Por ordem do presidente cazaque Nursultan Nazarbaev, e porque o processo já fora previamente anunciado, procede-se à transferência efectiva da capital do Cazaquistão da cidade de Almaty para a cidade de Aqmola, rebaptizada de Astana. Como se percebe pelo mapa acima, a antiga capital dos tempos soviéticos (quando era conhecida à russa, por Alma-Ata), ficava localizada perigosamente próxima de fronteiras com outras antigas repúblicas soviéticas, uma exposição que é um paradoxo num país tão extenso, com 2.724.900 km². Este é um daqueles exemplos das pouco publicitadas alterações suscitadas pela desagregação da União Soviética.
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06 maio 2023
24 outubro 2020
A CATÁSTROFE DE NEDELIN
24 de Outubro de 1960. Ocorre no Cazaquistão um dos mais graves desastres da história da astronáutica. Quando uma equipa de cientistas soviéticos procedia ao ensaio do foguetão R-16 - que viria a ser o seu primeiro míssil balístico intercontinental (ICBM) - este explode inesperadamente ainda na rampa de lançamento. Tão impressionante quanto as imagens e a magnitude do desastre - que pode ser visto no vídeo abaixo - foi o véu de silêncio que se abateu à sua volta. Oficialmente, foi preciso chegar à era de Gorbachev, quase 30 anos depois, para que alguns dos factos vieram a ser reconhecidos. O número de vítimas mortais nunca veio a ser estabelecido com precisão - entre 60 e 150 mortos e um número indeterminado de feridos com queimaduras. Uma grande maioria das vítimas eram quadros técnicos qualificados. Num gesto merecido, o acidente é hoje conhecido pelo nome do oficial general responsável pelo programa que, tendo sido uma das vítimas da explosão, foi também o responsável máximo por ela ter acontecido, ao forçar o ritmo dos ensaios e negligenciando com isso vários aspectos de segurança que estiveram por detrás da catástrofe.
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24 junho 2019
«GLASNOST»
24 de Junho de 1989. A União Soviética de Gorbachev não se distinguia da que a antecedera, da de Brejnev e Andropov, apenas pela questão da Perestroika (Reestruturação), porque a distinção, para quem viveu a época, se constatava sobretudo pela Glasnost (Transparência), de que as notícias acima de há trinta anos são um excelente exemplo. A União Soviética era um país como os outros, onde também existiam (como seria de esperar!) tensões sociais e étnicas. Neste caso, o relato envolve as tensões nas regiões sob domínio colonial da Ásia Central. Mesmo abandonando a nomenclatura colonial, chamando-as de republicas e sob a ficção de que permaneciam voluntariamente ligadas ao império russo, a verdade é que - como se constatava com a Glasnost - o comunismo nunca chegara a alterar o estatuto subalterno das populações daquela região, desde os tempos em que o império predecessor, o do czar, as havia conquistado. E elas reagiam mal. Mas a admissão de que esses problemas existiam, para mais quando admitidas pelo próprio Pravda, o jornal oficial do PCUS, tornavam-se num enorme embaraço para todas as estruturas comunistas obedientes a Moscovo (incluindo os jornais dos partidos satélites) que haviam passado as décadas anteriores elogiando acriticamente e omitindo compulsoriamente aquilo que de negativo lá acontecia.
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20 março 2019
AS ESTRANHAS DECORAÇÕES QUE OS CATAVENTOS DA POLÍTICA PODEM TER
Os observadores da actualidade internacional que se surpreendem com acontecimentos em sítios inóspitos e exóticos (como é o meu caso e o do Nuno Rogeiro), foram surpreendidos com o anúncio (acima) da resignação do presidente Nursultan Nazarbaev do Cazaquistão. Compreende-se. Com um passado de vinte e sete anos e meio de poder ininterrupto, ainda recentemente (Abril de 2015) reconduzido por 97,7% dos votos numa eleição onde participaram 95,1% dos seus concidadãos, Nazarbaev parecia ser o exemplo acabado do estadista indispensável para o seu país até à hora da morte. Ora, como eu já escrevi aqui no Herdeiro de Aécio há uns anos, dá-se a coincidência curiosa que, no Cazaquistão e como acontecia em Angola, a filha do presidente é uma pessoa extremamente rica, quiçá entre as mais ricas do país: a Isabel dos Santos cazaque chama-se Dinara Kulibaeva. Ou seja, não é bem uma coincidência: são duas vezes duas coincidências, quatro coincidências no total, o que é mesmo muita coincidência para países que transitaram para o capitalismo vindos do marxismo-leninismo. Mas adiante. O que nos interessa agora é verificar se aquilo que já aprendemos com Angola e com o que aconteceu à capacidade empresarial perdida de Isabel dos Santos depois do pai abandonar o cargo, se pode replicar futuramente naquele país das estepes com Dinara Kulibaeva. É uma forma rebuscada, mas que julgo segura, de seguir os acontecimentos. Se Dinara perder subitamente o jeito para os negócios, a coincidência (outra!) poderá ser interpretada como uma perda do controle do aparelho político por parte de seu pai. Os cataventos que mostram a direcção e sentido para onde eles sopram, sempre foram conhecidos por poderem ter decorações bem estranhas...
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13 outubro 2018
A DERRADEIRA CAMPANHA DE RUSSIFICAÇÃO DA UNIÃO SOVIÉTICA
13 de Outubro de 1978. O conselho de ministros da União Soviética aprova um decreto acentuando o recurso ao emprego do idioma russo tanto na educação como em muitos outros aspectos da vida quotidiana. Dado o carácter sensível do assunto, por causa da diversidade das nacionalidades da União e da carga histórica negativa das medidas para a imposição do russo, que haviam estado associadas aos tempos autocráticos do czarismo, a notificação do documento, vindo de Moscovo para as capitais das restantes catorze repúblicas que compunham a URSS, seguiu um protocolo de distribuição paralelo ao oficial, entregue em mão aos responsáveis locais de cada república pela educação, para que estes o consultassem e ficassem cientes do seu conteúdo mas sem deixar rasto documental, evitando a possibilidade que o documento fosse copiado e publicitado. No aspecto, as iniciativas que posteriormente se viessem a adoptar para a russificação do ensino pareceriam ter nascido concertadamente nas repúblicas sem que tivesse havido instruções expressas de Moscovo para o fazer. Em Outubro de 1977, um ano antes, a URSS aprovara uma nova constituição (é esse o sentido da exortação da fotografia acima - por muito que ela não faça sentido afixada num cabeleireiro - e o autor da fotografia é Igor Gavrilov), e esta campanha vocacionada para acelerar a russificação do império soviético enquadra-se nesse esforço para o transformar numa entidade organicamente mais homogénea,...
...embora acautelando que não se perdesse a imagem obrigatória da pluralidade de nacionalidades que compunham a União (acima - uma espécie de bilhete postal). Dali por sete meses, em finais de Maio de 1979, cerca de um milhar de pessoas ligadas ao ensino e difusão do russo ir-se-ão encontrar num congresso que se realizará em Tashkent, capital do Uzbequistão. Para além dos tradicionais burocratas, esta reunião virá a ser abrilhantada com a presença de figuras gradas dos partidos comunistas das repúblicas, como S. N. Imashev do Cazaquistão, L. K. Shepetis da Lituânia, K. N. Kulmatov da Quirguízia, G. B. Bobosadykova do Tadjiquistão ou M. M. Mollaeva do Turquemenistão. Mas, mais significativa que essas presenças será a mensagem endereçada pelo próprio Leonid I. Brejnev, lida no início dos trabalhos:
«Sob a égide do Socialismo desenvolvido, quando a economia do nosso país se transformou num único sistema económico e quando emergiu uma nova entidade histórica - o Povo Soviético, existe objectiva e necessariamente um papel crescente para a língua russa como idioma de comunicação internacional no edifício do Comunismo, na educação do Homem Novo. Em conjunto com o do seu próprio idioma, o emprego fluente do russo, que foi aceite como herança histórica comum por todo o povo soviético, facilitará a futura estabilização da unidade política económica e espiritual do povo soviético. (...)»
Depois do desmembramento da URSS, uma das formas das antigas repúblicas soviéticas fugirem à influência de Moscovo foi passar a privilegiar o inglês como língua de comunicação internacional, como acontece nomeadamente hoje com as três repúblicas bálticas.
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07 outubro 2013
A OUTRA FILHINHA DE PAPAI
A senhora de colar de pérolas da fotografia acima chama-se Dinara Kulibaeva. Tem 46 anos, é filha do presidente do Cazaquistão Nursultan Nazarbaev e a sua fortuna pessoal está estimada pela revista Forbes em 1,3 mil milhões de dólares. A constituição dessa fortuna está rodeada de umas suspeitas tão fundamentadas quanto a de uma outra filha-de-presidente-tornada-multimilionária que nos é bastante mais familiar: a angolana Isabel dos Santos. As semelhanças entre as duas são múltiplas: os seus respectivos países de origem são extensos, ricos em matérias-primas (nomeadamente petróleo), mas as suas populações são comparativamente pobres e a distribuição da riqueza assaz assimétrica. O pai de Dinara está há 22 anos no poder, o de Isabel há 34 anos. Duas democracias consolidadas, portanto. Isabel é mais rica mas a diferença mais significativa. será que Dinara se move por entre os meios sórdidos dos multimilionários de reputação duvidosa aparecidos com a decomposição da antiga União Soviética enquanto Isabel – ironicamente nascida em Baku no Azerbaijão… – tem vindo a adquirir posições entre os meios muito mais respeitáveis do capitalismo ocidental. É à respeitabilidade destes últimos que se devem os recentes artigos aparecidos na imprensa internacional dedicados à arrivista angolana enquanto os eventuais pecados da cazaque os parecem deixar – e à imprensa internacional – perfeitamente indiferentes.
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24 novembro 2011
O ÚNICO CENSO RUSSO DA ERA IMPERIAL
A música para ir acompanhando a leitura é do compositor russo Modest Mussorgsky (1839-1881): Quadros duma Exposição (1874)
Apenas através deste artifício o Império Russo podia apresentar a imagem de um núcleo central maioritário eslavo de religião ortodoxa constituído por ⅔ da população. Com o resto da população eslava não se podia contar: havia 7,9 milhões de polacos (6,3%) de confissão católica romana concentrados num Reino da Polónia de que o Czar era o monarca e que fora criado em 1815 (ver mapa acima). Mas a história dessa Polónia dual ao longo do Século XIX era a de um sucesso económico (Varsóvia era a terceira cidade do Império depois de São Petersburgo e de Moscovo) mas de uma contínua instabilidade política onde as revoltas polacas (1830, 1863) eram seguidas por ferozes repressões russas. Um outro grupo importante na Polónia e também nas regiões ocidentais do Império era o dos judeus: havia 5,1 milhões de falantes de ídiche (4,0%), um idioma germânico que se escreve em alfabeto hebreu. A importância da comunidade era acrescida pela sua sobre-representação entre a população urbana. Por exemplo, numa cidade como Brest, hoje localizada na fronteira entre a Polónia e a Bielorrússia, os judeus constituíam ⅔ da população de 45.000 habitantes. Seria, a par dos polacos, finlandeses ou alemães, uma das nacionalidades mais evoluídas mas também uma das que mostraria uma maior resistência àquilo que as autoridades imperiais qualificariam como assimilação…
Contudo, havia outros grupos nacionais a Ocidente com histórias de sucesso na sua integração sem assimilação no quadro imperial: a Finlândia, que era um Grão-Ducado que gozava de uma ampla autonomia, era um desses casos (os finlandeses eram 2,5 milhões – 2,0%). E embora com muito menos autonomia, algo de semelhante acontecia na região do Báltico, onde as populações estónias (1,0 milhão), letãs (1,4 milhão) e lituanas (1,6 milhão), ou seja cerca de 3,2% da população total, eram controladas por uma elite de ascendência alemã (que constituíam 1,8 milhão em todo o Império – 1,4%), uma das mais fiéis a São Petersburgo, uma ironia dada a história futura da relação entre alemães e russos. Essas eram as fronteiras pacíficas do Império Russo. As outras eram regiões de expansão, turbulentas como as populações que nelas habitavam. Na que confinava com os Balcãs, onde as potências rivais haviam incentivado a criação da Roménia de língua latina (1878) para obstar à expansão dos russos para as regiões dos eslavos no Sul da Europa, existia, apesar disso, uma minoria (1,1 milhão – 0,9%) que falava o romeno. Outras fronteiras meridionais da Rússia eram povoadas por uma confederação de nacionalidades que o Censo classificou demasiado genericamente de Turco-Tártara, que se estendia do Mar Negro ao Pacífico, composta por 13, 4 milhões de pessoas (10,6%).
Uma apreciável parte deles eram descendentes de tribos nómadas que, sob a bandeira mongol, haviam conquistado a Rússia no Século XIII e muitos continuavam os hábitos nómadas de outrora (acima), embora houvesse outros que haviam assentado (abaixo). Porém, quase todos professavam o Islão, que era a religião de 13,9 milhões dos súbditos do czar (11,1%). A maior concentração de muçulmanos localizava-se na Ásia Central (7,7 milhões), onde a administração russa funcionava segundo um modelo colonial clássico. Os soviéticos reorganizaram depois a região nas cinco repúblicas que são as que hoje perduram: Cazaquistão, Uzbequistão, Turquemenistão, Tajiquistão e Quirguízia. Uma segunda região muçulmana, que começara a ser integrada no Império já a partir de meados do Século XVII, estendia-se desde a Península da Crimeia até ao curso inferior do Rio Volga. Ao contrário da Ásia Central, neste caso a imigração dos russos alterara o panorama demográfico, fazendo com que a população muçulmana fosse significativa mas não predominante. Exemplo: ainda hoje há quase tantos russos quanto tártaros no Tartaristão. Finalmente havia uma terceira região de predomínio muçulmano: o Cáucaso. A região é célebre pela complexidade do seu relevo que interfere na distribuição e classificação das suas etnias que desafia as descrições simplificadas que se tentem conceber...
Contornando isso, há que referir que, apesar do carácter tradicionalmente combativo dos povos do Cáucaso que muitos problemas militares causara, o Império Russo contava ali com dois aliados sólidos, tanto os georgianos (1,4 milhões – 1,1%) como os arménios (1,2 milhões – 1,0%) eram povos de confissão cristã numa região que lhes era francamente hostil: já houvera príncipes georgianos a comandar exércitos russos contra Napoleão e, quanto ao futuro, Stalin, quase todos o saberão, era georgiano. O Censo de 1897, mau grado a manipulação a que foi sujeito, foi um instrumento único na identificação das minorias relevantes dentro do Império Russo. Dá para perceber que, como regra geral, o tratamento dado por São Petersburgo a cada minoria variava em função, não apenas da cumplicidade recíproca entre minoria e poder central, mas também na razão inversa da sua sofisticação cultural: quando maior esta, também maior era a hostilidade imperial. Mas, com essa notável excepção dos polacos, cuja direcção política clandestina nunca se terá disposto a reivindicar nada menos que a independência total, há que reconhecer que em 1897 a questão das nacionalidades ainda não seria um problema sério para a subsistência do Império. A Revolução de 1905, que irá ter lugar dali por oito anos, abanando o regime, deverá ser analisada sobretudo – senão exclusivamente – pela sua componente social.
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