30 abril 2022

A CIÊNCIA E OS HIBERNAUTAS

A solução que é correntemente utilizada na ficção científica para se ultrapassar a questão das distâncias siderais e do tempo das viagens tem sido colocar os astronautas em hibernação. (Os vídeos anexos contêm cenas a entrar e sair dela, dos filmes Interstellar de 2014 e Aliens de 1986) Num estado de sono semelhante à hibernação, o metabolismo cai e a mente é poupada do tédio de esperar infinitas horas sem nada para fazer. E, ao contrário das viagens espaciais realizadas a velocidades mais rápidas do que a luz, a premissa de colocar os astronautas numa qualquer forma de hibernação parece estar ao alcance da ciência actual. Contudo, as implicações de um estudo acabado de publicar, realizado por um trio de pesquisadores chilenos, revelam um obstáculo substantivo para transformar o potencial da estase humana de longo prazo em qualquer coisa de concreto, o que pode significar que a hibernação não constituirá solução para voos espaciais de duração significativa - para além de uma dúzia de anos. Estudando o exemplo dos animais do nosso porte que hibernam - o exemplo escolhido no estudo foi o dos ursos - concluíram que a manutenção nesse estádio de letargia de um adulto médio se sustentaria com um consumo diário de de um pouco mais de seis gramas da gordura corporal por dia. Isso corresponderia aproximadamente a dois quilos de peso perdidos pelos astronautas numa viagem de um ano até Júpiter. Todavia, essa perda corresponderia já a uns vinte quilos, se a viagem fosse até Plutão (9 anos), caso em que se recomendaria que os astronautas fossem submetidos previamente a um sistema de engorda. Mas, mesmo esse sistema de reforço prévio de nada serviria nas viagens para lá do sistema solar, em que a única solução seria que o sistema de hibernação teria que ser interrompido rotineiramente para que os astronautas ingerissem reforços calóricos. Portanto, da próxima vez que virem os astronautas em hibernação num filme, consciencializem-se que é ficção: provavelmente o futuro não irá ser assim.

OS TESTES AO BOM SENSO DOS MILITARES QUE MANEJAVAM O ARSENAL NUCLEAR

30 de Abril de 1962. Quem lesse o Diário de Lisboa desse dia ficava informado que a USAF (força aérea dos Estados Unidos), num esforço meritório para nos tranquilizar, começara a submeter os seus militares a «exames psicológicos» semestrais, para que se assinalassem «os (militares) que não sejam de confiança». A medida afigurava-se tão acertada que a notícia terminava com a promessa que «o exército e a marinha» iriam adoptar «medida semelhante».
Mas a verdade é que por aquela altura mentes imaginativas já haviam elaborado várias histórias de ficção em que o Mundo se via confrontado com uma guerra nuclear por causa de um responsável militar de alto escalão que perdera a razão. Aliás, dali por dois anos, um desses romances iria dar origem a um filme, uma comédia negra genial de Stanley Kubrick intitulada Dr. Strangelove. E nesse filme, os militares não se destacavam pelo bom senso...

29 abril 2022

A SONSA

Depois de se ter ilustrado no comentário televisivo e radiofónico como alguém que se recusava obstinadamente a compreender o que era o conceito de responsabilização política, vemos agora Ana Catarina Mendes a transpor essa mesma obtusidade para a prática, como governante. Temos então um caso que rebenta porque um jornal (Expresso) notícia que a comissão de acolhimento aos refugiados ucranianos em Setúbal é constituída por... russos. Coincidência: a câmara é comunista... Bronca! E o que é que faz o ministério da tutela, que é precisamente o dos Assuntos Parlamentares e Ana Catarina Mendes?... Faz de conta que aquilo não tem nada a ver consigo, mas sim com um tal de Alto Comissariado para as Migrações, a quem «pede esclarecimentos» com «urgência». Acontece que o tal Alto Comissariado para as Migrações é um organismo governamental que até depende da sua pessoa! É normal que se queira informar sobre o que se passa, escusa é de o publicitar, só para dar uma impressão pública que não teve nada a ver com o caso. Mesmo que não tenha, e acredito que não, a responsabilidade política continua a ser sua, Ana Catarina Mendes! Falhar a fazer-se passar por sonsa é um daqueles embaraços que incomoda até quem assiste. Veio-se embora do programa e continua sem perceber o que exasperava os seus antigos parceiros, Lobo Xavier e Pacheco Pereira

UMA ESPÉCIE DE «TOMADA DA BASTILHA» EM DIRECTO TELEVISIVO

29 de Abril de 1992. Na sequência imediata da absolvição dos quatros polícias que haviam sido filmados a espancar um condutor chamado Rodney King, a América e o resto do Mundo assistiram aos distúrbios que as imagens acima mostram, recolhidas por helicópteros que sobrevoavam as zonas dos saques e pilhagens. A sociedade americana exibia-se em toda a sua espontaneidade. Comprovava-se afinal que o povo quando revoltado (pelo menos os negros americanos...), não vai tomar qualquer Bastilha como os franceses haviam feito a 14 de Julho de 1789, o povo moderno vai assaltar os supermercados e as lojas das vizinhanças para rechear a sua própria casa. O socialismo havia desaparecido com a queda da União Soviética, a sociologia de Marx e os mitos das revoluções populares haviam desaparecido com ela. Enfim, chegámos ao século XXI muito descrentes das virtudes genuínas das expressões agressivas das vontades populares, como nos haviam ensinado que acontecera na Revolução francesa de 1789 ou na Revolução russa de 1917. As imagens abaixo são do assalto ao Capitólio em 6 de Janeiro de 2021 nos Estados Unidos e de uma das sessões dos protestos dos coletes amarelos em França no Outono de 2018.

28 abril 2022

OS «ULTRAS» DO ESTADO NOVO

28 de Abril de 1972. Numa intervenção que proferira antes da ordem do dia, o parlamentar Alberto Franco Nogueira analisara a «evolução do mundo pós-guerra atacando os "novos mitos" apoiados, segundo declarou" (e os qualificava...), no socialismo a Oriente e no demo-liberalismo, a Ocidente". Só na aparência se tratava de "mais uma" intervenção na Assembleia Nacional, onde se falava muito mais do que legislava. Alberto Franco Nogueira não era um deputado qualquer. Fora o último ministro dos Negócios Estrangeiros de Salazar (1961-69) e um dos candidatos à sua sucessão em 1968, pretensão que perdera para Marcello Caetano. Era sabido portanto que fora - e continuava a ser - um rival do actual presidente do Conselho e que a alusão que fizera à Rodésia (a que o jornal dava, aliás, o maior destaque) configurava uma discordância política de fundo quanto à política colonial (A Rodésia era uma colónia britânica que se auto-governara através de uma minoria branca de 250.000 pessoas, uma comunidade de europeus de dimensão sensivelmente idêntica às existentes em Angola e Moçambique. Só que, ao sentir as pressões da metrópole para transferir o poder para a maioria negra, o governo da Rodésia decretara unilateralmente a independência em 1965). A discordância fundava-se no facto de que Franco Nogueira era aquilo que se designava por um integracionista - defendia a constituição de uma estrutura política que aglutinasse Portugal e as suas colónias. Os integracionistas como Franco Nogueira escreviam coisas explicando como isso se faria, mas não tinham que resolver os problemas concretos que essas coisas causariam. Marcello Caetano, pelo contrário, tinha que resolver problemas concretos, nomeadamente ceder a reivindicações cada vez maiores das colónias para mais responsabilidades e mais autonomia. É no quadro desse contraste entre a facção mais pragmática e a mais lunática do final do Estado Novo, que se pode perceber o alerta deste discurso de Franco Nogueira contra insolências à rodesiana, não fosse Luanda ou Lourenço Marques um dia destes oporem-se a Lisboa! (Ainda hoje me impressiona ver Jaime Nogueira Pinto falar destes tempos em que ele era um júnior destes ultras do regime, e absolvê-los de tanto disparate, como se aquelas fantasias que eles então propunham tivessem alguma exequibilidade!)

27 abril 2022

CONSIDERAÇÕES INESPERADAS SOBRE O QUE PODE SER A «REALPOLITIK»

Entre os argumentos que me quiseram apresentar sobre a absolvição para a iniciativa da invasão da Ucrânia por Vladimir Putin, contou-se a evocação de uma palavra que quem o fez pretendia mágica: «Realpolitik». Vladimir Putin limitava-se a aplicá-la... Na verdade, considero que a dita «Realpolitik» tem mais ressonância jornalística do que substância académica, são mais os jornalistas que a vão buscar para título dos seus artigos generalistas do que a vejo aproveitada em artigos em revistas especializadas como a «Foreign Affairs». Contudo, e por uma vez, e para chatear os putinistas que se têm socorrido dela, vou utilizá-la num cenário contra a Rússia. Para nos começarmos por debruçar nas consequências do que foi a desagregação da Jugoslávia a partir de 1991 (mapa acima). Trinta anos depois, pode-se concluir com segurança, à luz da tal «Realpolitik», que a estabilidade política e militar em toda a região balcânica só se conseguiu alcançar quando a Sérvia foi suficientemente desbastada - com a perda do Kosovo (1999) e do Montenegro (2006) - para que os seus líderes perdessem as suas pretensões hegemónicas para a reconstrução de um espaço nacional sérvio, quando quiseram destruir as fronteiras pré-existentes da antiga Jugoslávia. Aparentemente, e apesar de estarmos a referir-nos a uma escala completamente diferente - a Sérvia tem 7 milhões de habitantes, a Rússia 20 vezes isso (142) - os estrategas ocidentais que professem também dessa mesma "Realpolitik" já devem ter chegado à mesma conclusão quanto ao que há que fazer à Rússia. Também a Rússia se recusa a aceitar as fronteiras que herdou da antiga União Soviética. E embora neste caso a tarefa seja muito mais difícil de implementar (titânica mesmo!), há de não perder de vista o objectivo de pretender desbastar o que resta do império russo, o preciso reverso em "Realpolitik" daquilo que Vladimir Putin pretenderá reconstituir com a "Realpolitik" dele. A Rússia é um estado centralizado mas heterogéneo - contém 21 repúblicas nacionais, falam-se mais de 100 idiomas - que facilmente se desmancha num mosaico de autoridades rivais quando de um colapso da autoridade central, como se viu ainda há cem anos, quando da guerra civil que levou os bolcheviques ao poder (1917-22). E, para ver quanto isso foi frequente e continuado no passado da Rússia, vale a pena olhar para este mapa abaixo, de como era a Rússia no século XIV (1328), retalhada numa dúzia de principados (uma configuração que se prolongou do século XI até quase aos finais do século XV quando Moscovo assumiu a preponderância), um mapa que as versões nacionalistas russas normalmente se «esquecem» de publicitar. Em "Realpolitik", pacificar o Leste da Europa e constatado o fracasso da política de apaparicar um déspota como Putin, talvez passe por esvaziar ainda mais o poder de um centro moscovita, fomentando a decomposição da Rússia... Recorde-se que foi o objectivo de Adolf Hitler, outro grande praticante da "Realpolitik".

26 abril 2022

A CIÊNCIA, ANTES DO APARECIMENTO DOS «CIENTISTAS» DA COMUNICAÇÃO

26 de Abril de 1962. A NASA, a agência espacial americana, enviara a sonda «Ranger IV» para a Lua e, como acontecera previamente com a «Ranger I», «Ranger II» e «Ranger III», a «coisa» correra mal e a missão saldara-se por um fracasso. Especifique-se que o «Ranger IV» «fora projectado para transmitir imagens da superfície lunar durante o período final de 10 minutos do voo, antes do impacto na Lua, para largar um sismómetro na superfície lunar, para colectar dados sobre raios gama durante o voo e para estudar a reflectividade ao radar da superfície lunar.» Falhara naquilo tudo por causa de «uma falha no computador de bordo que, por sua vezes, causara a falha da expansão dos painéis solares e, sem energia, falhara a activação dos sistemas de navegação». O veículo de 331 kg acabara por se despenhar «no lado oculto da Lua sem transmitir qualquer dado científico». Está na primeira página do Diário de Lisboa, a notícia do que fora um fiasco científico completo. Mas isto eram os cientistas a analisar o que acontecera. Outros «cientistas», os da informação, pegavam nos mesmos factos e davam-lhes um «tratamento» para que o que acontecera parecesse um sucesso. «Ranger hits moon» - é o título «galhardo» como começa o documentário abaixo. Claro que atingiu a Lua, mas a uma velocidade de 9.600 km/h! Um pequeno mal entendido de semântica. Sobre ciência astronáutica e sobre uma data de outros temas, sessenta anos depois, o que se pode constatar é que os segundos «cientistas» não só substituíram completamente os primeiros, como até os proibiram completamente de comunicar com o público! Para os curiosos, remate-se esclarecendo que houve que esperar mais quatro anos para que os americanos chegassem à Lua em condições.

OS ACONTECIMENTOS: OS FACTOS E COMO ELES DEPOIS SE DIFERENCIAM POR CAUSA DA COBERTURA NOTICIOSA

26 de Abril de 2002. Em Erfurt, a capital da Turíngia, uma cidade alemã que até 1990 pertencera à Alemanha Oriental, ocorre um daqueles tristes episódios modernos em que um aluno ou ex-aluno armado entra no liceu e começa a disparar sobre alunos e professores, vingando desagravos verdadeiros ou imaginados. O atirador matou 16 pessoas a tiro antes de se suicidar. O episódio deixou toda a Alemanha consternada, já que era a primeira vez que um episódio do género acontecia naquele país, embora se presumisse que o autor do massacre se tivesse ido inspirar em acontecimentos semelhantes que haviam ocorrido anteriormente noutros países, nomeadamente o muito publicitado massacre de Columbine, quase precisamente três anos antes (20 de Abril de 1999), no Colorado, Estados Unidos. Aí os autores haviam sido dois, que haviam assassinado a tiro 13 pessoas. Mas a quase semelhança das circunstâncias e dos efeitos não é indicativa da forma e formatos como as sociedades acolheram o que se passara. Como é tradicional, a comunicação social alemã foi muito mais sóbria. Comparando a sua cobertura com a que fizera a sua homóloga norte-americana, quase parece ter sido um acontecimento para esquecer. Muito menos pensar em fazer documentários a respeito do assunto. Mas o excesso de realce que é dado pelos americanos é contraposto pelo excesso de abafamento do assunto que é dado pelos alemães: uma lista da wikipedia reúne sete episódios ocorridos na Alemanha desde há vinte anos. Tipicamente, os excessos de qualquer das abordagens - a alemã e a norte-americana - comprovam-se na perspectiva como o luto é fotografado: se o tema central de qualquer das fotos é o mesmo, as flores em memória das vítimas, no caso de Erfurt (acima) o fundo da foto é o próprio edifício do estabelecimento de ensino, mas em Columbine são as pessoas que vêm depositar as flores e ler as dedicatórias, com os camiões das televisões em fundo...

25 abril 2022

O «PENETRA» DE ABRIL

É da Lei da Vida que a galeria reservada aos «militares de Abril» para a comemoração solene da data se vá despovoando com a evolução dos tempos. Hoje, tratando-se do já longínquo 48º aniversário, a galeria estava preenchida por dez militares, das quais eu conseguia identificar os três da primeira fila: Martins Guerreiro, Vasco Lourenço, Sousa e Castro; os outros sete não, com excepção de um. E o meu problema é essa excepção: o major-general Carlos Branco (assinalado na foto) tornou-se mais recentemente conhecido (e contestado) por causa da parcialidade pró-russa dos seus comentários a respeito da invasão da Ucrânia. Mas isso e a eventual antipatia que suscita junto de uma facção das audiências e como aqui já escrevi, considero-o da responsabilidade das estações de televisão que o convidam, conhecendo-lhe as simpatias e a reputação. Outra questão, mais objectiva, é a de perguntar o que é que o major-general Carlos Branco está ali a fazer naquela galeria, como «militar de Abril». É que ele tinha 15, quase 16 anos quando se deu o 25 de Abril de 1974. (Que eu saiba, sempre foi proibido incorporar mancebos com essa idade...) E só assentou praça com 18 anos, a 3 de Novembro de 1976, ou seja quase um ano depois do 25 de Novembro de 1975. Constatado isto, repito a pergunta: o que é que está o major-general Carlos Branco ali a fazer?

A CONSTITUIÇÃO DO ESTADO FEDERADO ALEMÃO DE BADEN-WÜRTTEMBERG

25 de Abril de 1952. Com a fusão de três anteriores estados (acima, à esquerda), surge o novo estado federado alemão de Baden-Württemberg. A decisão fora tomada depois de um referendo realizado a 9 de Dezembro de 1951. Historicamente Baden e Württemberg haviam sido duas regiões vizinhas mas distintas no Sudoeste da Alemanha. Mesmo quando da repartição da Alemanha por zonas de ocupação aliadas em 1945, a região acima assinalada como Württemberg-Baden ficara sob controle dos norte-americanos, enquanto as duas restantes haviam ficado a pertencer à zona de ocupação francesa. Este novo estado da República Federal Alemã que se formava há 70 anos contaria com uma população um pouco superior aos 6,5 milhões de habitantes, a capital seria Estugarda, e nela se contariam as sedes de empresas industriais como a Mercedes-Benz, a Porsche ou a Bosch. Actualmente, e se descontarmos as cidades-estado de Berlim e Hamburgo, é o estado da Alemanha que melhor se classifica em termos de índice de desenvolvimento humano (IDH).

DISCORRENDO SOBRE O EMPREGO DA ARMA NUCLEAR

25 de Abril de 1972. Numa conversa privada na sala oval da Casa Branca entre o presidente Richard Nixon e o seu conselheiro nacional de segurança Henri Kissinger, os dois homens levantam hipóteses como aliviar a pressão da recente ofensiva - Ofensiva da Páscoa - norte-vietnamita sobre o Vietname do Sul. Mais do que isso, a ofensiva estava a ser usada por Hanói como um elemento de pressão para as negociações que estavam a decorrer em Paris. Depois de Kissinger ter avançado com uma sugestão dos militares, a destruição dos diques do Rio Vermelho (o principal rio do Vietname do Norte), que «afogariam umas 200.000 pessoas», Nixon retorquiu:
- Aí eu preferiria usar uma bomba atómica. Está a ver?
- Epá, isso já seria ir longe demais...
- Pense as coisas em grande, Henry, pelo amor de Deus.
Porque o presidente mandara instalar um sistema que gravava automaticamente as conversas havidas na sala oval (sistema esse que paradoxalmente acabou por servir de prova do envolvimento de Nixon no caso Watergate), esta sanguínea troca de impressões ficou registada, indesmentível, para a posterioridade. Já era assim há cinquenta anos, e não há argumento apaziguador que me convença que as ideias que ocorrem actualmente a Vladimir Putin serão muito diferentes.

24 abril 2022

A ALEMANHA PODE NÃO TER JEITO, MAS TEM MÉTODO

24 de Abril de 1982. Depois de mais de 25 anos, a Alemanha lá acabou por ganhar o seu primeiro Eurofestival. Podia não ter sido uma prioridade nacional, cativar o continente europeu em formato musical (para isso já havia Beethoven), mas, depois de várias vitórias francesas, inglesas e até italianas começava a parecer mal em termos de imagem europeia que a Alemanha não ganhasse pelo menos uma vez o certame. O rosto da canção vencedora foi o de uma adolescente de 17 anos, chamada Nicole, o título da mesma é todo açúcar, «Ein bißchen Frieden» (Um pouco de Paz) mas a verdade encapotada é que já era o terceiro ano consecutivo que a Alemanha apostava forte na competição, tendo conseguido anteriormente dois segundos lugares em 1980 e 1981.

A PERSISTÊNCIA DA FURTIVIDADE DA OPERAÇÃO «URSO FURTIVO»

Os utilizadores da Wikipedia sabem quanto a versão dela em inglês é muito mais desenvolvida que as outras versões noutros idiomas (englobando 4,8 milhões de artigos versus quase 2,0 da edição sueca, surpreendentemente a que se situa em segundo lugar). Por isso, é algo rara a existência de artigos na Wikipedia de que não exista uma versão em inglês. Mais raro ainda é que isso aconteça quando o artigo em causa envolve anglófonos – no caso, norte-americanos. Pois bem, é isso mesmo que se passa com o incidente decorrido há mais de vinte anos no Peru, a propósito de uma operação que os norte-americanos terão baptizado na altura por Furtive Bear (Urso Furtivo) e passados todos estes anos permanece semi-furtiva, já que a narrativa dos acontecimentos apenas está disponível na Wikipedia em espanhol (acima) com a visão da perspectiva peruana do incidente.
Reproduzindo em parte o que mais acima consta do artigo da Wikipedia, em 24 de Abril de 1992, um avião C-130 (acima), que depois veio a ser identificado como norte-americano com uma tripulação de 13/14 militares a bordo, foi localizado pelos controladores aéreos peruanos a sobrevoar uma região de plantações de coca situado nos vales do Alto Huallaga. Instado a identificar-se o avião não apenas não reagiu como assumiu uma trajectória evasiva. As suspeitas peruanas de que se tratasse de um avião de traficantes combinaram-se com um período de relações políticas bastante tensas entre os Estados Unidos e o Peru. Não havendo qualquer solicitação formal dos primeiros para a realização de qualquer operação em território peruano, as autoridades peruanas sentiram-se à vontade para que a sua Força Aérea fizesse descolar dois Sukhois Su-22 de concepção soviética (abaixo) para interceptarem o avião que sobrevoava clandestinamente o seu espaço aéreo. Entretanto este, obedecendo às ordens da base de origem situada no Panamá, dirigira-se para o mar afastando-se o mais possível da costa peruana antes de inflectir para Norte, regressando à base. A intenção era afastar-se o mais rapidamente possível das suas águas territoriais, fora da jurisdição peruana. Fazia-o há poucos minutos, numa rota já afastada 60 milhas da costa, quando os dois Su-22 alcançaram o C-130. Aqueles fizeram-lhe o sinal internacional para os seguir e do Panamá veio a ordem ao piloto para os ignorar, uma daquelas corajosas decisões que se tomam muito mais à vontade da solidez das instalações de uma torre de controlo do que dentro de um avião: os Sukhois alvejaram o C-130. Os tiros furaram a fuselagem do aparelho, causando uma descompressão interna que sugou para o exterior um dos tripulantes. Além desse morto, outros seis membros da tripulação ficaram feridos nos repetidos ataques dos Sukhoi. Foi em muito mau estado, com um dos motores em chamas, em situação de emergência que o C-130 aterrou numa pequena base aérea militar do Norte do Peru. Aí os peruanos descobriram que se tratava de um avião transportando vários dispositivos de espionagem.
O resto do incidente foi um jogo caricato praticado pelas diplomacias dos dois lados, carregado de apontamentos de hipocrisia. Os peruanos alegaram o C-130 estava mal identificado e que o haviam considerado como um avião a realizar tráfico de cocaína. Os norte-americanos, por sua vez, notaram que o C-130 é um avião militar, improvável de ser usado por narcotraficantes. Os peruanos perguntaram, pelo seu lado, o que é que o avião andava a fazer no espaço aéreo peruano e porque não haviam sido notificados da sua missão. A isso os norte-americanos não respondiam mas sugeriam que as próprias chefias militares da Força Aérea peruana estariam corrompidas. Os pilotos peruanos foram condecorados, os norte-americanos indignaram-se e instaram o Peru a indemnizar a família do sargento Joseph Beard, Jr., que morrera. Como contrapartida (ou retaliação...), os peruanos apresentaram-lhes a factura dos custos de intercepção (US$ 20 mil) e não autorizaram a partida da aeronave sinistrada sem que aquela fosse liquidada. A lista das provocações é mais extensa mas, 30 anos depois, a Wikipedia parece apontar que os norte-americanos terão mais razão para se envergonhar do incidente do que os peruanos.

23 abril 2022

O LANÇAMENTO DO ZX SPECTRUM

23 de Abril de 1982. Lançamento - no Reino Unido - do computador ZX Spectrum. O ecrã é a televisão de casa e o periférico para importação de dados e software é um prosaico gravador de cassetes. Mas vai tornar-se numa revolução precisamente por causa dessa simplicidade.

22 abril 2022

A TELEVISÃO E A BOMBA ATÓMICA

 
22 de Abril de 1952 foi o dia em que assistimos à associação - que hoje consideraríamos absurda - entre duas das grandes novidades tecnológicas da segunda metade do século XX: a televisão e a bomba nuclear. O terceiro ensaio (denominado Charlie) de uma série de oito detonações nucleares que tiveram lugar no deserto do Nevada (a Operação Tumbler-Snapper), foi transmitido em directo pela KTLA, um canal de televisão californiano. Como se torna evidente pelas imagens acima, não se percebe grande coisa do que está a acontecer, mas há setenta anos houve esta estreia da primeira detonação nuclear em directo para um público certamente curioso, mas pouco cauteloso. A descrição que os jornais davam do que iria acontecer (abaixo), davam ao acontecimento o aspecto de uma daquelas experiências no laboratório de física do liceu, só que em ponto grande, e associando soldados em manobras.

A QUEDA DA FORTALEZA DE ORMUZ

22 de Abril de 1622. Ormuz é uma ilha que domina o estreito a que empresta o nome, à entrada do Golfo Pérsico, no Oceano Índico. Entre 1515 e 1622 esteve sob controle dos portugueses que ali construíram um imponente castelo que dominava o tráfego marítimo que entrava e saía do golfo. A guarnição do castelo era portuguesa - especialmente as patentes mais elevadas - mas a população era quase totalmente local - árabe ou persa. E há precisamente quatrocentos anos - reinava em Portugal um dos Filipes espanhóis - o castelo foi conquistado depois de um cerco montado por navios ingleses mas com o emprego de infantaria persa. Ninguém por cá se lembra da data. Depois do exagero que foi a insistência nas glórias passadas no ensino da História no período do Estado Novo, agora caímos no extremo oposto de não dedicar qualquer atenção à importância que já tivemos noutras paragens do mundo.

21 abril 2022

MARIUPOL E STALINGRADO

Todos sabem como a História raramente se repete e, quando isso acontece, a repetição é mais aparente do que substantiva. Atribui-se a Marx a autoria da frase que classifica a primeira versão do acontecimento como uma tragédia e a segunda como uma farsa. Contudo, não resisto a compartilhar esta minha sensação que alguns episódios da invasão russa do Leste da Ucrânia, já os tinha lido em versão muito semelhante há oitenta anos e por aquelas mesmas paragens europeias. Tomemos então esta notícia fresquíssima da conquista da cidade de Mariupol pelos russos e à decisão de Vladimir Putin de se congratular pelo feito, mas fazendo prescindir os seus soldados do assalto aos últimos redutos dos resistentes ucranianos. Agora convido os meus leitores à leitura da passagem que narra a conquista de Stalingrado pelos alemães no Outono de 1942*, nomeadamente as passagens assinaladas por mim em que Adolf Hitler parece desdenhar dos últimos focos de resistência soviéticos na cidade, focos esses situados precisamente em instalações fabris, a siderurgia «Outubro Vermelho», como parece estar a acontecer também em Mariupol com a «Azovstal». São só coincidências, mas perturbadoras, mesmo que não se queira fazer qualquer esforço para prolongar a associação, já que é conhecido o desfecho da campanha de Stalingrado para os atacantes, aparentes conquistadores da cidade até certa altura.
* A Segunda Guerra Mundial, Raymond Cartier, Ed. Círculo de Leitores, 1983, 3º Volume, pp. 47-48.

LE PEN (JEAN MARIE) NA SEGUNDA VOLTA DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS FRANCESAS


21 de Abril de 2002. As sondagens à boca das urnas da primeira volta das eleições presidenciais francesas deixam os próprios e os observadores da comunidade internacional boquiabertos com o anúncio da passagem à segunda volta de Jean Marie Le Pen, o candidato da extrema direita. A data acabou por cunhar uma expressão política. Se, à época, a surpresa eleitoral foi a passagem do pai, vinte anos depois e na primeira volta das eleições presidenciais, a grande surpresa aconteceria se a filha Marine Le Pen não passasse à segunda volta. Se a tese de que a expressão eleitoral da extrema direita é uma consequência dos problemas sociais da sociedade francesa, uma tese que é passível de ser contraditada, então é forçoso constatar que, nestes vinte anos, esses problemas terão estado cada vez mais longe de se resolver.

20 abril 2022

O EFEITO DE ATIRAR UMA PAPAIA AO AR

Não sei se já repararam, mas é instintivo. Quando se atira uma papaia (ou qualquer outra futura madura) ao ar, e depois se recolhe a mão sem manifestar intenção de a apanhar de volta, há sempre alguém que o faz por nós. É tudo uma questão de técnica: lançá-la suficientemente alto para que os outros vejam bem a papaia, esconder ostensivamente a mão para que esses mesmo percebam claramente que a não vamos recolher. Ser uma papaia ou um outro fruto muito colorido ajuda, porque chama a atenção. Porém, a papaia não pode ir muito alto, porque dessa maneira dá tempo para que os outros se interroguem porque razão não somos nós a apanhar a papaia que atirámos. Ora bem, o mesmo efeito acontece com certas frases. Só que a nuance não está na altura do voo da papaia, mas no cuidado como a frase é dita. Se feito com subtileza, escapa-nos a estupidez inclusa. Observemos esse efeito papaia no habilidoso título da entrevista dada hoje por António Horta Osório ao Público (abaixo). Quem é que se mostra «satisfeito com um rendimento médio de 1100/1200 euros por mês»? Melhor: que figura é essa do «como país» a que ele se refere? Os países têm estados de alma, de satisfação e insatisfação com os rendimentos que auferem, é isso? Os luxemburgueses são ambiciosos, os burquinabês são calaceiros? Este é o género de conversa da treta que aponta deficiências mas não explica nada, não justifica nada, é apenas o preliminar da buzzword que o entrevistado vai tentar impingir na entrevista: «ambição». Mas a habilidade consistirá em sugerir que o que ali lemos resulta de reflexão apurada. Na verdade, Portugal encontrava-se no 37º lugar na lista dos rendimentos per capita de 2020, isso é que é factual. Como é que Portugal poderá subir relativamente nessa lista é assunto mais aprofundado do que uma «buzzword» de circunstância. O que consta da entrevista é só um exercício de fingir que se dizem coisas interessantes, um malabarismo com papaias ou com os frutos que se quiser.

UMA HISTÓRIA DINAMARQUESA COM FREDERICOS E CRISTIANOS

20 de Abril de 1947. Na Dinamarca, morre o rei Cristiano X (1870-1947). Sucede-lhe o seu filho Frederico IX (1899-1972). O acontecimento veio manter uma tradição que remontava aos princípios do século XVI, que fazia com que no trono dinamarquês se alternasse um monarca de nome Frederico com outro de nome Cristiano, Como as tradições só se tornam interessantes quando se quebram, dali por 25 anos (1972) e porque Frederico IX só tinha três filhas, por sua morte o trono foi ocupado por Margarida II (1940- ), que ainda hoje o ocupa, aos 82 anos. Mas o seu filho mais velho, o herdeiro, chama-se Frederico, reatando a tradição.

19 abril 2022

QUANDO NÃO SE VIA O FIM À RECESSÃO NAS BOLSAS DE VALORES

19 de Abril de 1932. Já haviam decorrido quase dois anos e meio depois do colossal crash bolsista de 28 e 29 de Outubro de 1929 e, como se percebe pelas notícias desse dia vindas da bolsa de Nova Iorque, e pelo gráfico que adicionei, não havia quaisquer previsões à vista de uma reversão da tendência em baixa das cotações. Propagandear a dinâmica correctiva dos mercados para se auto-regularem não era discurso com qualquer valia ideológica naqueles tempos, que o liberalismo estava em completo colapso. Os tempos mudam, só que é uma pena que as memórias também se percam.

O DIA QUE PODIA TER SIDO HISTÓRICO... MAS NÃO FOI

19 de Abril de 1922. Quem lesse a primeira página da edição do Diário de Lisboa aperceber-se-ia facilmente como tudo se preparava para se engalanar em grande,celebrando a chegada de Gago Coutinho e Sacadura Cabral ao Brasil. E depois aparecia a última página noticiando a «avaria» do hidroavião! Na realidade o "Lusitânia" estava mais do que «avariado», estava perdido, afundara-se. A continuação da viagem iria necessitar de um avião novo (na verdade serão precisos dois aviões novos e o resto da viagem irá tomar mais dois meses). 19 de Abril de 1922 era para ser um dia histórico, mas não foi. Mas a ocasião podia ter sido aproveitada como uma grande lição para os jornalistas portugueses - e isso também não aconteceu. A boa prática jornalística continua a recomendar que, em termos noticiosos, mesmo que o desfecho seja impreciso, é preferível ser-se optimista e contar sempre com os ovos no cu da galinha. Se der fiasco, não foi precipitação dos jornalistas, evita-se o assunto e faz-se de conta que houve assim um pequeno pormenor que terá corrido mal... Quem se lembra que a proclamação Viva a Pátria! da primeira página do jornal de há cem anos foi apenas uma embaraçosa proclamação oca?...

18 abril 2022

HELIGOLAND, A ÚLTIMA POSSESSÃO BRITÂNICA NA ALEMANHA

18 de Abril de 1947. Os britânicos organizam a Operação Big Bang com o aparente intuito de tornar inabitáveis as ilhas de Heligoland. Falharam e aproveito o pretexto para republicar uma breve história daquelas duas ilhas, originalmente publicada em Novembro de 2008. 
Heligoland (Helgoland em alemão) é a designação de um par de ilhas que estão situadas a cerca de 70 km das costas alemães, no Mar do Norte. As ilhas foram conquistadas pela Royal Navy aos dinamarqueses em 1807, por causa da conveniência da sua localização, com a intenção de contrariar o Bloqueio Continental então decretado por Napoleão Bonaparte – note-se como das ilhas (abaixo) se pode controlar, via estuário do Elba, o acesso ao porto de Hamburgo, que ainda hoje é o principal porto alemão. Contudo, apesar da sua localização e de nelas se poder construir um excelente porto natural, as ilhas são extremamente pequenas em extensão, com uma área total que não ultrapassa os 4,2 km². Assim, houve que improvisar para se que arranjassem instalações que fossem adequadas a uma verdadeira base naval. Escavou-se, dado que a ilha principal é uma formação rochosa que se ergue até 60 metros acima do nível do mar (abaixo). E depois do fim das Guerras Napoleónicas (1815), o Reino Unido manteve a posse de Heligoland.
Apesar de se localizar na Alemanha, conquistada pela Royal Navy, tratava-se de uma possessão da Coroa Britânica, numa época em que o Soberano britânico se tornara também (desde 1814), o Rei de Hanôver. Em 1837, a Lei Sálica então em vigor na Alemanha (lei que exclui as mulheres da sucessão ao trono), fez com que o Reino Unido da Inglaterra, Escócia e Irlanda e o Reino de Hanôver, passassem a ter soberanos diferentes: a Rainha Vitória no primeiro caso e o seu tio Ernesto Augusto, no segundo. Contudo, observe-se o selo acima, mesmo depois de 1837 a Raínha Vitória continuou a ser a soberana de Heligoland. Foi só em 1890, no âmbito de um Acordo Colonial anglo-germânico, a respeito das esferas de influência que as duas potências ambicionavam para as suas possessões africanas é que os britânicos se dispuseram a usar a cedência de Heligoland à Alemanha, já então unificada, nesse vasto programa de concessões recíprocas. E os alemães apressaram-se a dar às ilhas precisamente a mesma utilização que os britânicos.
Heligoland foi uma importante base aero-naval alemã (acima) durante a Primeira Guerra Mundial, assim como o tornou a ser durante a Segunda Guerra, quando a base veio a ser violentamente bombardeada pela aviação aliada. Depois do fim da Guerra em 1945, ficou a pertencer (mais uma vez…) à Zona Britânica de Ocupação da Alemanha. As caves para apoio logístico à base naval, que haviam sido inicialmente escavadas por eles, pareciam ter-se tornado agora numa obcecação destrutiva para os britânicos.
Os cálculos iniciais para a destruição das instalações de Heligoland previam 48.400 horas/homem de preparação e 730 toneladas de explosivos. Por via das dúvidas, no dia escolhido para a Operação Big Bang (18 de Abril de 1947) haviam sido instalados mais do quádruplo disso... A segunda maior explosão provocada por explosivos convencionais de sempre, projectou uma nuvem até 2.500 metros de altitude (acima e abaixo), mas depois veio a constatar-se que apenas destruíra 14% da superfície da ilha...
Insatisfeitos, os britânicos continuaram a usar a ilha como alvo para treino de bombardeamento da Royal Air Force. Chegou a haver preparativos para que os ensaios nucleares britânicos viessem a ser ali realizados, mas a ideia acabou por ser abandonada por causa do problema da proximidade das zonas densamente habitadas na Alemanha, Holanda e Dinamarca. Em 1952, os pescadores alemães que se dedicavam à pesca da lagosta, foram finalmente autorizados a regressar. A ilha hoje tem 1.650 habitantes, mas não graças aos britânicos…

O «RAID» DO CORONEL DOOLITLLE

18 de Abril de 1942. A partir das 7H25 da manhã (hora local), 16 bombardeiros B-25 embarcados no porta-aviões norte-americano USS Hornet começam a descolar para a sua missão de bombardeamento de Tóquio e de mais outras três cidades japonesas. Trata-se de uma operação arriscada e que, por causa disso, pretende apanhar os japoneses de surpresa. O Hornet encontra-se a 800 milhas das costas japonesas e os aviões não têm autonomia para regressar. Em vez disso, e depois do bombardeamento, os B-25 continuarão o seu voo até ao interior da China, onde aterrarão em aeródromos das forças nacionalistas chinesas, mesmo no limiar das capacidades dos seus depósitos de combustível (veja-se o mapa abaixo). O raid é comandado pelo tenente-coronel James H. Doolittle de 45 anos e é composto por 80 tripulantes voluntários (5 por avião). Os aviões demoraram 6 horas até chegarem ao Japão, e cerca do meio dia (hora local) que os bombardeamentos começaram. Os danos pessoais cifraram-se em cerca de 50 mortos e 400 feridos e os danos materiais foram insignificantes, sobretudo se se tomar em consideração o que veio a acontecer posteriormente mas a surpresa táctica foi quase total - apenas um dos aviões foi atingido pela artilharia anti-aérea.
O voo dos bombardeiros prosseguiu por outras sete horas até à China, excepto um dos aviões que se preferiu encaminhar para a União Soviética por estar a consumir combustível em excesso. Foi o único dos 16 B-25 que chegou a aterrar numa base aérea do Extremo Oriente russo. Todos os outros ou realizaram uma aterragem forçada ou a sua tripulação saltou em para-quedas. No computo global, 69 membros do raid salvaram-se, 3 morreram e 8 foram capturados pelos japoneses, embora 4 destes últimos viessem a morrer até serem libertados em 1945. A missão terá sido militarmente insignificante, mas, do ponto de vista político e para a moral dos norte-americanos naquele preciso momento teve uma importância extrema. James Doollitle foi condecorado com a mais alta condecoração americana, promovido a oficial general (saltando duas patentes), foi transformado em suma num herói nacional.

17 abril 2022

O QUE É CERTO...

...é que o programa O Princípio da Incerteza da CNN ganhou com a troca da protagonista nomeada pela área do PS. Ao contrário do que acontecia desesperadamente com a antecessora, Alexandra Leitão parece dizer muitas outras coisas para além de lugares-comuns. Não é preciso que eu concorde com o que ela diz. É só preciso que aquilo que ela diz pareça pertencer-lhe, merecer atenção e ter sido pensado por si.

A ASSINATURA DO PACTO DE PARIS

17 de Abril de 1922. Assinatura em Paris de um Pacto entre as duas facções monárquicas portuguesas, ambas pertencentes à casa de Bragança. A mais importante era protagonizada por D. Manuel II, o rei de Portugal entre 1908 e 1910, já que ele pertencia ao ramo da família que reinara em Portugal até à implantação da República em Outubro de 1910. O outro ramo da família Bragança, era encabeçado pelo jovem D. Duarte Nuno de 14 anos, um neto bastante tardio do último rei daquela facção, Miguel I que reinara em Portugal entre 1828 e 1834. O acordo envolvia cláusulas políticas bastante elaboradas que a notícia publicada no Diário de Lisboa dá conta, mas a explicação mais simples, a que perdurou para a história era bem mais prosaica. D. Manuel II contava então 32 anos e estava casado há oito anos e meio mas ainda não tivera nenhum filho. E não havia herdeiros próximos do seu lado da família: o seu pai e o seu único irmão (mais velho) haviam sido assassinados em 1908; o seu único tio paterno morrera em 1920, também sem descendência. Havia que procurar entre os ramos colaterais dos Braganças e os seus familiares mais próximos eram estes seus primos distantes, porém rivais, dos tempos da Guerra Civil (1832-34). E com a assinatura deste pacto, D. Manuel II acaba por endossar as pretensões ao trono do jovem D. Duarte, mas apenas na eventualidade de ele vir a morrer sem herdeiro, o que veio a acontecer em Julho de 1932. Por muito importante que fosse todas estas congeminações para a causa monárquica, a realidade é que nunca mais se pôs com seriedade a questão da restauração da monarquia em Portugal.

16 abril 2022

O «SÍNDROME DE RAPALLO»

Depois de o termos evocado por ocasião do seu centenário no poste anterior, vale a pena desenvolver mais um pouco o dito tratado de Rapallo, nomeadamente aquilo que em diplomacia e relações internacionais se veio a denominar por «síndrome de Rapallo» - as reacções hiper-cautelosas de todo o resto dos países europeus quando a Alemanha e a Rússia procedem a reaproximações demasiado exuberantes. Depois de Rapallo, a história dessas reaproximações tem dado desfechos não conclusivos: houve o pacto entre Hitler e Staline em 1939, que precipitou a Segunda Guerra Mundial, mas também houve a Östpolitik de Willy Brandt a partir de 1970, que muito contribuiu para distender as tensões entre blocos na Europa provocadas pela invasão russa da Checoslováquia em 1968. Mas a fotografia acima é do último episódio em que se tornou a vivenciar (como agora se diz...) esse síndrome de Rapallo, quando o chanceler alemão Gerhard Schröder (1998-2005) coexistiu no poder com o presidente russo Vladimir Putin e pareciam dar-se muito bem. Tão bem que, quando Schröder abandonou o cargo, foi trabalhar para empresas ligadas a interesses russos. Se fosse noutro país, teria sido um escândalo, mas nos países da Europa setentrional em geral, e na Alemanha em particular, já se sabe que, por regra, não há escândalos... Mas, apesar de Schröder passar a ser considerado o «homem que os russos compraram», desde 2005 e com Angela Merkel, a política externa alemão tem-se distanciado da Rússia. O futuro veio demonstrar que talvez não o suficiente. Todavia, a verdade é que invasão russa da Ucrânia trouxe Schröder de novo para a ribalta - num mau sentido: sucederam-se as desconsiderações para consigo, nomeadamente a sua expulsão de uma data de cargos honorários, um pesado mau estar à sua volta. Tanto assim que Schröder se sentiu na obrigação de fazer qualquer coisa: foi a Moscovo onde se terá encontrado com Putin a 10 de Março para intermediar. E, evidentemente, quase ninguém deu por isso. Esta história das excelentes relações pessoais entre os grandes dirigentes é muito sobrestimada pela comunicação social que as publicita, porque a verdade evidente é que a sua utilidade desaparece quando os «grandes dirigentes» deixam de «dirigir».

A ASSINATURA DO TRATADO DE RAPALLO

Rapallo é uma pequena cidade nos arredores de Génova, na Noroeste de Itália. Foi nessa cidadezinha que, no Domingo de Páscoa de há precisamente 100 anos, alemães (esquerda da foto) e russos (direita) assinaram um surpreendente tratado internacional, reestabelecendo relações próximas entre os dois países. A surpresa da assinatura decorre do facto de ela se ter verificado à margem, mas ao mesmo tempo aproveitando a logística e a disponibilidade, de uma conferência económica e financeira que estava a decorrer precisamente em Génova e que reunia 34 países. As cerimónias de abertura dessa conferência, promovida sobretudo pelos britânicos e protagonizada pelo seu 1º ministro David Lloyd George, haviam tido lugar no dia 10 de Abril. Um dos objectivos da conferência era o de acomodar as duas potências marginais à ordem que saíra do Tratado de Versailles: a Alemanha derrotada em 1918 e a Rússia revolucionária desde 1917. Ora a assinatura deste tratado, ainda a conferência não completara uma semana sequer, era a completa desautorização dos propósitos de Lloyd George. Daí a reacção desagradada que podemos ler abaixo, que foi publicada no Diário de Lisboa dois dias depois. Alemães e russos aliavam-se e preparavam-se para agir concertadamente ainda antes das negociações. Registe-se o pormenor técnico que o tratado foi firmado entre a Alemanha e a República Federativa Socialista Soviética Russa e não com a União Soviética (as cláusulas do tratado foram posteriormente estendidas à Ucrânia, à Bielorrússia e às outras repúblicas da União). Os principais aspectos do tratado eram que a Alemanha e a Rússia retomariam as suas relações diplomáticas e económicas, que haviam sido interrompidas pela guerra e depois perturbadas pela revolução russa e pela guerra civil, beneficiando-se ambas reciprocamente do princípio do tratamento de nação mais favorecida. Este último aspecto foi importante para a Alemanha, porque muita da sua produção industrial continuava a ser boicotada pelos Aliados. Além disso, ambos os estados renunciaram às reparações por danos de guerra e a Alemanha também renunciou às compensações por propriedades anteriormente alemãs que haviam sido nacionalizadas pelos soviéticos. Havia sobretudo um acordo para fornecer à Rússia soviética os equipamentos industriais que permitiriam operar os campos de petróleo de Baku, contornando as empresas ocidentais. Além disso, os alemães comprometiam-se a criar uma rede de distribuição dos produtos petrolíferos russos. O primeiro cliente era a própria Alemanha que pretendia assim diminuir a sua dependência dos cartéis petrolíferos anglo-americanos, que dominavam aquele mercado. Como é evidente, a conferência de Génova estava, a partir dali, condenada ao fracasso. 

15 abril 2022

O TERCEIRO SEPTENATO DE ÓSCAR CARMONA

15 de Abril de 1942. Depois de uma eleição que não teve história (mas também não teve oposição), o general Óscar Carmona iniciava um terceiro mandato de sete anos como presidente da República. Um presidente que apenas presidia, porque à frente dos destinos do país permanecia um outro presidente (de conselho), o senhor que acompanha o empossado na caleche da fotografia acima. É uma fotografia interessante, de resto, daqueles tempos de há oitenta anos, em que ainda se comparecia às cerimónias em viaturas puxadas por cavalos. Diz-nos uma legenda que «à estribeira esquerda se vê o brigadeiro Pereira Coutinho, que era o comandante da força de cavalaria que escoltava o presidente. À estribeira direita vê-se o general Peixoto e Cunha, o então governador militar de Lisboa.» Nestes outros tempos, que (não esqueçamos) eram também de guerra, era deste modo que os oficiais generais se exibiam publicamente, em cerimónia muito concorridas. Oitenta anos passados, vão à televisão opinar sobre a invasão da Ucrânia.

14 abril 2022

QUANTO JUAN CARLOS PARTIU A PERNA NUMA CAÇADA À FAMÍLIA DO BABAR...

14 de Abril de 2012. Enquanto a Espanha atravessava uma séria crise económica (o PIB espanho descerá naquele ano 1,6%), o seu rei, Juan Carlos de Borbón y Borbón, tem o azar de partir uma perna quando realizava uma caçada aos elefantes no Botswana. Como então noticiava um suplemento humorístico, o rei foi apanhado a caçar a família do seu primo Babar (um simpático rei elefante de uma série de contos infantis). A visita de Juan Carlos era privada, mas a evacuação do monarca de 74 anos para Espanha, essa já teve que se realizar a expensas do Estado e o episódio acabou por cair genericamente muito mal e, de uma vez por todas, o aparelho institucional terá decidido deixado cair o rei. Tantas vezes a sua imagem pública fora amparada desde a sua ascensão ao trono em 1975, mas o esforço para encobrir as suas actividades terá terminado naquele dia e foi a derrocada de uma imagem de décadas. Juan Carlos teve de abdicar dois anos depois no filho, Filipe VI. E mais meia dúzia de anos depois disso, um jornal sintetizava assim tudo aquilo que fora entretanto descoberto a seu respeito: «Máquina de contar dinheiro instalada no palácio, alegados subornos, amizades tóxicas e aventuras sexuais. Decadência do antigo monarca espanhol começou há muito. Mas só se conhece a ponta do iceberg

13 abril 2022

A DISSOLUÇÃO DAS SA E DAS SS

13 de Abril de 1932. «O governo alemão resolveu, finalmente, tomar a única atitude possível num regime de ordem...», lia-se no dia seguinte no Diário de Lisboa. De facto, o ministro alemão do Interior e da Defesa, Wilhelm Groener, com o apoio do chanceler do Reich, Heinrich Brüning, ordenara a proibição das organizações paramilitares nacional-socialistas, as SA e as SS (a primeira era então muito mais importante do que a segunda). Os dois estavam-se a aproveitar do momento político resultante da vitória nas eleições presidenciais de Paul von Hindenburg e a consequente derrota de Adolf Hitler. Só que, sabe-se hoje, esta resolução não contava com o apoio do presidente recém-reeleito. Apesar de ter assinado o decreto que lhe haviam posto à frente, Paul von Hindenburg irá manobrar para que o governo de Brüning fosse derrubado e que, para o cargo, fosse nomeado um chanceler mais conforme os seus desejos. Isso veio a acontecer em 1 de Junho de 1932 na pessoa (e no governo) de Franz von Papen. Desnecessário será acrescentar, já que se conhece a continuação desta História e das suas consequências, que o decreto de Groener foi logo anulado em 16 de Junho de 1932. Contudo, vale a pena dar realce a estes episódios para que se perceba que a ascensão do nazismo na Alemanha não se revestiu do carácter de inexorabilidade das narrativas simplistas mais populares de ouvir. Mesmo na direita tradicional alemã, houve quem se quisesse opor ao nazismo, e houve quem tivesse sido seu cúmplice.

12 abril 2022

APRENDER A LER OS SUBENTENDIDOS DE UM JORNAL PORTUGUÊS DURANTE O PERÍODO DO ESTADO NOVO

12 de Abril de 1962. Em primeira página, o Diário de Lisboa anuncia a libertação próxima dos rebeldes cubanos que haviam estado envolvidos no desembarque da Baía dos Porcos em Abril do ano anterior. A habilidade de um leitor português de há sessenta anos era perceber que o destaque dado àquela notícia era uma alusão indirecta aos soldados portugueses que ainda estavam aprisionados na Índia, na sequência da invasão desta de Goa, Damão e Diu de Dezembro de 1961. Por sinal, sabe-se hoje que a notícia era falsa ou, pelo menos, muito prematura: os exilados cubados só irão ser libertados pelo governo de Fidel Castro em finais de Dezembro daquele ano. Mas, perguntar pelo andamento das negociações para a libertação dos prisioneiros portugueses na Índia era, como se imagina, um assunto tabu na imprensa portuguesa.

A ANABELA DE MALHADAS

A estupidez humana é infinita e intemporal. O diálogo do locutor com a Anabela de Malhadas (que acima podemos apreciar) equivalerá muito às minha repetidas tentativas - infrutíferas - de desencorajar aquele que se tornou no meu comentador residente, Luís Lavoura. Desencorajamentos esses, expressos de uma forma inequívoca, grosseira mesma, para que ele não prossiga com a sua actividade. Mas ele e a Anabela parecem ser pessoas tão obtusas, que nos questionamos se terão um Q.I. mensurável.

11 abril 2022

O MÉLANCHON/MÉLONCHON AGORA TORNOU-SE O... MÉLÉCHON

Por assumida curiosidade, fui ouvir o podcast de hoje de José Manuel Fernandes para saber se, depois de cinco anos e depois de ter provocado a exasperação em directo televisivo do embaixador Seixas da Costa, o opinador-que-tem-uma-opinião-ou-várias-sobre-tudo já aprendera finalmente a pronunciar correctamente Mélenchon. Não. E engana-se sempre na sílaba do meio! Depois de trocar discricionariamente a vogal (A ou O, conforme a ocasião, Mélanchon ou Mélonchon), agora deu-lhe para a ablação do N e o esquecimento do tom nasalado da sílaba. José Manuel Fernandes passou a tratar Jean-Luc Mélenchon por MéLÉchon (podemos ouvir o (dis)tratamento na sua pronúncia peculiar, ao minuto 7:24). Havia o ridículo da má pronúncia em 2017. E há o ridículo adicional da má pronúncia se perpetuar em 2022. O episódio é exemplificativo do que é a mediocridade da figura José Manuel Fernandes, e do que é a falta da nossa exigência colectiva para que tais figuras percam o inexplicável protagonismo por que continuam a ser tratadas.