31 julho 2022

DEPOIS DE 1972, OS AGENTES DO FBI DEIXARAM DE SER FOTOGRAFADOS EM TROUSSES...

31 de Julho de 1972. Um avião DC-8 da Delta Air Lines que fazia uma ligação doméstica entre as cidades de Detroit e Miami quando foi sequestrado por um grupo de passageiros - mais tarde apurou-se que o grupo era composto por cinco adultos e três crianças e que os adultos pertenciam ao Black Liberation Army, uma organização radical armada de afro-americanos. O avião aterrou em Miami como previsto e foi nesse aeroporto que se realizaram as negociações com os sequestradores. Para libertarem os 86 passageiros os sequestradores exigiram um resgate de um milhão de dólares e são as operações de entrega do resgate que as fotografias mostram: como medida de segurança, para retirar quaisquer possibilidades que o fizessem armados, foi exigido aos agentes que procederam à entrega do dinheiro que só vestissem trousses. Foram imagens que humilharam as autoridades em geral, e a do FBI (que conduzia as negociações) em particular.
Depois da recepção do resgate e já transportando apenas a tripulação e os sequestradores, o avião voou para Boston, onde foi reabastecido para uma viagem transatlântica até Argel. À chegada, não tendo concedido asilo político aos piratas do ar, as autoridades argelinas apreenderam o aparelho, o dinheiro do resgate e libertaram a tripulação, devolvendo-os à origem. Mas os sequestradores não foram extraditados. Fazendo-se eco do que dizia a imprensa internacional, o que o Diário de Lisboa destacava do episódio no dia seguinte era o facto dos sequestradores serem negros. Mas o futuro iria reservar uma muito maior intimidade entre Portugal e um dos protagonistas desta acção terrorista... Quatro dos cinco foram capturados em 1976 em França e aí julgados e condenados a três anos de prisão ,sendo libertados em 1981. O último permaneceu desaparecido durante quase 30 anos depois disso, até ser descoberto em 2011, a viver em Portugal, com um nome falso, mas possuidor de uma genuína cidadania portuguesa. O pedido de extradição norte-americano foi recusado por causa desse motivo.

30 julho 2022

O SENADOR «CORAJOSO»

Josh Howley (42 anos) é um dos dois senadores republicanos americanos eleitos pelo estado do Missouri. Mas nas últimas semanas, ele tem adquirido uma verdadeira notoriedade nacional, depois de ter visto o seu comportamento a ser exposto pela Comissão que investiga a invasão do Capitólio em 6 de Janeiro de 2021. Nesse dia, e numa primeira fase, numa fotografia vê-se o senador - por detrás do perímetro de segurança... - a saudar de punho erguido os manifestantes que então ainda cercavam apenas o Capitólio. Mais tarde, quando a invasão do edifício parecia iminente, o Comité foi recuperar imagens das câmaras de segurança internas mostrando o mesmo senador a escapulir-se, correndo, da turba com a qual se mostrara tão solidário momentos antes. Como se vê no video acima, a montagem do episódio foi acolhida com uma sonora gargalhada pela audiência à sessão da Comissão. Na onda, o episódio foi tornado assunto de cartoon (abaixo): um polícia com as roupas esfrangalhadas diz para alguém que não se vê e que está escondido num esgoto: «Já é seguro sair daí, senador Hawley». Isto, em princípio, seria fatal para a carreira política de Josh Hawley. Só que, em termos de avaliar o impacto eleitoral destas palhaçadas, o Missouri é um estado onde Donald Trump ganhou as eleições com 57% dos votos, tanto em 2016 como em 2020.

UMA CONDENAÇÃO DE POL POT

 
30 de Julho de 1997. Tornam-se públicas as imagens de um julgamento a que fora submetido Pol Pot em que o réu, como sentença, fora condenado a «prisão perpétua». Para o mundo da informação tratava-se de um grande feito, já que o antigo ditador cambojano, responsável maior de um regime (1975-79) conhecido por ter executado milhões de compatriotas, andara desaparecido durante 18 anos. Mas para quase todos os outros mundos, era uma frustração daquilo que era a capacidade abstracta da Justiça. Afinal, Pol Pot só fora julgado porque perdera um conflito interno pelo poder dentro da organização que dirigira ferreamente até aí. Os juízes eram os seus antigos companheiros que se haviam concertado para o derrubar, receando pela própria vida. As imagens do julgamento tornavam-no numa paródia. Mostravam um sala de reuniões aberta: lá dentro as pessoas estavam segregadas por sexo e levantavam os punhos, aplaudiam e cantavam em uníssono slogans como «Longa vida à estratégia nacional!» ou «Esmague-se, esmague-se, esmague-se Pol Pot e a sua camarilha!» As testemunhas(?) aparecem a uma mesa, equipada com um microfone onde denunciam o réu pelos seus crimes. Toda esta representação só se vem a tornar conhecida há precisamente 25 anos porque os juízes se encarregaram de contratar dois jornalistas ocidentais (Nate ThayerDavid McKaige como operador de câmara) para, num exclusivo mundial, dar ressonância aquela encenação. Este é um daqueles momentos simbólicos, em que se procede a uma paródia de julgamento de um dos maiores criminosos da história recente, e onde os promotores desse julgamento trataram o mundo da informação como um cão amestrado, com o qual se brinca com um pau. O mundo da informação abocanhou o pau e lá o trouxe, obedientemente. O assunto ainda hoje é discutido academicamente. Mas não se espere ver essa discussão activamente transposta para os próprios meios de informação. O Circo da Informação tem uma lógica que os próprios artistas não se atrevem a questionar. Quanto a Pol Pot, esse morreu no ano seguinte, é difícil considerá-lo outra coisa que não ainda impune.

29 julho 2022

TARDE, MAL E NUNCA

Este mosaico de notícias do Público mostra exemplarmente em que consiste na realidade «a resolução de parte dos problemas do SNS» (sic...) prometida por António Costa já há umas boas cinco semanas. Nesse mosaico consegue ver-se que «o aumento das remunerações para médicos que façam mais urgências» tanto serve para ser anunciado a 15 de Junho (canto superior esquerdo) como para ser reanunciado a 19 de Julho (canto superior direito), ou seja, mais de um mês depois. E quanto finalmente o documento se materializa a 26 de Julho (canto inferior esquerdo), mesmo assim uma semana depois do segundo anúncio da ministra, descobre-se que o decreto-lei contém várias cláusulas que não haviam ficado muito evidenciadas nos anúncios preliminares da ministra, nomeadamente uma denominada "norma-travão" (canto inferior direito) que não permite aumentos da despesa em relação à execução de 2019. A dita "norma" tresanda a ministério das Finanças, por muito que o titular da pasta, Fernando Medina, se ande a armar em sonso. O importante é que aqui é que se notam as divergências entre a resolução prometida por António Costa e a solução prometida (e reprometida...) por Marta Temido e os agentes - administradores hospitalares e médicos - que, na estrutura, têm que resolver concretamente os problemas com que o SNS se confronta. A tarefa desses não se esgota em dizer coisas apropriadas para a comunicação social. Neste episódio que ridiculariza ainda mais os governantes, há uma expressão do português antigo (séculos XVI e XVII) que descreve perfeitamente a iniciativa governamental: tarde, mal e nunca.

AS TELENOVELAS DO PCP QUE A SIC PASSA NO PROGRAMA DA MANHÃ

A notícia dá o destaque ao nome de Carlos Moedas mas a telenovela em que a SIC embarcou foi montada pelos comunistas para tentar dar a João Ferreira mais um pouco do palco, palco esse que eles perderam depois dos resultados desastrosos do PCP nas eleições legislativas de Janeiro de 2022. Se pensarmos para além do episódio teatral encenado, é um completo disparate querer considerar uma reunião municipal como fórum adequado e apropriado para discutir o tema d«o futuro aeroporto de Lisboa». E ainda mais disparatado valorizar a ausência do presidente da edilidade por causa de uma discussão que sabemos irrelevante. Para mais quando o órgão se cinge à cidade de Lisboa e nem sequer abrange a respectiva área metropolitana. A SIC Notícias alguma vez deu notícias sobre o que se tenha passado nas reuniões camarárias de Alcochete, do Montijo ou de Alenquer (Ota) a respeito do que pensam os vereadores locais?... Não, pois não? Quanto ao resto, azar, oh camaradas, o povo - que é quem mais ordena - deu-vos votos para eleger seis, e só seis deputados. E, pelos vistos, enganaram-se a organizar e ordenar as listas. E agora querem dar um bocado de palco ao prometido próximo secretário-geral do partido, mas isto assim é um bocadinho descarado demais.Os jornalistas da SIC Notícias, como de costume, fazem a figura de otários.

A PROIBIÇÃO DOS COMÍCIOS FASCISTAS NA INGLATERRA?

29 de Julho de 1962. Um comício do movimento fascista britânico desencadeia as cenas de violência que as imagens documentam. A história da extrema direita britânica era dominada desde os anos 30 pela figura de Oswald Mosley (1896-1980). Mosley é o orador e a figura mais destacada das imagens do vídeo. Mas a intenção dos comícios dos fascistas britânicos não seria propriamente a difusão da mensagem do seu líder histórico, antes a repercussão mediática das imagens de violência que se sabia ocorrem em todos os seus comícios. Nesse mesmo dia 29 de Julho e em vez de noticiar o que acontecera em Manchester (acima), o Diário de Lisboa dava nota de uma iniciativa dos trabalhistas britânicos (na oposição), procurando obstar à campanha política promocional da extrema direita no Reino Unido, feita destas imagens de cenas de pancadaria e de pessoas ensanguentadas. É importante referir que, nas urnas, Mosley conseguira 8% no círculo eleitoral de Kensington Norte, por onde se apresentara nas últimas eleições gerais, realizadas em 1959, e onde carregara na questão da imigração dos caribenhos para o Reino Unido. Como ainda hoje acontece noutros casos, nomeadamente cá em Portugal, costuma ser muito mais a ressonância mediática obtida pelos extremistas, do que a sua verdadeira influência sociológica. 

28 julho 2022

O PEDRO NUNO SANTOS DE HÁ CEM ANOS

Tirando os estudiosos do período, poucos portugueses saberão hoje quem foi Alfredo Rodrigues Gaspar. Há cem anos era o ministro das Colónias, uma pasta em que o próprio se julgaria assaz competente, já que era a quarta vez que a ocupava. E era essa segurança acompanhada de uma indiscutível diligência, que o tornava personagem central de um assunto que transbordara para os jornais de 28 de Julho de 1922. Tudo começara com a publicação de uma notícia no dia anterior (canto superior direito), tornando pública as suas ordens para que fossem revistos todos os diplomas dimanados dos altos comissários das duas maiores colónias africanas: Moçambique e Angola. Qualquer daqueles dois altos comissários que haviam sido humilhados, Brito Camacho em Moçambique e Norton de Matos em Angola, eram tidos por pesos pesados da política nacional de quem seria de esperar uma reacção. Porém, mais do que um recuo em função das pressões que terá decerto recebido (a maçonaria protege os seus...), no dia seguinte (aqui a fazer-nos lembrar Pedro Nuno Santos no seu dia seguinte...), o ministro Rodrigues Gaspar volta à carga - artigo acima: Os actos dos altos comissários - produzindo um esclarecimento que é pior do que o original: não só disciplina os altos comissários como faz isso há mais tempo! Mais do que isso, nessa mesma edição de 28 de Julho de 1922 e numa outra notícia o ministro faz uma exibição adicional da força de Lisboa sobre as autonomias administrativas das colónias da Guiné, de São Tomé e da Índia Portuguesa. Sobre a evolução deste braço-de-ferro parece-nos esclarecedor que Rodrigues Gaspar tenha continuado a ocupar a pasta das Colónias até Novembro de 1923, durante os três governos consecutivos de António Maria da Silva. Pelos padrões da época, tratava-se de uma eternidade. Quando abandonou o cargo, também os dois altos comissários já haviam abandonado os seus. Rodrigues Gaspar veio a chefiar um governo entre Julho e Novembro de 1924. Claro que a sua passagem pelo cargo não alterou o padrão errático da política da República e, reconhecendo-lhe a coragem política (aqui demonstrada), vale a pena recordar que só há homens providenciais quando as circunstâncias também são providenciais. (os mais crédulos que esqueçam o almirante das vacinas...)

O «EXÉRCITO DO BÓNUS»

28 de Julho de 1932. Quando da sua desmobilização, os veteranos norte-americanos da Primeira Guerra Mundial haviam recebido como bónus uns títulos do tesouro, títulos esses que não podiam ser resgatados até 1945. O problema é que os Estados Unidos haviam entrado na Grande Depressão a partir do Outono de 1929 e, quando mais os seus efeitos se faziam sentir, mais crescia o movimento entre aqueles veteranos de guerra a quem a vida estava a correr mal, para que fosse possível, àqueles que o desejassem, resgatar esses títulos imediatamente, quando o capital lhes estavam a fazer mais falta. No Verão de 1932, quando (sabe-se agora) as consequências da Depressão mais se estavam a sentir, organizou-se uma grande manifestação em Washington d.C. (17.000 veteranos, acompanhados pelas famílias), pressionando pelo resgate dos títulos. Acampados pelos parques da capital dos Estados Unidos, junto à Casa Branca e ao Capitólio, os cerca de 43.000 manifestante receberam da imprensa o epíteto de o «exército do bónus» (bonus army). E é sobre este dito «exército» que, há 90 anos, as autoridades policiais atacam nos seus acampamentos, reforçadas com efectivos militares (incluindo tropas de cavalaria e mesmo 5 tanques). Militarmente, a operação foi um sucesso, os manifestantes foram corridos de Washington. Politicamente foi um fiasco embaraçoso, a simpatia da opinião pública foi toda para as imagens de uns pobres diabos que reclamavam receber aquilo que lhes fora prometido, só que quando lhes fazia realmente falta! Quanto ao envolvimento do exército - comandado à época pelo controverso general Douglas MacArthur - o desprezo público que o gesto suscitou perdura até hoje como uma das lições emblemáticas do que é que aquela instituição não deve fazer quando solicitada a intervir em assuntos de política doméstica - como Donald Trump descobriu recentemente à sua própria custa: os militares têm fama de uma obediência cega, mas ele há assuntos específicos em que se insubordinam.   

27 julho 2022

O DESASTRE NO ESPECTÁCULO AÉREO DE SKNYLIV

27 de Julho de 2002. Ocorre um desastre no espectáculo aéreo que estava a decorrer em Sknyliv, nos arredores de Lviv, na Ucrânia ocidental. Um Sukhoi Su-27UB (bilugar de treino) da Força Aérea Ucraniana estava a realizar a sua demonstração acrobática, quando uma das suas asas atinge o solo, e o aparelho se desfaz numa rodopiante bola de fogo que vai atingir uma das bancadas onde se encontravam milhares de espectadores, que assistiam ao espectáculo aéreo. O acidente provocou a morte de 77 pessoas e ferimentos em outras 543, das quais uma centena requereu hospitalização. 28 dos mortos eram crianças. Pelo número de vítimas, foi o maior desastre em espectáculo aéreo até à data. Ironicamente, e porque se ejectaram fracções de segundo antes do avião explodir, os dois pilotos sobreviveram, para depois virem a ser condenados a pesadas penas de prisão por negligência. Há vinte anos tinham que acontecer coisas destas para que a Ucrânia viesse nas notícias...

26 julho 2022

CINCO «SEGUNDAS-FEIRAS» DEPOIS...

Recapitulemos: a 17 de Junho (já lá vão algumas semanas...), o primeiro ministro, pressionado pelo problema dos fechos das urgências de ginecologia e obstetrícia e em declarações à (sempre simpática) agência Lusa, mantinha a confiança na ministra Marta Temido e garantia a resolução de «parte dos problemas» do SNS para a segunda feira seguinte (acima). Entre as medidas que haviam sido anunciadas dois dias antes pela ministra, e que constituiriam nesta versão bombástica de António Costa a resolução de parte dos problemas do SNS destacava-se «a revisão das remunerações dos médicos, designadamente dos profissionais em serviço de urgência em todos os sectores e não só no de ginecologia e obstetrícia, que tem sido o mais afectado.» A ministra até fora citada dizendo: “Somos sensíveis à necessidade de investir na valorização dos nossos profissionais, é o compromisso que assumimos”, e anunciara uma reunião com os sindicatos para preparar “um projecto de diploma” nesta matéria. Pois bem, querem saber quando é que o referido diploma entrou em vigor? Hoje. (26 de Julho) Ou seja, ocorre quase seis semanas depois das manifestações de sensibilidade da ministra Marta Temido e cinco semanas depois da hipotética segunda feira salvífica do SNS do primeiro-ministro António Costa... Nessas semanas e quanto ao problema das urgências, a aparência é que está tudo na mesma e que a aposta governamental que a pressão aliviasse porque a comunicação social se passaria a entreter com os fogos de Verão, essa aposta não terá resultado. Se ele quer viver a mesma realidade dos compatriotas e para além de admitir pagar as contas de supermercado, António Costa tem que admitir conhecer (e responsabilizar-se pel)a dinâmica do aparelho do Estado que dirige, para não estar a anunciar para o dia seguinte soluções urgentes que depois demoram semanas, senão mesmo meses, a concretizar-se. Erros desses eu desculparia a um primeiro ministro maçarico. Mas ele está lá há quase sete anos! E eu e Portugal precisamos de um primeiro ministro que resolva problemas, não que se limite a anunciá-los resolvidos quando todos (os envolvidos) sabemos que o não estão!

A CONFERÊNCIA DE GUAYAQUIL

26 de Julho de 1822. Os dois líderes dos movimentos militares que promoviam a emancipação das várias colónias espanholas da  América do Sul encontram-se na cidade - hoje equatoriana - de Guayaquil. De um lado Simón Bolívar, então com 39 anos, representava as possessões do Norte (mormente a Colômbia e a Venezuela de onde era originário), enquanto José de San Martín, com 44/45 anos, nascera em regiões que viriam a constituir a Argentina, mesmo junto à fronteira que viria a existir com o Uruguai, e representava o Sul das extensíssimas possessões espanholas do continente sul-americano. No total, Norte e Sul perfaziam cerca de 9 milhões de km²! E no entanto, esta conferência vai perpetuar-se na História apenas pelo seu significado simbólico, já que as consequências políticas do encontro vão ser nulas. Aquele potencial colosso imperial, em contraste com o que viria a acontecer com a América do Sul portuguesa que, com 8,5 milhões de km² viria a transformar-se num só país, o Brasil, o enorme conjunto colonial espanhol viria a cindir-se em 10 países! Por detrás da animosidade comum contra as autoridades coloniais espanholas e a vontade de as substituir, havia muito pouca confluência de vontades, estilos, métodos e ambições entre Bolívar e San Martín. É, mais uma vez, apenas simbólico, mas a comparação entre os brindes formulados pelos dois homens por ocasião do banquete que assinalou o encontro, diz-nos muito como seria difícil compatibilizar as correntes que representavam: saudava Bolívar: «Aos dois maiores homens da América do Sul: o general San Martin e eu!»; e retribuía San Martín: «À conclusão rápida da guerra, à organização das diferentes repúblicas do continente e à saúde do libertador da Colômbia!». É muito possível que esta última história seja apócrifa, mas os factos futuros vieram demonstrar que nunca os dois homens vieram a cooperar entre eles de forma construtiva.

A MORTE DE EVA PERÓN

26 de Julho de 1952. Morte de Eva Perón. Se o peronismo já é um fenómeno sociológico demasiado complexo para poder ser explicado sumariamente nas poucas linhas de um poste, muito mais complicado seria sintetizar onde é que cabe nele a figura de Eva Perón, a esposa do presidente que foi ao mesmo tempo a personificação das preocupações sociais de um regime que, em termos europeus, se aproximaria do que havia sido o fascismo. Após a Segunda Guerra Mundial, o fascismo desaparecera na Europa, mas subsistia pujante, e demonstrando preocupações sociais na América do Sul. Mas o mito de Eva Perón sustentar-se-á até hoje sobretudo pela sua brevidade - meia dúzia de anos (1946-52). Morta aos 33 anos, Eva foi uma estrela do firmamento político argentino que não chegou a fenecer, no mesmo estilo de uma estrela de Hollywood quase contemporânea como James Dean. Mas o passado pode ser mesmo uma realidade paralela: ouvir Evita a discursar ao fim de 70 anos, pode ser um exercício confrangedor, tal o exagero primário dos seus discursos (abaixo). Como é que milhões se puderam encantar com tal primarismo?

25 julho 2022

A ILUSÃO DE (QUASE) TODA A HUMANIDADE

25 de Julho de 1992. Há 30 anos tinha lugar a abertura dos Jogos Olímpicos de Barcelona. A cerimónia foi dominada pela forma verdadeiramente espectacular como a pira olímpica foi acesa, com uma flecha em fogo disparada por um archeiro de dentro do estádio. Tomando em consideração a colocação da câmara de televisão, fica a impressão para quase toda a Humanidade que seguiu o acontecimento à distância (impressão essa que perdurou, porque ninguém a desmentiu nos dias que se seguiram), que o arqueiro conseguira colocar a flecha precisamente dentro da pira, incendiando-a.

Na verdade, deve ter sido o truque de magia que alcançou a maior audiência de sempre até aquela data - uma audiência verdadeiramente planetária! Como se compreende, a organização não se poderia permitir correr o risco de que houvesse um fiasco numa situação tão delicada. E assim os arqueiros foram submetidos a intensos ensaios, mas apenas a direccionar o tiro, a pira seria acesa quando a seta lhe passasse por cima e competiria ao posicionamento da câmara de televisão criar o resto da ilusão. Ilusão essa que não foi compartilhada pelos milhares presentes no estádio, como se depreende pela fotografia abaixo.

24 julho 2022

UMA POLÍTICA DE «BANHOS FRIOS»

Há uma dúzia de anos, por ocasião da crise das dívidas públicas da zona euro, as opiniões públicas dos países mediterrânicos da União Europeia atingidas pela crise apanharam todas um banho de água fria, quanto ao que era o verdadeiro significado da solidariedade europeia, que anteriormente tanto lhes fora impingida nos comunicados de sucessivas cimeiras europeias precedentes. Desses tempos resultaram como símbolos desse espírito, por um lado a praça Sintagma em Atenas como local de protesto, e, como protagonistas maiores dessa solidariedade europeia do cada um por si, a dupla do alemão Schäuble com o holandês Dijsselbloem (foto abaixo, para quem já se tenha esquecido daquelas duas carinhas larocas...). Agora, a propósito da redistribuição da escassez de gás natural, como consequência da invasão russa da Ucrânia, e como se percebe pelas rejeições do plano de solidariedade de Bruxelas, estaremos a assistir a uma devolução descomplexada dessa solidariedade que as opiniões públicas do Sul assumiram que não existe. Será altura de os alemães apanharem, por sua vez, o seu banho de realidade, um banho não apenas metafórica mas realmente frio, já que o problema incide sobre a falta de gás para os seus esquentadores. No fim disto tudo e muito relutantemente, nós ajudá-los-emos, mas os alemães têm que ouvir-nos dizer-lhes que eles não podem viver acima das suas disponibilidades energéticas

23 julho 2022

«FAKE NEWS» DE HÁ CEM ANOS

23 de Julho de 1922. Esta carta de há cem anos, escrita pelo major António Ribeiro de Carvalho, oficial da guarnição do Regimento de Infantaria 19, aquartelado em Chaves, é uma demonstração de como as agora denominadas «fake news» são afinal um fenómeno secular. A carta é uma resposta/esclarecimento a uma crónica que fora publicada dois dias antes no Diário de Lisboa (abaixo), lamentando a ausência do soldado Milhões, herói da Grande Guerra, das festas da cidade de Chaves. Uns escassos quatro anos passados depois do fim daquele conflito, o herói, que era oriundo de uma freguesia das redondezas, e que regressara entretanto à vida civil e que alegadamente vivia com dificuldades, nem sequer fora convidado para as festas da cidade que era a sede da unidade militar pela qual fora mobilizado para França (o RI 19).

A carta do major António Ribeiro de Carvalho apresenta-se como um desmentido célere a tudo isso. O pior é que, para além de se enganar no local da sua naturalidade (freguesia de Jou), o major dá o herói por morto «há coisa de um ano», explicação «simples» para que não tivesse sido convidado às festas da cidade de Chaves. Só que o soldado Milhões não morrera, isso só acontecerá daí por 48 anos(!). O que, pela dimensão da mentira, nos leva a questionar seriamente não apenas toda a argumentação da carta (nomeadamente o interesse assumido do autor da missiva pelo bem estar do herói...), como até mesmo a honestidade intelectual do próprio major António Ribeiro de Carvalho. Então Aníbal Augusto Milhais «único soldado português condecorado em França com a Torre e Espada» tinha morrido e o major nem conseguia precisar a data porque os «seus camaradas de regimento» nem sequer se haviam feito representar na cerimónia?... António Ribeiro de Carvalho era um maçon e um exemplar típico das elites da época... Virá a ser ministro da Guerra durante 70 dias, entre 18 de Dezembro de 1923 e 26 de Fevereiro de 1924.

A NOITE DOS «BIKBACHIS»

23 de Julho de 1952. No Egipto tem lugar um golpe de Estado que depõe o regime monárquico. O pronunciamento militar é encabeçado por coronéis («bikbachis»), embora tenha por figura de proa o general Naguib. O verdadeiro líder é o coronel Gamal Abdel Nasser de 34 anos, que o substituirá também nas funções formais da chefia do Egipto dali por dois anos e meio, depois de uma breve luta política. Esta história de BD abaixo, descreve o episódio de há 70 anos numa maneira necessariamente sumária, mas também muito lisonjeira para com Nasser. O regime edificado por Nasser, que veio a morrer em 1970, foi uma ditadura, por muito que tivesse sido encabeçada por um ditador carismático, protegido por uma promoção pública despropositadamente benigna para a sua pessoa.

AS LENDAS

HUMOR TEUTÓNICO

22 julho 2022

O PEQUENO «BUG» INFORMÁTICO QUE PROVOCOU O FRACASSO DA PRIMEIRA MISSÃO «MARINER»

22 de Julho de 1962. Depois de dois adiamentos, um foguetão Atlas-Agena B transportando a sonda Mariner 1, destinada ao planeta Vénus, descola de Cabo Canaveral. Mas, logo após o lançamento, o foguetão começou a desviar-se da sua trajectória. Os comandos de direcção enviados para a correcção não provocaram qualquer efeito na rectificação da trajectória, e aos 4:53 do voo o foguetão foi destruído por um comando do solo. Por causa da cobertura noticiosa associada ao acontecimento, a investigação para as explicações para o que acontecera realizou-se sob um elevado escrutínio da comunicação social. Após cinco dias de análises, os engenheiros do JPL apuraram o que causara o mau funcionamento na Mariner 1: fora a combinação de um erro de programação e uma falha de hardware que levou à destruição do Mariner.

As equações de orientação escritas à mão continham o símbolo "R" (para "raio"). Esse "R" deveria ter uma linha sobre ele ("R-bar" ou R̄), denotando suavização ou média dos dados da faixa provenientes de um cálculo anterior. Mas faltava a barra na versão manuscrita e, portanto, o programa de computador baseado nessas equações foi incorrectamente transcrito quando codificado para a máquina. Durante a fase ascensional, o foguetão perdeu por fracções de segundo a conexão com a base; como essa era uma situação antecipável, o Atlas-Agena fora programado para continuar um rumo pré programado e, como o programa que o gerava este se encontrava viciado pelo erro de código, o foguete começou a assumir um rumo progressivamente mais errático, até escapar ao controle de terra. Daí a necessidade da sua destruição.

Quem acompanhou o acontecimento e, sobretudo as explicações posteriores para o que sucedera, ter-se-á apercebido, por uma primeira vez, não especialmente das complexidades da engenharia aeroespacial (isso era adquirido), mas sobretudo das enormes consequências de erros aparentemente menores na programação destes engenhos. Ainda não se popularizara a expressão software, embora a expressão bug já fosse empregue em engenharia. E concluía-se que a programação informática era uma actividade para ser levada com todo o rigor. Por causa do esquecimento da transcrição do tracinho, o custo deste pequeno bug informático ficara-se pelos 160 milhões de dólares (a preços actuais), esquecendo-se os danos que o episódio causara à reputação tecnológica dos Estados Unidos em plena Corrida Espacial.

21 julho 2022

A FUTEBOLIZAÇÃO DAS SONDAGENS

Assim como no futebol há realidades paralelas - a existência do penalti é real ou não conforme o clube de quem está a ver a jogada - também essa mesma relatividade chegou agora descaradamente ao universo pseudo-científico das sondagens. Conforme a cor, assim as sondagens nos dão a opinião do que pensarão os portugueses. Se for o vermelho do Benfica e da CNN, aí Marta Temido recebe nota positiva dos portugueses; se for o azul do Expresso e do FC Porto, aí mais de metade desses mesmos portugueses querem que ela seja a primeira a sair do governo. O sistema informativo encontra-se completamente capturado. Se não estivesse, e se não houvesse a percepção de que estava, nunca as redes sociais teriam possibilidade de o ameaçar e de constituir uma alternativa contra a qual esse mesmo sistema informativo se farta de queixar e culpar.

A SIDA HÁ QUARENTA ANOS

Ainda 21 de Julho de 1982. O Diário de Lisboa recuperava e, essencialmente, traduzia e condensava uma notícia que o Washington Post publicara no princípio daquele mês. Na notícia dava-se conta de «uma doença misteriosa aparecida recentemente», que já causara «a morte de cerca de 200 pessoas» e que começara «a inquietar seriamente as autoridades (de saúde) americanas». Ainda não lhe fora atribuído «um nome» - esse só surgiria daí por uma semana: «Acquired Immune Deficiency Syndrome (AIDS)», que veio a ser traduzido para português como «Síndrome da imunodeficiência adquirida (SIDA)». Mas a questão da nomenclatura era o menos importante desta nova doença... Sobretudo, dado a forma de propagação e a selectividade daqueles que eram atingidos por ela, constituía um desafio às raízes da verdadeira solidariedade das sociedades...

UMA NOVIDADE... QUE JÁ ERA NOVIDADE HÁ QUARENTA ANOS

19 de Julho de 2022 (direita) e 21 de Julho de 1982 (esquerda). Uma das notícias chama-lhe «bio-gás», a outra «gás renovável» ou «bio-metano», mas, aparentemente, e por detrás das denominações diferentes, estas duas notícias, apesar de apartadas por quarenta anos, estarão a referir-se à mesma fonte de energia e ao mesmo processo de a produzir. O que torna ridículo o ênfase dado pela notícia mais recente ao aspecto "pioneiro" da proeza. É publicidade disfarçada de notícia, e uma carimbadela de incompetência na testa do jornalismo do Jornal de Notícias. Ele haverá algum jornalista que perceba alguma coisa de alguma coisa sobre a qual tenha de escrever? (Ter opiniões sobre política não conta...)

20 julho 2022

AMOR ERRANTE

Tem vezes em que circunstâncias especiais se conjugam para que uma música nossa conhecida do passado renasça como se fosse metamorfoseada nos nossos gostos e preferências. Aconteceu-me muito recentemente com esta, veterana de 32 anos.

19 julho 2022

A PEQUENA HISTÓRIA COLONIAL DO BANCO COLONIAL PORTUGUÊS

O Banco Colonial Português tivera o capital inicial de 10.000 contos, subscrito na totalidade pela casa bancária Pinto & Sotto Mayor. Por esta escritura acima, de 18 de Julho de 1922, publicada no dia seguinte no Diário de Lisboa, o pacto social é alterado e o capital aumentado para 20.000 contos. Segundo o que se pode ler nos seus estatutos, a instituição tinha por objecto social o fomento e o progresso económico em geral, e agrícola em especial, tanto no continente como nas províncias ultramarinas. Em 1919, as primeiras agências do Banco Colonial Português haviam sido abertas em Luanda e Lourenço Marques. Em 1920, abrira-se a sucursal em Benguela, e nos anos seguintes em Inhambane, Nampula (ambas em Moçambique), S. Vicente (Cabo Verde), S. Tomé, Funchal e Moçâmedes (Angola). Devido à ligação privilegiada com o sector agrícola ultramarino, este outro BCP tornara-se membro fundador em 1920 da Companhia da África Ocidental Portuguesa. Mas a crise cambial desta década de 1920, assim como as alterações surgidas no regime bancário e monetário em Moçambique, pela aplicação de uma portaria que entregava ao Banco Nacional Ultramarino o exclusivo das operações cambiais do Estado, e sobretudo com a diminuição das transferências das colónias para a metrópole, foram tudo factores que deixaram os resultados da instituição muito aquém das expectativas de há cem anos. Escassos dois anos depois, por uma outra escritura celebrada em 12 de Agosto de 1924, o Banco Colonial Português expandiu-se, adquirindo o activo e passivo do Banco Nacional Agrícola, passando então a denominar-se Banco Colonial e Agrícola Português. O Banco Colonial e Agrícola Português, após essa fusão, reforçou o seu capital social para 45.000 contos. Porém, a iniciativa não teve o efeito dinamizador desejado e apenas um ano depois disso (26 de Agosto de 1925) suspendeu os pagamentos. Foi nomeado um comissário do governo: António Henrique de Oliveira e Silva. Por escritura de 22 de Fevereiro de 1927, o capital social veio a ser reduzido para 11.250 contos. E por sentença do Tribunal do Comércio de Lisboa, a 26 de Abril de 1928 a instituição veio a ser reconstituída sob a designação de Banco da Agricultura. Afinal, os cinquenta anos da história deste último Banco da Agricultura (1928-1978), tiveram um cunho muito pouco colonial... Por associação de ideias e por este andar, também estou desconfiado que o actual Banco Português de Fomento é capaz de não vir a fomentar grande coisa, nem por muito tempo... Só espero estar enganado.

18 julho 2022

OS EXCURSIONISTAS EXÓTICOS

18 de Julho de 1962. A notícia dá conta do desembarque de 1.100 excursionistas exóticos britânicos que realizavam um cruzeiro a bordo do paquete Ibéria (por sinal, um navio azarado, onde estavam sempre a acontecer coisas, mas isso não interessava nada! - como mais tarde viria a consagrar em expressão a Teresa Guilherme). O que interessaria ao jornalista era que o navio aportara a Lisboa, com os tais excursionistas exóticos que, por uma vez e para aparente desapontamento de quem escrevia a notícia, não eram «milionários», mas apenas «remediados». Essa circunstância menor não os impedia de exibir «novos modelos de vestidos», «exuberantemente decotados», «ostentando» «chapéus das mais variadas cores e feitios». «As senhoras idosas» ou os «casais mais respeitosos» nada ficavam a dever aos restantes em «exotismo», embora a palma desse exotismo fosse aparentemente - até com direito a fotografia e tudo! - para um cavalheiro que ousara desembarcar em calções! (não se estivesse em Julho)
Enfim, pondo as ironias de parte, toda esta redacção do jornalista do Diário de Lisboa é, vista a esta distância, profundamente triste, embaraçante, evocativa de cultura complexada de provincianos de aldeia como então se vivia em Portugal e se contemplavam o comportamento dos vizinhos europeus, e ainda se torna mais indesculpável quando se constata o retrocesso em que a sociedade portuguesa havia recaído. É que, durante o princípio da década de 1940, quando Lisboa fora inundada de refugiados europeus por causa da Segunda Guerra Mundial, a cidade tivera uma oportunidade para se tornar cosmopolita. Como se percebe e aparentemente, vinte anos passados, a ocasião fora desperdiçada. A bem de uma narrativa desculpabilizadora, é comum culpar Salazar por esta mediocridade, mas, nomeadamente em termos culturais e de costumes, parece-me evidente o quanto a culpa daquela ocasião perdida é colectiva, a começar pelas nossas elites.

IMAGENS DAS FESTAS DE SAN FERMIN EM MALABO, CAPITAL DA GUINÉ EQUATORIAL

Imagens das festas de San Fermin que se realizaram em Malabo, a capital da Guiné Equatorial, uma antiga colónia espanhola. Ao contrário das internacionalmente famosas Festas de San Fermin de Pamplona, que se realizam todos os anos entre 6 e 15 de Julho, estas ainda não alcançaram a promoção devida e será por isso que vemos os bichos à solta a passearem-se quase sozinhos pelas ruas, faltam ali os tradicionais turistas em busca de adrenalina e emoções correndo com a bicharada. Porém, estas San Fermin africanas prometem: em vez de uns pacíficos bois em que o aspecto é mais maldoso do que a atitude, o perigo é ali protagonizado por rinocerontes que, quando entusiasmados, prometem propiciar imagens arrebatadoras de turistas e locais experimentando desafios verdadeiramente interessantes...

17 julho 2022

A PROMULGAÇÃO DA LEI CONSTITUTIVA DAS CORTES ESPANHOLAS

17 de Julho de 1942. Em Espanha, Franco promulga a Lei Constitutiva das Cortes Espanholas. Então cumpriam-se seis anos sobre a data da insurreição militar que estivera na origem do regime. As Cortes espanholas eram o que de mais próximo se podia conceber de um órgão representativo «de participação do povo espanhol nas tarefas do Estado». Contudo, o novo órgão assemelhava-se muito mais a uma câmara corporativa de inspiração fascista do que a um parlamento. Os seus membros denominavam-se mesmo procuradores. E esses procuradores seriam nomeados, nunca eleitos: fosse directamente pelo próprio caudilho, Francisco Franco, ou então pelas organizações políticas, sindicais ou corporativas do regime, a sua composição seria necessariamente monocolor. Nessas futuras Cortes não se poderiam apresentar propostas de lei: votar-se-iam apenas as que eram apresentadas pelo executivo (Franco). E o discurso que Franco pronunciara na ocasião, e que o Diário de Lisboa transcrevia nas suas passagens mais importantes no dia seguinte, através do «elogio» prestado ao totalitarismo, mostrava o quanto o regime espanhol se aproximara ideologicamente de uma Alemanha e de uma Itália que, por essa altura, ainda se concebiam como possíveis vencedoras do conflito em curso, já que as operações de Verão da Alemanha na Frente Leste pareciam estar a correr-lhes favoravelmente.

16 julho 2022

UM PROBLEMA QUE URGE RESOLVER - ONDE DEVE SER CONSTRUÍDO O AEROPORTO DE LISBOA?

16 de Julho de 1932. Não fora dar-se o caso do jornal ser de há noventa anos, e acreditamos que, pelo título, o assunto do artigo interessasse ao primeiro-ministro António Costa e ao seu devotado ministro das Infraestruturas, Pedro Nuno Santos. Repare-se como já então havia o técnico que não manifestava quaisquer dúvidas quanto à localização, que, não por acaso, seria precisamente a desejada por aqueles que suspeitamos estarem por detrás da promoção do artigo. A questão e o método (que se mantém desde há 90 anos) é que, para além deste técnico (que até é francês!), haveria quem arranjasse um outro técnico que tivesse uma opinião assertivamente adversa à do Montijo, em prol de Alverca. E um terceiro técnico que defendesse veementemente a solução Portela/Sacavém (que foi a que veio a ser realmente escolhida). Em suma, dos técnicos só são citados aqueles que concluem aquilo que convém a quem tem poder. Era assim há 90 anos. Continua a ser assim.

15 julho 2022

«EMPURRAR COM A BARRIGA» - A IMAGEM DE MARCA DO EXECUTIVO DE ANTÓNIO COSTA

A primeira parte da imagem, é a transcrição de um parágrafo de um artigo do Público de ontem. Atente-se às passagens sublinhadas: há três semanas (22 de Junho) Marta Temido anunciava que iria aumentar de imediato o valor diminuto como são comparativamente remuneradas as horas extraordinárias dos médicos do quadro dos hospitais, sem esperar por qualquer acordo com os sindicatos, harmonizando-o com o valor que está a ser pago aos médicos externos. Três semanas depois comprova-se que não fez nada; está (ainda!) a "aprofundar a solução". Ou seja, depois de umas declarações iniciais, de aparência substantiva, Marta Temido e o seu ministério ainda não fizeram a ponta de um corno no que concerne àquele problema em concreto, problema esse que a própria ministra considerará implicitamente injusto, tal a celeridade (aparente!) posta na sua resolução. Este é o estilo de governo de António Costa em todo o seu esplendor: empurrar a solução dos problemas com a barriga, à espera que, no entretanto, o problema em si saia da agenda mediática. Agora passou a haver incêndios: já ninguém quer saber das urgências fechadas.

A REPUTAÇÃO ANTIGA DAS CONCENTRAÇÕES ALGARVIAS NO MÊS DE JULHO

Ao folhear o Diário de Lisboa de 15 de Julho de 1962 descobre-se, com surpresa, que existirá alguma razão de fundo, e antiga, para a realização de concentrações em terras algarvias, em pleno mês de Julho. A da notícia era a de uma concentração monárquica, em Quarteira, como se pode ler na notícia da esquerda. A que hoje ofusca todas as outras realizadas por esta mesma altura do ano, é a motoqueira de Faro que, como se pode ler no cartaz da direita, já vai na sua 40ª edição. Claro que só há que aceitar a evolução do programa das festas de uma para outra Concentração. Por um lado é difícil imaginarmos os motoqueiros actuais a irem à «Santa Missa» depois de almoçarem, tanto mais que já não há «Ultramar português» para defender...; mas por outro lado, também é difícil imaginarmos o antigo «sr. prior de Quarteira» a presidir ao júri do clássico concurso da miss t-shirt molhada...

14 julho 2022

QUANDO A PROPAGANDA DISTORCE EXPRESSÕES QUE TÊM OUTRO SIGNIFICADO

Para efeitos de propaganda tem-se abusado demasiado da expressão "guerra híbrida" (uma expressão popularizada já no século XXI). Se "guerra híbrida" consistisse em "enviar armas" para um dos beligerantes, como acima reclama a porta-voz do Kremlin, então, por exemplo, a União Soviética havia travado uma prolongada "guerra híbrida" contra os Estados Unidos entre 1965 e 1972, através dos fornecimentos de vastas quantidades de armamento sofisticado que fez ao Vietname do Norte. E isso é uma passagem da História que precisamente aqueles que tomam as simpatias pró-russas no actual conflito russo-ucraniano, não querem reconstituir desse modo - supostamente, a sua versão ortodoxa da Guerra do Vietname é que a vitória se deveu apenas aos vietnamitas...

«JOBS... POUR LES COPAINS»

Foi António Guterres quem popularizou em Portugal a expressão «jobs for the boys». E no entanto, uma rápida pesquisa na internet esclarece-nos o quanto a expressão é antiga, datará do princípio do século XX, já com o sentido malicioso que empregamos actualmente. Há porém, uma nuance. O idioma internacional de comunicação nos primórdios do século passado era o francês e a importância internacional da França era toda uma outra. Na edição de 14 de Julho de 1922, por coincidência o dia nacional daquele país, o aniversário da tomada da Bastilha, esta pequena notícia do Diário de Lisboa dá uma ideia do quanto era cobiçada a colocação na representação diplomática portuguesa na cidade-luz. (Mais de 80 anos depois, uma qualquer colocação naquela cidade continuaria cobiçada...) O titular, o sr. João Chagas, ainda teria para mais uns sete meses, mas o jornal já dava conta de sete(!) candidatos a substituí-lo. Entre os quais se contavam um antigo presidente (Bernardino Machado) e um antigo primeiro-ministro (Afonso Costa). Entretanto, numa outra notícia dessa mesma edição, esse mesmo sr. João Chagas parecia passar um recado explícito ao governo de então, de que o cargo de «administrador dos Caminhos de Ferro Portugueses» não estaria à altura das suas expectativas. Em suma, há cem anos, se os jobs ainda não eram para os boys, é só por uma questão de idioma que se pode corrigir a expressão esclarecendo que seriam para os... copains. Para aqueles que gostam de saber como é que estas coisas acabam, afinal João Chagas continuou em Paris como ministro plenipotenciário da legação até ao final do ano de 1923. Foi substituído por Ferreira da Fonseca que, como um poema de Drummond de Andrade, nem entrara originalmente nesta história.

13 julho 2022

OUTRA FILHA E OUTRO FUNERAL

13 de Julho de 1972. Com destaque de primeira página, o Diário de Lisboa noticiava que «a actriz Melina Mercouri» voltara «ontem à Grécia, com autorização especial das autoridades, para assistir aos funerais da sua mãe.» (...) «Foram-lhes concedidas exactamente 12 horas para permanecer em território grego e assistir às cerimónias fúnebres.» Na telefoto da UPI que acompanha a notícia, «ela aparece entre o irmão e o marido, o cineasta Jules Dassin, exprimindo pateticamente a sua dor, como qualquer das heroínas populares dos filmes que interpretou.» É uma coincidência evocar este episódio antigo de cinquenta anos, quando as questões da segurança jurídica das filhas de José Eduardo dos Santos em Angola também estão em aberto, por ocasião da eventual realização do funeral do antigo presidente angolano no seu país natal. Mas, descontando os aspectos mais essenciais, a analogia não é assim tão extensa quanto isso. A figura principal do episódio grego é a filha, enquanto a do episódio angolano é o progenitor que morreu; aquelas filhas, por muito espaço mediático que agora lhes concedam, não seriam notícia, não fosse o pai.

12 julho 2022

A MARCA MONTEQUÊ?

Até ver e apenas semana e meia passada depois do último congresso do PSD, «a marca Montenegro» não passa de uma expressão inventada pelo jornal Observador, nos seus esforços para levar ao colo a equipa dos órfãos de Passos Coelho. Faz-me lembrar um daqueles comentários de futebol, de um adepto indefectível que acha que as «chicotadas psicológicas» são mesmo a solução para o problema da equipa, e que dizem animadamente, enquanto os resultados tardam: «a equipa ainda não ganhou nenhum jogo, mas nota-se que os jogadores jogam com muito mais à vontade!...»

AS INTUIÇÕES ÚTEIS E AS OUTRAS

O senhor da imagem chama-se Adalberto Campos Fernandes e apanhámo-lo a dizer ontem na CNN que o relatório sobre o impacto da covid-19 diz aquilo que todos já sabíamos. Mas, como é um comentador diz o mesmo com um vocabulário mais rebuscado - intuímos. O que não é do domínio da intuição, antes uma constatação de factos, é que Adalberto Campos Fernandes já foi ministro da Saúde. Aliás, foi o antecessor imediato da actual titular, Marta Temido. Mas foi um ministro que não levou o seu mandato até ao fim. De acordo com as notícias publicadas na época, terá sido mesmo ele a pedir para abandonar o cargo. Visto de fora, e até melhor explicação, parece-me uma admissão evidente de um fracasso politico - a frustração de não conseguir implementar aquilo que se propusera. Como de resto, já ouvi comentar em surdina de outros sítios por onde passou... Alguém que impressiona a falar mas que não tem resultados (aos 63 anos, já os devia ter alcançado). Enfim, para o que interessa, Adalberto Campos Fernandes teria adquirido um outro respeito se tivesse sido consequente e se tivesse mantido calado, pelo menos durante o tempo em que a sua sucessora imediata permanecesse no cargo. Mas não. Todos intuímos que há aquelas pessoas que não sabem fazer a distinção saudável entre implementar políticas e alcançar resultados e, por outro lado, dizer coisas sem apresentar qualquer ideia de como as concretizar*. Essa é uma intuição útil, para não prestarmos atenção ao que Adalberto Campos Fernandes tenha para dizer. Ele há outras intuições: na CNN têm que encher o tempo com algumas opiniões, nem sempre e não propriamente as melhores opiniões, apenas as dos opinadores que estiverem disponíveis.

* Citando Adalberto Campos Fernandes: «- ... é por isso importante, como tenho dito, convocar todas as forças políticas, todos os actores, para que nós encontremos uma resposta muito intensa, muito rápida,...» - um canónico "traque na casa de banho".

A HISTÓRIA TEM IMENSAS «NUANCES»...

12 de Julho de 1922. O governo alemão confessava-se incapaz de fazer face às suas responsabilidades financeiras e em Paris e Londres concertavam-se reacções a uma previsível bancarrota alemã, que afinal não chegou a haver, assim como 90 anos depois a Grécia não chegou a sair do euro. Wolfgang Schäuble é que ainda não nascera, por isso não se lembra (ou não se quer lembrar do que estudou) quando se considerava que o problema financeiro da Europa era o seu próprio país... Mas a melhor síntese desta evocação sairá talvez de um provérbio tradicional português: «Não peças a quem pediu, nem sirvas a quem serviu».

11 julho 2022

O «MATCH» DO SÉCULO

Há alguns países da Europa que sempre foram considerados mais intrinsecamente “neutrais” durante a Guerra-Fria: a Áustria, a Finlândia (que foi escolhida para o local de assinatura da Acta de Helsínquia em 1975), a Suíça…e a frequentemente esquecida Islândia. Norte-americanos e soviéticos escolheram a capital islandesa, Reiquiavique, para local da realização da Cimeira que juntou Mikhail Gorbachev e Ronald Reagan em Outubro de 1986 mas já antes disso a cidade fora escolhida para local da realização do Campeonato Mundial de Xadrez que começou em 11 de Julho de 1972, há precisamente 50 anos.
Essa edição de 1972 do Campeonato Mundial de Xadrez enquadrava-se perfeitamente no espírito da Guerra-Fria que era então uma constante da situação internacional: um norte-americano contestava pela primeira vez o título a um soviético, quando os jogadores de origem soviética haviam dominado hegemonicamente aquela disciplina nos últimos 45 anos. Era uma história cheia de potencial, daquelas declaradamente inspiradas em David contra Golias, mas infelizmente o xadrez deve ser das modalidades mais exigentes para aqueles que a queiram acompanhar.
Contornando isso, a cobertura noticiosa da comunicação social ocidental estava repleta de fait-divers para que aqueles que queriam acompanhar o match por clubismo mas não percebessem nada de xadrez ficassem com a sensação que estavam a par do assunto. E, contando com a complexa personalidade do concorrente norte-americano, Bobby Fischer (1943-2008 - acima), os torcedores não podiam ficar menos desapontados com essa cobertura periférica sobre o que estava a acontecer em Reiquiavique. Fischer começou logo por faltar à cerimónia de abertura e por pedir mais dinheiro…
Na verdade, o que os ocidentais queriam evitar mostrar à sua opinião pública era que o seu campeão era um geek (acima). Em contraste, a imagem do seu opositor Boris Spassky (1937- ) era muito mais favorável (abaixo), nada conforme com a do russo patibular com ar de espião da Guerra-Fria. No tabuleiro contudo, depois de perder as duas partidas iniciais (e a segunda foi perdido por falta de comparência…), Fischer venceu a terceira, quinta, oitava, décima, décima terceira e vigésima primeira partidas (contra apenas a 11ª partida para Spassky), vencendo o Campeonato com 12½ pontos!
Mas isso foi o que aconteceu em Reiquiavique. Porque aquilo que eu recordo com mais nostalgia sobre este acontecimento eram os comentários sobre a partida do dia que eram incluídos no telejornal da noite, comentários esses feitos por um mestre português de seu nome João Cordovil (abaixo, à esquerda), que durante o torneio se tornou numa presença televisiva regular, explicando o que acontecera com o recurso a quadros idênticos aos que se podem ver na imagem abaixo. Pergunto-me se no actual panorama televisivo poderia haver espaço para um programa desse mesmo género...

10 julho 2022

O «CAMPEONATO» DA PREOCUPAÇÃO

Esta disputa encenada entre o governo e a presidência, a procurar ver quem exibe mais preocupação diante da opinião pública pelo que se antecipam que venha a ser a agenda mediática da próxima semana é sumamente ridícula. Os dois marcam-se «à zona», e quem assiste à cena não pode deixar de pensar tratarem-se de uns palhaços. Será que Marcelo e Costa levarão a coreografia ao ponto de se deixarem fotografar e filmar de mangueira na mão?

A verdade é que num país a sério - e eu gosto de considerar que somos um desses - as capacidades de resposta a crises devem estar concebidas para não dependerem em nada da presença de chefes de Estado e de governo. E as pessoas não são parvas, as coisas às vezes correm-lhes (felizmente!) mal: aprecie-se abaixo o exemplo concreto do primeiro-ministro australiano Scott Morrison quando da sua visita a uma área ardida em Janeiro de 2020.