7 de Julho de 1978. As Ilhas Salomão alcançam a independência do Reino Unido. O novo país tinha então um pouco mais de 200.000 habitantes que se espalhavam pelos 28.450 km² e pelas seis grandes ilhas e 900 menores que constituem o arquipélago - uma baixíssima densidade, já que nas ilhas predomina a floresta tropical, como ainda o recorda as imagens da crucial Batalha de Guadalcanal, que se travou na ilha homónima entre Agosto de 1942 e Fevereiro de 1943, no decorrer da Segunda Guerra Mundial. E, no entanto, o que em 1978 não deixaria de surpreender o português mais atento e inquiridor, era como 3/4 anos depois de alcançada a liberdade de descolonizar (1974) e do empenho em o fazer (1975) por parte de Portugal, ainda as grandes potências coloniais como o Reino Unido, que haviam iniciado o processo de descolonização décadas antes de Portugal, ainda mantinham um programa compassado de concessão de independências, adequado não apenas ao frenesim descolonizador metropolitano, mas sobretudo adequado às capacidades do futuro país em subsistir com um mínimo de autonomia após alcançada a independência. Desde o início fora evidente que era preciso mais do que entusiasmo e ideologia (normalmente marxista) para constituir um estado. Eram precisos quadros e infraestruturas. E era por isso que as Ilhas Salomão só alcançavam a independência 30 anos depois do Sri Lanka. Em alternativa, Portugal desfez-se das suas possessões coloniais em 1975. Foi uma forma muito bem intencionada de se desfazer das nossas responsabilidades, apostando nas dos outros, no encantamento e na sofreguidão dos poucos intelectuais são tomenses ou timorenses em terem um país só deles para governar. Há precisamente 40 anos e um pouco mais de dois anos e meio depois da tragédia da invasão de Timor-Leste pela Indonésia, esta independência das Salomão naquela mesma região do globo (abaixo), constituía uma demonstração surda da nossa incompetência como potência colonial... mas também como potência descolonizadora.
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07 julho 2018
20 maio 2018
A INDEPENDÊNCIA DE TIMOR E ONDE É QUE HAVIA ESTADO MÁRIO SOARES ANTES DO 25 de ABRIL
Mário Soares, Portugal Amordaçado, 1972, p.457 (edição portuguesa de 1974)
20 de Maio de 2002. Há precisamente 16 anos e 30 anos depois da apreciação supra de Mário Soares, as circunstâncias dificílimas, únicas de sofridas, que haviam conduzido a nova nação de Timor à primeira independência formal do século XXI, mostram quanto Soares, quando falara do dossier colonial português, se pronunciara sobre aquilo do qual não fazia a mínima ideia. Mas esse será sempre o seu estilo: inspirando-se no que acontecera com as possessões portuguesas na Índia em 1961, Mário Soares tirava umas pelas outras e prognosticava também ali a anexação da colónia portuguesa de Timor Oriental pelo grande vizinho... Ficara escrito, mas, para o engrandecer, faltou ouvi-lo depois - e teve 30 anos para isso! - confessar que se enganara redondamente. Há grandes figuras da nossa História que nos aparecem atranvacadas de pequenezas destas nas suas grandezas.
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28 novembro 2017
A DECLARAÇÃO UNILATERAL DA INDEPENDÊNCIA DE TIMOR LESTE
28 de Novembro de 1975. Com a publicação da imprensa lisboeta suspensa como consequência dos acontecimentos do 25 de Novembro torna-se necessário ir recuperar a imprensa menos convencional as noticias do período que imediatamente se seguiu. No caso, o anúncio da declaração unilateral da independência de Timor Leste por parte da Fretilin há precisamente 42 anos, a fonte é o jornal A Voz do Povo, o órgão oficial da UDP, o único partido da extrema esquerda com representação parlamentar (1 deputado na Assembleia Constituinte).
«
MORRE MAIS UMA COLÓNIA!
Nasce a República de Timor-Leste
Contra as tentativas do governo português de prolongar a dominação colonial e contras as invasões e ingerências estrangeiras, mais uma colónia portuguesa se transformou em país independente, mais um povo conquistou, pelas armas, a sua liberdade.
A independência de Timor foi proclamada pela FRETILIN (Frente Revolucionária para a Independência de Timor-Leste) no dia 28 de Novembro . Mas enquanto nasce a República de Timor-Leste tropas indonésias, já numa invasão completamente descarada, tomam Atabae(?), uma localidade situada entre a fronteira com a parte indonésia da ilha e Díli, capital de Timor-Leste. E se isto acontece é porque o que mais enfurece o fascista Suharto (chefe do governo da Indonésia) é o facto do povo de Timor, mesmo desfalcado pelas duras batalhas que tem travado ultimamente, não desistiu da luta e tomar nas suas mãos o seu próprio destino.
A proclamação da independência foi o culminar de uma luta que nos últimos meses o povo de Timor tem travado contra um inimigo militarmente poderoso. Mesmo assim, tem sido a FRETILIN, através das suas forças armadas, as FALINTIL, a fazer recuar todos os ataques e invasões e a assegurar o controle militar do território.
Quando, em Agosto, a UDT decidiu romper unilateralmente o pacto anteriormente estabelecido com a FRETILIN, isso tinha uma razão. E que a ligação cada vez mais profunda que se estava a estabelecer entre a FRETILIN e o povo timorense iria em breve deitar por terra todas as tentativas mais ou menos disfarçadas de neo-colonialismo.
De então para cá, as forças pró-indonésias, assim como o governo de Suharto, têm sido obrigadas a revelar a sua verdadeira face: inimigos do povo timorense, mostrando pelos interesses deste um profundo desprezo.
No entanto, quer o golpe da UDT, em Agosto, quer as sucessivas manobras e agressões militares que se seguiram, tudo tem falhada. Timor respondeu sempre com firmeza, apesar de lutar em condições muito desfavoráveis - eis uma grande lição para os povos de todo o Mundo!
E, quanto ao governo português, responsável até há bem pouco pela administração do território, que fez? Recusando-se a tomar uma posição face à invasão e às interferências estrangeiras, cumpre o papel de colaborante com o neo-colonialismo, discutindo, ora com a Indonésia, ora com a Austrália, o destino de Timor-Leste. Por outro lado não quer reconhecer a independência enquanto fala na ONU, abusivamente, em nome da ex-colónia. É isto que significa na prática, a política de "descolonização" do governo português.
"VOZ DO POVO" saúda a independência de Timor-Leste, tão heroicamente conquistada, ao mesmo tempo apela ao povo português, aliado natural dos povos das ex-colónias, para que manifeste a sua solidariedade através de um apoio concreto à luta deste povo irmão, ainda cercado pelos inimigos.
VIVA TIMOR-LESTE INDEPENDENTE!
O POVO DE TIMOR VENCERÁ!
»
Aparecido alguns minutos depois da meia-noite do dia do PREC, este é um dos meus textos favoritos daquele período: não consigo imaginar como se possa retocá-lo para o tornar ainda mais demagógico e inconsequente do que o que está. É uma verdadeira obra-prima dos chorrilhos de disparates ideológicos da língua portuguesa. De autor(es) anónimo(s) do século XX. Na verdade, do ponto de vista diplomático e com a clarividência dos 42 anos entretanto transcorridos, percebe-se hoje que ainda bem para os timorenses que, na ocasião, Portugal nunca tivesse levado esta proclamação unilateral da independência de Timor a sério.
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30 agosto 2017
O REFERENDO SOBRE A AUTO-DETERMINAÇÃO DE TIMOR LESTE
30 de Agosto de 1999. Realiza-se finalmente um referendo aos timorenses sobre a auto-determinação do seu território. O acto eleitoral foi organizado e realizado sob a supervisão de uma organização da ONU especialmente montada em Timor para o efeito, a UNAMET, garantindo aos cerca de 450.000 potenciais participantes perspectivas de idoneidade, transparência no escrutínio e de respeito pelos resultados que viessem a ser apurados. Enfim, pode reconhecer-se, sem hesitação, que os timorenses votaram em liberdade. Os resultados demoraram cinco dias a serem conhecidos. Abaixo, vêmo-los a ser anunciados por Kofi Annam, o secretário-geral da ONU: 78,5% dos timorenses pronunciaram-se pela independência, numa proporção inequívoca de quase 4 para 1. O facto de o governo indonésio ter demorado um mês e meio a reconhecer os resultados e a violência que grassou em Timor durante esse período, praticada pelos activistas armados da facção que fora derrotada, são hoje apenas notas de rodapé da História. Mas a derrota dessa última insurreição e daqueles que não souberam aceitar o veredito das urnas, transformou este processo de transição para a independência numa vitória não apenas dos timorenses, mas de todos aqueles Democratas que, por princípio, privilegiam a expressão livre da vontade política das maiorias em detrimento do activismo das minorias, por muito vanguardistas, por muito esclarecidas que estas sejam.
27 agosto 2017
A ADMINISTRAÇÃO PORTUGUESA DE TIMOR ABANDONA DILI
27 de Agosto de 1975. O governador Lemos Pires e os restantes membros da administração colonial portuguesa em Timor Leste vêm-se na contingência de abandonar a capital, Dili, e a refugiarem-se na ilha de Ataúro, a 25 km ao largo. No território e desde meados desse mês de Agosto havia-se desencadeado uma guerra civil entre a Fretilin e a UDT, a que as autoridades portuguesas se haviam visto impotentes para pôr cobro. A grande maioria dos militares, de recrutamento local, haviam aderido a uma ou outra facção. Em circunstâncias normais, esta situação seria um escândalo, um vexame as autoridades coloniais não disporem de meios para exercerem a sua autoridade sequer e a terem de abandonar a sede do poder. Mas não no Portugal revolucionário do Verão Quente de 1975, tão completamente absorvido pelas prioridades do combate político que se travava na metrópole. Num vespertino típico de então, a notícia era remetida para a última página (abaixo) sendo redigida de uma forma muito mitigada.
«O Governo de Timor transferiu-se à uma hora local de hoje de Dili para a ilha de Ataúro, situada a cerca de 20 km da capital. Esta decisão, de acordo com um comunicado da Presidência da República, deve-se "à necessidade localmente sentida, de garantir a segurança do Governo, que constitui o sinal da autoridade portuguesa em Timor". Para Ataúro embarcou também um contingente militar constituído por 12 elementos do Exército, 27 da Armada e 64 paraquedistas. Esta transferência foi efectuada a bordo no navio "macDili", no qual embarcou também a totalidade dos refugiados metropolitanos. Antes de sair de Dili, o governador de Timor tomou ainda a decisão de retirar dos hospitais da cidade os poucos médicos que ali trabalhavam por razões de falta de segurança, dado que a Fretilin não concordou em que aquela unidade hospitalar fosse considerada zona neutra.
Estas medidas ocorreram no momento em que prosseguiam os bombardeamentos ao porto de Dili, levados a cabo pela Fretilin, que continua envolvida em acesa confrontação armada com a UDT.»
O texto prossegue, referindo-se à partida de Almeida Santos, não como membro do governo (do qual não fazia parte) mas apenas como «enviado especial do presidente Costa Gomes» para negociar com os movimentos desavindos, referindo-se finalmente a um apelo de Kurt Waldheim, o secretário-geral da ONU, que, como acontece com 99,9% dos apelos daquele género, era para ser olimpicamente ignorado. Quanto às questões substantivas, aos meios que o governador se desesperaria de pedir, para reforçar a parca centena (ou pouco mais) de militares metropolitanos em que se poderia apoiar para reequilibrar a situação no território, aí o comunicado da Presidência da República (quiçá por causa da personalidade do presidente da República...) destaca-se por não se comprometer absolutamente com nada.
E a razão para tal perceber-se-á quando se olha para a página oposta (a primeira) daquela mesma edição do Diário de Lisboa, onde os destaques vão todos para a confrontação político-militar na metrópole. Há um braço de ferro intenso entre as três facções político militares (Alterações Importantes nas Estruturas do Poder são prometidas para breve). O sector comunista gonçalvista tivera que sacrificar uma das suas pontas de lança da doutrinação das massas, a 5ª Divisão, os elementos desta resistiram, e a aplicação da medida foi realizada a toque de caixa ("Comandos" ocupam a 5ª Divisão). A esquerda comunista (PCP e satélites) e alguma extrema esquerda (MES, PRP-BR, LUAR) dispõem-se a vir para a rua apoiar as respectivas facções político-militares que parecem estar a perder o poder nos bastidores (Frente de Esquerda mostra a sua força). E porque uma revolução também se faz com intelectuais, o jornal prometia para o dia seguinte uma dissertação do ministro Macaísta Malheiros: "Revolução cultural para acabar com os padrões de consumo das sociedades capitalistas". Perante este cenário e o axioma Nem mais um soldado para as colónias que tipo de auxílio poderia o governador Lemos Pires receber?
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11 agosto 2015
TIMOR: UMA LONGÍNQUA E POBRE GUERRA CIVIL
Há precisamente 40 anos, Portugal, que estava em perspectivas de se ver a braços com uma guerra civil enquanto procurava gerir como podia outra, abertamente declarada, em Angola, via desencadear-se uma terceira guerra civil num dos últimos territórios sob sua responsabilidade administrativa: Timor. Uma das facções nacionalistas (UDT) promovera localmente um golpe militar e a facção rival (FRETILIN) preparava-se para reagir simetricamente nessa última colónia do Império, situada do outro lado do mundo, de onde as notícias chegavam desfasadas (há 8 horas de diferença entre Lisboa e Díli) e as imagens eram escassas.
Mesmo assim, para quem tinha por referência aquilo que já se conhecia de Angola dos combates entre MPLA, FNLA e UNITA, o aparato bélico dos combatentes timorenses era peculiarmente exótico, combinando os cortes de cabelo da moda com armamento e equipamento vetusto, caso de capacetes, pistolas-metralhadoras FBP e espingardas Mauser em vez das G-3 que há muito equipavam o exército português em todo o outro Ultramar que havia estado em guerra. Quanto ao resto, e pelo que se ia sabendo do desenrolar das operações, os prosaicos morteiros pareciam desempenhar o papel de arma decisiva nessa remota colónia...
...onde nem sequer a ocupação japonesa durante a Segunda Guerra Mundial conseguira servir de estimulo para a dotar de meios mais sofisticados de defesa – por exemplo, artilharia. Ou então, as forças armadas portuguesas haviam incorporado a experiência da invasão indiana a Goa, Damão e Diu em 1961 e assumira-se que nenhum reforço adicional de meios teria feito qualquer diferença em caso de uma invasão indonésia, como de facto veio a acontecer em 7 de Dezembro de 1975. Naquele conflito, únicos adereços perfeitamente ao ritmo do seu tempo só mesmo o camuflado e os óculos ray-ban de um muito jovem (25 anos) José Ramos-Horta...
06 novembro 2014
DE UMA IRREPREENSÍVEL LÓGICA FUTEBOLÍSTICA
Estaria eu muito longe de pensar que, depois de já há uns valentes anos (2006), ter comparado aqui neste Herdeiro de Aécio Xanana com Chalana, por causa da proeminência das respectivas esposas na imagem pública de ambos, voltaria a associar o paladino da resistência timorense com outra imagem castiça do futebol nacional: a do presidente de clube que não se conforma com os poderes situados para além da sua alçada. À acreditar nas notícias entretanto disponibilizadas, o que provocou a inesperada expulsão de oito funcionários judiciais (sete portugueses e um cabo-verdiano) de Timor-Leste terá sido o desagrado dos poderes executivo e legislativo timorenses a sentenças exaradas por eles enquanto elementos do poder judicial. Ao ouvir-se a explicação de Xanana Gusmão abaixo, de imediato ela faz-nos lembrar aquela atitude contrariada de um Pinto da Costa, de um Luís Filipe Vieira, de um Bruno de Carvalho, imediatamente depois de uma derrota num clássico do futebol português,...
...justificando-a aos adeptos, alegando que a culpa foi da arbitragem e quanto é preciso denunciá-lo¹. Também aqui a justificação será que as sentenças tinham sido lesivas do Estado timorense e...esqueça-se lá a separação de poderes, que o objectivo de todo o presidente de clube de futebol é controlar o conselho de arbitragem para que só sejam nomeados os árbitros que ele considere benignos. Analogamente, em Timor, o sistema judicial que Xanana deseja será aquele onde só se proferem sentenças favoráveis ao Estado. Só que não tenho a certeza se Xanana compreende a diferença entre dirigir o Sport Clube de Timor e a República Democrática de Timor, estrutura que sai de todo este episódio a merecer tudo menos o epiteto de democrática. Por cá, só se aceitará a tolerância à mesma prática, se se considerar que, por se tratar de futebol, nada daquilo é para ser levado a sério...
¹ Luís Filipe Vieira merece uma nota de destaque nesses desabafos, pois só ele conseguiu proscrever um árbitro (Pedro Proença) que nove meses depois veio a ser eleito como o melhor do mundo numa eleição de uma organização internacional onde dificilmente se poderiam ter feito sentir as influências dos seus inimigos domésticos. Naturalmente, este é o género de palermice tão crassa que até escapa ao director do jornal do próprio clube comentá-la no canal do mesmo - é aquela coisa de não se conseguir ver o argueiro no próprio olho...
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28 janeiro 2014
A EXPANSÃO AUSTRONÉSIA
Este mapa-mundo, que abrange cerca de ¾ da superfície do nosso planeta, mostra-nos a extensão daquela que é uma das mais desconhecidas expansões da Humanidade: a dos povos austronésios. Tratou-se, como aconteceu com os povos indo-europeus que vieram a povoar a Europa, o Próximo Oriente e o Subcontinente Indiano, de processos desencadeados pelo crescimento demográfico das populações, mas um crescimento muito lento, que se processou paulatinamente e se arrastou por milénios. Fazendo parte da pré-História, tudo o que neste momento se pensa saber sobre esses processos resulta dos trabalhos da arqueologia, das investigações da linguística e, mais recentemente, das da genética.
Uma das maiores surpresas da expansão austronésia é a localização do seu berço. Embora haja outras teorias – há-as sempre nestas circunstâncias – a predominante coloca a origem dos povos austronésios nas costas orientais da Formosa. Não há como iludir a ironia: a ilha é hoje maioritariamente povoada por chineses (98%) e constitui, como República da China e como expressão da recusa da aceitação da supremacia comunista no continente (a República Popular da China), uma das últimas expressões da Guerra-Fria. Mas é a sua praticamente ignorada população aborígene (2%) que é a depositária de uma saga que, iniciada há cerca de 5.000 anos, hoje abrange cerca de 400 milhões de pessoas.
Em contraste com a dos indo-europeus do mapa acima, a expansão dos povos austronésios foi predominantemente marítima e veio a prolongar-se até períodos que já eram históricos noutras partes do Mundo: a sua chegada a Madagáscar já será contemporânea com o Império Romano e a chegada à Nova Zelândia coincidirá com a nossa época das Cruzadas. A expansão fez-se inicialmente para os arquipélagos das Filipinas e da Indonésia que já se encontraram povoadas por imigrantes anteriores, povos de tez mais escura, que seriam aparentados com os actuais aborígenes da Austrália e os papuas da Nova Guiné. Só depois a expansão prosseguiu com a colonização de ilhas até então despovoadas.
Só os especialistas é que conseguem dar uma aparência de lógica de parentesco (veja-se o quadro acima, clicar para o ampliar) a um conjunto de quase um milhar de línguas actualmente faladas, exercício esse que comprovará uma raiz comum a elas todas. Ali aparecem idiomas falados na Indonésia, na Malásia, nas Filipinas, o tétum, que é o idioma coloquial de Timor-Leste, e ainda o maori neozelandês, idiomas falados em Madagáscar e outros falados quase do outro lado do Mundo, nos vários arquipélagos do Pacífico, tão longe quanto o estado norte-americano do Hawaii. O único lapso desta gesta é que não existe nenhuma potência – a Indonésia prefere o Islão... – que pretenda explorar os efeitos propagandísticos deste feito (pré)-histórico.
Já em jeito de aditamento e aproveitando para republicar o mapa inicial, valerá a pena chamar a atenção para algumas peculiaridades dos contornos geográficos da expansão. Uma delas é o facto dos austronésios nunca se terem conseguido implantar na Nova Guiné, um fracasso que Jared Diamond terá explicado satisfatoriamente num capítulo (17) de um livro que recomendo a leitura a interessados: Armas, Germes e Aço. Outra peculiaridade, essa por explicar satisfatoriamente, são as condições em que os austronésios terão conseguido colonizar Madagáscar vindos de Bornéu, percorrendo uma distância marítima superior de 7.000 km sem, como se pode acima verificar, quaisquer possibilidades de escalas para reabastecimentos.
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24 setembro 2013
GUERRILHAS, LUTAS DE LIBERTAÇÃO NACIONAL E PROCLAMAÇÕES POLÍTICAS
Hoje, quando se completam 40 anos sobre a proclamação unilateral da independência da Guiné Bissau vale a pena falar de outras guerrilhas, de outras lutas de libertação nacional e de outras proclamações políticas a elas associadas que, não apenas por terem sido de certa forma menos bem sucedidas que a da Guiné-Bissau, nem sequer se ouve falar delas. Um excelente exemplo disso são as guerrilhas que se travaram ao longo do decénio que se seguiu ao fim da Segunda Guerra Mundial em qualquer dos três estados do Báltico, Estónia, Letónia e Lituânia, especialmente nesta última (exemplificado pela declaração acima). Contribuiu para o desconhecimento generalizado dessas outras lutas de libertação nacional o facto da potência colonial ser, naquele caso, a União Soviética e dos seus rivais norte-americanos se terem decidido a não investir estrategicamente nessas guerrilhas¹.
Apesar de uma cobertura vegetal (acima) favorável à manutenção de pequenas secções de guerrilheiros habilitados a perturbar o exercício da autoridade soviética, os restantes factores, a opacidade informativa que um regime totalitário como o soviético podia manter conjugada com a ausência de apoios logísticos vindos do exterior condenaram a expressão militar dos três nacionalismos bálticos a um fracasso a longo prazo. Mesmo assim, ainda se registaram episódios esporádicos – permanentemente abafados – de resistência armada durante as décadas de 1960 e 1970. E o desaparecimento da luta armada não foi acompanhada do desaparecimento do nacionalismo em qualquer daqueles países, lembrando aliás um outro exemplo do universo dos países de língua oficial portuguesa: Timor-Leste. Em 1991, os três países foram os primeiros a separarem-se da União Soviética, precedendo a implosão desta última.
¹ Possivelmente para evitar que a União Soviética retaliasse simetricamente, promovendo empenhadamente os movimentos separatistas nos estados dos Estados Unidos...
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20 março 2012
UMA LIÇÃO QUE NOS CHEGA DO OUTRO LADO DO MUNDO
Esta derrota de José Ramos-Horta, logo na primeira volta das eleições presidenciais em Timor, uma derrota apesar do seu prestígio internacional (como Prémio Nobel da Paz 1996) e dos cargos que já desempenhara (primeiro-ministro de 2006 a 2007 e presidente desde então) faz-nos recordar como a recandidatura de Aníbal Cavaco Silva de 2011 foi facilitada.É verdade que a realidade política de Timor é específica, muito diferente da portuguesa: Ramos-Horta fora eleito em 2007 à segunda volta pelos votos de uma coligação de todos-menos-a-Fretilin mas, todos aqueles que se queixam actualmente do desempenho deplorável do actual presidente português, também não se devem esquecer que, ao contrário do que aconteceu agora em Timor, as eleições a que Cavaco Silva se recandidatou (e venceu) em 2011 não contaram propriamente com o que de melhor haveria quanto à categoria dos seus rivais. E com esta observação, não pretendo criticar aqueles que então avançaram mas antes os outros, os que se resguardaram… - como, de resto, o próprio Cavaco Silva também fizera em 2001.
06 junho 2011
QUE PLANO É ESTE, MEU?!
A ntv* foi um canal de televisão por cabo de breve duração (2001-2004) que tinha como particularidade identificativa o seu sotaque nortenho. Teria passado desapercebido para a história da televisão em Portugal não fosse uma sua transmissão memorável, que se pode datar com precisão (20 de Maio de 2002) por ter sido o dia da independência de Timor-Leste, notícia que o pivot que apresentava as notícias das 23H00 lia quando subitamente se terá atrapalhado na leitura do teleponto:
– …Xanana Gusmão lembrou os passados tempos difíceis da ocupação indonésia, mas agora que uzzzzz… que o caralho que o fôda… (Segue-se um prolongado período de silêncio). ‘Tá Bem! Olha?! Que plano é este, meu?!
Sem o desculpar, tenho a impressão que o sotaque em que foram pronunciadas as grosserias poderá ter amenizado o seu impacto inicial nos telespectadores. Mais condenável todavia, depois da merda que o locutor fez (vi-o recentemente reaparecido na TVI24), terá sido a sua atitude implicativamente infantil. – Que plano é este, meu?! – tornou-se para mim numa expressão sinónima de alguém que diz não importa o quê desde que seja para se tentar evadir às suas responsabilidades.
Sem o desculpar, tenho a impressão que o sotaque em que foram pronunciadas as grosserias poderá ter amenizado o seu impacto inicial nos telespectadores. Mais condenável todavia, depois da merda que o locutor fez (vi-o recentemente reaparecido na TVI24), terá sido a sua atitude implicativamente infantil. – Que plano é este, meu?! – tornou-se para mim numa expressão sinónima de alguém que diz não importa o quê desde que seja para se tentar evadir às suas responsabilidades.
15 fevereiro 2011
ALGUMAS FOTOGRAFIAS DA DESCOLONIZAÇÃO PORTUGUESA
Embora tivesse atingido um clímax ao longo do ano de 1975, a descolonização portuguesa durou de Dezembro de 1961 até Dezembro de 1999. Seleccionei para este poste oito fotografias que dispus cronologicamente, cada uma respeitante a um dos territórios que estiveram sob tutela portuguesa e que dela se desligaram durante esses 38 anos.
A descolonização portuguesa começou... contrariada. A primeira fotografia, data de 19 de Dezembro de 1961 e é de uma cerimónia de uma rendição militar, a do General Vassalo e Silva (ao centro, sentado), o Governador e Comandante-Chefe do contingente militar encarregado de uma defesa desesperada do Estado Português da Índia.
Continuou contrariada. A fotografia seguinte, datada de 24 de Setembro de 1973, peca pela ausência das autoridades portuguesas na cerimónia da proclamação unilateral da independência da Guiné-Bissau realizada algures (note-se o ambiente camuflado que rodeia a cerimónia…) em território guineense (...), ao arrepio das autoridades coloniais.
Depois veio o 25 de Abril de 1974 e o reconhecimento das colónias à autodeterminação. Mas nem mesmo a solidariedade ideológica podia apagar o azedume que as guerras de libertação haviam criado. Em Moçambique, a 25 de Junho de 1975, a presença do 1º Ministro português Vasco Gonçalves é abafada pelo enorme retrato de Samora Machel.
Pormenores significativos podem distinguir aqueles territórios onde houve luta armada e onde não a houve. Ao içar a nova bandeira de Cabo Verde, a 5 de Julho de 1975, note-se como as Forças Armadas Revolucionárias do novo país continuam, apesar do epíteto, armadas com a mesma espingarda automática G-3 do período colonial…
Países insulares, povoados depois da chegada dos portugueses como o caso anterior e o de São Tomé e Príncipe, vêm-se quase na obrigatoriedade de renegar esse seu passado colonial para a cerimónia de independência (12 de Julho de 1975), apeando a estátua do descobridor português Pêro Escobar, para depois não terem ninguém por quem o substituir…
Totalmente ao contrário do que acontecera na Guiné, a cerimónia culminante da descolonização de Angola, a 10 de Novembro de 1975, foi no Salão Nobre do Palácio do Governo em Luanda, mas só contou com a presença dos portugueses. O Alto-Comissário Leonel Cardoso atirou, como se fosse confetti, uma soberania popular que estava a ser disputada pelas armas…
Mais complicado ainda, sem portugueses, sem timorenses e sem cerimónia, é o episódio que assinala a descolonização portuguesa em Timor, a 7 de Dezembro de 1975. Perante o que lhe parecia um vácuo de poder e com a anuência norte-americana, as tropas indonésias invadiram-no. Seguir-se-iam mais 24 anos de colonialismo, mas indonésio.
Tão cheio de incidentes, esta gesta descolonizadora de Portugal merecia ser rematada com uma cerimónia adequada, preparada de antemão com pompa e circunstância, para o último (e menor) território do outrora extenso Império Colonial. Aconteceu com Macau a 20 de Dezembro de 1999, quando da sua transferência para a administração chinesa.
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23 maio 2010
AS CERIMÓNIAS DA DEPOSIÇÃO DE COROAS DE FLORES
Sempre considerei as cerimónias de deposições de coroas de flores uma fantochada. Em primeiro lugar, porque nunca são os depoentes que verdadeiramente depõem as enormes coroas de flores, mas sim um par de carregadores de serviço, e os depoentes limitam-se a fingir que ajeitam as fitas das coroas, que visivelmente nunca precisam de ajeitamento algum. Depois, porque o depoente se limita a ficar por ali por uns momentos afivelando um ar falsamente compungido: abaixo podemos ver Xanana Gusmão a preparar-se para desempenhar uma cena dessas quando de uma visita a oficial a Jacarta, no cemitério dos heróis nacionais indonésios, um panteão que o não deve deixar cheio de saudades…
Além da hipocrisia, em décadas de cerimónias dessas, não me lembro de que tivesse acontecido algo de verdadeiramente interessante durante alguma delas, com a notável excepção abaixo, a 7 de Dezembro de 1970, quando o então chanceler da Alemanha Federal, Willy Brandt, se ajoelhou diante do Monumento erigido ao Levantamento do Gueto de Varsóvia durante a Segunda Guerra Mundial. Hoje promovida à categoria de fotografia histórica e simbólica da política de aproximação a Leste de Brandt baptizada de Ostpolitik, esquece-se que o gesto – por muito que nos agrade lembrar tempos em que os chanceleres alemães eram humildes… – já então havia sido considerado como excessivo por 48% dos alemães ocidentais...
A humildade associada ao gesto de Willy Brandt foi verdadeiramente, e em mais do que um sentido, uma verdadeira excepção histórica, como temos andado gradualmente a perceber cada vez melhor… Por isso, vale a pena terminar o poste com uma abordagem ligeira e uma cena muito recente de mais uma dessas cerimónias. Esta teve lugar esta semana em Kiev, na Ucrânia, no quadro da reaproximação que o recém-eleito presidente Viktor Yanukovych está a fazer com o seu grande vizinho, a Rússia. Apesar do mau tempo que fazia, os dois presidentes (Dimitri Medvedev e Yanukovych) foram depor duas grandes coroas de flores no túmulo do soldado desconhecido… Mas o resto é melhor ver no vídeo abaixo:
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18 abril 2009
OS APELIDOS PORTUGUESES ESPALHADOS PELA ÁSIA
A fotografia tirada em 1996 aos dois premiados com o Prémio Nobel da Paz desse ano, os timorenses José Manuel Ramos Horta (à esquerda) e Carlos Filipe Ximenes Belo pode ser usada como uma boa base de partida para explicar como os apelidos portugueses se espalharam pelo Mundo. No caso de Ramos-Horta temos o exemplo da miscigenação, já que o seu pai era de origem portuguesa (tinha sido desterrado para Timor) e a sua mãe era de origem timorense. No caso do bispo Ximenes Belo, parece ser um caso de aculturação, em que alguns dos seus antepassados adoptaram nomes portugueses.
Neste segundo caso, e datando a presença dos portugueses na Ásia do longínquo Século XVI, nunca se pode excluir que tenha existido algum antepassado de origem europeia que tivesse sido o responsável pelo estabelecimento do nome que a família adoptou. Contudo, dada a pequena dimensão demográfica de Portugal, é improvável que isso seja muito frequente, tendo em atenção a profusão de apelidos portugueses registados em algumas regiões asiáticas: havia uma história (*) que dizia que havia mais páginas com Silvas nas listas telefónicas de Colombo, capital do Sri Lanka, do que nas de Lisboa…
Mas não há região asiática onde esse fenómeno seja mais complexo do que na Índia. Ali conjuga-se a presença dos portugueses por um período de mais de 450 anos com os seus esforços (pelo menos iniciais) de evangelização e a propensão tipicamente indiana para compartimentar a sociedade em estratos – as castas. Em Goa (acima), por exemplo, nunca houve possibilidade de confusão entre os descendentes, que, como o nome indica, reclamavam a ancestralidade de um longínquo antepassado português, com os restantes cristãos, que muito provavelmente haviam adquirido os apelidos portugueses aquando do baptismo.
Por outro lado, há que contar que uma coisa é a religião que se professa, outra são as fidelidades políticas. Houve muitos católicos goeses que, por pressão da Inquisição e por razões políticas abandonaram as regiões sob soberania portuguesa, vindo a estabelecer-se noutros locais (acima). A maior concentração situava-se junto à cidade indiana de Mangalore o que lhes fez ganhar a designação de católicos mangaloreanos. Muitos deles vieram a emigrar dali depois para Bombaim. Enquanto isso, a partir do Século XIX, a ascensão das elites goesas passou a estar aberto às das outras confissões religiosas.(*) – Nunca tive uma lista telefónica cingalesa à mão para comparar. Mas a lista deve estar, de facto, cheia de apelidos portugueses e de corrupções deles facilmente identificáveis: Silva, Perera (Pereira), Zoysa (Sousa), Peiris (Peres), Mendis (Mendes), Fonseka (Fonseca), De Mel (de Melo), Corea (Correia), etc.
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11 março 2007
QUANDO AS SONDAGENS ENGANARAM OS MILITARES E O EPISÓDIO DA SECESSÃO DO BANGLADESH
Pela sua própria natureza, compreende-se porque os regimes militares não são grandes adeptos de eleições. Se as eleições forem livres, ainda que o sejam apenas muito relativamente, instala-se sempre um certo elemento de incerteza na condução política do país, desagradável para quem o detém. E isso é sempre muito incómodo para o regime. Só que, por outro lado, as pressões internas e internacionais são grandes para que o regime militar comece a promover gestos para o retorno a um regime regular civil.Aliás, a esmagadora maioria dos pronunciamentos militares são acompanhados de proclamações dos seus chefes onde, para além de justificarem o acto, se tranquilizam os cidadãos quanto à transitoriedade da atitude adoptada. Às vezes o transitório é um transitório de Santa Engrácia, como na Birmânia, onde o regime militar vigora há quase 45 anos (! - lá voltaremos...), mas a ideia que importa a reter é que umas eleições organizadas por um regime militar dão sempre bom aspecto para o exterior…
É claro que umas eleições devidamente organizadas são muito melhores do que aquelas que contêm elementos de incerteza. Durante anos a fio (1964-85), os brasileiros tiveram essa figura única da coexistência de uma ditadura militar com eleições onde havia um partido do governo (Arena) e um da oposição (MDB), que podiam ser assim legitimamente classificados porque ao primeiro não era permitido perder as eleições e, consequentemente, o segundo estava proibido de as ganhar.
Mas nem sempre as operações de controlo que os militares montaram sobre os aparelhos eleitorais tiveram este sucesso. Como as eleições se ganham na fase do escrutínio, fosse por inépcia do dispositivo montado para as acompanhar, à atenção e proximidade com que esse escrutínio por observadores independentes ou ainda pela ingenuidade de acreditar nos relatórios dos seus serviços de informações, vezes houve (raras) em que o regime perdeu as eleições que havia convocado. Eis algumas.
Segundo conta Mário Soares em memórias, antes da realização das eleições para a Assembleia Constituinte a 25 de Abril de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves, se calhar para o incentivar a assumir uma postura mais de esquerda, lhe havia comunicado que, de acordo com as informações de que dispunha, o seu partido (PS) iria ficar em terceiro lugar, atrás do MDP/CDE e do PCP… Se tiverem feito fé nesses dados, a (longa) noite do escrutínio deve ter sido uma desagradável surpresa para a ala militar comunista*…Na Birmânia, ao fim de 28 anos de ditadura militar, em 27 de Maio de 1990 as autoridades militares promoveram eleições gerais de acordo com planos de reconciliação nacional estabelecidos um ano antes. A Liga Nacional para a Democracia (NLD), dirigida pela agora famosa Aung San Suu Kyi, ganhou 392 dos 489 lugares em disputa na Assembleia Popular, que nunca reuniu. Contrariamente ao que aconteceu em Timor, o Prémio Nobel da Paz (1991) a ela atribuído não teve aqui qualquer impacto político na evolução da situação.
A bem da verdade, a decisão do presidente indonésio Jusuf Habibie de promover um referendo sobre o futuro de Timor-Leste em Janeiro de 1999, não foi recebida lá muito bem entre o comando das suas forças armadas (ABRI). Mas também é verdade que a Indonésia estava numa situação de fragilidade política extrema e que a ABRI ainda dispôs de 6 meses para organizar as coisas de forma a evitar a derrota fragorosa que se veio a registar no referendo realizado em Agosto desse ano em Timor-Leste: 80% dos votos foram favoráveis à independência…
Mas, se os militares indonésios perderam uma pequena fracção do seu país, que, de resto, haviam anexado 24 anos antes, o recorde da ingenuidade vai para os militares paquistaneses que em 1971 acabaram por perder 15% do seu território e mais de metade da sua população… Uma asneira tão grossa precisa de uma explicação mais extensa: o Paquistão que nasceu em 1947, constituído a partir das regiões da Índia onde predominavam os muçulmanos, estava dividido em duas partes afastadas 1.500 Km entre si: o Paquistão Ocidental e o Oriental.
O primeiro, que mantém o nome do país, era quase seis vezes maior que o segundo (hoje o Bangladesh), embora fosse ligeiramente menos povoado. Era também a Ocidente que ficava a sede do poder político, e era daí que eram originários a esmagadora maioria dos membros topo da administração civil e das chefias militares. Os habitantes bengalis do Paquistão Oriental mostravam em relação ao estado paquistanês muito dos ressentimentos característicos de um regime de dominação colonial.
O regime militar paquistanês, que durava desde 1958, já dava mostras de desgaste, tendo o general Ayub Khan, que o dirigira desde o início, transferido os seus poderes para o general Yahya Khan em 1969, no seguimento de uma grande contestação social e política que, no Paquistão Oriental, se acumulava ainda com exigências de autonomia e mesmo de independência. O general acalmara parte dessa contestação com a promessa de eleições a realizar em Dezembro de 1970.
Era dado por adquirido que o regime conseguiria obter uma maioria de apoios da nova Assembleia a eleger. Por força da demografia, mais de metade (162) dos deputados da futura Assembleia de 300 membros era eleita em circunscrições do Paquistão Oriental. Num dos mais surpreendentes golpes de teatro eleitoral, o partido que se batia pelos interesses dos bengalis orientais (Liga Awami) passou de partido marginal do sistema político paquistanês a indigitado para o governo de todo o Paquistão, ao conquistar a maioria da Assembleia, com 160 dos 162 lugares do Paquistão Oriental…
Desnecessário será dizer que dos resultados políticos daquelas eleições (que os serviços de informações militares nunca anteciparam) havia que ceder o poder à, até então, marginal Liga Awami, o que nem a classe política civil do Paquistão Ocidental estava disposta a aceitar. Em consequência, a secessão do Bangladesh tornou-se politicamente mais do que legitimizada e quando a Índia a apoiou militarmente, a partir de Dezembro de 1971, forçando a rendição das forças armadas paquistanesas, o gesto acabou por ser aceite pelas duas superpotências.
Curiosamente, nesta terceira guerra indo-paquistanesa, um conflito onde sempre foram fortes as conotações religiosas de hostilidade entre hindus e muçulmanos, o Chefe de Estado-Maior das forças armadas indianas era parsi - Sam Manekshaw - e o comandante das forças no terreno (que se vê de turbante a assinar na fotografia da cerimónia da rendição das forças paquistanesas) era sikh - Jagjit Singh Aurora – e nascido no Paquistão… Para completar, o Chefe de Estado Maior deste último, J.F.R. Jacob era… judeu.
* Para os mais novos e os mais esquecidos o PS ganhou as eleições com 37,9% dos votos, seguindo-se o PPD com 26,4%, o PCP com 12,5%, o CDS com 7,6% e só então o MDP/CDE, com 4,1%.
05 março 2007
UM POSTE BASTANTE LONGO A EXPLICAR PORQUE NADA SE DEVE DIZER A RESPEITO DOS ACONTECIMENTOS DE TIMOR-LESTE
O caso do Major Reinado tornou-se uma permanente recordação que Timor-Leste é apenas um embrião de um Estado de Direito, com alguns protagonistas a assumirem designações oficiais que não têm nada a ver com o seu desempenho no xadrez político local. Por exemplo, se interpretado o nome do seu cargo à letra, a proeminência assumida pelo Procurador Longuinhos Monteiro é uma aberração num país que não se tem destacado (naturalmente) pela dinâmica do seu aparelho judicial…Mas, entre as verdades mais essenciais da situação timorense há a constatação que Reinado, nos meses que andou à solta, não pôde, nem o pode fazer sem que haja algum tipo de conivência por parte dos australianos. A simples questão para a qual ando debalde à procura de resposta, agora que nos chegam notícias que os australianos andam a montar operações militares para o capturar, sintetiza-se em: quais serão as verdadeiras causas para que se tenha precisamente agora começado a perseguir Reinado?
Descontados um ensaio de uma história da carochinha, aquela que pretende que o processo foi desencadeado apenas há uma semana, quando Xanana Gusmão ordenou (finalmente…) a captura de Reinado (mas parece-me pouco provável que o exército australiano esteja assim tão disponível para executar as ordens de Xanana Gusmão…), fica-se com a sensação evidente de que pouco se sabe do que se lá passa e que o conteúdo das caixas jornalísticas que cá chegam de Timor-Leste é muito pouco e, além disso, muito pouco claro.
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28 outubro 2006
ALGUNS ESCLARECIMENTOS ADICIONAIS A RESPEITO DE TIMOR
Compreendo, parcialmente, o regozijo que uma audiência com um ministro dos negócios estrangeiros de um país estrangeiro possa ter provocado na forma como se analisa a política externa protagonizada por esse ministro e por esse país. Trata-se, todavia, de uma reacção epidérmica e emocional.Uma análise mais fria, porém, rapidamente demonstrará que a Austrália, por inúmeras vezes, já manifestou não ter qualquer interesse na manutenção de níveis de cooperação recíprocos entre australianos e outros países na condução dos assuntos timorenses. Aliás, isso verificou-se mais uma vez recentemente quando a proposta para que o dispositivo militar em Timor-Leste ficasse, como os restantes, sob os auspícios da ONU, foi ali bloqueada por interesse australiano.
Deve ser por isso que, actualmente, será só por pudor, intimidação e conveniência que os protagonistas políticos timorenses não assumem publicamente aquilo que, pelos vistos, é bem capaz de ser reconhecido como uma evidência por toda a gente: os australianos são percebidos como mais uma das facções do problema timorense. O que, no terreno, os desqualifica imediatamente para forças de manutenção da ordem…
A médio e longo prazo, a Portugal não interessa que Timor-Leste se torne um fardo demasiado pesado para a Austrália. É que poderemos ser chamados a assumir maiores responsabilidades, sem que daí decorra necessariamente qualquer vantagem para Portugal. O problema é que a causa disso pode residir na circunstância do actual governo australiano – qual administração norte-americana em miniatura – ter dado mostras de um autismo preocupante na condução das suas relações com Timor-Leste, em particular, e com os pequenos países da sua vizinhança, em geral.
É por isso que na recente Cimeira do Pacífico a conduta da tradicionalmente tutelar Austrália foi posta fortemente em causa pelos dirigentes dos pequenos estados da Papua Nova Guiné, das ilhas Salomão e de Vanuatu. E é difícil não simpatizar com Michael Somare, primeiro-ministro do primeiro daqueles países, quando ele se queixa que soube da existência de sanções contra a sua pessoa e contra o seu governo por parte do equivalente australiano, através da programação da comunicação social australiana, onde o ministro dos negócios estrangeiros desse país, Alexander Downer, as anunciava. Eu bem sei que há quem muito aprecie a informalidade e eficácia de Downer, mas mesmo assim…
A estratégia portuguesa desde a independência timorense assenta – correctamente – numa abordagem de desengajamento progressivo daquela região. Mas, realisticamente, há que estar atento às circunstâncias em que ele se pode processar. Por um lado porque ainda não houve oportunidade de consubstanciar de forma tangível os benefícios da intervenção portuguesa. Por outro, porque se parece estar a assistir, devido a erros muito próprios, a um enfranquecimento circunstancial da influência australiana em toda aquela região, o que torna o desengajamento completamente inoportuno.
É que às vezes, com tanto apelo à racionalidade, parece estar a faltar alguma memória. Se fosse para resolver de uma forma exclusivamente racional o problema timorense por parte da parte portuguesa já ele estaria solucionado de há muito: Lisboa e Jacarta tinham-se sentado à mesa e esclarecido duas ou três coisas off the record, incluindo uma parcela da exploração petrolífera do Mar de Timor por parte da Indonésia.
Foi o que a Austrália fez na altura, mas Portugal não. Será por isso que cada um dos países goza hoje em Timor de um prestígio distinto?
22 outubro 2006
O EDITORIAL

É muito instrutiva – e recomendo – a leitura do editorial de hoje do The Australian, que pode também ser interpretado como se se tratassem de recomendações para orientação do Primeiro-Ministro australiano, John Howard, quanto à forma como deverão ser geridas as relações da Austrália com os seus pequenos países vizinhos do Pacífico Sul, agora que se aproxima mais uma Cimeira dessa Organização, marcada para amanhã nas Fidji ao mesmo tempo que o governo de Howard anunciou pretender desencadear um combate sério contra a corrupção existentes nos governos de alguns desses países.
São compreensíveis as preocupações manifestadas pela Austrália, através daquele editorialista, com a estabilidade em todo conjunto de países daquela vasta região. São preocupações – com a corrupção, nomeadamente - que podíamos perfeitamente tornar extensíveis às de um qualquer país membro da União em relação aos seus colegas de organização. Serão menos transponíveis as imagens hipotéticas de, numa acção de combate à corrupção, ver um destacamento de polícia alemã invadir o gabinete do primeiro-ministro letão (como se lê no editorial que os australianos fizeram nas Salomão) ou de destacamentos militares italianos condicionarem a liberdade de circulação do comandante das forças armadas maltesas (como se pode ler no Público que aconteceu em Timor)…
No mundo de hipocrisia descrito por George Orwell em Animal Farm, havia a regra que os animais eram todos iguais mas depois havia uns que eram mais iguais que outros. Essa regra costuma ser transposta para as relações internacionais, onde, à priori, os países são todos iguais. É a gramática aparentemente usada na União Europeia, que impede o tal assalto da judiciária alemã ao gabinete do primeiro-ministro da Letónia. Será, se calhar, por Orwell se ter ficado pela Birmânia e nunca ter posto os pés na Austrália que Down Under nunca se interiorizaram esses pormenores de hipócrita cortesia diplomática…
A consequência principal parece ser que, naquela região do globo, nem se perde tempo pretendendo que existe essa coisa ficcional chamada de soberania nacional quando os acontecimentos desagradam a Austrália. Nem é em vão que, numa outra notícia da mesma edição do jornal, a respeito de Timor-Leste e oriunda dos seus correspondentes em Dili, é feita menção às tropas australianas ali presentes, assim como aos contigentes policiais neozelandeses e malaios, esquecendo acidentalmente o contigente português... É um novo estatuto com que Timor-Leste tem agora de se adaptar a viver. Já deixou, felizmente, de ser a 27ª província da Indonésia. Só que agora está em risco de se tornar a enésima uma outra coisa qualquer da Austrália…
São compreensíveis as preocupações manifestadas pela Austrália, através daquele editorialista, com a estabilidade em todo conjunto de países daquela vasta região. São preocupações – com a corrupção, nomeadamente - que podíamos perfeitamente tornar extensíveis às de um qualquer país membro da União em relação aos seus colegas de organização. Serão menos transponíveis as imagens hipotéticas de, numa acção de combate à corrupção, ver um destacamento de polícia alemã invadir o gabinete do primeiro-ministro letão (como se lê no editorial que os australianos fizeram nas Salomão) ou de destacamentos militares italianos condicionarem a liberdade de circulação do comandante das forças armadas maltesas (como se pode ler no Público que aconteceu em Timor)…
No mundo de hipocrisia descrito por George Orwell em Animal Farm, havia a regra que os animais eram todos iguais mas depois havia uns que eram mais iguais que outros. Essa regra costuma ser transposta para as relações internacionais, onde, à priori, os países são todos iguais. É a gramática aparentemente usada na União Europeia, que impede o tal assalto da judiciária alemã ao gabinete do primeiro-ministro da Letónia. Será, se calhar, por Orwell se ter ficado pela Birmânia e nunca ter posto os pés na Austrália que Down Under nunca se interiorizaram esses pormenores de hipócrita cortesia diplomática…
A consequência principal parece ser que, naquela região do globo, nem se perde tempo pretendendo que existe essa coisa ficcional chamada de soberania nacional quando os acontecimentos desagradam a Austrália. Nem é em vão que, numa outra notícia da mesma edição do jornal, a respeito de Timor-Leste e oriunda dos seus correspondentes em Dili, é feita menção às tropas australianas ali presentes, assim como aos contigentes policiais neozelandeses e malaios, esquecendo acidentalmente o contigente português... É um novo estatuto com que Timor-Leste tem agora de se adaptar a viver. Já deixou, felizmente, de ser a 27ª província da Indonésia. Só que agora está em risco de se tornar a enésima uma outra coisa qualquer da Austrália…
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18 outubro 2006
COM TODA A NATURALIDADE
No entanto, as coisas seriam muito mais claras se não se tivesse sabido que o foragido havia regressado às Ilhas Salomão a bordo de um avião militar da Papua Nova Guiné na companhia de um sobrinho do primeiro-ministro que alega não saber de nada e ter sido aldrabado pelo ministro que mandou prender. E, embora detido, o seu governo continua a recusar-se a entregar o Procurador-Geral foragido às autoridades australianas.
Em tudo isto, depois da desenvoltura que o vimos assumir em Timor-Leste, parece-me perfeitamente expectável e compreensível que o governo australiano mostre ter pelos seus homólogos das Ilhas Salomão e da Papua Nova Guiné uma cordialidade e confiança idênticas àquela que Eliot Ness mostrava ter por Al Capone e seus amigos na Chicago dos anos 20 e 30…
Acessoriamente, ao contrário de Taur Matan Ruak em Timor-Leste que, segundo as conclusões do relatório da ONU, é censurado pelo que podia ter feito e não fez, o seu homólogo das Fidji, o Comodoro Frank Bainimarama, podia fazer e fez mesmo: foi ter com o seu primeiro-ministro para ter uma conversinha a respeito de uma lei de amnistia com a qual ele não concordava e ameaçou depô-lo se a fizesse aprovar…
Estes meus posts pretendem-se tranquilizadores. Vistos deste nosso lado do Mundo, tão civilizado, todos aqueles acontecimentos em Timor-Leste a que vamos tendo acesso parecem-nos preocupantemente bizarros. Inserindo-os na respectiva cultura local, através destas notícias que aqui trago do que acontece nos países vizinhos de Timor-Leste, torna-se tudo muito mais natural…
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17 outubro 2006
O PRESIDENTE TRAVESSO
É muito positivo que se tenha procedido à apresentação pública do Relatório da ONU sobre os acontecimentos de Timor de Abril e Maio deste ano. Considero-o um relatório mais sábio, no sentido de sensato (estão disponíveis as suas conclusões em versão sintética e integral), do que propriamente rigoroso. Não em relação aos acontecimentos em si, pois não tenho fontes alternativas de informação para comparar, mas em relação à forma como estão redigidas as atribuições de responsabilidades.No geral, compartilho as opiniões expressas no seu blogue por Paulo Gorjão quanto à existência nele de algum facciosismo (ele chama-lhe condescendência) pró-Gusmão na forma como se analisam o apuramento das responsabilidades pelos acontecimentos. Podem nele ler-se, na versão sintética, censuras dirigidas tanto a Taur Matan Ruak (o Chefe das Forças Militares) como a Mari Alkatiri (Primeiro-Ministro) – presumo que bem fundamentadas - incluindo algumas sobre aquilo que poderiam ou deveriam ter feito em determinadas circunstâncias.
Contudo, aplicando escrupulosamente essa mesma lógica à actuação do Presidente Xanana Gusmão, depois de se saber tudo aquilo que veio a ser publicado depois a seu respeito (e da esposa…), não só na imprensa portuguesa como também na australiana, restarão poucas dúvidas que Xanana também poderia e deveria ter tido outra conduta em todo o processo e por isso também poderia vir a ser censurado no relatório. A omissão disso na redacção deste relatório da ONU dever-se-á provável e sensatamente a Razões de Estado.
Restar-nos-á o consolo de não ter sido necessário considerar quaisquer Razões de Estado nas investigações efectuadas a respeito de um outro presidente, o de Israel. Senão, em vez das conclusões da notícia “Ministério Público de Israel começa a redigir acusação contra o Presidente”, haveria um outro relatório, a concluir que o presidente poderia ter sido, uma vez por outra, um pouco mais travesso com as suas empregadas e que às vezes estas levavam as brincadeiras a mal, mas nada mais que isso…
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