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28 maio 2021

A QUEDA DA REPÚBLICA POPULAR DEMOCRÁTICA DA ETIÓPIA

28 de Maio de 1991. As imagens que chegavam nesse dia às cadeias internacionais de televisão mostravam carros de combate de concepção soviética (T-54/55) a evoluir numa paisagem urbana afrontando uma resistência que se mostrava esporádica. Era um fim de regime, defendido sem muita convicção e, apesar de uma coreografia bem mais desorganizada, as imagens possuíam estranhas semelhanças com o que acontecera 16 anos antes em Saigão, no Vietname do Sul. Só que a cidade desta vez era Adis Abeba na Etiópia, e o que colapsava era o regime comunista do DERG, fundado em 1974 e que edificara a República Popular Democrática da Etiópia. Este outro nome oficial da Etiópia era, só por si, todo um programa político, e quando aqui no Herdeiro de Aécio expliquei o que fora o DERG, não me esqueci de assinalar quanto a história portuguesa daqueles anos (1974-91) se poderia ter assemelhado à etíope no caso - improvável, mas possível - da ala gonçalvista do MFA ter triunfado no Verão Quente. Felizmente não foi, que isto de ter uns militares radicalizados a construir a sua concepção de socialismo à sua maneira não costuma ser lá muito bem sucedido. Mas, para o que interessa em termos de efeméride, é que há precisamente 30 anos, os rebeldes etíopes (e eritreus) penetravam na capital Adis Abeba para derrubar o regime e os seus símbolos (abaixo, uma daquelas tradicionais estátuas de Lenine...). As imagens de Saigão são conhecidíssimas, estas, porque não mete americanos, e apesar de igualmente simbólicas (do colapso do comunismo), ninguém as conhece.
Esta última imagem do derrube de Lenine em terras africanas deixa-me uma questão hipotética: Será que o tal regime hipotético do MFA, encabeçado por Vasco Gonçalves, Rosa Coutinho, Varela Gomes, Diniz de Almeida, Duran Clemente, Eurico Corvacho, Mário Tomé, Matos Gomes, Ramiro Correia, etc. também edificaria uns monumentos a Lenine em terras lusitanas?... O que se pode dizer é que parecia imprescindível que um país comunista tivesse uma coisa daquelas: os cubanos, por exemplo, têm três...

09 maio 2018

A INAUGURAÇÃO DO CAMINHO DE FERRO DE DJIBUTI A ADIS ABEBA

9 de Maio de 1917. Há 101 anos inaugurava-se o caminho de ferro que ligava Adis Abeba, a capital da Etiópia (ou Abissínia, como era então conhecida), ao porto de Djibuti, na embocadura do Mar Vermelho. A Etiópia era um dos dois únicos países que sobrara independente da repartição de África feita pelas potências europeias (o outro, a Libéria, só o era formalmente e porque os Estados Unidos tinham pudor em assumir que possuíam uma colónia africana). A Etiópia não possuía saída para o mar (veja-se o mapa inserto de África na última figura). Para o alcançar e para se inserir no comércio internacional de uma forma consistente e moderna, o país teria que constituir uma parceria com uma das potências administrantes de uma das colónias vizinhas: ou os italianos, que controlavam a Eritreia e até tinham tentado conquistar a própria Etiópia (tentativa que lhes correra mal), ou os britânicos, que controlavam a Somália britânica, por onde passava muito do comércio externo abexim, mas que ocorria em volumes e valores reduzidíssimos, porque feito às costas das tradicionais caravanas de camelos e muares, ou ainda os franceses, que se haviam instalado na Somália francesa e aí fundado o porto de Djibuti em 1888, o rival estratégico de Adem, para as ligações marítimas entre a Europa e o Oriente, através do Canal do Suez.
As cerimónias da inauguração de há 101 anos representavam um sucesso da diplomacia francesa. A pequena história assegura-nos que uma boa parte desse sucesso se deverá ao facto de que o médico pessoal do imperador Menelik II, o doutor Vitalien, era originário de Guadalupe e negro - verdade é que a concessão para a construção e exploração da ferrovia, que fora atribuída em 1908, havia sido feita em nome do esculápio... À superação das rivalidades diplomáticas houve que adicionar os problemas técnicos da construção da ferrovia. Ao longo dos seus 784 km, a linha férrea tinha que ascender desde o nível do mar até aos 2.440 metros de altitude(!) a que se situa Adis Abeba. Em média e por cada quilómetro de via, existe um desnível de 3 metros, o que obrigou a que os engenheiros que a conceberam recorressem, em certos troços, a soluções de aparência periclitante, como a ponte que a imagem abaixo documenta. Outra solução para ultrapassar as dificuldades foi a escolha da bitola métrica (1.000 mm), mais estreita do que a bitola internacional (1.435 mm), o que deu mais liberdade à definição dos traçados escolhidos (possibilita curvas mais apertadas) e com menor custo na construção das obras de engenharia, embora essa escolha viesse a afectar futuramente a velocidade e a capacidade do tráfego da linha.
Todas essas vicissitudes tiveram finalmente o seu desfecho neste dia 9 de Maio de 1917. Apesar da duração das viagens superar o dia e meio, a uma média horária rondando os 20 km/hora(!), os grandes dias da exploração desta linha de caminho de ferro iriam ser as duas décadas que se seguiriam, até à invasão da Etiópia pela Itália em 1936. Depois disso, durante e mesmo depois da Segunda Guerra Mundial, a anexação da Eritreia pela Etiópia tornou supletivo o recurso a um porto estrangeiro para que a Etiópia realizasse o seu comércio externo. Foi só com a independência da Eritreia, quando a Etiópia perdeu de novo a sua fachada marítima e quando as suas relações com a sua antiga dependência se complicaram, que se tornou a pôr a questão da reactivação da ligação ferroviária entre Adis Abeba e Djibuti. Actualmente e depois de 2016, existe uma nova ligação ferroviária entre as duas cidades, construída usando a bitola padrão e cujo traçado segue de muito próximo aquele que fora o da ligação original inaugurada há 101 anos (veja-se o último mapa, em vermelho grosso a moderna, em verde fino a antiga). Mas com outra diferença significativa: os capitais para a sua construção foram, desta vez, chineses.

10 setembro 2017

O MARATONISTA NEGRO... E DESCALÇO


10 de Setembro de 1960. Há precisamente 57 anos e por ocasião dos Jogos Olímpicos que se estavam a disputar em Roma, o atleta etíope Abebe Bikila venceu a corrida da maratona (42.195 metros) em 2 horas, 15 minutos e 16 segundos, melhorando a melhor marca mundial daquela distância por um segundo! Mais insólito ainda, o novo campeão olímpico e recordista mundial da maratona cumprira a prova correndo os 42 quilómetros descalço! Escreveu-se então (e ainda hoje se repete com alguma frequência esse erro) de que se tratara do primeiro atleta da África Subsariana a sagrar-se campeão olímpico. Na verdade e a rigor, logo em 1908 um atleta sul-africano (branco) sagrara-se campeão olímpico dos 100 metros - e a África do Sul fica bastante ao sul do Sahara. O comentário e a classificação de subsariana era para ser subentendido naquelas circunstâncias como sinónimo eufemístico de negro... Todavia, apesar do muito que se escreveu a respeito de Bikila (ele voltou a ser campeão olímpico na edição seguinte dos Jogos, em Tóquio), há um outro aspecto na vitória de um etíope nas ruas de Roma que não me recordo de ver muito realçado: é que em Setembro de 1960 ainda não se haviam completado 25 anos que a Itália fascista de Mussolini invadira a Etiópia e a ocupara como possessão colonial. Mesmo depois de um quarto de século, a vitória de um etíope não podia deixar de ter um certo cariz de desforra quanto obtida naquela que fora a capital (frustrada) do Império italiano.

11 agosto 2016

GOOGLAR ETIÓPIA

Desde há uma semana que tem havido um encadeado de manifestações contra o regime etíope. Têm passado mediaticamente desapercebidas, apesar de terem provocado largas dezenas, quiçá mesmo uma centena, de mortos. Tivessem essas mesmas manifestações ocorrido na Turquia e imagine-se o quão diferente teria sido a cobertura noticiosa. Mas não é só, que o episódio acaba rematado pelo ridículo. Quem googlar agora a palavra Etiópia é capaz de descobrir que a notícia dominante a respeito daquele país é a de um nadador gordinho que ontem fez uma daquelas figuras tristes nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Público, Observador ou Diário de Notícias estão em cima do figuraço daquele que adquiriu rapidamente a alcunha Robel, a Baleia, mas ainda não arranjaram espaço nem tempo para noticiar o que está a acontecer no país da Baleia. Que raio de informação, que raio de sociedade é esta?...

16 janeiro 2015

A GUERRA DA INDEPENDÊNCIA DA ERITREIA

Quando a Assembleia Geral da Organização de Unidade Africana (OUA), organização sedeada em Adis Abeba (capital da Etiópia) no edifício da fotografia acima, aprovou na sua primeira assembleia geral em Julho de 1964 a intenção de adoptar o princípio de defender as fronteiras herdadas do período colonial, a ideia era diplomaticamente asizada apesar de aparentemente paradoxal – contornavam-se daquela forma as dezenas de conflitos potenciais que resultavam de fronteiras que haviam sido, numa esmagadora maioria das vezes, artificialmente traçadas pelas potências administrantes sem qualquer consideração pelas populações. Um pormenor escapava, porém, à esmagadora maioria dos observadores que elogiavam o pragmatismo das jovens nações africanas. É que, do ponto de vista moral e formal, aquela prudente resolução podia lesar, num caso particular, o próprio país que albergava a sede da OUA – a Etiópia.
A Etiópia era, com a Libéria (as duas regiões assinaladas a cinzento no mapa anterior), uma das duas únicas excepções de países africanos que nunca haviam sido formalmente colonizados (ou semi-colonizados, como foi o caso, por exemplo, do Egipto) durante o período de auge do colonialismo. Chegara a resistir militarmente em 1896, à tentativa italiana em a submeter. Gozava por isso de uma proeminência entre as jovens nações africanas a que não era estranha, de resto, a escolha da sua capital para sede da, também jovem, organização que as reunia depois da avalancha de independências no continente – a OUA. Porém, por causa dessa História peculiar e apesar das suas debilidades de desenvolvimento, o percurso da Etiópia durante o período do predomínio europeu sobre o continente africano, desde os finais do Século XIX até ao final da Segunda Guerra Mundial, caracterizara-se pela duplicidade: a Abissínia – como então se chamava – também se associara às partilhas coloniais, crescendo para territórios que nunca havia sido seus – caso das regiões somalis do Leste.
Outro caso em que os etíopes poderiam ser equiparados a colonizadores – estatuto muito mal visto (compreensivelmente) pela OUA - era o das suas relações com a Eritreia. A Eritreia fora uma colónia italiana desde a última década do Século XIX. Servira-lhes de base logística para os dois assaltos que os italianos haviam lançado para a conquista e colonização da Etiópia: o primeiro – fracassado – em 1896; o segundo – bem-sucedido – em 1936. Em 1945, finda a Segunda Guerra Mundial, a Etiópia apresentava-se como uma das primeiras vítimas das expansões dos países do Eixo; a Itália como um desses algozes, agora derrotados. Pareceu ser da mais elementar justiça que a ONU, sob patrocínio norte-americano, concedesse à primeira a Eritreia como uma espécie de compensação territorial, oferecendo à Etiópia uma saída para o mar (ver mapa), embora a identidade da Eritreia fosse preservada através de um regime federal (1952). Porém, a autonomia daquela nunca se concretizou e era invocando essa falta que a Frente de Libertação da Eritreia (FLE), organização aparecida em 1960 no Cairo pedia cinicamente o respeito pelas fronteiras coloniais preconizadas pela OUA, respeito esse que, se cumprido no seu sentido estrito, poderia conduzir a Eritreia à independência.
Mas todas as causas, para vingarem, têm de ter algo mais para além de uma lógica irrepreensível. Os tempos eram favoráveis às causas nacionalistas mas não a todas – como se iria ver posteriormente com o exemplo da causa da secessão do Biafra (1967-70). No caso da independência da Eritreia, pelos padrões da mensagem terceiro-mundista então em voga, a causa parecia incongruente. Os africanos em geral tinham estado todos submetidos ao jugo colonial europeu; os etíopes também, embora em menor escala, apenas a partir de 1936. Ora, no caso da Eritreia, a vítima etíope era também o carrasco, gerando aqueles desconfortos com que as grandes causas nunca gostam de lidar (veja-se o problema em concreto quando o Bangladesh se revoltou e ganhou a independência contra o colonialismo paquistanês em 1971). É assim que se justifica que as acções de guerrilha desencadeadas pela FLE ao longo da década de 1960 contra o governo etíope passassem completamente desapercebidas fora da Etiópia, ofuscadas por outras politicamente mais nobres, nomeadamente as que envolviam os movimentos nacionalistas africanos das colónias portuguesas.
Havia outros dois factores, um exógeno e outro endógeno que contribuiriam ainda mais para a discricionariedade dos combates do nacionalismo eritreu. Por um lado a Etiópia dessa época (até 1974) conseguia conjugar a benevolência das duas principais superpotências. Os Estados Unidos haviam consistentemente apoiado o regime imperial de Hailé Selassié e a União Soviética herdara – e não renegara – uma posição ambígua da Rússia quanto ao xadrez político regional, em que procurara usar a religião ortodoxa comum a etíopes e russos como factor de influência – já o exército etíope que derrotou os italianos em 1896 contava com assessores militares russos. Com isso, a luta dos eritreus não se encaixava no quadro geral da Guerra-Fria e os apoios materiais recolhidos pela FLE para a sua luta ressentiam-se. Por outro lado, a FLE começara por implantar-se em regiões muçulmanas, em aí recrutar o maior número dos seus seguidores e em sedear-se no Cairo, dando à organização uma desmesurada (e contraproducente) influência confessional: entre 50 a 60% da população da Eritreia é cristã e o cristianismo predomina nas terras altas, as regiões da Eritreia mais propícias à actividade de guerrilha. Havia um conflito confessional latente nas fileiras do nacionalismo eritreu.
Na primeira metade da década de 1970, este quadro sofreu uma substancial alteração: porque apareceu uma outra organização, a Frente Popular para a Libertação da Eritreia (FPLE), uma dissidência da FLE, com uma muito maior proporção de quadros e militantes cristãos, atraídos pelo teor político muito mais radical das suas propostas; porque simultânea e paradoxalmente, se deu um golpe de Estado também politicamente radical na Etiópia (1974), realinhando-a entre os aliados da União Soviética. Entre 1972 e 1974 houve uma espécie de guerra civil entre as duas principais organizações da guerrilha da Eritreia, com a FPLE a superiorizar-se a FLE. E a partir de 1974 houve outra espécie de guerra civil multipolar por toda a Etiópia enquanto várias facções dos militares que haviam dado o golpe de Estado em Adis Abeba se disputavam, enquanto o país era simultaneamente dilacerado por várias forças centrífugas de guerrilhas nacionalistas nas várias regiões periféricas, para além da própria Eritreia – o Tigray e a Somália (veja-se o mapa abaixo) eram os dois exemplos mais importantes.
Mas, apesar de debilitado, o (novo) aliado soviético do regime militar de inspiração marxista-leninista instalado em Adis Abeba¹ mostrou, em mais do que uma ocasião e nas várias frentes com que se confrontava, como aquela superpotência não estava disposta a que os seus aliados colapsassem. Foi o que aconteceu, por exemplo e mais ostensivamente com a Guerra do Ogaden (1977-78), quando uma Somália incentivada e apoiada materialmente pelos Estados Unidos invadiu a Etiópia oriental (onde os somalis estão em maioria e onde existia uma Frente de Libertação local), com o intuito de redesenhar aquela fronteira em seu proveito. Os combates assumiram uma faceta de guerra convencional decalcada da doutrina táctica soviética, com colunas e embates de blindados, apoiados por artilharia, em que as formações etíopes, ainda inexperientes no manejamento do material pesado recentemente enviado pelos soviéticos tinha que ser substituído por formações cubanas, como se constata do vídeo abaixo, onde um desses prisioneiros cubanos é exibido pelos somalis.

Mas essa era a guerra na Etiópia que, pela sua espectacularidade concitava as atenções da média mundial. Na Eritreia, a situação era igualmente grave para os etíopes, embora de uma forma muito mais discreta. Em 1977, Massawa, a terceira cidade e o porto mais importante da Eritreia (e por isso da Etiópia) encontrava-se completamente cercada por terra pelas forças da FPLE. Em Dezembro desse ano, querendo aproveitar a estação fresca (o que equivale a uma temperatura média entre 20 e 25ºC...), a FPLE desencadeou uma ofensiva para conquistar Massawa, onde também se localizava a principal base naval da marinha de guerra etíope. Mas os navios soviéticos acostados à base naval não hesitaram em empregar a artilharia de bordo para intervir em favor dos defensores etíopes. Mais do que o significado táctico da batalha (a FPLE teve que retirar porque não dispunha de um poder de fogo – foto abaixo - que se equiparasse ao dos navios soviéticos), a lição que se tornou importante reter para os dirigentes da FPLE foi o compromisso estratégico dos soviéticos de apoiar os seus aliados em todos os conflitos em que estava envolvido.
Depois da lição de Massawa, três características irão marcar a actuação da Frente Popular para a Libertação da Eritreia (FPLE) nos 15 anos que se seguirão até à vitória do nacionalismo eritreu. A primeira é uma acentuada conflitualidade interna, cheia de dissidências, purgas e mesmo execuções de militantes de topo, a fazer lembrar – para quem conhecer – aquilo que acontecera com a FLN argelina na década de 1950. A segunda era incorporar as lições retiradas depois das batalhas de Massawa e de Barentu: manter permanentemente a actividade insurreccional nas regiões não controladas mas fazê-lo de uma forma discreta que não parecesse ameaçar seriamente os etíopes e chamar a atenção dos soviéticos. E finalmente, a terceira, adquirir prestígio internacional, criando nas zonas por si controladas um esboço de administração, a começar por uma capital (chamada Nakfa – a fazer lembrar a contemporânea Jamba da UNITA, em Angola).
É óbvio que a criação de uma posição estática e de prestígio - acima, o campo de aterragem - cria teoricamente um alvo para as ofensivas das forças armadas adversárias, mas o histórico demonstra que: a) compete aos inimigos assumir e montar a ofensiva para chegar a essas capitais provisórias e isso nem sempre é bem-sucedido (afinal os angolanos e os cubanos nunca chegaram a conquistar a Jamba à UNITA); b) mesmo que seja bem-sucedido, quando os vencedores lá chegam, a dita capital já teria sido evacuada (era o que teria acontecido aos portugueses, se se tivessem disposto a reconquistar Madina do Boé na Guiné-Bissau). Na Eritreia, a defesa de Nafka foi pretexto para a criação de algumas epopeias na defesa da sua capital contra os etíopes. A lista dos financiadores da guerrilha da FPLE também ficara a ganhar muito com a mudança de regime em Adis Abeba em 1974 – contando agora com os Estados Unidos e com as monarquias árabes do Golfo Pérsico. O regime etíope mantinha-se mas não conseguia erradicar a subversão na Eritreia enquanto o empenho internacionalista dos soviéticos diminuía a cada ano que passava daquela década de 1980 por causa das baixas que ia sofrendo no Afeganistão. Simbólica e significativamente, uma segunda batalha travada em Massawa em Fevereiro de 1990, doze anos após a anterior e já depois da queda do Muro de Berlim, teve o desfecho inverso: a guarnição etíope foi escorraçada da cidade, um feito hoje lembrado no monumento da foto abaixo, situado no meio da cidade.
Em Maio de 1991, o regime marxista-leninista etíope instalado em Adis Abeba colapsou por completo com a fuga do seu homem forte, Mengistu Haile Mariam. Durante dois anos (1991-93) a Eritreia viveu num limbo político, um estado de facto – a FPLE apoderou-se das cidades que ainda não controlava nas quais as desmoralizadas guarnições etíopes não opuseram qualquer resistência – mas ao qual faltava o reconhecimento internacional. Este chegou em Abril de 1993, legitimado por um referendo em que 99,8% dos eleitores optaram pela independência. Mas, para que não se pense que a História que conduziu à Independência da Eritreia acaba bem, com um final feliz, acrescente-se que desde então – há quase vinte e dois anos, portanto - o país só teve um dirigente, Isaías Afwerki, e um partido no poder, evolução desmilitarizada da FPLE, a Frente Popular pela Democracia e pela Justiça – democracia e justiça que, dizem-nos organizações como a Amnistia Internacional, não têm abundado... Entre 1998 e 2000, a Eritreia e a Etiópia voltaram a defrontar-se, agora por causa da delimitação das fronteiras (abaixo) e durante os dez anos que se seguiram lá permaneceu uma força de interposição da ONU composta por 1.700 capacetes azuis. A situação permanece tensa, mas, se entre as últimas palavras de Cavour se contará alegadamente a frase A Itália existe, logo tudo está certo, no caso da Eritreia uma simplificação semelhante talvez também se justifique.
¹ Conhecido por DERG, um regime estruturalmente familiar para nós, portugueses, que vivemos o PREC, estranhamente semelhante em muitos aspectos àquele que por cá poderia ter vingado se a 25 de Novembro de 1975 tivesse ganho a outra facção (antidemocrática) do MFA.

11 janeiro 2015

OS CAMPOS DE BATALHA DA ERITREIA

Em Março de 1988, nesta portela de Asherum, travou-se uma das mais importantes e, ao mesmo tempo, mais desconhecidas batalhas das guerras de libertação de África. Ficou conhecida por batalha de Afabet em que se enfrentaram 15 a 20 mil soldados do exército etíope e efectivos ligeiramente inferiores de guerrilheiros eritreus da FPLE (Frente Popular para a Libertação da Eritreia). Apesar da sua inferioridade de equipamento, o superior ânimo moral dos guerrilheiros fê-los conseguir alcançar uma vitória militar significativa, numa das raras ocasiões da História em que um exército convencional se deixou bater em batalha frontal. Independente desde 1993, os terrenos onde se travou a batalha são agora o equivalente a uma Aljubarrota do nacionalismo eritreu. O autor da fotografia é o alemão Gunther Holtorf.

21 setembro 2012

AS MICRO-CONFERÊNCIAS DO QUINCY

Em Fevereiro de 1945, quando de regresso da Conferência em Yalta, o Presidente Franklin D. Roosevelt resolveu aproveitar a ocasião da sua vinda à Europa para promover umas outras micro-conferências com dirigentes de países não europeus. Para que ele fosse tecnicamente o anfitrião, as reuniões tiveram lugar no cruzador norte-americano USS Quincy, fundeado no Grande Lago Amargo do Canal do Suez. Foi aí que Roosevelt recebeu o jovem rei Faruk que, nem de propósito, era técnica( e teórica)mente o soberano do Egipto que rodeava o Quincy…
Outro convidado foi Hailé Selassié, imperador da Etiópia. Apesar de terem sido os britânicos a reconduzirem este último ao trono em 1941, toda esta coreografia do Aliado àqueles que classificava de actores marginais aborrecia sobremaneira Winston Churchill, um imperialista convicto, sem disposição para as sensibilidades do que viria a ser conhecido por Terceiro Mundo. E tinha alguma razão: para memória futura, daquelas reuniões só perdurou a tida com o rei Ibn-Saud da Arábia Saudita, o início de uma estreita relação entre os Estados Unidos e o petróleo saudita…

03 fevereiro 2011

A HISTÓRIA DO DERG, QUE PODERIA SER PARECIDA COM A DO MFA...

Apesar de ter sido um dos raros países africanos a não ter sido colonizado, a Etiópia nunca foi propriamente um daqueles países onde se concentrassem as atenções do Mundo, a não ser quando as secas prolongadas do Sahel provoca(va)m aquelas fomes generalizadas (1958, 1966) que obrigavam à prestação de programas de auxílio alimentar de emergência. Isso acontecera mais uma vez a partir do Outono de 1973 e dessa vez, com o regime imperial em franca desagregação, em consonância aliás com o estado físico do velho imperador Hailé Selassié (abaixo), os militares etíopes começaram a apoderar-se gradualmente do poder – uma particularidade em África, onde sempre abundaram os Golpes de Estado...
Em 28 de Junho de 1974 – ou seja, dois meses depois do nosso 25 de Abril – foi anunciada a formação do Derg (palavra correspondente a Comité no idioma local), uma Assembleia de representantes dos três ramos das Forças Armadas etíopes, da Guarda Imperial e da Polícia. Tal como acontecia com a Assembleia do MFA em Portugal, cada unidade enviava os seus delegados (no caso três) onde, como também acontecia no caso português, rareavam os oficiais superiores e generais, considerada a associação que muitos deles haviam tido com o antigo regime. Depois, a dinâmica revolucionária cada vez mais radical (dinâmica que em Portugal foi baptizada por PREC) foi triturando os protagonistas...
Mas de uma forma muito mais cruel do que em Portugal, há que o dizer. Em Agosto de 1974, quase todas as figuras destacadas do decrépito regime imperial foram presas. Em Setembro de 1974 o velho imperador, já então uma mera figura decorativa, foi deposto e também preso. A chefia transitória do Estado foi entregue ao General Aman Andom (acima), figura de transição semelhante à do General António de Spínola. Só que, em vez dos cinco meses deste (de Abril a Setembro de 1974), a estadia de Andom no poder durou apenas dois (de Setembro a Novembro de 1974) e terminou de forma muito mais sangrenta, com a sua morte violenta em circunstâncias ainda hoje não totalmente esclarecidas.
À morte de Andom seguiu-se a execução dos dignitários que haviam sido aprisionados desde Agosto, incluindo dois antigos Primeiros-Ministros da monarquia. O seu sucessor na chefia do Estado foi um Brigadeiro discreto e cauteloso (a fazer lembrar, mais uma vez, o exemplo português e o General Costa Gomes) chamado Tafari Benti (ao centro na fotografia acima) mas com o poder real a escapar progressivamente para as facções radicais representadas pelo Major Mengistu Haile Mariam (acima, à esquerda) e pelo Tenente-Coronel Atnafu Abate (à direita, de punho erguido). Em Dezembro de 1974, o Derg (como o MFA) também proclamava que a Etiópia se encontrava a caminho do socialismo…
Mas, não só se anteciparam, com se mostraram muito mais ousados que o MFA. Em Janeiro de 1975 nacionalizaram a banca e os seguros; em Fevereiro todas as grandes empresas industriais e comerciais; em Março aboliram-se os latifúndios e os terrenos agrícolas foram totalmente nacionalizados; em Julho foi a vez dos terrenos e construções urbanas. Misto de Serviço Cívico e de Campanha de Dinamização Cultural do MFA também o Derg mobilizou todos os 50.000 estudantes para esclarecerem a população camponesa sobre a Revolução. Em Abril de 1976, enquanto em Portugal se elegia democraticamente a primeira Assembleia Legislativa, o Derg proclamava que a ideologia oficial etíope passava a ser o Marxismo-Leninismo!...
Haverá várias razões para explicar a diferença dos desfechos entre o que aconteceu em Portugal e o que continuou a acontecer na Etiópia, mas nenhuma delas terá a ver com o empenho revolucionário dos militares verdadeiramente progressistas, transbordante nos dois casos. A maturidade da sociedade portuguesa terá permitido que houvesse uma ala moderada que se veio a tornar maioritária dentro da Assembleia do MFA, que se formasse o Grupo dos Nove, que tivesse havido a sabedoria suficiente para se ter realizado uma consulta popular (as eleições para a Assembleia Constituinte) e que a sociedade civil tivesse estado disposta a demonstrar nas ruas quais eram as suas opções.
Regressemos à História da Revolução etíope para especularmos como se teriam passado as coisas por cá se… O Brigadeiro Tafari Benti da fotografia mais acima conseguiu aguentar-se como chefe de Estado durante 26 meses (Costa Gomes foi Presidente durante 21…) mas acabou assassinado em Fevereiro de 1977 na altura em que Benti prepararia um discreto golpe palaciano para afastar Mengistu Haile Mariam. Como a do seu antecessor, a morte de Benti também se deu em circunstâncias controversas, numa troca de tiros travada no Palácio. Mengistu substituiu-o e ficou tacitamente aprazada a disputa final com o seu rival Atnafu Abate… Este acabou sendo fuzilado em Novembro de 1977.
Nesse momento da Revolução já o poder se personalizara em Mengistu Haile Mariam (acima). Os seus inimigos eram inúmeros e incluíam membros do seu próprio campo ideológico porque tacticamente ele preferira decapitar os próprios partidos revolucionários etíopes (o PRPE e o Meison) para criar um seu, o Partido dos Trabalhadores da Etiópia. Isso não parece ter incomodado os seus aliados cubanos (abaixo) que, nos momentos de maior aflição – com inimigos externos (Somália), várias guerrilhas internas e oposição política clandestina – chegaram a manter um contingente de 17.000 soldados para apoiar o regime. Claro que em 1991, depois da Queda do Muro, tudo aquilo se desmoronou e veio abaixo…
Mengistu veio a refugiar-se no Zimbabué onde ainda permanece, apesar das solicitações das autoridades etíopes para que ele seja julgado, mas a pergunta que gostaria de deixar era outra: tivessem triunfado as vanguardas militares esclarecidas do PREC, quem seria o oficial que, saído das fileiras do MFA e depois de afastar todos os seus rivais, assumiria o protagonismo da nossa Revolução Socialista?... Adenda de dia 4: Fizeram-me sentir que a forma como terminava o poste, formulando a pergunta, mas não respondendo era uma desilusão… Decidi pois acrescentar algumas sugestões de nomes de jovens oficiais do MFA com visibilidade, ambição e imbuídos do espírito mais revolucionário: Diniz de Almeida, Duran Clemente, Eurico Corvacho, Mário Tomé, Ramiro Correia…

03 maio 2008

O PAÍS DA CIDADE "PEDRADA"

O khat é uma planta que se pensa ser originária de África (supõe-se da Etiópia) mas que também se cultiva no Sul da Península Arábica e que contem um estimulante natural, que produz efeitos semelhantes aos das anfetaminas. Em países como o Yemen, a Etiópia, a Somália ou a Eritreia, de há muito que faz parte da cultura local mascar socialmente a planta, que é preparada para consumo como aparece na fotografia abaixo.
Apesar de transmitir, como seria de esperar, uma sensação de bem-estar ao consumidor, o hábito de mascar khat levanta os mesmos problemas que o consumo regular de qualquer outro tipo de estupefaciente, álcool ou tabaco. Até agora, o preço do produto, relativamente elevado para o nível de vida local, tinha servido de travão aos níveis de consumo mas, actualmente, a prosperidade relativa de um pequeno país da região vira-se contra ele.
O pequeno país é o Djibuti, uma antiga colónia francesa, composta principalmente pelo porto do mesmo nome, estrategicamente localizado na embocadura do Mar Vermelho e que se tornou independente em 1977. Apesar da maioria da população ser somali, o país e os seus habitantes preferiram permanecer como nação independente, beneficiando do facto de Djibuti ser o porto de comércio marítimo exclusivo da Etiópia desde 1991.
Como acontecia outrora em Moçambique com Lourenço Marques (em relação ao Transvaal) e com a Beira (em relação à Rodésia), a cidade e porto de Djibuti (onde habitam 400.000 habitantes, o que representa mais de 80% da população total do pais) vive uma prosperidade assente no sector dos serviços associados ao comércio externo de um grande vizinho. Os djibutianos são relativamente prósperos e gostam muito de khat…
Ultimamente, e como acontecerá com muitas coisas neste mundo, mais do que uso, tem sido o crescente abuso do consumo de khat que tem deixado preocupadas as autoridades djibutianas. Outrora comparada a uma espécie de Hong-Kong do Oceano Índico, a dinâmica da cidade, que nunca foi muito alta, tem vindo a diminuir cada vez mais. Depois da hora da sesta, é frequente já não se trabalhar mais, tal é a pedrada do khat entretanto mascado…

30 dezembro 2006

ADOWA, TSUSHIMA, GALIPOLI

O mundo da década de 1880, quando algumas potências europeias decidiram repartir as terras dos somalis, era um mundo onde a ordem internacional era definida pelos países europeus – aliás, haviam sido eles próprios os criadores desse conceito quando aplicado à escala mundial – e onde a sua superioridade – sobretudo militar – se tornara, pelo acumular de resultados, num axioma.

É neste enquadramento que se tornaram mais importantes aqueles acontecimentos que contrariaram aquela corrente dominante, em especial os conflitos – ou suas fases – de onde as potências europeias saíram inequívoca e confessadamente derrotadas por países alheios a esse clube selecto. Ocorridos em décadas consecutivas, vale a pena relembrar os episódios de Adowa (1896), Tsushima (1905) e Galipoli (1915). Ainda hoje, se nota que os vencedores de cada um deles (a Etiópia, o Japão e a Turquia) gozam de um prestígio adicional por se terem oposto à hegemonia do homem branco.

Adowa (figura acima) foi uma batalha decisiva do conflito que opôs o exército colonial italiano e as forças etíopes na Primeira Guerra Ítalo-Abissínia (1895-96), quando os primeiros tentaram estender ao país dos segundos o seu Império Colonial africano. Inesperadamente, o superior enquadramento dos exércitos coloniais europeus, que lhes permitia derrotar inimigos que dispunham de mais do quádruplo dos seus efectivos*, fracassou neste caso com o exército italiano, e as suas formações desagregaram-se. A Etiópia conseguiu preservar a sua independência (o único estado africano a fazê-lo) - até à próxima Guerra Ítalo-Abissínia (1935-36)...

Por detrás das causas próximas para a Batalha Naval de Tsushima, que pôs termo à Guerra Russo-Japonesa (1904-05), estão as rivalidades dos interesses dos dois países em relação à sua expansão na China. E, por causa do sítio onde se travou a Guerra, não restavam grandes opções aos russos senão a de projectar o seu poder militar através da sua Armada, porque a hipótese de suportar um dos colossais exércitos russos no Extremo Oriente, sem que houvesse meios de transporte adequados para o sustentar, estava naturalmente excluída. Mesmo assim, houve que esperar meses para que a Armada russa alcançasse o Extremo Oriente e ali desse batalha à sua homóloga japonesa, que resultou numa vitória esmagadora desta última.
O desembarque em Galipoli tratou-se apenas de um episódio colateral (1915-16) inserido na Primeira Guerra Mundial (1914-18) e, ao contrário dos anteriores, não se tornou decisivo para o seu desfecho. Tratou-se de uma gigantesca operação anfíbia com um enorme apoio naval, que falhou. Em contrapartida, vale muito mais pela importância das potências europeias envolvidas (Reino Unido e França contra a Turquia) que, com o seu clamoroso fracasso, provaram o sabor de uma derrota que, nos episódios anteriores de Adowa e Tsushima, os seus especialistas condescendentemente tinham atribuído às ineficiências das forças armadas das potências rivais.

Do ponto de vista militar, creio que seria difícil juntar três batalhas mais distintas: houve uma batalha terrestre colonial clássica de desfecho inesperado, uma batalha naval clássica (o exemplo escolar da batalha dos couraçados movidos a carvão) e uma das mais extensas operações anfíbias montadas até então – associando aspectos terrestres e navais. Comentá-las mereceria um poste exclusivo para cada uma. O que as une é um outro aspecto completamente distinto: a exploração política que foi feita do seu desfecho por parte dos seus contendores. Etiópia, Japão e Turquia eram, depois delas, países com outro ânimo e com outro estatuto. Estes exemplos tornam límpido o que Clausewitz teria querido dizer quando escreveu, muitos anos antes destes acontecimentos, que a guerra era a continuação da política por outros meios.

*Estima-se que seriam cerca de 20.000 do lado italiano contra cerca de 100.000 (dos quais 80.000 armados com armas de fogo) do lado etíope.

27 dezembro 2006

UMA PEQUENA HISTÓRIA DOS SOMALIS E DA SOMÁLIA

Como acontece frequentemente nas histórias nacionais, a história da nação (Somália) e a do seu povo (somali) acabam por divergir ligeiramente, porque nem toda a população da Somália é somali, nem todos os somalis são cidadãos da Somália. A maioria das razões invocadas para as grandes disputas internacionais resultam de um daqueles factores, e este mais recente, envolvendo a Somália e a Etiópia, não é excepção.

Como também acontece frequentemente, a história dos somalis antecede em muito a constituição do estado que tem o seu nome. Há referências escritas – pelos árabes - às populações nómadas que são hoje conhecidas por somalis desde o final do primeiro milénio (século IX e X). Os comerciantes árabes, já instalados nas cidades litorais, viram-nos chegar e substituir os africanos bantos no predomínio das regiões do interior.

Sendo nómadas, note-se que somali é uma designação genérica que abrange cinco grandes grupos (Dir, Issak, Darod, Hawiye e Sab), que por sua vez se subdividem em clãs e estes em tribos. O cimento que reagrupa esta enorme heterogeneidade é a língua somali, um idioma falado por 10 a 16 milhões de pessoas. E a variabilidade desta última estimativa é também indicativa da instabilidade da situação em que se vive naquela região.

Pertencendo desde há muito à esfera de influência da civilização muçulmana – os Darod foram o último grande grupo somali a abraçar à religião muçulmana no século XVI – só mesmo nos finais do século XIX (na década de 1880) é que os europeus vieram a estabelecer as suas colónias em terras somalis. E estas acabaram por ser repartidas por quatro soberanias distintas, uma das quais nem era europeia: italiana, britânica, francesa e etíope.

Para franceses (Djibuti) e ingleses (Somaliland), o critério para a configuração das respectivas colónias foi o do estabelecimento de entrepostos marítimos à entrada do Mar Vermelho, que se havia tornado numa artéria indispensável, depois da construção do Canal do Suez, para a ligação marítima entre as metrópoles e as suas grandes possessões asiáticas: a Indochina francesa e a Índia britânica. Pelo contrário, para a novíssima Itália (unificada em 1861) a parcela da Somália que lhe havia calhado – a maior – era uma questão de prestígio.

Por conveniência do equilíbrio de poderes entre europeus, uma parcela do interior, semi-desértica, conhecida como o Ogaden, foi atribuída à Abissínia (hoje Etiópia), que foi o único estado africano a ter permanecido independente durante esta fase da partilha do continente* pelas potências europeias e que, como vemos por este caso, até se beneficiou com ela. Traçadas as fronteiras, a Etiópia ficou com a contar na sua população com uma significativa minoria somali (6%), para mais extremamente concentrada nas suas regiões orientais.
As ambições de reunificação pan-somalis foram um pretexto assumido pelos italianos em nome dos seus colonizados nas suas manobras para a anexação da Etiópia que, tentada uma vez em 1896 e culminada num indecente fracasso (foi o único registado em África…), só veio a ser concretizado em 1936 (com a reconfiguração da fronteira que se vê na imagem de cima da direita) para ser imediatamente desfeita com a derrota italiana pelos britânicos logo no início da Segunda Guerra Mundial (1941).

As duas maiores colónias somalis (a italiana e a britânica) reuniram-se em 1960 para constituírem a nova Somália independente. Todavia, quando a antiga Somália francesa, se tornou independente em 1977, com o nome de Djibuti, não se reuniu ao restante conjunto. O novo país poderia beneficiar da circunstância de se vir a tornar o porto de trânsito de todo o comércio etíope com o exterior por via marítima, na eventualidade da Etiópia vir a perder os portos da Eritreia, o que veio a acontecer em 1993, quando esta última região se tornou um país independente.

Tendo a relação entre etíopes e eritreus permanecido regularmente tensa desde aí, por causa de disputas fronteiriças que ficaram por resolver, Djibuti tem beneficiado por ter seguido uma política externa autónoma e distinta da dos seus vizinhos somalis que, além de uma dinâmica expansionista relativamente aos países vizinhos (Etiópia, Djibuti e Quénia), são também conhecidos por uma dinâmica permanentemente quezilenta entre os seus vários clãs. Tanto, que são um dos raros países do mundo onde não se reconhece a existência - porque não existe! - de uma autoridade central.

Estes recentes episódios que, mais uma vez, parecem pôr em confronto etíopes e somalis (há somalis dos dois lados do conflito) parecem ser uma combinação de disputas internas e externas a que há que adicionar o factor picante e moderno do extremismo religioso propagandeado por um dos lados, um movimento designado por União dos Tribunais Islâmicos que, para além de estar a tentar controlar o resto da Somália que ainda escapa ao seu controle, fez transbordar esse conflito para as regiões de etnia somali dos países vizinhos. Essencialmente, nada de realmente novo, talvez apenas uma refrescada cobertura mediática a respeito dos litigantes.

Fica um comentário final para a ironia do facto de ninguém contestar o carácter nacional somali das populações que habitam os territórios vizinhos que a Somália pretenderia anexar. Fosse esta disputa num continente como o Europeu e, segundo o princípio das nacionalidades, a razão pertencer-lhe-ia inteiramente. Contudo a Somália é africana, o continente em que, infelizmente para ela, questionar e redesenhar as fronteiras herdadas do período colonial seria a antecâmara de um apocalipse generalizado…

* O outro país a respeitar formalmente esse estatuto foi a Libéria, que era uma colónia norte-americana em todos os outros aspectos, excepto no nome.

Nota: O último mapa consta, em várias versões, da Wikipedia, onde ilustra a cobertura do actual conflito e onde se pode acompanhar a evolução da implantação das várias facções. Os riscos vermelhos representam as fronteiras internacionais.