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22 setembro 2019

O INCIDENTE DE VELA (HISTÓRIAS DE MISTÉRIO E IMAGINAÇÃO)

22 de Setembro de 1979. Conforme se pode ler na Wikipedia: «O incidente de Vela, também conhecido como o "flash" do Atlântico Sul, foi um "flash" duplo de luz não identificado detectado por um satélite americano Vela em 22 de Setembro de 1979 perto das ilhas Prince Edward, no Sul do Oceano Índico. A causa do "flash" permanece oficialmente desconhecida e algumas informações sobre o evento continuam classificadas. Embora tenha sido sugerido que o sinal poderia ter sido causado por um meteorito atingindo a Terra, os 41 "flashes" duplos anteriores detectados pelos satélites Vela haviam sido causados por testes de armas nucleares (nota minha: embora tivesse sido precisamente para detectar testes nucleares que os satélites daquela classe haviam sido colocados em órbita*). Hoje, a maioria dos pesquisadores independentes acredita que o "flash" de 1979 foi causado por uma explosão nuclear - talvez um teste nuclear não declarado realizado conjuntamente pela África do Sul e por Israel.»

Na verdade, o painel de especialistas científicos que o NSC reuniu à época não conseguiu ser conclusivo quanto à origem do que o satélite detectara. No seu relatório de 23 de Maio de 1980 podia ler-se (no original): «although the Panel is not able to compute the likelihood of the September 22, 1979 event being a nuclear explosion, based on our experience in related scientific assessments, it is our collective judgment that the September 22 signal was probably not from a nuclear explosion.» Em contrapartida, um relatório concorrente, elaborado por um painel de membros dos serviços de informações era taxativo em concluir (mais uma vez, no original) que tinha: «...high confidence, after intense technical scrutiny of satellite data, that a low-yield atmospheric nuclear explosion occurred in the early morning hours of 22 September 1979.» É um daqueles casos em que as duas conclusões não devem ser sopesadas da mesma maneira. A comunidade das informações americana tinha que proteger "as suas costas", acautelando o worst-case scenario que era representado pelos eventuais sinais de proliferação nuclear que estariam ali a ser protagonizados por dois aliados mal comportados dos Estados Unidos: África do Sul e Israel.

E claro, caso se se tivesse tratado de um ensaio nuclear clandestino, o potencial de mistério de todo o acontecimento seria completamente outro! Constate-se que é a controvérsia baseada nisso e não os factos conhecidos que dão robustez à página da Wikipedia que é dedicada ao Incidente de Vela! Só que, por outro lado, passaram-se entretanto quarenta anos! O segredo da capacidade nuclear de Israel é hoje um segredo de polichinelo. Houve uma mudança de regime na África do Sul. Contudo, apesar de se ter a certeza que esse hipotético ensaio nuclear teria que ter contado com a colaboração de centenas de pessoas (a Operação Argus, realizada pelos Estados Unidos em paragens próximas 20 anos antes, contara com a participação de nove navios), nestes últimos quarentas anos não apareceu nem uma pessoa que fosse testemunha do hipotético ensaio nuclear. Um verdadeiro "síndrome de Área 51": o síndrome original mete extraterrestres e discos voadores desde há mais de 70 anos, mas, também aqui, a melhor explicação para o mistério é não haver mistério algum. Adenda: mas , pelos visto, isso não interessa nada ao Observador.
* E conhece-se aquele aforismo que estabelece que quem se equipa com um martelo tem tendência para abordar tudo com o que se depara pela frente como se fossem cabeças de prego...

30 junho 2019

O MUNDO DO AVESSO?

Dia 30 de Junho. De 1939 e de 1969. Nas notícias do primeiro desses dias, noticiava-se o terrorismo na Palestina. Só que as vítimas dos atentados eram árabes e os seus autores israelitas. E era sobre estes que a repressão incidia (a autoridade tutelar da Palestina era o Reino Unido). Nas notícias do segundo desses dias, os britânicos mostravam-se ansiosos por entrar para a Comunidade Económica Europeia; esperavam que a recente eleição de Georges Pompidou provocasse uma inflexão da atitude francesa que, com Charles de Gaulle, já por duas vezes vetara a admissão do Reino Unido. Que estas duas notícias são o oposto do que se passa na actualidade não restam dúvidas, mas, a tratar-se do Mundo do avesso, com israelitas a aterrorizar árabes com bombas e a serem presos, e britânicos a exercerem todas as pressões possíveis para se juntarem à Europa, qual é o avesso, qual é o direito?

26 março 2019

AGORA TENTE LÁ DESCOBRIR AS DIFERENÇAS...


26 de Março de 1979. Nos jardins da Casa Branca em Washington, tem lugar a cerimónia da assinatura oficial do Tratado de Paz entre o Egipto e Israel (acima). O presidente dos Estados Unidos de então, Jimmy Carter (1924- ), serve de anfitrião e os signatários são o presidente Anwar Sadat (1918-1981) do Egipto e o primeiro-ministro israelita, Menachen Begin (1913-1992). Em consequência do Tratado, Israel comprometia-se a devolver faseadamente o território egípcio que ocupara durante a Guerra dos Seis Dias em 1967. Nem de propósito, ontem foi a vez do longínquo sucessor de Carter, Donald Trump (1946- ) assinar por sua vez uma declaração reconhecendo oficialmente a soberania israelita sobre os montes Golã, que os israelitas conquistaram à Síria nessa mesma guerra de 1967. Presente com Trump estava o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu (1949- ), mas, naturalmente, não havia nenhum representante sírio... Pelo contraste das suas cerimónias percebe-se com nitidez quanto os Estados Unidos se tornaram agora num actor da cena internacional diferente, perigosamente diferente, porque descaradamente parcial... Ou, como alertava o matemático Ian Malcolm (Jeff Goldblum) no filme Parque Jurássico, a supremacia norte-americana é tão evidente que os protagonistas da Casa Branca parecem ter-se esquecido da distinção ética entre a capacidade de poder fazer algo e a sabedoria de saber se o deve fazer...

25 fevereiro 2019

O MASSACRE DO TÚMULO DOS PATRIARCAS


25 de Fevereiro de 1994. Dá-se o Massacre do Túmulo dos Patriarcas na mesquita Ibrahim da cidade de Hébron, na Cisjordânia. Um israelita de origem norte-americana de 37 anos chamado Baruch Goldstein, militante de uma organização da extrema-direita religiosa entrou armado e amplamente municiado na mesquita à hora da oração (estava-se no 14º dia do Ramadão) e desatou a disparar sobre os fiéis. O tiroteio só acabou quando o atirador foi desarmado e morto à pancada pelos sobreviventes. A contagem das vítimas varia conforme as fontes, mas o número de mortos imediatos foram 29 e os feridos ultrapassaram a centena. Seguiram-se dias de confrontação entre palestinianos e autoridades israelitas que causaram um adicional de vítimas, sensivelmente tantas quantas as do massacre original, mas o episódio foi um descalabro em termos da imagem que Israel desejava projectar internacionalmente de razoabilidade perante o extremismo radical e não contemporizador da causa palestiniana, da OLP e do Hamas. O próprio primeiro-ministro israelita de então, Yitzhak Rabin, condenou o atentado, mas tornara-se óbvia a existência de uma activa facção ultra-radical entre os judeus que se mostrava contrária ao estabelecimento de qualquer acordo de Paz com os árabes. No ano seguinte, um outro membro dessa facção iria assassinar o próprio Rabin. E, cinquenta anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, o capital de simpatia granjeado a Ocidente por aquelas que haviam sido as maiores vítimas do nazismo, praticamente esgotara-se.

22 janeiro 2019

O ASSASSINATO DO COMANDANTE OPERACIONAL DO SETEMBRO NEGRO


22 de Janeiro de 1979. Quem visse estas imagens recolhidas pela Associated Press no dia seguinte numa rua comercial de Beirute, com carros destruídos e edifícios danificados, jamais se poderia aperceber da importância do que ali acontecera. Ali Hassan Salameh (1940-1979) era o chefe de operações da organização palestiniana Setembro Negro cuja notoriedade mundial se produzira seis anos e meio antes (no Verão de 1972), ao patrocinar o sequestro em Munique da delegação israelita aos Jogos Olímpicos. A retaliação engendrada pelos israelitas sobre os autores do que veio a ser um massacre dos reféns, veio a ser popularizada pelo filme Munich de Steven Spielberg (2005). Mas nem mesmo esse filme exibe a operação retaliatória israelita de há quarenta anos contra Ali Salameh, aquele que terá sido o principal responsável operacional pelo que acontecera em Munique. A carrinha Chevrolet em que ele seguia naquela tarde (15:35) com os seguranças, passou mesmo ao lado de um Volkswagen carocha carregado com 100 kg de explosivos, que foram detonados à distância à sua passagem por um agente do Mossad. Quatro guarda-costas de Salameh e mais quatro transeuntes morreram na explosão. O visado ainda sobreviveu mas, apesar de transportado de imediato para um hospital, morreu meia hora depois enquanto estava a ser operado. Outras dezasseis pessoas ficaram feridas. A casualidade como os afectados parecem lidar com a situação no vídeo acima explica-se pelo facto de, desde há quatro anos, o Líbano viver uma destrutiva guerra civil em que tais incidentes eram comuns. O tempo veio demonstrar que Ali Hassan Salameh fora também um canal de comunicação entre a OLP e a CIA, e, por causa disso (mas não só...), especula-se que esse estatuto o terá levado a pensar que o colocaria razoavelmente a coberto das intenções vingativas dos israelitas. Enganou-se. Nas notícias do dia seguinte (abaixo), a OLP, numa raiva despeitada, proclamava que «decidira intensificar a luta contra Israel». E então?...

30 dezembro 2018

JUDEUS E CATÓLICOS

30 de Dezembro de 1993. Apesar de o Estado de Israel ter mais de 70 anos, foi apenas há 25 anos que o governo israelita e o Vaticano estabeleceram relações diplomáticas formais. E, como se pode apreciar acima através de uma fotografia recente dos dois titulares, a relação continua a ser muito pouco descontraída, assaz cerimoniosa... E isto apesar de uma apreciável percentagem de peregrinos que visitam Jerusalém e robustecem a indústria do turismo israelita serem católicos.

06 outubro 2018

PORTUGAL, A BASE DAS LAJES E A GUERRA DO YOM KIPPUR

6 de Outubro de 1973. Foi o dia do início da Guerra do Yom Kippur: egípcios e sírios atacaram de surpresa e simultaneamente os israelitas num dia feriado para os últimos. Mas as vicissitudes dessa guerra só nos interessem colateralmente, e nem sequer ainda haviam chegado às redacções dos jornais em qualidade e quantidade para aparecerem com o devido destaque na edição desse dia (canto inferior direito). Em contraste, o que nessa edição de há 45 anos se pode perceber muito claramente é o recado público que a diplomacia portuguesa, encabeçada pelo próprio ministro dos Negócios Estrangeiros português, Rui Patrício, pretendia transmitir ao Departamento de Estado norte-americano. Aproveitando a estadia daquele na ONU, em Nova Iorque, os portugueses não escondiam a sua diplomática irritação com o desinteresse demonstrado pelo outro lado com a renegociação atempada do acordo que lhes permitia a utilização da base das Lajes nos Açores. «Portugal não deseja renovar o arrendamento da base aérea americana dos Açores (...) o arrendamento termina dentro de três meses e, até agora, não se realizaram quaisquer negociações tendo em vista a renovação do contrato» são as palavras atribuídas a Rui Patrício. E, num desdém ostensivo pelas cláusulas vigentes, prosseguia: «dos 436 milhões de dólares prometidos por Washington (...), Portugal recebera apenas um pequeno navio de investigação oceanográfica e um milhão de dólares destinados a bolsas para estudantes portugueses que desejassem frequentar as universidades americanas.»
Um mau negócio: «(...) o seu governo não utilizou os 400 milhões de dólares de créditos (bancários) para a compra de produtos americanos, pois encontrara na Europa melhores condições». Em suma, se os Estados Unidos não se mostravam interessados em preservar as facilidades da base das Lajes, Portugal também não se mostrava interessado nas contrapartidas recebidas até aí pela concessão dessas mesmas facilidades. Mas em breve tudo isso se iria alterar radicalmente da parte dos Estados Unidos. À medida que a guerra do Yom Kippur evoluía, mais Israel se via à beira do colapso militar. A seu pedido, os Estados Unidos iniciaram uma vasta ponte aérea transportando material de guerra que substituísse aquele que estava a ser perdido na frente de combate. O vídeo abaixo dá uma versão estupidamente ingénua desse auxílio, embora a pretensa ingenuidade bíblica e o papel salvífico de Richard Nixon, não lhes dê, aos autores, para querer ressalvar também a importância geográfica única da base das Lajes para a montagem dessa ponte aérea que viria a ligar os Estados Unidos a Israel, salvando o seu povo. A anuência portuguesa foi preciosa, tanto mais que ela contrastou com a posição da esmagadora maioria dos restantes países europeus, que procuraram preservar a sua neutralidade no conflito israelo-árabe. E, por uma (primeira?) vez, os americanos perceberam o valor da localização da base das Lajes. Claro que o acordo, tão periclitante que estava, acabou por ser renovado e que o trabalho negocial da nossa diplomacia veio a ser muito facilitado...

02 outubro 2018

OUTRA CONQUISTA DE JERUSALÉM


2 de Outubro de 1187. Se a 15 de Julho deste ano se havia aqui assinalado a conquista de Jerusalém pelos cruzados em 1099 e em 11 de Dezembro passado o centenário da dos britânicos, é apenas proporcional assinalar no dia devido, mas agora do ano de 1187, a conquista da cidade pelos muçulmanos, comandados por Saladino. Todas estas conquistas tiveram a importância do seu tempo, assim como as actuais também deveriam ser equacionadas nessa mesma perspectiva, para que haja menos emoção e se possua um certo distanciamento sobre os factos: a supremacia europeia sobre a Palestina e o controlo de Jerusalém, local de peregrinação cristã, pelos cruzados, perdurou por 88 anos. E o Estado de Israel só ultrapassará essa duração a partir de 2036...

17 setembro 2018

O TERRORISMO «SIMPÁTICO»


17 de Setembro de 1948. Um grupo terrorista radical sionista assassinava o enviado especial da ONU para a resolução do problema israelo-árabe, quando este se encontrava numa visita de trabalho à Palestina, para propor uma solução que acomodasse a hostilidade árabe e a recente proclamação do estado de Israel. Folke Bernadotte (1895-1948) era um diplomata sueco pertencente à família real sueca (era neto do rei Óscar II), que já se distinguira por negociações para o resgate de prisioneiros durante a Segunda Guerra Mundial e que casara nos Estados Unidos com uma herdeira de um grande empório industrial local ligado ao amianto. Mas, nem mesmo o facto de Bernadotte ser nobre, de abraçar causas nobres, de ser rico e de, além disso, possuir uma bela figura, induzirá a comunicação social americana (e a mundial, por arrasto) a indignar-se retumbantemente com o seu assassinato, como seria de esperar tivessem sido outros os autores do atentado. Nos Estados Unidos, onde se iriam disputar eleições presidenciais em Novembro próximo, alguém criara a convicção generalizada que o voto judaico seria decisivo para o seu desfecho. A ideia prevalecente era cortejar os judeus, Israel e a causa sionista mesmo que alguns dos seus membros mais radicais cometessem estes actos hediondos.
O teor da notícia acima no New York Times é de destacar, mas pela sua excepcionalidade. Veja-se o contraste com a primeira página do Diário de Lisboa desse mesmo dia, que corresponde muito mais à cobertura noticiosa que o acontecimento recebeu. Nota-se na notícia abaixo a ausência de uma fotografia do assassinado (que seria muito mais pertinente do que a do avião que lá aparece...) e um vocabulário redutor: Bernadotte morreu, não foi assassinado. Quanto ao teor da notícia, nada se diz dos detalhes do atentado (que se podem ler acima, no cabeçalho do NYT, do lado direito: o carro foi emboscado, a autoria foi estabelecida). Quanto ao corpo da notícia, ela não passa uma reflexão vaga e (propositadamente?) genérica sobre as implicações da sua morte para a paz mundial... Neste clima, não surpreenderá saber que as investigações das autoridades israelitas para a captura dos responsáveis foram absolutamente negligentes. Tanto que Israel foi condenado em tribunal internacional a pagar à ONU uma indemnização de 54 mil dólares. E excepcionalmente neste caso, foi depois possível avaliar qual o apoio popular que esta organização terrorista gozava junto da população. Nas eleições de Janeiro de 1949, a sua fachada política legal conquistou 1 lugar de deputado entre os 120 com que contava o Knesset... Em nome de quem é que aquela gente adoptava àquela conduta?

13 setembro 2018

SÓ ACREDITA QUEM QUISER


Hoje cumprem-se precisamente 25 anos destes tão efusivos cumprimentos. A relutância de Rabin em cumprimentar Arafat, mais do que evidente, chegou a ser grosseira de tão ostensiva. Mas Rabin é que tinha razão: a questão israelo-palestiniana mantem-se substancialmente na mesma. Assim como o ditado popular diz que uma andorinha não faz a primavera, também na diplomacia um tratado laboriosamente trabalhado e uma cena bem coreografada não são garantia de qualquer desfecho feliz.

12 agosto 2018

OS DOIS MIGS SÍRIOS QUE ATERRARAM POR ENGANO EM ISRAEL

12 de Agosto de 1968. Há cinquenta anos, dois caças Mig-17 da Força Aérea síria aterravam inesperadamente num antigo aeródromo militar no Norte de Israel. Apesar de as autoridades israelitas terem noticiado que se devera a causas acidentais, a explicação foi acolhida com um cepticismo que se justificava por vários precedentes. Em 1962, numa operação de espionagem que correra mal, os israelitas haviam tentado aliciar um piloto egípcio de um Mig-17 a desertar para Israel. A operação correra mal, a rede de espionagem foi denunciada e três agentes acabaram executados. Porém, em 1964, uma operação semelhante foi bem sucedida, quando o capitão Mohammad Abbas Helmy  da Força Aérea egípcia desertou com o seu Yak-11 de treino para Israel. O desertor veio a ser executado no Cairo dois anos depois. E em Agosto de 1966, realizara-se uma terceira operação do mesmo género, protagonizada agora pelo capitão Munir Redfa da Força Aérea iraquiana, tendo em vista a obtenção de um caça Mig-21. Perante este historial, percebe-se o cepticismo internacional que acolheu as explicações oficiais de que o a aterragem dos Migs-17 do tenente Walid Adham e do 2º tenente Radfan Rifai, da Força Aérea síria, se devera a erros de navegação. Contudo, os pilotos sírios haviam aparentemente usado mapas datados de 1945, haviam entrado no espaço aéreo libanês, haviam-se desorientado e pensavam estar a aterrar numa base aérea do Líbano, quando estavam a aterrar num aeródromo praticamente desactivado em Israel, numa manhã soalheira (eram 08H45), e sem combustível suficiente para tornar a descolar . Era uma história suficientemente estúpida para ser verosímil. Não abonava nada em favor da preparação da navegação que era ministrada pela Força Aérea síria aos seus quadros, mas os factos posteriores vieram corroborá-la: os dois pilotos permaneceram aprisionados até 1970, aquando da realização de uma troca de prisioneiros entre israelitas e sírios. Acrescente-se que, em Outubro de 1989, um major sírio virá a desertar aos comandos de um Mig-23.

15 julho 2018

A CONQUISTA DE JERUSALÉM

15 de Julho de 1099. Conquista de Jerusalém pelos cruzados. Foi há 919 anos mas ainda ontem se assinou mais um cessar-fogo na região, embora não tenha a certeza que o problema seja ainda o mesmo...

02 maio 2018

O PASSEIO CLANDESTINO PELO JARDIM DE RECREIO

Cubitus, por Dupa. Para além da comicidade, há o sentido pedagógico do gag: aquele que vai à procura de corroborar suspeitas prévias, acaba regularmente satisfeito a encontrar provas, sejam quais forem as circunstâncias.

11 dezembro 2017

A RECONQUISTA DE JERUSALÉM

11 de Dezembro de 1917. Os otomanos haviam evacuado a cidade nos dias precedentes mas este foi o dia consagrado para assinalar a entrada dos Aliados em Jerusalém. A fotografia acima é o resultado da coreografia concebida pelos britânicos para a ocasião: no momento, pouco passará do meio-dia e o general Edmund Allenby (1861-1936), entra a pé pelo portão de Jaffa por deferência para com a santidade do local. Está acompanhado de um leque reduzido e escolhido do seu staff, onde se contam também os oficiais de ligação dos aliados francês, italiano e norte-americano, conforme se pode observar, aliás, no vídeo abaixo (os britânicos não se terão poupado a meios para cobrir a cerimónia). Seguiu-se um desfile participado por unidades constituídas na Inglaterra, Escócia, Irlanda, Gales, Austrália, Nova Zelândia, Índia, França e Itália. Mais do que a conclusão de uma operação militar, tratou-se de uma épica operação de relações públicas da Grã Bretanha, 730 anos depois da expulsão dos cruzados da cidade santa por Saladino. Em 1917 Jerusalém era uma cidade de 70.000 habitantes com uma maioria judaica um pouco inferior a ⅔ da população (45.000 judeus, 15.000 cristãos e 10.000 muçulmanos). Curiosamente, apesar de nestes 100 anos a população de Jerusalém se ter multiplicado por 12 e de também se ter tornado a capital de Israel, a proporção de judeus que a habitam continua a ser sensivelmente a mesma...

02 novembro 2017

O CENTENÁRIO DA DECLARAÇÃO BALFOUR«

«O Governo de Sua Majestade encara favoravelmente o estabelecimento na Palestina de um lar nacional para o povo judeu,...» Nota-se como a redacção é cuidada e como o governo britânico não se compromete substantivamente a grande coisa: limita-se a encarar favoravelmente algo que designa prudentemente por lar nacional. Ainda por cima, e apesar da resolução ter sido aprovada num conselho de ministros, note-se que foi Arthur James Balfour, o secretário do Foreign Office (assinalado abaixo à direita), e não o primeiro-ministro David Lloyd George (à esquerda), o encarregado de a transmitir por carta a Lionel Walther Rothschild. No momento, esta terá sido mais uma de milhentas resoluções produzidas pelas circunstâncias da Grande Guerra, a que só o tempo e a utilização que lhe foi dada pelos destinatários veio a dar importância.

06 outubro 2017

O INÍCIO DA GUERRA DO YOM KIPPUR

6 de Outubro de 1973. Neste dia de há 44 anos e à hora mais canonicamente improvável para o desencadear de ofensivas militares (14H00), egípcios e sírios, de uma forma simultânea e concertada iniciaram uma ofensiva sobre as posições que os israelitas haviam conquistado seis anos antes durante a Guerra dos Seis Dias. Esta intenção de desforra árabe, a que se deu o nome de Guerra do Yom Kippur, em alusão ao feriado religioso judeu que desguarnecia precisamente naquele dia as...

...guarnições das posições defensivas israelitas, foi tanto uma guerra convencional (para a descrição detalhada da qual se sugere o livro acima de Pierre Razoux), como uma guerra de propaganda. Logo no primeiro dia de operações tanto sírios (vídeo acima), como egípcios (no de baixo) se apressaram a exibir diante dos correspondentes da imprensa internacional as rendições e os próprios prisioneiros israelitas em situações humilhantes, à semelhança do que haviam feito os israelitas seis anos antes.

05 setembro 2017

O MASSACRE DE MUNIQUE

5 de Setembro de 1972. Um grupo de oito comandos palestinianos assaltou a aldeia olímpica e faz nove reféns entre os membros da delegação israelita presente nos jogos. Dois israelitas foram mortos ainda na fase de se defenderam dos atacantes. Vai ser uma história com um final fatal: todos os reféns e cinco dos terroristas vão morrer no dia seguinte, na sequência de uma muito medíocre operação de resgate. A reconstituição do assalto ao complexo desportivo que veio a ser feita pelo filme Munich (2005) adiciona o pormenor prosaico dos assaltantes terem recebido o auxílio cúmplice de alguns atletas norte-americanos transviados, simbolicamente generosos mas alheios a questões que não lhes dissessem directamente respeito. E como o resto do Mundo, também ingénuos quanto à preservação da tradição clássica que, durante os jogos olímpicos, cessava toda a beligerância.

08 julho 2017

ALGUMAS SAÍDAS, AINDA À ESPERA DE EVENTUAIS ENTRADAS


Na mesma semana em que foi notícia que o antigo primeiro-ministro israelita Ehud Olmert fora libertado antecipadamente da prisão, não foi notícia que se vencera mais um prazo estabelecido para a conclusão da acusação ao antigo primeiro-ministro português José Sócrates (para mais pormenores, ampliar a notícia da Visão abaixo de há três meses e meio).

04 julho 2017

O «POGROM» DE KIELCE

4 de Julho de 1946. Há exactamente 71 anos tinha lugar um pogrom (palavra de origem russa que designa um ataque colectivo e maciço aos indivíduos e propriedades de uma minoria segregada, normalmente judeus) em Kielce, uma média cidade do centro-sul da Polónia (205.000 habitantes na actualidade). Nos anos precedentes, a Polónia assistira a milhares de outras ocorrências como aquela: sob ocupação alemã, a comunidade judaica polaca reduzira-se de 3,3 milhões em 1939 para 0,5 em 1945. A particularidade desta efeméride está no ano: 1946. A Segunda Guerra Mundial já acabara há catorze meses, os alemães (especialmente os residentes a oeste da nova Polónia) passaram de algozes a vítimas, expulsos desta vez pelos polacos que lhes ficavam com propriedades e bens, mas a ocorrência deste pogrom demonstrava que a sorte dos judeus só evoluíra no sentido de deixarem de ser exterminados industrialmente. Podia ser verdade que a morte de 42 judeus (e tantos outros feridos) perseguidos pela multidão seriam comparativamente um detalhe numa comunidade que se reduzira a 15% do que fora, mas o episódio representava um clímax que chocava todos aqueles que dele tiveram conhecimento. Depois do incidente, confrontaram-se duas máquinas de propaganda com interesses diferentes: a) a do regime comunista polaco quis abafá-lo, pois ele perturbava seriamente a legitimidade que o regime desejava e que os Aliados Ocidentais não lhe queriam conferir; o referendo que o regime havia organizado no Domingo anterior (30 de Junho de 1946) fora uma gigantesca fraude; b) a dos sionistas judeus quis empolá-lo o mais possível, posto que transmitir a imagem de insegurança (mesmo após a guerra) das comunidades judaicas da Europa de Leste era uma forma de estimular essas comunidades a emigrar e condicionar as opiniões públicas ocidentais a aceitar a emigração de todos esses judeus para a Palestina. Dali por 21 anos (1967), já a comunidade judaica na Polónia estaria reduzida a umas 25 a 30.000 pessoas, a esmagadora maioria delas sem ser sequer praticantes mas isso não impediu que houvesse uma última campanha anti-sionista na Polónia.
Só se surpreende com algumas características ultra-conservadoras e xenófobas da direita polaca quem desconhecer a história daquele país. A xenofobia foi característica transversal da sociedade. E quanto ao aspecto da memória, repare-se ainda que quem descerrou a placa evocativa acima foi Lech Wałęsa em 1990 - 44 anos depois dos acontecimentos...

21 junho 2017

MENAHEM BEGIN COMO PRIMEIRO-MINISTRO DE ISRAEL

Há quarenta anos, Menachem Begin tornava-se primeiro-ministro de Israel. Era o sexto a ocupar o cargo em 29 anos de história do Estado, mas o seu executivo era o primeiro que não contava com o apoio da esquerda israelita. Por um lado, a presença da esquerda no poder em Israel durante essas três primeiras décadas (que fora muito bem promovida, de resto: não havia nada de mais igualitário do que os kibutzim, verdadeiros kolkhozes do deserto!) refreara um pouco o alinhamento que se conferia a Israel no quadro da Guerra-Fria. (Ainda outro dia li alguém a confessar aqui numa rede social que, mesmo sendo daquele esquerda que não pode ser outra coisa senão de esquerda, simpatizava com o lado dos israelitas em 1967, durante a Guerra dos Seis Dias). Contudo, por outro lado, e para a concretização de negociações de paz, essa mesma esquerda sempre vivera sob a sombra das acusações de brandura no tratamento com os inimigos árabes por parte desta mesma direita mais radical que em 1977 chegava finalmente de forma isolada ao poder. Menachem Begin fora um dirigente terrorista durante o período colonial britânico (como a notícia do Diário de Lisboa de há 40 anos faz acima questão de frisar). O seu inimigo haviam sido não apenas os árabes mas também os britânicos. E como político do novo Estado de Israel, Begin era daqueles que não se mostrava "nada modesto no pedir": veja-se a configuração de Israel que consta no mapa da foto abaixo, onde o vemos a discursar num comício - inclui não só Israel mas também toda a Jordânia! Porém, o facto de não ter (quase) ninguém a criticá-lo por moderação iria ajudá-lo a conseguir um Tratado de paz com o Egipto dali por dois anos. Pareceu o início de um ciclo em que Israel iria conseguir firmar progressivamente acordos separados com todos os seus vizinhos árabes, trocando a posição militar vantajosa que alcançara em 1967 e 1973 por segurança dentro das fronteiras que a ONU lhe reconhecera. Parecia, mas não foi assim. Os contornos do conflito alteraram-se mas, feitas as contas, Begin já teve seis sucessores no cargo depois de o ter abandonado em 1983 e, com excepção do caso do Egipto e também o da Jordânia (mas trocando-os com os da Cisjordânia e da Faixa de Gaza), a situação de (in)segurança permanece essencialmente a mesma da que existia há quarenta anos.