6 de Março de 1971. Em mais um daqueles artigos de fundo, transcrições de jornais estrangeiros (neste outro caso, o Washington Post), no Diário de Lisboa podia ler-se uma desenvolvida análise sobre o que era então um dos mais desconhecidos e desinteressantes sítios do globo: o Golfo Pérsico. Ao redor do Golfo, distribuíam-se um conjunto de pequenos emirados que, de uma forma ou outra, haviam caído sob tutela britânica no período do apogeu do império. Só que agora era tempo de os ingleses partirem, enquanto que a descoberta de jazidas de petróleo e gás natural antecipava uma mudança significativa naquela região. E antecipavam-se as cobiças dos vizinhos - sobretudo Arábia Saudita e Irão - perante o previsível vácuo de poder. Os nove emirados só se tornarão totalmente autónomos a partir da segunda metade de 1971: em primeiro lugar o Barein, em Agosto de 1971, depois o Qatar em Setembro e finalmente os outros sete, que formarão uma confederação denominada Emirados Árabes Unidos em Dezembro de 1971. Mas nada do que o autor então escrevia poderia antecipar o que estava para acontecer: nos 50 anos que se seguiram as economias agregadas dos três países ter-se-ão multiplicado mais de 200 vezes e a população conjunta, que rondava então os 500.000 habitantes, multiplicou-se quase 30 vezes. Hoje é menos provável perguntar-se onde é que «isso» - o Dubai, por exemplo - fica...
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06 março 2021
15 fevereiro 2013
EMIRADOS DO GOLFO PÉRSICO – OS MILAGRES DA DESSALINIZAÇÃO
Quando Christian Godard (1932- ), o desenhador de Martin Milan, concebeu originalmente a aventura O Emir dos Sete Beduínos, na qual o seu herói visitava um imaginário (e riquíssimo) emirado de Kahk-Haweit, estava-se em 1971 e alguns dos emirados que lhe poderiam ter…
…servido de inspiração (como o Abu Dhabi, o Bahrein, o Dubai, ou o Qatar), tinham acabado de se tornar independentes. A riqueza em Kahk-Haweit é excessiva, e Godard não se poupa a ironias para a realçar, a começar pelo Mercedes do varredor de ruas até à sobrelotação dos bancos…
O problema de tal paraíso seria a falta de água. A água que é rara, obtida industrialmente e que não presta. A associação dessa falta de água com a riqueza torna-se pretexto para mais algumas piadas com os chafarizes de Kahk-Haweit a dispensarem champanhe Moët & Chandon de 1952, a rega…
…agrícola a ser feita usando sumo de ananás e com os motores a serem refrigerados com vinho novo Beaujolais… Mas o humor da história aflorava um dos grandes problemas de sempre naquela região do Mundo: a falta de água potável, que fizera que a região fosse escassamente habitada.
Contudo, com as grandes (e eficazes...) unidades de dessalinização construídas com a prosperidade do petróleo ultrapassou-se finalmente o problema. Nos últimos 40 anos, a população do Bahrein multiplicou-se por 6 vezes, a do Qatar por 16 vezes, a do Abu Dhabi e do Dubai por 30!
Agora, não havendo falta de água, que esta tem qualidade e não sendo preciso sequer que sejam os varredores locais a varrer as ruas, o novo problema político é que os privilegiados de ascendência local já se tornaram numa pequena minoria estimada em apenas 20% da população residente…
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21 janeiro 2013
AS COLOSSAIS COMPANHIAS AÉREAS DOS PAÍSES DO GOLFO
É conhecido como nem sempre sabemos dar valor àquilo que conseguimos manter. Atendendo à evolução do transporte aéreo, a permanência da TAP como companhia aérea nacional revela-se uma proeza. Em países europeus da mesma dimensão populacional da nossa (com 10,6 milhões de habitantes), as companhias de bandeira equivalentes desapareceram. Aconteceu com nomes históricos do transporte aéreo como a Sabena da Bélgica (11,0 milhões) e a Swissair suíça (7,9 milhões) em 2001, a Olympic grega (10,8 milhões) em 2009 e a Málev húngara (9,9 milhões) o ano passado. Esse resultado será fruto das circunstâncias históricas, do facto de termos tido um império colonial e/ou de existir uma diáspora portuguesa espalhada pelo mundo (actualmente em vias de se renovar e reforçar…), mas certamente parte do mérito pertencerá também à gestão da empresa.
Mas o propósito da introdução acima é, mais do que chamar a atenção para méritos que não têm sido reconhecidos, fornecer simplificadamente uma referência de grandeza de dimensão de uma companhia aérea: a TAP, que poderemos considerar uma empresa média do sector, explora actualmente uma frota de 55 aparelhos e tem uma encomenda de mais 12 (o futuro Airbus A-350). A referência é importante para avaliar o propósito dos países do Golfo, que se tornaram independentes há pouco mais de 40 anos (1971), e que têm vindo a utilizar os seus petrodólares para investirem em negócios globais (de que a televisão Al-Jazeera é um excelente exemplo), nomeadamente no transporte aéreo. E os investimentos são faraónicos. Começando pela menor, a Gulf Air do Bahrein (1,2 milhões de habitantes) explora uma frota de 35 aeronaves além de mais 42 encomendadas.
A Etihad Airways está baseada em Abu Dhabi, a capital do emirado homónimo (com uma população de 2,0 milhões), uma das unidades federadas dos Emirados Árabes, e a sua frota actual é composta por 67 aparelhos com mais 96 encomendados. A Qatar Airways é a companhia de bandeira desse país (1,9 milhões), com uma frota dupla da da TAP (118 aviões), perspectivando um crescimento exponencial (179 encomendas). Mas a campeã do optimismo é mesmo a Emirates, sedeada no Dubai (2,1 milhões), outra unidade dos Emirados Árabes, que adquiriu 191 aviões e se comprometeu a vir a adquirir outros tantos (192). Em conjunto, trata-se de uma frota composta por 411 aeronaves com compromissos para a aquisição de mais 509 nos próximos anos e intriga pensar onde é que estas companhias irão desencantar os passageiros que rentabilizem tais investimentos…
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24 fevereiro 2011
SOBRECARGA
Houve um terramoto na Nova Zelândia. Terão morrido centenas de pessoas. E há manifestações contestando os regimes no poder no Bahrein, na Líbia e no Yemen. Mas também há limites para a distribuição das simpatias e compaixões do público com tantos assuntos quentes no noticiário internacional. Por isso, tornou-se essencial seleccionar e optou-se pela Líbia cujo dirigente é o mais conhecido, mais exótico e mais mau – e assim o mais propenso a ser detestado, que é afinal aquilo de que o público gosta: enredos com bons e maus. Por fim, há ainda as consequências, como é o caso do aumento do preço do petróleo, por exemplo…Em suma, está-se num tal estado de sobrecarga informativa que até se deixou passar o 23 de Fevereiro e os 30 anos decorridos sobre a tentativa de Golpe de Estado em Espanha (1981) sem que a efeméride tivesse sido trabalhada devidamente. Só que, convém recordar como, ao contrário do jornalismo, a verdadeira importância histórica dos assuntos não se compacta às páginas ou ao horário disponível nos órgãos de informação. Para mais quando o importante por vezes é até a sua ausência, como será o caso da inexistência de notícias revolucionárias após as Revoluções que abalaram recentemente a Tunísia e o Egipto…
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21 agosto 2006
OS ÁRABES RICOS
As histórias das arábias referiam-se, nos tempos antigos, à prosperidade das grandes metrópoles do Islão como são os casos de Damasco, de Bagdade ou do Cairo. A partir do século XX essas histórias das arábias mudaram de local e de protagonistas, quer para os árabes nómadas da península Arábica, quer para os pescadores do litoral norte da península, que antes retiravam a sua subsistência da pesca no golfo Pérsico.Ao contrário de outros países onde houve lugar à descoberta de importantes jazidas de petróleo, mas onde a população era (e é) numerosa (como o Irão ou o Iraque), os países da península eram todos escassamente povoados (ainda hoje a densidade populacional média é sete vezes inferior à portuguesa) e os benefícios dos rendimentos do petróleo tiveram um impacto profundo na população local.
Há o aspecto anedótico das esposas do Emir do Koweit que, tendo alugado um Boeing 747 para ir fazer compras a Paris, regressaram em dois, pois precisaram de um avião suplementar para trazer as compras… Mas há também o aspecto (único no mundo) da cidade do Dubai nos Emirados Árabes, com uma população de 850.000 pessoas, ter como fonte exclusiva de água potável, a água do mar dessalinizada.
O conjunto dos países da península (com excepção do Yemen, que tem muita gente, não tem petróleo e é uma republica…) agrupou-se em 1981 numa espécie de clube selecto de seis países monárquicos chamado Conselho de Cooperação para os Países Árabes do Golfo. Compõem-no a Arábia Saudita, Omã, o Kuweit, o Bahrain, o Qatar e os Emirados Árabes Unidos, uma federação de 7 emirados. A bandeira da organização ornamenta este post.
Em conjunto, o PIB dos seis países da organização equivalerá sensivelmente ao do Irão, para cerca de metade da população, e tanto a produção petrolífera como o nível de reservas actuais do conjunto corresponderá ao quádruplo dos do seu grande vizinho do norte. Mas o clube – cujo membro dominante é evidentemente a Arábia Saudita (75% da população total) – também tem as suas ameaças.
Há membros que já estão a esgotar as suas reservas de petróleo. É o caso do Bahrain. Embora ainda continue por mais algum tempo (cerca de 10 anos) a extracção de gás natural e tenha havido uma diversificação da economia antevendo o esgotamento dessas fontes de rendimento é sempre arriscado prever as consequências económicas e sociais do fim destes ciclos de prosperidade.
Seguir-se-á Oman, dentro de 20 a 25 anos. E depois será a vez do Qatar. Mas aquele problema que consideramos principal, e que poderá constituir uma verdadeira ameaça para o bem-estar dos árabes ricos está no presente das sociedades dos vários países da organização: cerca de 40% de toda população (36,7 milhões em Julho de 2006, segundo os dados da CIA) é composta por imigrantes.
Os imigrantes são um conjunto bastante heterogéneo. Há uma apreciável quantidade composta por imigrantes sazonais sozinhos (nos Emirados Árabes há três homens para cada mulher adulta) que são fortemente dissuadidos de ali procurarem estabelecer residência definitiva (as políticas poderão variar de país para país e conforme a naturalidade do imigrante mas estamos a falar do padrão dominante).
Quanto à origem dos imigrantes, há que considerar em primeiro lugar, o conjunto de quadros norte-americanos, europeus e japoneses (certamente virá a haver chineses no futuro…) que estão encarregues de supervisionar na origem os processos de extracção do petróleo que os seus países precisam. São poucos e a esmagadora maioria não faz tenção de ficar, por isso não inquietam as autoridades.
Depois, há que considerar a imigração árabe qualificada (nomeadamente egípcia, libanesa e também palestiniana) que, aparentemente é fácil de integrar, mas pode ser potencialmente perigosa, por estar habituada a níveis superiores de intervenção política, estranhos às sociedades locais. Uma boa fracção dos intervenientes nos atentados de 11 de Setembro, discípulos de bin Laden, pertencia a este grupo.
A ocupação dos postos de quadros médios e inferiores e de trabalho não qualificado tem sido disputada entre oriundos dos países árabes e de países asiáticos. A vantagem sociológica da contratação dos primeiros parece ser compensada com a vantagem económica de recorrer aos segundos. Mesmo assim é nítido que a preferência vai para imigrantes oriundos de países muçulmanos da Ásia como o Paquistão, a Indonésia ou o Bangladesh.
Mesmo assim, estas sociedades prósperas do petróleo devem-se contar entre as mais cosmopolitas da actualidade, onde aos países já mencionados, há que adicionar ainda naturais da Índia, das Filipinas, do Sri Lanka ou do Irão, para não falar dos países árabes adjacentes como o Iraque, Yemen, Síria ou Jordânia, a fazer lembrar a diversidade tradicional dos Estados Unidos e a menos tradicional da Europa.
Por não terem a atenção mediática e por não existirem as liberdades políticas do Ocidente, nomeadamente a de expressão, não se pense que tudo esteja bem nos países árabes ricos. A técnica de impedir os imigrantes indesejados de se fixarem já teve os fracassos suficientes – na Alemanha, com os Gastarbeiter*, ou na África do Sul, com os bantustões** – para se perceber que não tem sucesso a longo prazo.
Outro dia, penso que terá Vasco Pulido Valente a perguntar porque razão no Ocidente não se leva a sério a ameaça do terrorismo islâmico com a mesma seriedade com que outrora se levou a do comunismo, durante a guerra-fria. Arrisco a resposta que talvez a sociedade ideal de bin Laden, não sendo deste mundo, não seja suficientemente tangível para que as pessoas a levem a sério, como acontecia com a União Soviética.
Mas o Islão teve e está a ter, com o exemplo destes países, uma oportunidade de mostrar as sociedades que a sua civilização pode criar, quando provida (!) de recursos. Suspeito que essa sociedade, quando vista da perspectiva de – por exemplo – um paquistanês emigrado em Riade, é capaz de não lhe deve parecer assim tão mais atractiva – ideologias à parte – do que parecerá a um seu compatriota a sociedade de Londres.
É questão de nos perguntarmos se os países árabes ricos também não correm o risco de vir a ter, à sua maneira, o seu choque de civilizações…
* Traduzida literalmente, a expressão quer dizer trabalhador convidado. Convidado porque não se destinava a ficar na Alemanha para sempre, bem entendido...
** Os bantustões eram países artificiais criados pelo regime sul-africano de supremacia branca. A maioria dos trabalhadores eram nacionais desses países hipotéticos e podiam ser expulsos da África do Sul para o seu país em caso de conveniência...
NOTA: Os dados numéricos foram retirados do CIA Factbook.
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