Mostrar mensagens com a etiqueta Sahara Ocidental. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Sahara Ocidental. Mostrar todas as mensagens

18 maio 2022

A PIRATARIA DOS SARAUÍS E DE COMO O ANTIGAMENTE NUNCA É AQUILO QUE DELE FAZEMOS...

18 de Maio de 1922. Uma das notícias daquele dia é esta acima, em que se dá conta que a tripulação de um navio de pesca português que se encontrava a pescar nas costas sarauís (veja-se o mapa abaixo, o famoso cabo Bojador de Camões aparece expressamente assinalado) fora capturada por piratas oriundos daquele território. Na entrevista em que dá conta do sucedido, a frustração do ministro dos Negócios Estrangeiros de então é evidente, tanto mais que, supostamente, os piratas deviam estar sob uma tutela colonial - espanhola ou francesa - que, comprovadamente, é apenas teórica. Por outro lado, a política da canhoneira, que as potências europeias tanto gostavam de evocar na época, não se pode aplicar dada as circunstâncias específicas dos reféns estarem na posse dos piratas. Conclusão: há que pagar os resgates pedidos pelos piratas. O consolo moral que o Diário de Lisboa acaba por dar aos seus leitores é remetê-los para um antigamente, um antigamente que nunca existiu. A pirataria, assim como a recuperação de salvados era uma prática tradicional e disseminada por aquelas paragens onde os naufrágios eram frequentes.
Mas não apenas o antigamente nunca fora o que o Diário de Lisboa de 1922 sugeria que tinha sido. O futuramente também não o será. O mesmo Diário de Lisboa, mas em 1980, voltará a publicar uma outra história de pirataria dos sarauís e de outros pescadores portugueses raptados quando pescavam por aquelas mesmas paragens. O acontecimento era essencialmente o mesmo, mas o jornalistas e o jornal é que haviam mudado tanto, que agora os piratas haviam passado a ser bons. De uma forma dialéctica, no Diário de Lisboa passou a haver pirataria boa e pirataria . E quando a pirataria era boa, quem era mau era o «governo português» que era «obrigado a negociar com...» os piratas. Era tudo uma questão de contemporizar com a nomenclatura: os reféns passavam a denominar-se «prisioneiros de guerra»...

10 março 2017

OS FANTASMAS DA TRANSIÇÃO ESPANHOLA

Já aqui havia falado mais desenvolvidamente do tema (se em suportes como estes fizer algum sentido utilizar o advérbio desenvolvidamente) da descolonização espanhola do Sahara que se sobrepôs à transição da Espanha de Francisco Franco para a de João Carlos. Este livro, publicado em Outubro de 2015, quando se completavam quarenta anos sobre o pico dos acontecimentos, é uma prova de que o assunto, apesar de estar olvidado por uma imensa maioria de espanhóis, não estará esquecido por todos e que, quanto a descolonizações exemplares, não houve nenhuma potência colonial que as tenha tido, há algumas potências é que, quando o seu impacto social e político não foi grande, as tentaram varrer para debaixo do tapete. Este mapa (p. 13) é mais uma daquelas demonstrações de como, também no caso espanhol, os amplos espaços africanos de além mar minimizam as áreas das metrópoles europeias.
Uma página cheia de humor (p. 532), reminiscente do livro Pantaleão e as Visitadoras de Vargas Llosa, foi o episódio associado à má planificação e à evacuação prematura de algumas civis residentes na colónia, e cuja ausência se fez sentir significativamente no moral das tropas, o que obrigou a que um oficial do estado-maior, o comandante (major) Vázquez Labourdette, tivesse que ir a Las Palmas para fazer um conjunto de contratações que normalmente não costumariam cair no âmbito das tradicionais contratações de géneros da 4ª Repartição (logística) do estado-maior do exército. Aquele último momento de refluxo de passageiras, chegadas num voo charter propositadamente fretado à Ibéria, terá sido de um grande conforto moral para as últimas guarnições ainda destacadas no Sahara espanhol...