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16 março 2024

O ACORDO DE NKOMATI

(Republicação)
O Acordo de Nkomati foi assinado em 16 de Março de 1984 entre os mais altos representantes da África do Sul e de Moçambique, respectivamente, o então Primeiro-Ministro P.W. Botha e o Presidente Samora Machel. As duas partes signatárias comprometiam-se a não apoiar os movimentos oposicionistas da outra parte, a saber, Moçambique deixaria de apoiar moral e logisticamente o ANC, enquanto a África do Sul deixá-lo-ia de fazer, material, moral e logisticamente à Renamo. O Acordo ia permanecer letra morta, mas isso ainda não se sabia na altura da cerimónia, quando estas fotografias foram tiradas.
O Acordo representava uma grande vitória diplomática da África do Sul, pela brecha que conseguira criar no ostracismo a que o regime do apartheid havia sido remetido por todos os seus vizinhos africanos. Do outro lado, também Samora Machel provocara uma ruptura no campo ideológico a que pertencia em favor do pragmatismo. Mas, mesmo isso, não impediu que a poderosa máquina comunicacional sul-africana se mostrasse implacável na forma sacana como tratou os novos amigos, observe-se cuidadosamente o instantâneo abaixo que acabou por se tornar numa espécie de fotografia oficial da reunião.
Em primeiro plano e do lado esquerdo aparecem o Ministro dos Negócios Estrangeiros sul-africano Roelof Pik Botha e P.W. Botha, ambos de condecoração ao pescoço(*), o segundo de chapéu clássico na cabeça que lhe dá um aspecto distinto. No outro extremo, está o Ministro dos Negócios Estrangeiros moçambicano, Joaquim Chissano, também com uma condecoração ao peito, só que esta não deveria ser a recíproca sul-africana (**). Mas a figura dominante do instantâneo é mesmo Samora Machel, olhando de uma forma deslumbrada para cima.

(*) Sendo as duas condecorações idênticas e não se vendo outras é muito provável que se tratem de condecorações moçambicanas acabadas de entregar por Samora Machel aos dois.
(**) A condecoração tem um design de inspiração russa/soviética, também muito usado pelos países desse bloco, mas jamais pelos países do outro, como era o caso da África do Sul.

19 janeiro 2024

AS CONDECORAÇÕES DE ÁLVARO CUNHAL, O CAMARADA QUE «FAZIA CERIMÓNIA» SÓ COM OS ESTRANGEIROS

Álvaro Cunhal (1913-2005), o mais destacado dirigente comunista português do século XX, sempre se mostrou extremamente avesso a receber condecorações. Pelo menos em Portugal. Sempre que foi sondado com tal propósito, a sua resposta foi invariavelmente negativa. Tão conhecida se tornou essa sua aversão que, quando Cunhal faleceu em 2005, nem se equacionou sequer a hipótese de que o então presidente, Jorge Sampaio, o condecorasse a título póstumo, como muitas vezes acontece nestes casos. Este preâmbulo torna-se indispensável para que o leitor perceba melhor o anacronismo irónico em que consiste a notícia acima, publicada a 19 de Janeiro de 1984, em que o Diário de Lisboa dá notícia da alta condecoração que o líder cubano Fidel Castro impusera a Álvaro Cunhal que visitava Cuba. A Ordem «Playa Girón» é a mais elevada da hierarquia das ordens honoríficas cubanas, concedida apenas excepcionalmente. E é assim que se pode perceber como teria sido, provavelmente, um Álvaro Cunhal extremamente contrariado a participar naquela cerimónia, sem que o próprio tivesse para com Fidel a coragem que mostrava para com os seus compatriotas. Coisas do internacionalismo proletário... Aliás, mais de uma década antes, ainda antes do 25 de Abril e do retorno de Cunhal a Portugal, os soviéticos haviam-lhe pregado uma partida semelhante, concedendo-lhe a Ordem da Revolução de Outubro, que fora instituída em 1967 (abaixo, à direita). Ainda depois desta condecoração cubana, recebida com um imaginável sorriso amarelo, Álvaro Cunhal virá ainda a receber a ainda mais prestigiada Ordem de Lenine (abaixo, à esquerda) dos mesmos soviéticos, já em 1989. Conhecidas as diferenças ideológicas da época entre Cunhal e Gorbachev e também a aversão do primeiro por condecorações, o que se dizia em surdina é que aquela iniciativa de Gorbachev fora mesmo para chatear Cunhal de forma cortêz e diplomática... E, mais uma vez, Cunhal não teve a franqueza de dizer que não. Foi pena...

18 outubro 2023

O «RÉCUS» E O OUTRO CONDECORADO

(Republicação)
Ainda a pretexto do mesmo tema de um outro poste mai'las condecorações com a Ordem da Torre e Espada do Valor, Lealdade e Mérito, vejam-se estas duas fotos da cerimónia ocorrida a 18 de Outubro de 1973, por ocasião da abertura solene do ano lectivo 1973/74 do Colégio Militar, presididas, como então era comum, pelo presidente da República, o almirante Américo Tomás. Por estar de costas, haverá uma certa dificuldade em identificar o distinguido da fotografia da direita, mas o aluno condecorado na fotografia da esquerda reconhece-se de caras: é o José Firmino Vieira de Meireles Corte Real (tratado entre amigos mais familiarmente por Récus), que ali recebe do chefe de Estado a sua Medalha de prata de Aplicação Literária respeitante à sua classificação do 1º ano (com fita vermelha).

30 janeiro 2023

A CRIAÇÃO DA MILÍCIA FRANCESA

Republicação
30 de Janeiro de 1943. Dois meses e meio antes, o governo de Vichy acabara de sofrer mais uma humilhação, com a ocupação pelos alemães da que fora até aí designada por Zona Livre. O governo cambaleara, mas, à custa de humilhações suplementares, não caíra. E há precisamente 80 anos, o colaboracionismo procurava superar-se criando uma organização paramilitar, a milícia francesa, com o objectivo de combater internamente as expressões de resistência à ordem imposta: tanto as acções armadas quanto aqueles que, requisitados, se recusavam a ir trabalhar para a Alemanha. À frente da nova organização Joseph Darnand (1897-1945), um devoto do marechal Pétain, e uma demonstração de que muitas das personagens da França destes anos de chumbo (que vão de 1940 a 1944) raramente são para analisar a preto e branco, antes gradientes de cinzento. Darnand já então era um herói de guerra, a maioria das condecorações que acima se lhe vêem no peito são por bravura, alcançadas na Primeira mas também na Segunda Guerra Mundial - em combate contra os alemães... São as suas simpatias políticas de sempre pela extrema-direita que o fazem agora prestar-se a ser usado para dar a cara por uma organização destinada a auxiliar os seus antigos inimigos de estimação. A importância da milícia foi muito mais política do que militar - mesmo que os seus efectivos tenham chegado a atingir os 35.000 homens, trata-se de um número ridículo quando comparado com os milhões que evoluíam simultaneamente noutros Teatros de Operações da Segunda Guerra Mundial. E mesmo essa importância política circunscreve-se à França. Mas a conduta da milícia também funciona como um exemplo universal daquilo que pode acontecer aos simpatizantes da direita quando se impregnam em excesso da ideologia, a ponto de perderem de vista a sua matriz nacionalista. Como escreve Pierre Giolitto na contra capa desta sua História da Milícia:
«Pretendia-se que a Milícia francesa fosse uma cavalaria que trouxesse consigo um novo desabrochar em força. Tornou-se numa falange maldita. Mais frequentemente evocada que estudada, acabou por ser considerada como uma espécie de Gestapo francesa ao serviço do inimigo. A Milícia é um testemunho extremo dos estragos que se podem exercer nos homens de acção, patriotas mas de vistas limitadas, a começar por um marechalismo excessivo e pela fobia anti-republicana, depois por um anti-comunismo obsessivo e finalmente pelas prédicas dos ultra-colaboracionistas.» Se Giolitto está hoje disposto a compreender a obtusidade que atacou os "homens de acção", a época que então se vivia não era de molde a mostras de tal tolerância: por muito valorosos que tivessem sido os serviços prestados à França nos campos de batalha, Joseph Darnand foi fuzilado por traição em 10 de Outubro de 1945, cinco meses depois do fim da guerra (na Europa).

03 junho 2022

O DISCRETO ANÚNCIO DA FUTURA PARTIÇÃO DA ÍNDIA BRITÂNICA

3 de Junho de 1947. Foi assim, numa singela coluna das páginas centrais do Diário de Lisboa, ao lado de uma notícia bem mais desenvolvida e ilustrada de uns oficiais espanhóis que haviam sido condecorados pelo governo português por terem vindo a Portugal concorrer a um concurso hípico, que os leitores do jornal têm conhecimento da histórica notícia que as Índias britânicas se iriam cindir em dois países - Índia e Paquistão - quando da data da independência, que estava prevista para dali a pouco mais de dois meses (15 de Agosto). O mapa acima mostra o contorno que virão a ter os dois futuros países, uma informação que era desconhecida há 75 anos, já que as fronteiras ainda não estavam sequer traçadas. Ponderando a importância das duas notícias justapostas, tive dificuldade em encontrar o que foi feito do coronel D. Rafael García-Ciudad Reig, do tenente-coronel D. Faustino Domínguez Salgado ou do major D. Jaime García Cruz, os oficiais espanhóis condecorados com a Medalha de Mérito Militar (2ª classe). Sobre a Índia e o Paquistão, não tive - não tenho tido - qualquer dificuldade.

17 maio 2022

A CONDECORAÇÃO DO GENERAL SPÍNOLA E O RESTO

17 de Maio de 1972. Por portaria do ministro da Defesa Nacional, Horácio José de Sá Viana Rebelo, é condecorado com a medalha de ouro de Valor Militar com palma o general António Sebastião Ribeiro de Spínola «pelos serviços prestados no exercício das funções de governador e comandante-chefe das Forças Armadas na Guiné». Tratava-se de uma condecoração militar de elevado significado - superior, por exemplo, à cruz de Guerra - mas era impossível não compreender as fundamentações políticas que haviam estado por detrás da sua atribuição. Tanto assim, que o nome de António de Spínola nem aparece na lista dos agraciados por aquela alta condecoração militar na respectiva página da wikipedia. Dois dias depois organizava-se uma «sessão de cumprimentos das forças vivas da província» (da Guiné) onde o distinguido «proferirá» um «improviso» que, como se constata pela «reprodução» abaixo, não se afigura muito improvisado a começar pela alusão ao padre António Vieira. Implacáveis, os cinquenta anos que entretanto passaram tornaram ridículas estas cerimónias coreografadas para auditórios que nos perguntamos hoje se chegaram a existir. Como decerto nos perguntaremos, daqui por cinquenta anos, se havia alguém a quem se destinasse certo género de intervenções do primeiro-ministro António Costa quando ele se contradiz num intervalo de menos de 48 horas...  

28 março 2022

«O MAIOR E MELHOR DE TODOS OS RAIDS»

28 de Março de 1942. Há 80 anos e com excepção da gigantesca Frente Leste, a Segunda Guerra Mundial tornara-se circunstancialmente muito mortiça porque nas outras frentes onde se combatia faziam-se pausas, quer em África, onde os exércitos do Eixo e dos Aliados se reequipavam diante da posição de Gazala na Cirenaica, quer no Extremo Oriente asiático, onde, depois de expulsar as diversas potências ocidentais das suas possessões das Filipinas, Malásia, Indonésia e Birmânia num quadrimestre, o Japão contemplava saciado o seu almejado perímetro de segurança e preparava-se para o defender. Mas o noticiário do dia (acima) rompia com tal placidez a propósito de uma alegada tentativa de desembarque britânica na costa francesa. Tratar-se-ia já do retorno ao continente como anunciava em Berlim o grande quartel general do Führer? A verdade é que, em Londres e como se pode ler mais abaixo, se mostravam reservados...
Este livro foi publicado originalmente em 1958. Comprei-o cerca de quarenta anos depois. E cerca de vinte e cinco anos depois dessa compra, quando o tirei da prateleira para scanar a capa e escrever este texto, ainda lá estava o marcador, precisamente antes do oitavo capítulo dos dezanove que ele contém, ali esquecido em expressão do meu desinteresse e desapontamento pelo que dele consta. Está lá aquele subtítulo da Pan Grand Strategy Series e não há ali estratégia alguma, quanto mais grande estratégia. São 270 páginas que são demasiadas para uma história de guerra, que até se poderia transformar num bom filme do género, e que pode ser compreensivelmente narrada em qualquer página desenvolvida da wikipedia. Nessa página, o raid britânico ao porto francês de Saint Nazaire de há 80 anos começa logo por precisar de justificar os seus objectivos (o que é um mau preâmbulo - ninguém precisa de explicar quais os objectivos da Operação Overlord, por exemplo...). E o objectivo foi o de bloquear a única doca seca francesa que seria capaz de acolher os grandes navios de superfície da Kriegsmarine. O objectivo foi conseguido - um antigo navio de guerra devidamente preparado para o efeito (foto acima), destruiu o acesso à doca seca. O dano só veio a ser reparado cinco anos depois do fim da guerra. O preço a pagar por esse sucesso é que foi elevadíssimo: dos 612 envolvidos na operação, apenas 228 conseguiram reembarcar (menos de metade dos efectivos), 169 morreram e 215, muitos dos quais feridos, foram feitos prisioneiros. Como se nota pela notícia do jornal acima e por este vídeo de época imediatamente abaixo, os alemães não tiveram qualquer dúvida em considerar o desfecho do raid como uma vitória sua.
Manda a imparcialidade reconhecer que a Kriegsmarine evacuara sub-repticiamente no mês anterior as suas grandes unidades de superfície dos portos da costa francesa (Operação Cerberus) e fizera isso precisamente porque considerava os seus grandes navios operacionalmente subaproveitados nesses portos além de vulneráveis a ataques britânicos. Tomando isso em consideração pode concluir-se que afinal o sacrifício dos comandos e marinheiros britânicos se destinou a impedir os alemães de usar um recurso de que eles já haviam decidido prescindir... Preparada com antecedência, esta Operação Chariot concretizou-se já depois de se poder perceber quanto era completamente inútil. Mas não faz mal porque os britânicos guardam o segredo de rodear os seus maiores fiascos com a maior fanfarra possível (aprecie-se abaixo o vídeo de como eles actualmente comemoram o acontecimento). Na época houve uma chuva de condecorações a distribuir pelos participantes, 89 no total, incluindo 5 VC (Victoria Cross, a mais elevada condecoração britânica). Para comparação e contraste, acrescente-se que no Dia D (6 de Junho de 1944) participaram 61.700 militares britânicos (100x mais do que neste raid) e apenas foi atribuída uma VC. Apetece ironizar, acrescentando que é uma pena que já tivessem gasto os heróis em operações inconsequentes como este raid...

10 junho 2021

O DEZ DE JUNHO DE 1971 COM DOIS FUTUROS PRESIDENTES - e um deles até usa camuflado!

Bissau, 10 de Junho de 1971. Mimetizando aquilo que acontecia nesse dia nas principais cidades do país, também na capital da Guiné o governador-geral António de Spínola organizava uma cerimónia do 10 de Junho envolvendo tropas em parada, discurso, desfile e imposição de condecorações. A que a fotografia mostra reveste-se da curiosidade de envolver dois futuros presidentes da República: o próprio governador- geral e general comandante-chefe António de Spínola (1974-1974) e o major António Ramalho Eanes (1976-1986). Repare-se como, numa contemporização ultramarina para com as regras de etiqueta em vigor na metrópole, era admissível que o condecorado comparecesse na cerimónia envergando o uniforme camuflado. O camuflado era então considerado uma farda de trabalho, pouco adequado a cerimónias e ainda não adquirira aquele prestígio que o faz hoje ser envergado até por almirantes que coordenam planos de vacinação... A condecoração atribuída na ocasião a Eanes foi a medalha de prata de Serviços Distintos com palma.

26 abril 2018

AS «FAKE NEWS» DE HÁ 75 ANOS

A edição de há 75 anos do Diário de Lisboa dava o porta-aviões norte-americano USS Ranger como afundado por um submarino alemão. A notícia baseava-se no que noticiara a agência noticiosa alemã DNB, embora o jornal português tivesse o cuidado de não dar toda a corda aos detalhes da narrativa dos alemães, que incluía até a autoria do submarino responsável pelo afundamento, o U-404, e a identidade do respectivo comandante, o capitão-de-corveta Otto von Bülow. Mandava a experiência e a prudência aguardar alguns dias até que os Estados Unidos assumissem a perda - importante - de um porta-aviões. Entretanto, menos cautelosos que um mero jornal português, a Kriegsmarine e Adolf Hitler já condecorara nesse mesmo dia von Bülow com a Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro com Folhas de Carvalho. Afinal os dias escoaram-se e o USS Ranger apareceu miraculosamente a flutuar para tranquilidade das famílias do seu milhar de tripulantes, sem qualquer arranhão e sem que os seus registos de bordo conseguissem justificar as causas para o tremendo erro cometido pelos alemães, ao dá-lo por afundado antes de tempo. Só que aí, claro, ter-se-ia tornado muito embaraçoso descondecorar o autor da proeza. Prematuramente afundado pela propaganda alemã, o USS Ranger irá cumprir o seu dever durante o resto da Segunda Guerra Mundial, até ser abatido aos efectivos em Outubro de 1946.

14 dezembro 2017

OS SAPATOS VOADORES: A CRISE QUE GEORGE W. BUSH MAIS DEPRESSA SUPEROU


14 de Dezembro de 2008. George W. Bush estava a pouco mais de um mês de terminar o seu segundo mandato presidencial e efectuava uma última viagem ao Iraque quando, por ocasião de uma conferência de imprensa na companhia do primeiro-ministro al-Maliki foi atacado por dois sapatos voadores arremessados por um jornalista local, num episódio tornado mundialmente famoso (acima). Terá sido uma das raras ocasiões em que vimos aquele presidente dos Estados Unidos a lidar descontraidamente com uma situação, ainda para mais inesperada. Não só mostrou destreza para sair totalmente ileso do incidente, como ainda lhe sobrou presença de espírito para uma laracha sobre o número do calçado. A única vítima a destacar do incidente, para além do assaltante (que apanhou uma sova), foi a secretária de imprensa da Casa Branca, Dana Perino que, na confusão que se seguiu, apanhou com um daqueles desajeitados microfones direcionais em cheio num olho, que andou pisado nos dias que se seguiram (abaixo). Quase caso para dizer que ela mereceria uma Purple Heart, a condecoração militar norte-americana para aqueles que foram feridos em combate.

27 outubro 2017

O(S) «BEATLE(S)» RECEBE(M) UMA CONDECORAÇÃO (2)

Apercebi-me que, ao postar ontem a evocação da condecoração dos Beatles de há 52 anos, se me cingisse à cerimónia se perderia o melhor da história das condecorações dos Beatles, porque houve gestos significativos que só vieram a ocorrer muitos anos depois daquele dia. Assim, John Lennon e a sua muito publicitada devolução da condecoração recebida da rainha só veio a ocorrer quatro anos depois, em Novembro de 1969. A carta que acompanhou o gesto, demonstrando mais atitude que consistência, era um misto de chalaça forçada e de superficialidade involuntária, dando como razões para a devolução da condecoração o «envolvimento britânico naquela coisa da Nigéria e do Biafra», «o nosso apoio à América no Vietname» (quando o governo trabalhista britânico de Harold Wilson fazia tudo o que lhe era possível para se distanciar do conflito...) e «a queda de Cold Turkey (o primeiro disco a solo de Lennon) nas tabelas de vendas».

O desinteresse manifestado por John Lennon em relação a tais formas de reconhecimento não era acompanhado pelos restantes membros da banda. Em Março de 1997, Paul McCartney (mas só ele) foi elevado à categoria de cavaleiro (vídeo acima). Quando, em 1999, George Harrison foi sondado para receber uma outra condecoração, este recusou-a, alegadamente ao aperceber-se que seria de uma categoria inferior à que havia sido atribuída ao seu antigo companheiro. O facto só veio a ser conhecido muito anos depois da morte de George Harrison. Contudo, pelo panorama da atribuição de condecorações britânicas nas últimas décadas e apesar da discrição do visado, especula-se que a mesma recusa terá sido manifestada pelo último membro da banda, Ringo Starr. Quanto a Paul McCartney ninguém o pára, até mesmo no estrangeiro, a França concedeu-lhe em 2012 a Legião de Honra (abaixo) e já em Junho deste ano foi elevado ao estatuto de Companheiro de Honra.

26 outubro 2017

OS «BEATLES» RECEBEM UMA CONDECORAÇÃO

26 de Outubro de 1965. Os Beatles ainda estão no princípio da sua carreira mas já se tornaram muito populares e os assessores da rainha lembraram-se de aproveitar essa popularidade para a associar à Coroa. Não que o establishment britânico investisse simbolicamente muito com aquele gesto. A condecoração que foi então atribuída aos jovens músicos não era propriamente das mais exclusivas entre as que podem ser conferidas pela monarca - a acreditar na wikipedia há 100.000 recipientes vivos com aquela mesma distinção da MBE - mas era a primeira vez que isso acontecia com estrelas de Rock & Roll. A histeria que se levantou na ocasião à volta de palácio de Buckingham, conforme se pode ver no vídeo abaixo, foram realmente únicos, muito superiores ao que a monarca ou quaisquer outros dos seus convidados mais convencionais conseguiria alguma vez mobilizar.

21 abril 2016

AS CONDECORAÇÕES DE MARCELO E AS MENSAGENS - A PROPÓSITO DE CONDECORAÇÕES - DE MARCELO

Nada melhor do que confrontar as notícias emanadas de Belém com os factos para nos assegurarmos das contradições, de quais são as intenções de Marcelo e a quem se destinam os seus recados - a Passos Coelho, talvez também ao resto do elenco do governo cessante. Porque, se o propósito fosse mesmo o de tornar mais selectivas as condecorações daqui para o futuro, então Marcelo nunca deveria ter condecorado o seu antecessor Cavaco Silva com o Grande Colar da Ordem da Liberdade. A não ser que se entenda por "feito excepcional" o de ter terminado este seu segundo mandato com uma popularidade como nenhum presidente antes dele.

19 fevereiro 2016

A VER SE CAVACO SILVA NÃO SE ESQUECE DO MUTTLEY...

Confesso que considero deslocados todos os problemas que vejo estarem-se a levantar a respeito da concessão de uma condecoração a António Sousa Lara. A competência para as conferir é de Cavaco Silva. Nem todas as decisões a esse respeito de Eanes, Soares e Sampaio terão estado isentas de críticas, bem antes pelo contrário, e com Cavaco não será diferente. O que para mim vale a pena perguntar é se terá sido assisado conferir ainda mais esta condecoração a Sousa Lara, confira-se a sua fotografia mais abaixo onde se comprova o valor que lhes dá. Terá ele peito para suportar ainda mais este peso da insígnia de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique numa jaqueta tão ornada de condecorações? Suponho que sim, tanto mais que, segundo percebi e apesar das aparências, se trata afinal da primeira condecoração oficial portuguesa do insigne académico. Oficiais e registadas, além da que acabou de receber, só mesmo mais três condecorações estrangeiras, duas espanholas e uma da Santa Sé. O resto da glória e reconhecimento que se pode apreciar na foto abaixo não passará de pechisbeque pregado a fitas coloridas que contrastarão com o fundo negro do smoking. Depois de o fazer ao que de mais parecido conheço de carne e osso, só fica a faltar mesmo condecorar o Muttley original...
Em contraste, e para que não se diga que apenas se comenta negativamente as escolhas do presidente, gostaria de assinalar elogiosamente a mesma distinção conferida a Nuno Rogeiro. Passe o trocadilho, temos agora um comentador que também é Comendador (da mesma Ordem do Infante D. Henrique), alguém que desenvolveu um estilo próprio, que nos é capaz de falar da actual tensão entre russos e turcos discorrendo competentemente sobre a manobrabilidade e os avionics do SU-35 quando em comparação com o F-16. Apenas uma pequena nota final para ele, que nos aparece nesta fotografia abaixo na ponta direita. É que, para quem tanto se preocupa em falar-nos das características dos equipamentos, ele não deve cruzar casualmente os braços no peito quando da foto de família, tem que pôr-se mais hirto para nos deixar ver o equipamento, neste caso a condecoração...

14 fevereiro 2016

FOGE CÃO...

Não há momento mais prolífico da generosidade presidencial do que o final do seu segundo mandato. E os conselheiros de Cavaco Silva terão aprendido das presidências anteriores que a melhor maneira de deflectir as críticas (tradicionais - recorde-se no título deste poste a sugestão da famosa frase de Almeida Garrett vinda já do Século XIX) será manifestar essa mesma generosidade agrupando os condecorados em pacotes heterogéneos, como foi o caso desta última leva de Grã-Cruzes da Ordem do Infante - os oito ex-ministros da foto acima, a que há que juntar António Pires de Lima(!). O critério invocado para os selecionar terá sido o de distinguir os milicianos que vieram cumprir comissões de serviço à política. Será por isso, pelo isolamento dos aparelhos dos partidos (algo que não seria bonito Bagão Félix dizer no discurso de agradecimento que fez por todos), que o traço comum que mais os poderá ligar é que de todos, em algum momento das suas carreiras ministeriais, se pediu veementemente a demissão (as excepções serão Pires de Lima - que possui uma misteriosa boa imprensa - e Campos e Cunha - que só ocupou a pasta por quatro meses). De resto há ali de tudo, como na farmácia. Quem tenha saído da experiência com a reputação de competente (Paulo Macedo) e quem o tenha feito com a de incompetente (Vítor Gaspar); quem tivesse uma concepção da política de Educação (Maria de Lurdes Rodrigues) e quem tivesse uma outra, antagónica (Nuno Crato); há mesmo quem tivesse ido ocupar o lugar do outro numa cabala política (Álvaro Santos Pereira e António Pires de Lima); quem tivesse ficado com José Sócrates quase até ao fim (Rui Pereira) e quem o tivesse abandonado logo no início (Luís Campos e Cunha). E a opção por fazer uma caldeirada não impede, mesmo assim, perguntas (im)pertinentes: porquê a ausência de Poiares Maduro do elenco?
A verdade é que a decisão é do presidente e o histórico mostra que, apesar da prolificidade tradicional da época, as piores opções costumam já ter sido feitas a meio dos mandatos. Houve a história daquela senhora que dirigiu uma organização que punha umas bombas e que, já depois do 25 de Abril e apesar da liberdade, se continuou a dedicar à luta armada, e há aquele senhor que, apesar do reconhecimento do mérito empresarial que o presidente lhe manifestou e numa das mais estranhas exibições publicas de amnésia, hoje é muito bem capaz de já não ter de memória se foi condecorado ou não.

14 dezembro 2015

...DO VALOR, LEALDADE E MÉRITO

A ser verdade a notícia de que o presidente Cavaco Silva irá condecorar aquele que foi durante oito anos o seu chanceler do conselho das antigas Ordens Militares, o general Rocha Vieira, com uma condecoração da Ordem da Torre e Espada, de Valor, Lealdade e Mérito, lá se me pareceu explicar a oportunidade e utilidade de uma outra Torre e Espada, que muito recentemente (Outubro) foi concedida por Cavaco Silva ao coronel Folques a pretexto dos seus distintos feitos militares em combate e apesar dos 40 anos que já decorreram depois do fim das guerras em África. A verdade é que, como se descobre, os princípios são sempre para se cumprir e não se devem abrir excepções, nem mesmo para os gajos porreiros. É razoável que haja um ciclo de dez anos depois das guerras acabarem para atribuição das medalhas verdadeiramente militares. Depois disso as condecorações tendem a tornar-se políticas¹. Se não se respeitarem essas regras, é o que se vê.
Porque estas coisas nunca são coincidências, nem acontecem por acaso... E ouve-se, a quem conhece bem Rocha Vieira (e que não gosta mesmo nada dele), que aquela campanha (velha de 15 anos!) que recorrentemente ressurge para que Ramalho Eanes seja promovido a marechal - e que o visado sempre veemente e repetidamente descartou - tinha como objectivo que no fim do processo houvesse não apenas um, mas dois marechais... Agora adivinhem quem?... E quem já conhece essa história está a ver aqui algo de muito semelhante, com o mesmo truque do precedente: a saída de Macau já ocorreu há 16 anos, mas quando se acabou de condecorar alguém com outra Torre e Espada por feitos ocorridos há mais de 40... Mas a palavra final disto tudo, não pode ser para as manigâncias de Rocha Vieira, tem de ir para Cavaco Silva: e o que se pode dizer mais dele?...

¹ Vale a pena contar aqui sumariamente e em rodapé, a história da Ordem Soviética da Vitória, uma condecoração em diamantes muito exclusiva outorgada apenas a 16 recipientes entre 1944 e 1945. A Vitória era, evidentemente, a da Segunda Guerra Mundial. Depois, em 1978 (ou seja 33 anos passados depois do fim da guerra), Leonid Brejnev (que adorava condecorações!) foi o 17º recipiente dessa condecoração exclusiva atribuída a marechais soviéticos ou por cortesia a homólogos aliados como Eisenhower e Montgomery, ou mesmo Tito. Acrescente-se que, o ridículo era tal que essa última condecoração a destempo foi oficialmente revogada ainda no período soviético por Gorbachev (1989).

20 abril 2015

A LEITARIA SOVIÉTICA

Em toda a sua dialéctica, é uma tristeza contemplar as ruínas desta leitaria outrora próspera situada em Novocherkassk, Rússia. Por cima da entrada, quatro condecorações do período soviético sugerem-nos uma unidade de produção de elite, daquelas que ultrapassariam constantemente as suas quotas de produção,...
...um registo de um historial socialista glorioso ora votado ao esquecimento pelas forças maléficas do capitalismo, a pedir, à sua maneira, em revolucionário, mesmo ao jeito das cantigas de intervenção, uma evocação do mesmo género da que Vitorino dedicou outrora, mas em burlesco, à leitaria Garrett...

05 janeiro 2015

A DESONRA DA LEGIÃO DE HONRA

Apesar da panache tipicamente francesa como é promovida Mundo fora, esclareça-se previamente que a Legião de Honra é uma condecoração muito lisonjeira decerto, mas algo banalizada: o Código que a rege, promulgado pelo General de Gaulle em 1962, contemplava um impressionante quadro composto por 75 membros condecorados com Grã-Cruzes, 250 Grande Oficiais, 1.250 Comendadores, 10.000 Oficiais e 113.425 Cavaleiros; 125.000 ao todo, o que, concorde-se, é muita gente (dava para encher o antigo Estádio da Luz). Tanta que, informativamente, mais do que conhecer os agraciados conhecidos, que se contam por várias centenas, começa a ter mais interesse saber quem a tinha e lhe foi retirada, como aconteceu no caso de Maurice Papon¹, ou então quem a recusa. A referência calista neste último caso é Jean Paul Sartre, como se lê nas notícias, mas a verdade é que o gesto é bem mais comum do que aquilo que se pensa: ainda o ano passado, o desenhador Jacques Tardi, a quem já aqui me referi no blogue, o fez. Mas reconheço quanto o efeito é outro quando o homenageado desdenhoso tem projecção mediática internacional. É o caso de Thomas Piketty este ano, recusa que tanto furor tem estado a fazer. Como assinala a revista The Economist, François Hollande já tem a popularidade tão em baixo que dispensava este extra de desdém expresso publicamente por alguém que o apoiou na sua eleição há dois anos. O mais irónico do episódio é que, incidindo as críticas de Piketty sobre o que Hollande prometeu fazer e não teve coragem para concretizar, a atribuição da condecoração é muito bem capaz de não ter passado de mais um daqueles processos em que as burocracias se especializam para se mostrarem activas, a que o presidente apenas adicionou a sua distraída assinatura.

¹ Antigo funcionário do governo colaboracionista de Vichy (1942-44) implicado na deportação de judeus, conseguiu singrar depois, tendo chegado a ocupar um cargo ministerial (1978-81) sob a V República. Foi condenando por crimes contra a humanidade em 1998.

31 outubro 2014

O ENTUSIASMO EXUBERANTE E DESASTRADO DE ASCENSO SIMÕES

Ascenso Simões é um político socialista com uma imagem efusiva. A imagem dele que eu teria preferido para enfeitar este poste seria um outro abraço, assestado simultaneamente a António Costa e a José Magalhães, quando da saída do primeiro da pasta da Administração Interna para a presidência da Câmara de Lisboa (2007), que os deixou a ambos a massajar a testa depois da cabeçada involuntária provocada pela exuberância como Ascenso Simões lhes deu um abraço tríplice que se pretendia cúmplice. Ascenso é um bom rapaz, mas é um bocado desastrado, recorde-se a propósito um episódio velho de oito anos, em que ele pretendia mobilizar o sector vitivinícola para combater a sinistralidade rodoviária. A idade não lhe terá dado siso. Agora deu-lhe para se intrometer na prerrogativa presidencial da concessão de condecorações, caso de uma Grã-Cruz da Ordem de Cristo que Cavaco Silva devia, mas não atribuiu, a José Sócrates. Ascenso Simões devia deixar o presidente atribuir as suas condecorações discricionariamente como lhe compete: desde a Grã-Cruz do Mérito Empresarial a Zeinal Bava em Junho passado até ao Grande Colar da Ordem do Infante a Durão Barroso, notícia de hoje. Assim como há insultos que podem ser tomados por elogios pelo destinatário, também haverá condecorações que, consideradas as circunstâncias, podem ser maculadas por quem as outorga. Se a opinião expressa por Ascenso Simões (mais a campanha adjacente) correspondem à opinião íntima de José Sócrates, mais do que discordar deste último, acho que Sócrates está profundamente errado.

Porque, quanto a Cavaco Silva, os enxovalhos públicos que já recebeu, às mãos de figuras politicamente irrelevantes como Carlos do Carmo, indiciam que, como se diz no Brasil, ele não perde por esperar pelo fim do mandato, a batata dele está assando...