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18 maio 2024

OPERAÇÃO BUDA SORRIDENTE (POKHRAN-I)

(Republicação)
18 de Maio de 1974. A União Indiana faz detonar o seu primeiro engenho nuclear. Apesar das minhas leituras, em lado algum encontrei uma explicação satisfatória para o nome escolhido pelos indianos para designar o seu primeiro ensaio nuclear. É verdade - e nem todos se aperceberão disso - que o budismo é uma religião de origem indiana. É também verdade que existe uma estética distinta entre as representações do buda de um e outro lado dos Himalaias (percebe-se que a da imagem acima, pelo colorido e pela compleição ascética, é nitidamente indiana). Mas resta-nos a especulação para perceber que objectivo teriam os indianos quando escolheram aquele nome de código para uma operação cujo desfecho iria tornar o nome certamente público. A invocação de Buda, ainda por cima sorrindo, seria para ser um aceno irónico àqueles que eles considerariam os seus rivais próximos, os chineses? Os acontecimentos posteriores iriam demonstrar que quem não se sorriu nada ao saber do ensaio foram os vizinhos do Paquistão. Uma segunda questão, também superficial, é o problema do que se pode exibir em imagens para ilustrar um ensaio nuclear subterrâneo: não há muito material, a maioria do que há está classificado, e o remanescente - como se vê pelo exemplo acima - carece da espectacularidade dos enormes cogumelos dos primeiros ensaios à superfície (será por isso que os actuais ensaios nucleares norte coreanos costumam ser ilustrados pela figura de um outro buda sorridente...). Uma terceira questão, já mais séria, é a que se relaciona com os aspectos técnicos do ensaio. Embora camuflado pelas notícias da época, este primeiro ensaio nuclear indiano foi um semi fiasco: o engenho, enterrado a 107 metros de profundidade e que se inspirava no desenho das bombas de plutónio-239 de Alamogordo e Nagasáqui, terá registado uma potência destrutiva equivalente a apenas 40% da que fora registada pelos ensaios norte-americanos, quase 30 anos antes (ou seja, 8 ktons., em vez das 20 ktons. esperadas). Em contrapartida, assinale-se que, mercê dos progressos feitos ao nível dos materiais, o engenho indiano (1,4 tons.) pesava 30% do ancestral norte-americano onde se fora inspirar (4,5 tons.). Mas (quarta questão), para o impacto político e estratégico do feito, as minudências técnicas pouco importariam. Há precisamente 44 anos, a Índia entrava para um clube muito restrito, agora com seis membros, das potências com capacidade nuclear. A constatação não deixava de ser chocante para o resto do mundo, num país que, naquela altura, projectava ainda a imagem internacional da miséria extrema, de que ocasionalmente se mostrava incapaz de alimentar a sua própria população e se socorria, por causa disso, do auxílio externo. Seis anos antes, a Índia (com o Paquistão e Israel) recusara-se a assinar o Tratado de Não Proliferação Nuclear (NPT), em mais uma das fases deste jogo perpétuo (e hipócrita), em que todos se dispõem a assinar tratados mantendo o "status quo" da posse de armamento nuclear à escala mundial... com excepção dos países que estão em vias de mudar de estatuto (agora trata-se do Irão e da Coreia do Norte). Parecia um contrassenso. Mas não era: para as realidades frias da geoestratégia, a Índia tornara-se muito mais importante com uma arma nuclear numa mão do que com uma gamela estendida na outra. Actualmente, depois de uma muito bem sucedida (mas pouco publicitada) Revolução Verde, o problema da alimentação básica das populações indianas, mesmo que ainda em crescimento, já deixou de se colocar. Contudo, a atitude indiana em relação à posse do armamento nuclear nunca deixou de se distinguir pelo seu exotismo. Este livro abaixo, publicado em 2001, contém 765 páginas(!) onde o autor tenta convencer o leitor que a atitude indiana no que concerne ao recurso a este género de armamento é mais pacífica do que a dos seus rivais próximos... Acredite quem quiser.

25 abril 2024

MAIS CRAVOS EM ARMAS ERRADAS

(Republicação a propósito do cinquentenário)
Já aqui escrevera, no 25 de Abril do ano passado, sobre cravos colocados nas armas erradas. Regresso ao tema, observando a forma displicentemente ligeira como, por vezes, o tema dos cravos do 25 de Abril é tratado. A silhueta da arma da figura acima, por exemplo, é facilmente reconhecível como uma AK-47, uma arma de origem soviética. Para além do erro factual (Portugal sempre pertenceu à NATO, seria impossível que os seus soldados usassem armas daquela proveniência em 1974), e com a ignorância mais do que provável dos autores da montagem, aquela arma pode prestar-se a interpretações maliciosas (mas quiçá pertinentes) sobre a influência que o marxismo-leninismo teve no desvio dos ideais originais do 25 de Abril, só posteriormente corrigidas a 25 de Novembro de 1975.

Aliás, desconhecido de muitos, a começar pelos portugueses, a associação entre cravos e armas individuais de infantaria, especialmente as de origem soviética, é um fenómeno bem mais antigo do que 1974. Abaixo podemos ver um cartaz polaco dos anos próximos do fim da Segunda Guerra Mundial, da época em que vigorava uma amizade fraterna entre russos e polacos. Do ponto de mira da arma (uma PPSh de origem soviética) vêm-se sair dois cravos, um vermelho outro branco, representativos das cores nacionais da Polónia. Apesar de se tratar de uma estética bem conseguida, não consta que os cravos tivessem adquirido grande significado simbólico entre os polacos... Deve ter sido porque lá na Polónia daqueles anos os cravos da Liberdade não se davam muito bem por causa do clima

O CRAVO NA ARMA ERRADA

(Republicação a propósito do cinquentenário)
A fotografia acima, pretendendo passar por uma fotografia do 25 de Abril, não pode ser considerada uma verdadeira fotografia simbólica do 25 de Abril. Mesmo que o cravo e a boa disposição manifestada pelos fotografados estejam adequados ao evento, a arma onde a rapariga deposita o cravo está errada – trata-se de uma espingarda Mauser e não de uma G-3 – e o soldado é afinal um graduado da Guarda Nacional Republicana (GNR). Recorde-se que foi entre a GNR, no quartel do Carmo, que o presidente do conselho Marcelo Caetano se refugiou antes de se vir a render. Nada impede que os seus militares tivessem depois aderido ao espírito do acontecimento mas, institucionalmente, a GNR foi um dos vencidos do dia.

08 dezembro 2023

O CAOS NA GUARNIÇÃO DA PONTE DO RIO DO LUNG

Esta cena pertence ao filme Apocalypse Now (1979) e o caos a que se assiste constitui uma alegoria à coordenação que parece não existir na procuradoria geral da República: se uns mostram não saber quem é o commanding officer, os outros, que dizem que sabem quem é o commanding officer, é porque estão completamente ganzados. A única certeza é que o inimigo - os políticos corruptos - os cercam!...
Mas, pior do que isso, é que todos eles - até mesmo os procuradores intuitivos, equivalentes ao Roach da cena mais acima - nem sequer se mostram suficientemente eficientes para, com um M-79 ou outro expediente (legal) equivalente, conseguirem calar as vozes incómodas que se ouvem à sua volta (abaixo). É que nós vemos que os procuradores estão há nove anos para mandar Sócrates a tribunal!

08 outubro 2023

A CONTRA OFENSIVA FALHADA DOS ISRAELITAS NO SINAI (GUERRA DO YOM KIPPUR)

8 de Outubro de 1973. Guerra do Yom Kippur. Dois dias depois da ofensiva egípcia, que havia feito as suas tropas atravessar o canal do Suez e penetrar na península do Sinai, as tropas israelitas desencadeiam uma contra-ofensiva, operação que se virá a revelar um fracasso. Concebida como uma manobra táctica que ceifaria por detrás as ligações logísticas das unidades combatentes egípcias (ver o mapa acima), a acção fracassou. Ao contrário do que acontecera em 1967, os egípcios estavam agora muito bem apetrechados e treinados em armamento anti-tanque (AT-3 Sagger e mesmo RPG-7), que neutralizou as concentrações blindadas israelitas que haviam feito o sucesso da Guerra dos Seis Dias.
Nesta contra-ofensiva, os israelitas não só não haviam progredido grande coisa no terreno como, ainda por cima, haviam perdido 73 carros de combate num só dia, número que corresponde a 42% do total inicial de 172 da divisão blindada (e a quase 10% do seu parque total...). Os egípcios, remetidos à defesa, haviam perdido, quanto muito, uma trintena de tanques - e os tanques soviéticos sempre foram de qualidade muito inferior aos ocidentais. Pior: a divisão havia perdido, entre mortos, feridos e capturados, três dos seus nove experientes comandantes de batalhão. A Comissão Agranat irá ser muito severa para com as decisões dos comandantes militares nesta frente do Sinai nesta fase da guerra.
Contudo, tão importantes quanto estes desfechos tácticos, era a conclusão estratégica que o ritmo de desgaste material desta guerra iria obrigar a um envolvimento logístico sério por parte das duas super-potências para reabastecerem os dois lados combatentes (Israel de um lado e Egipto e Síria do outro). Já aqui se mencionou o caso dos Estados Unidos e Israel, que nos envolveu directamente por causa da base das Lajes. Mais discreto foi o caso dos soviéticos e a sua ponte aérea de material de guerra para os países árabes. Mas ela existiu, como se percebe pela passagem abaixo*, em que se nota - já então! - a atitude pró-russa (e anti-americana) da Turquia, apesar de pertencer à NATO!
No total, os Estados Unidos transportaram 22.325 toneladas de equipamentos militares por via aérea a partir de 12 de Outubro de 1973. Os soviéticos entre 12.500 e 15.000 toneladas. Uma boa razão para recordar este episódio de há cinquenta anos é fazer compreender melhor aos eventuais leitores deste blogue quais são os problemas do recompletamento do material de guerra nas fases mais acesas de uma guerra moderna, como a que se trava na Ucrânia**. Compreender como se revela importante, mas também complicado, substituir todo aquele equipamento que é destruído, no caso de se tratar de um país beligerante que não tem meios industriais para o poder substituir àquele ritmo, por si próprio.

* A passagem, assim como o mapa inicial e a avaliação da batalha de 8 de Outubro constam do livro «La Guerre Israélo-Arabe d'Octobre 1973» de Pierre Razoux, Economica 1999 já aqui mencionado.
**Este texto havia sido preparado antes dos ataque do Hamas a Israel. Apesar da belicosidade das declarações do 1º ministro israelita, ainda não se trata bem de uma guerra, pelo menos com as dimensões e gravidade da do Yom Kippur.

26 setembro 2023

O DIA EM QUE NÃO COMEÇOU A III GUERRA MUNDIAL

(Republicação)
Existem vários livros e filmes contando os dias quentes do Outono de 1962 em que, por causa da colocação dos mísseis soviéticos em Cuba, Kennedy e Khrushchev (os dois Ks), os Estados Unidos e a União Soviética estiveram à beira de uma Guerra Mundial que provavelmente degeneraria num conflito nuclear. Em contraste, quase ninguém terá ouvido falar do Tenente-Coronel Stanislav Petrov, um oficial do Ramo da Defesa Aérea soviética (ПВО) que evitou que aquelas mesmas duas superpotências se tivessem envolvido acidentalmente num outro conflito nuclear em 26 de Setembro de 1983

Este outro Outono quente de 1983 começara a aquecer a 1 de Setembro em consequência do episódio em que interceptores soviéticos haviam abatido um Boeing 747 da companhia aérea sul-coreana que, vindo dos Estados Unidos para a Coreia, se desviara da rota, o que causou a morte das 269 pessoas que seguiam a bordo (23% eram norte-americanas). É fácil imaginar quais as consequências que este acontecimento provocou nas relações – sempre tensas! – entre os dois países e a tensão acrescida que ainda pairaria no ar na noite de 25 para 26 de Setembro de 1983, quando o tenente-coronel Petrov entrou de serviço.

Costuma ser assim: muitas vezes, os acontecimentos importantes são condicionados por pormenores irrelevantes: Petrov não devia ali estar, mas fora convocado à última da hora para substituir um camarada que adoecera. As suas funções, enquanto estava de turno, eram vigiar uma panóplia de ecrãs mostrando imagens em directo (via satélite) das regiões do Midwest dos Estados Unidos onde estavam localizados os silos com os mísseis transportando as armas nucleares do inimigo e reportar mal acontecesse alguma anomalia: o tempo que medeia entre a descolagem e o impacto no destino ronda os 12 minutos!

Meia hora depois da meia-noite, aquilo que se imagina que os profissionais do ramo mais devem temer aconteceu mesmo: um aviso luminoso vermelho a piscar conjugado com um ensurdecedor sinal sonoro! O computador acabara de o informar que, de acordo com as informações disponíveis, nos Estados Unidos tinham acabado de lançar um ICBM¹. Ainda Petrov, tão assustado quanto intrigado (parecia haver algo de errado nas imagens que lhe chegavam via satélite), avaliava a situação e já dois, três, quatro, cinco avisos disparavam por sua vez, correspondentes à saída de outros tantos ICBMs.

O que estava a faltar na colecção de sinais dos outros monitores diante de Petrov eram as imagens térmicas que assinalariam a combustão dos mísseis recém-lançados… Ou seja, os outros indicadores à sua disposição estavam a mostrar que nada acontecera... Por outro lado, os segundos continuavam a passar e os americanos não haviam lançado mais nenhum ICBM para além dos cinco assinalados, o que contrariava todos os preceitos que haviam ensinado a Petrov no caso de haver um primeiro ataque nuclear: o atacante iria empregar todos os meios que pudesse, antes que eles fossem sujeitos a retaliação.

Se os Estados Unidos tinham centenas de mísseis, porque iriam começar uma Guerra lançando apenas cinco? – perguntou-se. Numa sociedade que em nada encorajava a tomada de decisões e num regime famoso por executar quem as tomava erradas, há algo de milagroso na decisão rápida do Tenente-Coronel Stanislav Petrov, considerando que o incidente não passava de um falso alarme do sistema de alerta nuclear soviético. As dúvidas tiraram-se dez minutos depois e, mais do que os imaginar, é possível ver uma réplica de como eles poderão decorrido, a partir da cena abaixo, retirada do filme WarGames...


Trata-se de uma coincidência mas, nesse mesmo Outono de 1983 estava a ser lançado o filme WarGames onde o enredo gira precisamente à volta dos problemas de um sistema de alerta nuclear norte-americano... Como é tradicional nos filmes de Hollywood, o filme acaba bem. A carreira do tenente-coronel Petrov é que nem por isso: veio a aposentar-se prematuramente. E o Outono de 1983 manteve-se quente até ao fim, até à realização dos exercícios Able Archer 83 pela NATO, que simulavam precisamente um engajamento nuclear, e se desenrolaram perante membros do Pacto de Varsóvia de sobrolho franzido.

¹ Acrónimo em inglês para Míssil Balístico InterContinental.

05 agosto 2023

A ASSINATURA DO ACORDO TRIPARTIDO SOBRE ENSAIOS NUCLEARES

5 de Agosto de 1963. É assinado em Moscovo o Tratado para a Proibição Parcial de Testes Nucleares. Os subscritores são os Estados Unidos, o Reino Unido e a União Soviética. Os signatários comprometem-se a não realizar testes nucleares à superfície, debaixo de água e no espaço. Mas, ao mesmo tempo, qualquer das três potências nucleares de então reservavam-se o direito de prosseguirem com os ensaios nucleares subterrâneos. Na prática, esta restrição já estava em vigor, já que qualquer delas havia estabelecido para si uma moratória nos ensaios atmosféricos. Contudo, esta proibiçãoa maior parte dos ensaios nucleares» (conforme se lê no título da notícia acima) acabava por se revelar inconsequente, na medida em que outras duas potências com aspirações nucleares (naquele momento, a França e a China) se haviam recusado a subscrever o Tratado até elas próprias terem realizado o número de ensaios que consideravam suficientes para dominarem a tecnologia do armamento nuclear. Setenta anos depois o Tratado parece continuar a ser respeitado no seu aspecto formal: mesmo os países aspirantes a potências nucleares (como o Irão ou a Coreia do Norte) deixaram de tentar realizar ensaios nucleares à superfície. Mas os mais cínicos consideram que a razão para isso se prende mais com a existência dos satélites espiões do que com o respeito pelos Tratados...

05 julho 2023

O INÍCIO DA BATALHA DO KURSK

(Republicação)
5 de Julho de 1943. Às 02H00 da madrugada (hora alemã) começava a Batalha do Kursk. Os sucessos das ofensivas soviéticas e dos contra-ataques alemães na Frente Leste nos primeiros meses de 1943 haviam resultado na formação de um grande saliente à volta da cidade de Kursk, entre Orel na Rússia e Kharkov na Ucrânia (ambas sob controle alemão). A ideia natural era pensar em fechá-lo, aprisionando no processo as unidades soviéticas que o guarneciam. Adolf Hitler já havia por uma vez adiado a Operação Zitadelle (fora assim que se baptizara o plano para fechar esse saliente com um ataque concêntrico em forma de pinça) em prol de uma proposta alternativa do OKW para a constituição de uma fortíssima reserva que acorresse (e esmagasse) as iniciativas soviéticas desse Verão, mas a 18 de Junho Hitler decidira-se finalmente a mudar de planos, assumir a iniciativa na Frente Leste e avançar com a Operação. Os objectivos adicionais, para além da enorme vitória táctica que constituiria mais este cerco de centenas de milhares de soldados soviéticos, seriam os de tornar a demonstrar a inequívoca superioridade alemã, que ficara tão abalada com os acontecimentos dos últimos meses em Stalinegrado, e sobretudo aproveitar a ocasião para desfazer o enorme impasse militar em que caíra a Frente Leste no seu conjunto. A execução da Operação parecia ser, de facto e só por si, a demonstração da força da Wehrmacht: 900.000 homens, 2.700 tanques e peças autopropulsionadas e 1.800 aviões foram reunidos para ela, embora isso representasse a concentração de 70% dos blindados e 65% da aviação atribuída a toda a Frente Leste. Embora o Kursk seja comumente referenciada como uma grande batalha de tanques, na extracção das lições que ela contém, percebe-se que ela foi mais um sucesso das restantes armas combinadas (infantaria, artilharia e engenharia) frente à cavalaria (blindados) cuja reputação ofensiva atingira o zénite com as campanhas de 1939 e 40. De facto, a reacção soviética à ofensiva alemã que há 75 anos começava - cuja data e detalhes já era conhecidos de antemão pelos soviéticos através das redes de espionagem - foi a de dispor uma densíssima rede defensiva (bunkers, infantaria equipada com armamento antitanque e batarias de artilharia com alvos pré-referenciados) que que levou as unidades blindadas alemãs à usura rápida e sem alcançarem quaisquer resultados substantivos: a 10 de Julho, o braço da tenaz do Sul, o 4.º Exército Panzer de Hermann Hoth, avançara uns míseros 32 km, e o seu homólogo do Norte, o 9.º Exército de Walther Model uns ainda mais desapontantes 13 km. Porém, os soviéticos aguardaram ainda mais dois dias (12 de Julho) até empenharem maciçamente as suas unidades blindadas. O embate entre os Tigers e os Panthers do 4.º Exército Panzer de Hoth e os T-34 e os T-70 do 5.º Exército Blindado da Guarda de Pavel Rotmistrov é considerado uma das maiores batalhas de blindados de toda a Segunda Guerra Mundial: a batalha de Prokhorovka. Como acontecera com o duque de Wellington na celebradíssima batalha de Waterloo, o grande feito de armas de Rotmistrov foi apenas o de não se deixar derrotar pelo inimigo que, esse sim, estava obrigado a vencer. Porém, os heróis da História têm uma génese por vezes bizarra: se muitos, senão quase todos terão ouvido falar de Wellington, Rotmistrov é um perfeito desconhecido, mesmo para os russos. Não ajudou à sua notoriedade na Rússia que a sua carreira militar tivesse acabado subitamente no ano seguinte, em consequência da forma como ele se conduzira durante a Operação Bagration. E não ajudou à sua notoriedade fora da Rússia que o motivo invocado pela Stavka para o seu afastamento fosse o excesso de baixas suportadas pelas unidades sob o seu comando. É que durante a Guerra-Fria, no Ocidente, tornou-se um axioma considerar que os generais soviéticos não se preocuparam com o destino dos seus homens como o faziam os seus aliados anglo-saxónicos e os seus inimigos alemães. Ora aquilo que acontecera com Rotmistrov era um desmentido frontal desse axioma. Embora não se sabendo na altura, para o desfecho da Guerra o Kursk foi a última ocasião em que a Wehrmacht assumiu a iniciativa militar de uma forma significativa. Adolf Hitler tivera dois anos completos para alcançar a vitória no Leste. A partir daí limitar-se-ia a reagir defensivamente às iniciativas soviéticas.

07 junho 2023

«CHARME» SOVIÉTICO

7 de Junho de 1983. Num banquete de gala oferecido no dia anterior em Moscovo ao presidente da Finlândia, o secretário-geral do PCUS, Yuri Andropov, fizera um discurso anunciando que o seu país se dispunha a retaliar contra aqueles países da Europa que se dispusessem a acolher no seu território misseis de cruzeiro norte-americanos e Pershing II. A NATO anunciara que esses mísseis seriam destinados a fazer a sombra dos mísseis SS-20 que a União Soviética estava a instalar do seu lado da Cortina de Ferro. O desagrado de Moscovo de há muito já se manifestara pelos canais diplomáticos tradicionais, mas este recado fora criteriosamente preparado para as opiniões públicas ocidentais. A este crescendo de tensão entre blocos, depois do degelo dos anos 70, dá-se o nome de «Crise dos Euromísseis». Todavia, o que é importante nesta evocação é recordar este modo agressivo, mesmo intimidatório, como os russos se dirigiam publicamente aos países da Europa ocidental que haviam decidido acolher aqueles sistemas: Grã-Bretanha, Alemanha Ocidental, Itália, Países Baixos e Bélgica. Era um meio de combate em que os países comunistas tiravam vantagem, já que a "opinião pública" a Leste só sabia (oficialmente) aquilo que a comunicação social controlada era autorizada a publicar. A Guerra-Fria terminou há mais de 30 anos, mas estas circunstâncias e estes episódios deixam o seu rasto: quando Vladimir Putin se comporta internacionalmente de maneira reminiscente à dos seus antecessores soviéticos, as simpatias dos países da Europa vão instintivamente para quem estiver do outro lado.

28 maio 2023

O PRIMEIRO ENSAIO NUCLEAR PAQUISTANÊS

28 de Maio de 1998. O Paquistão realiza o seu primeiro ensaio nuclear. A detonação (subterrânea) tem lugar numa remota montanha da província do Baluchistão. Seguir-se-á um segundo ensaio, dois dias depois, noutro sítio de testes, em local desértico, mas ainda no Baluchistão. O primeiro teste fora feito utilizando bombas com urânio enriquecido, o segundo teste será com uma bomba de plutónio. Percebe-se hoje que este conjunto de ensaios era uma demonstração política da aquisição da capacidade nuclear parte do Paquistão, uma aquisição que já tivera lugar anos antes, mas que só agora em exposta, em resposta a dois ensaios nucleares que a Índia acabara de realizar entre 11 e 13 de Maio.

29 março 2023

(QUASE TODA) A HUMANIDADE versus (MUITOS D)OS HABITANTES DOS ESTADOS UNIDOS

Esta segunda-feira, houve uma mulher norte-americana de 28 anos que entrou numa escola na cidade de Nashville, no Tennessee, armada com três armas de fogo e que, num quarto de hora, matou seis pessoas, antes de a polícia a ter morto a tiro, por sua vez. No dia seguinte, em Lisboa, um refugiado afegão irrompeu por um centro assistencial da comunidade ismaelita e assassinou duas pessoas com uma arma branca. O atacante ficou ferido. Crê-se hoje que qualquer dos atacantes destes dois incidentes separados estaria mentalmente perturbado e seriam, portanto, imprevisíveis.
Em circunstâncias igualmente difíceis de antecipar, parece poder-se concluir com uma lógica cristalina, que os meios à disposição do atacante - uma arma de fogo semi-automátíca versus uma faca - têm um impacto directo e significativo no número de vítimas resultantes destes infelizes episódios. Essa lógica cristalina não inclui uma substancial percentagem dos habitantes dos Estados Unidos. Sempre que um destes episódios se repete por lá, é um exercício grotesco ver os seus parlamentares estenderem-se em explicações porque é que não promulgam legislação restringindo o acesso a armas de fogo.
Neste assunto em concreto, aquela designação colectiva, o Ocidente (ou o Mundo Ocidental) não faz qualquer sentido.

A SAÍDA DAS ÚLTIMAS TROPAS COMBATENTES NORTE-AMERICANAS DO VIETNAME

Republicação
29 de Março de 1973. Cumprindo os calendários do que fora estabelecido pelos Acordos de Paris, os soldados das últimas unidades de combate norte-americanas abandonam o Vietname do Sul. A saída realiza-se com muito menos panache do que acontecera à chegada. Costuma ser sempre assim (veja-se os franceses na Argélia, os britânicos no Iémen) e com os portugueses não iria ser diferente dali por dois anos, que entre a opinião doméstica apenas a má-fé se superioriza à ignorância do que aconteceu previamente, quando a disposição é a de criticar. Os ex-combatentes que, de malas na mão e descontraidamente se concentram nos locais de embarque, só se distinguem de uma qualquer outra excursão militar pelo exotismo...
...de alguns dos souvenirs que carregam consigo, caso o daquela carabina SKS (que terá sido mais do que provavelmente capturada ao vietcong) a que o orgulhoso militar seu proprietário parece dispensar mais atenção do que ao resto da sua bagagem. Numa última nota à última fotografia, já junto à escada de embarque para o avião e só para os mais atentos, a supervisionar identifica-se um graduado norte-americano (de bivaque na cabeça), acompanhado de um militar sul-vietnamita (de boina vermelha) e de dois militares norte-vietnamitas envergando o seu tradicional capacete, que ali estavam em plena zona inimiga, a base aérea de Tan Son Nhut (perto de Saigão), em funções de fiscalização do cumprimento dos Acordos.

12 março 2023

O ASSASSINATO DO PRIMEIRO MINISTRO SÉRVIO

12 de Março de 2003. O primeiro-ministro da Sérvia, Zoran Đinđić é assassinato a tiro por um atirador emboscado que aguardava a sua chegada à sede do governo em Belgrado. Apesar da sua entrada por uma porta discreta (veja-se o desenho abaixo), um único tiro de precisão de uma G-3 a 180 metros acertou-lhe no coração e causou-lhe morte imediata. À frente do governo sérvio desde há dois anos, Zoran Đinđić havia criado imensos inimigos domésticos devido às suas iniciativas para desmontar o aparelho que se formara naquele país durante o extenso período de governo (1991-2000) do seu antecessor, Slobodan Milošević, que ele entretanto prendera e extraditara para ser julgado pelo Tribunal Penal Internacional de Haia. Uma parte desse aparelho tornara-se entretanto clandestino e já por outras vezes, Đinđić fora alvo de atentados contra a sua vida. Uma das ironias finais deste episódio é que Đinđić tinha uma reunião marcada com Anna Lindh, a ministra sueca dos Negócios Estrangeiros, que virá a ser assassinada - e por um sueco de ascendência sérvia! - dali por seis meses.

10 janeiro 2023

OPINIONISMO LEVIANO

A fotografia do lado esquerdo mostra as escadarias de acesso ao edifício do capitólio em Washington DC e foi tomada a 6 de Abril de 1968, na sequência do assassinato de Martin Luther King. Os receios eram que a comunidade afro aproveitasse o acontecimento para vir para as ruas protestar. O ângulo escolhido pelo fotógrafo confere aos dois soldados de sentinela uma aparência de poder que é mais para sugerir do que para concretizar. Na realidade, que é que os dois poderiam fazer, mesmo com uma M-60 de tripé, diante de uma turba composta por centenas de assaltantes? Abatê-las a tiro de rajada?... Mesmo naquela América dos anos 60, mais tolerante para com a violência urbana contra as turbas afro, o gesto era capaz de ser muito contraproducente do ponto de vista político. Fotografias de corpos espalhados por aquelas mesmas escadarias do capitólio arruinariam a reputação de qualquer administração norte-americana (a de Lyndon Johnson, no caso). E, admitindo que essa hipótese se tivesse posto, o mesmo valeria para os assaltantes daquele mesmo edifício em 6 de Janeiro de 2021. Qualquer causa, até mesmo as perversas, podem tornar-se tanto mais poderosas, e perigosas, quanto mais mártires arranjarem.

E João Miguel Tavares parece não perceber nada disto que acabei de explicar quando invoca a expressão força letal na sua crónica de hoje a respeito do que aconteceu no Brasil. Arrebatou-se a si próprio na retórica...

02 dezembro 2022

A PRIMEIRA REACÇÃO NUCLEAR CONTROLADA

2 de Dezembro de 1942. Escondida da atenção mediática que então se concentrava nos vários teatros de guerra da Segunda Guerra Mundial (África, Pacífico, Rússia), tinha lugar a primeira experiência em que se conseguia proceder a uma reacção nuclear controlada. A proeza teve lugar nas instalações vagas de um estádio desportivo desactivado em Chicago. A documentação que comprova o feito tem a falta de espetacularidade da imagem acima, o crescimento exponencial da intensidade dos neutrões na folha de registo, que consta da página 441 do livro abaixo. Em retrospectiva, conhecendo-se os problemas posteriores que se vieram a colocar sobre a questão da segurança nuclear e considerando que se tratava de uma experiência pioneira, em que muito poderia ter corrido mal, não deixa de ser tremendamente irónico que o feito tivesse tido lugar num sítio tão povoado quanto a cidade de Chicago. Mas, mais do que a preocupação com a produção de energia, o que era importante no processo ali concretizado há 80 anos, era um subproduto resultante da reacção, o plutónio-239. Dali por dois anos e meio(Verão de 1945), o conjunto de reactores entretanto activados já havia conseguido produzir a quantidade suficiente de plutónio para construir (e detonar) duas armas nucleares: a experimental de Alamogordo e também a utilizada sobre Nagasáqui.

14 outubro 2022

O PRINCÍPIO DA CRISE DOS MÍSSEIS DE CUBA

14 de Outubro de 1962. Um avião espião U-2, pilotado pelo major Richard S. Heyser da USAF, fotografa os sítios em Cuba onde os soviéticos se preparavam para instalar mísseis MRBM SS-4 e IRBM SS-5 com capacidade para atingir o território dos Estados Unidos. A fotografia havia sido tomada a uma altitude de quase 22 quilómetros (!) (o dobro da altitude de um voo de um avião comercial), mas a fotografia continha os detalhes suficientes (acima) para que os analistas norte-americanos ajuizassem com alguma precisão quais eram as intenções soviéticas: a instalação de sites de lançamento de mísseis com capacidade de transportar ogivas nucleares e alcance suficiente para atingir os Estados Unidos. E queriam-no fazer subrepticiamente, para confrontar os Estados Unidos com o dispositivo instalado. É o início do que virá a ser a Crise dos Mísseis de Cuba, tópico que voltaremos a abordar nestas evocações e que costumava ser considerado o momento histórico em que mais próximo se teria estado de uma confrontação nuclear entre as duas super-potências. Esse momento-expoente do belicismo nuclear foi recentemente levado ainda mais além por Vladimir Putin e por outros responsáveis do Kremlin, que ultrapassaram em declarações tudo aquilo que os seus antecessores de há 50 anos se haviam permitido dizer. Mas, tirando talvez o presidente dos Estados Unidos, mais ninguém proeminente quis conferir seriedade às ameaças do presidente russo. É por estes casos que se percebe que, apesar de ter a fama, Joe Biden não tem o proveito de gerir a agenda mediática mundial. Em registo mais ligeiro e numa daquelas coincidências irónicas em que a história é fértil, o jornal britânico «Observer» desse mesmo dia 14, havia escolhido criticar os Estados Unidos pela sua obsessão no que respeita a Cuba.

03 outubro 2022

OPERAÇÃO «HURRICANE» - O PRIMEIRO ENSAIO NUCLEAR BRITÂNICO

3 de Outubro de 1952. Depois dos Estados Unidos (1945) e da União Soviética (1949), é a vez do Reino Unido anunciar a sua chegada ao clube muito selecto dos países detentores da arma nuclear. Se os ensaios iniciais de americanos e soviéticos se pautaram pelo secretismo, este dos britânicos será o primeiro de um novo género, os que, ao contrário, são anunciados com a maior estridência possível. Assim o farão também os franceses, os chineses, os indianos,... até aos ensaios daquele senhor que vai a um barbeiro esquisito. A importância da posse da arma nuclear deixara de ser uma questão exclusivamente militar para se tornar progressivamente cada vez mais uma questão política.
É o sentido do que se pode ler na primeira página do Diário de Lisboa daquele dia, opiniões que não poderiam estar mais em consonância com o recado que a embaixada britânica pretenderia fazer passar naquela ocasião. Os pormenores mais técnicos - o ensaio havia tido lugar num arquipélago da Austrália Ocidental, a potência alcançada pelo engenho fora de 25 kton (a equivalente aos primeiros ensaios de americanos e soviéticos) - foram remetidos para a última página do jornal, e podem também ser acompanhados no vídeo abaixo. Mas o fundamental era que "A Grã Bretanha quere voltar a ter um lugar de predomínio na direcção da política mundial".

30 maio 2022

O MASSACRE DO AEROPORTO DE LOD

30 de Maio de 1972. Eram já 10 da noite quando três passageiros japoneses chegaram ao aeroporto de Lod vindos de Roma num voo da Air France. O aeroporto de Lod - hoje baptizado de Ben Gurion - é o principal aeroporto de Israel, servindo simultaneamente Tel Aviv, a capital administrativa, e Jerusalém, o principal destino turístico. Os três passageiros estavam vestidos discretamente, à ocidental, e traziam consigo, cada um, um estojo fino de violino. Ao chegarem à sala de espera, abriram-nos e de lá tiraram uma arma automática vz. 58 de concepção checa (abaixo) sem coronhas, para que coubessem nos estojos de violino. E começaram a disparar indiscriminadamente contra passageiros e funcionários do aeroporto, a começar por um grupo próximo de peregrinos (cristãos) de Porto Rico. Foi entre aquele grupo que se registaram 17 dos 26 mortos do ataque terrorista. Mas além dos mortos, o tiroteio provocou cerca de 80 feridos. No final, as autoridades israelitas nunca publicaram os resultados das perícias dos ferimentos, para que não se admitisse, pública e oficialmente que uma percentagem das vítimas havia sido alvejada por fogo das autoridades. Apenas um dos terroristas sobreviveu ao ataque.O processo de subcontratação dos atentados terroristas foi uma completa surpresa para os serviços de segurança de todo o mundo. A começar pelo Mossad, que é sempre tão cuidadoso a promover-se pelos seus sucessos. Mas o meu comentário final vai a fotografia acima, da sala de espera do aeroporto onde o tiroteio começou, com as bagagens perdidas e dispersas e onde o chão se encontra ainda sujo do sangue das vítimas, e em que, com grande probabilidade, o estojo do violino que se vê esquecido, teria pertencido a um dos assaltantes.

30 março 2022

NUNO ROGEIRO «ARMADO» EM VENDEDOR DA REMAX

Ressalve-se que o logotipo não deveria ser o conhecido balãozinho da imobiliária, mas antes este abaixo, da Thales.
A Thales é um logotipo menos conhecido porque pertence a uma empresa britânica que, em vez de casas, vende mísseis. Anti-aéreos.
Mísseis esses que, estando a ser utilizados na Ucrânia, Nuno Rogeiro se tem farto de gabar na sua página do facebook.
A imprensa britânica também não se cala com o míssil. Até parece que mais nenhum país está a fornecer armamento daquele mesmo género à Ucrânia...

22 março 2022

O ZELO ARMAMENTISTA DO MINISTRO DA DEFESA NACIONAL

22 de Março de 1952. Embora dispersas por duas páginas distintas do mesmo jornal, o teor destas duas notícias não deixa quaisquer dúvidas sobre o entusiasmo posto pelo «ministro da Defesa Nacional, sr. tenente-coronel Santos Costa» na recepção dos novos equipamentos para o Exército e Força Aérea, material que estava a ser recebido através dos programas e em consequência da adesão de Portugal à NATO (1949). Porém, todo este entusiasmo de Santos Costa viria a ser mitigado pela insuficiência (em número e preparação) de militares qualificados para operar com tanto material e tão sofisticado.