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03 julho 2024

O PROJECTO «ITHACUS»

Entre os projectos militares mais surpreendentes que nunca avançaram conta-se este foguetão intercontinental de transporte que constituía notícia a 3 de Julho de 1964, após o encerramento da 1ª Reunião Anual do Instituto de Aeronáutica e Astronáutica. Será desnecessário explicar em que consistia a ideia: a notícia acima explica-o. Assim como se afigura óbvio que essa ideia estava muito longe de se concretizar: seria necessário esperar ainda uns dez a doze anos (1975) e investir os «fundos necessários» (que não são estimados sequer...). Mas o objectivo estratégico do foguetão «Ithacus» parecia límpido: como potência hegemónica, os Estados Unidos passariam a dispor de meios para colocar uma unidade militar de poder de fogo significativo em muito poucas horas em qualquer local do mundo onde Washington considerasse que os seus interesses estivessem a ser ameaçados: um golpe de estado hostil num país aliado, por exemplo.
O projecto e a ideia de «Ithacus», apesar de imaginativa e engenhosa, tinha dois óbices. O primeiro e mais imediato era o seu custo e a sua eficácia, quando comparado com uma operação aerotransportada mais convencional, que colocaria os mesmos efectivos e as mesmas cargas no mesmo local, só que uma dúzia de horas depois. Seria que os custos - astronómicos - do projecto valeriam essas escassas horas de antecipação? O segundo óbice era de cariz mais estratégico e os responsáveis militares e políticos norte-americanos só se vieram a aperceber dele depois de efectuarem vários outras intervenções no Mundo, como a do Vietname, do Iraque ou do Afeganistão. O problema principal para os Estados Unidos nunca se põe quanto à celeridade como chegam aos locais de intervenção, localizem-se eles onde for por esse Mundo fora; o grande problema dos Estados Unidos têm sido sempre as condições de dignidade como depois conseguem sair desses locais. No Afeganistão, por exemplo, passaram 20 anos (2001-21) por lá e os resultados finais foram os que foram...

27 junho 2024

O RETORNO À TERRA DA MISSÃO CHANG'E-6

Três semanas depois de descolado do lado oculto da Lua, a nave espacial chinesa Chang'e-6 completou a viagem de retorno, aterrando nas planícies da Mongólia Interior com um conjunto de amostras lunares de regiões geológicas ainda inexploradas do nosso satélite. A cápsula de retorno, no formato característico das naves de inspiração soviética, reentrou na nossa atmosfera às 06H07 GMT de 25 de Junho, com a descida a ser monitorizada via televisão pela equipa de controlo, como se pode ver no vídeo abaixo. Os membros da equipa de recuperação da missão apressaram -se a verificar não só a cápsula como a desenrolar uma bandeira chinesa para aparecer nas fotografias... É um indiscutível sucesso de propaganda chinesa.

03 junho 2024

UMA REFLEXÃO REBUSCADA ASSOCIANDO A CHANG'E-6 E PAULO PORTAS

Foi com uma enorme discrição que se constata estar a ser noticiada a aterragem no lado oculto da Lua da sonda espacial chinesa Chang'e 6. A missão tem por objectivo recolher amostras de poeira e rochas lunares para posterior análise na Terra. Para isso, o sistema está organizado em quatro módulos: um orbital à volta da Lua, este módulo de aterragem na superfície lunar que foi agora utilizado, um terceiro módulo de redescolagem depois da recolha das amostras do solo e finalmente um quarto módulo preparado para as proteger quando do seu retorno à Terra. Trata-se de uma proeza que já foi alcançada pelos Estados Unidos e pela União Soviética durante a sua Corrida para a Lua de há 50 anos, mas neste caso da Chang'e 6 existe a curiosidade - e a dificuldade - científica acrescida desta pesquisa estar a realizar-se do lado oculto da Lua. Há aqui um investimento notório por parte da China, não apenas científico, mas também de prestígio. O vídeo acima é uma prova disso, e é impossível não nos sorrirmos ao ouvir a escolha que fizeram para a banda sonora do momento da aterragem, «O Danúbio Azul», num piscar de olhos deliberado à famosa cena do filme 2001 - Odisseia no Espaço.
Contudo, mais interessante do que acompanhar a própria proeza científica, têm sido os meus esforços para tentar compreender a racionalidade como estas proezas científicas costumam ser noticiadas pela comunicação social. A portuguesa e a internacional, esclareça-se. Ainda este ano, em Fevereiro, acompanhei aqui no blogue uma iniciativa privada de fazer aterrar uma sonda também na Lua, que recebeu uma promoção prévia entusiasmada (1) e que depois, após uma tentativa ridícula de atrasar as más notícias (2), se veio a revelar um fiasco... colossal (3). O contraste com as notícias a propósito desta Chang'e 6 não podia ser maior. Entre a comunicação social portuguesa e do resultado da pesquisa que acabei de fazer com o Google Notícias (acima) apenas o jornal Público se tinha dado ao trabalho de processar a informação que lhe chegara via Reuters. Eu vivo ainda na ilusão de que, porque estes temas são científicos, a sua repercussão noticiosa devia ser mais neutra. Mas nestas ocasiões parece-me que a objectividade é a mesma que aquela que acompanha a difusão dos pensamentos dominicais de Luís Marques Mendes na SIC versus Paulo Portas na TVI. O primeiro até pode dar um traque que é garantido que o Expresso comenta de imediato a importância do som emitido, enquanto o segundo, nem mesmo citando os ensinamentos de Confúcio, tem qualquer hipótese que lhe dêem atenção... (note-se: não tenho pena alguma de ele ser descriminado, devia era ignorar-se Marques Mendes da mesma maneira)

30 março 2024

À DESCOBERTA DE MERCÚRIO

(Republicação)
30 de Março de 1974. Descobria-se como era a aparência do planeta Mercúrio. A sonda responsável pelo envio das primeiras fotografias do primeiro planeta do Sistema Solar denominava-se Mariner 10. Embora o seu percurso pelo espaço fizesse com que a maior aproximação da sonda ao planeta tivesse ocorrido ainda no final do dia anterior (às 20H47 TMG), foi só neste dia que, por causa da delicadeza e lentidão das transmissões, começaram a ficar disponíveis para a comunicação social as primeiras fotografias da superfície de Mercúrio. Era um grande feito científico... mas também uma grande desilusão mediática: para o grande público, aquilo que se podia ver era uma reedição daquilo que já se vira na Lua, um corpo rochoso que se destacava da escuridão, marcado por uma profusão aleatória de crateras de impacto (acima o mosaico de fotos dessa passagem em que a Mariner 10 se chegou a aproximar até 700 km da superfície do planeta). Ao contrário do que acontece com Marte, Vénus, Júpiter ou até, mais recentemente, com o longínquo Plutão, Mercúrio é um planeta desprovido de charme.

05 março 2024

A HISTÓRIA (EPISODICAMENTE) RECORDADA DO PoSAT-1

(Publicado originalmente a 14 de Agosto de 2017 e publicado agora de novo por causa da colocação do segundo satélite português no espaço, mais de trinta anos depois do primeiro; vale a pena chamar a atenção que este satélite é ainda dez vezes menor do que o primeiro)
Não sei quantos se recordarão ainda do PoSAT-1, um micro-satélite com uns 46 kg que foi lançado para o espaço a partir de Kourou, na Guiana, a 26 de Setembro de 1993, por um foguetão Ariane-4 da Agência Espacial Europeia (ESA). Do ponto de vista estritamente astronáutico, o satélite quase nada teria de importante: o PoSAT-1 era apenas um dos sete satélites da carga daquele Ariane-4 e, só naquele ano de 1993, realizar-se-iam mais seis lançamentos de outros foguetões Ariane-4 naquela mesma base de Kourou. Se adicionarmos ao programa desenvolvido pela ESA, os lançamentos que eram efectuados em paralelo pelas suas rivais norte-americana (NASA), russa (Roscosmos), chinesa, japonesa, indiana, etc., teremos uma melhor ideia da banalidade do feito. Mas isso seria apenas a questão técnica da façanha.
Politicamente porém, tratava-se do primeiro programa exclusivamente português no género e aí, para benefício da propaganda doméstica (na altura, imperava o cavaquismo), a história foi explorada até ao tutano. Também nada que fosse especificamente doméstico: um dos companheiros do PoSAT-1 era o Kitsat-2, outro micro-satélite, o segundo a ser enviado para o espaço pela Coreia do Sul. Dir-se-ia que estava na moda cada país ter os seus satélites. O português ainda fora montado em Inglaterra (o coreano já fora montado na própria Coreia), custara uns 8,5 milhões de euros (a preços actuais) e, para efeitos de propaganda, tinha um «pai». Só o pai, como acontece agora com Cristiano Ronaldo. O pai do primeiro satélite português. Nos artigos a propósito (acima), não se podia falar do engenho sem se falar do pai e (de preferência) com o pai. O pai (era) é Fernando Carvalho Rodrigues.
Acontece que, para além de outros predicados que o terão levado a chefiar a equipa responsável pelo PoSAT-1, Fernando Carvalho Rodrigues era extremamente parecido com o tenor Luciano Pavarotti (1935-2007) como se pode ver acima. E foi essa característica e não outras mais abonatórias, que, estranhamente, esteve na origem deste poste. Associando-o à Festa do Pontal do PSD de ontem, lembrei-me que foi na sua edição do ano seguinte ao do lançamento do primeiro satélite português (1994), que o vi a fazer um play-back do famoso tenor italiano. Tratando-se de um comício político foi bizarro e teve uma graça que o correr dos anos foi esbatendo. Fernando Carvalho Rodrigues revela-se uma pessoa estimável, mas o PoSAT tornou-se um consórcio que, descontado o seu efeito de propaganda à época, fracassou nos seus objectivos de uma intervenção de Portugal autónoma no espaço: admita-se que 24 anos é tempo demasiado para ainda estar à espera de um PoSAT-2...
Nota suplementar: já agora, para comparação e porque o referi, veja-se por este meu poste, até onde evoluiu entretanto o programa espacial sul coreano. Desenvolveram os seus próprios foguetões e, em 2009, um deles colocou pela primeira vez um satélite sul coreano em órbita. No ano anterior, um protocolo com os russos tinha dado oportunidade a que, pela primeira vez, um cosmonauta sul-coreano viajasse até ao espaço, por sinal, uma mulher.

(e aquilo que há seis anos e meio eu aqui escrevia sobre o desenvolvimento do programa espacial da Coreia do Sul, hoje poderia escrevê-lo sobre o do Irão)

04 março 2024

A MESMA NOTÍCIA NOTICIADA DE DUAS MANEIRAS OPOSTAS (3)

Rematando aquilo que já aqui fora cautelosamente abordado em 15 de Fevereiro e em 24 de Fevereiro, o que fora anunciado prematuramente como um sucesso veio a revelar-se um fiasco. Este é o género de notícias que têm um tempo adequado para serem noticiadas. E os jornalistas esquecem-se disso porque cedem às pressões daqueles que querem apenas promover o assunto.

24 fevereiro 2024

A MESMA NOTÍCIA NOTICIADA DE DUAS MANEIRAS OPOSTAS (2)

Como eu antecipadamente alertara aqui no blogue em 15 de Fevereiro, os resultados de uma missão lunar têm de ser avaliados com muita prudência. Não apenas antes da missão, como também durante a missão, até a poder dar por concluída com sucesso. Ora prudência não parece ser palavra que combine bem com quem se encarrega de as promover mediaticamente, especialmente no caso dos projectos terem patrocínio privado, como acontece com esta sonda Odysseus. Ontem a notícia era a de um sucesso acompanhado de palmas entusiásticas, hoje já não é bem assim: atendendo às circunstâncias, vamos lá a ver como é que se consegue levar - ou se ainda se consegue levar - a missão para diante...

15 fevereiro 2024

A MESMA NOTÍCIA NOTICIADA DE DUAS MANEIRAS OPOSTAS (1)

A da esquerda é da The Economist, a da direita vem no The Guardian, embora escrita pela agência noticiosa Reuters. A primeira mostra-se assaz cautelosa quanto às possibilidades de sucesso da missão, e justifica-o enumerando os fracassos recentes de missões semelhantes. A segunda assemelha-se a uma press release da empresa responsável pela missão. Neste último caso, caso a missão fracasse, explica-se o que aconteceu com um eufemismo parecido com houve «uma desmontagem rápida e não programada» da nave espacial e, a partir daí, deixa de haver press releases... A notícia da esquerda é uma notícia; a notícia da direita é uma coisa para as pessoas lerem. E convém que os leitores percebam a diferença.

14 janeiro 2024

«GRANDES» DISCURSOS PRESIDENCIAIS

14 de Janeiro de 2004. Numa visita à NASA o presidente George W. Bush faz um discurso de antevisão de como evoluiria o programa espacial norte-americano na próxima década, que culminaria com o regresso dos voos tripulados à Lua até 2015. Inspirado descaradamente, na forma e nos propósitos, no discurso que havia sido proferido em 25 de Maio de 1961 por John F. Kennedy, este outro discurso foi descartado para o caixote do lixo da História, pelos motivos que essa própria História torna evidentes: praticamente nada do que ali se prometeu se veio a concretizar. E contudo, do ponto de vista jornalístico, a pomposa patranha mereceu o destaque de capa e uma página inteira da edição do dia seguinte. Os jornalistas não adivinham o futuro mas deviam ter por missão denunciar promessas não cumpridas como é este o caso (flagrante).

08 janeiro 2024

O HOMEM QUE PASSOU MAIS TEMPO NO ESPAÇO

(Republicação)
8 de Janeiro de 1994. Lançamento da missão espacial russa Soyuz TM-18. Entre a tripulação (fotografia acima) encontra-se o médico Valeri Polyakov de 51 anos (à esquerda) que irá passar os próximos catorze meses e meio (437 dias) na estação espacial MIR, estabelecendo com isso o record do maior período contínuo passado no espaço (um record que ainda hoje subsiste). O vídeo abaixo mostra o seu retorno à Terra a 22 de Março de 1995, com a tripulação da missão Soyuz TM-20. Se a proeza tivesse sido realizada pelos norte-americanos, teria sido notícia de encher os cabeçalhos à volta do Mundo; pelo contrário, no caso, ainda se nota um certo provincianismo socialista soviético nas cerimónias preparadas para o acolhimento dos cosmonautas.

Pela sua duração, este terá sido o processo experimental mais próximo de replicar e estudar as condições de imponderabilidade por que terão de passar quaisquer tripulantes de uma futura missão a Marte (cuja duração previsível rondará os vinte e um meses). De há trinta anos para cá produziram-se incontáveis estudos teóricos quanto a missões espaciais tripuladas para a exploração daquele planeta, mas a verdade é que nada foi desenvolvido naqueles aspectos experimentais mais concretos (e mais caros...) da missão, nomeadamente este aspecto crucial de compreender e lidar com as reacções do organismo humano à presença prolongada no espaço. Passarão várias décadas antes de que a história de ir lá buscar o Matt Damon possa ser algo mais do que ficção...

18 outubro 2023

A GATA FÉLICETTE, A HEROÍNA DO «PROGRAMA ESPACIAL FRANCÊS»

(Republicação)
18 de Outubro de 1963. Os soviéticos tinham tido os seus cães, nomeadamente a célebre cadela Laika (acima, à esquerda), pioneira e mártir do primeiro voo orbital habitado em Novembro de 1958. Os norte-americanos, por seu lado, preferiam os chimpanzés e o seu pioneiro foi Ham, que acima aparece envergando um capacete da NASA pouco antes do seu voo suborbital em Janeiro de 1961. E completam-se hoje precisamente 60 anos que os franceses, naquela sua conhecida folie des grandeurs (mania das grandezas), resolveram adicionar, para glória do seu programa espacial, mais um bicho, o gato, ou melhor uma gata, à gesta da bicharada pioneira do espaço. Baptizaram-na de Félicette e a biografia que para ela criaram dava-a como uma genuína gata frequentadora dos algerozes parisienses antes de ter sido recolhida, qual trabalhadora do Pigalle apanhada pela ramona... Menos oficial mas ainda mais interessante era a historieta transmitida em surdina, que Félicette viera substituir à última hora Félix, um seu colega que, seleccionado antes dela, dispensara, por assim dizer, a honraria de se tornar gato pioneiro no espaço, evadindo-se para se cafrealizar, misturando-se com a gataria de Hammaguir, a vila argelina onde então se realizavam os ensaios dos foguetes franceses. A verdade é que os fait-divers a respeito da viagem espacial de Félicette pareciam ser mais interessantes do que os hard-data. Sobre estes últimos, o que havia a dizer era que o lançamento se inseria no programa de pesquisas espaciais da França, especificamente pesquisas no campo da biologia espacial. O foguete lançador era designado por Véronique. Como acontecia com os concorrentes soviético e americano, a concepção e design dos foguetes franceses também devera muito aos trabalhos percursores que os técnicos alemães haviam desenvolvido em Peenemünde durante a Segunda Guerra Mundial.
O que o voo em que Félicette participaria pretenderia alcançar era transportá-la até uma altitude de 157 km (na viagem ela estaria sujeita inicialmente a uma pressão de 9,5 G para depois estar cerca de 5 minutos em condições de imponderabilidade), para recuperar depois a cápsula, de preferência com a gata viva. Nesse aspecto, a viagem de Félicette veio a revelar-se um sucesso. Félicette teve a sorte do seu lado; um seu colega que participou num outro voo daí por seis dias não a terá... A importância da gata pode ser avaliada pelo facto de haver duas fotografias acima retratando o mesmo momento, o da colocação da gata na ogiva do foguete (onde a fotografia da esquerda parece ser a encenada). Apesar das aparências e das irrelevâncias promocionais (nunca terá havido nenhum Félix evadido), a realidade é que o programa espacial francês se encontrava quase uma década atrasado em relação ao das duas superpotências. A viagem de Félicette apenas repetia aquilo que norte-americanos e soviéticos já haviam testado na década de 1950. A França ainda teria que esperar mais dois anos até conseguir colocar o seu primeiro satélite em órbita. E, no campo concreto das pesquisas em biologia espacial, a França nunca veio a desenvolver uma capacidade autónoma para colocar um homem em órbita (para além dos dois países que já então a tinham adquirido, tal capacidade só veio a ser adquirida em 2003 pela China). A esta distância percebe-se nitidamente que a viagem de Félicette não passava do que hoje designaríamos por um golpe publicitário para maior glória de França!

11 outubro 2023

O FRACASSO DO LANÇAMENTO DA SOYUZ MS-10

11 de Outubro de 2018 foi o dia em que o voo espacial tripulado da Soyuz MS-10 foi abortado pouco mais de um minuto após o lançamento por causa de uma falha de um dos quatro propulsores que não se separou normalmente da estrutura (ver acima). Tratava-se do 139º voo de uma cápsula Soyuz. Esta tinha como objectivo transportar dois cosmonautas para a Estação Espacial Internacional (ISS). No momento em que foi declarada a contingência, a torre do sistema de escape de lançamento já havia sido ejectada e a cápsula foi desligada do foguete usando os motores de lançamento de um foguete sólido que estão instalados na carenagem da cápsula. Os dois membros da tripulação, o cosmonauta da Roscosmos Aleksey Ovchinin e o astronauta da NASA Nick Hague, foram recuperados com boa saúde depois de terem efectuado um voo balístico que os levou até aos 93 km de altitude. O último episódio do género a acontecer num lançamento russo (soviético) dera-se quase precisamente 35 anos anos, quando a Soyuz T-10-1 explodiu na plataforma de lançamento em 26 de Setembro de 1983, um episódio também aqui evocado há poucos dias no Herdeiro de Aécio. Para os mais interessados, o filme animado abaixo explica em 4 minutos e meio o que aconteceu há cinco anos.

26 setembro 2023

OS FOGUETES DE ESCAPE OU EMERGÊNCIA

(Republicação)
Não sei se repararam que existe na extremidade superior de qualquer foguetão com naves tripuladas, aquilo que à distância pela sua espessura pareceria serem antenas e que afinal são um pequeno mas poderoso foguete, designado por foguete de escape (na designação norte-americana, na fotografia acima instalado numa nave Apollo) ou de emergência (usando a designação russo-soviética, abaixo numa nave Soyuz). Mas, seja qual for a designação, não se costuma dar por ele: é uma daquelas picuinhices (suponho que Eduardo Catroga lhe chamaria pentelhos…) de entusiasta pela astronáutica.
O dia 26 de Setembro de 1983 não foi um dia memorável (embora tivesse todas as condições para o ter sido…) e a agência de notícias TASS teria uma oportunidade de preencher a agenda noticiosa mundial com mais um lançamento bem-sucedido de uma nave espacial tripulada soviética. Porém, a minuto e meio antes da hora prevista para esse lançamento, quando se procedia ao abastecimento do foguetão, uma válvula defeituosa provocou um derrame de combustível que imediatamente se incendiou. Abaixo, as imagens registadas do acidente não são particularmente esclarecedoras…

…mas percebe-se que decorreram uns vinte segundos até que um sistema suplementar (o ordinário fora danificado pelo incêndio) fizesse acionar o foguete de emergência lançando aceleradamente (14 a 17 G) a Soyuz com os dois cosmonautas (Titov e Strekalov) até aos 2 km de altitude, para depois regressarem ao solo, como abaixo se explica, a mais de 5 km da plataforma. Foi a única vez em que aqueles foguetes foram accionados a sério. E fica a pequena nota que o primeiro gesto dos cosmonautas quando recuperaram o controlo da nave foi desligar o gravador de voz por causa dos palavrões…

06 setembro 2023

A PRESENÇA «TUTELAR» DOS ESTADOS UNIDOS NA LUA

Rompendo com uma longa tradição jornalística, neste mês de Agosto que acabou não se redescobriu água na Lua. Se calhar, porque não foi preciso. Duas sondas enviadas para aquele satélite conseguiram criar a impressão de uma mini corrida ao espaço e preencheram as leituras científicas do Verão. Melhor do que isso, a história das duas sondas acabou por adquirir até um fundo moral, porque a sonda russa (Luna-25 - a sonda dos maus...) despenhou-se na superfície lunar em 20 de Agosto, enquanto a sonda indiana (Chandrayaan-3 - a sonda dos... outros) ali alunou com sucesso apenas três dias depois. Mas tudo isto que se explicou até agora é o evidente. O que o é menos é a forma discreta como a agência espacial norte-americana NASA, ausente da mini corrida, se vai fazendo notar, publicando nos sites especializados as fotos dos sítios da superfície onde estão as duas sondas. O recado é claro, embora apenas para bons entendedores e como dissuasor para as potências rivais que queiram actuar clandestinamente no espaço: eles acompanham de perto o que se passa na superfície lunar.

31 agosto 2023

KWANGMYŎNGSŎNG-1

(Republicação dos tempos em que Donald Trump tornava a Coreia do Norte um país importante)
31 de Agosto de 1998. A Coreia do Norte anuncia a colocação em órbita do seu primeiro satélite artificial. O lançamento foi tomado inicialmente pelas agências encarregues de monitorizar tais eventos como um ensaio de um míssil intercontinental. Depois aperceberam-se que o míssil possuía um terceiro estágio destinado à aquisição da velocidade adicional necessária para colocar um objecto em órbita. Quanto ao objecto, também pouco se sabia (e sabe): há fotografias dele, mas uma grande dúvida quanto à sua massa que oscilaria entre os 6 e - 30 vezes mais! - os 170 kg. Quando do acompanhamento da fase final, as mesmas agências ter-se-ão apercebido que algo errado acontecera e que o satélite acabara por não entrar em órbita como previsto. Isso não terá constituído um problema para a Coreia do Norte, que anunciou o sucesso da empresa e que continuou a reportá-lo do mesmo modo nos dias seguintes. Só quinze dias depois, após confirmações sucessivas, é que uma cautelosa imprensa norte-americana anunciava o insucesso, deixando apenas subentendido a nota irónica do fazer-de-conta dos norte coreanos. Se acontecesse entre 2017 e 2020, atendendo à personalidade do ocupante de então da Casa Branca e do que foram as suas relações com a inventiva Coreia do Norte, talvez a notícia tivesse que ser reescrita, expurgando-a da ironia, já que ele se havia mostrado tão inventivo quanto o regime norte-coreano. (a imagem é um selo comemorativo norte-coreano do que era para acontecer e não chegou a ter acontecido...)

31 maio 2023

NOVA AVARIA NA SKYLAB

31 de Maio de 1973. O lançamento da estação espacial norte-americana Skylab dera-se a 14 de Maio (como se assinalou no blogue). Algumas vicissitudes haviam acontecido (repare-se acima como não existe o painel do lado esquerdo...), as equipas em terra procuravam solucionar os problemas que surgiam e era tudo isso que alimentava o noticiário.

14 maio 2023

O LANÇAMENTO DA SKYLAB

(Republicação)
14 de Maio de 1973. Lançamento do laboratório espacial Skylab. Não se tratando de um feito capaz de concitar as atenções da opinião pública como o fora a Corrida para a Lua, este lançamento era uma outra proeza técnica de respeito, com a colocação de um colosso de 77 toneladas em órbita (a ISS actual é mais do que o quíntuplo disso, mas foi montada progressivamente ao longo de 13 anos). A missão correu globalmente bem, mas com incidentes que perturbaram a imagem de sucesso do programa. Em baixo, os vídeos com o momento do lançamento e uma reconstituição animada de como terá sido o percurso até à entrada em órbita com o desdobramento dos equipamentos auxiliares.

21 abril 2023

A BEM "SUCEDIDA" «DESMONTAGEM RÁPIDA E NÃO PROGRAMADA» DO FOGUETÃO DA SPACEX

Esta é a história de um foguetão que é lançado com imensa promoção e que passados uns três minutos e meio de ascensão resolve desistir, passa a voar na horizontal por uns segundos, antes de se decidir a voltar para baixo, e depois arrepende-se e explode (vejam-se abaixo os últimos 15 segundos do voo). O que é verdadeiramente caricato neste fiasco é ele ser anunciado como um sucesso! Num idioma que nos recorda a novilíngua de Orwell, a explosão do foguetão foi descrita como «uma desmontagem rápida e não programada» ('a rapid unscheduled disassembly', no original). Só este episódio de nos querer tomar por parvos seria logo pretexto para antipatizarmos profundamente com Elon Musk, tenha ele o dinheiro que tiver.

02 abril 2023

O SUCESSO ESPACIAL SOVIÉTICO QUE ACABOU POR NÃO O SER

A 2 de Abril de 1963 a agência TASS (agência de notícias soviética) anunciava que fora lançado um foguetão que colocara um engenho de 1.422 kg em órbita terrestre. A partir dessa órbita, uma parte desse engenho, que entretanto receberia a denominação de Luna 4, seria rectificada para uma outra órbita que a encaminharia em direcção à superfície lunar onde se previa que aterrasse suavemente. Até ao momento em que a comunicação da TASS foi difundida tudo parecia correr de acordo com as previsões. Porém os sistemas de navegação eram ainda muito incipientes e a Luna 4 acabou por passar a cerca de 8.300 km do nosso satélite e perder-se. Aquilo que parecera inicialmente vir a ser um sucesso transformava-se num fiasco, e os russos tornaram-se ainda mais reservados e cautelosos na forma como informavam aquilo que ia acontecendo no seu programa espacial.

01 fevereiro 2023

AS VÍTIMAS DA COLUMBIA

1 de Fevereiro de 2003. Evocação da destruição da Columbia quando do regresso à Terra
Enquanto tudo se conjugava para que houvesse um ambiente natural de tensão quando do desastre que atingiu a Challenger, destruída na sua fase de ascensão em 1986, parece ter havido um certo ambiente descontraído quando da reentrada e destruição em voo da Columbia em 2003.
Nesse sentido, mais do que os vídeos que foram depois montados com o dramatismo da reconstrução dos acontecimentos que conduziram ao desastre e à morte da tripulação da STS-107, aquele que escolhi para ilustrar este poste, recolhido por uma testemunha ocular em sua casa,
…acompanhado do chilrear bucólico dos pássaros, parece-me muito mais genuíno do que terá sido o distanciamento como as testemunhas (não) se aperceberam da gravidade daquilo que estava a acontecer. Posteriormente, só os esquemas e os mapas com a distribuição dos destroços,…
…para além de algumas fotografias cuidadosamente seleccionadas (abaixo), poderão ter contribuído para explicar o que acontecera e despertar empatia com o destino trágico da tripulação da Columbia, ao contrário do que acontecera na Challenger, onde essa empatia fora imediata.