20 de Junho de 1979. Atribui-se a Franklin Roosevelt, que foi presidente entre 1933 e 1945, uma citação a respeito do ditador da Nicarágua que em breve se tornou famosa: «Ele (Anastasio Somoza) até pode ser um filho da puta, mas é o nosso filho da puta» (son of a bitch). O pronome possessivo é para ser pronunciado enfaticamente e a expressão teve tanto sucesso que bem depressa foi estendida para retratar as relações dos Estados Unidos com os países (normalmente ditaduras militares) da América Central e mesmo de toda a América Latina. Contudo, há precisamente trinta e nove anos, aos americanos e via televisão, entrou-lhes pela casa adentro a constatação que o sonofabitchismo desses regimes se podia virar contra os próprios norte-americanos, quando encarregues de cobrir os conflitos locais. Se a guerra do Vietname habituara os telespectadores a imagens chocantes de execuções sumárias, as imagens podiam tornar-se muito mais chocantes se o executado não fosse um beligerante, mas um jornalista e, ainda por cima, norte-americano. É sob esse peso que se devem ver as imagens acima do jornalista William Stewart (1941-1979), da ABC News, a ser executado por um membro da Guarda Nacional. Se a situação do regime dos Somoza já se encontrava então periclitante, com uma guerra civil entre mãos, o impacto das imagens na opinião pública americana e, por arrasto, na administração Carter, teve como consequência o seu descalabro em apenas mais quatro semanas.
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20 junho 2018
23 abril 2018
A NICARÁGUA, TAMBÉM ÀS VOLTAS COM AS TAIS REFORMAS ESTRUTURAIS
Aquilo que acabou de acontecer na Nicarágua tem a ironia adicional de ser protagonizado por Daniel Ortega, o tal sandinista rojo que tanto incomodou a administração Reagan nos seus tempos de ouro. Agora transformado em presidente com lugar cativo (como nos estádios de futebol), nem mesmo depois de 11 anos de poder ininterrupto e de escolher a mulher para sucessora, Ortega parece ser o dono da Nicarágua, e teve que recuar abruptamente com a implementação de uma reforma na segurança social que, como tantas outras por esse mundo fora, deverá precisar de ser financeiramente reequilibrada, mas cujos protestos sociais tornaram inviável. É nestas ocasiões concretas que se percebe quanto a retórica das reformas estruturais se reveste de uma leveza semelhante à do comportamento das bolhas do anidrido carbónico nas bebidas gaseificadas: quando expostas à superfície, fazem pop e desaparecem... Quando as reformas, por muito estruturais que se proclamem, se têm de fazer à custa de alguém, o que acontece na esmagadora maioria dos casos e por muito que os promotores sejam de governos de direita, de esquerda ou do centrão (como Macron está a descobrir à sua custa em França), aqueles que saem lesados com o que se reforma tendem a reagir negativamente. Chama-se a isso política. E a política em Democracia - mesmo numa democracia assim mais ou menos como a da Nicarágua - passa por convencer as pessoas. E aí a coisa tem falhado: não é por os iluminados as qualificarem de estruturais que as mais comuns das pessoas passam a acreditar na indispensabilidade das reformas. Tanto mais que se acumulam as provas de que há muitas outras áreas que precisam ser reformadas com tanta ou mais prioridade e em que não se mexe. Por cá também foi assim e também com a segurança social: ainda se lembram quando Pedro Passos Coelho tentou impingir-nos uma coisa dessas meio à traição em Setembro de 2012?
...é que, além de ter tido que recuar na medida, como agora o fez Ortega , mais de cinco anos depois, e com mais de 14.000 milhões já ali gastos e com a conta a aumentar todos os anos, percebe-se que prioridade mais prioritária devia ter sido o sector bancário, ao qual o governo de Passos Coelho prestou uma atenção muito relutante... a não ser quando passou a ser obrigado.
27 dezembro 2015
UM MOMENTO PROFUNDAMENTE «ESPIRITUAL» DO PONTIFICADO DE JOÃO PAULO II
Esta fotografia foi tirada quando da visita de João Paulo II à Nicarágua em Março de 1983, onde, na época, estava no poder um governo da esquerda revolucionária que derrubara violentamente em 1979 uma ditadura militar ao arrepio do status quo estabelecido pelos norte-americanos para a região. A hostilidade era portanto recíproca entre visitante e anfitriões. E, quando dos cumprimentos de boas-vindas, ainda na placa do aeroporto, João Paulo II teve oportunidade de marcar a sua posição diante do ministro da Cultura do regime sandinista, o padre Ernesto Cardenal que foi visivelmente admoestado quando, de joelhos, o cumprimentava. Conforme as partes, são várias as versões sobre aquilo que o papa terá dito ao sacerdote a acompanhar aquele dedo em riste mas algum consenso se gerou em volta de: Usted tiene que arreglar sus asuntos com la Iglesia. A hierarquia católica (no topo da qual se encontrava João Paulo II) havia exercido pressão sobre Ernesto Cardenal (e não só, Miguel d'Escoto, o ministro dos Estrangeiros também era sacerdote) para que abandonasse(m) o governo sandinista. Eles recusaram-se. Quase um ano depois da fotografia acima, em Fevereiro de 1984 e perante o impasse, eles e mais dois sacerdotes que desempenhavam funções governamentais (um dos quais era o irmão mais novo de Cardenal, Fernando) foram suspensos ad divinis. Antes de prosseguir, deixem-me deixar bem claro que, mesmo parecendo o mau desta história, considero que a razão nesta disputa pertence inteiramente a João Paulo II. Por detrás dos padres suspensos formara-se um bloco e uma aparência de facção teológica denominada Teologia da Libertação. Ora a Igreja Católica sempre foi uma organização fortemente hierarquizada e não é aceitável que alguém queira fazer parte do seu clero ao mesmo tempo que se quer furtar a essa contingência. Coisa outra porém é a coerência da conduta das hierarquias católicas quanto ao engajamento dos seus sacerdotes em causas políticas. Há as que não são aceitáveis, caso dos sandinistas com Cardenal, e depois há as outras, em que o que é de César e o que é de Deus se mistura galhardamente, de que um dos exemplos mais excessivos (já aqui o recordei num poste) terá sido o de Jozef Tiso, que se tornou no presidente e, mais do que isso, foi a personificação da Eslováquia independente durante os anos de 1939-45 em que o país teve esse estatuto devido ao beneplácito alemão. Apesar de executado em 1947 por colaboracionismo pelas autoridades checoslovacas, quanto ao magistério sacerdotal de Jozef Tiso não terá havido recriminações públicas (de Pio XII) nem suspensões ad divinis...
Trata-se de um preâmbulo explicativo da razão porque tal episódio e tal fotografia me ocorreram, quando me depararei há umas semanas com o artigo de opinião com a apresentação acima, publicado no (entretanto encerrado) jornal i. O título pode ser lido como um apelo ao papa Francisco mas o subtítulo acaba por se tornar uma censura à sua conduta e a continuação do artigo - que recomendo a leitura - ainda é menos equívoco nas críticas, ao enunciar nomeadamente aqueles que foram os bons pontífices, antecessores do actual: Ninguém nega a importância de Eisenhower e Pio XII, ou Reagan e João Paulo II, no combate ao comunismo enquanto ameaça ao Cristianismo e ao mundo Livre. Em contrapartida, o texto é omisso quanto à importância de João XXIII ou de Paulo VI; quiçá andavam entretidos, em vez do combate ao comunismo, com as minudências do Concílio Vaticano II. A autora de tal prosa chama-se Graça Canto Moniz, descobri ser uma jovem mestre em Direito de 26 anos, aplicada (até leu a encíclica Laudato Si...) e que ali se mostra segura de nos conseguir fazer distinguir aquilo que é de índole espiritual do que é de índole política. Assim, combater o comunismo inserir-se-á no primeiro caso, enquanto enaltecer virtudes como a humildade e, sobretudo, a pobreza, serão gestos de um cunho político vincado, subversivas mesmo. Cheguei a mencionar que a Graça é, desde 2013, militante do CDS-PP?... Mas deixem-me confessar-vos o que mais me intriga neste disparatado artigo de opinião, para além de ser indisputavelmente provocador. Foi o critério editorial que levou a promover uma aleivosia daquelas. Se fosse amigo de teses conspirativas poderia imaginar que o mérito das opiniões da Graça, confessando-se católica, seria o de estar protegida pelo braço comprido de organizações católicas ultra-conservadoras de que a Opus Dei é apenas o exemplo mais conhecido. Para algumas dessas organizações, pelo seu silêncio ensurdecedor, já se percebeu que a eleição do papa argentino no mesmo ano em que a Graça se filiou no PP foi, apesar da iluminação do Espírito Santo, um terrível erro de casting. Nomeadamente por causa de alguns das suas decisões mais políticas, como aquela que, em Agosto de 2014, derrogou a sanção que João Paulo II havia imposto espiritualmente 30 anos antes aos quatro padres nicaraguenses, incluindo Cardenal, tão severamente admoestado na fotografia inicial.
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23 janeiro 2013
O ARMAMENTO DA GUERRILHA SALVADORENHA
Embora limitado ao mundo dos entendidos, a Guerra Fria e as guerrilhas que, à sua sombra, proliferaram pelo Mundo, também pode ser acompanhada no campo do armamento individual empunhado pelos combatentes. Já aqui fiz menção a esse aspecto técnico da História. Que, embora só interesse a alguns, ainda tem coisas para se descobrir, como aconteceu comigo recentemente, a propósito do armamento individual que equipou a guerrilha salvadorenha. A Guerra Civil de El Salvador, país da América Central, começou em 1979 e prolongou-se até à Queda do Muro e ao fim da União Soviética, em 1992. A sua erupção foi uma consequência do sucesso da Revolução Sandinista (1978-79), que conseguira depor a ditadura dos Somozas na vizinha Nicarágua, e do esforço que soviéticos e cubanos decidiram investir na América Central após isso, numa região que os Estados Unidos consideravam coutada sua, mas que também era uma região madura para revoluções por causa das gritantes injustiças sociais.
Se a referência revolucionária nicaraguenha fora um mártir histórico da revolução chamado Augusto Sandino (um líder guerrilheiro assassinado em 1934), com a organização revolucionária a denominar-se em sua homenagem Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), a inspiração tornava-se evidente em El Salvador, substituindo-se apenas o nome do mártir, agora Farabundo Martí (outro líder guerrilheiro local, assassinado em 1932) e a correspondente Frente a denominar-se, por sua vez e sem surpresa, Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN). Mas as semelhanças não terminavam aí: as fotografias de guerrilheiros centro-americanos que apareciam publicadas na comunicação social mostravam uma alta percentagem de mulheres combatentes (como se pode apreciar pelos exemplos que aqui se publicam) e exibindo um armamento que, contrariamente ao que acontecia com outras guerrilhas e como os entendidos podiam facilmente identificar, era normalmente de origem ocidental.
A ideia, que se revelou bem-sucedida, era a de sugerir as raízes populares da insurreição, a escassez de meios e a independência de apoios internacionais de um movimento popular que se arma apenas com o material que consegue capturar. Só vinte anos depois do fim do conflito é que vim a descobrir como ela não passava de um embuste: as FN FAL belgas, de que vemos um exemplar encostado junto à senhora que cose roupa, eram de origem cubana, vendidas por aquele país a Cuba ainda antes da ascensão de Fidel Castro ao poder (1959) conforme se identificava pelos seus números de série; quanto às M-16 norte-americanas que se vêem nas outras fotos, tinham vindo, na sua esmagadora maioria, do Vietname, que possuía milhares delas depois da sua vitória de 1975, altura em que se apoderara dos paióis sul-vietnamitas. Só por curiosidade, refira-se que, como fornecedor, Portugal também participou no conflito, vendendo alguns dos milhares de G-3 que possuía em excesso ao outro lado, ao exército salvadorenho.
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