17 julho 2019

OS GRANDES NÚMEROS DOS GRANDES DEVEDORES, UMA ESPÉCIE DE NOVO GRANDE CONCURSO DA RTP

É sem a mínima malícia que eu confesso admitir que existe uma incompatibilidade entre o desejo de divulgar as listas dos grandes devedores à banca e as restrições impostas pela ética da preservação do sigilo bancário. Assim como admito que a solução a que acima se chegou seja o melhor compromisso possível entre a satisfação do primeiro sem abdicar da segunda. Mas os negociadores da solução também têm que ter a empatia de perceberem como é que terceiros, a opinião pública em benefício da qual a divulgação é feita, tendem a apreciar a lista que acabou por ser publicada, que afinal não (nos) esclarece quase nada, são apenas uns números de que desconhecemos a identidade. Sem investigação jornalística, sem inconfidências, aquele "012" da CGD, o "041" do BES e o "130" do Novo Banco têm para nós, leitores, uma personalidade tão rica quanto as bolas do sorteio do Totoloto. Embora o slogan do concurso se aplique aqui com toda a propriedade: foi fácil, foi barato, deu milhões!

Aliás, ainda a propósito de analogias, vem a propósito relembrar que os sorteios do Totoloto foram em geral momentos discretos, que, como na regulação bancária, só se tornavam memoráveis no caso das intervenções, muito escassas, das autoridades reguladoras do governo civil. O Banco de Portugal foi muito assim... Neste vídeo abaixo, aguardem pela saída do número suplementar, que me parece simbólico do grau de responsabilidades que se apuraram até agora em todo este assunto.

QUANDO A AMEAÇA DE UMA GUERRA ENTRE A RÚSSIA E A CHINA ERA UMA NOTÍCIA SECUNDÁRIA

17 de Julho de 1929. Por causa das crescentes disputas quanto à administração do caminho de ferro transmachuriano, a Rússia (na sua versão União Soviética) e a China encontravam-se à beira de um conflito militar. A primeira endereçara um ultimato à segunda, esta respondera apresentando algumas exigências da sua parte, a resposta parecia não ter agradado a Moscovo, que rompera as suas relações diplomáticas com a China. E contudo, por cá a questão de uma potencial guerra no Extremo Oriente não parecia inquietante, atente-se ao tratamento informativo que era dado ao assunto: somente no dia seguinte, colocado na última página, em jeito de últimas notícias, a que era dedicada uma coluna. Ao lado, a chegada de quatro aviões franceses à base de Sintra merecia maior destaque do que um conflito sino-soviético. O Mundo de 1929 era muito maior do que o actual e aquilo que acontecia do outro lado não nos interessava nada. Valha a verdade que ele há coisas que acontecem do outro lado do Mundo que não nos deviam interessar nada...

16 julho 2019

O IMPACTO EM JÚPITER DO PRIMEIRO FRAGMENTO DO COMETA SHOEMAKER-LEVY 9

16 de Julho de 1994. O primeiro de vários fragmentos em que se desagregara o cometa Shoemaker-Levy 9 colidiu com o planeta Júpiter. Ao longo dos seis dias seguintes mais vinte fragmentos viriam a embater com o planeta, sempre no hemisfério meridional, deixando observar, à laia de "cicatrizes", as marcas dos violentos impactos, cada um deles libertando quantidades de energia capaz de desafiar a nossa imaginação. Com o maior deles, o G (cada um dos impactos foi designado pelas letras encadeadas do alfabeto), ocorrido em 18 de Julho, estima-se que terá sido libertada uma energia equivalente a seis teratoneladas de TNT (milhão de milhões de toneladas). Impressionante que seja, trata-se de um valor dezasseis vezes inferior ao que se estima que terá sido libertado há 67 milhões de anos na Terra, com o impacto do corpo celeste que pôs fim ao Cretáceo, muito embora aquilo que presenciámos em Júpiter há 25 anos se tenha multiplicado por vinte fragmentos o que aproximará a dimensão dos dois fenómenos. As cicatrizes dos impactos permanecerem visíveis em Júpiter por meses, criando um novo respeito por tudo aquilo que anda por aí a vogar pelo espaço próximo.

15 julho 2019

A GRANDE GREVE DOS TRABALHADORES SIDERÚRGICOS NA AMÉRICA

15 de Julho de 1959. A greve dos trabalhadores siderúrgicos que então começava nos Estados Unidos era uma grande greve, envolvendo meio milhão de operários e ameaçando reduzir substancialmente a produção de aço norte-americana. Como se pode perceber pelo desenvolvimento da notícia acima, os grandes conflitos sindicais ocorridos nos outros países podiam não ser afinal problema que justificasse a intervenção da censura, que só se preocuparia em cortar as notícias daqueles que ocorriam cá em Portugal. Pelo contrário, se houve quem sempre se preocupasse em minimizar a importância daquilo que acontecia do outro lado do Atlântico, por muito "amplas e justas" que fossem as "lutas dos trabalhadores", foram os militantes comunistas que trabalhavam infiltrados no activismo sindical (ilegal e legalmente depois do 25 de Abril). O paradoxo não é assim tão difícil de compreender: na concepção dos comunistas, os interesses sindicais dos trabalhadores subordinam-se aos interesses políticos, ao contrário do que acontece no verdadeiro sindicalismo, de que este foi um caso emblemático pela sua dimensão. Estas notícias mostravam que na América também havia quem se opusesse ao capitalismo em prol dos trabalhadores, embora não da única forma que os comunistas preconizavam. A greve durou 116 dias, até 7 de Novembro de 1959 e o efeito combinado da duração e do número de trabalhadores em greve faz dela a segunda maior greve da História dos Estados Unidos, mas não imagino Arménio Carlos, caso a conheça, a dar-lhe a mínima importância. Quanto à avaliação das suas consequências, permanece controversa (leia-se aqui). Uma das consequências imediatas e de implicação mais longínqua da greve foi, para os Estados Unidos, o começo da importação de aço do exterior e a substituição progressiva da produção doméstica pela do estrangeiro, aquilo que Donald Trump tentou reverter o ano passado com a imposição de uma taxa de 25% sobre o aço importado.

14 julho 2019

O ESTÚPIDO QUE ESCREVE, OS ESTÚPIDOS QUE O PUBLICAM E AINDA NÓS TODOS, ESTÚPIDOS, QUE O LEMOS E COMENTAMOS

Aqui há uns cinco anos, quase contadinhos dia por dia, João Marques de Almeida prevera O fim do Bloco de Esquerda. E explicava: havia uma «incapacidade da coexistência entre a ala radical e marxista e a ala socialista e moderada». Dentro do próprio Bloco (deduzir-se-ia), «as duas grandes famílias da esquerda portuguesa nunca se entenderão». Consequência: «para todos os efeitos, o projecto político do Bloco de Esquerda, acab(ara)». Esqueçamos quatro anos de geringonça. No seu artigo de hoje, o "fantasma" desse tal Bloco de Esquerda aparece como um dos parceiros de uma «combinação» para Tratar os portugueses como estúpidos. E prossegue: «Muitos políticos portugueses gostam de tratar os portugueses como se fossem estúpidos». De facto, João, a palavra chave aqui é mesmo estúpido. Você, os gajos que lhe dão cobertura publicado-o, e nós, que ainda nos indignamos com a sua estupidez! 

O «CONSTRUTOR DA DEMOCRACIA» QUE, A 25 DE NOVEMBRO DE 1975, ANDOU DE CAMARTELO NA MÃO A TENTAR DESTRUÍ-LA

Mário Tomé evocado como «construtor da democracia» é só para quem não se lembre dele no 25 de Novembro no Regimento de Polícia Militar da Calçada da Ajuda, a «combater pela Paz»: três mortos. Naquela data, Mário Tomé representou para a edificação da Democracia em Portugal o mesmo que um malho, um camartelo, ou mesmo uma bola de demolição. A Democracia, magnânima, é que o englobou depois a ele, que até a quisera destruir. Lá pelo Bloco e sobre Democracia não brinquem com a palavra, não distorçam o conceito, não queiram reescrever a História, como, aliás, é costume por aquelas paragens ideológicas. Tivesse o «revolucionário e feminista» Mário Tomé triunfado naquele dia e há quem tenha dito que a História de um Portugal anti-democrático teria sido muito diferente.

PELO CINQUENTENÁRIO DE UMA (DAS) GUERRA(S) DO FUTEBOL

14 de Julho de 1969. Com a invasão das Honduras, El Salvador desencadeava aquela que viria a ser conhecida como a Guerra do Futebol ou Guerra das Cem Horas. Já por aqui publiquei uma versão sintética do que aconteceu, as verdadeiras razões para a hostilidade entre aqueles dois países centro-americanos. Acolhido à época com um abanar de cabeça repreensivo pela comunidade intenacional e as respectivas opiniões públicas, desde essa época para cá despontaram razões poderosas para que o futebol passasse a ser um casus belli doméstico, detonador de verdadeiras guerras civis que se travam exuberantemente em todos os nossos canais de televisão.

13 julho 2019

«HAT TRICK» E O RESTO

Apercebi-me que, para o explicar, teria que escrever aqui uma espécie de crónica a dizer mal das crónicas dos outros, o que seria ridículo. Para não ser assim, aqui fica a minha sugestão para que as vão ler ao Público, uma fiada de opiniões fazendo eco das lutas geracionais e do ensimesmamento do meio em que compartilham tópicos (o artigo racista de Fátima Bonifácio) e alvos (os outros cronistas). Mas como um fim de semana é precioso demais para se estragar com artigos de opinião circunscritos, ainda resta um outro artigo, ainda sobre o tema do momento, da autoria de Miguel Poiares Maduro, esse com pedagogia, embora com demasiada candura, que isto de esperar que a expulsão de Bruno de Carvalho seja o «fecho de um ciclo» no Sporting ou que «a capacidade intelectual que lhe é reconhecida» (a Fátima Bonifácio) não seja posta em causa precisamente pelo que escreveu, são opiniões-desejos do autor muito para além do que me parece razoável. Nem tanto ao mar nem tanto a terra.

AINDA A «CRISE DOS SINOS» E UMA REFLEXÃO POR TERMOS TROCADO OS GENERAIS PELOS JUÍZES

Se a Crise dos Sinos fora ultrapassada com a remodelação governamental que aqui evocámos há dias, o ambiente que se viveria entre alguns comandantes militares da facção derrotada não se apresentava de molde a tranquilizar o poder. Elemento chave no controle da potencial contestação era o ministro da Guerra do novo governo acabado de empossar, o (então) coronel Amílcar Barcínio Pinto, que substituíra naquele cargo o general Júlio Morais Sarmento, que fora o protagonista da facção derrotada pela crise. E, para o ajudar, na edição do Diário de Lisboa de há precisamente 90 anos, essa novel figura da hierarquia político-militar tinha direito não a uma mas a duas notícias que o destacavam (o que, contando com a publicidade, num jornal com oito páginas é notável). Uma breve entrevista (acima) em que confessava não ter ideia alguma para a condução da pasta mas em que (por acaso...) o líamos numa passagem a elogiar Salazar («...respeitando inteiramente a grande política financeira do sr. ministro das Finanças...») e, menos dissimuladamente, a presidir a uma cerimónia de apresentação de cumprimentos (vulgarmente designada por beija mão) por parte da «oficialidade da guarnição militar de Lisboa». Tempos longínquos em que não se podia descartar a hipótese que uma facção militar derrotada na política produzisse um pronunciamento militar. Agora, esses tempos estão esquecidos. Os cuidados da Constituição portuguesa de 1976 obstaram - e bem - a que esses tempos ressurgissem.
Infelizmente, o que surge cada vez com mais crueza e à luz do dia é que a luta política agora se trava nos tribunais, com os juízes conotados com uma ou outra facção.  

12 julho 2019

BILL CLINTON DE VISITA A BERLIM REUNIFICADA

12 de Julho de 1994. Numa visita, que os jornalistas classificaram (como de costume...) de histórica, Bill Clinton tornou-se no primeiro presidente norte-americano a visitar Berlim Leste em quase 50 anos. O último antecessor de Clinton que estivera do outro lado fora Harry Truman em Julho de 1945, quando comparecera na Conferência de Potsdam com Stalin e Churchill e Attlee. Depois disso, quase todos os presidentes americanos haviam ido a Berlim, alguns haviam-se até celebrizado a dizer palavras famosas diante do Muro que separava a cidade, casos de Kennedy e de Reagan, mas haviam-se ficado todos pela metade ocidental. Clinton visitava uma Berlim reunificada mas, olhando para as imagens de há 25 anos, não é o que então diziam que era histórico que agora nos parece histórico. O que é significativo, provavelmente histórico, naquelas imagens é a presença e o destaque conferido durante as cerimónias a Jacques Delors, o então presidente da Comissão Europeia. Reeditar a mesma cena agora, 25 anos passados, não seria bizarro apenas pela vinda de Donald Trump à Europa, pelo convívio que se imaginará entre ele e Angela Merkel, culminaria ainda com a improbabilidade desta última convidar sequer Jean-Claude Juncker para estar presente...

O ORDENADO DO EUSÉBIO... PARA COMPARAR COM O DO JOÃO FÉLIX

12 de Julho de 1969. Enterrado na página desportiva da edição desse dia do Diário de Lisboa (e em minha opinião, no local certo para a importância que estes assuntos merecerão), aparece a notícia da posição negocial de Eusébio na ocasião de renovar o seu contrato com o Benfica. Recorde-se que na época Eusébio tinha 27 anos, fora a revelação da selecção portuguesa no Mundial de 1966, cobiçado por clubes estrangeiros, ainda era a estrela principal da equipa. E, se se ler o que consta da notícia, uma parte significativa das reivindicações que fazia estavam indexadas a resultados, individuais e colectivos. Mas o sentido geral da notícia não era propriamente aprovador para as pretensões do jogador. Em contraste, João Félix tem 19 anos, ainda não fez nada que se comparasse com Eusébio a não ser alimentar a imprensa que se alimenta do assunto e fazer com essa imprensa saturasse o panorama informativo (numa altura de defeso) com a notícia dos muitos milhões que a sua transferência já vinha a custar de há muito. Tudo isto é uma palhaçada que nem sequer terá os benefícios de audiência que nos querem fazer crer. E quem é que quer apostar quantos saberão quem terá sido João Félix daqui por cinquenta anos?...

11 julho 2019

O «REGRESSO» DA «SKYLAB» À TERRA

11 de Julho de 1979. Já aqui contei neste blogue o que foi o projecto Skylab. Também assinalei o seu lançamento para o espaço em Maio de 1973. O espírito como foi encarado o seu retorno à Terra foi contudo um pouco mais ligeiro, para não dizer mesmo trocista, como se percebe pelo teor da notícia acima. O acontecimento apresentava-se como um fracasso do programa espacial americano. Como acontece com todos os objectos prestes a reentrar na atmosfera, o momento e o local preciso onde isso vai acontecer são muito difíceis de antecipar, e a indefinição foi pretexto para várias chalaças. A antiga estação espacial acabou por se vir a desintegrar sobre o Oceano Índico com as peças a cair (substancialmente) sobre o território da Austrália Ocidental. De então para cá, aprendeu-se a colocar os especialistas em relações públicas das agências espaciais a gerir mediática e antecipadamente estes acontecimentos: os russos em 2001 e os chineses o ano passado também tiveram que lidar com o mesmo problema, mas até pareceu que esteve sempre tudo sob controle...

10 julho 2019

A CONDENAÇÃO DE JULIÁN BESTEIRO

A edição de há oitenta anos do Diário de Lisboa até dedicava todo um quarto de página à situação em Espanha, três meses depois do fim da guerra civil (1936-39). O âmbito das notícias variava desde o que dissera o conde Ciano (ministro dos Estrangeiro italianos) até um estranho enxerto de porrada sofrido pelo cônsul de França em Madrid, enquanto frequentava um «dancing». Mas a notícia que eu quero destacar não é nenhuma daquelas: o Diário de Lisboa não a publicou, embora o assunto estivesse a ser acompanhado pela imprensa britânica (leia-se abaixo). O Julián Besteiro (1870-1940) cujo desfecho do julgamento interessava os jornais ingleses era um catedrático e político espanhol, antigo presidente do PSOE e do parlamento espanhol durante a república (1931-33). Representava a ala mais moderada dos socialistas espanhóis e desempenhara um papel discreto e ponderado do lado dos republicanos ao longo do conflito que acabara de terminar. O caso de Besteiro seria importante para perceber como seria a atitude do regime franquista para com os vencidos. O que o jornal português não podia dizer (e que se soubera em Londres) era que o colectivo dos generais do conselho de guerra que julgara Julián Besteiro o condenara à prisão perpétua pelo delito de «rebelião militar», comutada de imediato em trinta anos de prisão. Um insulto cínico desnecessário, esta última benevolência, quando se sabe que Julián Besteiro iria completar 69 anos daí a dois meses... E cumpriu pouco mais de um ano, pois faleceu em Setembro de 1940. Estava dado o sinal de como o regime franquista pretendia não cicatrizar as feridas que haviam sido deixadas pela guerra. Da próxima vez que se voltar a falar da exumação de Franco, lembrem-se deste episódio.

AS CAMBALHOTAS DE 180º...

...não são um exclusivo da nossa imprensa. No El País, Em duas semanas, o cargo de responsável europeu pela política externa, que o jornal considerava ser um cargo menor que ninguém cobiçava, passou a ser a demonstração que «a Espanha voltava à primeira fila», só pelo facto de ter sido um espanhol a ficar com o cargo. Ridículo! O mundo digital tornou estas incongruências muito fáceis de detectar.

09 julho 2019

O REGRESSO DE MÁRIO SOARES A LISBOA

Em lugar discreto (última página), mas mesmo assim destacado para o que havia para noticiar (nada), a edição de há cinquenta anos do Diário de Lisboa dava conta que «regressara naquela manhã a Lisboa o conhecido advogado e homem público e nosso (do jornal) distinto colaborador, dr. Mário Soares.» Não se especificava de onde viera, mas a novidade de 1969, consistia no fenómeno de Mário Soares andar pelas páginas dos jornais, fruto da Primavera Marcelista, que permitia que se noticiasse que os dirigentes oposicionistas andavam por aí. Convém relembrar que por aqueles anos o Diário de Lisboa de Ruella Ramos era um vespertino lisboeta conotado com a oposição e, nesse aspecto, detentor de muito mais prestígio que A República, dirigida por Raul Rego. Este último era um jornal trauliteiro de tanto engajamento. O que lhes aconteceu depois do 25 de Abril, nomeadamente a captura do primeiro pelos comunistas e a guerra que se travou à volta do segundo entre comunistas e socialistas é que veio a reescrever a história do que os dois haviam representado antes do 25 de Abril. A Fundação Mário Soares penitenciar-se-á de tal falta, preservando on-line o arquivo do Diário de Lisboa, uma preciosidade que me tem sido de tanta utilidade.

08 julho 2019

SALAZAR VENCE A «CRISE DOS SINOS»

8 de Julho de 1929. No mês anterior, uma portaria do ministro da Justiça, Mário de Figueiredo, passara a permitir a realização de procissões e outros actos religiosos que haviam sido proibidos com a implantação da República. O documento, que veio a receber a designação simplista mas jocosa de portaria dos sinos, provocou uma reacção negativa de uma ala do governo conservadora mas anti-clerical que foi encabeçada pelo ministro da Guerra, Júlio Morais Sarmento. Do embate interno resultou uma crise governamental, que principiou com a demissão de Mário de Figueiredo, mas que encalhou na demissão solidária de Salazar, titular das Finanças que, por sinal, na altura estava internado no hospital com uma perna partida. Óscar Carmona, o presidente da República, que visitou Salazar no hospital, não a aceitou, forçando, em vez disso, a demissão colectiva do governo. Há precisamente noventa anos era notícia a resolução da crise política com a constituição de um novo governo da Ditadura (o VI), em que o presidente do ministério passava a ser o general Ivens Ferraz (na foto, acima), mas onde o destaque inteirinho do cabeçalho da notícia ia para a continuidade do titular da pasta das Finanças. Salazar ganhara o braço de ferro com o que os observadores mais imaginativos consideravam ser os poderes sempre discretos mas sempre presentes da maçonaria.

07 julho 2019

CÂMBIOS PARALELOS

Em Madrid, a marcha do orgulho gay assinalou-se pela hostilidade como o corpo de manifestantes acolheu a delegação dos Ciudadanos, que acabou expulsa sob apupos. Pelos vistos, a causa da inclusão das minorias sente-se já tão forte que deixou, ela mesma, de praticar a inclusão. Como acontece com outras causas (referi-me à do feminismo ainda ontem, a propósito de ninguém se congratular com a ascensão de duas mulheres ao topo da hierarquia da União Europeia), a coerência de quem se exibe abraçando uma destas causas célebres e da moda, colapsa fragorosamente com o seu silêncio cúmplice diante de episódios deste género. Fazem-me lembrar aquelas moedas daqueles países de economia dirigida que praticavam um câmbio oficial (limitado) nos bancos, mas cujo câmbio paralelo que se praticava nas ruas era por uma fracção do valor anunciado. Só que aqui não se está a falar do valor da moeda, mas da ética e dos princípios. E, só para acrescentar mais um caso, o das indignações pela ilegalidade das escutas a Sócrates e Lula, que agora são complementadas por silêncios significativos quando as revelações vêm de escutas a Sérgio Moro, que está do outro lado da barricada. Estas últimas escutas já são boas... E eu concluo que a força do marxismo deste século XXI é o de Groucho: «Estes são os meus princípios, e se vocês não gostarem deles... bem, tenho outros».

CANADÁ VERDADEIRAMENTE BILINGUE

7 de Julho de 1969. Foi apenas há cinquenta anos, através das aprovação da Lei sobre as línguas oficiais que o Canadá se tornou um país oficial e completamente bilingue, com os idiomas inglês e francês a serem reconhecidos com um mesmo estatuto equivalente. Sendo então um país já centenário (fundado em 1867), o Canadá andava ainda em busca da sua identidade simbólica: a bandeira nacional canadiana, por exemplo, tinha apenas quatro anos. E quanto ao hino, ainda havia que aguardar mais onze anos até ele ser oficialmente adoptado (com duas letras!). E vale a pena evocar este fenómeno porque há um paralelo interessante entre o que acontece com o Canadá, o Quebec e os francófonos e o que acontece aqui ao lado com a Espanha, a Catalunha e os catalães. Estão muito iludidos os castelhanos que pensam que o problema se consegue varrer para debaixo do tapete...

O DISCURSO DOS «RIOS DE SANGUE»

Lembrei-me do discurso dos «Rios de Sangue» de Enoch Powell por causa do artigo de opinião (Podemos? Não, não podemos) de Fátima Bonifácio, este Sábado, no Público. Enoch Powell era um deputado conservador britânico que se celebrizou por há cerca de cinquenta anos ter proferido um discurso numa reunião política do seu partido em Birmingham em que se mostrava particularmente crítico e alarmista para com as consequências da imigrações negra e indiana que então começavam a fazer sentir significativamente o seu peso na sociedade britânica. A expressão que lhe granjeou o título não é expressamente usada no discurso, mas Erich Powell, que fora um erudito, antigo professor de grego clássico (e, nesse aspecto, não muito diferente de Fátima Bonifácio...), socorre-se de uma passagem da Eneida de Virgílio, numa passagem em que este descreve o Tibre espumando com o sangue em consequência das guerras civis. O discurso de Powell é extenso, bem mais extenso do que o artigo de Fátima Bonifácio, mas os dois compartilham a mesma presunção arrogante de que há comunidades que não são assimiláveis, e ambos o dizem com uma crueza que induz a uma reacção proporcionada da parte de quem lê/ouve e discorda do conteúdo. O estilo é bruto e predispõe a uma reacção também bruta. Não sei se a reacção ao texto de Fátima Bonifácio terá uma repercussão maior, mais significativa e mais duradoura do que as tradicionais ressonâncias das redes sociais. Até pode ser que, depois da animação de fim de semana, tudo já esteja esquecido lá pela quarta-feira de cinzas.
Mas, porque o discurso dos Rios de Sangue teve uma continuação, vale a pena contá-la. O líder (Edward Heath) e a direcção dos conservadores da época ostracizaram ostensivamente Enoch Powell, muito embora sondagens lhe dessem uma grande popularidade. Em 1974, não o deixaram apresentar-se pelo seu círculo tradicional de Wolverhampton South West. Mas Powell acabou por ser eleito por um círculo unionista da Irlanda do Norte. Entretanto, com a entrada da década de 80, aproximaram-se os prazos de 15 a 20 anos em que ele previra a existência de uma ingerível massa de três milhões e meio de imigrantes vindos de países da Commonwealth que iria fazer desmoronar a sociedade do Reino Unido. Houve muitas outras convulsões sociais naquele país (as greves dos mineiros), mas não as de cariz racial que ele previra. Perdeu a eleição em 1987 e não voltou a apresentar-se. Morreu em 1998. Num retoque final de ironia, e na primeira vez que aquele que fora o seu círculo tradicional de Wolverhampton South West foi recuperado pelos conservadores, em 2010, o candidato conservador eleito para o lugar que fora de Powell chamava-se Paul Singh Uppal, um sique cuja família imigrara da África Oriental britânica. Os siques haviam sido uma das comunidades visadas expressamente por Enoch Powell no seu famoso discurso: «'The Sikh communities' campaign to maintain customs inappropriate in Britain is much to be regretted.» Não sei se o artigo de Fátima Bonifácio chega a merecer ser esquecido com esta mesma pompa... 

06 julho 2019

O FEMINISMO É UMA CAUSA MUITO IMPORTANTE... MAS SÓ EM DIAS ALTERNADOS

A causa do feminismo teria recebido um impulso muito grande se... se confirmar a nomeação de Ursula von der Leyen e de Chistine Lagarde para os dois mais importantes cargos da União Europeia, o de presidente da Comissão e de presidente do Banco Central Europeu. A acontecer, será a primeira vez em que a Europa virá a ser dirigida simultaneamente por duas mulheres. Mas o emprego acima do condicional ("teria recebido") a respeito da atitude das feministas deve-se à constatação que essa causa do feminismo mostra ser uma fraude: ao contrário do que se esperaria, as preocupações com o reconhecimento do género subordinam-se ao posicionamento político de quem é reconhecido. Comprova-o o silêncio ribombante como as duas nomeações estão a ser acolhidas por personagens que recordamos de outros carnavais, celebrando acontecimentos bem menores (acima, à esquerda), só porque os episódios de agora envolvem outros quadrantes políticos. E esta escolha do exemplo de Ana Gomes (ex-deputada europeia) para demonstrar a clamorosa incoerência é apenas simbólica de toda uma colecção de palermas que, pela sua discrição colectiva do momento, dão mostras da hipocrisia que está subjacente ao discurso feminista mais militante. O mérito às mulheres, mas só às de esquerda...

«TOUR DE FRANCE»

Hoje, dia do início (em Bruxelas, na Bélgica...) da edição da Volta à França deste ano, é um bom pretexto para a publicação desta história de quatro páginas de BD que conta, de uma forma francamente romantizada, a vitória do corredor francês Jean Robic na edição do Tour de 1947, o primeiro que se correu depois da Segunda Guerra Mundial. Foi um acontecimento disputado até ao fim porque o vencedor final, Jean Robic, só veio a alcançar o primeiro lugar (a camisola amarela) na última etapa que se correu entre Caen e Paris. Contudo, a consulta das páginas da wikipedia a respeito de como terá decorrido essa emocionante edição do Tour (em inglês; em francês) dão um retrato diferente e bem menos ingénuo, tanto dos acontecimentos quanto da personagem principal (Robic) do retrato que nos tentam contar nestas quatro páginas desenhadas. O argumentista destas últimas esqueceu-se de especificar que Jean Robic prometeu 100.000 francos ao seu companheiro de fuga Édouard Fachleitner para que ele não atacasse. Eram práticas comuns no ciclismo daquela época embora não ressoem lá muito bem em termos de ética desportiva. E o suborno retira toda a poesia à proeza desportiva de Robic. Mas a verdade é uma, e o que importa é que antigamente não havia, mas agora há as páginas da wikipedia, para a esclarecer -só se ilude quem quer e o número de iludidos é, nisto como em tantas outras coisas, estarrecedoramente elevado.

05 julho 2019

A FUNDAÇÃO DA ALIANÇA DEMOCRÁTICA E A AFUNDAÇÃO BRUSCA DAQUELES QUE, RECENTEMENTE, QUISERAM APROPRIAR-SE DA DATA

5 de Julho de 1979. Fundação da Aliança Democrática. Na notícia que o Diário de Lisboa (que, recorde-se, era um jornal politicamente hostil às formações que a constituíam) podia ler-se:
«A Frente Eleitoral, constituída pelo bloco PSD/CDS/PPM, quer um presidente de direita - concluí-se do texto do acordo assinado esta manhã na sede dos centristas, subscritos por Freitas do Amaral, Sá Carneiro e Gonçalo Ribeiro Teles.
Com efeito, as forças que subscrevem o documento reafirmam a sua disposição de exigir ao candidato comum que apoiarão nas eleições presidenciais de 1981, «um contrato político inequívoco, rigoroso e público.»
Mostrando-se convictos de que o entendimento a que finalmente chegaram «será a base para a derrota política da actual maioria socialista-comunista da Assembleia da República», os partidos signatários convergem na ideia de conferir «uma nova autoridade» ao Estado, acordando em defender «a dissolução da Assembleia da República e a convocação de eleições legislativas no Outono próximo; a recusa de investidura parlamentar, pelo PSD e pelo CDS, de novos Governos de natureza apartidária antes de eleições gerais; a apresentação conjunta de um mesmo programa eleitoral de Governo e de uma mesma política económica de salvação nacional; a formação de um Governo de coligação formado com base na nova maioria e a corresponde recusa de participação em governos minoritários; e a legitimidade do referendo como inerente à soberania popular e compatível com a Constituição».
Segundo o acordo hoje assinado, os três partidos apresentar-se-ão, em princípio, ao eleitorado em listas separadas, admitindo contudo que, em certas áreas e circunstâncias, possam decidir-se pela apresentação em listas comuns.
O acordo será válido até ao termo da primeira legislatura que detiver poderes de revisão constitucional e não é extensivo aos Açores e à Madeira nem à administração do território de Macau.
A «clarificação política» que os três partidos desejam «não é compatível com a celebração por qualquer deles, de acordos de Governo com o PS e exclui, a partir da nova maioria, a participação deste último no Governo».
A notícia não é muito extensa, mas é informativamente muito rica. Ainda hoje está de parabéns quem a escreveu. Esta data da formação da AD perdeu-se durante décadas, até ter sido recuperada muito recentemente para uma formação de órfãos do PàF que a quiseram usar para que o seu projecto tivesse uma patine que não lhe pertencia: afinal, dois dos três signatários da fotografia acima estão vivos e nenhum deles quis ter nada a ver com Miguel Morgado e a rapaziada saudosa pelo regresso de Passos Coelho. Como na altura assinalei, nem mesmo Vasco Pulido Valente, que sempre adorou dizer coisas e recordar tempos em que se achou importante, meteu a sua colher no assunto. Três meses depois já não se ouve falar do assunto. O Observador bem tenta meter gás nestas iniciativas mas a mim bastou-me ver o nome do João Marques de Almeida associado à iniciativa para encomendar logo ao padre o funeral e a missa de sétimo dia da salada russa do Miguel Morgado. Adenda: como diria Mark Twain, reconheço que a minha notícia sobre a morte da iniciativa estará manifestamente exagerada: houve um jantar com 135 convivas. Esteve lá Passos Coelho, a indispensável referência do movimento, que, por acaso, naqueles seus anos de adolescência do final da década de 70, se seduzira com os comunistas e chegara até a ir a um congresso da UEC (1978).

04 julho 2019

«STARWAY TO HEAVEN»

A fotografia data de 1949. O local é Roma. E há nela uma sugestão de religiosidade que é maior do que a mera presença do sacerdote em trajes clássicos que sobe paulatinamente a escadaria. O autor é Herbert List. Quanto à canção dos Led Zeppelin, essa só aparecerá 22 anos depois. Dura quase tanto tempo quanto aquele que imaginamos que o padre demorará a chegar ao cimo da escadaria, que o céu, sempre o pregaram, não fica ali ao virar da esquina, muito pelo contrário, é preciso penar para o alcançar.

03 julho 2019

A IMAGEM DE PORTUGAL DO OUTRO LADO DO MUNDO

Este é um anúncio da cadeia McDonalds na Malásia. Trata-se da promoção de um novo hamburguer de frango e, pelos vistos, naquelas paragens do Mundo a marca Portugal® tem um significado de especiarias e de exotismo, quiçá por causa da comunidade kristang de Malaca. O facto é lisonjeiro e uma perspectiva diferente da que recordo do livro abaixo, em que a versão que nos é contada é que toda aquela região até era originalmente uma sociedade muito pacífica, os malaios convertiam-se em massa do bramanismo e do budismo ao islão sem que houvesse incidentes sociais, até à chegada dos portugueses que, esses sim, mais o seu cristianismo proselitista, esses é que desestabilizaram a região.

QUANDO NÃO HAVIA DÚVIDAS SOBRE A SUPERIORIDADE DOS GENERAIS SOBRE OS JUÍZES

3 de Julho de 1969. Uma notícia discreta na última página do Diário de Lisboa dava-nos conta do que acontecera a três advogados gregos que haviam tentado desafiar juridicamente a Junta Militar que governava a Grécia.

«Três advogados gregos, que tinham ganho o apelo para que 21 proeminentes juízes fossem reinstalados nos seus cargos judiciários (juízes que haviam sido depurados pelo governo há 18 meses), foram hoje exilados para pequenas aldeias nas montanhas. Os três causídicos faziam parte de uma equipa de cinco homens que fizera apelos perante o Conselho de Estado, o Supremo Tribunal Administrativo da Grécia, em 24 de Junho passado, para que os juízes fossem readmitidos. Dizem familiares que os dois homens, George Maghakis e Theofylos Zoukas, foram presos esta madrugada, após buscas feitas nas suas residências, e levados para a sede dos serviços de Segurança. O terceiro dos advogados chama-se Evangelos Giannopoulos. Os três homens em causa serão obrigados a viver no exílio, em residências e aldeias separadas, fora da capital grega, uma vez que são considerados como um perigo para a segurança pública da Grécia.»

Quando eu era pequeno e estava a aprender, era assim que se entendiam as relações de poder. Os militares davam golpes de Estado. O que ocorrera da Grécia em 21 de Abril de 1967 fora promovido por coronéis. Porque qualquer golpe de Estado é, pela sua própria circunstância, uma subversão da legalidade vigente, os militares costumavam adoptar uma atitude bastante abrangente da estrutura jurídica sobre a qual fundamentavam o seu poder. Assumiam o poder executivo, suspendiam os membro do poder legislativo e os elementos do poder judicial que não cooperassem iam de férias, como acima se pode perceber. O local das férias dependia da insistência com que acatassem os novos poderes. Há cinquenta anos era assim que funcionava, não apenas na Grécia, como também no Brasil assim como viria a acontecer no Chile, e em tantos outros países: os generais mandavam e os juízes faziam o que os generais mandavam, revestindo as vontades dos generais de pomposidade jurídica. Nas entrelinhas da notícia acima percebia-se que arranjar os mandatos que permitissem mandar os advogados para um rincão esquecido fora apenas uma minudência despropositada. E subentendia-se que (aspecto omisso na notícia) o destino dos juízes que haviam despachado favoravelmente o requerimento dos advogados, não se adivinhava nada promissor. 

Hoje, tudo se inverteu. Os juízes alcançaram o estrelato. E os generais foram rebaixados a limitados. Nos países civilizados as ameaças de golpe de Estado perderam credibilidade. Os juízes é que podem virar qualquer regime de pernas para o ar com a ameaça de um daqueles mega-processos que vise as pessoas destacadas da sociedade. Por isso, até mesmo no Brasil (que ainda não é civilizado), quando general ameaça de quartelada é em prol do juiz, e a fazer figura de subordinado a ele...

02 julho 2019

UMA HISTÓRIA DA PRÉ HISTÓRIA MUITO MENOS CHATA DO QUE É COSTUME

A pré-história é chata e os autores dos livros de divulgação a respeito do tema, destinados a serem lidos por quem não tem a obrigação de os ler, costuma ser uma verdadeira quadratura do círculo. Esta jornalista sueca parece ter conseguido escrever um livro que ultrapassa esse impasse. Moderem-se as expectativas: a cultura do vaso campaniforme continua a ter essa designação capaz de desmoralizar o curioso mais entusiasmado; mas os avanços da genética permitem que a autora nos explique como se processaram as várias correntes migratórias que procederam ao povoamento faseado da Europa, e essa explicação aparece-nos com uma robustez científica que nunca fora apanágio da disciplina clássica. A Europa da sueca é que é muito pouco europeia, ou melhor, fica-se pelas redondezas do país dela, o que penaliza os interesses de um português que esteja interessado no Portugal pré-histórico. Mas esteve bem a Bertrand em adquirir os direitos de tradução desta obra nem que seja por uma solidariedade consequente entre nós, os dos pequenos países, que até escrevemos algumas coisas de jeito. Karin Bojs, a autora, nem tem página em inglês na wikipedia!...

01 julho 2019

QUANDO QUEREM IMPINGIR UMA HISTÓRIA...

...ele não há verdade que a rebata, nem resistência que provoque a desistência. Esta (história) de fazer de João Cravinho um paladino da luta contra a corrupção, por cortesia (que se deduz ser) do departamento de relações públicas da confraria do avental (vulgo maçonaria), é uma coisa que o tempo torna verdadeiramente inexplicável. Quando ministro e com «a mão na massa», propuseram-lhe a erradicação da (corrupção) que grassava na Junta Autónoma das Estradas (sob sua tutela) e o que ele fez de concreto foi: nada. Ninguém se atreve a refutar isso, existe Garcia dos Santos para desmentir quem o tente. Portanto, finge-se que o que aconteceu não aconteceu. Ou melhor, que o que não aconteceu, aconteceu: que Cravinho combateu a corrupção com iniciativas concretas. E a Maçonaria é a organização mais idónea para o afirmar. Mais de vinte anos passados, porquê esta insistência em ainda promover Cravinho a propósito de assuntos em que ele se distinguiu por dizer imensas coisas e não ter feito nenhum quanto teve condições de agir?

O «WALKMAN»

1 de Julho de 1979. A Sony lança o primeiro walkman no Japão. Apesar de muito caro (custava € 440 a preços actualizados), o gadget foi um tremendo sucesso de vendas, sucesso esse que se confirmou quando começou a ser vendido nos outros países, vindo a tornar-se numa espécie de ícone da década de 80. Mas, para além de se ter vindo a revelar um sucesso comercial no mundo da música (por sua causa, as cassetes superaram os discos de vinil em vendas a partir de meados da década), o walkman veio a tornar-se um fenómeno sociológico, por causa daquilo que agora se designa por efeito walkman: a capacidade de se estar fisicamente junto de outras pessoas sem qualquer grau de partilha de atenções. O walkman é um gadget do passado e a capacidade de alheamento que ele propiciava era apenas uma amostra daquilo com que hoje é possível municiar as pessoas para que elas se abstraiam do que as rodeia.

30 junho 2019

SÓ HÁ CARROÇA, NEM HÁ BOIS...

Apreciem-se (com olhos de ver!) o que nos mostram as imagens do video acima. Demora sete minutos e a CNN transmitiu-as em directo para a sua audiência doméstica às 03H00 da manhã(!) deste Sábado. Primeiro Donald Trump pára na linha de demarcação entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul, para aí cumprimentar Kim Jong-Un, que se faz aguardar (pouco, mas o suficiente para ser Trump a esperar, o que é suficiente para os norte-coreanos, que dão imensa importância a estes pormenores). Depois ambos foram ao lado da Coreia da Norte para se tornarem a cumprimentar diante de um batalhão de fotógrafos e operadores de câmara enquanto trocavam cortesias. Depois vieram para o lado da Coreia do Sul para se cumprimentarem uma vez mais, que o batalhão não se cansava, nem o stock de banalidades elogiosas se mostrava em perigo de se esgotar. Já a farândola se perpetuava há cinco minutos e meio, quando o grupo de dançarinos e intérpretes se alargou para o presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, que, apesar de ser um dos dois anfitriões, estivera esquecido até aí. E o que é que vai acontecer mais? Nada. Gente que sabe dar passou-bens (e elogiar o interlocutor), é o acontecimento! De há anos para cá, entre a comunidade mediática ter-se-á perdido a compreensão da funcionalidade destas cerimónias que se limitam a ser simbólicas. Estou a lembrar-me, por exemplo e porque teve verdadeiro significado histórico para Portugal, da cerimónia da assinatura da adesão de Portugal à CEE nos Jerónimos em Junho de 1985 (abaixo), de como elas constituíam o pináculo de um complicado e demorado processo negocial de que se celebrava a conclusão em cerimónia adequada para o efeito. Ora aqui, no caso dos Estados Unidos e da Coreia do Norte, o que acontece com as negociações é que não aconteceu nada, mas já se celebra, embora não se saiba bem o quê. Dizia o nosso ditado popular que, quando se precipitavam os acontecimentos, se punha a carroça à frente dos bois. Na América de Donald Trump ainda é mais ridículo: nem há bois para atrelar atrás da carroça... Fotografa-se e filma-se a carroça. Mas pior, nem há quem, nesse mesmo meio mediático que é alimentado por estas palhaçadas, se dissocie dele e aponte o ridículo destas cenas. Que é dos bois?...

O MUNDO DO AVESSO?

Dia 30 de Junho. De 1939 e de 1969. Nas notícias do primeiro desses dias, noticiava-se o terrorismo na Palestina. Só que as vítimas dos atentados eram árabes e os seus autores israelitas. E era sobre estes que a repressão incidia (a autoridade tutelar da Palestina era o Reino Unido). Nas notícias do segundo desses dias, os britânicos mostravam-se ansiosos por entrar para a Comunidade Económica Europeia; esperavam que a recente eleição de Georges Pompidou provocasse uma inflexão da atitude francesa que, com Charles de Gaulle, já por duas vezes vetara a admissão do Reino Unido. Que estas duas notícias são o oposto do que se passa na actualidade não restam dúvidas, mas, a tratar-se do Mundo do avesso, com israelitas a aterrorizar árabes com bombas e a serem presos, e britânicos a exercerem todas as pressões possíveis para se juntarem à Europa, qual é o avesso, qual é o direito?

29 junho 2019

«HAMMERTRUMP»

O comportamento abusivo, errático, por vezes inexplicavelmente incoerente, como Donald Trump tem vindo a gerir a política externa dos Estados Unidos, corroborada mais uma vez através dos inúmeros pequenos episódios por ele protagonizados durante a cimeira do G20 no Japão, fez-me lembrar aquele aforismo que estabelece que aqueles que escolhem equipar-se com martelos desenvolvem uma tendência para lidar com o que os confronta como se fosse tudo cabeças de prego. Como Trump abdicou dos fingimentos de que há algum género de multilateralismo na ordem internacional, perde-se o sentido de convocar reuniões deste género em que, com tudo discutido à martelada, uma boa parte dos participantes só lá está a fazer figuração.
É apenas a inércia que empurra ainda para destaque as fotografias de conjunto, mas o teor do que se relata assenta quase exclusivamente no que acontece nos encontros bilaterais, nomeadamente entre Trump e Xi, com a coreografia correspondente, de que está a correr tudo bem. Por exemplo, no caso da fotografia acima, em que não reconhecemos metade dos presentes e em vez dos sorrisos e acenos generalizados, a imprensa norte-americana destacará o passou bem atencioso que é endereçado por Trump ao esquartejador-mor da Arábia Saudita, enquanto a imprensa europeia preferirá concentrar-se na expressão insatisfeita de Jean-Claude Juncker, indício provável que a fotografia foi tomada antes do jantar e que não serviam aperitivos.
Em contrapartida, esta última fotografia é um excelente exemplo de Theresa May a dar satisfação à opinião pública e publicada do seu país, indignada com o facto de os russos andarem a promover operações «à James Bond» no país do James Bond. O desdém exibido por May pelo seu interlocutor, conjugando-se com o facto de ela estar de saída do cargo (algo que a Putin nem lhe passará pela cabeça...), tornou a ocasião única, e a capacidade de reacção das partes assimétrica. Os britânicos, de resto, não deixaram passar a ocasião e um pequeno incidente de Putin andar a beber por um copo próprio, para deixar entendido que envenenamentos e operações afins, tal qual aconteceu no Reino Unido, são receios levados muito a sério pelos dirigentes russos.

28 junho 2019

O CENTENÁRIO DA ASSINATURA DO TRATADO DE VERSAILLES

28 de Junho de 1919. Na mesma galeria dos espelhos que assistira à proclamação do Império alemão em 1871, mas agora propositadamente remodelada para o efeito (acima), tem lugar, a partir das 3 da tarde, a cerimónia da assinatura do Tratado que punha fim ao conflito entre as potências vencedoras e a Alemanha. A dias da cerimónia e perante a relutância do governo alemão em assinar o documento, as potências aliadas endereçaram-lhe um ultimato. Os alemães assinaram resignados, vencidos mas não convencidos, e dispostos a sabotar todas aquelas cláusulas injustas a que se pudessem furtar.

Mas as atenções da ocasião foram todas para os signatários vencedores (abaixo). Mas trata-se de uma excelente ocasião, para mais carregada de simbolismo, para recordar que o jornalismo é apenas... jornalismo, e que os jornalistas...

27 junho 2019

COM A VERDADE ME ENGANAS...

...porque os comunistas têm uns estranhos momentos de lucidez, em que só nessa altura se decidem a reconhecer as limitações das comissões parlamentares de inquérito. É que a «expectativa ingénua» de que alguém se vá incriminar também se aplicaria decerto a Álvaro Sobrinho, a quem o deputado comunista Miguel Tiago dedicou, e apenas à laia de exemplo, um questionário que se prolongou por quase uma hora. Estaria Miguel Tiago à espera que o interrogado admitisse que fora no seu turno de vigia que roubaram 3 mil milhões de euros? E quanto aos «critérios de mediatismo» recorde-se este outro episódio, mais curto, protagonizado abaixo por outro deputado comunista, Bruno Dias, a pretexto de perguntas ao então ministro Álvaro Santos Pereira, um gag que acabou até por lhes sair mal, já que o ministro em questão desatou a rir a bandeiras despregadas e nada solidário com o seu colega de governo que era visado na paródia (Vítor Gaspar). A que auditório é que se dedicava aquele número do almanaque do Borda d´Água?
Entendamo-nos: as testemunhas convocadas para este género de inquéritos parlamentares podem respeitá-los mas apenas se temerem as consequências de cometer perjúrio quando interrogadas. Os casos mais mediáticos são os das comissões especializadas do congresso dos Estados Unidos, em que, em mais do que um caso, altas figuras da administração, o equivalente aos ministros na Europa, foram condenados (Caspar Weinberger) e mesmo encarcerados (John Mitchell) por mentirem em depoimentos que prestaram ao congresso. Sendo apanhados a mentir, já se percebeu o que pode acontecer a todos, e os depoentes que vão ao congresso americano têm bastante cuidado com o que dizem e como o dizem quando testemunham. Ora alguém acredita que alguém venha a ser condenado em Portugal por mentir nestas deposições às nossas comissões parlamentares de inquérito?!... Óbvio. Nem é uma questão de auto-incriminação, é mesmo uma questão de mentir descaradamente para o efeito oposto. E porque é que eu acho que o PCP teve este assomo de lucidez com o que Sócrates teria para dizer? Precisamente por causa do tal de mediatismo, que aqui funcionaria contra o que o PCP pretende. Está estabelecido que José Sócrates é um escroque, só que não passa bem em tal papel na televisão, e ninguém lhe quer conceder mais este palco.

26 junho 2019

SE TRUMP NÃO TEM A VANTAGEM DE UMA CULTURA CLÁSSICA... OS ADMIRADORES DO VASCO TAMBÉM NÃO

Pois quanto a Vasco Pulido Valente, o autor das linhas acima, a ter «a vantagem de uma cultura clássica», não é pela pesporrência do que ali escreveu que se dá por essa tal de cultura clássica: ele que se entretenha a explicar aos seus admiradores o que foi esse grande rival político de Roma por 500 anos a que ele deu o nome de «Germânia». O que foi essa tal de «Germânia»?...
Parece-me que há demasiada elegância contrita a ser dispensada a tanto disparate, atirado assim em jeito de posta de pescada, mas a verdade é que a mediocridade impune de alguns destes ídolos da palavra escrita é também um reflexo da ignorância da nossa opinião publicada. Bleblebleb para o Vasco e para as deferências que lhe fazem...

25 junho 2019

O AFUNDAMENTO DO BATELÃO NO ZAMBEZE

25 de Junho de 1969. Por uma vez excepcional desde 1961, os títulos de primeira página dos jornais vão para um acontecimento no ultramar português e directamente relacionado com as guerras que aí se travavam. Um batelão, que tradicionalmente fazia o transporte entre as duas margens do Zambeze e que na ocasião transportava um destacamento militar, afundara-se por causas que ainda hoje estão por esclarecer. 101 militares e 5 membros da tripulação haviam-se afogado. O desastre representava uma significativa perda de vidas humanas, muitas mais do que qualquer dos pequenos episódios que caracterizavam a guerra, episódios esses que só apareciam nos jornais em pequenas notícias, através dos comunicados oficiais.
Mas, para quem acompanhasse as notícias, a comparação entre aquilo que se noticiava (ou podia ser noticiado...) a respeito destas guerras que envolviam Portugal, e o que era noticiado simultaneamente acerca da guerra no Vietname, não deixava de ser intrigante, porque a lógica parecia ser precisamente a oposta. O destaque do que nos chegava do Vietname via América ia para os combates, ainda que eles por vezes fossem pouco significativos à escala da dimensão do conflito, enquanto os acidentes, ainda que provocassem centenas de vítimas, eram tratados como notícias colaterais. Connosco era o contrário. Deixá-lo-ia de o ser, daí por um ano, com Kaúlza de Arriaga