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14 junho 2024

A TOMADA DE POSSE DE THABO MBEKI

(Republicação)
14 de Junho de 1999. Com a tomada de posse como presidente de Thabo Mbeki terminava aquilo que se poderia denominar por fase experimental da transição na África do Sul. Aos oitenta anos, Nelson Mandela, que fora o garante dessa transição, afastava-se para dar lugar a uma nova geração - Mbeki era 24 anos mais novo. As duas principais comunidades sul-africanas davam mostram de boa vontade e pareciam procurar acomodar-se uma à outra, mas a falta de à vontade é patente no vídeo acima (por volta do 01:00), quando Mbeki mostra não saber muito bem como se comportar diante da chefe da guarda de honra, que, ainda por cima, depois tem que se fazer discreta e pequenina, para que madame Mbeki também caiba nas fotografias. Mas, embora caricatural, este ainda era o lado benigno do ANC. A degradação estava guardada para daí a dez anos, com a chegada ao poder de Jacob Zuma.

02 maio 2024

A ASSINATURA DO ACORDO TRIPARTIDO SOBRE CAHORA BASSA

2 de Maio de 1984. Cerimónia de assinatura de um acordo tripartido entre a África do Sul , Moçambique e Portugal sobre as condições de fornecimento da energia eléctrica produzida pela barragem portuguesa e edificada em Moçambique, ao cliente sul-africano. A cerimónia tem lugar na cidade do Cabo, na África do Sul, dando expressão à importância suplementar da parte sul-africana. o único consumidor regional capaz de absorver os níveis de produção gerados pela barragem. Para além disso, África do Sul e Moçambique estavam em conflito surdo. As possibilidades de que o acordo frutificasse eram escassas. Mas isso a notícia não se atrevia a dizer.

27 abril 2024

AS PRIMEIRAS ELEIÇÕES GERAIS DA HISTÓRIA DA ÁFRICA DO SUL

(Republicação)
27 de Abril de 1994. Têm lugar as primeiras eleições na África do Sul em que o direito de voto pôde ser exercido por todos os cidadãos. Contabilizaram-se 19,5 milhões de votos (nas eleições anteriores, restritas, em 1989, os eleitores haviam sido apenas 2,5 milhões...) e os resultados deram uma vitória clara ao ANC, que recebeu mais de 12 milhões de votos, o equivalente a 62,5% da votação. A data de 27 de Abril tornou-se um dia feriado na África do Sul. O video acima é apenas uma revisitação desses dias que é feita 22 anos depois pela visão de três jornalistas, cada um pertencente a uma das comunidades em que o regime do apartheid segmentara a sociedade.

16 março 2024

O ACORDO DE NKOMATI

(Republicação)
O Acordo de Nkomati foi assinado em 16 de Março de 1984 entre os mais altos representantes da África do Sul e de Moçambique, respectivamente, o então Primeiro-Ministro P.W. Botha e o Presidente Samora Machel. As duas partes signatárias comprometiam-se a não apoiar os movimentos oposicionistas da outra parte, a saber, Moçambique deixaria de apoiar moral e logisticamente o ANC, enquanto a África do Sul deixá-lo-ia de fazer, material, moral e logisticamente à Renamo. O Acordo ia permanecer letra morta, mas isso ainda não se sabia na altura da cerimónia, quando estas fotografias foram tiradas.
O Acordo representava uma grande vitória diplomática da África do Sul, pela brecha que conseguira criar no ostracismo a que o regime do apartheid havia sido remetido por todos os seus vizinhos africanos. Do outro lado, também Samora Machel provocara uma ruptura no campo ideológico a que pertencia em favor do pragmatismo. Mas, mesmo isso, não impediu que a poderosa máquina comunicacional sul-africana se mostrasse implacável na forma sacana como tratou os novos amigos, observe-se cuidadosamente o instantâneo abaixo que acabou por se tornar numa espécie de fotografia oficial da reunião.
Em primeiro plano e do lado esquerdo aparecem o Ministro dos Negócios Estrangeiros sul-africano Roelof Pik Botha e P.W. Botha, ambos de condecoração ao pescoço(*), o segundo de chapéu clássico na cabeça que lhe dá um aspecto distinto. No outro extremo, está o Ministro dos Negócios Estrangeiros moçambicano, Joaquim Chissano, também com uma condecoração ao peito, só que esta não deveria ser a recíproca sul-africana (**). Mas a figura dominante do instantâneo é mesmo Samora Machel, olhando de uma forma deslumbrada para cima.

(*) Sendo as duas condecorações idênticas e não se vendo outras é muito provável que se tratem de condecorações moçambicanas acabadas de entregar por Samora Machel aos dois.
(**) A condecoração tem um design de inspiração russa/soviética, também muito usado pelos países desse bloco, mas jamais pelos países do outro, como era o caso da África do Sul.

21 novembro 2023

«MÃOS AO AR!»

À primeira vista, a fotografia suscita um sorriso. À segunda, o sorriso torna-se irónico, quando se sabe que a fotografia foi tirada em Hillbrow, nos arredores de Joanesburgo, e Hillbrow era então um bairro só para brancos, na África do Sul do apartheid - a fotografia data de Novembro de 1963. Sabendo desse detalhe, e porque muito que a criança seja inocente na sua brincadeira, é apenas natural que deixemos de encarar o seu gesto com a benevolência inicial. A subtileza da crítica está em consonância com outros trabalhos do autor da fotografia, o sul-africano David Goldblatt. Numa reviravolta longínqua e ainda mais irónica dos desenvolvimentos da violência na mesma cidade de Joanesburgo, ainda há 15 dias, no passado dia 6 de Novembro de 2023, foi notícia um assalto à viatura onde seguia o ministro dos transportes sul-africano, Sindisiwe Chikunga. Roubaram-nos a todos os quatro (ministro, motorista e seguranças), e ainda levaram as armas dos dois seguranças de bónus, uns seguranças que, pelos vistos, não seguravam nada.

06 setembro 2023

O MARAVILHOSO PODER DO SUBENTENDIDO

6 de Setembro de 1963. O que esta notícia, emanada de Pretória, possui de mais interessante é o facto de conseguirmos lê-la até ao fim e que, apesar de isso não ser expressamente mencionado em lado algum, compreendemos que a «preparação militar das mulheres sul-africanas», a que a notícia se refere, se aplica exclusivamente às mulheres brancas sul-africanas.

23 agosto 2023

A 15ª CIMEIRA DOS BRICS E O RETORNO A UMA CERTA «KREMLINOLOGIA»

A ideia original do bloco de países denominado por BRICS (em inglês, literalmente, tijolos) apareceu já neste século. Foi em 2001 que a Goldman Sachs terá cunhado aquela sigla (originalmente bric, tijolo) num artigo sobre o potencial económico daqueles países: Brasil, Rússia, Índia e China. Houve, entre os seus dirigentes da época, quem tivesse ficado lisonjeado com a ideia e tivesse promovido uma aproximação recíproca. O quarteto original realizou a sua primeira cimeira em 2009. No ano seguinte, e porque a ausência africana era embaraçosa num projecto que era um contraponto às economias desenvolvidas do G7, a África do Sul foi convidada a aderir, ganhando o acrónimo actual, com o S de South Africa. A ideia parecia muito prometedora, mas o bloco acabou por não ganhar tracção política e/ou económica. A forma distanciada como toda a comunicação social dos países do G7 os noticia, também não os ajuda. Porém, as cimeiras continuam a realizar-se, como que por persistente e teimosa inércia. Ontem começou a 15ª, na cidade de Joanesburgo na África do Sul.

Na fotografia acima temos (da esquerda para a direita), Lula da Silva pelo Brasil, Xi Jinping pela China, o anfitrião Cyril Ramaphosa ao centro, Narendra Modi pela Índia e Sergey Lavrov pela Rússia. A razão para a ausência de Vladimir Putin da fotografia é um daqueles (poucos) assuntos a respeito da cimeira que terá suscitado o interesse da comunicação social dos países do G7. É que se Vladimir Putin comparecesse, a África do Sul, sendo membro do Tribunal Penal Internacional (TPI), teria sido obrigada a cumprir o mandado de prisão que foi emitido para o presidente russo em Março deste ano. Ou então não cumpria. Foi preferível não ter ido. Entretanto, logo no primeiro dia, já surgiu um outro pequeno episódio digno da maledicência ocidental. De acordo com o programa do primeiro dia, o líder chinês, Xi Jinping, deveria participar do fórum e fazer comentários ao lado dos outros líderes. Mas não foi isso que aconteceu. Em vez dele, o seu soporífero discurso foi lido pelo seu ministro do Comércio, Wang Wentao, levantando interrogações para uma tal alteração protocolar.

Outrora, nos tempos da guerra fria, a ignorância dos jornalistas ocidentais sobre o que se passava nos altos escalões dos poderes comunistas, levou esta prática jornalística ao estatuto de uma verdadeira ciência: a kremlinologia. Os cientistas especializavam-se em dar interpretações a episódios desprovidos de valor noutras circunstâncias. Neste caso concreto, há que dizer que as publicações oficiais chinesas davam o discurso como tendo sido lido pelo próprio Xi, o que permite aos cientistas deduzir que se terá tratado de uma alteração de última hora. Que talvez não tenha afinal grande significado, já que foi o próprio Xi Jinping que compareceu no jantar que se seguiu. Seja a ausência de Putin ou a alteração de programa por parte de Xi, este é o género de cobertura noticiosa que a comunicação social que estamos habituados a consultar tem para dar, de uma cimeira de onde não se esperam grandes surpresas.

22 novembro 2022

COMO SE BRINCAVA COM CARRINHOS NA ÁFRICA DO SUL EM 1962

Este par de fotografias foi tirado em 1962 na África do Sul, província do Transval, pelo fotógrafo David Goldblatt. São dois momentos de uma brincadeira de duas crianças com um carrinho de rodas. Uma das crianças é branca, a outra negra, acompanha-as um cão, mas a condição social de ambas não deve ser muito diferente: repare-se que qualquer deles brinca descalço. É que, como aqui já descrevi e por descuido da propaganda anti-apartheid, esquece-se frequentemente de mencionar que também havia (e há) brancos pobres na África do Sul. Mas isso não obstava que as relações raciais há 60 anos eram o que eram, e o significado das expressões distintas das duas crianças na fotografia da esquerda é concretizada na fotografia da direita, quando vemos a criança negra a empurrar o carrinho de recreio carregado com o seu companheiro pela ladeira acima, para mais uma das apetecidas descidas em velocidade.

17 março 2022

O REFERENDO AOS SUL-AFRICANOS BRANCOS (1992)

A 17 de Março de 1992 (completam-se hoje precisamente 30 anos) teve lugar um referendo na África do Sul. Nele, o presidente Frederick de Klerk (na fotografia acima) pedia explicitamente o apoio do eleitorado para prosseguir o processo de reformas que ele iniciara em 1990, com o objectivo de produzir uma nova Constituição que, através de negociações, acomodasse todas as raças da África do Sul. Paradoxalmente (ou talvez não...) a pergunta só era posta aos 3,3 milhões de eleitores de raça branca. Embora outros referendos separados estivessem previstos para a minoria coloured (mestiça, com 1.440.000 eleitores) e asiática (indiana, com 660.000 eleitores), era evidente que a disputa política nevrálgica seria esta de 17 de Março reservada aos brancos, onde se faziam sentir as tensões em prol da manutenção do apartheid.

Como se percebe desde logo pela fotografia inicial, de Klerk venceu, e venceu expressivamente: dos 3,3 milhões de eleitores, 2,8 (85%) pronunciaram-se e desses, mais de ⅔ (69%), conferiram-lhe um mandato para prosseguir. Era significativa também a distribuição desse apoio, como se pode apreciar no mapa abaixo. O Sim vencera em todas as circunscrições eleitorais excepto numa do Transval e as votações mais expressivas a seu favor (assinaladas a verde mais escuro no mapa abaixo) ocorriam no eleitorado urbano das maiores cidades sul-africanas: Cidade do Cabo, Durban e mesmo Joanesburgo. O desejo da preservação do apartheid, mesmo pela minoria que dele beneficiava revelou-se, com este referendo, um mito, embora as primeiras eleições livres para todas as raças na África do Sul ainda estivessem à distância de mais de dois anos: 27 de Abril de 1994.
Reconheça-se que a História gosta de eleger heróis individuais e que esta, a da transição da África do Sul para a democracia plena, tem o seu, justíssimo: Nelson Mandela. No entanto, reconheça-se também que, para essa História, a realização e o resultado deste referendo se tornou demasiado discreto para aquele que foi o seu verdadeiro significado. Quer a coragem política de Frederik de Klerk em convocá-lo, quer os resultados. Sem o referendo e sem o presidente, é possível, é mesmo provável, que a transição política na África do Sul se tivesse processado à mesma, na mesma época ou poucos anos depois - mas não da mesma maneira e provavelmente de uma forma bem menos pacífica. Nem tudo é atribuível à personalidade impar de Nelson Mandela, convém reconhecer de vez em quanto o mérito daqueles que a História dá por vencidos.

09 dezembro 2021

OS NOVOS PROBLEMAS DAS NAÇÕES UNIDAS

9 de Dezembro de 1946. Noticiava-se um debate - o jornal classificava-o de conflito - em curso na Assembleia da ONU em Nova Iorque, opondo a Índia e a África do Sul. Era um assunto que suscitaria ao leitor atento várias questões. A primeira questão é que o desentendimento envolvia, estranhamente, dois países da Commonwealth britânica. A segunda questão é que o desentendimento envolvia, estranhamente, um país que gozava de autonomia dentro dessa mesma Commonwealth, a África do Sul, e um país que ainda não gozava dessa mesma autonomia, a Índia. Como é que esta última conseguira um lugar nas Nações Unidas ainda antes de se tornar independente? Só então aparecia a terceira questão, qual o pomo da discórdia? A resposta estava clara no artigo: o racismo. A Índia queixava-se da discriminação como os seus naturais eram tratados na África do Sul. E a quarta e última questão era, naturalmente, qual fora o sentido das votações, que propiciara uma vitória da Índia (32 votos contra 15 e 7 abstenções). Começando pelo fim, o que se depreende da notícia é que os países comunistas da Europa de Leste contribuíram para o resultado daquela votação. Por outro lado, a descriminação racial seria então tema completamente novo nestes areópagos - a surpresa do primeiro-ministro sul-africano Smuts poderá ser mesmo genuína - mas era um tema que não granjearia grandes simpatias para os sul-africanos da parte dos países não europeus. Adivinha-se, pelo seu silêncio, o incómodo do governo de Londres (trabalhista). Embora ele fosse, em última instância, o responsável pela política externa da Índia, a decisão que tomara de lhes conceder a independência - ocorrerá em Agosto de 1947 - acelerara um processo de transferência de responsabilidades para os indianos de origem: nesta contenda, quem encabeça a delegação indiana nas Nações Unidas é - e não por acaso - Vijaya Pandit, uma das irmãs mais novas de Jawaharlal Nehru, o futuro primeiro primeiro-ministro indiano. Enfim, o leitor atento lia naquela notícia de há 75 anos os novos contornos da nova ordem internacional do após guerra, onde despontavam novos problemas de características surpreendentes.

04 agosto 2021

O «DIRECTO» DO NAUFRÁGIO DO «OCEANOS» AO LARGO DA ÁFRICA DO SUL

4 de Agosto de 1991. A começar pelo que é o mais famoso de todos, o do Titanic em 15 de Abril de 1912, não serão muito abundantes as imagens reais do naufrágio de grandes navios de passageiros. O Oceanos era um navio de cruzeiros de bandeira grega que navegava ao largo da costa da África do Sul quando as imagens acima foram filmadas. Agosto corresponde a um mês de Inverno naquele hemisfério e os mares estavam encapelados mas as razões para o naufrágio deveram-se a um problema estrutural interno do próprio navio. Nos seus últimos minutos já se havia procedido à evacuação de todos os 402 passageiros e 179 membros da tripulação que seguiam a bordo. Deve acrescentar-se que, de acordo com os relatos, o facto do naufrágio não ter causado nenhuma vítima aconteceu apesar do comportamento da tripulação, que terão sido os primeiros a abandonar o navio, com o capitão do navio a destacar-se nessa muito pouco gloriosa debandada. Para mais, depois da progressiva inclinação do navio ter tornado inoperacionais os salva vidas de estibordo, houve 225 pessoas (quase 40% do total) que tiveram de ser içados por cabos lançados de 9 helicópteros da Força Aérea Sul Africana. Por uma vez sem haver razões para grandes problemas de consciência por causa de desastres pessoais, uma estação de televisão, a ABC norte-americana, filmou os minutos finais do afundamento de um navio de cruzeiros de média dimensão (as 14.000 toneladas do Oceanos corresponderiam a um pouco menos de ⅓ das 46.000 do Titanic). Só que, apesar das imagens do navio a ser engolido pelo oceano, o naufrágio teve lugar a uns escassos 5 km da costa, num local onde a profundidade ronda apenas os 100 metros. Os destroços afundados do Oceanos vieram a tornar-se um lugar privilegiado para o mergulho.  

29 junho 2021

ISTO, QUE ACONTECEU A JACOB ZUMA, NÃO SERÃO BOAS NOTÍCIAS, NEM PARA JOSÉ SÓCRATES, NEM PARA DONALD TRUMP...

É uma pena que não esteja a ser dado mais destaque à notícia. É que o poder judiciário sé tem por que valorizar-se quando, como aqui acontece, põe cobro aos excessos do poder político.

21 março 2020

O MASSACRE DE SHARPEVILLE

21 de Março de 1960. Dia do massacre de Sharpeville na África do Sul. A seu respeito pode dizer-se o mesmo que aqui escrevi por ocasião do 60º aniversário do massacre do Pidjiguiti na Guiné: «não nos podemos esquecer que estes episódios violentos terão sido, mais do que provavelmente, apenas os publicitados de uma longa lista deles, desconhecidos, que forçosamente acompanharam a implantação do regime (neste caso do apartheid) ao longo de décadas». Mas também ali recordo como todos estes episódios «foram explorados de forma muito semelhante para efeitos de propaganda: o contexto das reivindicações (normalmente laborais) é deturpado, o papel das organizações dirigentes é retocado, enquanto o número de vítimas é inflacionado». No caso de Sharpeville e como excepção, o número de vítimas é rigoroso e costuma ser secundarizado o facto de que a organização que estava por detrás dos protestos era o PAC (Pan Africanist Congress of Azania), uma dissidência do hegemónico e agora omnipresente ANC (African National Congress), que se apropriou da data. Quanto ao vídeo que inseri acima é uma recriação de um filme de 2013.

20 março 2020

A INDEPENDÊNCIA DA NAMÍBIA

20 de Março de 1990. Data da(s cerimónias da) independência da Namíbia. Uma história colonial complexa culminava nas cerimónias que as imagens abaixo mostram. A presença do secretário-geral da ONU, Javier Pérez de Cuéllar (recentemente falecido), servia para conferir ao momento a legitimidade internacional que a potência administrante (África do Sul) carecia. No resto, a cerimónia assemelhava-se a tantas outras.

Também ali houvera uma guerra subversiva especialmente activa no período entre 1979 e 1989. E também ali, toda a superioridade militar manifestada no terreno pelo exército sul-africano de pouco terá servido à mesa das negociações. Livros como o que exibo abaixo, muito informativos que sejam, dispersam-se a analisar os detalhes da guerra, ou seja árvore a árvore, perdendo de vista a paisagem e a floresta.

11 fevereiro 2020

LIBERTAÇÃO DE NELSON MANDELA

11 de Fevereiro de 1990. Libertação de Nelson Mandela de uma prisão sul-africana situada perto da cidade do Cabo. Estivera preso durante 27 anos. Foi um acontecimento coberto pela televisão norte-americana em directo e assim, implicitamente, tornou-se um acontecimento (televisivo) de dimensão mundial. Em Portugal, também a RTP o transmitiu em directo. Só no dia seguinte (11 de Fevereiro foi um Domingo), a comunicação social mais vetusta pode acompanhar o acontecimento. O Diário de Lisboa desenvolveu-o por quatro páginas e escolheu dar-lhe um retoque de exotismo africano, recorrendo a uma expressão de uma das línguas nativas da África do Sul («Amandla») que, por sinal, os leitores portugueses nunca haviam ouvido e não conheciam, e que, por sinal, o jornal traduziu mal*.
* Estes expedientes informativos de profunda densidade antropológica, adoptando palavras que convidam o leitor a tornar-se num iniciado, estavam destinados a um futuro tão brilhante quanto fugaz. Recordemos apenas dois exemplos: o do próprio Nelson Mandela, tratado recorrentemente por Madiba (e muitos outros nomes exóticos), ou então Yasser Arafat, cuja sede do seu poder na Palestina era a Mukataa e os israelitas cercavam-no na Mukataa.

04 janeiro 2020

O DISCURSO SOBRE «O(S) VENTO(S) DE MUDANÇA» QUE VARRIA(M) ÁFRICA

A edição de 4 de Janeiro de 1960 do Diário de Lisboa dava um destaque de primeira página a uma grande viagem a África que o primeiro-ministro britânico, Harold MacMillan (1894-1986), iria iniciar no dia seguinte. Prevista para durar seis semanas, o périplo viria a envolver visitas ao Gana (já então independente), à Nigéria (em vias de o vir a ser), Zâmbia e Zimbabué (que então constituíam uma só colónia denominada Rodésia), terminando o percurso oficial na África do Sul, nos primeiros dias de Fevereiro. Foi na cidade do Cabo, onde se localiza o parlamento sul-africano, que MacMillan virá a proferir um discurso que, por esta vez, rara, justificará a passagem da notícia acima que, como de costume nos jornais, remetia para repercussões históricas - «Na opinião dos círculos diplomáticos esta viagem terá influência histórica». Teve, embora não pelas razões antecipadas pelo jornal. O discurso então proferido por Harold MacMillan, que veio a ficar registado para a História pelo nome de «Ventos de Mudança*», era o anúncio de uma antecipação dos cronogramas para as concessões das independências das colónias britânicas naquele continente. O processo, que fora programado para durar décadas, em função das condições sociais, políticas e económicas consideradas necessárias para cada colónia alcançar a respectiva independência, ia agora ser concluído em menos de uma década (a última independência a ser proclamada iria ser a da Suazilândia em 1968). Colateralmente, as circunstâncias do discurso, sobretudo o local e a audiência, onde era proferido, eram também indicativo de que a condescendência política da metrópole britânica para com o regime do apartheid sul-africano tinha os dias contados. Os anfitriões sul-africanos acusaram o toque. Esta notícia do Diário de Lisboa de há 60 anos, mais do que uma grande notícia, era uma notícia presciente! O que não se pode dizer, contudo, é que a visita, tal qual era apreciada pela edição do Diário de Lisboa de há sessenta anos, se destinasse a «fortalecer a influência britânica naquele continente»... 

* Wind of change, no original, expressão extraída de uma passagem onde se lia «um vento de mudança está a soprar através deste continente. Queiramos ou não, este crescimento das consciências nacionais é um facto político». Algures a meio das transcrições, e porque talvez soasse melhor, o vento passou a ser plural, ventos de mudança.

22 setembro 2019

O INCIDENTE DE VELA (HISTÓRIAS DE MISTÉRIO E IMAGINAÇÃO)

22 de Setembro de 1979. Conforme se pode ler na Wikipedia: «O incidente de Vela, também conhecido como o "flash" do Atlântico Sul, foi um "flash" duplo de luz não identificado detectado por um satélite americano Vela em 22 de Setembro de 1979 perto das ilhas Prince Edward, no Sul do Oceano Índico. A causa do "flash" permanece oficialmente desconhecida e algumas informações sobre o evento continuam classificadas. Embora tenha sido sugerido que o sinal poderia ter sido causado por um meteorito atingindo a Terra, os 41 "flashes" duplos anteriores detectados pelos satélites Vela haviam sido causados por testes de armas nucleares (nota minha: embora tivesse sido precisamente para detectar testes nucleares que os satélites daquela classe haviam sido colocados em órbita*). Hoje, a maioria dos pesquisadores independentes acredita que o "flash" de 1979 foi causado por uma explosão nuclear - talvez um teste nuclear não declarado realizado conjuntamente pela África do Sul e por Israel.»

Na verdade, o painel de especialistas científicos que o NSC reuniu à época não conseguiu ser conclusivo quanto à origem do que o satélite detectara. No seu relatório de 23 de Maio de 1980 podia ler-se (no original): «although the Panel is not able to compute the likelihood of the September 22, 1979 event being a nuclear explosion, based on our experience in related scientific assessments, it is our collective judgment that the September 22 signal was probably not from a nuclear explosion.» Em contrapartida, um relatório concorrente, elaborado por um painel de membros dos serviços de informações era taxativo em concluir (mais uma vez, no original) que tinha: «...high confidence, after intense technical scrutiny of satellite data, that a low-yield atmospheric nuclear explosion occurred in the early morning hours of 22 September 1979.» É um daqueles casos em que as duas conclusões não devem ser sopesadas da mesma maneira. A comunidade das informações americana tinha que proteger "as suas costas", acautelando o worst-case scenario que era representado pelos eventuais sinais de proliferação nuclear que estariam ali a ser protagonizados por dois aliados mal comportados dos Estados Unidos: África do Sul e Israel.

E claro, caso se se tivesse tratado de um ensaio nuclear clandestino, o potencial de mistério de todo o acontecimento seria completamente outro! Constate-se que é a controvérsia baseada nisso e não os factos conhecidos que dão robustez à página da Wikipedia que é dedicada ao Incidente de Vela! Só que, por outro lado, passaram-se entretanto quarenta anos! O segredo da capacidade nuclear de Israel é hoje um segredo de polichinelo. Houve uma mudança de regime na África do Sul. Contudo, apesar de se ter a certeza que esse hipotético ensaio nuclear teria que ter contado com a colaboração de centenas de pessoas (a Operação Argus, realizada pelos Estados Unidos em paragens próximas 20 anos antes, contara com a participação de nove navios), nestes últimos quarentas anos não apareceu nem uma pessoa que fosse testemunha do hipotético ensaio nuclear. Um verdadeiro "síndrome de Área 51": o síndrome original mete extraterrestres e discos voadores desde há mais de 70 anos, mas, também aqui, a melhor explicação para o mistério é não haver mistério algum. Adenda: mas , pelos visto, isso não interessa nada ao Observador.
* E conhece-se aquele aforismo que estabelece que quem se equipa com um martelo tem tendência para abordar tudo com o que se depara pela frente como se fossem cabeças de prego...

28 março 2019

O MASSACRE DE SHELL HOUSE

28 de Março de 1994. A África do Sul de há precisamente 25 anos era uma incógnita quanto àquilo em que se viria a tornar. O regime da minoria branca encabeçado por F. W. de Klerk já acordara na cedência do poder para um outro regime, que fosse legitimado pelo voto popular de toda a população, mas aqueles que eram considerados os potenciais vencedores dessa disputa, que se travaria nas urnas dali por um mês, o ANC de Nelson Mandela, ainda não adquirira essa legitimidade. E, nas franjas da aproximação política em curso, as alas radicais que se lhe opunham, brandiam os seus argumentos. Entre os negros, a dissidência era composta pelo partido Inkhata, uma agremiação política dirigida por Mangosuthu Buthelezi, e que era composta fundamentalmente por zulus, um dos grandes grupos étnico-linguísticos. Previsivelmente, em vez de esperar pelo veredicto eleitoral, o Inkhata resolveu vir para a rua demonstrar a sua força diante do seu grande oponente ANC. A manifestação de há 25 anos, envolvendo umas 20.000 pessoas, algumas delas devidamente ataviadas com as tradicionais vestes guerreiras dos zulus, teve lugar em Joanesburgo e passaria diante da sede nacional do ANC, Shell House, um edifício de 22 andares na baixa da cidade. E foi dali que os serviços de segurança do ANC, acreditando num, ou invocando um plano dos manifestantes para assaltar as suas instalações, atiraram sobre a multidão. O número de mortos varia entre os 19 (oficiais) e os 53. O de feridos nem sequer é mencionado. Para o que verdadeiramente interessaria, três conclusões se extraíam do incidente:

a) Que o ANC aceitaria o desafio se o Inkhata quisesse assumir um crescendo de violência na disputa política.
b) Que o regime branco aproveitava de bom grado essa predisposição à violência, já que ela diluiria as responsabilidades pela repressão, durante a vigência do apartheid.
c) Que ao Inkhata restava aproveitar-se do capital de vitimização com o incidente, o seu massacre.


Quanto ao relatório do inquérito judicial, concluído três anos e meio depois, é extenso e maçudo e não conclui nada. Nem parece suposto que o fizesse.

24 março 2018

A METAMORFOSE DA «COMMONWEALTH»

Estamos a 17 de Março de 1961, em Londres, a cerimónia é de gala porque se trata do encerramento da conferência de primeiros ministros, e esta fotografia assinala o início do que será a metamorfose da imagem da Commonwealth britânica. A fotografia em que a monarca Isabel II aparece, ao centro, rodeada dos chefes de governo dos países que outrora haviam composto o Império, parece ser uma composição cada vez mais heterogénea, quando comparada com as fotos de cerimónias precedentes, uma heterogeneidade que, tanto como as aparências, se substancia também pelos percursos e pelos anseios díspares de quem rodeia a monarca. A Commonwealth mostrava que não podia ser o desejado prolongamento do Império Britânico desejado por Londres. A Irlanda já saíra, a África do Sul preparava-se para o fazer, a instituição manifestava-se impotente para gerir a animosidade indo-paquistanesa. Há 57 anos e da esquerda para a direita, identificam-se Kwame Nkrumah pelo Gana, John Diefenbaker pelo Canadá, Hendrik Verwoerd pela África do Sul, Jawaharlal Nehru pela Índia, Ayub Khan pelo Paquistão, a Rainha, Roy Welensky pela Rodésia (que hoje são a Zâmbia e o Zimbabwe), Sirimavo Bandaranaike pelo Sri Lanka, Harold Macmillan que foi o anfitrião britânico, Robert Menzies pela Austrália e o arcebispo Makarios III por Chipre. Ausentes da foto, mas presentes na conferência, haviam estado ainda os dirigentes da Malásia, Nova Zelândia e Nigéria. Abaixo, pode comparar-se o que fora a tradição daquelas conferências (a de 1926, acima, ainda com Jorge V, o avô de Isabel II) e aquilo em que se iriam transformar (a de 1983, abaixo).

03 dezembro 2017

O PRIMEIRO TRANSPLANTE DE CORAÇÃO

3 de Dezembro de 1967. Há precisamente cinquenta anos tornava-se notícia a realização do primeiro transplante de coração bem sucedido da História da Medicina. O mais surpreendente, porém, era o local onde isso acontecera: a improvável Cidade do Cabo, na África do Sul. Para que o assunto fosse ainda mais interessante do ponto de vista informativo, especialmente para as audiências ocidentais, o cirurgião herói, o Dr. Christiaan Barnard, era muito fotogénico, na linha dos protagonistas de séries televisivas como o Dr. Kildare (abaixo). Significativo do como as notícias não tinham o desgaste dos dias que correm, o assunto ainda valia a capa das edições de 15 de Dezembro das duas principais revistas de notícias dos Estados Unidos (acima), muito por causa, conceda-se, do facto de o transplantado ainda estar vivo. Contudo e infelizmente, o homem de 54 anos que recebera o coração de uma mulher de 25, veio a falecer cerca de uma semana depois. A propósito, parece que não tem havido nada para dizer de novo a respeito de Salvador Sobral...