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02 julho 2024

A FUNDAÇÃO DA FORÇA AÉREA FRANCESA

(Republicação)
2 de Julho de 1934. Foi a data da fundação da Força Aérea Francesa (Armée de l'Air) como um ramo autónomo das suas Forças Armadas. Já se haviam passado 16 anos depois da criação equivalente da RAF (Royal Air Force) entre os seus antigos aliados britânicos, ainda durante a Primeira Guerra Mundial (a 1 de Abril de 1918), mas acredita-se que esta decisão terá sido precipitada pela criação no ano anterior e ainda às escondidas, da equivalente Luftwaffe, entre os seus antigos inimigos e ainda rivais alemães. Porém, formalmente, esta última só aparecerá em 26 de Fevereiro de 1935. Mas, ao contrário das outras duas, a Armée de l'Air francesa, derrotada na Primavera de 1940, teve uma importância negligenciável para o desenrolar das operações aéreas da Segunda Guerra Mundial. O prestígio do ramo, com as Aventuras de Tanguy e Laverdure, são uma criação bem posterior, da década de 1960, na BD e na televisão...

27 junho 2024

DE UM VALEDERO DE FICÇÃO A UM ÁRBENZ REAL

(Republicação a pretexto de que hoje, 27 de Junho, se completam 70 anos sobre a renúncia de Jacobo Árbenz à presidência da Guatemala)
aqui falei de O Regresso do Fantasma, uma história de BD de Hermann & Greg de 1973. Recontando a síntese do enredo, o presidente (Juan Enrique Valedero) de uma República latino-americana (Monteguana) é vítima de um atentado que destrói o seu iate de cruzeiro e ao qual ele escapa por acaso. O navio dos nossos heróis (o Cormoran), acidentalmente por perto, recolhe-o, assim como aos seus dois guarda-costas, os únicos sobreviventes da tragédia. Antes de o poder comunicar, Valedero apercebeu-se que o atentado se tornara um pretexto para que houvesse um golpe de estado em Monteguana.
A morte do presidente já fora anunciada pela comunicação social de Monteguana sem que tivesse havido qualquer pedido de socorro, tanto do iate como do Cormoran. Os nossos heróis vêm-se assim associados aos esforços do presidente fantasma para recuperar o poder, enquanto os golpistas tentam eliminá-los a todos, tornando real a verdade oficial que fora entretanto antecipadamente proclamada. É nessa viagem para recuperar o poder que Valedero, um intelectual de ascendência europeia oriundo das elites do país, se apercebe que a realidade política do seu país é muito diferente da que imaginava…
A história acaba bem, com um presidente mais lúcido de um país retrógrado – veja-se como o soldado na imagem acima apenas o reconhece por causa dos selos do correio… Em O Regresso do Fantasma nota-se tanto a inspiração histórica do exemplo de Jacobo Árbenz, o presidente da Guatemala entre 1951 e 1954, como uma certa perspectiva ideológica europeia¹ que acreditava que o despotismo esclarecido bem intencionado de alguns dos membros das elites tradicionais poderia ser o catalisador para transformações sociais que derrubassem as oligarquias locais tradicionalmente apoiadas pelos norte-americanos.
Jacobo Árbenz (1913-1971) havia nascido de uma dessas famílias guatemaltecas, no caso de ascendência suíça e a natureza dotou-o, como se nota, com a pose aristocrática indispensável a quem pretende pertencer às elites. Por força das circunstâncias (o pai suicidara-se e a família passava por dificuldades financeiras) veio a matricular-se e graduar-se como oficial do exército em 1935 com um percurso académico brilhante. Dois anos depois tornava-se ali professor. E nos inícios de 1939 casava na sua classe, com uma filha de uma família de latifundiários salvadorenha. Entretanto começara a Segunda Guerra Mundial.
Os anos finais da Guerra foram um período de liberalização do continente, substituindo os regimes despóticos anacrónicos que os Estados Unidos haviam protegido, como era o caso do guatemalteco do General Ubico. O Capitão Árbenz, apesar da juventude (31 anos), já aparece associado aos movimentos militares que em 1944 vão acabar por conduzir à realização das primeiras eleições razoavelmente livres da História da Guatemala, que foram ganhas de uma forma esmagadora (cerca de 85% dos votos) por Juan José Arévalo, um académico intelectual, professor universitário e doutorado em Filosofia.
O período de seis anos (1945-51) da presidência de Arévalo foi uma época impar do usufruto de liberdades políticas na Guatemala que criaram condições para que a disputa política quanto à sua sucessão se tivesse travado nas urnas e não com armas como era a tradição do continente. Defrontavam-se a facção radical de inspiração marxista do movimento que colocara Arévalo no poder e a facção conservadora desse mesmo movimento, que pretendia estancar por ali a dinâmica entretanto criada. A primeira facção, protagonizada por Jacobo Árbenz, venceu as eleições presidenciais de 1951 com cerca de 60% dos votos.
A eleição de um esquerdista teve o condão de colocar a até então ignorada Guatemala no mapa das preocupações norte-americanas, atenta ao que a então recém-criada CIA designava por penetração soviética na América Latina. O detonador das inquietações foi a intenção, manifestada por Árbenz, em realizar uma Reforma Agrária², problema capaz de desencadear um conflito entre os interesses guatemaltecos e norte-americanos, com a multinacional United Fruit Company (a maior empresa mundial de comércio de frutos tropicais) de permeio como a maior empregadora e a maior latifundiária do país.
As operações da CIA que conduziram ao derrube de Árbenz, criando e treinando um exército dito rebelde, promovendo uma guerra de propaganda e algumas manobras de diplomacia de canhoneira tornaram-se exemplos das guerras sujas desenvolvidas por aquela organização para estes casos. O regime acabou por cair com uma facilidade que desmentia as conexões soviéticas. A Jacobo Árbenz foi-lhe permitido partir para o exílio no México mas, derradeira humilhação, foi-lhe exigida uma revista metódica na alfândega. Até ao fim, mesmo fotografado de cuecas, Árbenz mostrou ser o perfeito aristocrata…
¹ Essa perspectiva no Século XX é exclusivamente de esquerda, onde a referência obrigatória é Fidel Castro, mas no Século XIX, como se vê pelo caso da intervenção do Imperador Napoleão III no México (1862-67), mostra como aquela perspectiva ideológica era abrangente.
² Tratava-se de uma verdadeira Reforma Agrária, envolvendo a expropriação de parte das terras dos latifundiários para que elas fossem repartidas e redistribuídas entre os camponeses pobres. Não confundir com a colectivização das terras ocupadas e/ou expropriadas, processo a que os comunistas portugueses em 1975 deram o mesmo nome.

25 junho 2024

A CAUSA DAS ÁRVORES

Há causas cuja discussão pública é obrigatoriamente enviesada. Sejam quais forem as circunstâncias, o pressuposto é que a remoção de árvores nos meios urbanos incomoda os circunstantes e é só a partir daí que se pode falar do assunto. Se Ideiafix era apenas uma personagem cómica do universo das aventuras de Astérix, hoje esses radicalismos são assumidos muito a sério.

13 junho 2024

FRANÇOISE HARDY E A «ARTE» DE «VENDER VINHO E CARVÃO» UNS AOS OUTROS

Em consequência do anúncio anteontem da morte da cantora francesa Françoise Hardy, e em complemento às notícias necrológicas da comunicação social tradicional, ocorreu ontem uma espécie de epidemia nostálgica nas redes sociais, com imensas publicações a respeito, embora raras se destacassem pela imaginação: o mesmo tema e evocado por todo o lado da mesma forma. O ambiente de concorrência fez-me lembrar esta passagem de O Escudo de Arverne de Astérix. Andamos todos a vender vinho e carvão uns aos outros. É por isso que Goscinny era um génio.

Esclareça-se que também eu, noutro tempo oportuno, aqui evoquei Françoise Hardy e a mais do que previsível canção «Tous les garçons et les filles» por ocasião do 60º aniversário da sua estreia televisiva em 1962. Mas, para contrariar aquelas publicações expectáveis por ocasião agora da sua morte, recorde-se que, com ela e com as pessoas da sua geração, é uma memória de uma certa Europa que desaparece: ela própria já não teria memória disso, mas, quando Françoise Hardy nasceu em Paris, em 17 de Janeiro de 1944, a cidade ainda estava ocupada pelos alemães...

E os russos ainda haviam de chegar a Berlim...

06 junho 2024

OPERAÇÃO OVERLORD de EDDY PAAPE e YVES DUVAL

(Republicação)
Se a Operação OVERLORD perfaz hoje o seu 80º aniversário, esta história de BD que a conta de uma maneira sintetizada tem cinquenta e cinco anos. As pequenas histórias individuais daquele dia que Yves Duval recupera para a narrativa, foi-as buscar ao livro «O Dia Mais Longo» de Cornelius Ryan, publicado originalmente há sessenta e cinco anos (1959). E a imagem inicial é o desenho de uma fotografia que se tornou clássica.

29 maio 2024

TINTIN E OS PÍCAROS: O GENERAL TAPIOCA E O CAPITÃO HADDOCK TROCAM ACUSAÇÕES

É uma pena que a BD se tenha tornado uma forma de arte tão selecta nos dias que correm, que a maioria das pessoas já não sabem quem é Tintin, o capitão Haddock e o general Tapioca. Sobretudo quando fazem as figuras tristes de Sebastião Bugalho, que desconhece a paródia de cena que desencadearam. Mas também é preciso que haja correspondência da outra parte...

19 maio 2024

FALAR A SÉRIO(?) DE ASSUNTOS DE DEFESA

O Expresso desta semana dá um destaque de primeira página a um artigo a sério respeitante a assuntos de defesa (só para assinantes). É pena que o jornalista que assina o artigo - Vítor Matos - não inclua nele qualquer comentário quer de fontes autorizadas do ministério da Defesa, quer mesmo do próprio titular da pasta, Nuno Melo, a quem ultimamente temos ouvido opiniões muito interessantes, embora só muito remotamente relacionadas com a Defesa: a agricultura e a pecuária portuguesa, por exemplo - na fotografia abaixo recordemo-lo a visitar há duas semanas a Ovibeja 2024. Além disso há o ministro dos Negócios Estrangeiros que também trata destes assuntos, mas esse também não terá sido consultado.  
A ausência de opiniões pessoais e institucionais da parte do ministério da Defesa é o tipo de omissão que empobrece substancialmente o artigo de Vítor Matos, reduzindo-o a um panfleto promocional sobre uns aviões de construção norte-americana de última geração, denominados F-35, giríssimos, caríssimos, a que, por acaso, já me referira desaprovadoramente aqui neste blogue em Março de 2021. O CEMFA, general Cartaxo Alves, que ali defende a sua dama*, chega ao extremo de invocar o argumento que os vizinhos - Bélgica, Noruega, Dinamarca - já compraram e portanto nós também temos de ter uns iguais, argumento que, além de irrelevante só por si, devia ser sempre socialmente confrangedor...
* Ou seja, faz lóbi para que lhe comprem uns aviões de combate modernos e bonitos.

DEZ ANOS DE UM ÓRGÃO CENTRAL DE UM PARTIDO QUE NÃO CONCORRE A ELEIÇÕES

Há dez anos apareceu o Observador. Funciona como o órgão central de uma formação política... só que não há formação política. Do lado direito do espectro político e substituindo neste caso o fundamentalismo liberal pelo fundamentalismo marxista-leninista de antanho, o Observador é assim como uma espécie de Luta Popular do veterano MRPP... só que não há MRPP por detrás. Nem mesmo a Iniciativa Liberal. E, não havendo MRPP, aquilo que o Grande Educador daquele jornal proclama não é avaliado pelos votos dos portugueses. O Grande Educador do Observador é José Manuel Fernandes e, para quem não saiba, o seu antepassado do Luta Popular do século passado, chamava-se Arnaldo Matos.
Arnaldo Matos, quando se apresentou a eleições pela primeira vez em Abril de 1976, recebeu 36.200 votos e, depois disso, nunca mais ninguém o considerou Grande e tornou-se evidente que eram poucos, tanto da classe operária como doutras, aqueles que estavam os dispostos a receber a sua educação... O jovem José Manuel aprendeu na época a lição de que, para se ter a reputação de Grande Educador - apreciemo-lo acima, ainda há dois meses, a tentar educar o então potencial primeiro-ministro Luís Montenegro - o melhor é não se submeter a votos. O que é importante é o prodígio de continuar a estar sempre presente no circuito do comentário televisivo. É uma maneira espertalhona, mas não muito digna, de se estar na política.
Há dez anos fingia-se que se tratava de um jornal. Mas como se trata realmente de um projeto político, a realidade é que não interessa verdadeiramente o formato. Dez anos entretanto passados e paulatinamente está transformar-se numa rádio... As pessoas lêem cada vez menos e há que doutriná-las de outra maneira. Mas sempre sem ir a votos, que é para não haver necessidade de mostrar QUANTOS é que eles são (ou representam)...

06 maio 2024

A INAUGURAÇÃO DO TÚNEL SOB O CANAL DA MANCHA

6 de Maio de 1994. Com a presença dos dois chefes de Estado, tem lugar a inauguração do túnel sob o canal da Mancha. Um momento histórico concretizando uma ideia tão antiga que até ocorrera ao próprio Obélix!

05 março 2024

AINDA NA SENDA DE MERMOZ... MAS 93 ANOS DEPOIS

Uma história de aviação com 60 anos. Jean Mermoz (1901-1936) foi um pioneiro da aviação francesa, nomeadamente sobre o Atlântico Sul.

03 março 2024

A ABOLIÇÃO DO CALIFADO E A PERSONALIDADE DO ÚLTIMO CALIFA

Convirá explicar previamente ao leitor menos sensibilizado para as nuances de que se revestira o poder otomano, que, durante mais de 400 anos, o sultão que reinara a partir de Constantinopla, fora também o califa, agregando em si os poderes temporal e espiritual, o monarca absoluto de todos os súbditos do império otomano, mas simultaneamente o líder da Umma, a comunidade espiritual dos muçulmanos de todo o mundo. Este último poder era mais simbólico que efectivo e fora por isso que, quando a Assembleia Nacional turca decretara a abolição do sultanato em 1 de Novembro de 1922, expulsara o sultão Mehmed VI do trono, mas permitira que este tivesse um sucessor no cargo de califa na pessoa do seu primo Abdul Mejide II.
Que me perdoem esta indispensável explicação prévia, mas sem ela não se compreenderia o significado de, dezasseis meses depois, a 3 de Março de 1924 (cumprem-se hoje precisamente cem anos), ter sido por sua vez Abdul Mejide II a ser deposto. Os novos poderes turcos assumiam-se ostensivamente laicos e pretendiam descartar-se completamente da questão religiosa. Foi deste modo que deixou de haver um califa, algo que era inédito desde o surgimento do Islão no século VII. Nestes cem anos que entretanto decorreram, apesar de algumas tentativas mais sérias e de outras mais caricatas, nunca mais esse cargo, largamente honorífico e assente na aceitação consensual das múltiplas correntes da comunidade, nunca mais veio a ser restaurado.
Esta abolição foi um episódio com significado para o mundo muçulmano mas que deixava o mundo ocidental praticamente indiferente. É muito significativo disso que, tendo a deposição ocorrido a 3 de Março, é só a 16 desse mês que vemos um quotidiano francês (Le Petit Journal) a dedicar uma capa ilustrada ao que acontecera. Uma ilustração muito imaginada, de resto, já que a verdadeira fotografia do momento é muito mais sóbria quanto ao número de pessoas presentes... Assim como mais digna se apresenta a pose deste último califa. Abdul Mejide II parece ter sido um daqueles príncipes com alguns interesses intelectuais e méritos, considerado hoje um pintor de talentos médios. Exibo aqui dois dos seus quadros, em que se destaca a sua primeira mulher (teve quatro, como qualquer bom muçulmano), Şehsuvar Hanım.
No primeiro deles, intitulado Goethe no harém, ela aparece deitada num divã segurando um livro do poeta alemão. No segundo, cujo título é Beethoven no palácio, a princesa aparece a tocar violino, enquanto outros membros da família tocam outros instrumentos de uma composição que se presume ser do compositor alemão. Pintados em 1915 e 1917, durante a Primeira Guerra Mundial, quando vigorava uma aliança próxima entre a Turquia e Alemanha, qualquer dos quadros dá-nos uma imagem de um (futuro) califa muito impregnado da cultura ocidental e alemã... A comparar com as imagens que hoje circulam dos clérigos muçulmanos, este exemplo é o que de mais parecido se pode arranjar de um outro famoso califa cosmopolita e desprendido, esse de ficção, Haroun el-Poussah, o califa de Bagdade a quem o ignóbil grão-vizir Iznogoud cobiça o estatuto...

06 fevereiro 2024

QUANDO A EXTREMA DIREITA E A EXTREMA ESQUERDA FRANCESA SE ENFRENTARAM NAS RUAS DE PARIS

(Republicação)
6 de Fevereiro de 1934. A França política, tradicionalmente concentrada em Paris, é confrontada com uma demonstração de força da extrema direita nas ruas da própria capital. O pretexto próximo para a confederação de todas as direitas na rua nesse dia foi um escândalo político-financeiro - o Caso Stavisky - mas as razões mais profundas radicavam nas consequências sociais da Crise Económica de 1929, que estavam a empurrar as simpatias da opinião pública para os extremos do espectro político. A imagem de um grande desfile a ocupar a toda a largura um dos grandes boulevards de Paris (acima), tem que ser apreciada contando também que, quase precisamente um ano antes, Adolf Hitler chegara ao poder na Alemanha.
Porém, a extrema direita francesa estava muito longe de mostrar a coesão da sua homóloga alemã, em que o NSDAP era hegemónico (embora não absolutamente maioritário). Mais, a história da extrema direita em França é a de uma verdadeira salada russa de ideologias e de opiniões políticas - correntes monárquicas são logo três: há os legitimistas em favor dos Bourbons, os orleanistas em favor dos descendentes de Luís Filipe e os bonapartistas em favor dos descendentes de Napoleão! Isto para não mencionar todas as outras formações nacionalistas como a Acção Francesa ou a Cruz de Fogo. O que os unia naquele dia era a oposição ao parlamentarismo cujo edifício vemos acima a ser atacado por ocasião dessa jornada de há 90 anos.

Dos conflitos desse dia entre polícia e manifestantes resultaram 16 mortos e mais de 2.000 feridos, a esmagadora maioria dos quais (15 dos 16 mortos) eram manifestantes. A extrema direita ganhou não só os seus mártires como parecia capaz de desalojar a extrema esquerda do terreno que ela considera, ainda hoje, ser exclusivamente seu. A par da batalha política, onde o governo de Daladier acaba por se demitir no dia seguinte, vai-se travar uma batalha nas e pelas ruas de Paris, com os comunistas e o seu braço sindical, a CGTU, a convocarem uma contra-manifestação para dali a três dias (9 de Fevereiro). A que o vídeo acima mostra, que reúne socialistas e comunistas, teve lugar outros três dias depois dessa, a 12 de Fevereiro de 1934.
Mas, para contornar essas ocasiões antecipadamente encenadas, será talvez preciso ir buscar outro meio de expressão (a BD - Os Caminhos da Glória, O Tempo dos Inocentes), para mostrar como poderão ter sido esses dias de confrontos na capital francesa, dias quentes apesar de se estar no pino do inverno, onde a extrema direita e a extrema esquerda se podiam enfrentar ao virar de uma esquina e onde um transeunte acabou a tomar partido por um dos lados, apenas por causa de ter posto uma boina na cabeça, e isso apenas para não apanhar pancada dos dois lados, apenas de um!

15 dezembro 2023

A ORELHA CORTADA DE JOHN PAUL GETTY III

(Republicação)
15 de Dezembro de 1973. John Paul Getty III (1956-2011) era, não só um adolescente endiabrado, mas sobretudo o neto de um daqueles multimilionários norte-americanos, o original Jean Paul Getty (1892-1976). Na madrugada de 10 de Julho de 1973 ele fora raptado em Roma por um grupo de mafiosos da máfia calabresa (a 'Ndrangheta) que exigiram um resgate de 17 milhões de dólares pela sua libertação. Seguiu-se um período de porfiadas negociações entre os raptores e um avô que, apesar de rico, se mostrou particularmente pouco empenhado na conclusão do negócio nas condições impostas pelos raptores. Tanto assim que as negociações se arrastaram por meses. Em Novembro e em desespero de causa e perante a avareza - que era proverbial! - do patriarca dos Getty, os raptores trouxeram o caso descaradamente para os holofotes da opinião pública, enviando uma das orelhas em embrulho postal para um jornal italiano. O gesto provocou ondas de choque mas o recado não podia ser mais claro: o refém arriscava-se a ser resgatado... mas aos bocados (como acontece abaixo com os Dalton...). E isso iria ser um desgaste horrível em termos de relações públicas para a Getty Oil. Há precisamente 44 anos, a notícia do dia era que o resto de John Paul Getty III fora libertado. A quantia acordada fora de 2,9 milhões de dólares, soube-se depois. O avô entrara com tudo, mas só suportara 2,2 milhões, o máximo que era fiscalmente dedutível, e o pai (Getty II) ficara responsável por reembolsar o avô dos 700 mil da diferença, que venceriam juros a 4% ao ano. Quando o ex-refém foi instruído pela mãe a telefonar ao avô para lhe agradecer, este não o quis atender. Mas, mais do que a miséria moral, o que as redacções de há 50 anos procuravam eram mesmo as imagens acima de um John Paul Getty III com a falta da orelha...

27 outubro 2023

ARAME FARPADO NA PRADARIA

27 de Outubro de 1873. O norte americano Joseph Glidden apresenta o seu pedido de patente para uma invenção sua: o arame farpado. Para além das suas funcionalidades óbvias de delimitar terrenos agrícolas de forma económica, que se estenderam depois a muitos outros campos, entre o político e o militar, delimitando fronteiras e frentes de combate, tornou-se um adereço indispensável para muitas histórias que agora se contam sobre o faroeste americano (acima), o conflito entre a pecuária e a sua substituição pela agricultura.

23 maio 2023

«É UMA ESTÉTICA NOVA; A MIM COMOVE-ME»

Ter visitado o teatro romano de Orange em França ou a arena de Nîmes despertou-me, no local, algumas memórias das saudosas aventuras do Astérix, que aqui gostaria de compartilhar.

17 maio 2023

MAZAMET, A CIDADE PETRIFICADA

(Republicação)
17 de Maio de 1973. Há 50 anos teve lugar na cidade francesa de Mazamet uma acção espectacular de sensibilização em prol da prevenção rodoviária. A cidade contava então com 16.610 habitantes, que corresponderiam, grosso modo, ao número de mortos registados nas estradas de França no ano anterior: 16.545. Ao som de uma sirene e sob o título de Mazamet, Cidade Morta, organizou-se um evento em que os cidadãos foram convidados a sair à rua e a fingirem-se de mortos durante um quarto de hora enquanto equipas de fotográficas e cinematográficas exibiam o impacto condensado numa cidade das perdas humanas devidas a acidentes de trânsito. Como se percebe pelas fotos, a iniciativa foi acolhida com entusiasmo pela população daquela pequena cidade occitana, houve mesmo quem se deixasse "atropelar" ou feito outras alusões explícitas aos acidentes rodoviários. A imaginativa ideia terá tido um grande impacto: uma reportagem sobre a cidade desaparecida do mapa for transmitida pela televisão francesa, acompanhando legislação sobre a obrigatoriedade do uso de cinto de segurança e sobre novos limites de velocidade. A curto prazo, o impacto do documentário terá sido grande. Outra coisa se poderá concluir no médio e longo prazo: o número de mortos nas estradas decresceu em mais de 75% nestes 50 anos (3.700 mortos em 2017), mas esse resultado dever-se-á tanto ao comportamento dos condutores, quanto a melhores métodos de construção das vias (evitando cruzamentos e outros pontos nevrálgicos, por exemplo), como também ao melhoramento dos sistemas de protecção passiva das viaturas (airbags, abs, etc.).
Curiosamente, e regressando às imagens de Mazamet, cá em Portugal e por essa mesma altura, a revista Tintin andava a publicar semanalmente as pranchas de uma história intitulada A Cidade Petrificada, uma aventura em que uma cidade inteira era atacada com um mega aparelho de ultra-sons, deixando todos os seus habitantes inanimados e prostrados pelas ruas, com a mesma aparência da encenação de Mazamet.