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27 fevereiro 2018

O CLÍMAX DO REFLUXO DO ESPÍRITO DA DESCOLONIZAÇÃO

27 de Fevereiro de 1978. Com as declarações proferidas pelo coronel Gaddafi na OUA, Portugal vê-se obrigado a explicar-se na ONU porque é que não descolonizou ainda mais. O dirigente líbio (que mais tarde veio a ser um grande amigo de Portugal) olhou para um Atlas, onde constatou que a Madeira se localizava em latitudes africanas, e deve ter sabido pelos seus serviços de informações que, durante o PREC, aparecera por lá um movimento independentista denominado Flama. A Flama (Frente de Libertação do Arquipélago da Madeira) tinha até um braço armado, denominado Brima (Brigadas Revolucionárias da Independência da Madeira), como então estava na moda (recorde-se que, no mesmo estilo, cá no contenente havia o PRP e as BR adjacentes). Uma ou outra, a verdade é que, durante o PREC e mesmo depois, os independentistas madeirenses se tinham distinguido por andar a colocar bombas. Muitas. E nesse aspecto a Flama tinha mostrado ter uma acção revolucionária muito mais activa em prol da autodeterminação do povo madeirense do que havia sido feito, comparativamente, pelo PAIGC em Cabo Verde ou pelo MLSTP em São Tomé e Príncipe (essencialmente nada). O problema dos serviços de informação líbios é que eles não haviam captado as subtilezas da política local, o espírito brincalhão de alguns dos seus protagonistas. Tudo aquilo não era propriamente para levar a sério, e, por consequência, o que aconteceu é que eles deixaram o líder fraternal e guia da revolução líbia a fazer uma triste figura ao apoiar uma causa em plena OUA, que já não queria ser apoiada. Dali por menos de três semanas Alberto João Jardim tomaria posse como o 2º presidente do governo regional da Madeira. Há quarenta anos, o governo português sentia-se compelido a emitir uma nota de imprensa, justificando-se do que a distância temporal mostra que era injustificável: Portugal não tinha que se justificar, nem tinha lições de Democracia a receber de uma ditadura unipessoal.

15 outubro 2016

O GOLPE, EM JEITO DE COMENTÁRIO DE TWITTER

A novidade da notícia da eclosão desta tentativa de golpe de Estado na Líbia é a pretensão subjacente de que ali exista um Estado, mais do que ele tenha sido golpeado...

03 setembro 2014

NOVOS PROCESSOS DE TRATAMENTO DA OBESIDADE: GUERRAS CIVIS EM PAÍSES DE GORDUCHOS

Podemos apreciar acima um mapa do Mundo mostrando a prevalência da obesidade por país. Não será surpreendente encontrar os Estados Unidos na categoria dos países mais gordos, com uma prevalência de obesos superior a 30% da população. Surpresa será a ausência nesse grupo de países europeus e a presença de outros como o México, a Venezuela, a África do Sul e um punhado de países árabes do Médio Oriente. Sobretudo, no último grupo, países que estão a ser devastados por guerras civis como a Líbia e a Síria, onde os combates e a insegurança poderão estar a provocar nas populações locais tratamentos de emagrecimento tão eficazes e radicais como aqueles que outrora fizeram a fama e a fortuna do doutor Tallon

18 setembro 2011

QUANDO A FICÇÃO ANTECIPA A REALIDADE

Foi nos princípios dos anos 70 que a revista Tintin começou a publicar as aventuras de Tanguy e Laverdure. A primeira intitulava-se O Alferes Bang-Bang (Lieutenant Double Bang no original) e contava-nos a história de um misterioso instruendo de origem árabe que os dois famosos pilotos franceses haviam recebido na sua base de Dijon. O Alferes Azraf, por alcunha Bang-Bang (que se assemelhava muito em fisionomia e compleição ao Rei Hussein da Jordânia), tornava-se súbita e inesperadamente o soberano de um Emirato na Península Arábica, rico em petróleo, um país imaginário chamado Sarrakat. Entretanto, uma empresa petrolífera rival chamada Middle East Petroleum aproveitara-se da situação para financiar um golpe de estado no país, fazendo com que os seus aliados se apossassem do poder.
A viagem de regresso de Azraf ao seu país natal acompanhado de Tanguy e Laverdure mostrou-se recheada de peripécias. Na aventura que se segue, intitulada Luta no Deserto (Baroud sur le Desert no original), o Príncipe Azraf, que parece gozar do apoio indefectível das populações, tem de lutar, usando o apoio dos dois Mirage III dos seus antigos instrutores, contra a enorme superioridade tecnológica das forças militares regulares do regime rival armadas com os fundos da sinistra Middle East Petroleum. Sendo muito sofisticada para a época, no final o argumentista Jean-Michel Charlier tem de respeitar os cânones das aventuras daquele género e Azraf acaba por triunfar com as suas forças tradicionalistas invadindo o último reduto do regime usurpador – naturalmente, tratava-se de uma base aérea…
Onde o argumento de Jean-Michel Charlier se mostra inovador é na sequela a estas duas aventuras que é também composta de dois álbuns – Mission «Derniére Chance» e Un DC-8 a Disparu (Missão «Última Oportunidade» e Desapareceu um DC-8¹). O Emir Azraf vencera a guerra civil mas isso não fora o fim dos problemas de Sarrakat. Os antigos opositores, por muito mercenários que tivessem sido sob as ordens da malévola Middle East Petroleum, passaram agora a rebeldes, desenvolvendo uma actividade de guerrilha contra a monarquia, estando em certa fase, quase à beira de reconquistar o poder... Não consigo evitar estabelecer o paralelo entre esta sequela e aquilo a que temos assistido na Líbia, onde as forças pró-Gaddafi mesmo formadas por mercenários parecem manter a vontade de resistir
¹ Segundo sei, nenhum dos álbuns foi editado em português.

27 agosto 2011

O TELE-JORNALISMO «SIRENES EM BAGDAD!?»

Tinha-o aqui baptizado de Tele-jornalismo caqui por ocasião do Golpe de Estado na Guiné-Bissau em Março de 2009, mas tenho que confessar-vos que Cândida Pinto me tem dado as voltas quanto a uniformes, como se pode apreciar acima… Foi assim que o resolvi rebaptizar como Tele-jornalismo «Sirenes em Bagdad!?» o estilo de tele-jornalismo que é praticado por aquela repórter da SIC. O título afigura-se-me mais perene por ser independente das correntes da moda do vestuário das lojas do Coronel Tapiocca (abaixo) e vai inspirar-se a uma famosa interrupção protagonizada por um antigo tele-jornalista daquele mesmo estilo embora já retirado de actividade (José Rodrigues dos Santos da RTP), que, em plena Guerra do Iraque, deu em interromper (de Lisboa) o despacho que o enviado da sua estação (Carlos Fino) estava a fazer por causa do som de sirenes que se haviam começado a ouvir: - Carlos Fino! Carlos Fino! Sirenes em Bagdad!? Sirenes em Bagdad!? Naquele momento Carlos Fino estava em directo, na varanda do quarto do Hotel, em frente ao operador de câmara a ler o despacho que preparara para enviar para Lisboa. Que raio poderia ele saber e dizer sobre as sirenes a não ser o óbvio: que elas estavam a tocar?!... É este frenesim informativo relata-primeiro-pensa-depois que identifica o estilo. A cabeça de um destes tele-jornalistas, mesmo depois de afastado dos locais da acção como era já então o caso de José Rodrigues dos Santos, parece funcionar dessa maneira simplificada e deve ser aproveitado predominantemente para o uso de chapéus exóticos que estas zonas de guerra são tradicionalmente soalheiras… Se atendermos no conteúdo do trecho de reportagem sobre a situação líbia que passou ontem na SIC e que insiro mais abaixo, não há ali nada em termos informativos substanciais que se possa dizer que só se obteve devido à presença da repórter no local. Há evidências: cadáveres, que costumam ser o subproduto de uma guerra… Há lugares-comuns: as queixas de que há falta de pessoal e meios para tratar tantos feridos ou que o Hospital de Tripoli é incapaz de dar resposta à situação; haveria algum hospital civil no Mundo capaz de o fazer naquelas mesmas circunstâncias?… E há peças de propaganda pura: Muitos estudantes de medicina estão a oferecer-se para ajudar nos Hospitais… Quem afirmou isso, onde estão esses estudantes?... Novidade mesmo, só a coisa branca que Cândida Pinto traz à cabeça: nunca tinha visto capacete que assentasse de forma tão parecida a um penico

20 março 2011

A RESOLUÇÃO 1973

Que não fiquem quaisquer dúvidas como as fotografias da Praça Tahrir no Cairo (acima) são muito mais espectaculares que as da enorme Mesa Redonda do Conselho de Segurança da ONU em Nova Iorque (abaixo). Mas quem quer passar por analista destes assuntos tem de saber distinguir os sítios onde as coisas acontecem e os sítios onde parece que as coisas acontecem – o que não tem nada a ver com a espectacularidade das imagens e os considerandos sobre as revoluções e vontades populares que aparecem no balanço…
Na Mesa Redonda, representantes de 15 países aprovaram – com 10 votos favoráveis e 5 abstenções – a Resolução 1973 que estabeleceu uma base legal para a intervenção militar de alguns deles na Líbia. Como seria de esperar, enquanto se abstinham no voto, Rússia, China e Índia demarcavam-se pela porta das traseiras, lamentando a intervenção. Menos expectável, mas significativo do que vale a União Europeia em política externa, foi a abstenção da Alemanha, desalinhada dos votos dos seus aliados europeus…
É previsível que a intervenção aérea entretanto desencadeada – e sobretudo publicitada! – pela aviação francesa tenderá a neutralizar a superioridade militar que as forças governamentais líbias tinham vindo a exercer no terreno para grande desapontamento dos enviados especiais. O futuro do Coronel Gaddafi e do seu regime parece, a partir de agora e com este apoio aos rebeldes, mais comprometido do que nunca, mas o desejo de liberdade e as movimentações das massas árabes para a obter nada têm a ver com isso…

14 março 2011

O FIASCO INFORMATIVO NA LÍBIA


Há que reconhecer como a cobertura noticiosa que se está a dar à Guerra Civil que se declarou na Líbia está a ter uma perspectiva de farsa por detrás da tragédia. A revolta dita popular pareceu surgir com o balanço dos acontecimentos da Tunísia e do Egipto e apareceram logo os patetas que, pelo princípio da semelhança, se apressaram a considerá-la imparável, sem se aperceberem sequer que a força é o factor essencial no derrube dos regimes autocráticos e que os militares que a detêm na Líbia sempre se mantiveram ao lado de Gaddafi.

Os enviados especiais das televisões foram despachados para Tripoli, capital da Líbia, cruzando-se com os refugiados estrangeiros que fugiam do país e ali ficaram a aguardar a reportagem do derrube com as imagens da população a celebrar nas ruas… Afinal, o resultado está a revelar-se um fiasco! Gaddafi tem um poder militar muito superior aos opositores, não tem vergonha de o empregar e está a escorraçá-los dos seus redutos. E as reportagens que de lá vêm (abaixo), em vez do bom povo a derrubar o ditador mau, mostram mau povo a apoiá-lo…
A questão líbia está longe de estar encerrada mas certamente não terminará daquela maneira lírica que os repórteres caqui como a Cândida Pinto previsivelmente antecipariam ter ido para lá cobrir…

02 março 2011

UMA HISTÓRIA DA LÍBIA… DE HÁ 1650 ANOS ATRÀS

Léptis Magna foi uma próspera cidade da Líbia, localizada a 130 km a Leste da actual capital do país, Tripoli, e célebre na Antiguidade por ter sido o berço do Imperador romano Septímio Severo (146-211 d.C.). Ainda hoje, se encontram no local algumas das ruínas mais impressionantes da Antiguidade (acima). A nossa história começa 150 anos depois da morte do mais ilustre filho da terra quando, ao longo da década de 360, os arredores da cidade, já então protegida por muralhas, se viram repetidamente alvo de ataques e pilhagens de tribos nómadas oriundas das regiões desérticas do interior.

A Administração local, os Conselheiros municipais de Léptis Magna, pediram auxílio a Romano, o Comandante Militar da província. Este reuniu um contingente para o efeito e pediu que o município contribuísse com 4.000 camelos. Embora fosse prática da época que os municípios contribuíssem logisticamente para este tipo de operações, é muito provável que este pedido de Romano, dada a dimensão do contingente, fosse irrazoável. Romano deveria estar interessado em enriquecer à custa dos animais excedentários, que depois revenderia. Os Edis de Léptis Magna é que não alinharam no estratagema...

…e Romano mandou retirar as suas tropas. Os raides continuaram. Uma delegação de notáveis de Léptis Magna partiu para Milão, no Norte da Itália, para se encontrar com o Imperador Valentiniano I (321-375) e lhe dar conta da situação. Romano apresentou a sua versão dos acontecimentos, mas as notícias que lhe chegavam do Norte de África fizeram com que Valentiniano se decidisse a investigar a situação localmente através do seu funcionário Paládio, que entretanto fora encarregado de transportar para aquela província os salários dos militares ali colocados e agora se via promovido a inspector…

Acontece que o pagamento anual dos soldados romanos era outro negócio sórdido. Os diversos comandos locais inflacionavam as listas dos efectivos sob seu comando para receberem os salários dos soldados virtuais. Mas, para que isso se concretizasse, era também precisa a cumplicidade dos funcionários como Paládio, que estavam presentes no acto do pagamento. Paládio estava envolvido nesses esquemas, Romano sabia disso e chantageou-o quando o primeiro teve que elaborar o seu relatório para entregar ao Imperador. E assim Valentiniano ficou esclarecido: os queixosos de Léptis foram executados…

Para que a história não fosse completamente imoral, o narrador original (Amiano Marcelino) acrescentou que, alguns anos depois, em 373, a incompetência e a venalidade de Romano haviam provocado uma situação de insegurança tal na África romana que se desencadeou uma Revolta que desafiou a própria autoridade central do Imperador Valentiniano I. Este teve que enviar um corpo expedicionário para a dominar comandado por Teodósio. E as investigações deste último acabaram por descobrir a verdade do pacto firmado anos antes por Romano e Paládio. Os dois cúmplices foram, por sua vez, executados…

Mas, apenas para provar que, para existir moralidade nas histórias destes tempos turbulentos da Antiguidade, isso tem mais a ver com o momento em que as damos por findas do que com a Verdade histórica e a aplicação da Justiça, acrescente-se que passados uns escassos três anos, veio a ser a vez de Teodósio que, mesmo tendo sido o vencedor da Revolta africana e o justiceiro da história anterior, acabou por subir por sua vez ao cadafalso…

24 fevereiro 2011

SOBRECARGA

Houve um terramoto na Nova Zelândia. Terão morrido centenas de pessoas. E há manifestações contestando os regimes no poder no Bahrein, na Líbia e no Yemen. Mas também há limites para a distribuição das simpatias e compaixões do público com tantos assuntos quentes no noticiário internacional. Por isso, tornou-se essencial seleccionar e optou-se pela Líbia cujo dirigente é o mais conhecido, mais exótico e mais mau – e assim o mais propenso a ser detestado, que é afinal aquilo de que o público gosta: enredos com bons e maus. Por fim, há ainda as consequências, como é o caso do aumento do preço do petróleo, por exemplo…

Em suma, está-se num tal estado de sobrecarga informativa que até se deixou passar o 23 de Fevereiro e os 30 anos decorridos sobre a tentativa de Golpe de Estado em Espanha (1981) sem que a efeméride tivesse sido trabalhada devidamente. Só que, convém recordar como, ao contrário do jornalismo, a verdadeira importância histórica dos assuntos não se compacta às páginas ou ao horário disponível nos órgãos de informação. Para mais quando o importante por vezes é até a sua ausência, como será o caso da inexistência de notícias revolucionárias após as Revoluções que abalaram recentemente a Tunísia e o Egipto

23 fevereiro 2011

«STOVEPIPING»? (2)


Como descrevi nas notas do poste abaixo, a palavra stovepiping serve para descrever várias formas de distorcer as informações que se distribuem sem as apresentar no contexto adequado. Acima, num vídeo da Associated Press, podemos ver uma Base Militar (Aérea, se atendermos aos mísseis AA SA-2 Guideline das imagens) localizada em Tobruk que terá sido abandonada pela sua guarnição. Porém, quando se consulta uma fotografia de satélite do Google feita anteriormente sobre aquela mesma região (na ligação a fotografia pode ser ainda mais ampliada do que a escala usada abaixo), apercebemo-nos que a Base Aérea já não parece estar operacional há muito - comparem-se aquelas imagens com as do porto e da cidade. No vídeo, estaremos a ver mesmo imagens de uma Base Militar em Tobruk? Haverá então mais do que uma Base Aérea em Tobruk? E se a guarnição abandonou a Base, porque não preferiram recolher então imagens com as casernas abandonadas?...

LÍBIA E OS «ESPECIALISTAS»

Há coisa de um ano e meio li com muito interesse este livro acima, sobre a História da Líbia, um tópico que vi raramente ser abordado, especialmente com a profundidade com que ali era feito. Com essa leitura aprendi, entre outras coisas, que ao contrário de muitos outros dirigentes árabes de países produtores de petróleo, Gaddafi não é venal, o que explicará uma boa parte da péssima imagem que ele possui no exterior, fomentada pelas petrolíferas que ele acabou por despojar da maioria dos direitos que possuíam. Aprendi também que Gaddafi é excêntrico, de uma excentricidade de fazer lembrar as histórias dos imperadores romanos loucos, mas que essa excentricidade não quer dizer que ele transija quando o assunto é o do exercício do poder. Como acontecia, por exemplo, com Mao Zedong na China, também Gaddafi prefere deixar a gestão dos assuntos correntes a outros, mas reter o poder efectivo.
Como se pode ler na página 258 do livro acima (a tradução é minha): Uma característica marcada do regime de Gaddafi, são as remodelações ministeriais, a forma preferida de evitar que qualquer competidor político potencial alicerce uma base de poder alternativa à sua. As remodelações são frequentes mas, surpreendentemente, envolvem quase sempre os mesmos protagonistas. De acordo com uma estimativa, durante os primeiros 30 anos do regime (i.e. entre 1969 e 1999), pelo Comité Geral Popular (o equivalente ao governo) passaram somente 112 pessoas, um número excepcionalmente baixo tendo em conta que muitos ocuparam os seus cargos por períodos não superiores a um ou dois anos. A maioria desses ministros são tecnocratas, da geração de Gaddafi, que parecem contentar-se em serem peões desta rotação de cadeiras. O sistema faz com que Gaddafi paire sobre a política do quotidiano (…)

Mas o objectivo deste poste não é exibir o conteúdo do livro sobre a Líbia que li. É, sobretudo, o de manifestar a minha total surpresa quando subitamente, declarada a Revolução na Líbia, leio tanto a imprensa escrita quanto os blogues e me descubro rodeado de especialistas, profundos conhecedores tanto da personalidade de Gaddafi como da realidade líbia. Pelos vistos, ando a malbaratar o dinheiro adquirindo livros sobre temas que considerava remotos… Para não me arrepender depois, não haverá por aí algum especialista que me faça poupar antecipadamente, agora que me decidi a estudá-la, aquilo que vou ter de gastar numa História da Argentina?...

17 fevereiro 2011

AS CONTESTAÇÕES POPULARES CHEGARAM À LÍBIA

Porque assinalei previamente como a propagação da revolta no mundo árabe a parecia evitar, é importante assinalar a chegada das contestações populares àquele país. E destacar três aspectos importantes. Em primeiro lugar, há o facto das manifestações iniciais terem tido lugar, não na capital, Trípoli, mas em Bengasi, que é a segunda maior cidade líbia e a mais importante da Cirenaica (veja-se o mapa acima). A contestação ao regime parece ter assumido também um cariz regional - o que normalmente as enfraquece. Em segundo lugar, constata-se que o regime de Gaddafi parece ter tido tempo de montar um plano de reacção a estas contingências, atirando para a rua os seus manifestantes e bloqueando as notícias contrárias recorrendo ao monopólio informativo de que dispõe localmente. Em terceiro e último lugar, adicione-se (abaixo) um gráfico – embora esteja um pouco desactualizado (2006) - com os principais clientes do petróleo líbio, para antecipar qual o comportamento de alguns países – incluindo o nosso – em relação aos acontecimentos...
Agora quanto às hipóteses que o desfecho destas contestações sejam idênticas às tunisinas e às egípcias, tenho imensas dúvidas...

11 fevereiro 2011

O VIZINHO

Ainda a propósito do fenómeno das Revoluções que se propagam da Tunísia para o Egipto saltando por cima da Líbia, no meio de todos os adjectivos satisfeitos com que se comentam os acontecimentos mais recentes do Cairo venho recuperar esta pequena notícia do Público ainda de hoje:

O Líder líbio, Muammar Gaddafi, está a tentar impedir manifestações convocadas para quinta-feira, dizem fontes líbias citadas pelo diário (espanhol) El País. Em reuniões com jornalistas e activistas o Líder líbio, no poder desde 1969, avisa para as responsabilidades de quem tenta fomentar o caos.

28 janeiro 2011

OS PERCURSOS SINUOSOS DA PROPAGAÇÃO DAS REVOLTAS NOS PAÍSES ÁRABES

As notícias informaram-nos primeiro da contestação nas ruas na Tunísia. Agora, após o derrube daquele regime, e tentando aproveitar a dinâmica da contestação tunisina, os protestos propagaram-se ao Egipto e já atingiram o Iémen. As situações em cada país podem divergir pontualmente, mas explicaram-nos que todos esses países são ditaduras pessoais que se arrast(ar)am por decénios (23 anos na Tunísia, 29 no Egipto e 32 no Iémen) .
O que ninguém parece conseguir explicar é a lógica da propagação das contestações que as faz saltitar, eclodindo nuns países árabes, evitando outros. No mapa acima, veja-se como a dinâmica de contestação se propaga da Tunísia para o Egipto não se dando notícias de qualquer contaminação da Líbia, curiosamente um país onde o regime pessoal de Muammar Gaddafi supera em antiguidade qualquer das outras ditaduras árabes: 41 anos!
Tecnicamente, pode equacionar-se a hipótese dos líbios viverem tão contentes sob a sua direcção desde há quatro décadas, que não sintam necessidade de o derrubar do poder. Pessoalmente, prefiro a hipótese que, se as ditaduras permanecerem sólidas, reprimem quem protesta e bloqueiam as notícias para o exterior e não há margem de manobra para brincadeiras de rua como a da fotografia acima – note-se como o cartaz está redigido em inglês…

Estas histórias das revoluções coloridas ou floridas podem conduzir a que se escrevam análises disparatadamente apaixonadas com enredos com finais felizes, daqueles que todos nós gostamos nos filmes, mas as realidades sóbrias da geopolítica mostram que às vezes, nos países ao lado desses, os que não entram no enredo, a cor dominante continua a ser o cinzento chumbo da opressão...

19 agosto 2008

OS LOUCOS E OS EXCÊNTRICOS, LES UNS ET LES AUTRES

Quando Muammar al-Gaddafi promoveu o Golpe de Estado que o levou ao poder na Líbia, em 1 de Setembro de 1969, o seu novo regime foi inicialmente bastante bem acolhido pelos Estados Unidos. Lembro-me de ler um artigo muito elogioso a seu respeito nas Selecções do Reader´s Digest da época. No artigo, os elogios incidiam sobre a sua sobriedade (ao contrário dos militares golpistas africanos tradicionais, Gaddafi não se auto-promovera imediatamente ao posto de general…) e sobre a sua preocupação com o povo (qual Harun al-Raschid*, também Gaddafi tinha fama de percorrer incógnito as ruas assistindo aos oprimidos, castigando os poderosos e fazendo justiça sumária**).
Se a sobriedade se ia inspirar directamente ao exemplo de Gamal Abdel Nasser, que permaneceu coronel para o resto da sua vida na condução dos destinos do vizinho Egipto, a verdade é que os comportamentos bizarros eram bastante frequentes entre os governantes árabes da época. Para usar um exemplo engraçado, o do Koweit, foi preciso esperar pela chegada ao trono do Emir Sabah Al-Salim Al-Sabah em 1965 para que houvesse uma distinção entre o que era tesouro do monarca e o que era o Tesouro do Koweit. E adoptando uma medida para se tornar popular, o seu primeiro-ministro diminuiu em 1966 o seu salário anual de 28 para apenas 22,4 milhões de dólares…
Mas esses gestos não impediam outras proezas, como a viagem (já na década de 70) do Emir (viria a morrer em 1977), das suas mulheres e concubinas e restante comitiva num enorme Boeing 747 para irem às compras a Paris… No regresso acabaram por vir dois Boeings 747: um trazendo a comitiva, o outro, na versão cargueiro, trazendo todas as compras… Como disse acima, os governantes dos países árabes eram muito propensos a excentricidades… O que tornou Gaddafi diferente da maioria foi a renegociação que ele e o novo regime líbio impuseram às diversas companhias petrolíferas que operavam então na Líbia que culminou com a sua nacionalização em 1 de Setembro de 1973.
Trata-se de um episódio normalmente desconhecido, mas a verdade é que antecipadamente aos outros países da OPEP, a Líbia gozava de condições contratuais que os restantes países membros só vieram a adquirir depois da Crise de Outubro de 1973. Ao contrário daquilo com que estavam habituados a lidar, as grandes petrolíferas não conseguiram accionar a arma do suborno (Gaddafi nunca se mostrou venal), nem conseguiram explorar fragilidades dentro do regime que pudessem levar ao seu derrube porque Gaddafi o dominava com mão de ferro. Parece-me evidente a razão porque, em vez de ser mais um árabe excêntrico, a imagem internacional de Gaddafi passou a ser a de um louco…
É que a loucura e os pormenores pitorescos do regime líbio de Gaddafi (as tendas, as amazonas na segurança...) parecem não ter nada de semelhante com o que acontecia com o Uganda de Idi Amin, por exemplo. Por analogia, e aproveitando a fotografia acima (Gaddafi cumprimentando Sarkozy), confesso que me intriga a aura de má publicidade constante que parece rodear o presidente francês. Percebo, por um lado, que em Bruxelas não se aprecie Sarkozy por ele se mostrar muito menos complacente com as posições alemãs*** do que acontecia com o antecessor Chirac. Por outro, tenho certa dificuldade em perceber as causas de tanto noticiário negativo a seu respeito, quando em Itália existe uma figura chamada Silvio Berlusconi…
* Califa abássida do Século VIII, protagonista do livro de Contos das Mil e Uma Noites.
** Uma das histórias do artigo era a de um médico ocidental que se recusava a ver um doente a meio da noite e foi expulso da Líbia no dia seguinte.
*** Normalmente, no noticiário originário ou inspirado por Bruxelas prefere-se a expressão posições europeias...