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08 julho 2024

O DIA DO 7-1 DA ALEMANHA AO BRASIL

8 de Julho de 2014. O placard do jogo acima acabou com um Brasil 1 x Alemanha 7. Acresce à humilhação do muito mau aspecto da derrota, o facto de ela ter ocorrido em Belo Horizonte, durante o Mundial de Futebol, em que o Brasil estava a ser o anfitrião e quando as duas selecções disputavam já a meia-final, visando o jogo que decidiria o título. Para além da tragédia nacional que aquele placard representou, o Brasil destacou-se pela rapidez como fizeram humor da situação e como arranjaram logo um bode expiatório, o treinador Felipão.
E como é costume no Brasil, o(s) paineleiro(s) é que tinha(m) explicação para tudo! (abaixo) Aquele é um país em que o que é bom é ser-se paineleiro. Aliás, ontem e a propósito dos comentários nacionais às eleições franceses e aos golpes de rins a que se assistiu, percebeu-se que Portugal também é um bom país para se ser paineleiro

30 maio 2024

DEPOIS DE PEDRO ÁLVARES CABRAL, MAS ANTES DE... JORGE JESUS

30 de Maio de 2014. O jornal Público dá um destaque de duas páginas à história de um treinador de futebol português chamado Paulo Morgado que fora procurar fazer carreira para o Brasil. O retrato é de uma mediocridade confrangedora: «São clubes profissionais que trabalham como amadores. Os jogadores não respeitam os horários e os dirigentes são demasiado emocionais, chegando ao ponto de despedir treinadores no intervalo de um jogo. A maior parte dos técnicos não tira cursos há 15 ou 20 anos. E sem qualidade de treino, não há qualidade de jogo. Os jogos aqui não têm muita qualidade, são anárquicos. Os sistemas tácticos são ultrapassados. Ainda se usa muito o 3 ˣ 5 ˣ 2 e o chuto para a frente.» Se então se presumia que continuava a ser verdade que o Brasil era uma potência futebolística, nomeadamente por causa do manancial de jogadores dotados que gerava, a verdade é que parecia constituir uma benesse que esses craques fossem desde cedo jogar para o estrangeiro, para se habituarem a processos de trabalho verdadeiramente evoluídos. O que era irónico naquela situação é que o diagnóstico parecia estar bem feito, mas os próprios brasileiros recusavam-se a compreender que, sendo jeitosos a jogar a bola, eram uma merda em tudo o resto que se relacionava com a indústria do futebol. Incluindo a actividade de paineleiro de televisão. Cinco anos depois da notícia acima, podemos apreciá-los a boicotarem com toda a veemência a contratação do treinador português Jorge Jesus pelo Flamengo (abaixo).
...creio que aqui todos conhecerão o resto da história e os cinco títulos conquistados pelo Flamengo numa época (2019/20). Ao nível técnico de treinadores, já se ultrapassou a fase d«o 3 ˣ 5 ˣ 2 e o chuto para a frente» e o Brasil evoluiu imenso nestes últimos cinco anos, porque outros treinadores portugueses se seguiram a Jorge Jesus. Ao nível de dirigentes desportivos e, sobretudo, de paineleiros televisivos, isso é que eu já não sei, porque, mesmo já tendo abordado o assunto aqui no blogue, na verdade não presto grande atenção ao tópico. Também, não vale a pena: tendo evoluído bastante, o futebol no Brasil continua a ser, comparativamente, uma merda em relação ao futebol europeu. Espero, ao menos, que a maioria dos brasileiros se tenha tornado mais modesta e menos xenófoba no futebol, porque a lição que apanharam sobre qualidade do futebol foi dolorosa. Não todos: este exemplar da mediocridade vigente que aparece abaixo, por exemplo, resolveu fazer uma fita quando confrontado com aquilo que lhe tínhamos ouvido previamente mais acima sobre Jorge Jesus.

01 abril 2024

BRASIL EM FESTA - QUANDO O PODER POLÍTICO EMANA DO CANO DE UMA ESPINGARDA

(Republicação)
1 de Abril de 1964. Há precisamente 60 anos as altas patentes militares brasileiras desencadeavam um golpe de Estado que os tornava senhores do poder político. Acima, identificam-se (de binóculos) o general Costa e Silva que representava a facção mais radical entre os generais e, a seu lado e à civil, o general Castelo Branco, que encabeçava uma facção tida por mais moderada e que iria encabeçar o movimento revoltoso assumindo a Presidência pelos próximos três anos (1964-67). Entretanto, e para sustentar as aparências legais, os generais haviam incumbido os constitucionalistas Francisco Campos e Carlos Medeiros Silva de redigir um documento legitimador que ficou conhecido por Acto Institucional (mais tarde, como se seguiram outros, este acabou por receber o nº 1). É uma peça com passagens interessantíssimas, onde a tradicional esterilidade do «juridiquês» se combina com uma prosa de uma estética apelativa para quem professa a legitimação dos acontecimentos pela força dos meios, mais do que das convicções.
«(...) A revolução vitoriosa se investe no exercício do Poder Constituinte. Este se manifesta pela eleição popular ou pela revolução. Esta é a forma mais expressiva e mais radical do Poder Constituinte. Assim, a revolução vitoriosa, como Poder Constituinte, se legitima por si mesma. Ela destitui o governo anterior e tem a capacidade de constituir o novo governo. Nela se contém a força normativa, inerente ao Poder Constituinte. Ela edita normas jurídicas sem que nisto seja limitada pela normatividade anterior à sua vitória. Os Chefes da revolução vitoriosa, graças à acção das Forças Armadas e ao apoio inequívoco da Nação, representam o Povo e em seu nome exercem o Poder Constituinte, de que o Povo é o único titular.(...)
(...) Fica, assim, bem claro que a revolução não procura legitimar-se através do Congresso. Este é que recebe deste Acto Institucional, resultante do exercício do Poder Constituinte, inerente a todas as revoluções, a sua legitimação. (...)»
A legitimidade do novo poder é assim, e por muito que tenha sido portagonizada por generais, assumidamente revolucionária, e não parece despropositado emparceirar a linha de raciocínio acima com uma conhecida - e já então consagrada - frase de Mao Zedong, a de que o poder político emana do cano de uma espingarda. O poder dos generais era daí que vinha, era através dele que se tinha apoderado também, da opinião publicada (como se comprova acima). Confesso que - não concordando nada com o que lá está escrito! - gosto particularmente da redacção do Acto Institucional nº1. Também pelo seu significado e pelas suas implicações, parece-me ser um dos textos politicamente dialecticos mais interessantes que foram escritos em português e, não fora os preconceitos de esquerda, e fossem as palavras e os raciocínios em política para levar cartesianamente a sério, seria pacífico que o AI-1 tem muito mais valia literária que alguns livrinhos com máximas que, por aqueles anos, nos chegavam vindos da China.

14 fevereiro 2024

HISTÓRIA DE CALCINHA DE CARNAVAL

(Republicação por ocasião do 30º aniversário)
Porque estamos na quadra, torna-se oportuno contar aqui uma história de contornos carnavalescos que se passa no Carnaval e que envolve até o presidente do país do dito, o Brasil. Um presidente ocasional, por sinal. Acima, Itamar Franco (1930-2011) era um discreto político mineiro que fora eleito para o cargo de vice-presidente em conjunto na chapa com Collor de Melo em 1990. Foi apenas a resignação forçada deste último que acabou por vir a colocar Itamar Franco na presidência a substitui-lo nos finais de 1992.

Sendo desde o princípio uma escolha de compromisso, sem uma facção que o apoiasse, a sua discrição irritava os media, sobretudo a imprensa cor-de-rosa. Divorciado e sem uma primeira-dama oficial, Itamar representava uma ameaça para o ganha-pão de toda essa sub-especialidade jornalística. Até que a 14 de Fevereiro de 1994, pelo Carnaval, surgiu a ocasião para a desforra deles, quando Itamar Franco se deixou fotografar no camarote presidencial na companhia de uma carinhosa modelo de 27 anos, Lilian Ramos (abaixo).
Havia sobretudo uma fotografia (abaixo), tirada de um ângulo pouco comum, que mostrava toda a intimidade de Lilian Ramos que, certamente devido ao calor que então se fazia sentir, não usava cuecas… Em condições normais, aquele episódio teria sido apenas o início de um não mais acabar de anedotas picarescas, como aquela que especulava se a mangueira – que é também o nome de uma famosa escola de sambachegara a subir a avenida?... Mais a sério, o mundo político brasileiro pode ser tão enfadonho quanto qualquer outro…

Muitos foram os que pediram a demissão de Itamar Franco a pretexto desse episódio – como se fizesse algum sentido o presidente responsabilizar-se pela roupa interior dos que o cercam… As coisas correram melhor para Lilian Ramos, para a sua notoriedade e carreira. Chegou a vir a Portugal e a ser entrevistada na SIC num programa de então que se intitulava Na cama com…, uma entrevista de 45 minutos! Essa mesma SIC que não terá dado igual importância sequer a Itamar Franco quando ele se tornou embaixador em Portugal em 1995-96...
Aliás, aqueles foram anos de televisão de qualidade em Portugal, seguindo os padrões impostos por Emídio Rangel. E é numa homenagem sentida a Emídio Rangel que esclareço que a versão não censurada da fotografia acima, aquela com a periquita à mostra, a tal que verdadeiramente dará audiências que este blogue merece, pode ser vista nesta ligação

01 fevereiro 2024

JOELMA, O CRESPÚSCULO DE UM CERTO BRASIL, OPTIMISTA EM EXCESSO

(Republicação)
Um dos momentos que mais associo simbolicamente ao ambiente de fim de festa que se vivia no Brasil nos princípios de 1974, naquela fase de transição de poder entre Médici e Geisel e com o fim abrupto dos anos de ouro de um crescimento económico de quase 10% ao ano, foi o incêndio que em no centro de São Paulo destruiu o Edifício Joelma causando 179 mortos e 300 feridos. A revista Manchete da época (acima) trazia uma reportagem com fotografias coloridas que destruía o mito dos generais...
Toda a arrogância expressa pelo Regime Militar durante os anos anteriores (e mais o slogan Ninguém Segura Esse Brasil!...) pareceram ter desaparecido naquela manhã de 1 de Fevereiro de 1974, quando se constataram as insuficiências dos regulamentos de construção dos prédios, as carências de equipamento dos bombeiros ou a falta de coordenação das equipas de salvamento, que se saldaram pela morte de 24% das pessoas que estavam presentes no edifício quando o fogo eclodiu.
Dos 179 mortos, houve 40 que morreram ao atirarem-se das varandas para fugir às chamas e ao calor, mas alguns deles fizeram-no paradoxalmente já depois do incêndio se ter extinguido… Um mês depois, a 4 de Março de 1974, Médici inaugurou a ponte Rio-Niterói com 13 km de extensão, uma proeza de engenharia, a segunda ponte mais extensa do Mundo à época. Mas, sobre as capacidades do Brasil, foi a visão do incêndio e dos seus mortos que acabou por marcar a época...

02 outubro 2023

CAMINHANDO CONTRA O VENTO...

(Republicação)
O seu autor foi Frank Horvath, o local é o Rio de Janeiro em 1963, e a fotografia, com aquele casal de jovens que se passeia na mota, quase pede para ser acompanhada pela canção Alegria, Alegria (1967) de Caetano Veloso.

21 setembro 2023

«AO VIVO DE NOVA IORQUE»: TRÊS MINUTOS E MEIO DE "CONVERSA PARA BOI DORMIR"

Há quatro meses havia sido notícia que Lula da Silva ficara "chateado" com Vladimir Zelensky porque "o tinha deixado pendurado" numa cimeira. Para Lula, será importante mostrar ao Mundo que Zelensky presta atenção ao que o brasileiro tem para dizer sobre a invasão da Ucrânia, e para Zelensky é importante mostrar que a importância que o ucraniano lhe dispensa é sofrível, é o mínimo acima do limiar da má educação. Os dois, para colmatar o episódio de há quatro meses, e para não ficarem com a fama de mal educados, encontraram-se agora em Nova Iorque. Só mesmo os media brasileiros (e alguns portugueses por arrasto) deram relevância prévia ao encontro. E escolhi este vídeo da CNN Brasil que me parece eloquentemente simbólico do quanto nada havia para noticiar. São três minutos e meio em que a repórter, «ao vivo de Nova Iorque», nada consegue dizer de substantivo sobre o conteúdo das conversações, deixando a suspeita que nada havia de importante para dizerem pessoalmente um ao outro - é aquilo que os brasileiros classificam como "uma conversa para boi dormir". Conversa tão oca que, mesmo em três minutos e meio, o boi adormece logo. Este género de jornalismo é mesmo uma merda de perda de tempo!

11 setembro 2023

AFINAL NÃO É BEM COMO LULA TINHA DITO...

O presidente brasileiro acabou por dar o dito por não dito a respeito da detenção de Putin em território brasileiro. Mas, mostrando-se irritado pela contrariedade, a sua frustração virou-se agora para o facto do Brasil ser um signatário do estatuto de Roma, uma decisão que foi tomada durante a presidência do seu antecessor Fernando Henrique Cardoso. Uma consulta aos países signatários, mostra que a esmagadora maioria dos países europeus (com excepção da Rússia, Bielorrússia e Ucrânia) o subscreveu, assim como o fizeram a esmagadora maioria dos países americanos (com a excepção dos Estados Unidos, Cuba e Nicarágua). Considerando, «a importância do Tribunal Penal Internacional para a protecção dos direitos humanos», é difícil compreender como é que o Brasil poderia ter tomado uma atitude distinta daquela que tomou há vinte e cinco anos. Lula da Silva, porém, parece ter perdido a tranmontana, e compara, com inveja, as limitações que o estatuto de Roma agora lhe impõe, à liberdade de que gozam os seus parceiros dos BRIC como a China, a Índia ou a Rússia. É nitidamente o deslumbramento de um líder de potência regional, que não gosta de contrariedades legais deste género. Este episódio serve para nos recordar que, ao apreciar a evolução da situação política recente no Brasil, a antipatia por uma figura como Bolsonaro foi muito mais abrangente do que a simpatia por uma figura como Lula da Silva, Lula esse, que, valha a verdade, não é assim grande coisa... (o outro é que é uma grande merda)

23 agosto 2023

A 15ª CIMEIRA DOS BRICS E O RETORNO A UMA CERTA «KREMLINOLOGIA»

A ideia original do bloco de países denominado por BRICS (em inglês, literalmente, tijolos) apareceu já neste século. Foi em 2001 que a Goldman Sachs terá cunhado aquela sigla (originalmente bric, tijolo) num artigo sobre o potencial económico daqueles países: Brasil, Rússia, Índia e China. Houve, entre os seus dirigentes da época, quem tivesse ficado lisonjeado com a ideia e tivesse promovido uma aproximação recíproca. O quarteto original realizou a sua primeira cimeira em 2009. No ano seguinte, e porque a ausência africana era embaraçosa num projecto que era um contraponto às economias desenvolvidas do G7, a África do Sul foi convidada a aderir, ganhando o acrónimo actual, com o S de South Africa. A ideia parecia muito prometedora, mas o bloco acabou por não ganhar tracção política e/ou económica. A forma distanciada como toda a comunicação social dos países do G7 os noticia, também não os ajuda. Porém, as cimeiras continuam a realizar-se, como que por persistente e teimosa inércia. Ontem começou a 15ª, na cidade de Joanesburgo na África do Sul.

Na fotografia acima temos (da esquerda para a direita), Lula da Silva pelo Brasil, Xi Jinping pela China, o anfitrião Cyril Ramaphosa ao centro, Narendra Modi pela Índia e Sergey Lavrov pela Rússia. A razão para a ausência de Vladimir Putin da fotografia é um daqueles (poucos) assuntos a respeito da cimeira que terá suscitado o interesse da comunicação social dos países do G7. É que se Vladimir Putin comparecesse, a África do Sul, sendo membro do Tribunal Penal Internacional (TPI), teria sido obrigada a cumprir o mandado de prisão que foi emitido para o presidente russo em Março deste ano. Ou então não cumpria. Foi preferível não ter ido. Entretanto, logo no primeiro dia, já surgiu um outro pequeno episódio digno da maledicência ocidental. De acordo com o programa do primeiro dia, o líder chinês, Xi Jinping, deveria participar do fórum e fazer comentários ao lado dos outros líderes. Mas não foi isso que aconteceu. Em vez dele, o seu soporífero discurso foi lido pelo seu ministro do Comércio, Wang Wentao, levantando interrogações para uma tal alteração protocolar.

Outrora, nos tempos da guerra fria, a ignorância dos jornalistas ocidentais sobre o que se passava nos altos escalões dos poderes comunistas, levou esta prática jornalística ao estatuto de uma verdadeira ciência: a kremlinologia. Os cientistas especializavam-se em dar interpretações a episódios desprovidos de valor noutras circunstâncias. Neste caso concreto, há que dizer que as publicações oficiais chinesas davam o discurso como tendo sido lido pelo próprio Xi, o que permite aos cientistas deduzir que se terá tratado de uma alteração de última hora. Que talvez não tenha afinal grande significado, já que foi o próprio Xi Jinping que compareceu no jantar que se seguiu. Seja a ausência de Putin ou a alteração de programa por parte de Xi, este é o género de cobertura noticiosa que a comunicação social que estamos habituados a consultar tem para dar, de uma cimeira de onde não se esperam grandes surpresas.

20 julho 2023

COMO OS MORTOS A TIRO PODEM MORRER DE MANEIRA DIFERENTE, NA REALIDADE E NA FICÇÃO

Neste episódio da inenarrável vida quotidiana brasileira, o futuro morto, em vez de cair redondo, imóvel no chão, logo depois de alvejado e muito mais do que uma breve agonia acompanhada de umas sábias últimas palavras, ainda tem o descaramento de fugir a correr do local, para se ir deixar morrer fora do alcance das câmaras... Ao contrário do que os filmes sempre sugerem, o impacto de uma bala, mesmo que venha a ser mortal, pode ser mínimo no imediato.

04 julho 2023

O ENORME «BLUFF»: AFINAL O BOLSONARISMO MORREU

O meu comentário não é à notícia da condenação de Jair Bolsonaro «por abuso de poder político», com a sanção de se ter tornado «inelegível até 2030». Essa notícia era cada vez mais esperada e é já da Sexta -Feira passada. O que eu fiquei à espera foi de apreciar a veemência das reacções dos seus aliados e as prometidas manifestações de protesto - veja-se abaixo - se prometiam nesta eventualidade. O populismo brasileiro acredito que continue a subsistir, mas, com o titular afastado de qualquer hipótese de poder, afigura-se-me que o bolsonarismo morreu. O irónico em tudo isto é que, se o ex-presidente brasileiro tivesse mesmo a «força política» prometida pelas notícias de há três meses, a comunicação social lá do sítio hoje andaria de barriga cheia, com as notícias dos desacatos nas ruas. Nunca é demais chamar a atenção para os interesses noticiosos específicos do jornalismo...

22 maio 2023

LULA ESTÁ CHATEADO COM ZELENSKY E NÓS TEMOS PENA

Quando uma potência de pequena/média dimensão, como é o caso da Ucrânia, se torna a protagonista de um conflito internacional cuja dimensão a supera, tem que acautelar-se para que os seus interesses vitais não sejam sacrificados pelos grandes - e verdadeiros - protagonistas da disputa. A História está repleta de exemplos de grandes potências que estiveram dispostos a sacrificar aquilo que pertencia aos seus aliados subordinados, como expediente para apaziguar as grandes potências adversárias. No nosso caso concreto e até à Primeira Guerra Mundial e por diversas vezes, o Reino Unido mostrou-se disposto a ceder as grandes colónias portuguesas em África em benefício - e para apaziguamento - da Alemanha; mas talvez o caso mais escandaloso tenha ocorrido em Munique em 1938, quando esse mesmo Reino Unido e a França retalharam a Checoslováquia em benefício - e para apaziguamento - daquela mesma Alemanha, num processo diplomático em que a sacrificada Checoslováquia nem foi convidada a estar presente... Não é difícil deduzir que em Kyiv essa história do sacrifício de Praga de 1938 estará muito presente para não o repetir. A Ucrânia será uma potência de pequena/média dimensão, mas não muito propensa a deixar-se domesticar e muito cuidadosa para com aqueles, como o Brasil, que se arrogam uma importância política internacional que ninguém lhes parece reconhecer.

Quanto à condução da sua actividade diplomática, a prioridade de Zelensky será para com as potências que forneçam aos ucranianos meios de combate e de resistência. É por isso e para isso, cativar os países que ainda estejam verdadeiramente indecisos para a sua causa, que o presidente ucraniano andará a saltitar por esse mundo fora, como aconteceu recentemente com a sua presença na Liga Árabe. Depois, na hierarquia das prioridades da Ucrânia, há que prestar atenção àquelas potências que verdadeiramente contam e que só se fingem indecisas: estão do lado russo da barricada - leia-se, a China. Com a China, Zelensky joga uma diplomacia subtil: Xi Jinping vai a Moscovo e Zelensky convida-o para ir também a Kyiv; claro que Xi não vai, embora arranje um sucedâneo de manobra diplomática - uma conversa telefónica - que satisfaz as duas partes mas que não engana ninguém: tal qual a situação internacional se apresenta, os líderes importantes que vão a Moscovo não vão a Kyiv e vice versa. Restam os outros, os líderes que não têm importância alguma, como será o caso de seis líderes africanos, encabeçados pelo presidente da África do Sul, que anunciaram recentemente a sua intenção de lançar uma missão de paz, visitando as duas capitais. O Brasil com Lula da Silva é mais um país que pertencerá a este último grupo de aplicados minions, com o inconveniente de Lula da Silva já ter proferido declarações que o tornaram mal quisto entre as potências ocidentais. Para mais, numa cimeira do G-7, o Brasil nem está presente por inerência, antes e apenas por convite. Ou seja, na ocasião Lula da Silva é tão convidado como Zelensky. Se este último lhe deu tampa e se baldou ao encontro é porque não terá visto grande vantagem na sua realização - foi má educação. Ou talvez tenha sido um correctivo diplomático aplicado em quem se pensa mais do que aquilo que é...

18 abril 2023

QUE RAIO DE PONTARIA!...

18 de Abril de 2022. Há precisamente um ano, um canal brasileiro de Youtube (TV 247) transmitia este debate sobre A Guerra, a Europa e o Brasil. E, como se constata, dificilmente poderiam ter encontrado uma dupla de comentadores portugueses mais impopulares em Portugal: Boaventura Sousa Santos e José Sócrates! Este é um exemplo flagrante de como a esquerda petista no Brasil anda um pouco obtusa em relação ao que se passa fora do seu país. Problema de que parece padecer também o próprio Lula da Silva mais as declarações que ele anda a proferir mundo fora, antes de chegar a Portugal para o 25 de Abril. Eu bem sei que Lula está a preocupar-se em falar para um auditório bem maior do que o da antiga metrópole colonial. Mas, se era para ser assim, por muito que Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa tivessem sido insistentes em fazê-lo cá vir, teria sido talvez melhor não passar por cá. Há muita gente por cá (onde me incluo) que, com aquilo que se veio a saber da sua corrupção passiva e da lavagem de dinheiro, o considera apenas um mal político menor quando em comparação com Jair Bolsonaro. Esta sua última vitória eleitoral foi cerrada mas é preferível que não falemos da ética dos dois candidatos... Felizmente vivemos num país onde não somos confrontados com ter que fazer uma opção eleitoral entre um aldrabão como André Ventura e um escroque como José Sócrates e (ter de) tecer muitas loas políticas a este último porque não é o fascista. (Quem quiser ouvir o debate com Boaventura Sousa Santos e José Sócrates - são duas horas! - carregue aqui)

17 abril 2023

O UNIVERSO DÚPLICE ORWELLIANO DE PEQUIM...

Por ocasião da visita oficial que o presidente brasileiro Lula da Silva acabou de realizar a Pequim, podemos destacar este momento surreal em que ele passa revista às tropas acompanhado do seu homólogo Xi Jinping, enquanto a banda militar toca «Novo Tempo», uma velha canção de Ivan Lins que data do tempo da ditadura militar (1980). Um daqueles episódios em que salta à vista que o responsável chinês por aquela escolha se quedou pelo potencial significado do título, mas não prestou atenção ao significado da letra de Vítor Martins, que é uma arenga contra a ditadura militar brasileira e em prol dos tempos de liberdade que se lhe sucederiam. Ora o novo tempo descrito por Vítor Martins não era a substituição de uma ditadura (militar) por uma outra ditadura (comunista), como a chinesa, daí o anacronismo daquela música naquele enquadramento. A complementar o constrangimento da cena, há aquela coreografia com as criancinhas chinesas a pular de ramos de flores na mão, gestos que se coreografavam precisamente durante as cerimónias públicas da ditadura militar... A rematar a minha completa desilusão com o adocicado como esta cena está a ser descrita no e para o Brasil, a reacção «emocionada» numa rede social do próprio Ivan Lins. Lins sofrerá talvez do síndrome Lucélia Santos, a actriz que ainda é recordada (no Brasil) por ter derretido o coração de 300 milhões de chineses como escrava Isaura...
Só que, ele há Democracias e ele há ditaduras. Mas, mais do que ser apenas descritivo e para ser também construtivo, e visto que o périplo mundial de Lula da Silva ainda irá passar por Lisboa no próximo dia 25 de Abril, será que ainda se vai a tempo para que a banda da GNR ensaie, para tocar enquanto ele passar revista às tropas, o famoso «Fado Tropical» (1973) de Chico Buarque, letra de Ruy Guerra?... Acredito que eles no Itamaraty também vão adorar aquela passagem final em que se profetiza que «esta terra (Brasil) ainda vai cumprir o seu ideal, ainda vai tornar-se um imenso Portugal»...

13 abril 2023

«MAIS PAÍSES QUE VÃO SOFRER CRUELMENTE...» - como considerava o capitão Haddock

Ele há opiniões que até mesmo o expansivo e irascível capitão Haddock preferia guardar para si. E a perspectiva de ter Cristina Ferreira a reapresentar-se numa Web Summit com aquele seu inglês de m**** no Brasil só nos pode levar a compartilhar a sua opinião a uma anunciada tournée de Castafiore pelas capitais da América do Sul: «Mais países que vão sofrer cruelmente...» Tal é a estupidez da senhora, que ele próprio saberia que a proverbial irascibilidade não produziria quaisquer resultados.

02 abril 2023

«TÔ VOLTANDO»

Depois de ter passado três meses nos Estados Unidos, Jair Bolsonaro regressou finalmente ao Brasil. As primeiras notícias a respeito desse regresso foram algo díspares. Agora, depois de três dias desse primeiro impacto, pode concluir-se que o regresso do antigo presidente brasileiro parece não ter dado origem a mais nenhumas notícias. Ao adicionarmos uma banda sonora ao acontecimento - o samba «Tô Voltando» - surge-nos a ironia de que ele fora inicialmente composto em 1979 por Chico Buarque como alusão aos que se haviam exilado por causa da Ditadura Militar. Agora já há (regressos de) exílios para todos os gostos do espectro partidário.

28 março 2023

AYRTON SENNA GANHA PELA ÚLTIMA VEZ O GRANDE PRÉMIO DO SEU PAÍS

28 de Março de 1993. Ayrton Senna, ao volante deste McLaren vence o Grande Prémio do Brasil de Fórmula 1, que se disputou no circuito de Interlagos em São Paulo. Como paulistano, Ayrton correu e venceu em casa. Apesar da foto, acabou por ser uma corrida predominantemente seca, embora tenha chovido copiosamente entre a 27ª e a 36ª volta (das 71 totais), ocasião em que esta fotografia terá sido tirada.

02 março 2023

A ESTUPIDEZ É INTEMPORAL

A propósito da consagração do boato da ida de Joana Marques a tribunal, permitam-me esta prova, com 90 anos (2 de Março de 1933) de como os falsos boatos e a estupidez natural para que se propaguem podem ser intemporais. No caso, ficava-se a saber em Lisboa que corria no Rio de Janeiro (então capital do Brasil) a informação que António de Oliveira Salazar, o então presidente do Conselho português, era brasileiro de nascimento - de Minas Gerais, para ser mais preciso...

10 fevereiro 2023

DILMA EM LISBOA É MELHOR NÃO

É compreensível que Lula queira dar a Dilma um qualquer cargo de destaque em jeito de desforra daquilo que lhe aconteceu em 2016. O cargo de embaixadora em Lisboa sê-lo-ia, já existiu o precedente de Itamar Franco, aqui colocado entre 1995 e 1996, logo depois de deixar a presidência. O problema será que Dilma Rousseff esteve longe de granjear muita estima e mesmo consideração pelos ocupantes do palácio das Necessidades enquanto ela ocupou o palácio da Alvorada entre 2011 e 2016. Nada que, acredito, o governo português não se dispusesse a engolir por cortesia para com Lula da Silva mas, já agora que vocês de Brasília perguntam, é melhor não. O resto da intriga, que podemos ler na imprensa brasileira, com a ex-presidente de 75 anos a dizer que «estaria bem ao lado dos netos e da filha, (...) em Porto Alegre», isso parece-me ser nove-horas da sua parte. Mas é o género de dúvida que depressa desaparecerá. O cargo de «presidente do Banco dos BRICS», a que acima se faz referência fica em Xangai, China, do outro lado do Mundo e, se eu estiver enganado e ela estiver a ser genuína, Dilma vai recusá-lo e ficar-se pelo Rio Grande do Sul...

05 fevereiro 2023

HOMENAGEM AO(S) MALANDRO(S)

O(s) malandro(s) da ópera homónima de Chico Buarque, tendo «aposentado a navalha», «mora(m) lá longe, chacoalha(m) no trem da central». Só que aquela ópera e os malandros onde ela se inspirava já têm mais de quarenta anos. Os malandros que vieram depois desses malandros, quando vão morar «lá longe», vão para Miami, na Florida, Estados Unidos. É recordar o caso de Collor de Mello (1995-1998) e comprovar o caso actual de Jair Bolsonaro que agora descobrimos ser italiano de lei. Como rematava a letra da canção (abaixo): «Malandro é gato que come peixe sem ir à praia!»
Neste caso concreto, os apoiantes deste último malandro fizeram o que fizeram em Brasília, e ele agora alega que não esteve envolvido em nada...