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20 maio 2022

A INDEPENDÊNCIA DE TIMOR E ONDE É QUE HAVIA ESTADO MÁRIO SOARES ANTES DO 25 de ABRIL

Mário Soares, Portugal Amordaçado, 1972, p.457 (edição portuguesa de 1974)

20 de Maio de 2002. Há precisamente 20 anos Timor Leste tornava-se independente. 30 anos antes disso (1972), Mário Soares, no seu livro Portugal Amordaçado, avaliara os desejos para a auto-determinação dos seus habitantes da forma que se pode ler acima: ««...Timor, que é uma ilha indonésia com bastante pouco a ver com Portugal.» Humilhando ainda mais as considerações completamente superficiais de Mário Soares em 1972, o percurso dos timorenses depois da ocupação indonésia (1975), estavam as circunstâncias dificílimas, únicas de sofridas, que haviam conduzido a nova nação de Timor à primeira independência formal do século XXI. Entre as celebrações da independência de Timor cabe esta referência à superficialidade de Mário Soares. Excelente nos instintos, de uma mediocridade confrangedora em tudo o que envolvesse reflexão. Era o seu estilo, simples: inspirando-se no que acontecera com as possessões portuguesas na Índia em 1961, Mário Soares tirava umas pelas outras e prognosticava também ali a anexação da colónia portuguesa de Timor Oriental pelo grande vizinho... Ficara escrito, mas, para o engrandecer, faltou ouvi-lo depois - e teve 30 anos para isso! - confessar que se enganara redondamente. Há grandes figuras da nossa História que nos aparecem atranvacadas de pequenezas destas nas suas grandezas.

11 março 2022

O FIM DA VIAGEM DO «LUSITÂNIA EXPRESSO»

11 de Março de 1992. Ao largo de Timor e cercado de quatro fragatas indonésias, o ferry-boat Lusitânia Expresso é obrigado a regressar à Austrália. A acção era bonita: levar até Dili uma delegação internacional de estudantes para depor uma coroa de flores no cemitério de Santa Cruz para evocar o massacre que aí tivera lugar quatro meses antes. O problema era tudo o resto, nomeadamente o facto de não se ter contactado as autoridades ocupantes - indonésias - que controlavam o país. E que não iriam certamente autorizar a expedição. Tudo acabou como quem de juízo esperaria que acabasse, e felizmente sem (mais) desastres pessoais (do que os timorenses mortos em Novembro). Ficou a coreografia da cena, em que calhou o papel de mau ao despotismo indonésio - uns antigos colonizados que se haviam tornados colonizadores. O tema e a efeméride (30º aniversário) parecem-me demasiado bons para que não haja por aí algum órgão de comunicação que não o explore mais a fundo.

20 fevereiro 2022

OS LIMITES DA HABILIDADE DIPLOMÁTICA DE SALAZAR

20 de Fevereiro de 1942. Embora tivesse sido muita aclamada, a habilidade diplomática do presidente do Conselho (Salazar) para evitar o envolvimento de Portugal na Segunda Guerra Mundial tinha os seus limites e, há precisamente oitenta anos, as notícias que chegavam do outro lado do Mundo mostravam essa limitação aos portugueses. «Tropas japonesas desembarcaram na parte portuguesa de Timor, o que representa uma nova (e aqui a palavra nova quer dizer que já houvera outra...) violação dos nossos direitos de soberania». A outra violação, prévia, fora a dos australianos, britânicos e holandeses. Como se pode ler no trecho abaixo, de um livro de uma testemunha dos acontecimentos, desde há dois meses (17 de Dezembro de 1941) que uma força militar dos aliados se instalara na mesma cidade de Dili onde os japoneses agora desembarcavam. Embora se tratasse de uma clara violação da neutralidade portuguesa nas suas possessões coloniais, esse outro episódio permanecera abafado pela censura na metrópole, porventura para manter as aparências. Mas era uma situação insustentável porque os japoneses não iriam tolerar aceitar Timor Oriental como um santuário onde as tropas aliadas se poderiam refugiar, depois de terem dominado e desarmado a pequeníssima guarnição portuguesa. Como se pode ler no fundo da página, perante este desembarque em maior força do que o precedente, e muito mais promovido do que fora o outro, «o sr. ministro do Japão fora recebido, em audiência, no palácio de S. Bento, pelo sr. dr. Oliveira Salazar, presidente do Conselho». Contudo, nada se dizia sobre o que fora discutido. E quanto à outra notícia, a do paquete «João Belo», que saíra de Lourenço Marques em 28 de Janeiro, escoltado pelo aviso NRP «Gonçalves Zarco», e transportando um batalhão que iria guarnecer Timor, a sua presença «a dois terços do extenso percurso» (de Maputo a Dili), a sua mobilização pecará por tardia - adivinhava-se que iria voltar para trás, sem desembarcar as tropas, como veio, de facto, a acontecer.

15 janeiro 2022

A BATALHA DO MAR DE ARAFURA

Para explicar os antecedentes desta pequena batalha naval de há 60 anos, convém frisar que, quando a Indonésia alcançou a independência em 1949 (assinalado no mapa acima a vermelho), o novo país, apesar de ameaçado por diversos movimentos separatistas (Aceh, Molucas), possuía, ainda assim, ambições territoriais em direcção a três colónias vizinhas. A Malásia (assinalada a cor de laranja), pela qual a Indonésia chegou a travar um conflito intermitente na ilha de Bornéu com os britânicos entre 1962 e 1966; Timor (assinalado a verde) que os indonésios ocuparam em 1975 a pretexto do vácuo da autoridade portuguesa e que tiveram de desocupar quando finalmente organizaram um referendo que não perceberam que lhes iria correr muito mal(1999); e finalmente a Nova Guiné Ocidental (assinalada a azul claro), colónia holandesa adjacente mas independente da Indonésia, que aqueles continuaram a administrar depois de 1949 e pela qual se travou esta batalha naval do Mar de Arafura.
A Nova Guiné era em 1949 (e continuava a sê-lo em 1962) um dos sítios mais recônditos do mundo, a segunda maior ilha do Mundo com 786 000 km², um clima inóspito e uma população (especialmente no interior) sobre a qual se sabia muito pouco: o que se sabia é que havia uma estrutura tribal enraizada e também que havia pouca convivência entre as tribos: no total, falam-se 1.073 idiomas distintos! Em 1884, a ilha fora dividida em três colónias: a Alemanha ficara com a parcela de Nordeste, o Reino Unido (através da Austrália) com a de Sudeste e a Holanda com a metade Ocidental. Em consequência do desfecho da Primeira Guerra Mundial (1919), os australianos acabaram depois por ficar com a metade Oriental. Era essa a situação em 1949, quando a Holanda resolveu reter a administração da colónia para vir a dar aos seus habitantes a futura possibilidade de, em regime de autodeterminação, se unificarem com a colónia britânica (que viria a alcançar a independência em 1975).
As ambições da Indonésia eram outras: anexar a Nova Guiné Ocidental. E as relações entre a ex-colónia e a antiga metrópole não eram, por isso, propriamente as melhores. Os holandeses mantinham naquelas águas meios navais importantes, um destroyer, duas fragatas (HNLMS Evertsen, mais acima), para demover os indonésios das suas intenções agressivas. A operação que estes últimos lançaram em 15 de Janeiro de 1962 consistiu em transportar 150 comandos em três lanchas rápidas para os desembarcar clandestinamente em território da Nova Guiné. Porém, os holandeses conheciam a operação de antemão e haviam posto aeronaves P-2 a patrulhar o Mar de Arafura. Uma delas encontrou as lanchas e os navios holandeses dirigiram-se para as interceptar. A clara superioridade de fogo dos holandeses fez com que uma das lanchas fosse afundada e as outras duas destruídas. Entre os mortos da batalha naval contou-se o comandante da flotilha indonésia, o comodoro Yos Soedarso.
Do ponto de vista estritamente militar, o desfecho da batalha, a vitória holandesa, foi inequívoca. Mas o aproveitamento político das acções militares consegue subverter essa lógica. Para que se esquecesse a imprudência do comodoro, ele veio a ser transformado em mártir nacional. Em Portugal (acima), quiçá por uma solidariedade instintiva entre potências coloniais, as simpatias iam inequívocas para com a Holanda. Mas esta iria desistir rapidamente da sua intenção: não querendo arcar com os custos de um conflito, ainda que de baixa intensidade, com a Indonésia, através da mediação americana, a Holanda veio a ceder os seus direitos administrativos à ONU, que por sua vez os cedeu à Indonésia em Maio de 1963. Uma hipocrisia total. A Batalha do Mar de Arafura acabou recontada de uma certa maneira diferente entre a Marinha de Guerra da Indonésia (TNI-AL), mas o processo como um desastre naval se pode transformar num sucesso político (e vice-versa...), não lhes deve ter escapado quando foi a vez deles interceptarem o Lusitânia Expresso no Mar de Timor em 1992...

12 novembro 2021

MASSACRE DE SANTA CRUZ

12 de Novembro de 1991. Massacre do cemitério de Santa Cruz em Díli, Timor Leste. Por causa do seu conteúdo, as imagens então recolhidas não podem ser partilhadas e só podem ser reproduzidas no canal YouTube. É um daqueles temas que irá ser desenvolvido certamente na comunicação social convencional.

20 agosto 2021

OS FANTASMAS DE TIMOR

20 de Agosto de 1946. Ao contrário de Portugal e do resto do Império, Timor tinha tido uma história de envolvimento directo na Segunda Guerra Mundial, o que se tornava uma excrescência incómoda na narrativa oficial da sagacidade da conduta do presidente do Conselho, António Salazar, que preservara a neutralidade do país ao longo do conflito. As notícias provindas de Timor ou a ele respeitantes tinham que se adaptar a essas circunstâncias. A preparação das cerimónias do 1º aniversário da libertação de Timor (que seria a 29 de Setembro) eram noticiadas com o destaque festivo que a imagem acima documenta. E outro problema incómodo era a apreciação da conduta dos funcionários do aparelho administrativo durante os quase quatro anos que haviam durado as ocupações (aliada e japonesa), que é abordado pela notícia da sanção atribuída a um desses funcionários que fugira para a Austrália. O assunto revestia-se de uma enorme delicadeza porque, na prática, os visados haviam ficado isolados da metrópole, impossibilitados até de comunicar com ela, não se fale sequer dos meios que pediam e que Portugal nunca esteve em condições de enviar. Por isso, as sanções disciplinares que se propuseram depois do fim da guerra costumavam ser benignas - a proposta, no caso deste réu cujo nome nunca é sequer mencionado ao longo da notícia, era de «10 dias de suspensão de exercício e vencimentos». O que torna o caso notícia é que o ministro das Colónias Marcelo Caetano quis fazer da sanção ao abandono do território por parte daquele funcionário um exemplo e agravou a pena de 10 dias para 18 meses. No despacho, Marcelo é enfático na crítica que o funcionário, ao abandonar as populações que estavam à sua responsabilidade, «não procedeu como um chefe». É nestas ocasiões em que se evoca o que se pede de responsabilização e exemplo às chefias, que nos lembramos dos episódios recentes dos motoristas dos ministros Cabrita e Matos Fernandes.

17 julho 2021

O 25º ANIVERSÁRIO DA CPLP

17 de Julho de 1996. Data da fundação da CPLP, Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Hoje tem 9 países membros: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Assim, à primeira vista, parecia uma ideia engraçada. À segunda vista e com 25 anos de existência, não tenho ideias, porque não tenho noção da actividade desenvolvida. Nem da identidade ou sequer da nacionalidade de quem a dirige, que descubro ser português. Mas descubro que deve ser giro pertencer-lhe como membro associado, atentando à profusão e disparidade de países que se mostram «oficialmente interessados» nesse estatuto, uma lista que começa alfabeticamente pela Albânia(!) e acaba em Taiwan, do outro lado do Mundo.

07 julho 2018

A INDEPENDÊNCIA DAS ILHAS SALOMÃO

7 de Julho de 1978. As Ilhas Salomão alcançam a independência do Reino Unido. O novo país tinha então um pouco mais de 200.000 habitantes que se espalhavam pelos 28.450 km² e pelas seis grandes ilhas e 900 menores que constituem o arquipélago - uma baixíssima densidade, já que nas ilhas predomina a floresta tropical, como ainda o recorda as imagens da crucial Batalha de Guadalcanal, que se travou na ilha homónima entre Agosto de 1942 e Fevereiro de 1943, no decorrer da Segunda Guerra Mundial. E, no entanto, o que em 1978 não deixaria de surpreender o português mais atento e inquiridor, era como 3/4 anos depois de alcançada a liberdade de descolonizar (1974) e do empenho em o fazer (1975) por parte de Portugal, ainda as grandes potências coloniais como o Reino Unido, que haviam iniciado o processo de descolonização décadas antes de Portugal, ainda mantinham um programa compassado de concessão de independências, adequado não apenas ao frenesim descolonizador metropolitano, mas sobretudo adequado às capacidades do futuro país em subsistir com um mínimo de autonomia após alcançada a independência. Desde o início fora evidente que era preciso mais do que entusiasmo e ideologia (normalmente marxista) para constituir um estado. Eram precisos quadros e infraestruturas. E era por isso que as Ilhas Salomão só alcançavam a independência 30 anos depois do Sri Lanka. Em alternativa, Portugal desfez-se das suas possessões coloniais em 1975. Foi uma forma muito bem intencionada de se desfazer das nossas responsabilidades, apostando nas dos outros, no encantamento e na sofreguidão dos poucos intelectuais são tomenses ou timorenses em terem um país só deles para governar. Há precisamente 40 anos e um pouco mais de dois anos e meio depois da tragédia da invasão de Timor-Leste pela Indonésia, esta independência das Salomão naquela mesma região do globo (abaixo), constituía uma demonstração surda da nossa incompetência como potência colonial... mas também como potência descolonizadora.

28 novembro 2017

A DECLARAÇÃO UNILATERAL DA INDEPENDÊNCIA DE TIMOR LESTE

28 de Novembro de 1975. Com a publicação da imprensa lisboeta suspensa como consequência dos acontecimentos do 25 de Novembro torna-se necessário ir recuperar a imprensa menos convencional as noticias do período que imediatamente se seguiu. No caso, o anúncio da declaração unilateral da independência de Timor Leste por parte da Fretilin há precisamente 42 anos, a fonte é o jornal A Voz do Povo, o órgão oficial da UDP, o único partido da extrema esquerda com representação parlamentar (1 deputado na Assembleia Constituinte).
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MORRE MAIS UMA COLÓNIA!
Nasce a República de Timor-Leste

Contra as tentativas do governo português de prolongar a dominação colonial e contras as invasões e ingerências estrangeiras, mais uma colónia portuguesa se transformou em país independente, mais um povo conquistou, pelas armas, a sua liberdade.
A independência de Timor foi proclamada pela FRETILIN (Frente Revolucionária para a Independência de Timor-Leste) no dia 28 de Novembro . Mas enquanto nasce a República de Timor-Leste tropas indonésias, já numa invasão completamente descarada, tomam Atabae(?), uma localidade situada entre a fronteira com a parte indonésia da ilha e Díli, capital de Timor-Leste. E se isto acontece é porque o que mais enfurece o fascista Suharto (chefe do governo da Indonésia) é o facto do povo de Timor, mesmo desfalcado pelas duras batalhas que tem travado ultimamente, não desistiu da luta e tomar nas suas mãos o seu próprio destino.
A proclamação da independência foi o culminar de uma luta que nos últimos meses o povo de Timor tem travado contra um inimigo militarmente poderoso. Mesmo assim, tem sido a FRETILIN, através das suas forças armadas, as FALINTIL, a fazer recuar todos os ataques e invasões e a assegurar o controle militar do território.
Quando, em Agosto, a UDT decidiu romper unilateralmente o pacto anteriormente estabelecido com a FRETILIN, isso tinha uma razão. E que a ligação cada vez mais profunda que se estava a estabelecer entre a FRETILIN e o povo timorense iria em breve deitar por terra todas as tentativas mais ou menos disfarçadas de neo-colonialismo.
De então para cá, as forças pró-indonésias, assim como o governo de Suharto, têm sido obrigadas a revelar a sua verdadeira face: inimigos do povo timorense, mostrando pelos interesses deste um profundo desprezo.
No entanto, quer o golpe da UDT, em Agosto, quer as sucessivas manobras e agressões militares que se seguiram, tudo tem falhada. Timor respondeu sempre com firmeza, apesar de lutar em condições muito desfavoráveis - eis uma grande lição para os povos de todo o Mundo!
E, quanto ao governo português, responsável até há bem pouco pela administração do território, que fez? Recusando-se a tomar uma posição face à invasão e às interferências estrangeiras, cumpre o papel de colaborante com o neo-colonialismo, discutindo, ora com a Indonésia, ora com a Austrália, o destino de Timor-Leste. Por outro lado não quer reconhecer a independência enquanto fala na ONU, abusivamente, em nome da ex-colónia. É isto que significa na prática, a política de "descolonização" do governo português.
"VOZ DO POVO" saúda a independência de Timor-Leste, tão heroicamente conquistada, ao mesmo tempo apela ao povo português, aliado natural dos povos das ex-colónias, para que manifeste a sua solidariedade através de um apoio concreto à luta deste povo irmão, ainda cercado pelos inimigos.

VIVA TIMOR-LESTE INDEPENDENTE!
O POVO DE TIMOR VENCERÁ!
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Aparecido alguns minutos depois da meia-noite do dia do PREC, este é um dos meus textos favoritos daquele período: não consigo imaginar como se possa retocá-lo para o tornar ainda mais demagógico e inconsequente do que o que está. É uma verdadeira obra-prima dos chorrilhos de disparates ideológicos da língua portuguesa. De autor(es) anónimo(s) do século XX. Na verdade, do ponto de vista diplomático e com a clarividência dos 42 anos entretanto transcorridos, percebe-se hoje que ainda bem para os timorenses que, na ocasião, Portugal nunca tivesse levado esta proclamação unilateral da independência de Timor a sério.

30 agosto 2017

O REFERENDO SOBRE A AUTO-DETERMINAÇÃO DE TIMOR LESTE


30 de Agosto de 1999. Realiza-se finalmente um referendo aos timorenses sobre a auto-determinação do seu território. O acto eleitoral foi organizado e realizado sob a supervisão de uma organização da ONU especialmente montada em Timor para o efeito, a UNAMET, garantindo aos cerca de 450.000 potenciais participantes perspectivas de idoneidade, transparência no escrutínio e de respeito pelos resultados que viessem a ser apurados. Enfim, pode reconhecer-se, sem hesitação, que os timorenses votaram em liberdade. Os resultados demoraram cinco dias a serem conhecidos. Abaixo, vêmo-los a ser anunciados por Kofi Annam, o secretário-geral da ONU: 78,5% dos timorenses pronunciaram-se pela independência, numa proporção inequívoca de quase 4 para 1. O facto de o governo indonésio ter demorado um mês e meio a reconhecer os resultados e a violência que grassou em Timor durante esse período, praticada pelos activistas armados da facção que fora derrotada, são hoje apenas notas de rodapé da História. Mas a derrota dessa última insurreição e daqueles que não souberam aceitar o veredito das urnas, transformou este processo de transição para a independência numa vitória não apenas dos timorenses, mas de todos aqueles Democratas que, por princípio, privilegiam a expressão livre da vontade política das maiorias em detrimento do activismo das minorias, por muito vanguardistas, por muito esclarecidas que estas sejam.

27 agosto 2017

A ADMINISTRAÇÃO PORTUGUESA DE TIMOR ABANDONA DILI

27 de Agosto de 1975. O governador Lemos Pires e os restantes membros da administração colonial portuguesa em Timor Leste vêm-se na contingência de abandonar a capital, Dili, e a refugiarem-se na ilha de Ataúro, a 25 km ao largo. No território e desde meados desse mês de Agosto havia-se desencadeado uma guerra civil entre a Fretilin e a UDT, a que as autoridades portuguesas se haviam visto impotentes para pôr cobro. A grande maioria dos militares, de recrutamento local, haviam aderido a uma ou outra facção. Em circunstâncias normais, esta situação seria um escândalo, um vexame as autoridades coloniais não disporem de meios para exercerem a sua autoridade sequer e a terem de abandonar a sede do poder. Mas não no Portugal revolucionário do Verão Quente de 1975, tão completamente absorvido pelas prioridades do combate político que se travava na metrópole. Num vespertino típico de então, a notícia era remetida para a última página (abaixo) sendo redigida de uma forma muito mitigada.
«O Governo de Timor transferiu-se à uma hora local de hoje de Dili para a ilha de Ataúro, situada a cerca de 20 km da capital. Esta decisão, de acordo com um comunicado da Presidência da República, deve-se "à necessidade localmente sentida, de garantir a segurança do Governo, que constitui o sinal da autoridade portuguesa em Timor". Para Ataúro embarcou também um contingente militar constituído por 12 elementos do Exército, 27 da Armada e 64 paraquedistas. Esta transferência foi efectuada a bordo no navio "macDili", no qual embarcou também a totalidade dos refugiados metropolitanos. Antes de sair de Dili, o governador de Timor tomou ainda a decisão de retirar dos hospitais da cidade os poucos médicos que ali trabalhavam por razões de falta de segurança, dado que a Fretilin não concordou em que aquela unidade hospitalar fosse considerada zona neutra.
Estas medidas ocorreram no momento em que prosseguiam os bombardeamentos ao porto de Dili, levados a cabo pela Fretilin, que continua envolvida em acesa confrontação armada com a UDT
O texto prossegue, referindo-se à partida de Almeida Santos, não como membro do governo (do qual não fazia parte) mas apenas como «enviado especial do presidente Costa Gomes» para negociar com os movimentos desavindos, referindo-se finalmente a um apelo de Kurt Waldheim, o secretário-geral da ONU, que, como acontece com 99,9% dos apelos daquele género, era para ser olimpicamente ignorado. Quanto às questões substantivas, aos meios que o governador se desesperaria de pedir, para reforçar a parca centena (ou pouco mais) de militares metropolitanos em que se poderia apoiar para reequilibrar a situação no território, aí o comunicado da Presidência da República (quiçá por causa da personalidade do presidente da República...) destaca-se por não se comprometer absolutamente com nada.
E a razão para tal perceber-se-á quando se olha para a página oposta (a primeira) daquela mesma edição do Diário de Lisboa, onde os destaques vão todos para a confrontação político-militar na metrópole. Há um braço de ferro intenso entre as três facções político militares (Alterações Importantes nas Estruturas do Poder são prometidas para breve). O sector comunista gonçalvista tivera que sacrificar uma das suas pontas de lança da doutrinação das massas, a 5ª Divisão, os elementos desta resistiram, e a aplicação da medida foi realizada a toque de caixa ("Comandos" ocupam a 5ª Divisão). A esquerda comunista (PCP e satélites) e alguma extrema esquerda (MES, PRP-BR, LUAR) dispõem-se a vir para a rua apoiar as respectivas facções político-militares que parecem estar a perder o poder nos bastidores (Frente de Esquerda mostra a sua força). E porque uma revolução também se faz com intelectuais, o jornal prometia para o dia seguinte uma dissertação do ministro Macaísta Malheiros: "Revolução cultural para acabar com os padrões de consumo das sociedades capitalistas". Perante este cenário e o axioma Nem mais um soldado para as colónias que tipo de auxílio poderia o governador Lemos Pires receber?

11 agosto 2015

TIMOR: UMA LONGÍNQUA E POBRE GUERRA CIVIL

Há precisamente 40 anos, Portugal, que estava em perspectivas de se ver a braços com uma guerra civil enquanto procurava gerir como podia outra, abertamente declarada, em Angola, via desencadear-se uma terceira guerra civil num dos últimos territórios sob sua responsabilidade administrativa: Timor. Uma das facções nacionalistas (UDT) promovera localmente um golpe militar e a facção rival (FRETILIN) preparava-se para reagir simetricamente nessa última colónia do Império, situada do outro lado do mundo, de onde as notícias chegavam desfasadas (há 8 horas de diferença entre Lisboa e Díli) e as imagens eram escassas.
Mesmo assim, para quem tinha por referência aquilo que já se conhecia de Angola dos combates entre MPLA, FNLA e UNITA, o aparato bélico dos combatentes timorenses era peculiarmente exótico, combinando os cortes de cabelo da moda com armamento e equipamento vetusto, caso de capacetes, pistolas-metralhadoras FBP e espingardas Mauser em vez das G-3 que há muito equipavam o exército português em todo o outro Ultramar que havia estado em guerra. Quanto ao resto, e pelo que se ia sabendo do desenrolar das operações, os prosaicos morteiros pareciam desempenhar o papel de arma decisiva nessa remota colónia...
...onde nem sequer a ocupação japonesa durante a Segunda Guerra Mundial conseguira servir de estimulo para a dotar de meios mais sofisticados de defesa – por exemplo, artilharia. Ou então, as forças armadas portuguesas haviam incorporado a experiência da invasão indiana a Goa, Damão e Diu em 1961 e assumira-se que nenhum reforço adicional de meios teria feito qualquer diferença em caso de uma invasão indonésia, como de facto veio a acontecer em 7 de Dezembro de 1975. Naquele conflito, únicos adereços perfeitamente ao ritmo do seu tempo só mesmo o camuflado e os óculos ray-ban de um muito jovem (25 anos) José Ramos-Horta...

06 novembro 2014

DE UMA IRREPREENSÍVEL LÓGICA FUTEBOLÍSTICA

Estaria eu muito longe de pensar que, depois de já há uns valentes anos (2006), ter comparado aqui neste Herdeiro de Aécio Xanana com Chalana, por causa da proeminência das respectivas esposas na imagem pública de ambos, voltaria a associar o paladino da resistência timorense com outra imagem castiça do futebol nacional: a do presidente de clube que não se conforma com os poderes situados para além da sua alçada. À acreditar nas notícias entretanto disponibilizadas, o que provocou a inesperada expulsão de oito funcionários judiciais (sete portugueses e um cabo-verdiano) de Timor-Leste terá sido o desagrado dos poderes executivo e legislativo timorenses a sentenças exaradas por eles enquanto elementos do poder judicial. Ao ouvir-se a explicação de Xanana Gusmão abaixo, de imediato ela faz-nos lembrar aquela atitude contrariada de um Pinto da Costa, de um Luís Filipe Vieira, de um Bruno de Carvalho, imediatamente depois de uma derrota num clássico do futebol português,...

...justificando-a aos adeptos, alegando que a culpa foi da arbitragem e quanto é preciso denunciá-lo¹. Também aqui a justificação será que as sentenças tinham sido lesivas do Estado timorense e...esqueça-se lá a separação de poderes, que o objectivo de todo o presidente de clube de futebol é controlar o conselho de arbitragem para que só sejam nomeados os árbitros que ele considere benignos. Analogamente, em Timor, o sistema judicial que Xanana deseja será aquele onde só se proferem sentenças favoráveis ao Estado. Só que não tenho a certeza se Xanana compreende a diferença entre dirigir o Sport Clube de Timor e a República Democrática de Timor, estrutura que sai de todo este episódio a merecer tudo menos o epiteto de democrática. Por cá, só se aceitará a tolerância à mesma prática, se se considerar que, por se tratar de futebol, nada daquilo é para ser levado a sério...

¹ Luís Filipe Vieira merece uma nota de destaque nesses desabafos, pois só ele conseguiu proscrever um árbitro (Pedro Proença) que nove meses depois veio a ser eleito como o melhor do mundo numa eleição de uma organização internacional onde dificilmente se poderiam ter feito sentir as influências dos seus inimigos domésticos. Naturalmente, este é o género de palermice tão crassa que até escapa ao director do jornal do próprio clube comentá-la no canal do mesmo - é aquela coisa de não se conseguir ver o argueiro no próprio olho...

28 janeiro 2014

A EXPANSÃO AUSTRONÉSIA

Este mapa-mundo, que abrange cerca de ¾ da superfície do nosso planeta, mostra-nos a extensão daquela que é uma das mais desconhecidas expansões da Humanidade: a dos povos austronésios. Tratou-se, como aconteceu com os povos indo-europeus que vieram a povoar a Europa, o Próximo Oriente e o Subcontinente Indiano, de processos desencadeados pelo crescimento demográfico das populações, mas um crescimento muito lento, que se processou paulatinamente e se arrastou por milénios. Fazendo parte da pré-História, tudo o que neste momento se pensa saber sobre esses processos resulta dos trabalhos da arqueologia, das investigações da linguística e, mais recentemente, das da genética.
Uma das maiores surpresas da expansão austronésia é a localização do seu berço. Embora haja outras teorias – há-as sempre nestas circunstâncias – a predominante coloca a origem dos povos austronésios nas costas orientais da Formosa. Não há como iludir a ironia: a ilha é hoje maioritariamente povoada por chineses (98%) e constitui, como República da China e como expressão da recusa da aceitação da supremacia comunista no continente (a República Popular da China), uma das últimas expressões da Guerra-Fria. Mas é a sua praticamente ignorada população aborígene (2%) que é a depositária de uma saga que, iniciada há cerca de 5.000 anos, hoje abrange cerca de 400 milhões de pessoas.
Em contraste com a dos indo-europeus do mapa acima, a expansão dos povos austronésios foi predominantemente marítima e veio a prolongar-se até períodos que já eram históricos noutras partes do Mundo: a sua chegada a Madagáscar já será contemporânea com o Império Romano e a chegada à Nova Zelândia coincidirá com a nossa época das Cruzadas. A expansão fez-se inicialmente para os arquipélagos das Filipinas e da Indonésia que já se encontraram povoadas por imigrantes anteriores, povos de tez mais escura, que seriam aparentados com os actuais aborígenes da Austrália e os papuas da Nova Guiné. Só depois a expansão prosseguiu com a colonização de ilhas até então despovoadas.
Só os especialistas é que conseguem dar uma aparência de lógica de parentesco (veja-se o quadro acima, clicar para o ampliar) a um conjunto de quase um milhar de línguas actualmente faladas, exercício esse que comprovará uma raiz comum a elas todas. Ali aparecem idiomas falados na Indonésia, na Malásia, nas Filipinas, o tétum, que é o idioma coloquial de Timor-Leste, e ainda o maori neozelandês, idiomas falados em Madagáscar e outros falados quase do outro lado do Mundo, nos vários arquipélagos do Pacífico, tão longe quanto o estado norte-americano do Hawaii. O único lapso desta gesta é que não existe nenhuma potência – a Indonésia prefere o Islão... – que pretenda explorar os efeitos propagandísticos deste feito (pré)-histórico.
Já em jeito de aditamento e aproveitando para republicar o mapa inicial, valerá a pena chamar a atenção para algumas peculiaridades dos contornos geográficos da expansão. Uma delas é o facto dos austronésios nunca se terem conseguido implantar na Nova Guiné, um fracasso que Jared Diamond terá explicado satisfatoriamente num capítulo (17) de um livro que recomendo a leitura a interessados: Armas, Germes e Aço. Outra peculiaridade, essa por explicar satisfatoriamente, são as condições em que os austronésios terão conseguido colonizar Madagáscar vindos de Bornéu, percorrendo uma distância marítima superior de 7.000 km sem, como se pode acima verificar, quaisquer possibilidades de escalas para reabastecimentos.

24 setembro 2013

GUERRILHAS, LUTAS DE LIBERTAÇÃO NACIONAL E PROCLAMAÇÕES POLÍTICAS

Hoje, quando se completam 40 anos sobre a proclamação unilateral da independência da Guiné Bissau vale a pena falar de outras guerrilhas, de outras lutas de libertação nacional e de outras proclamações políticas a elas associadas que, não apenas por terem sido de certa forma menos bem sucedidas que a da Guiné-Bissau, nem sequer se ouve falar delas. Um excelente exemplo disso são as guerrilhas que se travaram ao longo do decénio que se seguiu ao fim da Segunda Guerra Mundial em qualquer dos três estados do Báltico, Estónia, Letónia e Lituânia, especialmente nesta última (exemplificado pela declaração acima). Contribuiu para o desconhecimento generalizado dessas outras lutas de libertação nacional o facto da potência colonial ser, naquele caso, a União Soviética e dos seus rivais norte-americanos se terem decidido a não investir estrategicamente nessas guerrilhas¹.
Apesar de uma cobertura vegetal (acima) favorável à manutenção de pequenas secções de guerrilheiros habilitados a perturbar o exercício da autoridade soviética, os restantes factores, a opacidade informativa que um regime totalitário como o soviético podia manter conjugada com a ausência de apoios logísticos vindos do exterior condenaram a expressão militar dos três nacionalismos bálticos a um fracasso a longo prazo. Mesmo assim, ainda se registaram episódios esporádicos – permanentemente abafados – de resistência armada durante as décadas de 1960 e 1970. E o desaparecimento da luta armada não foi acompanhada do desaparecimento do nacionalismo em qualquer daqueles países, lembrando aliás um outro exemplo do universo dos países de língua oficial portuguesa: Timor-Leste. Em 1991, os três países foram os primeiros a separarem-se da União Soviética, precedendo a implosão desta última.
¹ Possivelmente para evitar que a União Soviética retaliasse simetricamente, promovendo empenhadamente os movimentos separatistas nos estados dos Estados Unidos...

20 março 2012

UMA LIÇÃO QUE NOS CHEGA DO OUTRO LADO DO MUNDO

Esta derrota de José Ramos-Horta, logo na primeira volta das eleições presidenciais em Timor, uma derrota apesar do seu prestígio internacional (como Prémio Nobel da Paz 1996) e dos cargos que já desempenhara (primeiro-ministro de 2006 a 2007 e presidente desde então) faz-nos recordar como a recandidatura de Aníbal Cavaco Silva de 2011 foi facilitada.

É verdade que a realidade política de Timor é específica, muito diferente da portuguesa: Ramos-Horta fora eleito em 2007 à segunda volta pelos votos de uma coligação de todos-menos-a-Fretilin mas, todos aqueles que se queixam actualmente do desempenho deplorável do actual presidente português, também não se devem esquecer que, ao contrário do que aconteceu agora em Timor, as eleições a que Cavaco Silva se recandidatou (e venceu) em 2011 não contaram propriamente com o que de melhor haveria quanto à categoria dos seus rivais. E com esta observação, não pretendo criticar aqueles que então avançaram mas antes os outros, os que se resguardaram… - como, de resto, o próprio Cavaco Silva também fizera em 2001.

06 junho 2011

QUE PLANO É ESTE, MEU?!

A ntv* foi um canal de televisão por cabo de breve duração (2001-2004) que tinha como particularidade identificativa o seu sotaque nortenho. Teria passado desapercebido para a história da televisão em Portugal não fosse uma sua transmissão memorável, que se pode datar com precisão (20 de Maio de 2002) por ter sido o dia da independência de Timor-Leste, notícia que o pivot que apresentava as notícias das 23H00 lia quando subitamente se terá atrapalhado na leitura do teleponto:
…Xanana Gusmão lembrou os passados tempos difíceis da ocupação indonésia, mas agora que uzzzzz… que o caralho que o fôda (Segue-se um prolongado período de silêncio). ‘Tá Bem! Olha?! Que plano é este, meu?!

Sem o desculpar, tenho a impressão que o sotaque em que foram pronunciadas as grosserias poderá ter amenizado o seu impacto inicial nos telespectadores. Mais condenável todavia, depois da merda que o locutor fez (vi-o recentemente reaparecido na TVI24), terá sido a sua atitude implicativamente infantil. – Que plano é este, meu?! – tornou-se para mim numa expressão sinónima de alguém que diz não importa o quê desde que seja para se tentar evadir às suas responsabilidades.

15 fevereiro 2011

ALGUMAS FOTOGRAFIAS DA DESCOLONIZAÇÃO PORTUGUESA

Embora tivesse atingido um clímax ao longo do ano de 1975, a descolonização portuguesa durou de Dezembro de 1961 até Dezembro de 1999. Seleccionei para este poste oito fotografias que dispus cronologicamente, cada uma respeitante a um dos territórios que estiveram sob tutela portuguesa e que dela se desligaram durante esses 38 anos.
A descolonização portuguesa começou... contrariada. A primeira fotografia, data de 19 de Dezembro de 1961 e é de uma cerimónia de uma rendição militar, a do General Vassalo e Silva (ao centro, sentado), o Governador e Comandante-Chefe do contingente militar encarregado de uma defesa desesperada do Estado Português da Índia.
Continuou contrariada. A fotografia seguinte, datada de 24 de Setembro de 1973, peca pela ausência das autoridades portuguesas na cerimónia da proclamação unilateral da independência da Guiné-Bissau realizada algures (note-se o ambiente camuflado que rodeia a cerimónia…) em território guineense (...), ao arrepio das autoridades coloniais.
Depois veio o 25 de Abril de 1974 e o reconhecimento das colónias à autodeterminação. Mas nem mesmo a solidariedade ideológica podia apagar o azedume que as guerras de libertação haviam criado. Em Moçambique, a 25 de Junho de 1975, a presença do 1º Ministro português Vasco Gonçalves é abafada pelo enorme retrato de Samora Machel.
Pormenores significativos podem distinguir aqueles territórios onde houve luta armada e onde não a houve. Ao içar a nova bandeira de Cabo Verde, a 5 de Julho de 1975, note-se como as Forças Armadas Revolucionárias do novo país continuam, apesar do epíteto, armadas com a mesma espingarda automática G-3 do período colonial…
Países insulares, povoados depois da chegada dos portugueses como o caso anterior e o de São Tomé e Príncipe, vêm-se quase na obrigatoriedade de renegar esse seu passado colonial para a cerimónia de independência (12 de Julho de 1975), apeando a estátua do descobridor português Pêro Escobar, para depois não terem ninguém por quem o substituir
Totalmente ao contrário do que acontecera na Guiné, a cerimónia culminante da descolonização de Angola, a 10 de Novembro de 1975, foi no Salão Nobre do Palácio do Governo em Luanda, mas só contou com a presença dos portugueses. O Alto-Comissário Leonel Cardoso atirou, como se fosse confetti, uma soberania popular que estava a ser disputada pelas armas
Mais complicado ainda, sem portugueses, sem timorenses e sem cerimónia, é o episódio que assinala a descolonização portuguesa em Timor, a 7 de Dezembro de 1975. Perante o que lhe parecia um vácuo de poder e com a anuência norte-americana, as tropas indonésias invadiram-no. Seguir-se-iam mais 24 anos de colonialismo, mas indonésio.
Tão cheio de incidentes, esta gesta descolonizadora de Portugal merecia ser rematada com uma cerimónia adequada, preparada de antemão com pompa e circunstância, para o último (e menor) território do outrora extenso Império Colonial. Aconteceu com Macau a 20 de Dezembro de 1999, quando da sua transferência para a administração chinesa.

23 maio 2010

AS CERIMÓNIAS DA DEPOSIÇÃO DE COROAS DE FLORES

Sempre considerei as cerimónias de deposições de coroas de flores uma fantochada. Em primeiro lugar, porque nunca são os depoentes que verdadeiramente depõem as enormes coroas de flores, mas sim um par de carregadores de serviço, e os depoentes limitam-se a fingir que ajeitam as fitas das coroas, que visivelmente nunca precisam de ajeitamento algum. Depois, porque o depoente se limita a ficar por ali por uns momentos afivelando um ar falsamente compungido: abaixo podemos ver Xanana Gusmão a preparar-se para desempenhar uma cena dessas quando de uma visita a oficial a Jacarta, no cemitério dos heróis nacionais indonésios, um panteão que o não deve deixar cheio de saudades
Além da hipocrisia, em décadas de cerimónias dessas, não me lembro de que tivesse acontecido algo de verdadeiramente interessante durante alguma delas, com a notável excepção abaixo, a 7 de Dezembro de 1970, quando o então chanceler da Alemanha Federal, Willy Brandt, se ajoelhou diante do Monumento erigido ao Levantamento do Gueto de Varsóvia durante a Segunda Guerra Mundial. Hoje promovida à categoria de fotografia histórica e simbólica da política de aproximação a Leste de Brandt baptizada de Ostpolitik, esquece-se que o gesto por muito que nos agrade lembrar tempos em que os chanceleres alemães eram humildes… – já então havia sido considerado como excessivo por 48% dos alemães ocidentais...
A humildade associada ao gesto de Willy Brandt foi verdadeiramente, e em mais do que um sentido, uma verdadeira excepção histórica, como temos andado gradualmente a perceber cada vez melhor… Por isso, vale a pena terminar o poste com uma abordagem ligeira e uma cena muito recente de mais uma dessas cerimónias. Esta teve lugar esta semana em Kiev, na Ucrânia, no quadro da reaproximação que o recém-eleito presidente Viktor Yanukovych está a fazer com o seu grande vizinho, a Rússia. Apesar do mau tempo que fazia, os dois presidentes (Dimitri Medvedev e Yanukovych) foram depor duas grandes coroas de flores no túmulo do soldado desconhecido… Mas o resto é melhor ver no vídeo abaixo:

18 abril 2009

OS APELIDOS PORTUGUESES ESPALHADOS PELA ÁSIA

A fotografia tirada em 1996 aos dois premiados com o Prémio Nobel da Paz desse ano, os timorenses José Manuel Ramos Horta (à esquerda) e Carlos Filipe Ximenes Belo pode ser usada como uma boa base de partida para explicar como os apelidos portugueses se espalharam pelo Mundo. No caso de Ramos-Horta temos o exemplo da miscigenação, já que o seu pai era de origem portuguesa (tinha sido desterrado para Timor) e a sua mãe era de origem timorense. No caso do bispo Ximenes Belo, parece ser um caso de aculturação, em que alguns dos seus antepassados adoptaram nomes portugueses.
Neste segundo caso, e datando a presença dos portugueses na Ásia do longínquo Século XVI, nunca se pode excluir que tenha existido algum antepassado de origem europeia que tivesse sido o responsável pelo estabelecimento do nome que a família adoptou. Contudo, dada a pequena dimensão demográfica de Portugal, é improvável que isso seja muito frequente, tendo em atenção a profusão de apelidos portugueses registados em algumas regiões asiáticas: havia uma história (*) que dizia que havia mais páginas com Silvas nas listas telefónicas de Colombo, capital do Sri Lanka, do que nas de Lisboa…
Mas não há região asiática onde esse fenómeno seja mais complexo do que na Índia. Ali conjuga-se a presença dos portugueses por um período de mais de 450 anos com os seus esforços (pelo menos iniciais) de evangelização e a propensão tipicamente indiana para compartimentar a sociedade em estratos – as castas. Em Goa (acima), por exemplo, nunca houve possibilidade de confusão entre os descendentes, que, como o nome indica, reclamavam a ancestralidade de um longínquo antepassado português, com os restantes cristãos, que muito provavelmente haviam adquirido os apelidos portugueses aquando do baptismo.
Por outro lado, há que contar que uma coisa é a religião que se professa, outra são as fidelidades políticas. Houve muitos católicos goeses que, por pressão da Inquisição e por razões políticas abandonaram as regiões sob soberania portuguesa, vindo a estabelecer-se noutros locais (acima). A maior concentração situava-se junto à cidade indiana de Mangalore o que lhes fez ganhar a designação de católicos mangaloreanos. Muitos deles vieram a emigrar dali depois para Bombaim. Enquanto isso, a partir do Século XIX, a ascensão das elites goesas passou a estar aberto às das outras confissões religiosas.
É assim que actualmente podemos apreciar a situação, algo paradoxal, da coexistência de um político de destaque em Portugal de confissão hindu e de nome Narana Coissoró (acima, à esquerda), com a de um político de destaque na Índia de confissão católica que se chama George Fernandes (à direita). Mas a personalidade indiana de apelido português mais popular do momento deverá ser a nova coqueluche cinematográfica Freida Pinto (abaixo). Como acontece com George Fernandes, a família de Freida Pinto também é de ascendência mangaloreana, embora a própria Freida já tenha nascido em Bombaim.
Mesmo em cidades cosmopolitas, a comunidade parece permanecer endogâmica: o noivo de Freida, com quem ela recentemente rompeu (em Janeiro), chamava-se Rohan Antao (Antão). Como acontece com Fernandes, que começou a sua carreira política como sindicalista de esquerda, também com Freida Pinto a religião servir-lhe-á mais como referência identitária do que como elemento de prática social. É evidente que nenhum deles sabe uma palavra de português, mas basta olhar para a fotografia acima, para se ficar orgulhoso da centenária presença portuguesa na Índia, mesmo sem necessidade de ouvir a actriz…

(*) – Nunca tive uma lista telefónica cingalesa à mão para comparar. Mas a lista deve estar, de facto, cheia de apelidos portugueses e de corrupções deles facilmente identificáveis: Silva, Perera (Pereira), Zoysa (Sousa), Peiris (Peres), Mendis (Mendes), Fonseka (Fonseca), De Mel (de Melo), Corea (Correia), etc.