Mostrar mensagens com a etiqueta País Basco. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta País Basco. Mostrar todas as mensagens

12 julho 2023

COMO UMA CÉLULA A DESLOCAR-SE NUM MEIO LÍQUIDO

Isto são imagens dos gaiteiros a (tentar) abandonar a praça central de Pamplona por ocasião da abertura das festas de San Fermin deste ano (que estão ainda em curso, até 14 de Julho). O curioso da cena é que os seus barretes vermelhos contrastam com o azul dos coletes da polícia que está encarregue de os proteger e, por sua vez, ambos contrastam com o branco dos foliões. Visto à distância, a deslocação (lenta) da banda (vermelha), cuja formação e contornos vai variando conforme os esforços dos protectores (azuis), num meio envolvente dominado pela cor branca, faz lembrar aquelas imagens de microscópio, quando uma célula se desloca vagarosamente por um meio líquido. Vale a pena recordar que a primeira visita do escritor americano Ernest Hemingway a estas festas (o maior responsável por as popularizar mundialmente) foi em 1923, há precisamente 100 anos.

18 janeiro 2021

QUANDO O «GOD SAVE THE QUEEN» ERA VAIADO

Cardiff, País de Gales, 23 de Março de 1968. Durante as cerimónias preliminares do jogo de rugby que se irá disputar entre as selecções galesa e gaulesa para o tradicional Torneio da Cinco Nações, e depois da execução protocolar do hino dos visitantes (A Marselhesa), segue-se a execução do hino do país anfitrião, o «God Save the Queen» britânico. Mais do que o tradicional silêncio glacial como costumava ser acolhido o toque do hino britânico em terras galesas, tão glacial quanto a chuva picada pelo vento que soprava nesse dia, os acordes do «God Save the Queen» soaram mesclados de assobios e vaiadelas aos ouvidos de espectadores e telespectadores, já que o jogo estava a ser transmitido pela eurovisão). Um incómodo que apenas aumentou quando, a seguir ao «God Save the Queen», e para contraste com o que se passara, a banda interpreta o «hino» nacional galês «Hen Wlad Fy Nhadau» e este último é entoado em uníssono e respeito por uma grande maioria dos presentes. Para o que interessa, a França veio a ganhar dificilmente aquele jogo por 14-9, num terreno que a chuva enlameara para além do razoável, como se nota pelas camisolas dos jogadores nas imagens abaixo. Mais do que isso, a vitória da França nesta última jornada permitia que ela ganhasse o Torneio daquele ano (1968) e, pela primeira vez na história da participação da selecção gaulesa no Torneio, fazia-o ganhando todos os jogos que disputara, o ambicionado Grand Slam.  
Mas a grande lição do jogo fora política e não desportiva: não valia a pena forçar a execução do hino nacional quando dos jogos da selecção galesa de rugby, já que a consequência provável seria a de expô-lo ao ridículo, rebaixado quando em comparação com o desvelo como o hino regional era entoado. No ano seguinte, o «God Save the Queen» deixou de ser tocado quando jogava Gales e anos depois aconteceu o mesmo com a Escócia. E acabaram as vaiadelas. Um símbolo - e é isso que um hino é: um símbolo - só serve de símbolo se promover a coesão nacional. Se o não faz, é apenas uma música irritante - pelo menos, para a parte da audiência que não se reconhece no que representam aqueles acordes. No Reino Unido, há cinquenta anos, desmontou-se o problema. Pelo contrário, em Espanha, não há quem o queira perceber, aprecie-se apenas a vaiadela monumental dedicada ao hino de Espanha que ocorreu na final da Taça do Rei de 2015, disputada em Barcelona entre o clube local (catalão) e o Atlético de Bilbau (um clube basco).

31 julho 2019

FUNDAÇÃO DA ETA

31 de Julho de 1959. Fundação da organização terrorista basca ETA. Ainda que a contragosto, aceita-se a existência de organizações políticas deste cariz quando os regimes das sociedades onde aparecem se revestem de características ditatoriais e autoritárias. Era o que acontecia há 60 anos com a Espanha franquista, e que acontecia também com Portugal e com mais alguns países europeus, incluindo todos aqueles que ficavam para lá da Cortina de Ferro (de onde, misteriosamente, nunca chegaram notícias de acções político-militares deste género). Só que em Espanha, a partir de 1977 tudo mudou, e a ETA manteve a sua conduta terrorista, como se lhe fosse indiferente operar em democracia ou em ditadura. O que a esvaziou de toda a moralidade e simpatia relutante. Mesmo assim, a ETA perpetuou-se por mais quarenta anos, mostrando o quanto, pela sua própria inércia, estas organizações acabam por se tornar viveiros de delinquentes que se aproveitam para se esconderem por detrás de ideais políticos. Quando a ETA anunciou a sua "dissolução" no ano passado, o acontecimento decorreu perante o desinteresse céptico: é que estas organizações não foram criadas por registo notarial e a experiência mostra que basta um punhado de marginais para adiante repegarem na sigla e voltarem à actividade. Por exemplo, o IRA irlandês foi criado há cem anos, tornou-se mundialmente famoso há cinquenta, já se anunciou a sua conversão cívica por milhentas vezes, mas ainda ontem o clima de terror que impõe em Derry foi notícia na BBC. São estruturas que não são para levar a sério a não ser que o demonstrem e que, por causa dessa sua natureza, não se extinguem só porque alguém anunciou que sim.