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06 novembro 2023

A GRANDE CONFERÊNCIA DA ÁSIA ORIENTAL

(Republicação)
6 de Novembro de 1943. Conclusão em Tóquio da Grande Conferência da Ásia Oriental, reunindo o primeiro-ministro japonês Hideki Tōjō (ao centro, na fotografia) com os países satélites, pretensamente independentes, ocupados pelas armas japonesas. Esta Cimeira, a que os livros sobre a Segunda Guerra Mundial não costumam dedicar grande atenção, representou um importante esforço diplomático dos japoneses para congregar os apoios dos nacionalismos asiáticos quando a situação militar evoluía nitidamente em seu prejuízo. Entre os presentes contaram-se (da esquerda para a direita): Ba Maw (Birmânia), Zhang Jinghui (Manchúria), Wang Jingwei (China colaboracionista), o anfitrião Tōjō (naturalmente ao centro...), Wan Waithayakon (Tailândia, provavelmente o país mais autónomo entre os convidados), José P. Laurel (Filipinas) e Subhas Chandra Bose (Índia livre, de que aqui se falou neste blogue anteriormente). Tão interessantes quanto as presenças, são as ausências: as dos coreanos, que o Japão considerava uma colónia sua, sem qualquer direito a exprimir-se; as dos vietnamitas e cambojanos, que o governo japonês não quisera convidar para não afrontar a França de Vichy (que era um seu aliado nominal); e as dos malaios e indonésios, já que os japoneses ainda não se haviam decidido em que sentido haviam de conduzir a sua política colonial e a defesa dos seus interesses, no meio do emaranhado étnico que constituía a região. Mas não seria por estas últimas inconsistências que a Grande Conferência foi um evento noticioso fátuo, perdido no meio de tantos outros acontecimentos daquele dia (o Exército Vermelho reconquistara Kiev). As pretensões japonesas eram uma farsa.

29 novembro 2020

O EQUÍVOCO DESVENDADO DE AUNG SAN SUU KYI

(Republicação)
29 de Novembro de 2010. A capa da revista Time desse dia formula o voto que a libertação de Aung San Suu Kyi da prisão domiciliária a que fora submetida se tornasse em algo mais substantivo do que o seu estatuto de "ícone da democracia". Aung San Suu Kyi recebera, entre muitas outras distinções, o Prémio Nobel da Paz em 1991, pelo seu combate pelo estabelecimento de um regime democrático na sua Birmânia natal. Oito anos depois daquela capa e daqueles votos por onde já perpassava a dúvida, a resposta a eles parece inequívoca. Aung San Suu Kyi tem sido despojada consecutivamente de muitos dos galardões que recebera por tudo o que não tem feito para pôr cobro à perseguição de que têm sido vítima uma das minorias étnicas e religiosas do seu país, os rohingya. Uma primeira constatação de todo este episódio é quanto o mundo mediático pode ser propenso a criar mitos que não têm necessariamente a ver com a realidade. Pessoalmente, Nelson Mandela revelou-se um grande presidente da África do Sul, pessoalmente, Aung San Suu Kyi revelou-se uma nulidade política. E há uma segunda constatação: a de que Donald Trump parece ser tão estúpido e tão ignorante sobre estes temas que nem soube aproveitar-se desta asneira flagrante da diplomacia americana do tempo de Obama. Como se pode ler abaixo, deixou a oportunidade para o seu vice-presidente Mike Pence. Ou então, o gesto até pode ter sido deliberado, o que quererá dizer que Donald Trump não se quer ver pessoalmente associado a essas coisas piegas, como são sempre as causas humanitárias...

04 janeiro 2018

A INDEPENDÊNCIA DA BIRMÂNIA

4 de Janeiro de 1948. Com a independência da Índia e do Paquistão, que tivera lugar a 15 de Agosto de 1947, deixara de fazer sentido para o Reino Unido manter um conjunto de outras colónias que se estruturavam à volta da Jóia do Império Colonial britânico. Quatro meses e meio depois dessa data fatídica, cumprem-se hoje precisamente setenta anos, calhava a vez da concessão da independência à Birmânia. Seguir-se-ia, um escasso mês depois (4 de Fevereiro de 1948), a independência de Ceilão (actualmente o Sri Lanka), outra colónia nas mesmas circunstâncias político-geográficas. A fotografia da cerimónia acima distingue-se - como passaria a ser tradicional nestas cerimónias - pelo contraste das indumentárias. A do último governador britânico, o major-general Hubert Rance (1898-1974), só surpreenderá quem souber da sua condição de militar que, naquela ocasião, terá preferido apresentar-se de fraque e cartola, já que o poder militar britânico nada ganharia em ser exibido naquelas circunstâncias. Quanto à do seu sucessor como chefe do novo estado birmanês independente, o sao Shwe Thaik (1894-1962), só conhecimentos mais profundos da etnografia birmanesa permitiriam sabê-lo como pertencente a uma das múltiplas e significativas minorias étnicas que iriam constituir os cidadãos do novo país - os shan. É interessante constatar também o contraste do que a vida reservaria aos dois: enquanto Sir Hubert Rance viria a ser ainda o governador da colónia de Trinidad e Tobago (1950-55) antes de se aposentar, Shwe Thaik, cujo cargo presidencial era desprovido de qualquer político, veio a falecer detido na prisão depois do Golpe de Estado de Março de 1962 que acabou por eliminar os últimos vestígios de equilíbrios políticos que o sistema político birmanês ainda possuía. Já aqui tive oportunidade de contar uma história sucinta do país.

03 julho 2012

ASCENSÃO E QUEDA DE DIOGO SOARES

Se já aqui me referi à inesquecível composição de Fausto O Romance de Diogo Soares, fi-lo então a propósito da Birmânia e para realçar a ascendência que os militares sempre gozaram nas sociedades daquelas paragens da Ásia. Afinal, Diogo Soares era o governador do Reino de Pegu, um dos antepassados do estado birmanês moderno. Se agora regresso a esta mesma música é numa outra perspectiva diferente: a do abuso das prerrogativas por parte de quem governa, e de como pode ser diáfana a fronteira entre a aceitação da autoridade e a sua rejeição. Parece-me oportuno, já não aplicado àquelas, mas a estas nossas paragens.   

Diogo Soares, o grande general
Chamado o Galego, o homem dos olhares fatais.
Comanda sessenta mil homens de terras estranhas
Vencendo e lutando por quem paga mais.
Eficaz nos sermões, insinuante pois,
Já ganhou a simpatia de príncipes e samurais.
Já é governador do reino de Pegu
Mais forte que o rei, mais rico por golpes mestrais.

Naquela cidade vivia um mercador
De nome Mambogoá, de fortuna sem fim.
E naquele dia, o dia das bodas,
Casava uma filha com Manica Mandarim.
Diogo Soares passou por ali, ao saber da festa
Felicitou noivos e pais.
E a noiva tão linda, ofereceu-lhe um anel,
Agradecendo a honra por gestos puros e sensuais.
Então o galego em vez de guardar o devido decoro
prendeu-a e disse-lhe assim:
Ó moça formosa és minha, só minha
A ninguém pertences, a ninguém, senão a mim!


O pai Mambogoá, ao ver pegar o bruto
Tão rijo na filha ouvindo este insulto de espanto
Levantou as mãos aos céus, os joelhos em terra,
No retrato da dor, pedindo e implorando num pranto:
Eu peço-te Senhor, por reverência a Deus
Que adoras concebido no ventre, sem mancha e pecado.
Não tomes minha filha, não leves meu tesouro
Que eu morro de paixão, que eu morro tão abandonado
.

Mas Diogo Soares, mandou matar o noivo
Que chorava abraçado à moça assustada, tremendo.
E a noiva estrangulou-se numa fita de seda
Antes que a possuísse à força o sensual galego
A terra e os ares tremeram com os gritos
Do choro das mulheres, tamanhos que metiam medo.
E o pai Mambogoá pedindo pelas ruas
Justiça ao assassino acorda a cidade em sossego:
Ó gentes Ó gentes saí como raios
Na ira das chuvas, na ventania do açoite!
E o fogo consuma seus últimos dias
E lhe despedace as carnes no meio da noite!


Em menos de um credo numa grande grita
P'lo amor dos aflitos, juntou-se ao velho o povo inteiro.
Com tamanho furor e sede de vingança
Arrastaram-no preso, Diogo Soares ao terreiro.
E o povo a clamar que a sua veia seja
Tão vazia de sangue de quanto está o inferno cheio
E subiu ao cadafalso, cada degrau beijou
Murmurando baixinho o nome de Jesus a meio

Seu filho Baltasar Soares que vinha de casa
O qual vendo assim levar o seu pai
Lançou-se aos seus pés a chorar e por largo tempo abraçados,
No abraço dos mortais
Senhor porque vos levam, cruéis e vingativos
Senhor porque vos batem e porque vos matam medonhos?
Pergunta-o aos meus pecados que eles to dirão
Que eu vou já de maneira que tudo me parece um sonho.


E foram tantas pedras sobre o padecente
Que este morreu bramindo o rosário dos seus pecados
Ensopado na baba do ódio dos homens
Escuma animal de todos os cães esfaimados.

As crianças e os moços trouxeram seu corpo
Sem vida pelas ruas arrastado pela garganta
E a gente dava esmola oferecida aos meninos
Dava como se fosse uma obra muito pia e santa.

Assim terminam os anais do grande general
Chamado o Galego, o homem dos olhares fatais.

16 abril 2009

O QUE SE PASSOU NA TAILÂNDIA

Há cerca de um ano e meio, entre Setembro e Outubro de 2007, a comunicação social apareceu inundada de notícias e fotografias a respeito de tumultos na Birmânia e houve até quem, imaginativamente, a baptizasse de Revolução Açafrão, por causa da cor das indumentárias tradicionais dos monges budistas que apareciam a protagonizar as manifestações e que, acessoriamente, até davam excelentes imagens quando eram agredidos… Era uma excelente história, aparecida numa excelente altura (Agosto e Setembro são sempre meses maus para notícias), e propícia a um enredo de Hollywood, com bons (os monges) e maus (a Junta Militar que governa a Birmânia há 47 anos).

Já tive oportunidade de explicar neste blogue as condições que estiveram por detrás do nascimento do nacionalismo birmanês e que levaram a que um regime militar se venha a prolongar por quase meio século (Os Maus). Mas, se menciono aqui estes episódios recentes da história da Birmânia, é apenas para estabelecer o contraste com o que tem acontecido no seu país vizinho, a Tailândia. Precisamente um ano antes da Revolução Açafrão (19 de Setembro de 2006), os militares tailandeses também haviam estado em destaque ao promover um Golpe de Estado que derrubara o governo de gestão do 1º Ministro Thaksin Shinawatra (abaixo), cancelando as eleições marcadas para o mês seguinte.
A atender às reacções da informação norte-americana, apesar de terem declarado a lei marcial, dissolvido o parlamento, suspendido a constituição, proibido toda a actividade política e adiado sine die as eleições, os membros desta Junta Militar, ao contrário da birmanesa, eram bons. E o regime musculado erigido para governar a Tailândia não parece despertar qualquer preocupação naquelas organizações mais capazes de fazer eco das suas preocupações com as situações políticas por esse Mundo fora... Afinal, sempre vieram a ser organizadas eleições na Tailândia em Dezembro de 2007. Só que, pormenor não despiciendo, o partido de Thaksin, que ganhara as anteriores, não pôde concorrer…

Como acontece com a Venezuela, a disputa política na Tailândia parece passar por fracturas sociais entre uma elite urbana, concentrada sobretudo em Banguecoque, que sempre deteve tradicionalmente o poder político e um conjunto de classes sociais periféricas, tanto urbanas como rurais, que detêm uma maioria eleitoral aritmética. São elas que fazem Hugo Chávez ganhar nas urnas a legitimidade da sua conduta folclórica, são elas que fazem com que o Thai Rak Thai, o partido proscrito do 1º Ministro exilado, tenha conseguido obter maiorias claras nas consultas eleitorais em que participou. Mas parece que os bloqueios do regime vigente acabam por legitimar outras condutas entre os apoiantes de Thaksin…

O que eles conseguiram fazer a 11 de Abril passado foi desmontar uma importante operação de relações públicas que havia sido preparada pelo regime tailandês, acolhendo na cidade de Pattaya, uma Cimeira da organização regional asiática, a ASEAN, contando ainda com a presença dos líderes da China, da Índia e do Japão. Só que os manifestantes invadiram o hall do hotel de luxo onde a Cimeira iria decorrer (vídeo acima), obrigando as autoridades a, por precaução, evacuar pelo terraço, recorrendo a helicópteros, as delegações estrangeiras que entretanto já lá estavam instaladas. Em bom português, foi uma barracada das antigas… Mas os activistas também parecem ter-se enganado nas suas expectativas…

Ao contrário da jogada que procuravam forçar, o actual 1º Ministro, Abhisit Vejjajiva, não parece disposto a demitir-se, apesar da humilhação. E no crescendo que se sucedeu, apesar de menos documentadas do que na Birmânia, as cenas de rua pareciam mostrar um colorido tão interessante quanto o da Revolução Açafrão porque os apoiantes de Thaksin se identificam pela cor das suas camisas, vermelhas. Os incidentes saldaram-se oficialmente por 2 mortos e 123 feridos. Aparentemente, desde Londres, onde está exilado, o líder dos contestatários, Thaksin Shinawatra apelou à actuação pacífica dos seus apoiantes e à intervenção do Rei, Rama IX (abaixo), coisa que este, mais do que provavelmente, não fará.
Não resisto a uma pequena nota final sobre a premência das notícias disponíveis, oriundas das agências noticiosas, quase todas insistindo em como a situação na Tailândia já se encontra pacificada, em contraste com a forma como foi feita a cobertura da Revolução Açafrão, que foi explorada pelas mesmas agências noticiosas até aos últimos incidentes… Ou o tratamento informativo dado agora a Thaksin Shinawatra em contraste com a benevolência que costuma ser dada à Prémio Nobel da Paz Aung San Suu Kyi… Como se sabe, isto de pertencer à esfera de influência norte-americana tem muito que se lhe diga em termos de identificação mediática sobre quem são os bons e os maus

24 maio 2008

PORTAR-SE MAL EM CASA ALHEIA

A visita que o secretário-geral da ONU, o sul-coreano Ban Ki-Moon, acabou de realizar à Birmânia (acima), fez-me lembrar uma outra, realizada por uma comitiva de compatriotas seus ao mesmo país em Outubro de 1983, faz mais de 24 anos. Encabeçada pelo presidente sul-coreano de então, Chun Doo-hwan, que ia acompanhado por uma alargada comitiva ministerial, o objectivo diplomático da visita era o de rivalizar com as boas relações que a Birmânia tinha mantido até então com a sua rival Coreia da Norte.

O episódio está hoje praticamente esquecido mas, se a visita correu mal para a Coreia do Sul por uns motivos, acabou por correr pior para a Coreia do Norte, por outros. De início, a visita parecia estar a correr bem, parecia ter-se desenvolvido uma certa empatia entre o visitante (o general Chun Doo-hwan) e o visitado (o general Ne Win), ambos dirigentes de ditaduras militares. E as propostas comerciais da, já então, muito mais evoluída economia sul-coreana pareciam interessar seriamente aos birmaneses.
Só que os norte-coreanos tinham mau perder. Durante uma cerimónia protocolar no Mausoléu dos Mártires (acima) fizeram explodir uma bomba entre os participantes que matou 17 sul-coreanos e 4 birmaneses (além de ter feito 46 feridos). O Presidente Chun Doo-hwan só terá escapado por acaso e entre os mortos sul-coreanos contavam-se os Ministros dos Negócios Estrangeiros, da Economia e do Comércio. A polícia birmanesa conseguiu identificar rapidamente os responsáveis: um comando de três norte-coreanos.

Apesar da Coreia do Norte se ter desfeito em protestos inverosímeis de inocência, o caso contra os agentes norte-coreanos era tão evidente que os dois que foram capturados foram condenados (à morte e a prisão perpétua). Foi só em Abril de 2007, que Birmânia e Coreia do Norte voltaram a restabelecer relações diplomáticas. É das normas que aos países soberanos não lhes agrade que países estrangeiros (mesmo amigos) desencadeiem destas operações no seu território à sua revelia...
Foi o que também aconteceu quando, em Julho de 1985, na sequência do afundamento do Rainbow Warrior*, um navio do movimento Greenpeace que estava ancorado em Auckland, na Nova Zelândia, dois agentes franceses acabaram por ser implicados no afundamento pela polícia neozelandesa. As provas em favor da tese de uma operação dos serviços secretos franceses também eram esmagadoras e eles foram condenados, e o governo francês acabou por confessar de forma semi-contrita a sua participação.

Uma insigne excepção a esta prática foi o assassinato em Portugal de Issam Sartawi, um dirigente moderado da OLP, assassinado em Albufeira, em Abril de 1983. O trabalho de polícia também foi bastante rápido: descobriu-se um palestiniano que se identificava por Al Awad, mas que possuía documentação em nome de Mohamed Rashid que, mesmo por coincidência, logo depois do atentado, apanhara um táxi que o trouxera desde Albufeira até ao aeroporto da Portela em Lisboa onde ia apanhar um avião…
Segundo me recordo, o réu acabou condenado a 3 anos de prisão por uso de passaporte ilegal. Foi uma coroa de louros para a defensora oficiosa, num caso em que, dadas as perspectivas, nenhum nome de vulto da advocacia portuguesa quis pegar. Poderá ter sido aquilo que se conseguiu provar judicialmente, mas também foi, numa leitura política feita pelos actores internacionais, uma maneira embaraçosamente portuguesa de querer ficar de bem com todos, mas sem conseguir o respeito de ninguém.

* Donde resultou a morte de um fotógrafo holandês de origem portuguesa.

13 maio 2008

OS MAUS

Com os meus agradecimentos ao amável convite de Pedro Correia para que publicasse um texto no Corta-fitas.

Os generais birmaneses (acima) tiveram um longínquo antepassado português de seu nome Diogo Soares, por alcunha o galego, um mercenário que se tornou general e governador do Reino de Pegu no Século XVI, conforme o contou Fernão Mendes Pinto e o veio a cantar Fausto, no seu álbum Por Este Rio Acima (vídeo abaixo). Já no Século XX, e já não no aspecto estritamente político e militar, mas ainda assim ligado ao aparelho de segurança, a Birmânia colonial contou com um outro ilustre membro, pertencente às Forças Policiais Imperiais Indianas, de seu nome Eric Blair, mas que se tornou mais conhecido noutras funções – escritor – e com outro nome – George Orwell.

À semelhança do que acontecia no caso português com a relação entre a Guiné e Cabo Verde, também as províncias birmanesas durante o período colonial britânico eram uma espécie de colónia de outra colónia. Fazendo parte do Império Indiano (acima), a grande maioria do aparelho administrativo, policial e militar presente na Birmânia era comum com o da Índia e, quando não guarnecido por britânicos (como Orwell), era-o por indianos. No último censo realizado pelas autoridades britânicas (1931) cerca de 7% dos 15 milhões de habitantes eram de origem indiana. E na capital (que então se chamava Rangoon - abaixo), os imigrantes indianos estavam até em maioria (53%).
Portanto, ao contrário do que acontece em muitos outros países que foram antigas colónias, as Forças Armadas birmanesas actuais não vão buscar as suas origens nem se reconhecem herdeiras do antigo exército colonial, mas a organizações nacionalistas insurreccionais, como acontece em países onde houve conflitos armados para que se alcançasse a independência – são os casos das Forças Armadas da Argélia, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau ou do Yemen. No caso da Birmânia, o embrião das Forças Armadas foi construído à volta dos Trinta Camaradas que inicialmente receberam formação militar ministrada pelos japoneses em 1940-41.

Só que este Exército Nacional Birmanês (ENB) também passou pela situação desconfortável de ter servido de marioneta que legitimava os invasores japoneses quando estes invadiram a Birmânia em 1942 e dali expulsaram os britânicos (e os indianos – houve cerca de 500.000 abandonaram o país fugindo aos invasores). Em 1943, a Birmânia veio a tornar-se teoricamente independente, mas, debaixo da tutela nipónica, o grau de liberdade do governo do novo país era nulo. E a importância militar da participação do ENB (com os seus míseros 11.000 efectivos) na Campanha da Birmânia foi perfeitamente residual.
Em finais de Março de 1945, ainda a tempo do gesto ser honroso (o Japão só se rendeu em Agosto…), o ENB mudou-se para o campo dos Aliados. Claro que o ENB não se podia defrontar com as Forças Armadas imperiais japoneses mas, como um exército clandestino (parecido com a resistência francesa), os seus membros puderam servir de base de uma administração clandestina birmanesa livre da influência britânica mas também do controlo japonês. O General* Aung San, pai da conhecida Aung San Suu Kyi, é considerado o autor desta oportuna manobra política que trouxe os nacionalistas birmaneses para o lado dos vencedores.

A Birmânia do período do pós-Guerra, em direcção à sua independência (1945-48) tinha três grandes problemas. As negociações entre britânicos e birmaneses foram duras e não contiveram quaisquer daqueles elementos de cortesia diplomática entre colonizadores e colonizados próprios destas ocasiões. Por exemplo, a futura Birmânia independente não quis fazer parte da Commonwealth e nasceu assim internacionalmente isolada. Em segundo lugar, e como já aqui descrevi noutro poste, o novo país seria, quanto à sua coesão interna, de uma heterogeneidade capaz de pôr em causa a sua existência. Um terço da sua população não é etnicamente birmanesa (abaixo).
Em terceiro lugar, já então, a luta política birmanesa, protagonizada por vários dos Trinta Camaradas, além de outros nacionalistas, regia-se segundo regras muito semelhantes às da Máfia. Em Julho de 1947, 6 meses antes da data de independência (Janeiro de 1948), Aung San foi assassinado conjuntamente com outros 6 ministros do governo de transição por um comando terrorista a mando de um dos seus rivais. Foi assim que, como acontece frequentemente aos políticos que morrem tragicamente (lembre-se Sá Carneiro…), Aung San se tornou num mito de um outro percurso histórico que a Birmânia podia ter trilhado.

Os primeiros 14 anos de independência (1948-62), sobretudo sob a direcção de U Nu** (1948-56, 1957-58, 1960-62), caracterizaram-se pela necessidade da repressão das várias minorias étnicas em conflito armado contra o poder central e, por causa disso, pela importância crescente das Forças Armadas e do seu comandante, Ne Win (abaixo), que fora um próximo de Aung San. Entre os birmaneses, a luta política manteve a mesma dureza que levara ao assassinato de Aung San. É neste quadro, e também para boicotar uma solução federal negociada por U Nu com as minorias, que Ne Win promoveu um Golpe de Estado em Março de 1962.
De então para cá, os militares birmaneses nunca mais abandonaram o poder. Ao contrário do que aconteceu com outros regimes militares mais clássicos (como os sul americanos), onde mesmo os mais duradouros (no Brasil ou no Chile) não ultrapassam uma geração (25 anos***), este regime militar birmanês já vai a caminho de perfazer o dobro disso (46 anos). Conhecidas em birmanês pela designação de Tatmadaw, todos os membros que hoje compõem as Forças Armadas da Birmânia (o serviço militar é voluntário) já entraram depois delas se terem apoderado do poder. Na Birmânia, há muito tempo que poder político e militar são uma e a mesma coisa.

E, consequentemente, para qualquer birmanês o gesto de se apresentar como voluntário para o serviço militar ou de concorrer a uma das Academias tem um significado e abre-lhe possibilidades de carreira que não se comparam com situações equivalentes no Ocidente. Sobre a Prússia dizia-se que, ao contrário dos outros países vizinhos que tinham um exército, na Prússia era o exército que possuía um país. Na Birmânia, os generais do Tatmadaw deverão defender uma opinião que muito se assemelha: para eles, se não houver exército, não haverá Birmânia. É uma opinião minoritária, como se provou as eleiçoes de 1990.
Um dos maiores paradoxos é que a junta de generais na Birmânia comanda uma Forças Armadas que nunca se distinguiram por defender a nação dos seus inimigos externos (poderosos, a Birmânia está na região de confronto entre as influências chinesa e indiana) mas que apenas fundamentaram a sua maior razão de ser nas vitórias registadas nas guerras de contra-subversão, contra aquilo que consideram ser os inimigos internos do Estado birmanês – as minorias étnicas. O actual regime goza do beneplácito tácito da China, enquanto prosperou à custa de uma hostilidade xenófoba contra os indianos (hoje são apenas 2% da população).

Todavia, tem sido evidente que o regime militar da Birmânia tem estado a ser submetido a uma pressão crescente. Não é difícil adivinhar quem estará por detrás de tais pressões... Mas também não é difícil, lendo os antecendentes da história birmanesa, perceber como a campanha mediática que envolve tais pressões mostra ser de um maniqueísmo primário e excessivo: há a boa Aung San Suu Kyi (acima, junto a uma fotografia do pai) ou os inocentes monges budistas pacíficos que são perseguidos versus os generais, que são maus. A alguém interessa saber, herdeiro por herdeira, que o filho mais velho de Aung San (Aung San Oo) não aprova a conduta política da irmã?...

* A patente está em itálico porque, como se pode ler na sua biografia, a formação académica de Aung San foi em Literatura Inglesa, História Moderna e Ciência Política.
** Como já aqui escrevi, U tem o significado em birmanês de senhor e Nu é, neste caso, o seu (único) nome.
*** Brasil (1964-1985) e Chile (1973-1990).

14 agosto 2007

A DITADURA DOS DOIS NOMES

Há uma habituação tão grande ao tratamento das pessoas pelos tradicionais dois nomes usados pela cultura ocidental que nem nos apercebemos como às vezes tropeçamos em nomes de outras culturas que foram forjados para que obedeçam a essa regra e nos soem mais agradáveis aos ouvidos ocidentais.
Nos tempos modernos são raras as culturas que mantiveram a prática do nome único para designar o indivíduo. Um dos casos era o da Turquia do período otomano e foi aliás uma das revoluções de Kemal Ataturk (1881-1938) a de obrigar os turcos que não o tinham a escolher um nome de família.
É por isso que muitas das figuras de destaque do império otomano incluem o nome de Paxá ou Bey, que não passam na realidade de títulos honoríficos que são adicionados ao nome (muitas vezes único) do nomeado para nosso conforto auditivo, como Murad Bey (1750-1801) ou Jamal Paxá (1872-1922).
Outro caso, que nos fica mais distante em geografia, mas é mais moderno, é o do birmanês U Thant (1909-1974), que foi o Secretário-Geral da ONU entre 1961 e 1972. É que U, em birmanês, é apenas o equivalente a uma forma de tratamento respeitadora de senhor, e o seu nome era apenas Thant…
Mas a ditadura também parece funcionar também ao contrário, ao forçar a compactação de três nomes para dois, como aconteceu com a reforma das regras de transliteração do mandarim (pinyin). Assim, Mao Tse-Tung (1893-1976) passou a Mao Zedong e Teng Hsiao-Ping (1904-1997), passou a Deng Xiaoping.

De cima para baixo: Kemal Ataturk, U Thant, Mao Zedong e Deng Xiaoping. Note-se que, ao contrário dos anteriores, os dois líderes chineses nunca cederam à moda ocidental na forma de vestir.

11 março 2007

QUANDO AS SONDAGENS ENGANARAM OS MILITARES E O EPISÓDIO DA SECESSÃO DO BANGLADESH

Pela sua própria natureza, compreende-se porque os regimes militares não são grandes adeptos de eleições. Se as eleições forem livres, ainda que o sejam apenas muito relativamente, instala-se sempre um certo elemento de incerteza na condução política do país, desagradável para quem o detém. E isso é sempre muito incómodo para o regime. Só que, por outro lado, as pressões internas e internacionais são grandes para que o regime militar comece a promover gestos para o retorno a um regime regular civil.

Aliás, a esmagadora maioria dos pronunciamentos militares são acompanhados de proclamações dos seus chefes onde, para além de justificarem o acto, se tranquilizam os cidadãos quanto à transitoriedade da atitude adoptada. Às vezes o transitório é um transitório de Santa Engrácia, como na Birmânia, onde o regime militar vigora há quase 45 anos (! - lá voltaremos...), mas a ideia que importa a reter é que umas eleições organizadas por um regime militar dão sempre bom aspecto para o exterior…

É claro que umas eleições devidamente organizadas são muito melhores do que aquelas que contêm elementos de incerteza. Durante anos a fio (1964-85), os brasileiros tiveram essa figura única da coexistência de uma ditadura militar com eleições onde havia um partido do governo (Arena) e um da oposição (MDB), que podiam ser assim legitimamente classificados porque ao primeiro não era permitido perder as eleições e, consequentemente, o segundo estava proibido de as ganhar.

Mas nem sempre as operações de controlo que os militares montaram sobre os aparelhos eleitorais tiveram este sucesso. Como as eleições se ganham na fase do escrutínio, fosse por inépcia do dispositivo montado para as acompanhar, à atenção e proximidade com que esse escrutínio por observadores independentes ou ainda pela ingenuidade de acreditar nos relatórios dos seus serviços de informações, vezes houve (raras) em que o regime perdeu as eleições que havia convocado. Eis algumas.
Segundo conta Mário Soares em memórias, antes da realização das eleições para a Assembleia Constituinte a 25 de Abril de 1975, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves, se calhar para o incentivar a assumir uma postura mais de esquerda, lhe havia comunicado que, de acordo com as informações de que dispunha, o seu partido (PS) iria ficar em terceiro lugar, atrás do MDP/CDE e do PCP… Se tiverem feito fé nesses dados, a (longa) noite do escrutínio deve ter sido uma desagradável surpresa para a ala militar comunista*…

Na Birmânia, ao fim de 28 anos de ditadura militar, em 27 de Maio de 1990 as autoridades militares promoveram eleições gerais de acordo com planos de reconciliação nacional estabelecidos um ano antes. A Liga Nacional para a Democracia (NLD), dirigida pela agora famosa Aung San Suu Kyi, ganhou 392 dos 489 lugares em disputa na Assembleia Popular, que nunca reuniu. Contrariamente ao que aconteceu em Timor, o Prémio Nobel da Paz (1991) a ela atribuído não teve aqui qualquer impacto político na evolução da situação.

A bem da verdade, a decisão do presidente indonésio Jusuf Habibie de promover um referendo sobre o futuro de Timor-Leste em Janeiro de 1999, não foi recebida lá muito bem entre o comando das suas forças armadas (ABRI). Mas também é verdade que a Indonésia estava numa situação de fragilidade política extrema e que a ABRI ainda dispôs de 6 meses para organizar as coisas de forma a evitar a derrota fragorosa que se veio a registar no referendo realizado em Agosto desse ano em Timor-Leste: 80% dos votos foram favoráveis à independência…

Mas, se os militares indonésios perderam uma pequena fracção do seu país, que, de resto, haviam anexado 24 anos antes, o recorde da ingenuidade vai para os militares paquistaneses que em 1971 acabaram por perder 15% do seu território e mais de metade da sua população… Uma asneira tão grossa precisa de uma explicação mais extensa: o Paquistão que nasceu em 1947, constituído a partir das regiões da Índia onde predominavam os muçulmanos, estava dividido em duas partes afastadas 1.500 Km entre si: o Paquistão Ocidental e o Oriental.

O primeiro, que mantém o nome do país, era quase seis vezes maior que o segundo (hoje o Bangladesh), embora fosse ligeiramente menos povoado. Era também a Ocidente que ficava a sede do poder político, e era daí que eram originários a esmagadora maioria dos membros topo da administração civil e das chefias militares. Os habitantes bengalis do Paquistão Oriental mostravam em relação ao estado paquistanês muito dos ressentimentos característicos de um regime de dominação colonial.

O regime militar paquistanês, que durava desde 1958, já dava mostras de desgaste, tendo o general Ayub Khan, que o dirigira desde o início, transferido os seus poderes para o general Yahya Khan em 1969, no seguimento de uma grande contestação social e política que, no Paquistão Oriental, se acumulava ainda com exigências de autonomia e mesmo de independência. O general acalmara parte dessa contestação com a promessa de eleições a realizar em Dezembro de 1970.

Era dado por adquirido que o regime conseguiria obter uma maioria de apoios da nova Assembleia a eleger. Por força da demografia, mais de metade (162) dos deputados da futura Assembleia de 300 membros era eleita em circunscrições do Paquistão Oriental. Num dos mais surpreendentes golpes de teatro eleitoral, o partido que se batia pelos interesses dos bengalis orientais (Liga Awami) passou de partido marginal do sistema político paquistanês a indigitado para o governo de todo o Paquistão, ao conquistar a maioria da Assembleia, com 160 dos 162 lugares do Paquistão Oriental…

Desnecessário será dizer que dos resultados políticos daquelas eleições (que os serviços de informações militares nunca anteciparam) havia que ceder o poder à, até então, marginal Liga Awami, o que nem a classe política civil do Paquistão Ocidental estava disposta a aceitar. Em consequência, a secessão do Bangladesh tornou-se politicamente mais do que legitimizada e quando a Índia a apoiou militarmente, a partir de Dezembro de 1971, forçando a rendição das forças armadas paquistanesas, o gesto acabou por ser aceite pelas duas superpotências.
Curiosamente, nesta terceira guerra indo-paquistanesa, um conflito onde sempre foram fortes as conotações religiosas de hostilidade entre hindus e muçulmanos, o Chefe de Estado-Maior das forças armadas indianas era parsi - Sam Manekshaw - e o comandante das forças no terreno (que se vê de turbante a assinar na fotografia da cerimónia da rendição das forças paquistanesas) era sikh - Jagjit Singh Aurora – e nascido no Paquistão… Para completar, o Chefe de Estado Maior deste último, J.F.R. Jacob era… judeu.

* Para os mais novos e os mais esquecidos o PS ganhou as eleições com 37,9% dos votos, seguindo-se o PPD com 26,4%, o PCP com 12,5%, o CDS com 7,6% e só então o MDP/CDE, com 4,1%.

16 novembro 2006

A ÁSIA ENTRE OS DOIS COLOSSOS DO FUTURO – 1


A BIRMÂNIA (MYANMAR)

Pais que permanece como candidato à promoção ao Eixo do Mal por esta Administração norte-americana, a Birmânia (ou Myanmar, como passou a ser a sua designação oficial desde 1989) é um dos exemplos mais acabados do país estranho, tradicionalmente vedado ao exterior, com muito pouca popularidade internacional, governado por uma oligarquia militar e por um regime repressivo desde 1962, e sobre o qual se sabe muito pouco porque também há muito pouco interesse em obter informação sobre ele. E em contraste com todo este isolamento e antipatia é, até 1 de Janeiro de 2007 quando o coreano Ban Ki-Moon tomar posse, o país de origem do único secretário-geral da ONU de origem asiática, U Thant, que desempenhou o cargo entre 1961 e 1971.

É um país relativamente grande (677.000 Km2, o que fará dele sete vezes maior que Portugal), com quatro grandes vizinhos: o mar (1.930 Km. de costas), a China (2.185 Km. de fronteira), a Índia (1.463 Km.) e a Tailândia (1.800 Km.). Contudo as fronteiras com a China e sobretudo as com a Índia, onde as cadeias montanhosas chegam a atingir os 4 a 5 mil metros de altitude (o ponto mais alto da Birmânia tem uma altitude de 5.881 mts…) isolam a Birmânia do contacto com os seus dois colossais vizinhos. E, como acontece frequentemente na Ásia continental, o núcleo do país está organizado à volta de um grande delta agrícola, neste caso o rio é o Irrawaddy, tem quase 2.000 Km. de extensão, 1.650 de navegabilidade e a sua bacia hidrográfica ocupa sensivelmente 1/3 da Birmânia.

As estimativas da população actual da Birmânia rondam os 50,5 milhões de habitantes (2005), muito embora a heterogeneidade da população transforme os recenseamentos num escaldante problema político, pela possibilidade de atribuir maior ou menor importância a cada um dos grupos que a compõem. O último censo realizado data de 1983, mas o último censo fiável data do período colonial britânico (1930)… No entanto, desde logo é possível concluir que a Birmânia é um país demograficamente menor do que a Tailândia (vizinha e grande rival histórica), com 65,5 milhões, o Vietname, com 84,2 milhões, para não falar do Bangladesh com 147,4 milhões e nem mencionando os colossos indiano e chinês.

Mas o grande problema não se põe sobre quantos são os birmaneses mas em quem são os birmaneses. E, rigorosamente, os birmaneses são apenas um dos grupos que constituem a população da Birmânia, daí a mudança politicamente correcta do nome do país em 1989 para Myanmar. É verdade depois acontecem os lapsos da prática, da mesma forma que continuamos a tratar por ingleses todos os súbditos de Isabel II… Contudo a analogia acabará por aí se nos dermos conta que nem escoceses, nem galeses têm grupos terroristas, guerrilheiros e mesmo exércitos de guerrilha em revolta contra o poder central como acontece com grande parte das minorias birmanesas… Os birmaneses propriamente ditos concentram-se na bacia do Irrawaddy e correspondem a cerca de 68% do total da população, as minorias estão fragmentadas (Shan 9%, Karen 7 a 8%, Kayin 7% e Rakhine 4% mencionando apenas as maiores) e habitam as regiões mais recuadas e inacessíveis, dificultando a imposição do poder central. A isto há que adicionar pequenas comunidades comerciais de chineses (2%) e indianos. Religiosamente a grande maioria da população é budista theravada (85%), com o cristianismo, o islamismo e o hinduísmo como confissões minoritárias. Mas a religião também contribui para a acentuação das fracturas internas porque as minorias religiosas tornam-se significativas entre as minorias étnicas: entre os Karen (a Leste) e os Kachin (a Noroeste), por exemplo, os cristãos representam entre 30 a 40% da população.


Existe uma história da Birmânia relativamente bem documentada desde o Século IX da nossa era, embora se consiga constatar a forte influência das civilizações vindas da Índia para o longo período anterior, seja na religião (o budismo é dali oriundo) seja na cultura (o característico alfabeto birmanês é visivelmente inspirado no alfabeto indiano do sânscrito). Uma síntese do milénio que decorre entre o Século IX e o XIX, onde ocorre a imposição do poder britânico, poderá fazer lembrar vagamente os primórdios da história do Egipto, onde existe uma disputa entre dois núcleos de poder ao longo do grande rio (o Irrawaddy), designados pela Alta e a Baixa Birmânia (a zona do delta), intercaladas com disputas com uma potência exterior do mesmo grau de sofisticação (o Sião, actual Tailândia) e com incursões de povos menos sofisticados (as actuais minorias) que fundam regimes e dinastias que acabam por ser absorvidos na corrente principal.

Na lógica da descrição anterior, a chegada dos europeus (britânicos) no Século XIX teria sido apenas mais um pormenor, não fosse a sua importância para explicar a configuração actual do país e os problemas com que ele se confronta actualmente. Oriundos de Bengala, onde estava instalada desde o Século XVIII, a Companhia das Índias britânica começou por declarar guerra e anexar a baixa Birmânia em 1824. Mais tarde, já extinta a Companhia, foi o governo das Índias que anexou (mais outra guerra) a alta Birmânia em 1885. Como seria de prever, a administração colonial britânica, para dividir os interesses dos colonizados, separou e autonomizou os canais administrativos dos birmaneses dos das minorias, fomentando a autonomia destas últimas, numa relação que até aí tinha sido de suserania feudal por parte do núcleo birmanês. Outra razão de queixa destes últimos consistia no facto de, dependendo a Birmânia da Índia, todo o aparelho administrativo estar guarnecido de indianos – ultrapassando o meio milhão nas vésperas do começo da 2ª Guerra Mundial – o que fazia da Birmânia, paradoxalmente, também uma espécie de colónia indiana…

Não é de estranhar que o nacionalismo birmanês fosse um dos que, na Ásia, maior animosidade manifestasse contra o poder colonial europeu e que acolhesse de braços abertos os japoneses quando estes invadiram a Birmânia em 1942. Um nacionalismo birmanês que era popularmente hostil aos indianos, intelectualmente hostil aos britânicos e que, com o decorrer do tempo de ocupação, se tornou também progressivamente cada vez mais hostil aos japoneses. Apesar disso, estes últimos ajudaram os birmaneses a criar um exército de libertação nacional que, concebido para os auxiliar, acabou por se virar contra eles em 1945. Sobretudo, o nacionalismo birmanês passou a contar com um braço armado que, desde aí, nunca mais deixou de assumir uma grande preponderância na condução dos assuntos políticos.

Mais do que a vontade britânica em a atrasar, foi a sobretudo a preocupação com a obtenção de um equilíbrio político interno quase federal entre os diversos grupos nacionais o que mais atrasou a independência da União da Birmânia, que se deu em Janeiro de 1948. Como noutros países asiáticos em que a consistência da identidade nacional não existe ou é muito fraca (o Paquistão ou o Iraque são disso exemplo…), os militares saltaram para a condução dos destinos do país progressivamente, mas formalmente desde 1962, não o tendo largado desde então. Desastrados como costumam ser geralmente os regimes militares na gestão da sua imagem internacional, contam na oposição com uma laureada com o Nobel da Paz (Aung San Suu Kyi) entre muitas outras acusações de inépcia na gestão do desenvolvimento económico e de falta de respeito pelos direitos humanos.

Um dos poucos países – com o Paquistão, o Butão e o Nepal – a compartilhar fronteiras simultaneamente com a China e com a Índia, alguma coisa se deverá a essa localização geográfica delicada, os cuidados postos pelas potências vizinhas (e não só…) em evitar a sua implosão e a cuidar da manutenção de um regime que, evidentemente, não consegue solucionar politicamente a existência do país nos moldes actuais.