21 de Setembro de 1939. Os «Guardas de Ferro», organização fascista romena promove um atentado em que morre o primeiro-ministro da Roménia, Armand Călinescu. A iniciativa parece ter tido o aval encorajador dos alemães e a anuência passiva dos russos. Se bem que o panorama noticioso esteja então dominado pelos acontecimentos da Segunda Guerra Mundial, nomeadamente o vergonhoso conluio entre nazis e comunistas para a ocupação e desmembramento da Polónia vencida (acima, a azul), mesmo assim as páginas centrais do Diário de Lisboa dão amplo desenvolvimento ao assunto (a amarelo), mormente as proclamações que se fazem nestas circunstâncias, de que o assassinato de um homem não irá afectar a política externa do país que dirigia. Era só conversa. Fruto da situação militar mas também consequência intimidatória do assassinato, a parceria que a Roménia formara com a Polónia e as suas simpatias para com os aliados ocidentais desapareceram, como se constatava facilmente nas páginas do próprio jornal: bastava comparar aquilo que se escrevera a respeito da Roménia no dia imediatamente antes ao do assassinato de Călinescu (abaixo, à esquerda) e no dia imediatamente depois.
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21 setembro 2019
23 agosto 2019
A DEFECÇÃO DA ROMÉNIA
23 de Agosto de 1944. Numa típica manobra de camarilha de corte, o ditador romeno Ion Antonescu (1882-1946) é preso depois de ter sido convocado para uma audiência com o rei Miguel I (1921-2017). A intriga é uma repetição quase integral do que acontecera no Verão do ano anterior em Itália com Mussolini e o rei Vítor Manuel III. A grande diferença é o ritmo a que os acontecimentos se precipitaram depois da deposição de Antonescu, todas aquelas vénias e mesuras que perduraram por mais de um mês entre a Itália prestes a desertar e a sua aliada Alemanha, no caso da Roménia duraram... um dia. Do Verão de 1943 para o de 1944, a posição estratégica global da Alemanha degradara-se tanto que o menor dos problemas seria o de acautelar a provável reacção encrespada de Adolf Hitler.
Estas monarquias balcânicas e mediterrânicas haviam aceitado aquelas figuras ditatoriais enquanto elas haviam sido benéficas para o prestígio próprio e do país, mas agora constatavam que a aposta se viera a revelar a errada com a chegada dos reversos da guerra: como a Itália em 1943 o fora pelos Aliados, também a Roménia se via agora na contingência de ser invadida, pelos soviéticos. Como previsto, as irritações de Hitler, que mandou a Luftwaffe bombardear o palácio real em Bucareste, trouxeram a indignação popular e a consistência moral a uma manobra diplomática duvidosa. Na sua alocução radiofónica ao povo romeno, em que anunciava a assinatura de um armistício com os Aliados (na realidade, só os soviéticos é que tinham importância...), o rei Miguel I anunciava:
Romenos,
Na hora mais difícil de nossa história, considerei, em total concordância com o meu povo, que há apenas um caminho para salvar o país de uma catástrofe total: a nossa saída da aliança com as potências do Eixo e o fim imediato da guerra com as Nações Unidas.(...) O novo governo marca o início de uma nova era em que os direitos e liberdades de todos os cidadãos do país são garantidos e serão respeitados. (...)
Esta última parte, era aquilo que o rei Miguel até podia desejar, mas não podia prometer. Na verdade, o futuro virá a demonstrar que se tratava da troca de uma ditadura por outra. Durante os 45 anos que se seguirão, o dia 23 de Agosto vai ser o feriado nacional do regime comunista.
Na fotografia inicial o rei Miguel I é apresentado a generais soviéticos. Na seguinte, Miguel e Antonescu. A imagem de baixo é a notícia do acontecimento no Diário de Lisboa mas que foi publicada apenas do dia seguinte porque as atenções mediáticas estavam concentradas na libertação de Paris.
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02 agosto 2019
A PRIMEIRA VISITA DE UM PRESIDENTE AMERICANO A UM PAÍS COMUNISTA
2 de Agosto de 1969. O presidente Richard Nixon inicia uma visita de 27 horas à Roménia. Trata-se da primeira visita de um presidente norte-americano a um país comunista. A escolha da Roménia não fora inocente. O presidente Nicolau Ceauşescu distinguira-se um ano antes dos seus aliados do Pacto de Varsóvia ao não participar na invasão da Checoslováquia no Verão de 1968 e a atitude fora suficientemente apreciada em Washington para que o país recebesse agora esta distinção especial da visita de um presidente americano. Acima, uma reportagem do acontecimento com a curiosidade de a vermos (embora sem a compreendermos...) da perspectiva romena. Claro que há que tomar em conta que isto aconteceu há cinquenta anos, quando as viagens presidenciais eram bem mais raras, e quando a visita de um presidente americano era acolhida de bom grado porque tinha significado diplomático.
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14 maio 2018
A CRIAÇÃO DO PACTO DE VARSÓVIA
14 de Maio de 1955. Assinatura da acta de fundação do Tratado de Amizade, Cooperação e Assistência Mútua que teve lugar em Varsóvia (acima) e de onde a organização recolheu o nome pelo qual ficou mais conhecida no Ocidente: Pacto de Varsóvia. Foram oito os países signatários: Albânia, Alemanha Oriental, Bulgária, Checoslováquia, Hungria, Polónia, Roménia e União Soviética. Nesta altura a NATO, fundada em Abril de 1949, já tinha cinco anos e fora muito recentemente reforçada (9 de Maio de 1955) com a adesão da Alemanha Federal, acontecimento que servia, aliás, de pretexto para a constituição do Pacto de Varsóvia. O Tratado era composto por um preâmbulo e 11 artigos e entrará em vigor a 4 de Junho seguinte, depois de rapidamente ratificado pelos oito países signatários. A União Soviética hegemoniza o conjunto mas não deixa de ser significativo da importância distinta dos países constituintes que as versões oficiais do Tratado sejam redigidas em quatro idiomas: russo, polaco, checo e alemão. Como quase todos os documentos formais dos países comunistas (a começar pelas Constituições...), também este era imaculado quanto à redacção dos princípios - a começar pela não interferência nos assuntos internos dos países aliados - princípios esses que eram tranquilamente pisoteados quando a realidade os punha em teste.
Neste caso concreto do Pacto de Varsóvia foi só preciso esperar um ano. Em 1956 o governo húngaro anunciou a sua intenção de querer sair do Pacto e adquirir um estatuto de neutralidade à semelhança do que acontecia com a Áustria: a Hungria foi invadida pela União Soviética. Em 1961 foi a Albânia que, na sequência da cisão sino-soviética e tendo alinhado com os primeiros, abandonou na prática a organização: ter-lhe-á valido que, ao invés do que acontecera com a Hungria e do que acontecerá com a Checoslováquia, a Albânia não tivesse quaisquer fronteiras terrestres com os seus «aliados» por onde estes poderiam fazer-lhe uma visita. Em 1968, a invasão foi contra a Checoslováquia e, dessa vez, para que a União Soviética não ficasse isolada com as culpas, as suas tropas vieram acompanhadas de contingentes alemães orientais, búlgaros, húngaros e polacos para enfeitar. A Albânia aproveitou a pouca vergonha para abandonar formalmente o tal Tratado de Amizade em que a amizade tinha estas formas bem estranhas de se exprimir e cuja formatação teórica acabou por se ver expressa na Doutrina Brejnev: a autorização para que a União Soviética interviesse militarmente nos países sob a sua alçada que ela considerasse em riscos de a desertar.
De 1955 a 1968, o Pacto de Varsóvia tomou assim cerca de uma dúzia de anos para que finalmente se assumisse, em vez de uma pretensa aliança formal para a defesa de uma eventual ameaça militar do Ocidente capitalista, como uma aliança de cariz policial (uma polícia de intervenção) para disciplinar os países membros em caso de deriva indisciplinada. Mais outra dúzia de anos transcorridos e, no caso polaco de 1980/81, o padrão já se estabelecera e a seriedade da ameaça já terá sido suficiente para que os próprios polacos se auto-reprimissem. O Pacto de Varsóvia veio a durar 36 anos (1955-1991) e, nesse último terço da sua existência, ao longo da década de 1980, revelou-se mais perturbador a existência de um Mikhail Gorbachev em Moscovo do que a aparição de reformadores nas capitais das periferias a que valesse a pena exprimir a amizade, a cooperação e a assistência mútua através do envio de carros de combate para passear nas avenidas dessas capitais do Leste da Europa. Se não tivesse sido extinto a 1 de Julho de 1991, o Pacto de Varsóvia completaria hoje 63 anos. O que dela resta são expressões de Ostalgie e aparentados, como esta caixa de soldadinhos para pintar.
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07 maio 2018
O TRATADO QUE NÃO VALEU
7 de Maio de 1918. Em Bucareste, no palácio real de Cotroceni, pelas 11H00 da manhã e com toda a formalidade, uma Roménia humilhadamente vencida assinava um Tratado que era uma rendição aos interesses dos Impérios Centrais. Na fotografia acima, vê-se o primeiro-ministro romeno de então, Alexandru Maghiloman, a assinar o documento de capitulação e no mapa abaixo, vêem-se as cedências territoriais a que a Roménia se comprometia. Valha a verdade que a maior parte do país já há meses que estava militarmente ocupado por alemães, austro-húngaros e búlgaros. Outra cláusula humilhante é que a Roménia se comprometia a ceder à Alemanha a exploração dos seus campos petrolíferos por 90 anos (até 2008!). Considerada a sua impotência, o instrumento diplomático de que a Roménia se serviu foi o de deixar a formalização do assunto arrastar-se o mais possível. A obrigatória ratificação do Tratado pelo parlamento romeno tomou-lhes quase dois meses, até Julho de 1918, quando o curso da guerra já se tornara claramente desvantajoso para os alemães e seus aliados. E depois foi ao rei Fernando I da Roménia (por sinal, alemão de origem, e, por curiosidade, neto da rainha Maria II de Portugal) que incumbiu a tarefa de se esquecer de lhe apor a assinatura final. Foi graças a estes expedientes que dali por seis meses, em Novembro de 1918, por ocasião do Armistício, a Roménia conseguiu argumentar que a sua rendição ainda não fora burocraticamente validada, e transferir-se, com um golpe de rins, para o lado dos vencedores. Também em política externa não há moral.
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31 março 2018
A OFENSIVA DIPLOMÁTICA DO III REICH NA PRIMAVERA DE 1943
31 de Março de 1943. Adolf Hitler recebe o rei Bóris III da Bulgária (acima). Essa vai ser a primeira visita de um dos seus aliados europeus, na ofensiva diplomática que o III Reich irá desencadear na Primavera de há 75 anos, exibindo um bloco coeso de parceiros. Os ventos da Guerra mostravam-se agora potencialmente adversos para as armas alemãs e, para além de Bóris, ao longo do mês que se seguirá, Hitler ir-se-á encontrar com o duce Benito Mussolini de Itália (7 de Abril), com o conducator Ion Antonescu da Roménia (14 de Abril), com o regente Miklós Horthy da Hungria (16 de Abril), com monsenhor Jozef Tiso da Eslováquia (23 de Abril), com o poglavnik Ante Pavelić da Croácia (27 de Abril) e, finalmente, com o chefe do governo do Estado francês, Pierre Laval (29 de Abril). Os resultados podiam parecer ressonantes, se se acreditasse naquilo que as máquinas de propaganda então produziam (abaixo), mas a intuição geral da esmagadora maioria dos observadores apontava para que as vantagens iam agora todas para o lado dos Aliados.
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26 janeiro 2018
O CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE NICOLAE CEAUSESCU
26 de Janeiro de 1918. Data do nascimento de Nicolae Ceausescu numa Roménia que estava então completamente ocupada pelos alemães. Se, quando dos seus grandes dias no poder, a data de hoje era assinalada com toda a solenidade (acima, um selo postal emitido em 1988 por ocasião dos seus 70 anos), é pertinente perguntarmo-nos o que o actual governo romeno terá previsto para assinalar o centenário daquele antigo ditador do país... Se calhar, será precisamente o mesmo que (não) terá feito o governo de Cavaco Silva quando do centenário do nascimento de Salazar a 28 de Abril de 1989. Nada. Sobre esse aspecto a consistência da demarcação dos poderes actuais a respeito dessas ditaduras do passado não parece criticável. Pelo contrário, para os comunistas e muitas vezes tratando-se também de uma questão de gratidão (abaixo), há sempre dois pesos e duas medidas, há aqueles ditadores que, com as suas ditaduras reprimiram, prenderam, julgaram e encarceraram, mas fizeram-no melhor do que as outras ditaduras...
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30 abril 2017
A SÉRIE DE SUCESSO DA BBC
Este livro foi traduzido e editado em 2009 pela Bertrand para complementar o que seria uma série de sucesso da BBC (como se pode ler naquele selinho azul), série essa que provavelmente viria a ser transmitida por cá. Se o foi, em três episódios com a duração de uma hora cada, confesso que nem dei pela sua transmissão, quanto mais pelo seu sucesso. O Mundo Perdido do Comunismo descobre-se assim ser assim como mais um exemplar inglorioso de um elenco infindável de variados fiascos editoriais publicados prematuramente, caso de Administração Hillary, as desastradas premonições políticas de Raquel Vaz-Pinto e de Bernardo Pires de Lima, publicado mês e meio antes da vitória eleitoral de Donald Trump. O (in)sucesso da série televisiva da BBC é tanto mais notável quando, por cá, apenas a menção dessa origem é logo meio caminho andado para o comentário elogioso. Só que neste caso, porque o tema era o fracasso do comunismo, isso terá sido razão, só por si, para a alienação de uma boa metade da intelectualidade doméstica que em algum momento do passado namoriscou com a ideologia e tem ainda hoje com o comunismo uma relação, no mínimo, ambígua (o que não se passa no Reino Unido). Cada um dos três episódios procura evocar o que era a vida sob os regimes ditos socialistas de três países da Europa de Leste: a Alemanha dita Democrática, a Checoslováquia e a Roménia. Há nas histórias que se contam estranhas reminiscências do que por cá acontecia antes do 25 de Abril de 1974 (e que por lá só acabou em 1989...), desde as perseguições políticas a quem era dissidente até aos efeitos por vezes caricatos da censura, à promoção de uma certa imagem de fachada dos respectivos regimes. Havia muitas pessoas infelizes, aparecem também algumas nostálgicas, se calhar os taxistas de lá também resolvem os problemas de marginalidade de Berlim oriental invocando o retorno de Erich Honecker. Todavia, vistas com objectividade, uma Ditadura é sempre uma ditadura, independentemente da retórica que a acompanha, mas isso é uma tese algo impopular entre a intelectualidade doméstica. Mesmo que não tenha sido a tal série de sucesso que a Bertrand promovia, vai-se sempre a tempo de ver uma boa série televisiva, agora que alguém a disponibilizou no YouTube (abaixo). Infelizmente só o primeiro episódio, o referente à hoje extinta República Democrática Alemã, se encontra legendado. É pena porque o episódio da Checoslováquia é interessantíssimo e o da Roménia também.
Alemanha Democrática
Checoslováquia
Roménia
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23 novembro 2016
OS DOIS SECRETÁRIOS GERAIS
A Roménia, especialmente depois da ascensão ao poder de Nicolae Ceausescu em 1965, dedicou uma atenção especial, quiçá por afinidade, às relações com os partidos comunistas da Europa Latina, especialmente com os dois partidos ibéricos, ambos clandestinos. O cumprimento dos dois secretários-gerais nesta fotografia acima tem cinquenta anos (11 de Novembro de 1966). Nicolae Ceausescu pelo PCR e Álvaro Cunhal pelo PCP. A estética é rigorosa no respeito pela ortodoxia da igualdade entre os dois partidos irmãos. Mas a deferência de Ceausescu não podia contornar o facto de que a fotografia fora tirada em Bucareste e, naquela época, era impossível fazê-la em Lisboa. Uma coisa era um partido comunista no poder como o romeno e outros; outra, um partido comunista legal numa democracia como o italiano e o francês; e outra ainda um partido comunista ilegalizado numa ditadura, como o português e o espanhol.
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02 dezembro 2015
AS LEGÍTIMAS EXPRESSÕES DO GOSTO MUSICAL POPULAR
O Verão de 2004 notabilizou-se pelo sucesso europeu desta notável canção oriunda da Roménia com o hermético título de Dragostea din tei. O desconhecimento generalizado do romeno fez com a que a canção se popularizasse sob outras designações mais onomatopaicas tais como Numa Numa ou Mai Ya Hee e o respectivo videoclip destacava-se pelos planos aeronáuticos (acima). Conquistadora dos tops de países respeitáveis como a Alemanha, Áustria, Bélgica, França, Holanda, Itália, Noruega, Portugal, Suécia ou Suíça, a canção representou, 15 anos depois da deposição e execução de Ceausescu, uma espécie de carta de alforria da produção musical da Europa de Leste. A influência da estética do passado socialista nesses países parecia, com aquele exemplo, completamente erradicada.
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26 julho 2015
OS ALIADOS
Ao contrário do que possa ser a imagem predominante nos dias que correm, nem toda a colaboração que a Alemanha e Adolf Hitler obtiveram durante a Segunda Guerra Mundial resultou de coacção. Houve países onde se apostou deliberadamente no sucesso do Eixo. Da esquerda para a direita, Ion Antonescu (1882-1946) da Roménia, Miklós Horthy (1868-1957) da Hungria, Carl Gustaf Mannerheim (1867-1951) da Finlândia e Ante Pavelic (1889-1959) da Croácia. Não é por coincidência que todos aparecem uniformizados como também não será por coincidência que, à excepção de Antonescu, que foi fuzilado no seu país natal em 1946, todos os outros morreram no exílio em países que haviam permanecido neutrais durante a Guerra: Horthy em Portugal, Mannerheim na Suíça e Pavelic em Espanha.
21 dezembro 2014
POR OCASIÃO DOS 25 ANOS DO ÚLTIMO DISCURSO DE CEAUSESCU ou A CENOGRAFIA DE UM COLAPSO
Há precisamente 25 anos, 21 de Dezembro de 1989, o regime romeno parecia colapsar. E isso acontecia porque a cenografia de uma cerimónia tradicional fugiu pontualmente ao convencionado. A multidão congregara-se (e também fora congregada...) diante da varanda de onde o ditador Nicolae Ceausescu iria fazer o tradicional discurso de Natal - que só não era de Natal porque um estado marxista-leninista não tinha costumes desses. A assistência mais segura posicionava-se junto à varanda para largar os hurras canónicos mas a intervenção esteve interrompida pelas vaias dos outros, vaias essas que o tempo entretanto decorrido tem tornado cada vez mais certo que foram tão espontâneas quanto o eram os aplausos. Porém o inesperado da cena, as vaias, provocaram não apenas uma interrupção do discurso do orador (como se observa no vídeo acima)...
...como sobretudo uma suspensão da emissão televisiva em directo que transmitia a cerimónia para a Roménia e para o Mundo (veja-se este noticiário francês) projectando uma imagem de fragilidade que se aguardava de um regime que se recusava a tombar como já acontecera com os restantes equivalentes do bloco socialista, depois da queda do Muro de Berlim. Os vídeos que procuram relembrar a cena, como aquele mais curto que escolhi para encimar este poste são montagens distorcidas realçando um Ceausescu temeroso quando o vídeo completo do discurso com cerca de 20 minutos exibe uma cerimónia recuperada depois da perturbação inicial, em que a velha raposa, farejando provavelmente o perigo, anuncia aumentos de 10% nos ordenados, nas pensões, nas prestações sociais. Não lhe iria servir de nada: seria julgado sumariamente e executado apenas quatro dias depois.
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31 dezembro 2012
ANA PAUKER
Embora proclamada na teoria, a igualdade dos géneros não marcou a história do marxismo-leninismo.
Entre os grandes dirigentes históricos do movimento há pouquíssimos exemplos de
mulheres a destacar: a alemã Rosa Luxemburgo (1871-1919), a espanhola Dolores Ibárruri
(1895-1989) e a romena Ana Pauker (1893-1960)¹. Esta última, será talvez a
menos conhecida das três, mas foi ela que a revista Time considerou a mulher
mais poderosa de então quando publicou um extenso artigo a seu respeito (acima) em Setembro de 1948. Nas disputas internas entre duas facções, as dos
comunistas que haviam permanecido na Roménia como prisioneiros políticos e as
dos que se tinham exilado em Moscovo entre 1930 e 1944, Ana Pauker encabeçava a última, tida
por mais conforme os desejos de Estaline. Foi uma ironia histórica que a última
paranóia de Estaline assumisse um carácter vincadamente anti-semita e que Ana
Pauker (de origem judaica) se tornasse uma vítima dela, tendo sido demitida dos
cargos políticos e governamentais que ocupava (ministra dos Negócios
Estrangeiros) em Maio de 1952. Presa em Fevereiro de 1953 só a morte de
Estaline um mês depois a terá livrado de um destino mais do que previsível: um
espectacular julgamento público onde confessaria tudo seguido de execução. Prisioneira desde então, teve
a sorte de morrer na cama descalça, algo que não chegou a acontecer com Nicolae Ceaușescu…
¹ Generosamente poder-se-ia
acrescentar ainda o nome da russa Alexandra Kollontai (1872-1952) à lista. Mas
serão sempre poucos exemplos entre muito mais de uma centena de nomes
masculinos.
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30 dezembro 2012
O PAÍS DOS SEIS HINOS NACIONAIS
Entre os três símbolos tradicionais da sua identidade, embora possam mudar de chefe de estado com alguma regularidade (o que aliás é considerado saudavelmente democrático... em regimes republicanos), os países tendem a ser extremamente conservadores quanto às suas bandeiras e hinos. Por isso, não deixa de ser interessante contar aqui a história de um país que se pode considerar relativamente jovem (cerca de 150 anos) e que já teve seis hinos ao longo da sua existência: a Roménia¹.
Os primórdios da formação da Roménia moderna são conhecidos mas torna-se controverso escolher uma data precisa para a sua constituição como país independente. Quando ainda não existia formalmente o reino da Roménia, o principado que o precedeu já dispunha desde 1862 de um hino intitulado a Marcha Triunfal, marcha essa para a qual não encontrei versão no You Tube.
O reino da Roménia foi constituído em 1881 com a coroação de Carol I e, apropriadamente, um hino novo foi criado em 1884, Trăiască Regele, uma apropriada exaltação monárquica porque o título traduz-se por um Viva o Rei. Embora a história da monarquia romena tenha sido anormalmente turbulenta², o hino manteve-se como um bastião até ao fim do regime monárquico em 1947.
Seguiu-se-lhe um hino que não durou muito tempo (1948-1953), naquele estilo puro e duro do bom velho estalinismo: Zdrobite cătuşe que se poderá traduzir por grilhetas esmagadas. Na verdade tudo parece esmagado: a melodia do hino é horrível, o ritmo martelado. Até o escudo da nova República Popular da Roménia, mais o seu tractor de três chaminés, é de um gosto duvidoso.
Será apenas uma coincidência, mas apropriada, que o ano da mudança do hino da Roménia tenha coincidido com o da morte de Estaline (1953). Nesta evolução, Te slăvim, Românie! (Glorificamos-te ó Roménia!), o novo hino romeno parecia dar mais enfâse à identidade nacional. Repare-se como, em simultâneo, o escudo nacional sofreu também algumas transformações.
Em 1965 a República Popular transformara-se na República Socialista da Roménia sob a égide de Nicolae Ceaușescu que, numa penúltima ruptura do país com o passado, mudou em 1977 o hino nacional para um ainda mais neutro Trei culori (Três Cores), numa referência à bandeira, ainda ao socialismo e comunismo, mas desaparecendo as menções a soviéticos ou a Lenine.
A Revolução de 1989, a deposição e execução de Ceaușescu, veio pôr fim ao regime comunista. Sintoma da instabilidade simbólica da nação romena, uma das imagens marcantes da revolução são as bandeiras esburacadas com o escudo nacional removido (abaixo). O hino nacional adoptado desde aí e que ainda hoje vigora intitula-se Deșteaptă-te, române! (Desperta romeno!).
¹ Para comparação, Portugal teve apenas dois hinos nacionais desde 1834.
03 outubro 2012
VLAD O EMPALADOR
Vlad III (1431-1476), Príncipe da Valáquia (1456-1462), foi conhecido e ficou popularizado nuns meios artísticos pelo cognome de Drácula, noutros pelo de Vlad o Empalador (acima). Nascido em Sighişoara na Roménia, filho do Príncipe Vlad II (1393-1447), viveu em tempos que foram muito difíceis e cruéis: ainda com 11 anos foi entregue em Istambul como refém da fidelidade de seu pai aos otomanos; quando aquele morreu, já Vlad era adolescente, viu o seu irmão e sucessor Mircea II ser cegado para depois ser enterrado vivo pela facção rival. A Valáquia que ele veio a herdar era um joguete de interesses internacionais, entalada entre um Reino da Hungria que o considerava um vassalo e um Império Otomano a quem se via obrigado a pagar tributo.
Os turcos já usavam a pala (ou estaca afiada) como método de punição, mas depois de a aperfeiçoar, afinando-a, afiando-a e engordurando-a, Vlad III elevou o processo a um requinte superior como instrumento de terror de massas (abaixo). Exemplarmente, numa expedição punitiva para além do Danúbio foram capturados 23.883 prisioneiros, todos destinados a ser empalados: os paus eram verticalmente fixados no terreno e as vítimas espetadas neles pelo recto, num processo que as podia deixar a agonizar, surpreendentemente, por vários dias. Porque é que este assunto me ocorreu próximo de uma comunicação de Vítor Gaspar a respeito das próximas medidas de austeridade deixo apenas à imaginação do leitor…
10 agosto 2012
ABREVIATURAS DE UMA AGRICULTURA DIALÉCTICA
É improvável que as siglas LPG, RSP, JZD, JRD, TSZ ou CAP possam dizer alguma coisa ao leitor. Representam porém, numa miríade de idiomas europeus, sempre a mesma realidade: Landwirtschaftliche Produktions Genossenschaft em alemão, Rolnicza Spółdzielnia Produkcyjna em polaco, Jednotné Zemědělské Družstvo em checo, Jednotné Roľnícke Družstvá em eslovaco, TermelőSZövetkezet em húngaro ou Cooperativă Agricolă de Producție em romeno eram as cópias nacionais pós-Guerra dos Kolkhozes soviéticos, decalcando o modelo de exploração colectiva da terra que fora imposto na URSS na década de 1930 com as consequências que se conhecem…
A evolução das condições técnicas da produção agrícola moderna primeiro, e o desmoronamento do bloco socialista depois, transformaram todas aquelas (e outras…) siglas em memórias esquecidas. Mas não deixa de ser oportuno relembrar como, durante o PREC, e com aquele jeito dos comunistas para seguirem tudo pela cartilha, também em Portugal tenha aparecido a sigla UCP por acrónimo de Unidade Colectiva de Produção (em português...), copiando para o nosso país um modelo que já então se mostrara um fiasco na maioria dos países que haviam sido forçados a adoptá-lo. Esquecido, este foi dos aspectos onde estivemos mais próximos de nos sovietizar…
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11 novembro 2011
POR PERTO…
Ainda a respeito do debate da cozinha note-se agora a curiosidade do acompanhante de Nikita Khrushchev que aparece assinalado acima por uma circunferência branca: é Leonid Brejnev, que viria a ser o seu sucessor dali por cinco anos. Uma das inovações científicas do marxismo-leninismo é que, como numa corte medieval, a proximidade ao líder também podia servir como um indicador da cotação política do camarada cortesão…
Era uma regra extensível ao internacionalismo proletário como se pode apreciar também neste outro exemplo vindo da Roménia, uma fotografia da visita de Khrushchev a Bucareste por ocasião da realização do VIII Congresso do PCR (1960) onde, por detrás do líder soviético (à direita) e de Gheorghe Gheorghiu-Dej, o dirigente romeno de então, já se reconhece a fisionomia familiar de Nicolae Ceausescu, que o virá a substituir daí por cinco anos.
Cerca de vinte anos depois (esta última fotografia data já de 1981), a prática ainda se mantinha embora seja visível o envelhecimento acentuado dos protagonistas, tanto o do titular (que neste caso é Brejnev que irá morrer em Novembro de 1982), como o dos seus herdeiros, em primeiro lugar Yuri Andropov (à esquerda, de uniforme, que só irá ocupar quinze meses o poder) e depois Konstantin Chernenko (apenas pelos treze meses seguintes).
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19 abril 2011
O QUE PREGA O CAMARADA TOMÁS QUANDO ESTÁ NO PODER OU QUANDO NÃO O QUER ASSUMIR…
O Partido Comunista Português é, de entre os partidos políticos portugueses, aquele que possui a história mais antiga e simultaneamente a história mais vasta. A história mais antiga porque foi fundado em 1921, há já 90 anos, e a história mais vasta porque a sua história dos primeiros 70 desses 90 anos se conjuga com uma vasta rede de solidariedades cúmplices com os partidos-irmãos que, no resto do Mundo, professavam a mesma ideologia marxista-leninista. Será por ser assim tão exposta que os militantes comunistas gostam de tratar a história do seu partido com tanto desvelo. Mas às vezes vale-lhes a ignorância do passado…Actualmente, têm sido divulgadas as posições radicais do PCP à formalização de um acordo com o FMI: O PCP rejeita o seu envolvimento num processo que constitui uma inaceitável atitude de abdicação e submissão nacional. Para eles, o resgate do FMI é um engano e uma ingerência e não é inevitável. Para sustentar esta última afirmação, certamente no PCP ter-se-ão descoberto várias soluções alternativas que, infelizmente, ainda não se conheciam há uns 30 anos atrás – adivinha-se como se modernizaram as teorias financeiras marxistas-leninistas num verdadeiro turbilhão fervilhante de actividade intelectual…
Se acima me referi a 30 anos foi porque em 1981, a Polónia, onde então estava no poder o POUP, um partido-irmão do PCP, pediu o seu reingresso ao FMI (que abandonara na década de 1950) para, fazendo de novo parte da organização, poder beneficiar de um plano de resgate financeiro¹ – um engano! Em 1982, foi a vez da Hungria e do partido-irmão nacional, o PSOH, beneficiarem da admissão e do seu próprio plano de resgate financeiro¹ – uma ingerência! Anteriormente, havia sido a Roménia e ainda mais outro partido-irmão, o PCR – o que era evitável! Que pena os partidos-irmãos não terem tido a lucidez deste nosso PCP actual…
Aparte as ironias, falando sério e embora hoje ande esquecido, sempre foi notório como a dialéctica marxista-leninista podia fazer com que os partidos comunistas preconizassem soluções antagónicas conforme fossem eles o governo ou estivessem na oposição. Falando com a seriedade que essas coerências sempre devem merecer (Não Apaguem a Memória!) e para empregar um ditado popular nacional conjugado com uma lógica ideológica internacional marxista-leninista: bem prega o camarada Tomás, faz o que ele diz, não faças o que ele fez…
¹ Se tanto a Polónia como a Hungria não fossem países membros do Fundo Monetário Internacional as condições dos respectivos planos de resgate – a existirem – seriam necessariamente muito mais severas…
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19 outubro 2010
A FICÇÃO E A REALIDADE (OUTRA VEZ)
Da esquerda para a direita pode-se identificar (clicar para ampliar) Todor Jivkov (Bulgária), Nicolae Ceauşescu (Roménia), Edward Gierek (Polónia), János Kádár (Hungria), Gustáv Husák (Checoslováquia), encoberto não identificado, Leonid Brejnev (União Soviética), Erich Honecker (Alemanha Democrática), Yumjaagiin Tsedenbal (Mongólia) e Andrei Gromiko (Ministro dos Negócios Estrangeiros da União Soviética)
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28 setembro 2010
A ALIANÇA POLACO-ROMENA
Ao olharmos para um Mapa da Europa de Leste do período entre Guerras (de 1919 a 1939), podemos apercebermo-nos da importância geográfica que representava o eixo polaco-romeno num papel pivot de contenção simultânea do expansionismo vindo de Leste, da União Soviética e do Centro, da Alemanha. No caso particular do mapa acima, datado de 1939, já depois do desaparecimento da Checoslováquia, a importância das atitudes individuais e concertadas daqueles dois países ainda se torna mais evidente.Renascendo como nação (no caso da Polónia) ou ganhando substanciais parcelas de território e população a Leste e Ocidente (no caso da Roménia, abaixo), os dois países haviam saído da Primeira Guerra Mundial como vencedores e, consequentemente, como defensores do status quo estabelecido pelos Tratados assinados depois do Conflito. E, ao contrário do que acontecera noutros casos de países nas mesmas circunstâncias (era o caso da Checoslováquia com a Polónia), não havia questões fronteiriças pendentes.
A Aliança entre Polónia e Roménia conheceu três versões: uma inicial, conhecida por Convenção por uma Aliança Defensiva (1921), expressamente vocacionada para uma assistência mútua em caso de agressão contra as fronteiras orientais dos dois países – leia-se da União Soviética –, uma outra de 1926 (ratificada pelos dois signatários em 1927), agora baptizada de Tratado de Aliança para a segurança na Europa Oriental, alargando as situações de assistência mútua a qualquer ataque – leia-se agora da Alemanha…Em 1931 a Aliança foi novamente revista, passando a designar-se Tratado de Garantia. Ao longo da década de 30, mesmo depois dos nazis alcançarem o poder na Alemanha, o entendimento entre polacos e romenos manteve-se fluído, embora faltasse à parceria um poder estratégico decisivo para enfrentar simultaneamente as duas ameaças – a alemã e a russa – para a qual fora constituída. Isso tornou-se ainda mais evidente quando dos acontecimentos de 1938 que levaram ao desaparecimento da Checoslováquia.
A assinatura do Pacto Molotov-Ribbentrop em Agosto de 1939 foi o toque de finados da eficácia do Tratado de Garantia Polaco-Romeno. Por acordo das partes, quando do início da Segunda Guerra Mundial em Setembro de 1939, a Polónia prescindiu da assistência militar directa que a Roménia lhe pudesse prestar em troca desta última lhe assegurar uma via de reabastecimentos com o exterior através dos portos romenos do Mar Negro, uma Operação que fora preparada de antemão, baptizada por Testa de Ponte Romena.Foi o caminho de fuga tomado por cerca de 120.000 soldados polacos comandados pelo Marechal Rydz-Śmigły, quando da capitulação polaca. E se, como consequência dela, a Polónia desapareceu como nação na repartição que então teve lugar, a Roménia também se viu muito maltratada, obrigada a ceder territórios à União Soviética, à Hungria e à Bulgária (1940). E em 1945, quando se restauraram as fronteiras da Europa de Leste, a Polónia e a Roménia, por pressão soviética, deixaram de ter fronteiras comuns (abaixo)…
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