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06 dezembro 2008

MAIS CONVERGÊNCIAS À ESQUERDA…

Em finais de Agosto de 1975, estava o PREC ao rubro, e apareceu a notícia que houvera um conjunto de oito organizações revolucionárias que decidiram, em conjunção com o MFA e órgãos autónomos do poder popular, formar uma Frente, denominada Frente de Unidade Revolucionária (FUR). No comunicado conjunto que a anunciava, escrevia-se também que se havia decidido constituir um secretariado provisório para a coordenação de uma ofensiva comum contra a reacção e pelo avanço do processo revolucionário.
Entre as oito organizações que compunham inicialmente a referida FUR (1º de Maio, FSP, LCI, LUAR, MES, MDP/CDE, PCP e PRP-BR) notava-se a ausência de qualquer organização de inspiração maoista (FEC(M-L), MRPP, PUP ou UDP) assim como o aparecimento de uma organização que eu nunca ouvira antes falar em 16 meses de revolução (1º de Maio) e que a iria atravessar tal qual (em vez de uma estrela...) um cometa revolucionário, pois 24 horas depois de integrar a FUR abandoná-la-ia para nunca mais dar notícias de si…
Menos de uma semana passada sobre a constituição da FUR (1 de Setembro), o PCP parecia pressentir a alteração da correlação de forças dentro da organização onde verdadeiramente tudo se decidia (as Forças Armadas) e abandonava a unidade revolucionária alguns dias antes da queda de Vasco Gonçalves (5 de Setembro), descomprometendo-se na sua posição negocial para as fases seguintes da revolução. No entanto, dentro da FUR havia-se deixado ficar a sua outra encarnação, o MDP/CDE, também dirigida por militantes seus
Durante os quase três meses que se seguiram – entre os princípios de Setembro até ao 25 de Novembro de 1975 – o PCP continuou a conseguir a proeza de conseguir estar em todo o lado simultaneamente mas sem se comprometer verdadeiramente com lado nenhum: por um lado, estava representado no VI Governo Provisório com um ministro (Veiga de Oliveira, na pasta das Obras Públicas) ao mesmo tempo que acompanhava, senão mesmo dirigia, através da FUR, os movimentos que o contestavam: abaixo, lembre-se o cerco à Assembleia Constituinte...
A 26 de Novembro de 1975, todas as organizações que haviam sido parte integrante da FUR, mais algumas que dela não faziam parte (UDP), além de outras siglas que haviam sido entretanto desencantadas (como os SUV - Soldados Unidos Vencerão!) seriam consideradas como tendo estando, indiscutivelmente, do lado vencido no dia anterior. O PCP nem por isso...

02 setembro 2008

O PD do VP do PP

Mais do que propriamente importante, é sobretudo interessante a notícia que o jornal Público escolheu hoje para enfeitar a sua primeira página, onde nos informa que há cerca de um ano que Luís Nobre Guedes se havia demitido do cargo de Vice-Presidente (VP) do Partido Popular (PP), facto que só com aquela notícia se tornou agora público. Não tem importância porque hoje em dia ninguém liga nenhuma ao PP e ao Presidente (P) do PP, quanto mais ao VP do PP. Mas é interessante porque se trata de uma notícia daquelas sumarentas pelas questões associadas que pode levantar

Adoptando o estilo de uma cena do filme Good-Morning Vietnam envolvendo siglas*: Por que razão o VP do PP terá permitido que o P do PP mantivesse em segredo o seu PD (pedido de demissão)? E por que razão o P do PP teve que manter esse PD em segredo durante TT (tanto tempo)? E como terá sido que, ao fim de TT, o Público veio a obter o FJ (furo jornalístico) do PD do VP do PP? Terá alguma coisa a ver com a CI (conferência de imprensa) dos 4 mil polícias que PP (Paulo Portas) queria encomendar? Que tem a dizer a isto tudo o JLCR (Jacinto Leite Capelo Rego)?

* Excuse me, sir. Seeing as how the V.P. is such a V.I.P., shouldn't we keep the P.C. on the Q.T.? 'Cause if it leaks to the V.C. he could end up M.I.A., and then we'd all be put out in K.P.

31 maio 2007

SIGLAS QUE SOAM BEM, MAS QUE PODEM NÃO QUERER DIZER NADA

É muito famoso e muito filmado o episódio do ataque japonês a Pearl Harbour em 7 de Dezembro de 1941. O que é menos sabido é que esse ataque foi apenas uma das facetas de um plano geral coordenado e que houve um conjunto de outros ataques simultâneos ou quase, desencadeado pelas forças armadas japonesas contra as várias possessões que os países ocidentais em guerra contra o Eixo tinham no Extremo Oriente.

No dia seguinte àquele em que as forças aeronavais nipónicas afundaram os couraçados norte-americanos, as tropas japonesas atacaram a colónia britânica de Hong-Kong, na China, e desembarcaram na Malásia britânica. Dois dias depois, era a vez dos desembarques nas ilhas de Lução, a mais setentrional das Filipinas, e de Guam, no meio do Oceano Pacífico, que estavam ambas sob tutela norte-americana.

Uma semana depois calhava a vez à ilha de Bornéu, e a ameaça da expansão japonesa estendeu-se rapidamente às Índias Orientais Holandesas e à Austrália. Para a defrontar, os vários países ameaçados criaram um comando conjunto (veja-se a imagem acima com a sua área de influência), com uma designação muito imaginativa mas, como os acontecimentos posteriores vieram claramente demonstrar, de uma eficácia muito reduzida.

O Comando designava-se ABDA (American – British – Dutch – Australian), era comandado por um general britânico (Wavell) e o comando de cada ramo estava salomonicamente dividido por cada nacionalidade: Exército (Poorten, holandês), Marinha (Hart, norte-americano) e Força Aérea (Peirse, britânico). E tinha um defeito notável: não funcionava – MacArthur, por exemplo, que estava nas Filipinas, não se encaixava originalmente naquela estrutura…

O ABDA foi assim um daqueles soundbites inócuos, criado para efeitos de propaganda de guerra que existiu antes do termo ter sido criado (o comando durou pouco mais de mês e meio, antes de se desagregar perante as sucessivas derrotas frente aos japoneses…). Mas lembro-me dele quando ouço daqueles acrónimos que associam países muito diferentes, com um remoto denominador comum, mas ordenados por forma a soar bem ao ouvido: BRIC.
BRIC (tem a mesma sonoridade que a palavra tijolo em inglês: brick) é um acrónimo que resulta da junção encadeada das iniciais de Brasil – Rússia – Índia – China. Empregá-lo dá um certo ar de entendimento mais aprofundado dos problemas de política internacional, como decerto não terá escapado aos assessores de José Sócrates. São todas economias emergentes, mas desbastada essa trivialidade, emergem de forma diferente e com objectivos estratégicos distintos.

A começar pela Rússia, que não emerge propriamente, antes reemerge, embora agora numa versão mais reduzida da União Soviética. É um país que está a viver momentos de prosperidade, é um grande país exportador como os seus colegas de acrónimo China e Brasil, mas há que ter presente que esse resultado (como acontecia com a antiga União Soviética, de resto) é obtido à custa da venda das suas matérias-primas, não da eficácia da sua produção industrial, que não parece ter melhorado significativamente.

Quem também não tem um sector industrial com o dinamismo suficiente para conseguir equilibrar a sua balança comercial com o exterior é a Índia. Mas também não tem matérias-primas que supram a diferença. Contudo, esse défice quase desaparece totalmente quando se contabilizam os serviços em que a Índia se tem vindo a especializar. Só que os grandes clientes da Índia não estão nos seus colegas do BRIC, mas sim nas economias dos países desenvolvidos…

Finalmente, a China e o Brasil são os países cujas estruturas económicas mais se assemelham. Ambos são grandes exportadores de produção industrial, mas o Brasil adiciona a isso potencialidades de exportador de matérias-primas agrícolas e minerais. De dimensões continentais, sofrem ambos de problemas semelhantes e graves de assimetrias quanto aos ritmos de desenvolvimento interno das suas regiões. Mas as semelhanças também os podem transformar em rivais na busca de clientes externos para o que produzem…

Em suma, e como se percebe, é uma aposta que não demonstra grande presciência a de antecipar o crescimento económico e o aumento de importância destes 4 países, embora eles o estejam a fazer cada um à sua maneira distinta e, se calhar, nalguns casos em concorrência directa entre si. Convém é não esquecer também as realidades das potências económicas já existentes que querem traduzir em verdadeira influência estratégica esse seu poder. Fala-se imenso das exportações da China, mas esquece-se que o país mais exportador do Mundo* é a Alemanha…

* Aquele que regista o maior superavite em valor na sua balança comercial (dados de Março de 2007)

04 março 2007

O REVISIONISMO NO PREC?

É de saudar a edição de Os Dias Loucos do PREC, um conjunto de crónicas que acompanham através da imprensa diária da época os oito meses e meio de Processo Revolucionário Em Curso que medeiam entre o 11 de Março de 1975 e o 25 de Novembro de 1975. Se bem me lembro, as crónicas foram publicadas quotidianamente no Público ao longo de 2005, foram compiladas e editadas em livro em Abril de 2006, mas só recentemente o comprei.

Mas a intenção deste modesto poste é a de assinalar um pormenor que, embora possa ser de somenos importância, parece indiciar um descarado processo de revisionismo histórico no PREC, associado ao real significado das siglas do partido na altura designado por PRP-BR. Pelos vistos, de acordo com a menção no referido livro, suportada pelo actual site da organização, o significado do acrónimo quer dizer Partido Revolucionário do Proletariado – Bases pela Revolução.
Eu posso aceitar, e até saúdo, que Isabel do Carmo tenha deixado de prescrever processos violentos de apropriação do poder para se dedicar a prescrever processos mais suaves para a perda de peso. Não compreendo é que se queira renegar o passado da organização dando um significado à sigla BR que ela nunca teve: BR sempre correspondeu a Brigadas Revolucionárias, em concordância total com a metralhadora empunhada que constituía o símbolo do partido, reputado na época pelo seu desprezo pelas eleições burguesas.

Melhor que isso, é importante dar o relevo que compete ao blogue TóColante, que neste caso representa um verdadeiro serviço público de uma outra maneira de dizer Não apaguem a memória…, e de onde retirei os autocolantes de época que afixei neste poste e que comprovam, para além de qualquer dúvida, a farsa revisionista que se pretendeu montar. Porque, pior do que ter pretendido no passado endireitar a sociedade à metralhadora, é pretender agora que isso nunca aconteceu…
E é incompreensível que tanto José Pedro Castanheira (n. 1952) como, sobretudo, um veterano do jornalismo como Adelino Gomes (n. 1944), que têm, de certeza, memórias próprias de todo o período, se deixem embalar por uma tentativa tão canhestra de reescrever um pequeno episódio do passado próximo de que muitos milhares ainda se devem lembrar. É sobretudo para isso que o livro que lançaram devia existir…

Não são demais os meus agradecimentos ao TóColante e à Sofia Loureiro dos Santos.

SIGLAS

Sempre gostei de siglas e de as decifrar. Ainda me lembro de, depois de descobrir o significado de PAIGC, MPLA ou FNLA ficar a salivar de expectativa ao saber que o movimento guerrilheiro de Moçambique era a FRELIMO para me desapontar com o expediente traiçoeiro de terem criado um nome tão grande à custa das sílabas iniciais das palavras. Um dos meus entusiasmos do PREC era a profusão de siglas de que ainda hoje me lembro, ao contrário dos autores de um dos livros sobre o PREC*, que cometeram o pecado de aceitar o significado revisionista da segunda sigla do PRP-BR.

Também já por aqui devo ter mencionado o zénite da multiplicação das siglas, de umas eleições legislativas em 1980, onde a extrema-direita se agrupava por detrás de uma catrefa de letras maior que um comboio regional: PDC-MIRN/PDP-FN. Do que ainda não falei, foi das raras ocasiões em que os partidos mudaram de desiganção e, consequentemente, de sigla. Foi o que aconteceu, entre outros, ao PSD que, após três anos de existência, passou de Partido Popular Democrático (PPD) à designação actual de Partido Social-Democrata (PSD).

Entre os comunistas, é provável que deva ter saído uma directiva em que, certamente por pirraça política, sempre que houvesse necessidade de se referirem ao PSD, deveriam empregar a designação antiga: PPD. Notava-se que o gesto era sistemático e era, de certa forma, pouco caridoso, porque naquela época havia a prática de, quando se faziam referências às práticas dos comunistas de infiltração e controlo nas organizações do aparelho de Estado, o PCP era sempre tratado nessas ocasiões com o eufemismo de determinado partido político

Se bem recordo, o responsável pelo acabar desse estado de coisas chamou-se Carlos Mota Pinto, quando se tornou presidente do PSD em 1984. Por um lado, ao reincorporar a sigla PPD para a designação do seu partido esvaziou as razões da pirraça dos comunistas; por outro ao tornar-se um dos pioneiros do abandono da regra do eufemismo de determinado partido político para as acusações mais contundentes às práticas menos democráticas, que substituiu por um directo e simples o partido comunista.

É por reconhecer que as siglas também podem servir de arma de arremesso político que hesito quando trato simplesmente o partido que Paulo Portas pretende agora recuperar pela sigla PP. A sigla oficial ainda é CDS/PP, e Portas, nesta sua última encarnação intelectual já só designa o partido pela primeira delas. Mas quem tem memória lembra-se de tempos em que acontecia precisamente o contrário e, embora a organização em si não tenha culpa dos inúmeros (e amplos) ziguezagues do discurso de um dos seus membros, parece estar sempre disposta a segui-los, quando ele os faz.

Nesse sentido até posso sentir alguma simpatia pela prática de José Pacheco Pereira, que é tão fixado em empregar a sigla PP para designar o partido do seu colega de programa** Lobo Xavier, como outrora o eram os dirigentes comunistas nas suas referências às políticas de recuperação do capitalismo do PPD. Só que a sigla PP que acho que se torna aceitável mencionar não é a de Partido Popular, um dos episódios em que Paulo Portas, directamente ou por interposta pessoa, tentou transmutar a direita numa outra coisa qualquer, refrescantemente diferente. PP torna-se a sigla do nome do próprio Paulo Portas, a sua organização que ele agora quer recuperar do curador (a quem ele não a entregou)…

* José Pedro Castanheira e Adelino Gomes, o jornalista que lá estava sempre por acaso. Um revisionismo recente transformou as legítimas Brigadas Revolucionárias do PREC numas inacreditáveis ( e mortiças) Bases pela Revolução...
** Quadratura do Círculo (SIC Notícias)

09 novembro 2006

O VIGÉSIMO

Fico sinceramente com muita pena por não ter assistido a um debate a pretexto do 50º aniversário do XX Congresso do PCUS, realizado ontem na biblioteca do Museu República e Resistência, como notícia hoje o Diário de Notícias. E, logo pelo cabeçalho da notícia onde se lê que Brito denuncia recuperação da figura de Estaline feita no PCP, se antecipa a distinção entre o que de interessante lá aconteceu e o interessante-bombástico que ao jornalista interessou dar relevo.

E o primeiro acontecimento deveras interessante foi quem lá não esteve... Estiveram lá, na mesa, Carlos Brito, antigo militante e dirigente do PCP e Fernando Rosas, deputado do BE, ex-MRPP e historiador, e entre intervenções e presenças, lêem-se na notícia os nomes de Raimundo Narciso, actualmente no PS, ex-ARA (PCP), Mário Tomé, que foi da UDP para o BE, Francisco Martins Rodrigues, um histórico ex-PCP, não sei se actualmente milita no BE e ainda a inesquecível Carmelinda Pereira, do POUS.

Como se torna evidente, desta lista de nomeados não consta, nem a título institucional, nem a título individual (seria que o partido permitiria essa distinção?), nenhum militante de destaque do PCP. É canónico como o PCP não participa em acontecimentos deste tipo onde não controle a sua organização. E evidentemente que a sua Informação e Propaganda já deve ter emitido um comunicado enfadonhamente longo, para aí com uns 15 ou 20 pontos, explicando porque é culpa dos outros a sua ausência…

Mesmo assim, atendendo à notícia, ainda parece ter havido muito bom debate, também daquele típico de uma certa esquerda e muito bem caricaturado por George Orwell em Animal Farm, onde a semântica se sobrepõe à substância. Só que, em vez de se ouvir que há animais mais iguais que outros, ouviu-se Rosas concluir que de Estaline para Krutchev, houve diferenças de grau e de intensidade, mas não de natureza. Quem discordava deixou de ser morto. Ora eu suponho que isto deve ter sido uma excelente notícia para os discordantes…

Mas o resto do debate, a atender pelas descrições da notícia, parece ter sido muito interessante, pela divergência de opiniões das formas como uma organização que é necessariamente hermética, por necessidades de segurança, e ideologicamente monolítica, pela sua génese, se confronta com um gigantesco acto de contrição sobre o passado próximo por parte da organização central para a qual tinha sido desde sempre educada para prestar vassalagem.

Uma nota final a respeito de Estaline, que faz de chamariz no título da notícia. Se, com tudo o que se sabe hoje sobre ele, ainda é compreensível ver uns velhinhos nostálgicos na Ucrânia a carregar a sua fotografia por ocasião do aniversário da revolução de Outubro como um ícone (estilo velinhas na base da estátua do Dr. Sousa Martins*…), só um modismo intelectual incompreensível e superficial – do estilo retro… - pode justificar as tentativas de recuperar a figura de um dos piores ditadores do Século XX, por parte de quem devia estar mais esclarecido.

Para os comunistas que andem mais distraídos notem que há outras maneiras de se ser grunho, para além de se rapar a cabeça, fazer a saudação fascista e manifestar admiração por Adolf Hitler… O que torna a extrema-direita mais repelente é a obtusidade na forma como se recusam a absorver as lições da História…

* Correcção devida a um leitor fiel e atento de que este blogue muito se orgulha.

25 agosto 2006

AS SIGLAS DO 25 DE ABRIL

Uma das causas porque o PREC (Processo Revolucionário Em Curso) me deixa tantas saudades é por causa das siglas. Os documentos militares, provavelmente por serem feitos por militares que são homens de acção e não estão para perder tempo a escrever palavras completas, estão cheios de siglas* em que normalmente as NT (nossas tropas) se confrontam com o IN (inimigo). Depois do 25 de Abril e por causa do MFA (Movimento das Forças Armadas) a sociedade em geral começou a importar alguns desses aspectos da terminologia castrense e as siglas foram um deles.

No frenesim que se seguiu ao 25 de Abril o português médio foi submetido a uma doutrinação acelerada sobre siglas, a começar pelas dos partidos existentes, o PCP (Partido Comunista Português), o MDP/CDE (Ena! Logo seis letras! Movimento Democrático Português / Comissão Democrática Eleitoral), o PS (Partido Socialista, muitas vezes designado ao princípio por PSP, engano que devia irritar sobremaneira os socialistas) ou o MRPP (Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado).

A aprendizagem também teve de se estender às colónias, porque os movimentos de libertação dos territórios africanos, até aí designados genericamente por terroristas ou turras, também tinham as suas siglas próprias: na Guiné, o PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde), em Moçambique, a FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique) e em Angola, que estava servida logo por três movimentos diferentes, FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola), MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) e UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola).

Depois, a partir de Maio de 74 com a Primavera, foi uma espécie do desabrochar das siglas, de organizações que se fundavam a sério e viriam a vingar como o PPD (Partido Popular Democrático) ou o CDS (Centro Democrático Social), outras que também pareciam também sérias mas não destinadas a vingar como o PCSD (Partido Cristão Social Democrata), outras que só se davam a conhecer pelas paredes, em cartazes como o PSDI (Partido Social Democrático Independente) ou só em pinturas como o PTDP (Partido Trabalhista Democrático Português).

Mas aquelas eram siglas que, apesar do uso do termo Social Democrático, se dirigiam à direita sociológica, coisa que continuava a existir mas que andava acanhada. Siglas modernas como deve ser eram as da esquerda como o MES (Movimento da Esquerda Socialista), a FSP (Frente Socialista Popular), o PUP (Partido de Unidade Popular), a LCI (Liga Comunista Internacionalista), o PRP-BR (Partido Revolucionário do Proletariado – Brigadas Revolucionárias) ou a LUAR (Liga de União e Acção Revolucionária).

Mas o que era mesmo o último grito eram siglas com ML (Marxista-Leninista). Ele era o PCP-ML (Partido Comunista de Portugal – Marxista Leninista), o CARP-ML (Comité de Apoio à Reconstrução do Partido – Marxista Leninista), o CMLP (Comité Marxista Leninista Português), a OCMLP (Organização Comunista Marxista Leninista Portuguesa) ou a ORPC-ML (Organização Revolucionária Portuguesa Comunista – Marxista Leninista). Enfim, não será um exagero total considerar que cada grupo de amigos deu em politizar-se e arranjar uma sigla para o seu grupo…

E partido que quisesse mostrar que tinha organização (seguindo os comunistas…) tinha que ter também uma organização para a juventude e outra para as mulheres, com as siglas respectivas: UJC, UEC, MDJ, MDM, JS, JSD, JC, FEML, etc. A multiplicação de siglas nas mensagens a que os portugueses estavam sujeitos atingiu tais proporções que lhes era impossível compreender o significado político de tantas siglas.

O PCP foi o primeiro a aperceber-se disso e, logo no Verão de 74, quaisquer dos seus cartazes apelando à participação em manifestações apareciam assinados por mais de uma meia dúzia de siglas. Evidentemente que mais não eram do que extensões do próprio partido. Mas o que lhes interessava era dar a impressão que, por detrás de um extenso elenco de siglas, estava um enorme movimento popular.

Citando de memória uma convocatória para um comício nessa época teria uma meia dúzia de siglas: PCP, MDP/CDE, UJC (União da Juventude Comunista), UEC (União dos Estudantes Comunistas), MJT (Movimento da Juventude Trabalhadora), MDM (Movimento Democrático das Mulheres), MDJ (Movimento Democrático da Juventude) e CGTP (Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses).

O PS, ainda incipiente e ingénuo, volta e meio era enrolado e lá emprestava o nome para a convocatória porque concordava com as razões expressas no cartaz para a realização do comício. O PCP ainda se podia permitir sonhar com a unidade da esquerda. Estava-se em Agosto de 1974. Spínola ainda era Presidente da República. Ainda faltavam oito meses para que a contabilidade dos votos (e dos deputados eleitos) substituísse a contabilidade das siglas…

* Na verdade, uma boa parte dessas siglas foram importadas da nomenclatura NATO (norte-americana).

08 maio 2006

PDC-MIRN/PDP-FN

Nas eleições legislativas de 1980 apareceu uma coligação concorrente que reunia tudo o que existia em legalidade na extrema-direita portuguesa e que decidira concorrer em coligação, porque as coligações eram o que estava na moda.

Naquele ano, havia a AD (Aliança Democrática), com o PSD, o CDS, o minúsculo PPM e ainda uns rapazes intelectuais (António Barreto, Francisco Sousa Tavares, Medeiros Ferreira) que gostavam de ser designados por Reformadores.

Havia a FRS (Frente Republicana Socialista), onde o PS se coligava com outros rapazes intelectuais (Sousa Franco, Lopes Cardoso), só que estes usavam siglas (ASDI, UEDS), como se fossem partidos, para o conjunto parecer uma verdadeira coligação.

Havia a APU (Aliança Povo Unido), onde o PC se coligava com outra malta do PC, a fingir que não era do PC, e com malta que não era mesmo do PC e eram apenas progressistas, um eufemismo que os consolava e defendia de serem considerados comunistas e que até tinha uma organização com duas siglas: MDP/CDE.

Mas o campeão das siglas naquela disputa eleitoral foi mesmo aquela coligação da extrema-direita, capaz mesmo de tirar o fôlego a quem a ousasse anunciá-la em voz alta sem qualquer preparação respiratória: PDC-MIRN/PDP-FN.

Aquelas letras todas valiam pelos acrónimos de: Partido da Democracia Cristã, Movimento Independente para a Reconstrução Nacional, Partido da Direita Portuguesa e Frente Nacional. As duas siglas do meio referiam-se à mesma organização que, mais do que pelas sete letras da sigla (MIRN/PDP), procurava impressionar pelo nome do seu dirigente: Kaúlza de Arriaga, o general que representara a ala conservadora do regime antes de 74.

Receberam um pouco menos de 24.000 votos e 0,4% nas eleições legislativas de Outubro. Devem ter-se separado e pouco mais se ouviu falar de qualquer uma das três organizações. Maldosamente, lembrei-me que, pelo andar de todos estes congressos a demonstrar tanta unidade, o CDS/PP, que já tem duas siglas, só lhe falta arranjar mais duas…

19 janeiro 2006

O DIA EM QUE AS BRs PASSARAM À CLANDESTINIDADE…

Na vaga de surgimento de partidos que ocorreu depois do 25 de Abril, alguns houve que se destacavam pela originalidade, como foi o caso do PRP-BR. Era original por causa da sigla, composta, que se traduzia pelo acrónimo de Partido Revolucionário do Proletariado – Brigadas Revolucionárias. Mais nenhum partido tinha uma sigla com aquele tracinho; havia imensos com M-Ls entre parêntesis, havia mesmo o vetusto MDP/CDE, mas aquele tracinho na sigla principal era mesmo um exclusivo PRP-BR.

Depois havia o símbolo, onde uma enxada e uma chave-inglesa, com o significado dos operários e camponeses do costume, eram encimadas por um punho erguido fechado, segurando uma pseudo metralhadora estilizada que não se percebia bem como dispararia visto que não se via nenhum gatilho. Mas era uma ostentação do poder armado muito original, mesmo no Portugal de 1974.

Finalmente, outra originalidade era a liderança, conjunta, de Isabel do Carmo e Carlos Antunes, numa época em que a alternativa ao dirigente único tradicional eram os colectivos revolucionários. A atenção dada aos dois líderes era de tal forma excessiva que um cidadão comum nem conhecia mais nenhum membro do partido, o que levou ao aparecimento posterior de uma anedota, maldosa: ele era o PRP e ela a BR. Talvez não andasse muito longe da verdade.

Sabe-se hoje que muita da sua capacidade de influência vinha do facto de, durante o PREC, gravitarem na corte existente à volta de Otelo Saraiva de Carvalho. Mas o seu slogan a propósito das eleições constituintes (abaixo) continua poderoso: Não às eleições burguesas! Sim ao Poder popular! Contudo, faltava-lhe a imaginação, por exemplo, do Boicote activo à farsa eleitoral! usado pelo MRPP, também afastado daquelas eleições.
Posso precisar que terá sido no caminho progressivamente mais acelerado que levou ao climax do PREC ocorrido a 25 de Novembro de 1975, que, num belo dia qualquer (a 23 de Outubro), o PRP anuncia, com o maior estadão possível (com os militantes mascarados de capuzes), e põe os órgãos de comunicação a difundi-lo, que as BR se tinham separado do PRP e passado à clandestinidade, com o objectivo de treinar e armar os trabalhadores

Deve ter sido uma das melhores cenas gagas do PREC, só possível porque se estava no PREC... Qual é a racionalidade de uma organização formada umas dúzias de militantes anunciar estrondosamente que uma parte deles pretende tornar-se clandestino, condição essa que requer a maior discricionariedade? Faziam-no porque, naquelas circunstâncias caóticas, ninguém (nenhum serviço de informações, entenda-se) estaria com pachorra para ir atrás dos clandestinos?

Este último episódio associou-se-me às desventuras que antecipo que alguns comentadores profissionais terão de defrontar por estes dias até ao rescaldo das eleições presidenciais.

Sendo Portugal um país onde todos esses comentadores têm simpatias políticas, mas onde não se quer romper a tradição de se endossar e de se comprometer com algum candidato (excepção feita ao exemplo de Francisco José Viegas, de saudar), é possível, senão provável, que uma grande maioria dos apoiantes inconfessados de Soares (António José Teixeira, Mário Bettencourt Resendes, Luis Osório,...) irão, nos próximos dias, fazer como as BR e passar por uns dias à clandestinidade…