Mostrar mensagens com a etiqueta Espanha. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Espanha. Mostrar todas as mensagens

10 julho 2024

OS BOLETINS CLÍNICOS QUE DEFINIAM A «SAÚDE» DO REGIME (1)

Dois meses e meio depois do 25 de Abril, Portugal podia agora contemplar de forma distanciada a importância pessoal de um ditador quando ele personificava o regime (como acontecera no próprio país com Salazar). Era só preciso acompanhar as notícias que, a 10 de Julho de 1974, chegavam de Espanha e a importância noticiosa que era concedida ao internamento do caudillo Francisco Franco, e tudo por causa de uma tromboflebite. «Comeu gaspacho, frango e fruta e viu, depois, um programa de televisão a cores num aparelho que foi colocado especialmente no seu quarto» (a televisão a cores era então uma novidade em Espanha). A Espanha entrava então numa fase em que os boletins clínicos a respeito do ditador se tornavam progressivamente mais importantes para a definição de qual era a saúde do regime franquista. Franco contava então 81 anos, a idade com que morrera Salazar.

08 maio 2024

O DOUTORAMENTO DO CAUDILHO

(Republicação)
Salamanca, 8 de Maio de 1954. Haviam-se passado precisamente nove anos após o fim da Segunda Guerra Mundial na Europa, mas o que se celebrava na famosa Universidade local (a mais antiga da Europa) era o seu 700º centenário, oportunidade para a cerimónia da atribuição do grau de doutor honoris causa ao generalíssimo Francisco Franco (1892-1975). Há muito que o reitor da universidade deixara de ser um Miguel de Unamuno (1864-1936), cuja conduta levara a que fosse expulso do cargo em 1936. Dezoito anos depois o reitor chamava-se Antonio Tovar (1911-1985), viria a ser um filólogo de mérito, mas cujo êxito da carreira inicial se deveria muito mais à militância na Falange e à protecção de Serrano Súñer, o cunhadíssimo (1901-2003), do que aos seus predicados académicos. Para a ocasião, o caudilho de Espanha, que nunca pretendera passar por intelectual, e a quem se conhecia até alguns comentários de desdém pela actividade, mostrava estar nitidamente fora da sua zona de conforto. O discurso de aceitação que proferiu (acima), após as quase obrigatórias expressões de modéstia preliminares, foi de uma auto-congratulação deslocada, com referência àqueles de nós que fazem a História, comparando a sua obra aos caudilhos reais que no Século XIII, já na fase de merecido descanso após a conclusão vitoriosa da Reconquista, lançaram as fundações sobre as quais a gloriosa Universidade de Salamanca viria a ser erigida. Foi uma cerimónia tensa, descreveu-a quem a ela assistiu: a certa altura, um dos professores catedráticos presentes tentou tirar a sua bolsa de tabaco do bolso e viu o seu gesto ser escrutinado por um punhado de membros da equipa de segurança do chefe de Estado espanhol subitamente reunidos à sua volta. Franco permaneceu rígido durante toda a cerimónia, mal abriu a boca durante o banquete que se lhe seguiu, e este terminou com o homenageado que a ele presidira a levantar-se bruscamente sem quaisquer palavras finais. Fora um frete para ele… e fora outro frete para a docência da Universidade. Porém, a história deste frete recíproco não se terá perdido na memória colectiva da instituição e não terminou ali assim. Em 2008, 54 anos passados, a Universidade rejeitou a concessão do título académico a Francisco Franco. Como alguém disse na altura e a propósito: não para reescrever a história, que essa foi a que foi, mas para reescrever a dignidade da Universidade.

04 abril 2024

A ASSINATURA SOLENE DO PACTO DO ATLÂNTICO

(Republicação)
4 de Abril de 1949. Com destaque de primeira página e amplo desenvolvimento noticioso nessa e na última página, noticia-se a assinatura solene do Pacto do Atlântico. Assinam-no doze países: Bélgica, Canadá, Dinamarca, Estados Unidos, França, Islândia, Itália, Luxemburgo, Noruega, Países Baixos, Portugal e Reino Unido. Portugal faz-se representar na cerimónia pelo veterano José Caeiro da Mata, ministro dos Negócios Estrangeiros. Se a sua fotografia na primeira página é demonstrativa de uma certa ingenuidade daquela época para com as novas artimanhas publicitárias (o logotipo da TWA bem à vista quando descia do «avião em que cruzou o Atlântico»), o teor das suas declarações publicadas na última página mostra as preocupações da diplomacia portuguesa com o sucesso que alcançara: não excitar demasiado os ciúmes do regime espanhol (que fora proscrito da NATO).

14 fevereiro 2024

QUANDO RAMÓN ERA O MAIS FAMOSO DOS IRMÃOS FRANCO

14 de Fevereiro de 1934. Esta notícia dá-nos conta dos projectos de um famoso aviador espanhol que se chama Ramón Franco (à direita na foto) que, por sinal, é o irmão mais novo de Francisco Franco, cuja notoriedade iria aumentar sobejamente dali por dois anos e meio, quando do começo da Guerra Civil de Espanha em Julho de 1936. Ramón não irá sobreviver à Guerra, morrerá num acidente de aviação em Outubro de 1938. Nessa altura, já era ele o irmão do irmão.

20 dezembro 2023

O ASSASSINATO DE CARRERO BLANCO

(Republicação)

20 de Dezembro de 1973. Excluindo a proximidade do Natal, teria sido uma quinta-feira como tantas outras em Madrid, não tivesse sido a brutal explosão ocorrida na discreta rua Claudio Coello (um pintor espanhol do século XVII de ascendência portuguesa). A explosão, que ocorreu por volta das 9H30 da manhã, foi subterrânea e deu-se precisamente à passagem de um automóvel, um Dodge 3700 GT, uma daquelas banheiras de concepção americana (mas, no caso, de construção espanhola), uma sorvedora de combustível, que a crise do petróleo desencadeada pela OPEP naquele Outono tornaria subitamente obsoleta. A explosão foi tão violenta que elevou os 1.600 kg do Dodge 3700 GT com os seus três ocupantes mais acima do que os quatro andares do prédio fronteiriço, fazendo com que a viatura rodasse por cima do telhado, vindo a cair na varanda das suas traseiras. Dentro do automóvel jaziam moribundos o presidente do governo espanhol, o almirante Luis Carrero Blanco, o seu motorista e, já morto, o polícia que estaria encarregado da sua segurança próxima. A organização terrorista basca ETA não tardou a reivindicar o atentado.

20 novembro 2023

O DESCONFORTO DA RECIPROCIDADE

Estas imagens de um político português a discursar num comício de Espanha só aparentemente é que são neutros. Por norma, quando ultrapassam as banalidades tradicionais, as imagens de políticos espanhóis a discursar em comícios portugueses e a dizerem coisas demasiado concretas sobre os nossos assuntos deixam-me - e creio que não só a mim... - assaz desconfortável(is). E a coerência de não fazer aos outros aquilo que não gostamos que nos façam a nós é uma virtude que prezo muito.

29 outubro 2023

O DISCURSO DA FUNDAÇÃO DA FALANGE

29 de Outubro de 1933. No Teatro da Comédia, em Madrid (Espanha), José António Primo de Rivera pronuncia o seu discurso da Fundação da Falange Espanhola onde estabelece os fundamentos do que será a ideologia daquele movimento. Pouco mais de três anos passados - 20 de Novembro de 1936 - ele seria fuzilado pelos republicanos e tornar-se-ia no mito da causa nacionalista. Essencialmente, para além de ideólogo, José António Primo de Rivera contribuiu muito pouco para a história de Espanha mas, precisamente por causa disso, tornou-se possível aproveitá-lo e invocá-lo para inúmeras funcionalidades do regime nacionalista que se veio a estabelecer a partir de 1939. José António Primo de Rivera estará para a Espanha franquista como James Dean está para o cinema de Hollywood: alguém que teve uma passagem meteórica pelo estrelato e que podia-ter-sido imensas coisas. E todas essas coisas encadeiam-se sempre e reforçam o discurso de quem o invoca.

16 outubro 2023

A DETENÇÃO DE AUGUSTO PINOCHET. SERÁ QUE OS DITADORES PODEM SER JULGADOS?

(Republicação)
16 de Outubro de 1998. Augusto Pinochet é detido em Londres às ordens de um tribunal britânico, respondendo às solicitações de extradição oriundas de um tribunal espanhol. O general chileno e antigo presidente da Junta Militar que governara o país de 1973 a 1990, então com quase 83 anos (mas que apenas abandonara o comando das Forças Armadas chilenas há uma meia dúzia de meses), deslocara-se ao Reino Unido para tratamento médico a uma hérnia e encontrava-se até internado quando a ordem de detenção fora executada. Entre os especialistas legais das diplomacias chilena e britânica que haviam analisado a deslocação, ninguém se apercebera das potencialidades acrescidas da integração europeia da década de 1990. Contudo, essas potencialidades haviam feito ruminar uma ideia num juiz espanhol sedento de publicidade (Baltazar Garzón) que, querendo indiciar Augusto Pinochet pela execução de cidadãos espanhóis durante a ditadura, se aproveitou da sua presença num país da União Europeia para lhes solicitar a sua extradição. As acusações tinham ressonância: genocídio, terrorismo, tortura, desaparecimento de pessoas.
Mais do que as manifestações pró e contra a detenção que as televisões se apressaram a transmitir, a iniciativa foi um descomunal embaraço para as diplomacias envolvidas e para todo um protocolo de comportamento adoptado por elas. Um protocolo onde se subentende que um país anfitrião não inferniza a vida de antigos ditadores quando eles abandonam o poder e se exilam - afinal, o próprio Chile fizera isso mesmo quando acolhera Erich Honecker, o antigo ditador comunista da República Democrática Alemã, após a reunificação alemã. Neste caso dos britânicos e de Pinochet, acrescia o facto de os primeiros lhe deverem favores concedidos em tempos de necessidade, pelo apoio dado pelo Chile ao Reino Unido quando da Guerra das Malvinas (1982). Ao pedido de extradição e ao estupor que se seguiu (mas estas coisas não era só para fazer aos nazis?), seguiu-se uma complexa batalha legal onde era inequívoca para que lado pendia a posição do governo britânico (apesar de ser trabalhista). Em termos mediáticos e como se pode observar pelas fotos, a canónica de Pinochet, de óculos escuros e braços cruzados desafiantes, em 1973, foi substituída pelas de um velhinho amparado que mal se conseguia mexer.
Do outro lado, furos jornalísticos oportunamente surgidos faziam saber que o general que tanto se empenhara pela salvação da sua pátria, afinal detinha milhões em contas no estrangeiro. Em termos judiciais, os que interessam, o governo britânico recusou-se terminantemente a extraditar Augusto Pinochet para Espanha, alegando razões de saúde. Mas a situação gerada pelo pedido espanhol, considerando a gravidade das acusações que sobre si pendiam, era, só por si, um impasse: o antigo ditador esteve em prisão domiciliar mais de um ano (503 dias), até que alguém se lembrou do expediente de o levar a uma junta médica britânica que o declarou irremediavelmente senil e incapaz de ser submetido a julgamento. Os britânicos aproveitaram a oportunidade para o extraditar... mas para o Chile. Mas, nem mesmo no Chile natal, Pinochet se livrou da perseguição jurídica pelos seus actos no poder. A iniciativa de Gárzon desencadeara uma moda, mas a facção dos que o defendiam era aí também mais substancial. Quando morreu, em Dezembro de 2006 (ou seja, mais de oito anos depois desta notícia de há vinte e cinco anos), ainda Pinochet estava a contas com a justiça... que, tirando-lhe uma parte do dinheiro que acumulara, nunca lhe conseguiu pôr a mão em cima.

14 setembro 2023

O ACOMPANHAMENTO DO PRONUNCIAMENTO MILITAR DE PRIMO DE RIVERA

O pronunciamento militar que irá levar o general Primo de Rivera ao poder começara no dia anterior em Barcelona, mas foi só no dia 14 de Setembro de 1923 que o Diário de Lisboa dedicou toda a página que era tradicionalmente consagrada aos assuntos do estrangeiro à evolução dos acontecimentos no país vizinho. Como se pode ler, naquele dia já a guarnição militar da capital se associara aos revoltosos. E no dia seguinte, o rei Afonso XIII irá nomear o general sublevado chefe de governo e presidente do Directório Militar. Fora um pronunciamento em que a grande maioria ficou a ver em que é paravam as modas, mas que também não teve grande contraditório.

12 julho 2023

COMO UMA CÉLULA A DESLOCAR-SE NUM MEIO LÍQUIDO

Isto são imagens dos gaiteiros a (tentar) abandonar a praça central de Pamplona por ocasião da abertura das festas de San Fermin deste ano (que estão ainda em curso, até 14 de Julho). O curioso da cena é que os seus barretes vermelhos contrastam com o azul dos coletes da polícia que está encarregue de os proteger e, por sua vez, ambos contrastam com o branco dos foliões. Visto à distância, a deslocação (lenta) da banda (vermelha), cuja formação e contornos vai variando conforme os esforços dos protectores (azuis), num meio envolvente dominado pela cor branca, faz lembrar aquelas imagens de microscópio, quando uma célula se desloca vagarosamente por um meio líquido. Vale a pena recordar que a primeira visita do escritor americano Ernest Hemingway a estas festas (o maior responsável por as popularizar mundialmente) foi em 1923, há precisamente 100 anos.

26 junho 2023

OUTROS EFEITOS OBSERVÁVEIS DO «BREXIT», DESTA VEZ NUM AEROPORTO ESPANHOL

Para lá do aspecto organizacional das informações obrigarem à formação de duas filas distintas, a azul - que se adivinha mais fluída - para os passageiros cidadãos da União Europeia, a preta para aqueles que são obrigados a apresentarem os respectivos passaportes, note-se o requinte da selecção das bandeiras, a do Reino Unido e a de Marrocos (mas não a dos Estados Unidos, por exemplo...) de um lado; do outro a da União Europeia e, nesta, o requinte de especificar a Irlanda, que eu interpreto como um acinte dos espanhóis, como que esclarecendo que os irlandeses não são insulares como os outros.

09 junho 2023

UM CHEFE DE GOVERNO PARA ESPANHA

9 de Junho de 1973. Pela primeira vez em 34 anos de regime, o franquismo passa a conhecer a nova figura de chefe de governo, que fora até aí desempenhada pelo próprio generalíssimo Franco. A nova figura é protagonizada pelo almirante Carrero Blanco, uma eminência parda (e algo enigmática) do regime. As consequências para a evolução do franquismo apenas se podiam especular, embora o jornal português que dá a notícia se pusesse desde logo, em título, com antecipações tão simplistas quanto primárias. As inflexões para a esquerda ou «mais para a direita» fazem pouco sentido numa ditadura. Os «observadores políticos» e «a opinião política geral em Madrid» a que o jornal recorrera, falhavam completamente na sua análise. As mudanças do elenco governamental têm mais sentido se interpretadas numa perspectiva da redistribuição do poder entre as várias facções que o compõem. Neste caso concreto, fora sempre notório desde a década de 1960 como Carrero Blanco se apoiara nos quadros pertencentes à Opus Dei, e isso seria de esperar que se reflectisse na composição do governo. A facção Opus Dei (que em Espanha funcionava como uma espécie de maçonaria católica), era distinta das outras correntes políticas históricas que haviam sustentado o franquismo desde o início do regime.

06 junho 2023

TOP DISCOS EUROPEUS 1973

(Republicação)
6 de Junho de 1973. Uma breve análise dos Tops de vendas discográficos de sete países europeus mostra que a unidade europeia ainda é um projecto bem longínquo, pelo menos no que concerne aos gostos musicais. Com excepção da Bélgica e da Holanda (associadas supletivamente no Benelux), mais nenhum país compartilha com outro a sua preferência pelo disco mais vendido. O cruzamento das listas também não detecta muitos títulos comuns. Contudo, a hegemonia anglo-saxónica revela-se evidente: em seis dos sete países analisados, a canção que lidera o top de vendas é cantada em inglês, o intérprete é americano, ou inglês, ou irlandês, sendo Espanha a excepção. Aliás, a lista desse país contém algumas surpresas nos títulos, como o exemplo acima destacado de «Suavemente Me Mata Com Su Canción» que, depois de pesquisado no You Tube, se vem a revelar ser uma melodia um pouco mais familiar para quem tenha vivido aquele tempo...

20 abril 2023

O FUZILAMENTO DE JULIÁN GRIMAU

A notícia (ao centro) que o Diário de Lisboa publica na primeira página da sua edição de 20 de Abril diz o essencial sobre os aspectos relacionados com a captura, prisão, julgamento, condenação e imediata execução do dirigente comunista Julián Grimau. Sobre o não essencial, esclareça-se que se trataria de uma evidente desforra sobre alguém que, durante a Guerra Civil espanhola (1936-39), fora um dos dirigentes da polícia política republicana, que era controlada pelos comunistas, e que cometeu inúmeras atrocidades. Como costuma acontecer, não há aqui inocentes de um lado e algozes do outro. A questão que se põe é se, 25 anos passados sobre os crimes, seria politicamente assisado a severidade da sanção que foi aplicada pelo Estado franquista, com uma cenografia - tribunal militar, paredão - que parecia que se regressara por momentos à Guerra Civil. Obviamente não era, tanto mais que, do outro lado, os próprios comunistas se haviam encarregado de fomentar uma campanha internacional, baseada em França, em prol do prisioneiro. Fora essa campanha, aliás, que acabara por catapultar a execução de Julián Grimau para a primeira página do jornal português. No fim, os dois extremismos - o de direita e o de esquerda - jogaram as suas cartas e obtiveram o que queriam: o franquismo ressuscitava aqui o espírito de guerra civil que o fazia sentir-se legitimado, depois de 25 anos de uma prestação governativa medíocre (os anos de grande crescimento económico ainda estão para chegar); o comunismo, mesmo antecipando que iria perder, conseguia conferir notoriedade a mais um mártir da sua causa (à direita, selos soviéticos de 1963 com a efígie de Grimau). É esse o segredo argumentativo de comunistas e fascistas que os torna aliados objectivos: pretender que não existe nada para além deles. A Democracia responde-lhes com a tolerância.

17 março 2023

O 20º ANIVERSÁRIO DA CIMEIRA DAS LAJES

17 de Março de 2003. Visto a esta distância de 20 anos, parece assentar a conclusão que a Cimeira das Lajes terá sido uma mera operação de relações públicas, em que a administração republicana de George W. Bush quis mostrar à opinião pública americana que não estava isolada internacionalmente, quando anunciava a sua intenção de invadir o Iraque. Para a ocasião, houve certas figuras da política europeia que se prestaram a fazer de figurantes nessa operação de relações públicas. Qualquer dos três figurantes europeus aparecia ali por razões muito próprias e confrontando-se com resistências severas nos seus próprios países. Por exemplo, Robin Cook, o ministro dos Negócios Estrangeiros britânico demitia-se naquele mesmo dia por causa do alinhamento com os Estados Unidos. E a solidariedade recíproca também não imperava: num gesto de humilhação pública para com Durão Barroso a imprensa espanhola referia-se ao encontro como Trío de las Azores, pondo de parte, insultuosamente, o anfitrião português. Passados 20 anos, se, do outro lado do Atlântico, sempre se notou uma certa indulgência para com a conduta de Bush, deste lado nunca se terá perdoado a qualquer dos figurantes: Aznar, Barroso e Blair

16 março 2023

QUANDO AS NOTÍCIAS MEXERIQUEIRAS VINHAM DE LONDRES

16 de Março de 1948. Era preciso ter lido o jornal londrino «Star» (hoje Daily Star) para se ficar a saber do noivado de Carmen, a filha única do Generalíssimo espanhol. Os acontecimentos virão a comprovar a fidedignidade das fontes do jornal inglês, muito embora o casamento só viesse a ter lugar dali por um pouco mais de dois anos, a 10 de Abril de 1950. Mas o que é aqui interessante é ver como este mundo específico da informação mundana era diferente há 75 anos, neste caso concreto quiçá por causa da censura férrea que então vigorava em Espanha. Contudo, hoje seria algo completamente impensável que um acontecimento desta magnitude houvesse escapado à revista espanhola ¡Hola!, a referência europeia das revistas do género.

15 novembro 2022

A DISSOLUÇÃO DAS JUNTAS MILITARES

15 de Novembro de 1922. Estas juntas militares, também conhecidas por juntas de defesa, que há cem anos eram dissolvidas pelas Cortes espanholas «no meio de grandes aclamações» eram uns sindicatos de carácter pretoriano formados pelos oficiais espanhóis, que, para além da actividade sindical em prol dos seus direitos, também intervinham no campo político sob o patrocínio do rei Afonso XIII. A «catastrófica derrota militar» que o exército espanhol sofrera 16 meses antes em Marrocos (22 de Julho de 1921), contribuíra muito para o desprestígio da instituição militar em Espanha. Este era o momento da desforra dos poderes políticos tradicionais. Hoje sabemos que os militares não se iriam deixar ficar: dali por dez meses, a 13 de Setembro de 1923 e ainda com o apoio de Afonso XIII, Miguel Primo de Rivera iria desencadear um golpe de Estado que o tornaria ditador do país.

13 novembro 2022

A SAGA DESPRESTIGIANTE DO AFUNDAMENTO DO PETROLEIRO «PRESTIGE»

13 de Novembro de 2002. Com a eclosão de uma tempestade que o danifica muito seriamente, começa a saga do afundamento de um petroleiro veterano de 26 anos com o nome de «Prestige», um nome muito pouco adequado aos acontecimentos que o irão notabilizar. Trata-se de um navio grande, com 243 metros de comprimento e uma capacidade de carga de 81.600 toneladas, que nesta viagem fatídica está ocupada a 94%. Essa a realidade física mas a questão da sua identificação é todo um programa: o navio está registado e é operado por gregos, mas a sua bandeira é a das Bahamas, a companhia proprietária do navio é liberiana e o cliente, proprietário do combustível que transporta (fuel), é uma petrolífera russa. A tripulação é composta por 27 pessoas. E há precisamente 20 anos, quando navegava ao largo da Galiza, o casco começa a rachar-se e o combustível a sair, causando uma mancha de poluição que o acompanha. E o que se seguirá é uma disputa mais directa entre Espanha e Portugal, mas também outros países opcionais, como a França e o Reino Unido, para bloquearem a aproximação do navio poluidor às suas costas com a consequente maré negra. O «Prestige» acabou por afundar a 19 de Novembro, depois de seis dias de indecisões sobre o que fazer com um petroleiro poluidor que ninguém quer por perto. A fava acabou por sair a Espanha, mais precisamente à Galiza, onde o efeito do derrame e da consequente maré negra foi devastador.

04 novembro 2022

O ASSASSINATO DO GENERAL VICTOR LAGO ROMAN

4 de Novembro de 1982. A ETA assassina em Madrid o general comandante da divisão blindada «Brunete», a mais importante e simbólica unidade do exército espanhol. Havia-se passado unicamente uma semana desde a vitória dos socialistas do PSOE nas eleições legislativas e a organização terrorista basca marcava a agenda política com este atentado, que era uma descarada provocação à instituição militar espanhola, que constituía, com a (muito mais discreta) magistratura, um dos dois pilares mais retrógrados (franquistas) da sociedade espanhola. O alvo fora escolhido pela ETA com toda a precisão. O general Victor Lago Roman, aos 63 anos, constituía um dos últimos verdadeiros veteranos da guerra civil (1936-39) que ainda permanecia no exercício de verdadeiras funções de comando: galego (como Franco), Victor Lago apresentara-se como voluntário no início da guerra, ainda com 17 anos, para, a partir daí, prosseguir uma carreira destacada como oficial que incluía a indispensável presença na divisão Azul, que lutou ao lado dos alemães na frente Leste durante a Segunda Guerra Mundial. A sua pessoa e a sua atitude constituíam um dos últimos símbolos de uma certa arrogância desfasada dos da sua geração, sem quaisquer procedimentos de segurança contra atentados terroristas: viatura sem escolta, ostensivamente assinalada, sem guarda-costas e frases grandiloquentes: «Si vienen por mí, que vengan; no tengo miedo, pero no quiero que muera nadie más». Um herói... e um alvo fácil. Não se sabe quando as cúpulas da ETA decidiram o atentado, mas a sua montagem terá sido simples. Uma moto, dois passageiros armados e um engarrafamento tradicional matinal no centro de Madrid. Só seria uma surpresa para aqueles que se tivessem esquecido que naquela mesma cidade e nove anos antes, a mesma ETA assassinara num outro atentado à bomba contra a viatura que passava, o próprio presidente do Conselho de Ministros espanhol, almirante Carrero Blanco... Mas, ao contrário deste, que parece ter sido accionado do pé para a mão, esse outro atentado dera-lhes muito trabalho a planear... Acessoriamente, este blogue completa hoje 17 anos; para o ano já pode votar...

23 outubro 2022

«QUALIDADE» ESPANHOLA

23 de Outubro de 1972. Se há uma opinião bem precisa que retenho desde a infância é da falta de qualidade, em geral, dos produtos alimentares de origem espanhola. E conhecia-os bem, já que o meu pai era originário de uma região raiana. Conhecia vários produtos que se comercializavam em Espanha que seriam inaceitáveis consumidos cá. Era a consequência de uma política de autarcia industrial imposta pelo regime franquista: ou eles consumiam daquilo que lá era produzido, ou então não consumiam nada. Um caso exemplar daqueles produtos alimentares industriais que só mesmo os espanhóis é que conseguiam consumir, era esta gaseosa (gasosa) La Casera (acima à direita), que era absolutamente imbebível, mas que era comercializada numas muito práticas garrafas vedadas. O resultado é que apareciam lá em casa na esperança que eu bebesse o conteúdo. O conteúdo desaparecia, mas não era por eu o beber... Esta notícia, publicada há 50 anos, anuncia a rejeição de um primeiro lote de leite espanhol que havia sido importado para suprir as carências domésticas. «O leite que veio de Espanha não podia, de forma alguma, passar por bom; leite deste também cá existe e não permitimos que ele seja vendido ao público». Provavelmente nem terei lido a notícia na época, mas esta chancela do técnico da nossa Junta Nacional de Produtos Pecuários representa a validação de tanta gasosa e laranjada que eu havia despejado discretamente para a pia do lava-louças... 50 anos passados, há muitos produtos alimentares de origem espanhola de que gosto mas, ainda hoje, qualquer produto alimentar daquela origem que eu não conheça de antemão, é suspeito até - literalmente - prova em contrário...