18 novembro 2019

ASTÉRIX - A ZARAGATA (III)

Talvez por se estar a aproximar a época, apetece dizer que o carácter previsível da festa de aniversário de Abraracourcix, conjuntamente com os formalismos que o acompanham, fazem lembrar os jantares de Natal da empresa.

CEREJEIRA, O CARDEAL PATRIARCA

18 de Novembro de 1929. Quase a completar os 41 anos, Manuel Gonçalves Cerejeira (1888-1977) é nomeado patriarca de Lisboa. Demonstração da elevada consideração em que é tido no Vaticano, logo no mês seguinte é elevado à dignidade de cardeal pelo papa Pio XI (foto acima). Até 1946, e apesar das nomeações de Pio XI e de Pio XII, o cardeal português permaneceu o cardeal mais novo do colégio de cardeais. Durante o período de vigência do Estado Novo (1933-1974), as suas aparentes relações próximas com Salazar (abaixo) serviram, durante muito tempo, de demonstração de uma cumplicidade íntima entre a Igreja e o Estado. A investigação histórica de há uns dez anos para cá, tem, contudo, demonstrado que talvez não fosse bem assim, que os conflitos entre as duas partes foram muito bem dissimulados, naquele jeito que os príncipes da igreja tanto gostam.

17 novembro 2019

ASTÉRIX - A ZARAGATA (II)

 
Uma das raras vezes em que os autores atribuem um mérito a Júlio César: tem o sangue-frio para não se deixar manipular por Detritus.

16 novembro 2019

ASTÉRIX - A ZARAGATA (I)

A pretexto da publicação do último álbum de Astérix, A filha de Vercingétorix, a nostalgia atacou-me e, durante os próximos quinze dias, ao ritmo de três pranchas diárias, vou recuperar um dos clássicos da série, A Zaragata (La Zizanie, no original) de 1970, e que eu conheci pela primeira vez no Verão de 1972 nesta mesma versão que aqui exibo. Tullius Detritus (é a personagem que acima se vê, esfregando as mãos entre Astérix e Obélix e que tem o condão de fazer grassar a discórdia à sua volta) é uma das criações geniais de René Goscinny. Muitas vezes depois vim a encontrar pessoas que emulavam aquela caricatura.

15 novembro 2019

O PRP FOI UMA ORGANIZAÇÃO DE MAFIOSOS

15 de Novembro de 1979. O PRP (Partido Revolucionário do Proletariado) executa um dos seus membros por causas que a notícia apenas deixa à especulação. (Uma especulação potenciada pela identificação da vítima na notícia como tesoureiro). O que não era especulativo era a forma como os operacionais da organização haviam abatido a vítima, com um modo de execução que não se distinguia de modo nenhum de um ajuste de contas entre mafiosos. Só que, ao contrário do que costuma acontecer com as execuções entre mafiosos, no caso do ex-tesoureiro do PRP nem uma só fotografia apareceu*... O assassinato foi um assunto rápida e activamente esquecido, suplantado no interesse jornalístico pela campanha eleitoral que começara. Passaram-se quarenta anos e deve ser por isso que Isabel do Carmo, dirigente do Partido Revolucionário do Proletariado - Brigadas Revolucionárias e que naquela época estava justamente presa por terrorismo contra o Estado Democrático, anda extremamente esquecida destas características mafiosas dos membros do partido (chamemos-lhe assim...) e das brigadas que dirigiu. É pacífico reconhecer agora que foi uma péssima ideia ir recrutar a ralé para fazer a revolução. Mas os jornalistas de agora também são culpados de a entrevistarem sem esclarecerem o assunto, deixando-a esquecer-se desses pormenores.

* Pode-se estabelecer um contraste directo entre esta cobertura e a que o mesmo Diário de Lisboa havia dado três meses antes a um outro ajuste de contas mafioso, só que aí entre operacionais do MDLP de extrema direita, outro clã de escroques. O jornal deu-lhe um título muito mais destacado, muito mais desenvolvimento da notícia, que se prolongou até pela edição do dia seguinte, com fotografias, etc.

14 novembro 2019

QUANDO O REGIME COMUNISTA CHINÊS ANUNCIOU QUE IRIA RESPEITAR A INTEGRIDADE DE MACAU

14 de Novembro de 1949. Desta vez o Diário de Lisboa podia falar daquilo que até aí fora um tema tabu na imprensa: o destino de Macau perante o avanço das tropas comunistas. Podia fazê-lo porque as notícias se apresentavam positivas, o que era um alívio para o governo português, que assistia impotente ao desenrolar dos acontecimentos. Os «chefes comunistas» faziam declarações em que se mostravam dispostos a respeitar a fronteiras das duas colónias (Hong-Kong e Macau), embora, mais adiante, se percebesse que isso tinha o preço das administrações coloniais não apoiarem as forças nacionalistas: «Os aviões e navios nacionalistas não podem reabastecer-se em Hong-Kong», lia-se no desenvolvimento da notícia, escamoteando mais uma vez que essa restrição acontecia também com Macau. Mas, a envergonhada discrição portuguesa a respeito de todo o problema, contrastava, com vantagem, com uma atitude exagerada de confrontação dos britânicos (abaixo), que, de tão exagerada, nem chegava para convencer os informados entre a sua própria opinião pública.

13 novembro 2019

O JORNALISMO E AS PREFERÊNCIAS PELOS ARTISTAS

Ao contrário da do Diário de Notícias e da do Observador, a notícia do Público é sobre Carlos do Carmo, apesar do nome daquele que irá ser hoje agraciado com o Grammy ser José Cid. As preferências pelos artistas deviam coisa independente de noticias, mas quem escreve sobres estes assuntos no Público é que não percebe a diferença...

O PRÍNCIPE HANS ADAM II

13 de Novembro de 1989. Com a morte do pai, o príncipe Hans Adam II (1945- ) torna-se o soberano do Liechtenstein. A versão traduzida do nome do monarca, a preferida pelos puristas, tem uma ressonância um pouco cacofónica: João Adão II. É sempre interessante aproveitar estas efemérides para falar de países que, pela sua pequena dimensão, costumam ser pouco noticiados e, por isso, são pouco conhecidos. Aprecie-se abaixo o que pode acontecer quando, num concurso de cultura geral, se pergunta qual o nome da capital...

12 novembro 2019

O AFUNDAMENTO DO TIRPITZ

12 de Novembro de 1944. Afundamento do couraçado Tirpitz num fiorde norueguês. Irmão-gémeo do Bismarck, mas muito menos famoso do que ele, o grande navio representou, como alvo, um grande entretém da Royal Navy, que não descansou enquanto não o afundou. Quando o conseguiu, neste dia de há 75 anos, já a questão da supremacia naval no Atlântico deixara de ser tema e os combates (terrestres e decisivos) na Frente Ocidental já se desenrolavam há uns bons cinco meses (desde o dia D) e já se haviam deslocado para bem perto da fronteira alemã. Feita uma apreciação distanciada, o Tirpitz terá representado mais, afundado, para a moral dos britânicos, do que como máquina de guerra para os alemães.

A PROMULGAÇÃO DA LEI DA MODERNIZAÇÃO DOS SERVIÇOS FINANCEIROS NOS ESTADOS UNIDOS

12 de Novembro de 1999. A Administração Clinton promulga uma lei anteriormente aprovada pelo Congresso dos Estados Unidos e que contempla a liberalização das actividades bancárias que estivera restrita a operar, até então, em três ramos distintos: banca comercial, banca de investimentos e seguradoras. A Lei recebeu a denominação coloquial dos seus três proponentes, o senador Gramm do Texas e os representantes Leach do Iowa e Bliley da Virgínia (na fotografia, por essa mesma ordem, da esquerda para a direita). Foi um daqueles acontecimentos que não mereceu o amplo destaque noticioso que as consequências do mesmo mereceriam. A Lei Gramm-Leach-Bliley era um desejo de há muito do lóbi bancário e vinha revogar restrições estabelecidas pelo mesmo Congresso em 1933, quando da Grande Depressão. Na época, e perante a falência de inúmeros bancos e seguradoras, e como os porões de um navio a alagarem-se, julgara-se conveniente tornar estanques os vários ramos da actividade financeira, procurando com isso acautelar as consequências do colapso encadeado das instituições financeiras. Há 20 anos considerou-se que isso já se tornara numa longínqua ameaça, que perdera o sentido. Prematura conclusão: a crise do subprime do Outono de 2008, menos de 10 anos transcorridos, virá a demonstrar quanto a especulação descontrolada no sector do imobiliário norte-americano se podia propagar ao resto de um sistema bancário que, por causa das fusões, passara a ser formado por instituições tão grandes. Por se terem tornado tão grandes, deixara de existir a hipótese de as deixar colapsar, impondo-se a intervenção do Estado para as salvar - com isso, consagrar-se-á a expressão "too big to fail", que abaixo vemos a ser empregue como título num filme de 2011 a respeito deste enorme paradoxo moderno.

11 novembro 2019

A «INSPIRAÇÃO» DA LEI DE IMPRENSA EM ESPANHA

A edição de há cinquenta anos do Diário de Lisboa incluía um desenvolvido artigo (pp. 3/4) a respeito da lei de imprensa que então vigorava em Espanha. O autor do texto era Adelino Amaro da Costa, que viria a ser vice-presidente do CDS dali por cinco anos, nessa altura ainda com 26 anos. A lei de imprensa espanhola, que fora aprovada três anos e meio antes, por proposta de Manuel Fraga Iribarne, era então tida como um embrião de abertura do regime (franquista), já que suspendera a censura prévia, a obrigatoriedade de apresentar as publicações antes da sua edição, como então ainda acontecia em Portugal. Mas «a abertura para a liberdade de expressão» (para recuperar a expressão empregue por um entusiasmado, mas ingénuo Adelino Amaro da Costa), já era muito pouco e muito tarde para salvar a reputação da abertura marcelista. O que não aparecia escrito no artigo era que o caminho que viera a ser trilhado em Espanha chegara a um beco sem saída: o próprio Manuel Fraga abandonara o governo duas semanas antes, e o diário «Madrid», cuja entrevista com o director serve de suporte ao entusiasmado artigo acima de Amaro da Costa, irá ser encerrado pelas autoridades espanholas dali por dois anos. Para jovens ambiciosos próximos da Opus Dei, como era o caso de Adelino Amaro da Costa, não era nada fácil preconizar reformas para os dois regimes monolíticos da península naqueles tempos - sobretudo porque as poucas que se tentavam implementar ou ficavam no papel ou retrocediam...

10 novembro 2019

AS REACÇÕES DIPLOMÁTICO-JORNALÍSTICAS AO ATENTADO A ADOLF HITLER

10 de Novembro de 1939. Quem lesse as páginas centrais da edição desse dia do Diário de Lisboa ia ter uma panorâmica alargada do que haviam sido as reacções diplomáticas e jornalísticas das diversas capitais ao atentado que tivera por alvo Adolf Hitler. Não surpreende que os alemães destacassem as mensagens de apoio que haviam sido recebidas do seu principal aliado, a Itália. Menos previsíveis mas mais compreensíveis, pensando a delicadeza da posição holandesa na cena internacional, eram as felicitações que haviam enviadas pela soberana holandesa, Guilhermina. Canónicas, as felicitações do papa Pio XII vindas do Vaticano. Quanto aos americanos, socorriam-se de uma formalidade para não se pronunciarem sobre o assunto. Enquanto isso, a ausência de comentários em Madrid constituía uma verdadeira surpresa. Comentários esses, que abundavam em Londres, descartando as acusações que Berlim fizera aos britânicos e aos judeus e atribuindo a autoria do atentado, caso ele não tivesse sido encenado, aos próprios oposicionistas alemães. Esse mesmo género de comentário, foi causa da apreensão de um jornal socialista em Bruxelas, as autoridades belgas terão temido que os alemães se aborrecessem. Quanto à opinião da outra esquerda, a totalitária, em Moscovo exprimia-se «pesar e indignação» pelo atentado, acompanhados da «satisfação» por Hitler ter «escapado ao mesmo».

09 novembro 2019

UM DESMENTIDO CANHESTRO, COMO SÓ OS COMUNISTAS SE ATREVEM A FAZER

Corre o mito urbano que a queda do Muro de Berlim ocorreu sem que o Neues Deutschland, o jornal oficial do regime e do partido comunista alemão, tivesse noticiado nada. Quem se quisesse inteirar do que acontecera na própria capital da República (dita) Democrática Alemã no dia seguinte ao da queda do Muro, não iria encontrar nem uma única referência ao assunto (edição da esquerda) na primeira página daquele jornal. Mas, como é bom de ver, qualquer marxista-leninista arranja uma explicação, por mais canhestra que seja, para o facto: como os acontecimentos ocorreram bastante tarde, a edição já fora para a gráfica. E ninguém se lembrou de publicar uma edição especial, para não abusar do descanso dos trabalhadores! No dia seguinte, e desmentindo o mito urbano que corre, a edição do dia 11 de Novembro do Neues Deutschland (acima, à direita) já dá destaque de primeira página ao que acontecera dois dias antes, conforme se percebe pelo quadradinho assinalado a vermelho... Agora mais a sério: é sempre revigorante assinalar um dos dias da DERROTA de uma GRANDE MENTIRA!

UEDS - A SIGLA DA «ESQUERDA CHIQUE» DE HÁ QUARENTA ANOS

9 de Novembro de 1979. Em antecipação às eleições legislativas intercalares que se iriam realizar no próximo dia 2 de Dezembro, o Diário de Lisboa fazia a apresentação dos cinco jornalistas que iria destacar para acompanharem as campanhas das principais formações políticas. Logo a ordem como as apresentava, esquecendo a representatividade parlamentar, assemelhava-se a um endosso: começava pelo PS (que fora o partido mais votado e que obtivera 107 lugares nas eleições de 1976), passava para o PCP à sua esquerda (40 lugares), guinava à direita com a AD (coligação entre o PSD e o CDS, com 73 + 42 lugares e as segunda e terceira maiores representações parlamentares), para guinar outra vez para a extrema esquerda, onde se situava a quarta e penúltima formação que iria ser acompanhada por um jornalista do DL, a UDP (com 1 único deputado). Fora desta lógica ilógica dos partidos com representação parlamentar, aparecia a UEDS, uma formação política recente, constituída por dissidentes de esquerda do PS, que o jornal considerara merecedor de uma atenção especial, apesar de ela nunca ter sido submetida a votos. Mais do que isso: nas páginas interiores daquela mesma edição, multiplicavam-se as notícias sobre iniciativas da, e patrocínios à, UEDS. Como então era assaz comum, circulava até um manifesto de apoio àquela formação em que os que o assinavam eram para ser todos considerados intelectuais. Quarenta anos passados, muitos desses subscritores já faleceram mas podem-se ali encontrar nomes da esquerda chique que ainda nos são familiares de outras esquerdas chiques, como é o caso de Boaventura Sousa Santos. Foi uma aposta jornalística deste jornal (mas não só, já que foi acompanhada por muita da opinião publicada) que não vingou: no dia da verdade a UEDS recolheu uns parcos 43.300 votos (0,7%). Desnecessário dizer que não elegeu nenhum deputado. O eleitorado concedeu uma humilhação final ao faro político dos entendidos (ainda não havia politólogos...) ao darem votações superiores a duas formações políticas com quem eles não engraçavam nada, o PDC de extrema-direita (72.500 votos - 1,2%) e o MRPP de extrema-extrema-esquerda (53.300 votos - 0,9%). Ainda havia que esperar mais 20 anos para que a esquerda chique (e de que os jornalistas gostassem...) entrasse no parlamento.

08 novembro 2019

AS NOTÍCIAS DO DIA EM QUE TENTARAM ASSASSINAR ADOLF HITLER

8 de Novembro de 1939. As notícias daquele dia (jornal da esquerda) eram dominadas pela iniciativa conjunta dos soberanos dos Países Baixos (Guilhermina) e Bélgica (Leopoldo III), num apelo à paz que era endereçado aos três países beligerantes: (por ordem alfabética) Alemanha, França e Reino Unido. (É espantoso lembrar que, uma Guerra que virá a ser classificada de Mundial, envolvia nessa altura tão poucos países...) Na própria página que a noticiava, um artigo ao lado perguntava cinicamente se «a iniciativa de Haia fo(ra) sugerida pelo (III) Reich ou pelo receio duma próxima ofensiva?» (desse mesmo Reich, subentenda-se) Todavia, a verdadeira notícia desse dia 8 de Novembro de 1939 ainda não acontecera quando o Diário de Lisboa chegara às bancas ao fim da tarde. Nessa noite, Adolf Hitler escapará a um bomba que fora colocada na cervejaria de Munique onde se celebrava o aniversário do seu putsch de 1923. A bomba causou 8 mortos e provocou 63 feridos, mas falhou o seu alvo (fotografia abaixo). A edição do dia seguinte do mesmo Diário de Lisboa esqueceu por completo o «ramo de oliveira» belga-holandês do dia anterior e concentrava toda a sua atenção em noticiar o atentado e especular sobre quem quisera assassinar Adolf Hitler. Continuando (ou retribuindo?) o cinismo do dia anterior, lia-se num subtítulo que «na Holanda ha(via) quem responsabiliz(ass)e a "Gestapo"». Hoje sabe-se quanto o gesto dos dois monarcas se viria a revelar inconsequente: ambos os países serão invadidos e ocupados pela Alemanha a partir de Maio de 1940.

07 novembro 2019

A MINHA DIVERGÊNCIA QUANTO À RAZÃO PRINCIPAL PARA A NOSSA NÃO CONVERGÊNCIA

A pretexto de assinalar os trinta anos da queda do Muro de Berlim, o Le Monde publicou um artigo muito interessante onde se evidenciam as diferenças que continuam a substituir entre as duas antigas Alemanhas. Um encadeado de mapas, que cobrem indicadores sociais e económicos que vão da crença em Deus ao número de automóveis em circulação mostram uma discrepância nítida e ainda actual entre wessies e ossies. Mas o gráfico e mapa que mais me interessaram naquele artigo foi este que exibo acima, que mostra a diferença de rendimentos entre as duas Alemanhas. Mais do que a sua subsistência, o facto de que essa diferença (média) se tem vindo a ampliar: era um pouco superior a 2.000 € em 1997 e é de 3.600 €, de acordo com os últimos dados disponíveis (2016). Nitidamente, nestes últimos 30 anos, as antigas regiões da RDA não têm convergido com as do resto da Alemanha. E esta é uma conclusão pertinente para justapor a um estudo do Banco de Portugal que foi apresentado há menos de um mês por Carlos Costa (abaixo) em que se apresentavam uma data de causas - ineficiência do sistema judicial, reduzida dimensão das empresas, fraca qualidade da gestão empresarial, baixo investimento em inovação - para que a economia portuguesa não convergisse «com a Europa».
Pois bem, tão disparatado me parece ser o excesso de auto-indulgência quanto, neste caso de Carlos Costa, será o excesso de auto-martirização. As razões apontadas por Costa parecem-me importantes, mas serão as primordiais? É que, neste caso da Alemanha, o sistema judicial é até o mesmo, e com o desaparecimento da fronteira interna, a questão da dimensão das empresas, da sua gestão e da sua política de investimentos tornaram-se comuns aos dois lados: praticamente todas as antigas empresas estatais da RDA foram compradas por congéneres da Alemanha Federal. As explicações de Carlos Costa não podem explicar o que justifica o facto de a antiga RDA permanecer substancialmente mais pobre do que a antiga RFA. E será que essas explicações serão o factor principal para aquilo que acontece em Portugal? Tenho muitas dúvidas. Talvez porque a Alemanha unificada e, por maioria de razão, a União Europeia, sejam estruturas que não têm quaisquer preocupações em assegurar a tal de convergência entre quem a compõe. Não será bonito de reconhecer, mas é verdadeiro: se os alemães de Oeste não se preocupam com a convergência de rendimentos dos seus compatriotas do Leste porque o hão-de fazer com estrangeiros como nós? Que tal Carlos Costa encabeçar as suas análises com essa sã evidência? Por ser politicamente incorrecta? É que assumir isso não interferiria com a atitude que devemos adoptar para tentar ultrapassar o nosso atraso mas, ao menos, deixamos de andar a dizer asneiras... Recorde-se que o muro de Berlim caiu há trinta anos e que Portugal aderiu à CEE há trinta e três.

A INAUGURAÇÃO DO MUSEU DE ARTE MODERNA DE NOVA IORQUE

7 de Novembro de 1929. Inauguração do Museu de Arte Moderna (mais conhecido pelo acrónimo MoMA) de Nova Iorque. Acima, pode apreciar-se o catálogo dessa inauguração, que, por ironia, teve lugar pouco mais de uma semana depois do histórico colapso da Bolsa daquela mesma cidade.

06 novembro 2019

A REPÚBLICA DA AUSTRÁLIA?

6 de Novembro de 1999. Tinha lugar na Austrália um referendo com a questão do país se transformar numa república. Herdando a estrutura constitucional vigente, só mudando a figura do chefe de estado, no caso da vitória do sim (assinalada no mapa acima a verde), o presidente teria funções limitadas, sendo eleito pelas câmaras. Mas, apesar da moderação da proposta e do peso da opinião publicada, venceu o não com quase 55% dos votos. A ressonância do republicanismo devia-se ao facto de estar concentrado entre o eleitorado urbano, conforme se comprova pelos mapas acima, onde se podem observar as suas vitórias nos círculos eleitorais das capitais dos estados: Sidney, Melbourne, Brisbane, Adelaide. Mas no cômputo geral, todos os estados se manifestaram a favor da manutenção da figura de Isabel II como chefe de estado. É para lembrar àquelas pessoas assim mais conservadoras, que acontece obterem-se surpresas agradáveis quando se fazem consultas populares. E o desfecho delas tem uma legitimidade política acabrunhante para quem defende a posição derrotada - há vinte anos que ninguém fala em repúblicas lá para o lado da Austrália. É só uma ideia que me ocorreu, a propósito da questão do referendo da Catalunha...

05 novembro 2019

ANIVERSÁRIO

Apercebo-me, com um sentimento que não consigo descrever, que aquilo que há noventa anos Fernando Pessoa escrevera e descrevera do seu heterónimo Álvaro de Campos, também se pode aplicar aos blogues, quais heterónimos modernos das nossas modestas expressões pessoais. Se o aniversário de Álvaro de Campos se deixara de festejar, também os aniversários dos blogues fluem perante a indiferença dos seus próprios criadores. O Herdeiro de Aécio celebrou ontem (4 de Novembro) o seu 14º aniversário e eu nem me lembrei disso! As características das redes sociais mudaram tanto desde essa altura que o conhecido poema de Pessoa acaba por fazer sentido, ainda que bizarro, quando invocado.

A PURGA DA CÚPULA DA FRELIMO

5 de Novembro de 1969. Uma das páginas com o noticiário internacional desse dia mostrava uma notícia oriunda de um local de que não era muito frequente falar-se, nas publicações portuguesas: Dar-es-Salam, capital da Tanzânia, cidade onde se instalara a cúpula da FRELIMO, a organização nacionalista moçambicana que combatia desde 1964 a presença portuguesa em Moçambique. As notícias oriundas da capital do país vizinho davam conta do clímax das disputas internas naquela organização depois do assassinato - uma encomenda armadilhada, muito provavelmente enviada pelos serviços secretos portugueses - de Eduardo Mondlane, o dirigente máximo da organização até Fevereiro daquele ano. A conclusão da disputa - e havia alguma volúpia na forma como o assunto era noticiado pela parte portuguesa - anunciava-se sangrenta - e para isso não fora preciso a contribuição da PIDE. A facção derrotada e o seu líder Uria Simango necessitara de se acolher à protecção da polícia tanzaniana, por receio do que lhe pudesse acontecer às mãos da própria organização, que agora passara a ser liderada pela dupla Samora Machel (ala militar) e Marcelino dos Santos (ala política). Quanto ao futuro, ele virá comprovar quanto os receios de Uria Simango eram fundamentados. Numa data imprecisa entre 1977 e 1980, Uria Simango irá desaparecer, algures no Niassa, onde estava detido num campo de reeducação. As histórias das lutas internas das organização nacionalistas africanas que lutaram contra o colonialismo português são tão sórdidas quanto as lutas de gangues.

04 novembro 2019

COMEÇO DA CRISE DOS REFÉNS DA EMBAIXADA AMERICANA DE TEERÃO

4 de Novembro de 1979. Cerca de 400 manifestantes assaltam a embaixada norte-americana em Teerão, tomando como reféns 56 pessoas que ali se encontravam. O assalto decorreu perante a passividade e o sequestro recebeu o posterior endosso das autoridades iranianas. O gesto de há 40 anos constituiu uma ruptura completa com as centenárias regras e protocolos internacionais da segurança diplomática e dos seus agentes e os Estados Unidos acusaram de tal modo o golpe que até hoje não o quiseram esquecer. Mas, para que os americanos não fossem colocados nessa posição de vítimas, a distorção (spin) na redacção da notícia de um típico jornal pró-comunista e anti-americano, como era o caso do Diário de Lisboa (acima), consistiu em esconder (página interior) e banalizar o acontecimento, como se fosse normal um estado usar agentes civis seus para ocupar as instalações diplomáticas e tornar reféns o pessoal diplomático de outro estado, com o fito de utilizar estes últimos como reféns e meio de pressão diplomática - "Até que o Xá seja entregue". O Xá não foi entregue e a esmagadora maioria dos reféns americanos (42) irão permanecer em cativeiro por quatorze meses e meio, só sendo libertados em 20 de Janeiro de 1981. Nessa altura, o Xá já havia morrido, seis meses antes... Se a conduta dos Estados Unidos no Irão fora, até aí, vergonhosa e mesmo condenável, o Irão, com esta tomada de reféns, empatou muito rapidamente o jogo.

03 novembro 2019

O DISCURSO DA MAIORIA SILENCIOSA


3 de Novembro de 1969. Quase em cima do primeiro aniversário da sua eleição como presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon profere um discurso perante o país, que crescentemente o contesta, cobrando a sua promessa eleitoral de que encontraria «um fim honroso para a guerra no Vietname».  Nesse discurso, Richard Nixon faz um apelo àquilo que designa pela «grande maioria silenciosa" dos americanos, que diferencia de uma minoria activa de contestatários que apenas pareciam predominar por se manifestarem exuberantemente. A iniciativa foi bem sucedida, a popularidade de Nixon subiu, mas, sobretudo, a noção da existência de um tal grupo sociológico, o emprego da expressão e o recurso ao apelo directo via TV a esse mesmo grupo, fizeram com que o expediente viesse a ser utilizado por políticos de todo o Mundo. Contudo, como uma das vantagens do conceito é que ela, a maioria, pode apenas existir na imaginação do apelante, uma das consequências é que o apelo pode redundar em nada de substantivo. Quase cinco anos depois, em Setembro de 1974, ouvimos a mesma expressão a ser usada em Portugal pelo então presidente António de Spínola, mas a iniciativa não teve o sucesso que tivera com Richard Nixon que, entretanto, caíra em desgraça perante a apatia da tal maioria silenciosa e se vira forçado a demitir-se da Casa Branca no mês anterior...

02 novembro 2019

CERVEJA ROSA MOTA

Foi assim, com muito espírito, que alguém anónimo encerrou a controvérsia à volta da designação do recém reinaugurado Super Bock Arena - Pavilhão Rosa Mota do Porto.

O INTELECTUAL FRAUDULENTO

2 de Novembro de 1959. Nos Estados Unidos, o intelectual Charles Van Doren, um distinto professor de literatura da Universidade Columbia, tornado numa estrela (abaixo) por causa de um concurso de televisão, causa um escândalo nacional quando admite, perante uma comissão da Câmara de Representantes, que tinha tido conhecimento prévio das perguntas e respostas enquanto aparecera como concorrente vencedor no programa de televisão que o celebrizara. A fama que adquirira, a reputação que granjeara, o dinheiro que ganhara, assentavam numa fraude completa, devidamente encenada.

01 novembro 2019

INICIATIVA LIBERAL - «O PARTIDO SEM DINHEIRO»?...

Uma das novidades da última campanha eleitoral foi a campanha de cartazes da Iniciativa Liberal. Não apenas nem sobretudo a qualidade dos cartazes, aspecto enaltecido pelos próprios promotores, mas sobretudo a quantidade (veja-se acima), diga-se mesmo a prodigalidade que lhes permitiu seleccionar até os locais em que os seus cartazes desdissessem e criticassem aquilo que os partidos rivais haviam afixado precisamente ao lado (vejam-se os exemplos centrais). Ora para fazer tudo isto foi preciso dinheiro. Muito. Que deve ter vindo de algum lado. Eles lá na Iniciativa Liberal devem estar bem relacionados. E a origem desse financiamento é uma questão politicamente interessante. Afinal, a Iniciativa Liberal não é uma formação política com o mesmo historial e presença parlamentar do que o Bloco de Esquerda de há quatorze anos, quando, neste mesmo blogue, uma profusão de outdoors de Francisco Louçã a "olhar-nos nos olhos", me fez fazer a mesma pergunta que agora faço a respeito da Iniciativa Liberal: onde é que eles foram arranjar o dinheiro para pagar aquilo tudo?
Não precisam de responder, mas uma coisa é certa: não é com lengalengas de partido pobrezinho, que se financia através de "peditórios entre os seus membros" que a Iniciativa Liberal pode granjear o nosso respeito (acima: mensagem do seu dirigente Carlos Guimarães Pinto a despedir-se da liderança do partido). É uma daquelas mentiras políticas tão grosseiras que faz lembrar, ainda a propósito de dinheiros, a resposta de Álvaro Cunhal numa entrevista da RTP, quando lhe perguntaram qual era o seu ordenado como funcionário do PCP: o ordenado mínimo nacional(!), foi a resposta. Mais do que uma aldrabice, era um gozo, e descarado, ao jornalista - ele que fosse tentar provar que Cunhal ganhava mais do que isso... - mas também a toda a audiência. E eu, mesmo que, ou sobretudo por, não gostar de Álvaro Cunhal, não apreciei que tivessem gozado comigo assim tão descaradamente. Também Carlos Guimarães Pinto parece estar agora a tentar chuchar descaradamente com o auditório com esta aldrabice do partido pobrezinho. E se a mensagem política privilegiada por aquela formação é a de mensagens de impacto estético, aqui vai a sugestão do meu outdoor de resposta, que não se poderá afixar por fracasso do crowdfunding por mim promovido: ele que vá chuchar na chupeta dele...

31 outubro 2019

A REMODELAÇÃO DO GOVERNO FASCISTA ITALIANO

31 de Outubro de 1939. O Mundo continuava em guerra, embora não se desse muito por isso. Esta edição acima do Diário de Lisboa de há oitenta anos esclarecia os seus leitores, em primeira página, sobre o que acontecera a respeito de operações militares terrestres: «Não se registaram quaisquer acontecimentos de importância». O que não impedia que uma coluna ocupando um quarto da página contivesse muitos outros acontecimentos relacionados com a guerra. Um deles era esta remodelação governamental ocorrida em Itália, uma Itália que, por aquela altura, ainda permanecia neutral. Não interessará ao leitor moderno saber quem entrara e quem saíra, mas surpreenderá porventura esse nosso leitor, saber que as mudanças eram interpretadas como contrárias à facção pró-alemã dentro do regime. A verdadeira história das relações entre o fascismo e o nazismo mostra que, para além das aproximações óbvias, também houve afastamentos subtis. No caso, ao demarcar-se de um dos lados em guerra, Benito Mussolini estaria provavelmente a pensar apresentar-se como mediador das facções beligerantes.

«ORDER! ORDER!»

Ele há pessoas que as circunstâncias, mas também eles próprios, os leva a transformar os cargos que circunstancialmente ocupam neles próprios. É extremamente difícil suceder a essas pessoas. John Bercow, o speaker da câmara dos Comuns britânica, é um caso flagrante disso, de alguém tão grande que vai demorar até aquele cargo se reduzir às suas verdadeiras dimensões. A identidade e a personalidade dos seus antecessores foram uma peculiaridade daqueles mais interessados pelos detalhes dos parlamentarismo britânico. Contudo, a conjugação da crise política aberta pelos resultados do referendo do Brexit com a personalidade de John Bercow tornaram este último numa verdadeira estrela mediática mundial. Hoje, dia do abandono da função que o celebrizou, vale a pena recordar o dia (22 de Junho de 2009) em que John Bercow foi eleito e tomou posse do cargo (acima). Quanto à sua carismática notoriedade internacional, proclamando aqueles famosos apelos à ordem (abaixo) num parlamento caótico a que ninguém conseguiu dar rumo, essa vai deixar muitas saudades!

30 outubro 2019

A TOMADA DE POSSE DE MEDICI

30 de Outubro de 1969. Em Brasília, tem lugar a tomada de posse do presidente Emílio Garrastazu Medici. O filme acima, que recorda o acontecimento, é significativo pelo descaramento das palavras que o narrador emprega na ocasião - ao 1:10: (...) e do momento da afirmação democrática(!) que o Brasil está vivendo. E no entanto, dispensando a hipocrisia dos sabujos, o discurso de Medici para a ocasião até foi substantivo, repare-se o destaque que, deste lado do Atlântico, o Diário de Lisboa deu à sua anunciada ambição de fazer do Brasil uma grande potência. Até hoje, ainda estamos à espera, mas a intenção é que conta.

29 outubro 2019

UM MUNDO ABSURDO EM QUE RANTANPLAN É UM HERÓI A SÉRIO

«Desclassificámos uma fotografia do magnífico cão (o nome não foi desclassificado) que teve uma CONTRIBUIÇÃO ESPECTACULAR para a captura e morte do líder do ISIS, Abu Bakr al-Baghdadi!» Percebe-se a intenção de Trump de promover o episódio, para que agenda mediática não seja preenchida por outros assuntos bem mais desagradáveis para ele. E íamos lá nós passar sem uma fotografia do cão! Mesmo que não saibamos o nome do bicho que permanece TOP SECRET! Por mim, e para proteger a sua identidade (de quê, de quem?), pode adoptar-se provisoriamente o nome simbólico de Rantanplan, que tudo o que aparece com a chancela de Donald J. Trump é uma contínua elegia à ESTUPIDEZ!

«- POSSO NÃO ESTAR A VER BEM DE QUEM SE TRATA... »

Em obras de ficção de espionagem como esta acima, recém publicada, de Frederick Forsyth, os autores costumam ancorar-se em personagens reais de todos conhecidas para induzirem no leitor uma impressão de verosimilhança. É um expediente antigo, mas que agora parece estar a sofrer o desgaste dos tempos conturbados que se vivem. É que, neste seu último livro, Forsyth* faz aparecer a primeira-ministra britânica Theresa May rebaptizada apenas de Marjorie Graham; ao presidente americano não lhe dá nome, mas descreve-o com uma «grande e impecavelmente penteada cabeça loura». Com o livro acabado de sair na sua tradução portuguesa, o enredo já havia sido ultrapassado pelos acontecimentos: o primeiro-ministro do Reino Unido é agora Boris Johnson, e aguarda-se o desfecho das próximas eleições, para ver se o continua a ser. Mas a cena em que não me contive foi a que acima descreve quem rodeava Donald Trump por ocasião da reunião que ele teve com o herói da trama, na sala oval da Casa Branca: além do herói e do presidente, «um dos homens sentados era o chefe de Gabinete, outro o secretário de Defesa e o terceiro o procurador-geral.» Ora tendo o livro sido escrito em 2017 e 2018, foi muito precavido de Frederick Forsyth não os nomear, nem sequer os descrever, considerada a rotação registada entre os quadros de topo da Administração Trump desde que tomou posse em 20 de Janeiro de 2017. Chefes de Gabinete até agora foram três: Reince Priebus, John F. Kelly e Mick Mulvaney. Secretários da Defesa houve outros três: James Mattis, Patrick Shanahan e Mark Esper. E procuradores-gerais foram () dois: Jeff Sessions e William Barr. Seja como for, o expediente literário de criar um grupo de conselheiros à volta da «cabeça loura» naquela reunião hipotética falha rotundamente, porque a imaginação dos leitores não conseguirá assentar num elenco que é constituído por três de oito possíveis titulares. Noutros tempos, noutras circunstâncias, seria um apontamento de credibilidade a valorizar a narrativa, mas agora confesso, a título pessoal, que, e porque alguns nem aquecem o lugar, não estava a ver bem quem é que podia lá ter estado presente na supradita reunião...

* Nascido em 1938. Não cesso de me surpreender com a capacidade de escritores octogenários do género da espionagem em produzir obras indiscutivelmente saudadas pela sua qualidade, quando alcançam idades vetustas. Aliás, quanto mais vetusta a idade, tanto mais a qualidade da obra parece ser indiscutível...

O PRIMEIRO NÚMERO DA REVISTA PILOTE

29 de Outubro de 1959. Mais do que a estreia de Pilote, uma revista de BD francesa que concorrerá com o a do Tintin, de origem belga, trata-se sobretudo de assinalar a primeira aparição de Astérix (abaixo, a primeira prancha da primeira aventura mas sem cor).

28 outubro 2019

A MORTE DE MARCEL CERDAN, O GRANDE AMOR DE ÉDITH PIAF

28 de Outubro de 1949. O Lockheed Constellation da Air France que fazia a ligação entre Paris e Nova Iorque embate contra o Pico da Vara na ilha açoriana de São Miguel. No desastre morreram os 37 passageiros e 11 tripulantes que seguiam a bordo. Tratava-se do maior acidente aeronáutico que ocorrera até então em Portugal, mas a visibilidade mediática internacional do mesmo foi amplificada pelo facto de seguir a bordo Marcel Cerdan, um pugilista de sucesso, que era o companheiro de Édith Piaf, a coqueluche da canção francesa de então (acima, os dois fotografados no aeroporto de Orly em 1948).
Sobre as causas do acidente, veio a apurar-se que o piloto cometera um erro de navegação e que julgava estar a aproximar-se do aeroporto de Santa Maria quando, na verdade, estava a sobrevoar São Miguel. O Lockheed embateu directamente contra as encostas da maior elevação da ilha, que é 500 metros mais elevada do que o ponto culminante de Santa Maria. Quanto às consequências do acidente, a canção «L'hymne a l'amour" (Hino ao amor - abaixo), que fora estreada pouco mais de um mês antes por Édith Piaf, veio a tornar-se uma referência da relação apaixonada, mas também tumultuosa, vivida pelos dois.

27 outubro 2019

SOBRE O USO APROPRIADO DO VERBO ENCANITAR

Se há algo que me encanita é o facto de serem as duas selecções de topo de que eu menos gosto que se qualificaram para a final da Rugby World Cup de 2019. Qualificadas com todo o mérito, quase me dispenso de esclarecer, que rugby não é futebol, não se sai dos jogos com a impressão que, se o árbitro tivesse assinalado aquela grande penalidade, o desfecho poderia ter sido outro...

DEVAGARINHO E SEM GRANDE EMOÇÃO...

(Também) 27 de Outubro de 1969. O jornal do dia seguinte ao das eleições legislativas que haviam decorrido em Portugal, as primeiras sob a égide do marcelismo, descrevia-as de uma forma gráfica, sem necessidade de explicações, neste quadro acima, publicado numa das páginas do interior do jornal (p. 10). O escrutínio prosseguia sob um entusiasmo mortiço, consubstanciado nos vários campos em branco do quadro, que a demora na publicação dos resultados oficiais dificilmente se explicaria pela carga de trabalho. Exemplos: houvera 90.702 votantes no primeiro distrito do quadro, Aveiro; serão 330.999 em Abril de 1975 (3,65 vezes mais); houvera 19.224 votantes no distrito seguinte, Beja, que se transformarão em 129.191 em Abril de 1975 (6,72 vezes mais); e assim sucessivamente. Mas o que retirara interesse jornalístico ao acto eleitoral era a ausência de disputa eleitoral e de emoção. Se a «vitória da oposição na Baixa da Banheira» se transformava numa notícia, era porque as eleições em geral não tinham tido interesse nenhum.

OPERAÇÃO «GIANT LANCE»

27 de Outubro de 1969. Com a indispensável autorização presidencial, os Estados Unidos nesse dia desencadearam uma complexa operação a que deram o nome de «Giant Lance». Nela, dezoito bombardeiros B-52 (fotografia acima), todos equipados com armamento nuclear, descolaram de suas bases e percorreram rotas polares em direcção à União Soviética. Por três dias, realizando manobras projectadas para atrair deliberadamente e testar a atenção dos dispositivos de defesa aérea da URSS, os bombardeiros rondaram o espaço aéreo soviético naquilo que mais tarde veio a ser descrito como o único momento conhecido em que um presidente americano (Richard Nixon) terá decidido que fazia sentido simular a concretização de uma manobra militar que corresponderia à eclosão da III Guerra Mundial. A operação demorou três dias e decorreu, naturalmente, sob o completo desconhecimento das populações dos Estados Unidos e do resto do Mundo, cujas elites mais informadas pensavam que as cenas finais do filme Dr. Strangelove (abaixo) eram apenas o remate de uma comédia negra imaginada pelo realizador Stanley Kubrick... Ainda hoje dá arrepios saber o que aconteceu e quanto menos se falar do assunto melhor...

26 outubro 2019

O ASSASSINATO DO PRESIDENTE SUL COREANO

26 de Outubro de 1979. O presidente da Coreia do Sul, o general Park Chung-hee é assassinado. A Coreia do Sul era, então, uma ditadura militar e o assassino foi um dos próximos do presidente, o director dos serviços de informações, o também general Kim Jae-gyu. É um daqueles acontecimentos que é incompreensível, a não ser que o despojemos daqueles elevados pressupostos que se costumam atribuir aos titulares dos altos cargos públicos. A cena do assassinato, que acima vemos recriada num filme sul coreano de 2005, tem tudo para parecer um mero ajuste de contas entre mafiosos na sequência de um jantar que correu muito mal - nem falta na cena as acompanhantes de luxo, poupadas a presenciar o momento da execução. Michael Corleone tratou Solozzo da mesma maneira. No caso coreano, a ocasião foi mais sangrenta porque houve que tratar também dos guarda-costas do presidente: seis mortos no total. Quarenta anos depois, o melhor que se pode dizer quanto às causas que terão motivado o assassino (políticas? pessoais?), é que o acto foi demasiado descuidado para ter sido premeditado mas também demasiado elaborado para ter resultado apenas de um impulso.

25 outubro 2019

A BATALHA DE QUEMOY

25 de Outubro de 1949. Já aqui se falou como, por estes dias de há setenta anos, as tropas comunistas chinesas estavam a conquistar as últimas cidades costeiras ainda em poder dos nacionalistas. Só que, há setenta anos, por uma vez sofreram uma derrota humilhante quando se tentaram apoderar da ilha de Quemoy (ou Kinmen). Quemoy é uma ilha de 150 km² e de forte densidade populacional (agora tem 127.000 habitantes) situada a uns escassos 7 km das costas da China, embora a 270 km de Taipé (confira-se o mapa acima). A operação anfíbia que as tropas comunistas montaram para conquistar a ilha mostrou imensa displicência porque o que estava a acontecer tradicionalmente eram as unidades nacionalistas renderem-se sem grande resistência. Não foi assim em Quemoy. A guarnição decidiu-se a defender a ilha utilizando com eficácia a superioridade do seu equipamento - nomeadamente carros de combate e peças de artilharia. Os primeiros equilibraram a desproporção de efectivos e as últimas destruíram significativa percentagem de os navios da frota invasora, que era composta por juncos requisitados, impedindo os reforços e isolando os desembarcados. Depois de três dias de combates, os últimos soldados invasores renderam-se. Por uma vez, o número de prisioneiros da notícia que se lê abaixo não está inflacionado para efeitos de propaganda. A batalha de Quemoy foi um feito de armas significativo para aumentar a moral dos nacionalistas chineses; e uma lição para as limitações dos seus adversários comunistas: se aquilo acontecera a 7 km das suas costas, certamente não seria com meios igualmente improvisados que se poderia pensar numa operação anfíbia para a conquista da ilha de Taiwan, onde estava sediado o governo nacionalista. Mas isso não impediria que Quemoy vivesse os vinte anos que se seguiram como se se tratasse de uma fortaleza sitiada. Apesar das diferenças (a ilha chama-se Quemoy num lado e Kingmen (sic) noutro, está a 25 quilómetros a leste de Amoy num, e a sete milhas - mas do mesmo lado! - noutro), estas duas notícias do Diário de Lisboa de 25 e 27 de Outubro, referem-se ao mesmo acontecimento.