24 de Fevereiro de 1949. Dava-se conta da assinatura de um acordo que fazia cessar as hostilidades entre o Egipto e Israel, hostilidades que haviam eclodido entre árabes e judeus com o abandono da Palestina pelos britânicos em Maio de 1948, sem que houvesse qualquer acordo formal quanto ao destino a dar à região. Seguiu-se a primeira guerra israelo-árabe. E este era o acordo, assinado nove meses depois na ilha grega de Rodes, entre o jovem estado de Israel e o mais importante dos quatro beligerantes árabes, o Egipto. Seguir-se-ão acordos equivalentes assinados com os outros países árabes, o Líbano (a 23 de Março), a Jordânia (3 de Abril) e Síria (20 de Julho). O importante é recordar que, já há 75 anos, ficava a impressão para quem lesse a notícia (onde os termos do acordo são detalhados) que os israelitas haviam alcançado um acordo muito favorável. Notoriamente e visto a esta distância, percebe-se que lhes falta assinar um acordo com mais alguém.
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24 fevereiro 2024
08 outubro 2023
A CONTRA OFENSIVA FALHADA DOS ISRAELITAS NO SINAI (GUERRA DO YOM KIPPUR)
8 de Outubro de 1973. Guerra do Yom Kippur. Dois dias depois da ofensiva egípcia, que havia feito as suas tropas atravessar o canal do Suez e penetrar na península do Sinai, as tropas israelitas desencadeiam uma contra-ofensiva, operação que se virá a revelar um fracasso. Concebida como uma manobra táctica que ceifaria por detrás as ligações logísticas das unidades combatentes egípcias (ver o mapa acima), a acção fracassou. Ao contrário do que acontecera em 1967, os egípcios estavam agora muito bem apetrechados e treinados em armamento anti-tanque (AT-3 Sagger e mesmo RPG-7), que neutralizou as concentrações blindadas israelitas que haviam feito o sucesso da Guerra dos Seis Dias.
Nesta contra-ofensiva, os israelitas não só não haviam progredido grande coisa no terreno como, ainda por cima, haviam perdido 73 carros de combate num só dia, número que corresponde a 42% do total inicial de 172 da divisão blindada (e a quase 10% do seu parque total...). Os egípcios, remetidos à defesa, haviam perdido, quanto muito, uma trintena de tanques - e os tanques soviéticos sempre foram de qualidade muito inferior aos ocidentais. Pior: a divisão havia perdido, entre mortos, feridos e capturados, três dos seus nove experientes comandantes de batalhão. A Comissão Agranat irá ser muito severa para com as decisões dos comandantes militares nesta frente do Sinai nesta fase da guerra.
Contudo, tão importantes quanto estes desfechos tácticos, era a conclusão estratégica que o ritmo de desgaste material desta guerra iria obrigar a um envolvimento logístico sério por parte das duas super-potências para reabastecerem os dois lados combatentes (Israel de um lado e Egipto e Síria do outro). Já aqui se mencionou o caso dos Estados Unidos e Israel, que nos envolveu directamente por causa da base das Lajes. Mais discreto foi o caso dos soviéticos e a sua ponte aérea de material de guerra para os países árabes. Mas ela existiu, como se percebe pela passagem abaixo*, em que se nota - já então! - a atitude pró-russa (e anti-americana) da Turquia, apesar de pertencer à NATO!
No total, os Estados Unidos transportaram 22.325 toneladas de equipamentos militares por via aérea a partir de 12 de Outubro de 1973. Os soviéticos entre 12.500 e 15.000 toneladas. Uma boa razão para recordar este episódio de há cinquenta anos é fazer compreender melhor aos eventuais leitores deste blogue quais são os problemas do recompletamento do material de guerra nas fases mais acesas de uma guerra moderna, como a que se trava na Ucrânia**. Compreender como se revela importante, mas também complicado, substituir todo aquele equipamento que é destruído, no caso de se tratar de um país beligerante que não tem meios industriais para o poder substituir àquele ritmo, por si próprio.
* A passagem, assim como o mapa inicial e a avaliação da batalha de 8 de Outubro constam do livro «La Guerre Israélo-Arabe d'Octobre 1973» de Pierre Razoux, Economica 1999 já aqui mencionado.
**Este texto havia sido preparado antes dos ataque do Hamas a Israel. Apesar da belicosidade das declarações do 1º ministro israelita, ainda não se trata bem de uma guerra, pelo menos com as dimensões e gravidade da do Yom Kippur.
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06 outubro 2023
O INÍCIO DA GUERRA DO YOM KIPPUR
(Republicação reescrita em função de novos vídeos)
6 de Outubro de 1973. Neste dia de há cinquenta anos e à hora mais canonicamente improvável para o desencadear de ofensivas militares (14H00), egípcios e sírios, de uma forma simultânea e concertada iniciaram uma ofensiva sobre as posições que os israelitas haviam conquistado seis anos antes durante a Guerra dos Seis Dias. Esta intenção de desforra árabe, deu-se o nome de Guerra do Yom Kippur, em alusão ao feriado religioso judeu que desguarnecia precisamente naquele dia as...
...guarnições das posições defensivas israelitas. Tratou-se tanto de uma guerra convencional (para a descrição detalhada da qual se sugere o livro acima de Pierre Razoux*), como se tratou de uma guerra de propaganda disputada no palco da opinião pública mundial. Desde o princípio que houve a preocupação de encher os noticiários com os sucessos das suas respectivas armas. O Egipto acima, a atravessar o canal do Suez, Israel abaixo, a rechaçar a ofensiva síria.
* É o mesmo Pierre Razoux que, no jornal Le Monde e a propósito desta outra guerra entre o Hamas e Israel, considera agora que «o Hamas está a fazer tudo o que pode para atrair Israel para uma operação terrestre».
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28 dezembro 2022
A OCUPAÇÃO DA EMBAIXADA ISRAELITA NA TAILÂNDIA
28 de Dezembro de 1972. Com o destaque de primeira página que a imagem acima documenta, «quatro guerrilheiros árabes (palestinianos), armados de metralhadoras ligeiras» haviam ocupado «a embaixada israelita em Bangkok, capital da Tailândia» mantendo «como reféns quatro ou cinco diplomatas judeus». Mesmo dispensando o resto dos detalhes, tratava-se de um daqueles acontecimentos que, para o jornalismo puro e duro, prometia grandes cachas jornalísticas. Palestinianos a sequestrar israelitas?! Bastava pensar no que acontecera em Munique apenas há três meses! E contudo, guardado para o dia seguinte estava um desfecho tão surpreendente quanto pacífico. Por iniciativa do embaixador egípcio na Tailândia, que persuadiu os sequestradores palestinianos a desistirem das suas reivindicações enquanto lhes prometia um salvo conduto até ao Cairo, o evento veio a terminar pacificamente no dia seguinte. A surpresa era tanto maior quando, à época, israelitas e egípcios eram inimigos acérrimos. E, num último retoque de inesperado, antes da partida dos palestinianos, os quatro homens armados e cinco diplomatas jantaram juntos dentro da embaixada! Como não morreu ninguém, hoje já ninguém se lembra disto, ao contrário do que aconteceu em Munique. Embora não o confessem, os jornalistas gostam é de sangue porque as histórias com um final feliz nunca dão boas notícias.
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26 novembro 2022
EVOCAÇÃO «ARQUEOLÓGICA» DE UM GRANDE MOMENTO DA ARQUEOLOGIA
26 de Novembro de 1922. O arqueólogo britânico Howard Carter (1874-1939) penetra pela primeira vez no túmulo do faraó egipcio Tutankhamon. Tutankhamon fora um faraó que reinara por nove anos, durante o século XIV a.C. (aproximadamente 3.250 anos antes...) e várias circunstâncias haviam-se conjugado para que o tesouro que fora depositado no seu túmulo não houvesse sido substancialmente pilhado como acontecera com os restante túmulos reais egípcios. O que perdurara no túmulo era de uma riqueza indescritível. Este achado tornou-se a mais espectacular das descobertas arqueológicas de todos os tempos. A máscara mortuária de Tutankhamon, folheada a ouro, tornou-se mesmo a imagem emblemática do Antigo Egipto. E para assinalar o grande momento da arqueologia, creio ser oportuno ir recuperar uma pequena história da arqueologia da BD narrando precisamente a descoberta do tesouro de Tutankhamon e que foi desenhada por Edgar Pierre Jacobs em 1964 no meio das suas pranchas de Blake & Mortimer (as genuínas!...).
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19 setembro 2022
OPERAÇÃO DÂMOCLES
19 de Setembro de 1962. De Munique transcreve-se uma estranha notícia do desaparecimento de dois cientistas alemães (Heinz Krug e Wolfgang Pilz) que estariam associados a projectos para a construção de foguetões de grande porte - derivados da V-2 - para o Egipto. A notícia é dominada pelo que não se sabe - nomeadamente o paradeiro dos desaparecidos e de quem os teria raptado - mas também pela economia na especulação sobre a identidade de quem seriam os principais suspeitos. Afinal, «qualquer país adversário da República Árabe Unida» (como então o Egipto era conhecido), a fórmula encontrada pelo Diário de Lisboa para indiciar os suspeitos, era uma maneira rebuscada e perifrástica de nomear Israel. De facto, este episódio de há sessenta anos, seria apenas um, talvez o primeiro, de tantos outros desencadeados pela Mossad (serviços secretos israelitas), envolvendo raptos e assassinatos (como o de Krug), o envio de encomendas armadilhadas (como acontecerá com Pilz) ou então a intimidação de familiares próximos (como acontecerá com uma filha de um especialista em electrónica chamado Paul-Jens Goercke. Não se sabia então, mas o conjunto de acções foi baptizado em Telavive por Operação Dâmocles, do nome do cortesão grego que experimentou os perigos do exercício do poder com uma espada pendurada por uma crina de cavalo sobre a sua cabeça. Assim era a ameaça que pendia sobre os antigos cientistas do III Reich que estavam a ajudar o Egipto. Contudo, não só certas acções correram mal como, sobretudo, irritaram a Alemanha Ocidental com quem Israel não estava nada interessado naquela altura em dar-se mal: acabara de ser assinado um tratado sobre indemnizações da Alemanha a Israel por causa do Holocausto. Assim, depois de serem incensados pelo rapto e posterior julgamento de Adolf Eichmann, os responsáveis da Mossad vieram a ser demitidos em Março de 1963 pela deficiência de análise e pela inoportunidade da Operação Dâmocles. Coincidência ou não, o pagamento das indemnizações alemãs a Israel só começou a partir daí.
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23 julho 2022
A NOITE DOS «BIKBACHIS»
23 de Julho de 1952. No Egipto tem lugar um golpe de Estado que depõe o regime monárquico. O pronunciamento militar é encabeçado por coronéis («bikbachis»), embora tenha por figura de proa o general Naguib. O verdadeiro líder é o coronel Gamal Abdel Nasser de 34 anos, que o substituirá também nas funções formais da chefia do Egipto dali por dois anos e meio, depois de uma breve luta política. Esta história de BD abaixo, descreve o episódio de há 70 anos numa maneira necessariamente sumária, mas também muito lisonjeira para com Nasser. O regime edificado por Nasser, que veio a morrer em 1970, foi uma ditadura, por muito que tivesse sido encabeçada por um ditador carismático, protegido por uma promoção pública despropositadamente benigna para a sua pessoa.
28 fevereiro 2022
UMA INDEPENDÊNCIA QUASE EM JEITO DE PARTIDA DE CARNAVAL
28 de Janeiro de 1922 foi uma terça-feira de Carnaval. E, muito provavelmente por acaso, foi também o dia escolhido pelo governo britânico - então encabeçado por David Lloyd George - para produzir uma declaração em que concedia unilateralmente a independência ao Egipto, país sobre o qual exercera até aí um protectorado. Aparentemente seria um acontecimento notável, já que em todo o continente africano só existiam então dois países independentes. Contudo, a concessão da independência estava tão associada a restrições à autonomia do Egipto independente que tanto o gesto como a ocasião se tornavam desprovidos de importância. Denominando-os por direitos de reserva, os britânicos reservavam-se, naquela declaração, os direitos de estacionar tropas no Egipto, para o «defender contra qualquer agressão ou interferência estrangeira», e o direito de reclamar prioridade para a movimentação de tropas através do estratégico Canal do Suez. O Reino Unido retinha ainda o direito de proteger os interesses estrangeiros e das minorias europeias no Egipto. Finalmente reservava-se o direito de intervir até na política externa egípcia. Não será por isso surpreendente que o anúncio e a dita independência, coincidente com a data carnavalesca, não tenha sido levado muito a sério. Significativo disso, a notícia só apareceu três dias depois na imprensa portuguesa (acima) e, mesmo assim, o que parece importante noticiar são «as conferências» entre o primeiro-ministro britânico e o governador britânico do Egipto, Edmund Allenby. Uma notícia onde não aparecem egípcios, os tais que deviam estar a celebrar, esfuziantes, a independência recém concedida... Apetece rematar esta evocação com ironia, acrescentando que os egípcios propriamente ditos, nem tinham direito a participar no corso desta independência de Carnaval...
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26 janeiro 2022
O «SÁBADO NEGRO» NO CAIRO
26 de Janeiro de 1952. Ocorreram motins por toda a cidade do Cairo, conhecidos posteriormente pela designação de Sábado Negro (ou em árabe: حريق القاهرة). A sua eclosão costuma ser justificada por um grave incidente ocorrido na cidade de Ismaília (junto ao Canal do Suez) no dia anterior, em que tropas da guarnição britânica de protecção ao Canal se comportaram com uma prepotência inaceitável para com a polícia egípcia, num claro caso de confronto entre as duas soberanias. Do tiroteio entre as duas força teriam resultado 50 mortos entre os egípcios (um número provavelmente muito empolado), mas o sentimento de humilhação dos egípcios, esse era mais do que transparente. Estes distúrbios de há 70 anos, começaram a partir do princípio da tarde do dia seguinte, um Sábado. Caracterizaram-se pelo saque e incêndio de um vastíssimo conjunto de centenas de estabelecimentos comerciais do Cairo que pertenciam a europeus, especialmente britânicos: grandes magazines, hotéis, escritórios, cinemas, cafés, restaurantes, bares e clubes. Como se pode apreciar nas imagens abaixo, quase tudo foi destruído. Mas a selectividade dos alvos e o oportuno desaparecimento das autoridades policiais sugere que a operação havia sido planeada de antemão, embora permaneça até hoje quem foram os responsáveis por o ter desencadeado e com que cumplicidades contaram. Por volta das 23H00 e com imensos incêndios a grassar pela cidade, o motim terminou. Haviam morrido 26 pessoas, entre as quais 9 britânicos, o que, mais uma vez e em função da dimensão dos desastres materiais, sugere que a acção foi orientada para causar um mínimo de desastres pessoais. Também ninguém foi preso. Por causa das circunstâncias descritas, melhor do que o jornal do dia, é o do dia seguinte (acima) que melhor dá conta dos acontecimentos. Por causa destes tempos, em que eles se comportaram como verdadeiros estupores, é que os britânicos mantêm, ainda hoje, uma péssima reputação em muitos países do Médio Oriente (aqui é o Egipto, mas também o Irão, o Iraque ou ainda o Afeganistão), um pormenor histórico que é frequentemente esquecido quando das análises internacionais.
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06 outubro 2021
ASSASSINATO DE ANWAR SADAT
6 de Outubro de 1981. Assassinato do presidente egípcio Anwar Sadat. O acontecimento revestiu-se de uma espectacularidade mediática única, já que ocorreu durante uma parada militar, bem à vista de uma concentração impressionante de meios de imagem - câmaras de televisão, máquinas fotográficas, etc. Quantos às notícias das circunstâncias precisas da sua morte, essas seguem o que está estabelecido para estas ocasiões: os presidentes só morrem (oficialmente) nos hospitais e de preferência quando estavam a ser operados. Acontecera, por exemplo, com John Kennedy nos Estados Unidos (1963), e voltaria a acontecer, por exemplo, com Benazir Bhutto no Paquistão (2007). Também neste aspecto, a política e a ciência convivem muito mal.
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28 setembro 2020
A MORTE DE GAMAL ABDEL NASSER
28 de Setembro de 1970. Subitamente, quando o mundo árabe está mergulhado na crise do «Setembro Negro» (já em vias de conclusão), dá-se a morte inesperada de Gamal Abdel Nasser, o líder carismático desse mundo árabe então dividido pela disputa jordano-palestiniana. Mas, mais do que invocar o episódio, recordo-o. E recordo-o por causa das imagens que a televisão nos fazia chegar do Cairo e do resto do Egipto, de manifestações ostensivas de «pesar e consternação», que eu não podia deixar de comparar com o que acontecera à televisão dois meses antes, por ocasião da morte de Salazar. Essas outras, insuportavelmente soturnas, eu apercebera-me que haviam sido muito forçadas, e estas agora, ainda mais teatrais, faziam-me fermentar ainda mais a dúvida de que aquilo que passava na televisão, mesmo o vindo «lá de fora», era mesmo assim como era mostrado.
Adenda: Décadas depois vim a compreender que algumas daquelas manifestações de dor mais extremadas até podiam ser genuínas, como resultado de sociedades em que a propriedade colectiva dos meios de informação tornara doentes no endeusamento dos governantes. Sociedades que, como bem recordou em certa altura o presidente da Câmara de Loures, suscitavam dúvidas quanto à sua natureza, nomeadamente a de ele não ter a certeza se não seriam democráticas...
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21 julho 2020
A CONCLUSÃO DA BARRAGEM DE ASSUÃO
21 de Julho de 1970. Data em que foi concluída a construção da barragem de Assuão no rio Nilo. Trata-se de uma obra de engenharia respeitável - a construção das infraestruturas durou dez anos, o enchimento total da albufeira demorará ainda mais outros seis - mas é sobretudo um símbolo político do Egipto moderno. Com esta conclusão, o Egipto, que Heródoto considerara uma «dádiva do Nilo», terá subvertido as suas relações de poder com o seu rio. O financiamento para a sua construção, que o Egipto de Nasser solicitou tanto ao Ocidente quanto ao Leste, acabou sendo concedido pelos soviéticos, o que foi causa e consequência de um período histórico em que, também por causa do conflito com Israel, o Egipto se reposicionou em relação àqueles que haviam sido até aí os seus alinhamentos internacionais tradicionais. Por estranho que pareça, esta data da conclusão dos trabalhos, acabou por passar desapercebida no meio de outras cerimónias a que o regime preferiu dar mais relevo, como sejam a do início dos trabalhos em 1960, ou a da visita ao empreendimento feita pelo líder soviético Nikita Khrushchev em 1964. E contudo, havia algo de estranhamente premonitório nesta conclusão técnica da obra há precisamente cinquenta anos: escondido no futuro, anunciava-se para muito breve - dali por escassos dois meses, a 28 de Setembro - a morte inesperada de Gamal Abdel Nasser, aquele que transformara Assuão na obra imponente do seu regime, qual faraó tardio do século XX. Em 16 de Janeiro de 1971, a barragem de Assuão foi oficialmente inaugurada, por Anwar Sadat, sucessor de Nasser e por Nikolai Podgorny, em representação dos capitais russos que a haviam financiado, mas faltava ali alguém...
26 março 2019
AGORA TENTE LÁ DESCOBRIR AS DIFERENÇAS...
26 de Março de 1979. Nos jardins da Casa Branca em Washington, tem lugar a cerimónia da assinatura oficial do Tratado de Paz entre o Egipto e Israel (acima). O presidente dos Estados Unidos de então, Jimmy Carter (1924- ), serve de anfitrião e os signatários são o presidente Anwar Sadat (1918-1981) do Egipto e o primeiro-ministro israelita, Menachen Begin (1913-1992). Em consequência do Tratado, Israel comprometia-se a devolver faseadamente o território egípcio que ocupara durante a Guerra dos Seis Dias em 1967. Nem de propósito, ontem foi a vez do longínquo sucessor de Carter, Donald Trump (1946- ) assinar por sua vez uma declaração reconhecendo oficialmente a soberania israelita sobre os montes Golã, que os israelitas conquistaram à Síria nessa mesma guerra de 1967. Presente com Trump estava o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu (1949- ), mas, naturalmente, não havia nenhum representante sírio... Pelo contraste das suas cerimónias percebe-se com nitidez quanto os Estados Unidos se tornaram agora num actor da cena internacional diferente, perigosamente diferente, porque descaradamente parcial... Ou, como alertava o matemático Ian Malcolm (Jeff Goldblum) no filme Parque Jurássico, a supremacia norte-americana é tão evidente que os protagonistas da Casa Branca parecem ter-se esquecido da distinção ética entre a capacidade de poder fazer algo e a sabedoria de saber se o deve fazer...
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24 setembro 2018
QUANDO AS PARADAS CORREM MAL...
Há qualquer coisa nas imagens da parada militar recentemente atacada no Irão que mas faz associar às cenas de uma outra parada militar acidentada, realizada também no Médio Oriente, no Egipto em 6 de Outubro de 1981 e que culminou com o assassinato de Anwar Sadat (fotografia abaixo, a preto e branco). Porém, na parada do Cairo de há 37 anos, o que se subverteu não foi a demonstração do poder militar. O ataque incidiu sobre as personalidades do palanque, a imagem forte é a das cadeiras derrubadas por aquelas quando da sua fuga, e o que se retém é a ideia da insubmissão de uma facção militar radical ao poder institucional. Mas no caso recente das imagens de Ahvaz, aquilo que ocorreu no palanque é secundário, a força da imagem advém dos soldados estendidos no chão, e é a própria demonstração do poder militar iraniano que se pretendia reforçar com aquela parada que se vê lesada - soldados armados mas sem munições e por isso impotentes para reagir aos atacantes.
12 agosto 2018
OS DOIS MIGS SÍRIOS QUE ATERRARAM POR ENGANO EM ISRAEL
12 de Agosto de 1968. Há cinquenta anos, dois caças Mig-17 da Força Aérea síria aterravam inesperadamente num antigo aeródromo militar no Norte de Israel. Apesar de as autoridades israelitas terem noticiado que se devera a causas acidentais, a explicação foi acolhida com um cepticismo que se justificava por vários precedentes. Em 1962, numa operação de espionagem que correra mal, os israelitas haviam tentado aliciar um piloto egípcio de um Mig-17 a desertar para Israel. A operação correra mal, a rede de espionagem foi denunciada e três agentes acabaram executados. Porém, em 1964, uma operação semelhante foi bem sucedida, quando o capitão Mohammad Abbas Helmy da Força Aérea egípcia desertou com o seu Yak-11 de treino para Israel. O desertor veio a ser executado no Cairo dois anos depois. E em Agosto de 1966, realizara-se uma terceira operação do mesmo género, protagonizada agora pelo capitão Munir Redfa da Força Aérea iraquiana, tendo em vista a obtenção de um caça Mig-21. Perante este historial, percebe-se o cepticismo internacional que acolheu as explicações oficiais de que o a aterragem dos Migs-17 do tenente Walid Adham e do 2º tenente Radfan Rifai, da Força Aérea síria, se devera a erros de navegação. Contudo, os pilotos sírios haviam aparentemente usado mapas datados de 1945, haviam entrado no espaço aéreo libanês, haviam-se desorientado e pensavam estar a aterrar numa base aérea do Líbano, quando estavam a aterrar num aeródromo praticamente desactivado em Israel, numa manhã soalheira (eram 08H45), e sem combustível suficiente para tornar a descolar . Era uma história suficientemente estúpida para ser verosímil. Não abonava nada em favor da preparação da navegação que era ministrada pela Força Aérea síria aos seus quadros, mas os factos posteriores vieram corroborá-la: os dois pilotos permaneceram aprisionados até 1970, aquando da realização de uma troca de prisioneiros entre israelitas e sírios. Acrescente-se que, em Outubro de 1989, um major sírio virá a desertar aos comandos de um Mig-23.
19 fevereiro 2018
O «ENTEBBE» FALHADO DOS COMANDOS EGÍPCIOS
19 de Fevereiro de 1978. O preâmbulo desta história começa por uma daquelas situações de crise tão típicas dos anos da década de 1970: um comando terrorista árabe de dois homens procedera a uma tomada de reféns numa convenção que estava a ter lugar num grande hotel de Nicósia, Chipre. Um dos presentes fora assassinado no assalto, mas outros 16 delegados (árabes) haviam sido feitos reféns. Nas negociações que se haviam seguido com as autoridades cipriotas, os terroristas haviam obtido um avião (o DC-8 das linhas aéreas de Chipre das imagens acima) para os transportar com os reféns para um destino à sua escolha. O problema é que nenhum país vizinho os quis acolher. As imagens acima apanham o DC-8 já de retorno a Nicósia, depois da aterragem lhes ter sido negada em vários destinos. Os terroristas viam-se perante um impasse. Simultaneamente, havia a perspectiva egípcia da questão: se apenas um dos dezasseis reféns era egípcio, o refém que fora assassinado também o era e, para mais, tratava-se de alguém considerado muito próximo do presidente Anwar Sadat. O Egipto estava a assumir um interesse muito especial no assunto, Sadat telefonara ao seu homólogo Spyros Kyprianou que lhe assegurara que iria supervisionar pessoalmente a gestão da crise dos reféns. Ao mesmo tempo, os egípcios enviaram um comando especial a bordo de um avião militar C-130 para Chipre, para a eventualidade de um assalto ao aparelho usado pelos terroristas. Recorde-se que o resgate de aviões sequestrados estava então na moda, uma moda que fora criada em 1976 pelos israelitas, com a operação no aeroporto de Entebbe, no Uganda, a que se seguiu em 1977 uma operação semelhante protagonizada pelos alemães em Mogadishu, na Somália. Apresentava-se uma excelente ocasião para os egípcios emularem os seus rivais israelitas. Só que, quiçá para beneficiarem mais completamente do efeito surpresa, os membros do comando egípcio não se coordenaram minimamente com o dispositivo militar que os cipriotas tinham disposto ao redor do DC-8. Por outro lado, os militares de Chipre tinham os seus próprios problemas de amor próprio depois de em 1974 terem visto a sua ilha a ser invadida pelas tropas turcas (que ocupavam - e ainda ocupam - o norte de Chipre). Só cá faltava aparecer uma outra grande potência muçulmana a operar em Chipre discricionariamente. A reacção dos cipriotas à tentativa de assalto não autorizada dos egípcios foi feroz, com uma potência de fogo com que os egípcios não estavam a contar. Os combates terão demorado cerca de uma hora, neles terão morrido quinze membros do comando, assim como a tripulação do C-130 que os havia transportado (destruído com um míssil anti-tanque!) e pelo menos uma dúzia adicional de comandos terão ficado feridos, assim como um número não divulgado de cipriotas. O Egipto assumiu o papel de parte ofendida, rompeu as relações diplomáticas com Chipre, mas o desenrolar dos acontecimentos veio dar toda a razão aos cipriotas, é um daqueles casos de política internacional em que as culpas nem se conseguem repartir. Os dois terroristas palestinianos da FPLP, sentindo-se encurralados, já então estavam em vias de se render: ainda naquele dia foram presos e posteriormente extraditados - apesar de tudo - para o Egipto, que manifestou interesse em os julgar, onde foram condenados a prisão perpétua. As relações egipto-cipriotas demoraram mais de três anos e meio a serem reatadas. Mas, como assinalavam logo os jornais da época (abaixo), era impossível não perceber o que teria motivado (desastradamente) os egípcios: a vaidade de também terem a sua operação de Entebbe («Vanitas vanitatum et omnia vanitas»)
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01 fevereiro 2018
O PAN-ARABISMO
1 de Fevereiro de 1958. O Egipto e a Síria proclamavam a sua união numa nova entidade política designada por República Árabe Unida. O ideal da unificação dos países árabes sob a égide de Nasser soava extremamente apelativo para as suas populações: a fusão fora votada favoravelmente por 92% dos sírios e nas monarquias adjacentes (Arábia Saudita, Iraque ou Jordânia) vacilava-se nas adesões, diante do chamamento romântico à reconstrução daquele que fora o império do século XII de Saladino (mapa abaixo). Os novos cruzados do século XX eram, evidentemente, os israelitas, que, 770 anos depois, havia que expulsar novamente de Jerusalém e da Terra Santa. Contudo, rara é a História que se reescreve. Neste caso, as elites sírias rapidamente se viram subjugadas aos interesses superiores do Egipto e a ressentir-se com isso. A 28 de Setembro de 1961 um golpe de Estado na Síria pôs fim à breve experiência. É importante notar que a religião islâmica desempenhou um papel muito secundário nesta efervescência pan-árabe de há sessenta anos.
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26 novembro 2017
E SE A ATENÇÃO DEDICADA AOS MORTOS DO SINAI NÃO FOR ESCASSA? SE FOR A ATENÇÃO DEDICADA AOS MORTOS DE MANCHESTER QUE É EXCESSIVA?
A 22 de Maio de 2017 houve um ataque terrorista durante um concerto em Manchester do qual resultaram 23 mortos e 116 feridos. A imagem acima mostra a informação ainda hoje disponível a esse respeito nas páginas do Jornal de Notícias. A 24 de Novembro do mesmo ano, seis meses depois, houve um outro ataque terrorista durante as orações a uma mesquita no Sinai, do qual resultaram 305 mortos e mais de 128 feridos (os números ainda estão em actualização). E a imagem abaixo mostra a informação até agora disponível no mesmo Jornal de Notícias, sobre esse outro atentado. Sobre a comparação destas duas imagens, um princípio salutar será o de abandonar a ingenuidade de esperar que houvesse um tratamento noticioso equilibrado dos dois acontecimentos:
Manchester fica no Reino Unido e o Sinai é no Egipto. E a verdade cruel (mas correntemente invocada) é que os mortos de Manchester, independentemente do seu número, são muito mais importantes para a comunicação social ocidental do que os mortos do Sinai. Aceite-se isso. Mas será que essa mesma verdade cruel não justificará que possa estar a haver uma enorme desproporção na cobertura noticiosa? Ou seja, se tomarmos o desinteresse relativo pelos 305 mortos do Sinai por referência, não será possível que haja uma saturação mediática e emocional com os ataques terroristas no Ocidente? E que as audiências prescindam perfeitamente da maioria das dúzias de notícias irrelevantes mais acima, quando se podem satisfazer com apenas duas (ainda incompletas) no caso egipcio?
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08 agosto 2017
POR ASSOCIAÇÃO DE IDEIAS...
...a pirâmide de Miquerinos deve ser assim como uma espécie de versão em massa fina do conjunto que é conhecido pelas pirâmides de Gizé.
27 junho 2017
ASTÉRIX E CLEÓPATRA (11)
Costuma falar-se da antiguidade das profissões e esta passagem da aventura mostra que os agitadores sindicais, aqueles que promovem as justas lutas dos trabalhadores, já existirão desde tempos muito antigos - a sério, a documentação mais antiga referente a uma greve no Egipto data mesmo do século XII a.C. E o facto de a greve (esta, a figurada e não a que ocorreu no reinado do faraó Ramsés III) ter sido promovida por Amonbofis, o inimigo e rival de Numerobis, consagra a impressão que: a) é relativamente fácil manipular algumas classes de trabalhadores; b) o interesse dos trabalhadores é o que, no fundo, menos interessa ao promotor da agitação laboral.
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