Sistema Solar denominava-se Mariner 10. Embora o seu percurso pelo espaço fizesse com que a maior aproximação da sonda ao planeta tivesse ocorrido ainda no final do dia anterior (às 20H47 TMG), foi só neste dia que, por causa da delicadeza e lentidão das transmissões, começaram a ficar disponíveis para a comunicação social as primeiras fotografias da superfície de Mercúrio. Era um grande feito científico... mas também uma grande desilusão mediática: para o grande público, aquilo que se podia ver era uma reedição daquilo que já se vira na Lua, um corpo rochoso que se destacava da escuridão, marcado por uma profusão aleatória de crateras de impacto (acima o mosaico de fotos dessa passagem em que a Mariner 10 se chegou a aproximar até 700 km da superfície do planeta). Ao contrário do que acontece com Marte, Vénus, Júpiter ou até, mais recentemente, com o longínquo Plutão, Mercúrio é um planeta desprovido de charme.

23 março 2024

NESTE CASO DAS ESPECULAÇÕES COSMOLÓGICAS É QUE EU GOSTARIA DE ASSISTIR AOS CONTRIBUTOS DA «INTELIGÊNCIA» ARTIFICIAL

Apresentado com a chancela da NASA, este vídeo acima é uma incursão nas possibilidades de que os modelos teóricos existentes sobre cosmologia possam vir a ser revistos, alterando a nossa percepção sobre as leis que regem o Cosmos. O assunto tornou-se objecto de discussão mais premente após o lançamento, há dois anos, do JWST (conhecido também por telescópio espacial James Webb). O que está a acontecer é que várias observações do JWST têm posto em causa alguns princípios da astrofísica que se consideravam essenciais para a elaboração dos modelos cosmológicos actualmente estabelecidos (aprecie-se aqui um abstract de um caso que foi publicado há apenas três dias, de uma estrela que foi encontrada na Nuvem de Magalhães... e não devia lá estar). Esses modelos explicativos que estão a ser postos em causa assentam na existência de uma matéria escura (dark matter) e de uma energia escura (dark energy) que, não tendo sido detectados até agora, são elementos indispensáveis para as explicações actualmente aceites sobre as leis que regem o Cosmos (que haja alguma condescendência para com a simplicidade desta explicação...). Regressemos então ao vídeo inicial e à discussão que ele contém, discussão essa que incide sobre o trabalho de um académico chamado Rajendra Gupta que lecciona na Universidade de Ottawa (Canadá) e que propõe um modelo cosmológico alternativa que me parece dispensar a matéria e a energia escura. Em contrapartida, o Universo seria muito mais antigo - o dobro do tempo - do que aquilo que fora considerado até aqui (analise-se o abstract abaixo). Eu bem sei que estes serão temas que escaparão ao interesse e à compreensão de 99,99% dos leitores de blogues - e de todas as publicações de rede social, de resto. Rivalizando com o do doutor Gupta, estarão a aparecer outros modelos cosmológicos mais compatíveis com os avanços produzidos pelas observações do JWST. Mas é aqui, num assunto que mobiliza claramente o uso da inteligência, que eu gostaria de ver concretizado - na prática - o contributo da tão propalada «inteligência artificial». Fico à espera de um modelo cosmológico alternativo elaborado por uma máquina...

Não vá eu manter a convicção que, naquela expressão, a única palavra verdadeira é «artificial», o resto é uma alcunha com ressonância mediática, nivelada por aquilo que em geral, as pessoas conseguem conceber como inteligência...

13 fevereiro 2024

QUATRO LUAS DE SATURNO

Esta é uma fotografia recolhida em Setembro de 2011 pela sonda Cassini, que permaneceu na órbita de Saturno estudando os seus fascinantes anéis e os seus satélites entre 2004 e 2017. O interesse da fotografia é que a imagem conjuga quatro desses satélites (embora eles sejam muitos: contaram-se até agora 145!) Ao fundo, atrás dos anéis, está o maior dos satélites de Saturno, Titã, uma nebulosa Lua que, abriga uma atmosfera espessa, por debaixo da qual existem lagos de metano líquido que poderão conter bolhas de moléculas orgânicas. Abaixo dele, escondido sob a crosta de Titã, os cientistas supõem que poderá haver um oceano global composto predominantemente por água e amónia. Em frente a Titã vemos flutuar a Lua Dione, em que a sua superfície está marcada por penhascos brilhantes que se supõem ser criados pelas fracturas tectónicas de uma espessa crosta gelada que se pensa ocultar o próprio oceano de água salgada daquela Lua. Os outros dois satélites são muito menores. Na extrema direita da imagem orbita Pandora, logo imediatamente depois do Anel F. Pandora é uma dos dois pequenos satélites pastores que ajudam a moldar o Anel fino e discreto mais externo do extenso Sistema de Anéis do Planeta. E, se olhar mais atentamente para a esquerda, dentro do sistema de Anéis, verá um hiato. Essa é o Hiato de Encke que divide o grande Anel A de Saturno, e é definido/mantido por , o mais interior dos satélites de Saturno, um pequeno pedaço de rocha com 35 x 23 km com um aspecto que faz lembrar um ravioli (Pandora, à direita, e Pã, à esquerda, estão assinalados na réplica abaixo). A fotografia é espectacular.

28 dezembro 2023

KOHOUTEK, O COMETA DO SÉCULO

(28 de Dezembro de 1973 foi a data em que o cometa Kohoutek atingiu o seu periélio. O texto que se segue é uma republicação, explicando em que consistiu esse magnífico fiasco sideral)
A coisa anunciava-se de arromba. Mas, melhor que as minhas explicações, deixo-as para a imprensa da época (Dezembro de 1973), citando-a: Pouco depois do Natal e até Janeiro de 1974, os céus dar-nos-ão um espectáculo de beleza surpreendente – um cometa, ou melhor, um senhor cometa! Chama-se Cometa Kohoutek (pronuncia-se Caútec) em homenagem a quem o descobriu, Lubos Kohoutek, astrónomo do Observatório Hamburgo, em Bergedorf, Alemanha Ocidental, promete ser o mais extraordinário corpo celeste jamais observado pela humanidade. O seu brilho poderá alcançar cerca de um quinto da intensidade luminosa da lua cheia, sendo portanto mais brilhante que o famoso Cometa de Halley, que tornou a aparecer em 1910, e a sua longa cauda deverá estender-se por cerca de um sexto do nosso horizonte celeste. Seu núcleo brilhante terá uns 16 mil quilómetros de diâmetro, e sua cauda vaporosa arrastar-se-á por milhões de quilómetros. Arrebatadoramente núbil esta última passagem, não é verdade? Este é apenas o princípio da notícia que as Selecções do Reader’s Digest dedicavam ao assunto nessa sua edição de Dezembro de 1973, que prossegue no mesmo espírito entusiasmado. Até se lhe perdoa a omissão, bem na lógica da revista e da Guerra Fria, ao facto do descobridor e padrinho do cometa, Lubos Kohoutek, apesar de trabalhar na Alemanha Ocidental, como se escreve, ser um checoslovaco… Mas é apenas no parágrafo seguinte que o jornalista utiliza o cognome que a comunicação social já então havia consagrado para o fenómeno: o Cometa do Século! E esta nem sequer era a publicação mais entusiasmada: lembro-me até de uma revista, daquelas que privilegiava a fotografia, no estilo da Paris-Match francesa ou da Manchete brasileira, fazer uma montagem com uma antecipação de como seria a paisagem das noites das grandes capitais do Mundo sob a fluorescência do Kohoutek… Como o fim da citação acima com a sua referência à cauda vaporosa (de noiva?), tudo aquilo parecia mais um daqueles acontecimentos jornalísticos do Século… O aborrecido é que os jornalistas não se conseguem aperceber que os fenómenos científicos podem não se dispor a colaborar com os seus cabeçalhos... Não se pode prognosticar que um cometa será do Século daquela mesma maneira segura que (mais) um casamento real o será – do Século e sempre do mesmo Século… Em termos científicos simples, pôs-se a hipótese que o Kohoutek fosse um cometa jovem originário da Nuvem de Oort, o que o tornaria muito mais brilhante que os outros. Porém, quando a notícia da descoberta chegou ao conhecimento público os jornalistas já haviam transformado essa hipótese numa certeza… Dois meses antes, em Outubro de 1973, já os cientistas sabiam que a hipótese afinal não se confirmava, mas aí já o delírio começara: ele era livros explicativos, selos comemorativos… Por alturas do Natal veio a constatação (abaixo): tratava-se de um fenómeno interessante mas muito pífio, consideradas as expectativas criadas. Esquecido na actualidade, apetece dizer do episódio que, de fama secular só mesmo a de Fiasco Sideral do Século.
Clicar em cima da fotografia para a ampliar. Ela data de 6 de Janeiro de 1974 quando o cometa estava mais visível, depois do periélio a 28 de Dezembro de 1973, e inclui como referências Júpiter e Vénus, astros fáceis de identificar por quem costuma observar o céu.

12 novembro 2023

AS NUVENS DE MAGALHÃES E OS ASTRÓNOMOS PREOCUPADOS COM A VIOLÊNCIA COLONIAL

Comecemos por explicar que as Nuvens de Magalhães são duas, duas galáxias anãs próximas da nossa própria galáxia, a Via Láctea (a proximidade é um conceito relativo, da ordem dos 160 a 200 mil anos-luz de distância). Nesta espectacular fotografia acima podemos vê-las às duas (Grande e Pequena) devidamente assinaladas - apesar de observáveis a olho nu, elas só podem observadas a partir do hemisfério Sul - justapostas à mancha de estrelas em diagonal correspondente ao plano da Via Láctea. Mas, porque elas só são observáveis no hemisfério Sul, a sua descoberta para a astronomia europeia data apenas do século XV, com as viagens marítimas dos portugueses para Sul do Equador. Terá sido esse um dos factores tomados em conta quando, no século XIX, se quis proceder a uma normalização das designações astronómicas, o que levou a comunidade científica de há uns 200 anos a baptizá-las de Nuvens de Magalhães, já que o cronista da viagem de circumnavegação daquele navegador português tinha sido um dos primeiros a fazer registo delas. Desde que foram baptizadas, muito se descobriu a seu respeito das duas nuvens e muito evoluiu a percepção daquilo que ignoramos a seu respeito. Por exemplo, em 1987, eclodiu uma supernova na Grande Nuvem de Magalhães (SN 1987A), um momento verdadeiramente histórico para a Astronomia.

Hoje, ao ler o The Guardian, apercebi-me que há um outro problema: o da nomenclatura. Diz o título do artigo que, por ser um «colonialista violento», «Magalhães não merece ter o seu nome nos céus», na opinião de «astrónomos». Ao ser apresentada nesta forma tão assertiva, vale a pena identificar e escrutinar quem são os «astrónomos» que têm a opinião que dá origem ao artigo. O plural do título está escrupulosamente certo, mas apenas porque são escrupulosamente dois os astrónomos consultados pelo jornal. Uma delas chama-se Mia de los Reyes, tem 24 anos, foi uma criança prodígio, e foi ela a autora de um artigo científico publicado há dois meses numa revista científica que terá sido o detonador deste outro do The Guardian. (é o denominado - cientificamente - efeito carambola da asneira...) O outro chama-se David W. Hogg, ensina na Universidade de Nova Iorque, e o que acrescenta como argumento é que «a questão principal é que as Nuvens não foram uma descoberta sua» (de Magalhães). Dispenso-me enumerar os milhares de exemplos a que esta cláusula restritiva se poderia aplicar também. O que eu quero enumerar é o número de opiniões de «astrónomos» em que o artigo se sustenta: são dois. Em contraste com os números astronómicos, citando apenas dois astrónomos, este jornalismo consegue escrever um artigo de jornal invocando que a opinião de dois é a de toda a classe... Além da estupidez inerente, de que os autores dos artigos não se demarcam, pelo mesmo processo de generalização, já que encontrei (outros) dois a dar divulgação ao disparate, atrever-me-ia a concluir que «os jornalistas» são estúpidos.

18 junho 2023

ANGÚSTIAS DE LUXO - AQUELES QUE VIVEM DE ASSUSTAR O PRÓXIMO

Durante praticamente toda a sua existência, a Humanidade viveu com as catástrofes que lhe podiam vir a acontecer, algumas aconteciam (terramotos, inundações, epidemias), mas viveu na ignorância feliz de que um dia talvez um asteróide lhe pudesse cair em cima. A disciplina da astronomia é milenar, a astronáutica tem 66 anos, mas os meteoritos eram coisas que aconteciam. Foi só no século XXI que se atingiram as capacidades técnicas para detectar muito pequenos pedaços de matéria a vogar no espaço próximo. Detectá-los e calcular as suas trajectórias é uma tarefa ingrata e cheia de incertezas. E aqui acaba a ciência, e começa o trabalho estúpido de quem vive de assustar os outros, a pretexto de seja do que for...

17 março 2023

UM VULGAR METEORITO LUNAR

(Republicação)
Desde 2005 que a NASA tem um programa que monitoriza os meteoritos que atingem a face visível da Lua. O ritmo tem-se cifrado na ordem de uns 30 a 40 por ano. São acontecimentos de uma espetacularidade interessante. Ao contrário do que acontece na Terra, em que a atmosfera os desbasta, muitos deles até ao total desaparecimento, na Lua, a sua ausência, faz com os meteoritos cheguem pristinos ao ponto de impacto na superfície, ocasionando explosões espectaculares - é preciso é que haja um dispositivo a observá-las... A 17 de Março de 2013, cumprem-se hoje precisamente dez anos, houve um calhau que vogava pelo espaço, com uns 30 a 40 cm de diâmetro e um peso estimado de 40 kg, que chocou contra a superfície lunar. Por muito insignificante que fosse a dimensão do objecto, a questão é que o calhau viajava a uma velocidade de 25 km por segundo. A explosão do impacto, que terá equivalido ao efeito da detonação de 5 toneladas de TNT, foi momentaneamente visível da Terra (abaixo), deixando na superfície uma cratera com 18 metros de diâmetro.

17 maio 2022

QUEM VÊ UM BURACO NEGRO, JÁ TERÁ VISTO TODOS...

O mundo noticioso-científico terá sido muito recentemente abalado com a revelação da primeira imagem do buraco negro existente no centro da nossa galáxia. No frenesim noticioso, terá ficado ofuscado o facto de já se tratar da terceira vez que o assunto da primeira imagem de um buraco negro saltava assim para a ribalta noticiosa. Como se constata acima, antes de 12 de Maio de 2022, já em 10 de Abril de 2019 e outra vez repetida em 23 de Setembro de 2020 se evocara o carácter histórico desse outro buraco negro que estava situado no centro da galáxia M87. O pormenor que escapará aos leitores em geral é que a galáxia M87 se situa a 53 milhões de anos-luz da Terra. Este buraco negros que agora foi descoberto - ou melhor fotografado - no centro da nossa galáxia, a Via Láctea, situa-se apenas a 26 mil anos-luz de nós. Portanto, pode ser - hipoteticamente - muito mais ameaçador, embora estas dimensões verdadeiramente galácticas perturbem completamente aquilo que possamos realmente compreender sobre o fenómeno e a ameaça de sermos engolidos pelo dito cujo. Ou, como diziam os gauleses de Astérix a propósito da catástrofe do céu lhes vir a cair em cima da cabeça: amanhã não há de ser a véspera desse dia. Concretamente é apenas isto que se me ocorre sobre o tema. Mas superficialmente e sobre aquilo em que a comunicação social tem posto o maior empenho em nos dar a conhecer, o aspecto do buraco negro, acho muito honestamente, e para os padrões de tecnologia à vista, quem já viu um buraco negro, já viu todos...

11 fevereiro 2022

CONSIDERAÇÕES SOBRE AQUILO QUE «ESTIMULA» O PAÍS - O «RICARDINHO DOS EXOPLANETAS»

Quando o presidente da República recebe a selecção de futsal, e se lê nas notícias que a sua vitória no campeonato europeu «é um grande estímulo para o país», eu fico com muita pena por não me sentir nada estimulado... Pelos vistos, eu e o país (tal qual esse país é concebido pelo ocupante do palácio de Belém) não compartilhamos as mesmas «estimulações». Em contraste com os campeões europeus da modalidade, o que me «estimula» é descobrir numa página ontem publicada no Astronomy & Astrophisics um artigo em que se anuncia a descoberta de um terceiro exoplaneta a gravitar à volta da Próxima Centauri (a estrela mais próxima do Sol). A descoberta é particularmente interessante porque, para além da «proximidade» da descoberta, este terceiro planeta que agora se deduz ali existir, orbitando a estrela muito próxima dela e em cerca de apenas 5 dias, tem uma massa bastante inferior à do planeta Terra (talvez o dobro da do planeta Marte), o que a torna uma descoberta extremamente rara, já que estes planetas menores são muito mais difíceis de detectar, considerando os métodos e as distâncias em causa (só 0,1% dos exoplanetas encontrados até hoje têm massas idênticas ou inferiores à da Terra). Mas, sobretudo, aquilo que me leva a trazer o assunto para aqui, aquilo que verdadeiramente me «estimulou» a publicar este poste, é o facto do primeiro signatário do artigo e quem o apresentou publicamente foi João Faria (também J.P. Faria), que é um investigador do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço. Mesmo não o conhecendo, acho que o reconhecimento do mérito lhe é devido (eis o seu CV), tanto mais que é «um grande estímulo para o país» apercebermo-nos de outras qualidades dos nossos compatriotas, para além de dar pontapés numa bola e/ou treinar pessoas para darem pontapés numa bola com mais eficácia. O que não invalida que, para popularizar o significado das investigações e descobertas complexas de João Faria, e para as tornar mais próximas da compreensão do português comum, o possamos alcunhar - é só uma sugestão... - de o Ricardinho dos exoplanetas... assim, talvez o Marcelo o convide a ir a Belém. E a visita aparecer nas notícias.

10 outubro 2021

O PROFESSOR PICKERING E A VIDA NA LUA

10 de Outubro de 1921. Há cem anos "havia" vida na Lua. Pelo menos, era esse o resultado do trabalho de observação e fotografia que decorrera entre «Agosto de 1920 e Fevereiro de 1921» levado a cabo por um «celebre astrónomo de Harward» (sic) chamado William Pickering. Segundo essas observações, viam-se na superfície lunar «vastos campos de vegetação, que florescem rapidamente e desaparecem num prazo máximo de 11 dias». Hoje sabemos que as observações do «célebre astrónomo» eram uma total fantasia. E, no entanto, esclareça-se que, desta vez o jornal não inventara o estatuto do cientista e que William Pickering era realmente um reputado astrónomo, que já recebera dois prémios científicos (1905 e 1909) pelos seus trabalhos. Para além disso, Pickering foi o criador de uma escala que mede a turbulência atmosférica que afecta as observações astronómicas. Tratava-se portanto de alguém que se levava e era levado a sério na astronomia. Só que, e porque as ciências são mesmo assim, nesta sua "descoberta" de "vegetação" na Lua, Pickering estava completamente enganado. Mas estas lições de há cem anos não se perdem, porque elas nos permitem acolher as notícias científicas da actualidade, como esta abaixo, de um exoplaneta (planetas de outro Sistema Solar) que é tão quente que chega a chover ferro(!), com a indispensável circunspecção. O que é que a Humanidade já poderá saber a respeito do exoplaneta WASP-76b, situado a 636 anos-luz da Terra, em princípios de Outubro de 2121?...

23 setembro 2021

O MEU PRIMEIRO CONTACTO COM A VIDA INTELIGENTE NO UNIVERSO

23 de Setembro de 1971. A notícia da página 15 do Diário de Lisboa dava conta de uma conferência entre norte-americanos e soviéticos onde se discutira a existência de civilizações extra-terrestres. E como seria possível comunicar com elas. Radioastronomia era uma palavra nova para mim. E, por uma vez, o assunto das civilizações extra-terrestres não aparecia misturado com a - na altura - indispensável conversa sobre os discos voadores, que nos últimos 25 anos haviam aparecido em todo o lado e que era então o tópico que verdadeiramente cativava leitores. O nome predominante no artigo era o do então desconhecido Carl Sagan. Mal eu imaginava a notoriedade que ele viria a alcançar dali por uma década com a apresentação da série televisiva Cosmos. depois transformada também em livro.
Só já nessa altura (da fama de Sagan), é que vim a descobrir que, da cooperação entre as duas partes - e recorde-se que se estava em plena Guerra Fria e era muito raro cientistas dos dois blocos cooperarem entre si - se produzira mesmo um livro co-assinado por Carl Sagan e pelo astrofísico soviético Iosif Chklovski - A Vida Inteligente no Universo. Traduzido para português pela Europa-América, foi um livro que comprei (1.450$00) e li com um interesse progressivamente cada vez mais desapontado: fora publicado originalmente em 1966 e os mais de quinze anos entretanto decorridos tornavam-no obsoleto. Com ele aprendi alguma coisa sobre a vida inteligente no universo, mas de toda essa vida inteligente retive sobretudo a vida inteligente dos editores que se aproveitam dos surtos de popularidade dos autores (Sagan) para impingirem tudo o que ele tenha escrito...

28 julho 2021

AS TRADICIONAIS NOTÍCIAS ESTIVAIS SOBRE A DESCOBERTA DE ÁGUAS ESPACIAIS

É uma tradição. Por ser Verão (deve ser do calor) que, para refrescar, se regista uma quase compulsão jornalística para ir descobrir a presença de água noutros corpos celestes. Durante uma década, como aqui me fartei de gozar no Herdeiro de Aécio, o local era a Lua, onde todos as anos se redescobria água. Mas o mais irritante (e cientificamente medíocre) nem era essa insistência ser repetitiva: era o facto de que o anúncio da existência da descoberta de água na Lua ser feito sem qualquer contexto, nomeadamente esclarecendo que a concentração dessa água era 100 vezes inferior à que existia no deserto do Sahara na Terra(!). Assinale-se que a moda da temporada é a de viajar para longe da nossa Lua, ultrapassando Marte (que também tem água!), até às paragens das Luas de Galileu.

17 outubro 2020

AÍ PODE VIR NOVA HISTERIA SOBRE OS «VENUSIANOS»!

Depois de há um mês, o mundo científico e, sobretudo, o mundo jornalístico ter sido abalado pela descoberta da fosfina ou fosfamina na atmosfera venusiana, eu tremo ao pensar no terramoto que o mundo mediático poderá vir a registar, se se confirmarem os resultados contidos num trabalho entretanto apresentado para publicação na Universidade de Cornell, em que os seus autores afirmam terem encontrado glicina naquelas mesmas altitudes da atmosfera venusiana onde se havia detectado a fosfina. Mais espectacular de noticiar que esta última, a glicina é um dos aminoácidos codificados pelo código genético dos seres vivos no planeta vizinho, a Terra, e portanto um pretexto ainda melhor para publicar caixas e cabeçalhos especulando sobre a existência de venusianos. Como aconteceu há um mês, o que eu não imagino nesses títulos são explicações verdadeiramente úteis, refreando entusiasmos, como a menção de que há para aí uns 500 aminoácidos, que só 20 deles estão presentes no código genético e que, desses 20, a glicina é o mais simples de todos. Se o trabalho for aceite, o que creio ser provável que aconteça, os leitores deste blogue já estão prevenidos que a nova moda científica irá ser a das especulações sobre a vida microbiana a grande altitude em Vénus! Convirá (re)ler alguns conceitos como as teorias de Alexandre Oparin e a experiência de Miller e Urey. A propósito destas duas últimas, e em registo menos exuberante, foi publicado no entretanto no youtube (isto é, já depois da descoberta da vida em Vénus), um vídeo explicando as simulações do que pôde ocorrer, através de um programa de computador desenvolvido na Polónia, em que se ensaiam as várias combinações como as moléculas mais elementares se puderam associar, por forma a assumir as formas complexas da química orgânica que agora conhecemos. É muito giro, mas é preciso gostar do assunto.

06 outubro 2020

O ANÚNCIO DA DETECÇÃO DO PRIMEIRO EXOPLANETA

6 de Outubro de 1995. Anúncio da detecção do primeiro planeta extrasolar por dois astrónomos suíços, Michel Mayor e Didier Queloz. Os dois virão a receber o Prémio Nobel da Física em 2019 e a nova categoria de planetas por eles detectada veio a receber a designação de exoplanetas. Actualmente conhecem-se mais de 4.000 exoplanetas, mais precisamente 4.281, contados no último recenseamento de princípios de Julho deste ano. Mas há mais 2.724 candidatos à espera de confirmação. As características dos planetas que têm vindo a ser detectados por estes novos métodos supera o que a imaginação humana pudera antecipar. Uma última novidade é a detecção de exoplanetas que andam por aí, tresmalhados, em viagem entre as estrelas!

14 fevereiro 2020

O PONTO AZUL-CLARO

14 de Fevereiro de 1990. É a data em que foi tirada a fotografia acima. O pontinho no meio do negro envolvente é o planeta Terra, observado a uma distância um pouco superior a 6 mil milhões de quilómetros, o equivalente a 40,5 Unidades Astronómicas (a distância média da Terra ao Sol). A autora da fotografia foi a sonda Voyager 1, naquela altura já há vários anos reformada da sua missão principal aos planetas Júpiter (1979) e Saturno (1980). Terá sido ideia do astrónomo Carl Sagan a utilização das câmaras de bordo, ainda operacionais, para realizar esta fotografia, não pela sua valia científica (nula), mas pelo seu valor simbólico, da nossa pequenez perante o Cosmos.
A fotografia celebrizou-se com o nome de O Ponto Azul-Claro (Pale Blue Dot, no original*) e foi esse mesmo título que Sagan adoptou para o livro que publicou alguns anos depois (acima, a versão portuguesa, publicada pela Gradiva, data de 1995), onde a primeira história do primeiro capítulo - intitulado você está aqui - é precisamente a desta fotografia, feita há precisamente trinta anos. Ali se lê que a transmissão para a Terra dos 640 000 pixels que contém cada uma das 60 fotografias então feitas, demorou depois três meses e meio a recuperar, porque cada um desses pixels, mesmo viajando à velocidade da luz, demorava mais de cinco horas e meia a cá chegar.
* Um exemplo de que as traduções da Wikipedia podem ser de uma mediocridade confrangedora é ver que a entrada sobre este assunto tem o título de «Pálido Ponto Azul»...

12 dezembro 2018

VEJA AQUI AS NOTÍCIAS DO OBSERVADOR, DE UM RIGOR CIENTÍFICO INULTRAPASSÁVEL

Antes de ler o que escrevi, sugiro que os leitores comecem pela notícia abaixo, publicada ontem no Observador, tomando nomeadamente em consideração a passagem repetidamente enfatizada.
Se acabou de ler o artigo, o que lhe proponho em alternativa à audição do barulho do vento marciano que ali lhe é proposta, é a assistência - ainda que por pouco mais de três minutos - a uma conferência que já teve lugar há mais de seis anos, onde a conferencista, a professora de astronomia Carolin Crawford, recorda o episódio (considerado épico) da chegada da sonda Huygens a Titã. Como ela recorda, durante a descida, um microfone instalado na sonda foi captando os sons da atmosfera de Titã. Aconteceu em 14 de Janeiro de 2005 (no próximo mês completar-se-á o 14º aniversário...).

A jornalista responsável pela redacção não terá lido em nenhum site de confiança (como o da NASA) a afirmação de que se tratava d"o primeiro som captado noutro planeta". Deu-lhe para ali. Tivesse feito uma pesquisa mínima e teria chegado à conferência acima de Carolin Crawford onde ela explica até o que aconteceu (de mal) com as tentativas anteriores de captar o som da atmosfera marciana. Isso mas também o facto de já existirem registos sonoros da atmosfera de Titã (abaixo). Há um pormenor que servirá para Marta Leite Ferreira brandir, na tentativa de amenizar a dimensão da incompetência:
É que Titã não é tecnicamente um planeta, mas sim um satélite de Saturno. É frequente assistir-se a discussões assim, em que a parte perdedora se agarra a tecnicismos para não conceder a razão. Neste caso (se o caso se puser, pois suspeito que a questão estará muito para além dos conhecimentos da jornalista), convém ter presente que Titã é até ligeiramente maior que Mercúrio. Mas não valerá a pena elaborar muito mais sobre um caso que se afigura transparente: quem escreveu sobre o assunto não percebe a ponta de um corno dele. José Manuel Fernandes é que não se arrisca a escrever sobre astronomia para o apanharmos assim...

21 agosto 2018

ÁGUA NA LUA E «ÁGUA DE LUA»

Em chegando Agosto e as férias, quando os assuntos secam, tornou-se tradição que alguns tópicos jorrem para os cabeçalhos da imprensa, de que exemplo recorrente é a história da existência de água na Lua. Como se pode apreciar mais abaixo, é um desafio anual à imaginação dos jornalistas redigir a mesma notícia num formato que pareça diferente (2009, 2010, 2012, 2013, 2015, 2017). A versão deste ano, pelo menos a do Observador, de onde se recolheu o cabeçalho acima, é que desta vez é a primeira «prova directa e definitiva» da existência de gelo na lua. Ora, como muito bem assinala o primeiro comentário à notícia supra, «prova directa e definitiva seria ir lá e encontrá-lo» (ao gelo). Ora essa façanha, até agora, e como eu assinalei em paródia à mesmíssima notícia publicada naquele mesmo jornal no ano passado, só mesmo o Tintin a terá feito quando andou por aquelas paragens. Enfim, tanta é a repetição, que eu também me sinto obrigado a invocar novas paródias para acompanhar tanta descoberta científica, e a deste ano é «Água de Lua», interpretada por Djavan...

22 junho 2018

A DESCOBERTA DE CARONTE

22 de Junho de 1978. Quarenta e oito anos depois da sua própria descoberta em 1930, descobre-se que Plutão possui um satélite, que veio a ser posteriormente baptizado de Caronte. Como se percebe pelas fotografias originais da descoberta (acima), a existência de Caronte terá sido mais deduzida do que propriamente observada - Caronte é a protuberância assinalada a amarelo na foto da esquerda.
Mas, mais do que a descoberta de Caronte, o que se pretende destacar por ocasião do 40º aniversário do feito científico, é a evolução que foi registada pelos instrumentos de observação. A fotografia seguinte de Plutão com Caronte que aqui se apresente foi feita pelo telescópio Hubble 16 anos depois da descoberta, já em 1994. Planeta e satélite vêem-se perfeitamente distintos. E vinte e um anos depois, em 2015, quando a sonda New Horizons recolheu imagens próximas do sistema, existem agora amplos detalhes da superfície dos dois corpos celestes.