Mostrar mensagens com a etiqueta Bósnia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Bósnia. Mostrar todas as mensagens

09 novembro 2023

A DESTRUIÇÃO DA PONTE DE MOSTAR

(Republicação)

9 de Novembro de 1993. A ponte velha («stari most» em servo-croata), que ligava as duas partes da cidade herzegovina de Mostar e que fora construída no século XVI, é destruída pelo fogo da artilharia croata. O episódio, militarmente menor e que não ocasionou, felizmente, danos pessoais, vai contudo perdurar simbolicamente como um dos momentos emblemáticos da guerra civil que destroçou a Jugoslávia. A destruição da ponte tinha lugar quatro anos precisos após a queda do Muro de Berlim e parecia ser a demonstração que a criação de uma nova ordem internacional depois do desaparecimento dos dois blocos europeus não iria ser tão idílica quanto originalmente parecera. Caíam muros mas também caíam pontes. Esta foi reconstruida em 2004.

16 setembro 2023

OS MOTINS DE QUE NUNCA NINGUÉM FALA

(Republicação)
16 e 17 de Setembro de 1943. Há assuntos em que todos os exércitos do mundo compartilham a mesma compulsão para os abafar. Os motins são um deles. Soldados que subvertem a ordem estabelecida é algo de que a hierarquia militar dispensa. Os motins são abafados quando eclodem e são abafados dos registos. Normalmente estes últimos, indispensáveis para as sanções, desaparecem depois dos arquivos. Mas é por isso mesmo que vale a pena destacar a coincidência temporal destes dois, ocorridos há precisamente 80 anos, um de cada lado da Segunda Guerra Mundial que então se travava. O primeiro caso envolveu um grupo de 300 veteranos da 50ª e 51ª divisões britânicas (VIII Exército), que haviam sido originalmente transportados do norte de África para se reunirem com as suas unidades então colocadas na Sicília, quando foram realocados inesperadamente (e em trânsito) como reforços das muito menos prestigiadas 46ª e 56ª divisões (V Exército), que estavam então engajadas em combate em Salerno, na própria península italiana. O livro acima, publicado em 2005, defende a sua causa: alguém os havia aldrabado, o que não invalidou que os cerca de 200 amotinados viessem a ser julgados em tribunal militar e condenados. Ao mesmo tempo e a algumas centenas de quilómetros dali, na 13ª divisão SS (Cimitarra), estacionada em Aveyron na França, desencadeou-se um outro motim. Aqui, as razões eram outras. Apesar de pertencente às SS, a unidade era composta de uma esmagadora maioria de muçulmanos bósnios, embora os oficiais fossem todos de origem germânica. Obviamente, a adesão à causa alemã era, por isso, algo hesitante. A recente rendição de Itália tornara a situação militar na Jugoslávia assaz periclitante, obrigando o dispositivo militar germânico a ter que se desdobrar para suprir o desaparecimento das unidades italianas que com eles ocupavam a Jugoslávia. As guerrilhas nacionalistas e comunistas aproveitaram esse momento de fraqueza e entre os soldados bósnios houve quem pensasse que a sua unidade pudesse desempenhar um papel autónomo do preconizado pelos alemães. O motim assinalou-se pelo assassinato de cinco oficiais alemães. Os números diferem substancialmente quanto ao número de amotinados mortos e sancionados pela repressão alemã - de 14 a 141 mortos. Várias centenas foram expulsos das fileiras e mandados para organizações de trabalho forçado ou para campos de concentração. Estas são as pequenas histórias da Segunda Guerra Mundial que não se costumam contar.

29 maio 2023

O CONCURSO DE «MISS SARAVEJO CERCADA»

29 de Maio de 1993. Tem lugar em Saravejo, capital da Bósnia, cercada pelo exército sérvio, um concurso de beleza sui-generis, intitulado «Miss Saravejo cercada». Na cerimónia final de consagração da rainha de beleza, uma jovem de 17 anos chamada Inela Nogić, em vez da coroa, ceptro e faixa, que são tradicionais na ocasião, foi exibida a faixa que se vê acima, onde se lê, em inglês, «Não os deixem matar-nos», referindo-se aos contínuos bombardeamentos de artilharia do exército sérvio que cercava a cidade há 14 meses. Embora noticiado na época, o episódio só veio a receber uma verdadeira promoção mundial dali por dois anos, por causa de uma canção intitulada Miss Saravejo juntando as interpretações de Bono (dos U2) e de Luciano Pavarotti. Mas as últimas palavras deste poste guardo-as para a própria Inela e para a honestidade da sua resposta quando perguntada acerca da canção que a celebrizou:

16 abril 2023

A APROVAÇÃO DA RESOLUÇÃO 819 DO CONSELHO DE SEGURANÇA DA ONU

16 de Abril de 1993. O Conselho de Segurança da ONU aprova por unanimidade dos seus 15 membros (entre os quais se contam dois países de expressão portuguesa, Brasil e Cabo Verde) a sua resolução 819. Nela se reafirmam resoluções prévias sobre o mesmo tema, e o Conselho expressa a sua preocupação com as acções das unidades paramilitares sérvias nas cidades e vilas do Leste da Bósnia-Herzegovina, incluindo ataques a civis, às forças de das Nações Unidas e à interrupção de comboios de ajuda humanitária. Apesar da assertividade da redacção do texto, a falta de meios e de atitude das tropas de interposição no terreno para intimidarem uma das facções (precisamente as unidades paramilitares sérvias), veio a resultar no massacre de mais 8.000 pessoas em Srebrenica em Julho de 1995. Foi uma grande lição de modéstia para aquela bolha de diplomatas que vive na ilusão de que a diplomacia é um fim e não apenas um meio. Afinal, quando os agentes de mediação não tem meios de intimidar as partes desavindas, o mais prudente é estarem quietos e pouparem-se a fazer figura de parvos.

17 fevereiro 2023

A FORMALIZAÇÃO DE UM PACTO ESTATUTÁRIO ASSOCIANDO OS TRÊS PAÍSES DA «PEQUENA ENTENTE»

A «Pequena Entente» fora originalmente o resultado de assinaturas de tratados bilaterais de segurança mútua assinados ao longo de 1920, 1921 e 1922 entre a Checoslováquia, a Jugoslávia e a Roménia (acima, assinaladas a verde). Todos estes três países tinham expandido as suas fronteiras (a Checoslováquia tinha mesmo surgido!) quando do final da Grande Guerra (1914-18), e isso acontecera à custa da implosão do Império Austro-Húngaro. Portanto, o receio que os associava era o perigo de um revanchismo dos  países derrotados em 1918: Áustria, Hungria e, sobretudo, Alemanha. Por detrás da associação entre aqueles três países era notório o apadrinhamento da França. Durante o primeiro decénio da sua existência, a «Pequena Entente» pouco mais fora do que um protocolo diplomático «in being» (transposição de uma expressão do inglês, «fleet in beeing», com o significado de uma frota que é importante apenas por existir, sem correr o risco e a necessidade de se engajar em batalhas navais para demonstrar as suas capacidades).Só que em 1933 o comportamento da Alemanha começara a modificar-se e as previsões eram que se iria modificar ainda mais com a chegada de Adolf Hitler ao poder. A 17 de Fevereiro de 1933 era notícia a assinatura no dia anterior em Paris(!...), de um pacto de funcionamento associando os três países da «Pequena Entente». O futuro da próxima meia dúzia de anos viria a demonstrar que este reforço dos laços entre eles poucas consequências práticas teriam. E o futuro muito mais longínquo (60 anos depois) viria a expor à evidência as fragilidades de dois deles e, por consequência, da própria «Pequena Entente» como aliança defensiva: Checoslováquia e Jugoslávia desapareceram com o fim da Guerra Fria.

06 abril 2022

O INÍCIO DA GUERRA DA BÓSNIA

6 de Abril de 1992. Início da Guerra da Bósnia, um conflito que se irá arrastar por três anos e meio envolvendo três beligerantes combatendo-se entre si - Bósnios (muçulmanos), Sérvios (cristãos ortodoxos) e Croatas (cristãos católicos). As referências religiosas são muito importantes para a identidade de cada grupo já que todos eles se exprimem num idioma mutuamente inteligível. O vídeo acima mostra a evolução das frentes de batalha. Há alguns aspectos semelhantes entre este conflito e a invasão russa da Ucrânia.

12 fevereiro 2022

O INÍCIO DO JULGAMENTO DE SLOBODAN MILOSĚVIĆ

Haia, Países Baixos, 12 de Fevereiro de 2002. Início do julgamento de Slobodan Milošević. O antigo presidente da Sérvia e da Jugoslávia e réu comparece em tribunal acusado de: genocídio; cumplicidade em genocídio; deportação; assassinato; perseguições por motivos políticos, raciais e religiosos; actos desumanos e transferência forçada; extermínio; prisão; tortura; assassinato intencional; confinamento ilegal; causador intencional de grande sofrimento; deportação ou transferência ilegal; destruição extensa e apropriação de propriedade, não justificada por qualquer necessidade militar e realizada de forma ilegal e arbitrária; tratamento cruel; saque de propriedade pública e/ou privada; ataques a civis; destruição ou dano intencional a monumentos históricos e instituições dedicadas à educação ou religião; ataques ilegais a bens civis. A acusação desenrolar-se-á de acordo com a extensão de todas estas acusações que acima se podem ler e, como se imagina, tomará dois anos a concluir-se, depois do tribunal ouvir 295 testemunhas e de terem sido apresentadas mais de 5.000 provas. Por um princípio de equilíbrio, foi concedida à defesa um período de tempo idêntico para a sua tarefa. Não surpreende por isso saber que, mais de quatro anos depois, a 11 de Março de 2006, e quando ainda decorria o julgamento, o tribunal foi surpreendido pela morte súbita do réu, de ataque cardíaco. Foi um completo anti-clímax. Tantos cuidados se puseram no formalismo do funcionamento do tribunal que se perdeu completamente de vista a sua funcionalidade e o o objectivo do julgamento. Os factos haviam ocorrido primordialmente com a dissolução da Jugoslávia, que ocorrera em 1991, ou seja 15 anos antes... Uma efeméride para constatar que não é só por cá que este fenómeno acontece, nos casos de José Sócrates, Ricardo Salgado, etc., que, quando forem julgados, já as pessoas se esqueceram do porquê. 

29 junho 2021

O ALARMISMO DE UMA GUERRA COMO A DA COREIA, MAS NA EUROPA

29 de Junho de 1951. No jornal desse dia, mesmo ao lado das notícias a respeito da guerra da Coreia, cujo ritmo das operações militares se havia acalmado substancialmente, quando ela completara um ano, surgia um outro grito de alarme, este oriundo de Belgrado, a capital da Jugoslávia, anunciando uma pretensa concentração de tropas soviéticas nas suas fronteiras, naquilo que os jugoslavos de Tito pretenderiam que passasse por uma analogia com a invasão norte-coreana que ocorrera no ano anterior, e que fora a causa do conflito coreano. As duas notícias oriundas de Belgrado apresentam-se encadeadas de tal forma que as intenções dos jugoslavos se mostram límpidas: «O pedido da Jugoslávia aos Estados Unidos para fornecimento de armas». Adiante-se que o pedido jugoslavo vai ser satisfeito e que os Estados Unidos irão realmente fornecer material de guerra à Jugoslávia, apesar de se tratar de um país assumidamente comunista! Na fase que aqui estamos a cobrir, o fornecimento mais importante será o de 150 caças-bombardeiros P-47 Thunderbolt, que se podem ver nas duas fotografias abaixo, voando em formação à época, e exposto actualmente num Museu do Ar sérvio, com as estrelas vermelhas identificativas da força aérea jugoslava .

01 março 2021

O RECENSEAMENTO NA JUGOSLÁVIA

1 de Março de 1971. Num artigo originário do jornal parisiense Le Monde (mas assinado por um autor com um apelido de nítida ressonância sérvia - Yankovic), podiam ler-se os complexos problemas que se levantavam por causa da realização do próximo recenseamento na Jugoslávia. «Contrariamente ao que, em geral, se pensa no estrangeiro, a Jugoslávia socialista e federal não é o país dos jugoslavos. (...) Dentro do país (e a lei é precisa a esse respeito) pertence quer a um dos povos de uma República Federal, quer a uma das minorias nacionais... ou então não tem nacionalidade.» Os povos, prosseguia, eram seis («sérvios, croatas, eslovenos, macedónios, montenegrinos e muçulmanos») e as minorias nacionais eram «numerosas» («albaneses, húngaros, eslovacos, turcos, italianos, romenos, checos , búlgaros, etc»). O artigo prolongava-se e ia acabar numa outra página mais adiante. Era um daqueles artigos só mesmo para interessados por minudências da composição étnica de países estrangeiros. Era assim que há cinquenta anos era considerada a heterogeneidade da Jugoslávia de Tito: um detalhe da ordem internacional. Vinte anos depois, quando as circunstâncias envolventes se alteraram e acabou a Guerra Fria, deu para perceber que não era bem assim: o problema havia estado apenas dormente.

14 dezembro 2020

A RATIFICAÇÃO FORMAL DO FIM DA JUGOSLÁVIA

14 de Dezembro de 1995. Assinatura formal em Paris, por parte dos presidentes da (da esquerda para a direita) Sérvia, Bósnia e Croácia, dos denominados Acordos de Dayton. Por um lado, é um acordo de cessar-fogo e o fim das intenções de qualquer das partes signatárias em continuar a rectificar as fronteiras já demarcadas a tiro. Por outro, mais significativo, é o dobre de finados de uma ideia do início do século XX de juntar os eslavos da região num mesmo país, qual versão sucedânea, reduzida e mais homogénea do antigo império Austro-Húngaro. Como o predecessor, também a Jugoslávia se revelou uma construção política que não sobreviveria às (novas) circunstâncias.

11 julho 2020

O MASSACRE DE SREBRENICA

11 de Julho de 1995. É a data em que se considera que terá começado o massacre dos prisioneiros (mas também civis) bósnios que as tropas sérvias haviam capturado por ocasião da conquista da pequena povoação de Srebrenica, que tivera lugar alguns dias antes. Não me interessa contar aqui o que aconteceu, apenas as lições que se podem extrair do que aconteceu. No final da guerra, mais de 8.000 corpos serão exumados de valas comuns e uns 6.000 serão identificados, constando os seus nomes de um memorial (fotografia acima). Se a História tiver servido para ensinar alguma coisa aos vindouros, deste (verdadeiro) Massacre, ocorrido há 25 anos, pode concluir-se:

a) Que os militares sérvios eram comandados não apenas por criminosos, mas por criminosos imbecis que nunca conseguiram explicar qual a vantagem militar ou outra de assassinar 8.000 pessoas naquelas circunstâncias; contudo, o enorme preço político que a Sérvia paga até hoje é que os sérvios são considerados internacionalmente como os nazis maus de um conflito (a cisão da Jugoslávia) que não foram eles a desencadear, nem teve inocentes;

b) Que, quando as coisas se põem feias, é que se percebeu que as forças de interposição da ONU - os conhecidos capacetes azuis - estão lá apenas para enfeitar: a vergonha recaiu especificamente sobre os holandeses, que eram os que estavam em Srebrenica e que foram as testemunhas passivas do que aconteceu, mas o Massacre serviu como uma parada de poker em que alguém paga para ver, e se vem a descobrir que não há nenhum contingente daquelas tropas que se disponha a sofrer baixas por causas altruistas;

c) Que para os padrões da nossa simpatia solidária, ele há vítimas... e vítimas. Este caso dos bósnios muçulmanos é de escalão intermediário - são caucasianos (um ponto a favor), mas não professam a melhor das religiões. Um pormenor engraçado é aquele que destaca o facto de nas tropas sérvias se contarem algumas centenas de voluntários russos, extremistas ortodoxos, ao mesmo tempo que se esquece o facto de que havia também algumas centenas de gregos nas mesmas condições. Afinal a Rússia ainda é um inimigo tradicional do Ocidente, enquanto a Grécia faz parte da NATO e da União Europeia.

02 dezembro 2018

A IMPORTÂNCIA DAS FRONTEIRAS INTERNAS DA JUGOSLÁVIA

1 de Dezembro de 1918. Proclamação do Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, país que mais tarde se viria a denominar Jugoslávia. Hoje, que seria a ocasião do seu centenário, não passa de uma memória. Não durou o tempo sequer de celebrar as suas bodas de diamante. Sempre foi um país em que, mais importante do que as fronteiras com o estrangeiro, o problema eram os contornos das fronteiras interiores. No quadro acima exibem-se quatro modelos distintos da sua organização política e administrativa (de cima para baixo e da esquerda para a direita): as sete províncias (1918-1922), reorganizadas em trinta e três oblasts (1922-1929), depois reconvertidas em nove banovinas (1929-1939). Depois em 1945 passou-se a seis repúblicas, complementadas em 1974 com duas províncias autónomas (a tracejado). Foi o formato mais estável, mas colapsou em 1991.

09 agosto 2018

HÁ CINQUENTA ANOS: TITO VISITAVA PRAGA


9 de Agosto de 1968. O presidente Tito da Jugoslávia visitava Praga, acolhido no aeroporto com uma manifestação de regozijo de uma espontaneidade verdadeiramente socialista (no Ocidente não se conseguia ser assim tão espontâneo, com as bandeirinhas e tudo...). Paradoxalmente, aquilo que ali levava Tito, o mais destacado dirigente socialista dissidente na Europa, era a procura desesperada por parte de Alexander Dubček de uma solução conciliando a manutenção da Checoslováquia sob um regime comunista, mas com uma maior liberdade de actuação a respeito das questões domésticas, como acontecia com a Jugoslávia. Contudo, como a própria informação da época reportava (abaixo, as notícias do Diário de Lisboa de 9 e 10 de Agosto de 1968), se a Jugoslávia desenvolvera - e a que custo! - o poder e o prestígio de se defender da intromissão dos soviéticos, uma outra coisa seria projectá-los para o resto da Europa do Leste. A Jugoslávia «reservava-se»... e a Checoslováquia via-se mais sozinha. Não se sabia então, mas a invasão soviética estava apenas a 12 dias de distância.

21 julho 2018

A PRISÃO DE RADOVAN KARADZIC

21 de Julho de 2008. Depois de ter desaparecido em 1995, as autoridades sérvias anunciam a captura do antigo dirigente da comunidade sérvia da Bósnia, Radovan Karadžić. O foragido de treze anos, sobre o qual pendiam graves acusações por crimes de guerra e genocídio formuladas pelo Tribunal Penal Internacional para a antiga Jugoslávia, vivia em Belgrado, com uma falsa identidade e uma aparência retocada (acima). A protecção passiva de uma dúzia de anos de que gozara, por parte dessas mesmas autoridades sérvias que agora anunciavam a sua captura, só terá desaparecido quando estas se terão apercebido que o arrastamento da situação apenas estaria a penalizar a aceitação da Sérvia entre a comunidade internacional. O julgamento de Karadžić, repleto de incidentes causados pelo réu, demorou quase oito anos. Conclui-se em Março de 2016 com a sua condenação a 40 anos de prisão (abaixo). Também vale a pena contar as histórias em que os culpados pagam pelos seus crimes.

09 junho 2018

DEPOIS DO MAIO DE 68 EM PARIS... O JUNHO DE 68 EM BELGRADO

9 de Junho de 1968. Se as ondas de choque daquilo que acontecera em França se espalhara pela população estudantil de toda a Europa, países houve em que esse impacto se tornou mais efectivo como foi o caso da (então unida) Jugoslávia. A 2 de Junho de 1968 (já os acontecimentos em França estavam na sua fase descendente) e por um motivo perfeitamente pueril, a falta de bilhetes para um espectáculo teatral, produzira-se uma reedição em Belgrado do encadeado quotidiano de protestos estudantis e de enfrentamentos nas ruas dos estudantes com a polícia, à boa maneira das imagens do Quartier Latin que haviam corrido mundo. Depois os protestos haviam-se propagado de Belgrado às outras capitais jugoslavas, Zagreb, Sarajevo e Ljubljana, demonstrando-se o quanto a contestação era transversal às várias nacionalidades. Para além da França, outra fonte de inspiração dos manifestantes era a Checoslováquia e as reformas que ali se ensaiavam no monolítico regime comunista vigente, a denominada Primavera de Praga. A ameaça pairava mas, ao contrário de de Gaulle, Tito não foi apanhado desprevenido e, apesar dos seus 76 anos, não vacilou. Há precisamente 50 anos, era Domingo e a contestação tinha começado há precisamente uma semana, quando Tito apareceu na televisão com um discurso em que atribuía condescendentemente alguma razão aos estudantes enquanto lhes anunciava várias concessões (mesmo sem perceber o servo-croata, a linguagem corporal de Tito no tal discurso no vídeo abaixo mostra isso mesmo - e dá vontade de rir ouvi-lo a justificar o apartamento dos estudantes da actividade política, quando por cá os comunistas tinham organizações como a UEC...). A contestação estudantil na Jugoslávia perdeu gás, foi dominada e ficou esquecida, tirando aqueles que o poder considerou os cabecilhas e que foram depois discretamente apanhados (e sancionados) um a um. É o género de episódio que raramente aparece evocado e há várias razões para tal, embora nem todas sejam transparentes, uma delas será a cegueira ideológica - por exemplo, não existe uma página em francês na wikipedia evocando o assunto e Deus sabe como os franceses adoram gabar-se da influência que as suas revoluções têm por essa Europa fora... e nesta outra página da wikipedia, o caso da Jugoslávia nem sequer aparece mencionado.

28 abril 2018

A MORTE DO «CAUSADOR» DE TANTAS MORTES

28 de Abril de 1918. Foi também há cem anos que, neste dia, morreu Gravilo Princip, o sérvio da Bósnia que se celebrizara por ter assassinado o arquiduque Francisco Fernando e a esposa a 28 de Junho de 1914 em Saravejo, acontecimento que estivera, pelo menos formalmente, na origem da Grande Guerra que então ainda se travava. Contrariamente ao que se esperaria, Princip não fora executado, tinha apenas 19 anos e uma idade inferior a uma tal pena, de acordo com o que dispunha o código imperial, e acabara sendo condenado à pena de prisão máxima aceitável nessas circunstâncias: 20 anos. Cumpria a sua pena em Theresienstadt (mais tarde famosa por albergar um campo de concentração), mas nos três anos e dez meses decorridos desde o assassinato, as condições deliberadamente adversas da detenção, terão feito com que ele contraísse tuberculose óssea. Quando morreu, o recluso Gravilo Princip, apesar dos seus 23 anos, pesava apenas uns 40 kg e já sofrera a amputação do braço direito. Morrera aos poucos. Mas não deixa de ser surpreendente saber que ele sobrevivera a tantos milhões que já haviam perecido naquela guerra que ele contribuíra, como mais ninguém, para desencadear.

05 abril 2018

O CERCO DE SARAJEVO

5 de Abril de 1992. As forças sérvias davam início ao cerco de Sarajevo, a capital da Bósnia Herzegovina. Fora por causa de um assassinato que ali ocorrera que começou a Primeira Guerra Mundial. Mas aprendera-se a lição, não seria pelo que ali se passará que as potências se envolveriam em nova guerra. Talvez antes pelo contrário. O cerco ir-se-á manter por quase quatro anos, até 29 de Fevereiro de 1996. Os combates nunca alcançarão grande intensidade - como em Leninegrado, não era intenção dos sitiantes conquistar a cidade, apenas pressionar as autoridades bosníacas - mas, mesmo assim, no fim, o número de mortos superará os 11.000. Isto aconteceu há 26 anos, em plena Europa, mas a transição do episódio das Notícias para a História terá falhado algures, pois a Memória que deixou é surpreendentemente fraca. Nada a permite comparar nas evocações e apenas para exemplo, com o início de outro cerco célebre, o de Constantinopla que também começou neste dia, mas de há 565 anos (1453). Para quem esteja interessado em saber mais sobre o que aconteceu em Sarajevo, existe este documentário que passou na RTP.

05 novembro 2014

NAZIS E MUÇULMANOS

Depois de uma associando os nazis aos negros, permitam-me afixar esta fotografia onde os primeiros aparecem associados a muçulmanos (na outra eles também eram muçulmanos, mas eram sobretudo negros). A 13ª divisão das Waffen SS, que recebeu o cognome de cimitarra (Handschar em alemão), foi formada em 1943. Foi em Novembro desse ano, ainda na recruta na Silésia e durante uma das cinco orações do dia que esta fotografia foi feita. Tratava-se de uma das ideias queridas de Heinrich Himmler, o Reichsführer SS, a de aproveitar o renomado fervor combatente dos bósnios muçulmanos, uma imagem que os factos vieram demonstrar que era mais idealizada do que consequente. A verdade é que não faltaram voluntários: cerca de 25.000 bósnios apresentaram-se para servir ao lado dos alemães, o equivalente a uns 4% da população total da comunidade bosníaca – uma percentagem muito significativa¹.
Apresentaram-se tantos voluntários bósnios que deram para guarnecer não apenas uma mas duas divisões das Waffen SS: não apenas a 13ª divisão mas também uma outra 23ª divisão que veio a ser denominada Kama. Mas a esta última faltava-lhe o pessoal para a enquadrar, que as patentes mais elevadas estavam (naturalmente...) reservadas apenas a alemães e assim não chegou a vingar. Quando à actividade operacional, os soldados da Handschar intervieram quase exclusivamente na Bósnia natal contra os guerrilheiros (partisans) de Tito, protagonistas de uma guerra civil que se travava simultaneamente e inserida numa guerra mundial, em acções onde tanto exibiram a sua extrema crueldade contra o inimigo das outras nacionalidades eslavas como também altas taxas de deserção para esse mesmo inimigo que, especialmente nos meses do fim da guerra, deixaram a unidade quase sem qualquer capacidade operacional.
¹ Para referência, naquele conflito os países possuíam cerca de 10% da sua população total a cumprir serviço nas forças armadas – mas uma substancial parte deles eram conscriptos.

20 julho 2011

SREBRENICA, JULHO DE 1995

A pretexto do anúncio da captura de Goran Hadzic, o último dos grandes criminosos de guerra sérvios que eram reclamados pelo Tribunal Penal Internacional (sedeado em Haia, nos Países Baixos), creio que vale a pena relembrar os acontecimentos de há 16 anos atrás, em Srebrenica, na Bósnia, envolvendo precisamente os sérvios, os bósnios… e também os holandeses. Em Abril de 1993, a Resolução 819 do Conselho de Segurança da ONU fora aprovada por unanimidade, estabelecendo uma zona de segurança em redor de Srebrenica, uma cidade de maioria muçulmana situada no Leste da Bósnia-Herzegovina (abaixo).
Para a verificar e implementar no terreno essa zona de segurança a cidade recebeu então uma guarnição de um batalhão de cerca de 600 capacetes azuis, sob a égide da ONU, uma unidade militar de origem holandesa. Em Julho de 1995, no quadro geral da Guerra Civil que dilacerava as regiões constituintes da antiga Jugoslávia, as forças sérvias da Bósnia sob o comando do General Ratko Mladić invadiram a zona de segurança de Srebrenica neutralizando as unidades holandesas ali destacadas. Cerca de 40.000 civis que aí se haviam refugiado foram expulsos e mais de oito mil homens (militares e civis) foram executados. Por causa desse genocídio, Ratko Mladić (acima) foi considerado um criminoso de guerra, capturado há cerca de dois meses e aguarda a sentença de um julgamento que só recentemente começou. O Mundo ainda não esquecera infelizmente outros episódios do mesmo género desde os que haviam sido perpetrados, por exemplo, pelas SS no decurso da Segunda Guerra Mundial. O que constituiu uma novidade no Massacre de Srebrenica é que ele tivera lugar diante de uma unidade militar que fora destacada, entre várias missões, para impedir que isso mesmo acontecesse – pelo menos, assim fora explicado à opinião pública!
A controvérsia à volta da cumplicidade (por omissão) dos holandeses veio a ultrapassar a da responsabilidade – inequívoca! – dos sérvios bósnios. Correu Mundo uma fotografia em que o comandante holandês, o Tenente-Coronel Thomas Karremans (acima, ao centro) bebia um copo com Mladić (à esquerda). Para se justificarem, os militares holandeses procuraram transferir as responsabilidades para o poder político e para as directivas dele emanadas que lhes limitaram a capacidade de actuação. Na política doméstica ainda vingou essa versão: o 1º Ministro Wilhem Kok demitiu-se em 2002 por causa dessas acusações.
Em termos internacionais e entre os homólogos das outras Forças Armadas, a começar pelos aliados da NATO, o desempenho do exército holandês do Massacre de Srebrenica foi acolhido no meio de um silêncio que teve tanto de cúmplice quanto de eloquente… Se há algo que torne as Forças Armadas dos Países Baixos quase únicas no Mundo é a força negocial das suas associações sócio-profissionais e sindicais (também o pioneirismo na aceitação de homossexuais nas fileiras). Claro que isso terá os seus custos na operacionalidade, a ponto se dizer ironicamente que ali a próxima Guerra não pode começar ao fim-de-semana - não está ninguém no quartel...

27 abril 2008

SURPRESAS AGRADÁVEIS

É simpático constatar como a programação televisiva diversificada de um Sábado à noite ainda é capaz de nos vir a surpreender agradavelmente, como aconteceu ontem à noite, com uma série televisiva antiga da BBC (datada de 1999) que se intitula Warriors.
Trata-se da história pessoal de alguns militares britânicos que, a partir de 1992, foram destacados para a antiga Jugoslávia como Capacetes Azuis da ONU. O excelente trabalho da câmara acaba por criar no espectador uma empatia com as suas frustrações ao tornarem-se testemunhas impotentes dos massacres e das limpezas étnicas que ali tiveram lugar.
Se por diversas vezes já aqui alertei que os militares, em geral, não são preparados para desempenhar funções policiais, a série também levanta claramente muitas dúvidas que aqueles militares (apesar de serem profissionais) tivessem sido preparados e tivessem alguma utilidade naquelas funções e naquelas circunstâncias, como forças de interposição…
Resta adicionar que esta magnífica (mas pesada) série sobre guerra passou à 1 da manhã e no improvável canal SIC Mulher, precedendo o Dr. Phil… Se alguém quiser arriscar uma explicação para a compatibilidade da série com a lógica do resto da grelha de programação do canal, a caixa de comentários está à sua disposição...