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05 junho 2024

COMO É QUE O DISCURSO DE ISRAEL EVOLUIU EM 60 ANOS

5 de Junho de 1964. Numa sessão realizada no Overseas Press Club em Nova Iorque, o primeiro-ministro israelita da altura, Levi Eshkol (1895-1969), proferiu um discurso em que negava o expansionismo de Israel para além das fronteiras que alcançara em consequência da Guerra israelo-árabe de 1948. Convém explicar que o discurso fora proferido diante de uma audiência composta primordialmente por jornalistas, não apenas os correspondentes de outros países sediados nos Estados Unidos, que são a razão de ser do Clube OPC, mas também os próprios jornalistas americanos, todos interessados em compreender quais as intenções do governo israelita face aos seus vizinhos árabes. As passagens mais significativas do discurso apareciam publicadas na edição do dia seguinte do New York Times. E o que Eshkol dissera é que eram os líderes árabes que levantavam erradamente a perspectiva que os israelitas se queriam expandir para lá das fronteiras que haviam obtido, enquanto, paradoxalmente, se recusavam a garantir as fronteiras existentes. A garantia de Eshkol é que a expansão económica indústria e agrícola antevista por Israel não necessitava de mais espaço do que aquele que então dispunha, e que aquilo que Israel mais precisaria nessa fase era de evolução técnica e científica, não de expansionismo. À noite, Eshkol fora jantar com o embaixador americano nas Nações Unidas, o antigo candidato presidencial democrata Adlai Stevenson (1900-1965). O primeiro ministro de Israel aparecia naquela altura internacionalmente como uma pomba...

Outra história associada a Eshkol, que é mais vezes evocada, é que a intenção de Israel nesta época seria a de projectar internacionalmente uma imagem que lembrasse a figura de Sansão, com as sua forças e fraquezas bíblicas. Pessoalmente, prefiro esta outra história que aqui publico, porque não está trabalhada para efeitos de propaganda. Embora não se possa responsabilizar pessoalmente Levi Eshkol por tudo aquilo que veio a acontecer no Médio Oriente depois de 1964, este é um discurso que vale a pena ser recordado em toda a sua hipocrisia sessenta anos depois de ter sido proferido, neste momento em que as tropas israelitas continuam as suas operações militares em Gaza e continuam a proliferar os colonatos instalados pelos israelitas em toda a Cisjordânia, como se vê no mapa abaixo.

15 abril 2024

TENHO 99% DE CERTEZA QUE OS 99% DE TAXA DE SUCESSO NAS INTERCEPÇÕES DOS MÍSSEIS IRANIANOS SÃO UMA ALDRABICE

Embora o assunto seja completamente distinto, estes 99%, que foram compilados com tanta celeridade - ainda os mísseis e os drones iranianos mal tinham acabado de atingir Israel, inteiros ou aos pedaços - estes 99%, escrevia, fazem-me lembrar os escrutínios de eleições em locais tão confiáveis quanto a Coreia do Norte. Há números - o 7 e 99% são dois deles - que têm uma mística muito própria...

10 abril 2024

A DEMISSÃO DE GOLDA MEIR EM ISRAEL

10 de Abril de 1974. Golda Meir, que era desde 1969 a primeira-ministra de Israel, anuncia a sua demissão do cargo. O gesto, que tem lugar à saída de uma reunião política, é considerado inesperado, mas todas as notícias que dão conta do ocorrido (como esta acima) não adiantam quaisquer explicações para a decisão. Hoje sabe-se que a origem da controvérsia e contestação que levou à demissão de Golda Meir assentava nas conclusões do relatório da Comissão Agranat (já aqui abordada neste blogue), conclusões essas que se escusavam de atribuir responsabilidades na impreparação do exército israelita durante a eclosão da Guerra do Yom Kippur à primeira-ministra e ao ministro da Defesa Moshe Dayan. As conclusões haviam saído no princípio daquele mês e a sua indulgência causara uma reacção antagónica disseminada. Desconfia-se que será para evitar um efeito colateral semelhante a este que o actual primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu persevera para que a ofensiva em Gaza continue. Enquanto se mantiver a guerra, não haverá espaço para inquirições e comissões para que haja um apuramento de responsabilidades políticas quanto à impreparação do exército israelita durante o ataque do Hamas de 7 de Outubro de 2023. Conhecendo a história, Netanyahu não quer cometer o mesmo erro que a sua antecessora.

07 abril 2024

AS "DEMISSÕES" NO EXÉRCITO ISRAELITA - OS DEMITIDOS TÊ-LO-ÃO SIDO COM JUSTA CAUSA?...

Em consequência dos ataques (separados) que o exército israelita efectuou sobre três jipes de uma ONG em Gaza, ataques esses que causaram sete mortos, as relações públicas dos israelitas vieram informar a comunicação social internacional que os militares iriam demitir dois oficiais seniores por... cada um dos três órgãos de comunicação do exemplo acima escolhe a sua versão: "serious violation of commands", "serious failure" ou "mistaken identification"! Deixei passar dois dias aguardando que este disparate fosse emendado, complementando-o com algo de mais substantivo sobre o assunto... mas não. É que oficiais do exército israelita, ou de qualquer outro exército (decente) do mundo, quando cometem erros desta gravidade e diante de toda uma opinião pública mundial, a terem de ser sancionados, tê-lo-ão diante de um tribunal militar e não apenas com uma qualquer pena de demissão administrativa, como se se tratasse de empregados de uma empresa comercial que tivessem feito uma asneira menor. Quando vemos aquela mesma comunicação social internacional a dar voz à reacção da ONG que foi atacada (WCK), com esta última a considerar que o exército israelita não pode ser juiz da sua própria conduta, aquilo que parece a este observador é que, não só o assunto parece encerrado para os israelitas, como lhes falta, aos órgãos de comunicação social de todo o mundo, a capacidade de ir ao fundo deste caso, tendo sido completamente toureados quanto ao que seria de esperar das autoridades israelitas nestas circunstâncias. Atiraram-lhes com um coronel e um major demitidos, sem explicações substantivas, e é assim que parece que está o assunto encerrado.

23 março 2024

PELOS VISTOS, HÁ VINTE ANOS ISRAEL JÁ HAVIA ARRUMADO O ASSUNTO DO HAMAS, «DECAPITANDO-O»...

23 de Março de 2004. Para simplicidade desta mensagem, vamo-nos descartar das questões de legitimidade e de moral que estiveram associadas ao assassinato por Israel do xeque Ahmed Yassim, fundador do Hamas. Concentremo-nos na funcionalidade do assassinato, condensada na mensagem posta a circular por Israel para se explicar perante o resto do Mundo e que aparece acima ao centro: «Israel decapita Hamas». Subentendido: foi um gesto brutal, mas um mal necessário para pôr fim à actividade terrorista de um Hamas que era assim «decapitado». Notoriamente, vinte anos decorrido estamos em condições de afirmar com toda a segurança que não pôs fim. E não terá sido anteontem que terá posto fim (ainda outra vez) ao mesmo Hamas... Os anúncios, de tão repetidos, descredibilizam-se. Visto à distância, Israel mantêm-se exactamente no mesmo sítio onde sempre esteve no que concerne às questões da segurança do seu Estado e dos seus cidadãos e, sobretudo, quanto ao problema de fundo da coexistência com os palestinianos. E no entretanto parece que os israelitas esgotaram quase todo o capital de simpatia de que gozaram durante os primeiros cinquenta anos de existência do seu Estado. Israel está cada vez mais isolado.

25 fevereiro 2024

O MASSACRE DO TÚMULO DOS PATRIARCAS

(Republicação com adendas)
25 de Fevereiro de 1994. Dá-se o Massacre do Túmulo dos Patriarcas na mesquita Ibrahim da cidade de Hébron, na Cisjordânia. Um israelita de origem norte-americana de 37 anos chamado Baruch Goldstein, militante de uma organização da extrema-direita religiosa entrou armado e amplamente municiado na mesquita à hora da oração (estava-se no 14º dia do Ramadão) e desatou a disparar sobre os fiéis. O tiroteio só acabou quando o atirador foi desarmado e morto à pancada pelos sobreviventes. A contagem das vítimas varia conforme as fontes, mas o número de mortos imediatos foram 29 e os feridos ultrapassaram a centena. Seguiram-se dias de confrontação entre palestinianos e autoridades israelitas que causaram um adicional de vítimas, sensivelmente tantas quantas as do massacre original, mas o episódio foi um descalabro em termos da imagem que Israel desejava projectar internacionalmente de razoabilidade perante o extremismo radical e não contemporizador da causa palestiniana, da OLP e do Hamas. O próprio primeiro-ministro israelita de então, Yitzhak Rabin, condenou o atentado, mas tornara-se óbvia a existência de uma muito activa facção ultra-radical entre os judeus que se mostrava contrária ao estabelecimento de qualquer acordo de Paz com os árabes. No ano seguinte, um outro membro dessa facção iria assassinar o próprio Rabin. Cinquenta anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, o capital de simpatia granjeado a Ocidente - ou, pelo menos, na Europa... - por aquelas que haviam sido as maiores vítimas do nazismo, já se esvaziara substancialmente. Não ajuda à simpatia pela causa israelita que os correlegionários do terrorista lhe tivessem erigido um santuário, que foi posteriormente destruído pelas próprias autoridades de Israel, nem que o local da sua sepultura continue a ser um local de peregrinação daqueles extremistas. É só engraçado pensar nas convulsões argumentativas que se produziriam se se tratasse da peregrinação à sepultura de Osama bin Laden (que foi enterrado no mar...) ou de qualquer um dos seus principais seguidores...

24 fevereiro 2024

A ASSINATURA DO PRIMEIRO ACORDO QUE CESSAVA AS HOSTILIDADES ENTRE O EGIPTO E ISRAEL

24 de Fevereiro de 1949. Dava-se conta da assinatura de um acordo que fazia cessar as hostilidades entre o Egipto e Israel, hostilidades que haviam eclodido entre árabes e judeus com o abandono da Palestina pelos britânicos em Maio de 1948, sem que houvesse qualquer acordo formal quanto ao destino a dar à região. Seguiu-se a primeira guerra israelo-árabe. E este era o acordo, assinado nove meses depois na ilha grega de Rodes, entre o jovem estado de Israel e o mais importante dos quatro beligerantes árabes, o Egipto. Seguir-se-ão acordos equivalentes assinados com os outros países árabes, o Líbano (a 23 de Março), a Jordânia (3 de Abril) e Síria (20 de Julho). O importante é recordar que, já há 75 anos, ficava a impressão para quem lesse a notícia (onde os termos do acordo são detalhados) que os israelitas haviam alcançado um acordo muito favorável. Notoriamente e visto a esta distância, percebe-se que lhes falta assinar um acordo com mais alguém.

04 janeiro 2024

A PRIMEIRA VIAGEM DE UM PAPA NO SÉCULO XX

4 de Janeiro de 1964. O então papa Paulo VI realiza a primeira visita de um papa ao estrangeiro. Desde há muito que os papas se ficavam por Roma. Quanto saíam de lá era mau sinal: por exemplo, quando Napoleão obrigara Pio VII a ir a Paris para estar presente na sua coroação em 1804. Contudo, esta saída de Paulo VI, porque fora livremente empreendida, revestia-se de todo um outro significado, a começar pelo destino: a cidade de Jerusalém e a Palestina (designação que era substituída nos noticiários por Terra Santa). Mesmo durante os tempos medievais do apogeu do poder do papado, nunca um papa lá estivera. Recorde-se que, à época (1964), Jerusalém era uma cidade dividida entre israelitas e jordanos e estes últimos administravam a Cisjordânia, incluindo a cidade de Belém. E a visita papal processou-se a partir da Jordânia (onde aterrara o avião que o transportara, como se lê acima), com o rei Hussein (um muçulmano) como anfitrião. Nessa altura o Vaticano não mantinha relações com Israel, algo que só virá a acontecer daí por 30 anos. A visita, embora plena de cobertura mediática e repleta de acontecimentos anunciados como históricos, foi breve: dia 6, Paulo VI regressará a Roma.

30 dezembro 2023

JUDEUS E CATÓLICOS

(Republicação)
30 de Dezembro de 1993. Apesar de o Estado de Israel ter mais de 75 anos, foi há apenas 30 que o governo israelita e o Vaticano estabeleceram relações diplomáticas formais. E, como se pode apreciar acima através de uma fotografia recente dos dois titulares, a relação continua a ser muito pouco descontraída, assaz cerimoniosa... E isto apesar de uma apreciável percentagem de peregrinos que visitam Jerusalém e robustecem a indústria do turismo israelita serem católicos.

17 dezembro 2023

VOCÊ JÁ REPAROU QUE, NA NOTÍCIA ABAIXO, NÃO NOS DIZEM «QUANDO» É QUE AQUILO ACONTECEU?

É dos manuais do jornalismo que toda a notícia bem feita tem que responder a um conjunto de perguntas; Quem? O quê? Onde? Quando? Como? Porquê? Ora, no caso desta notícia acima, que nos conta que os soldados israelitas terão morto três dos próprios reféns e cujo resgate é uma das razões da operação que estão a desenvolver em Gaza há dois meses, por muito que eu já tenha consultado até as notícias originais oriundas de Israel, em lado algum é especificado quando é que esse infeliz incidente teve lugar. Pelo que se pode ler, embora todas as outras questões apareçam respondidas, não é límpido concluir se o que nos é narrado acabou de acontecer ou se, pelo contrário, teve lugar já há vários dias. O quando é importante para tirar as dúvidas se houve uma admissão espontânea do erro por parte da IDF ou se se terá tratado de uma fuga (controlada e cirúrgica) de informação por parte de sectores mais moderados da política israelita. A ideia mais plausível que atribuímos a estes últimos seria a de refrear a facção dos hardliners capitaneada pelo primeiro-ministro Netanyahu. Uma outra hipótese para que a notícia da morte involuntária dos reféns tivesse sido libertada com um timing seleccionado, associa-se às notícias do reatar das negociações para a libertação de outros reféns detidos pelo Hamas. Enfim, qualquer destas hipóteses enfatiza o facto de os israelitas não se comportarem em uníssono, como um bloco - como o mesmo acontecerá também do lado dos palestinianos. Só que estas construções, para além de necessariamente especulativas por tentarem perceber os assuntos por detrás do fumo da propaganda de guerra, têm o inconveniente para o jornalismo mais apelativo, de nos estragar a clareza maniqueísta dos acontecimentos: quem são os bons - e esses têm sempre razão - e quem são os maus.

07 dezembro 2023

A «FADIGA ESPIRITUAL» QUE PODE AFECTAR OCASIONALMENTE CHEFES DE GOVERNO

7 de Dezembro de 1953. De Telavive vinha a notícia que o primeiro primeiro-ministro de Israel David Ben Gurion se demitira naquele dia por «fadiga espiritual». Complementava a notícia o anúncio da intenção de Ben Gurion «se retirar, como pastor, para as montanhas do Negev». Ao anúncio sucederam-se fotografias bucólicas do venerando primeiro-ministro de 67 anos em trabalhos manuais no kibbutz para onde se retirara. Esta narrativa idílica de contornos açucarados tinha uma outra realidade por detrás, uma disputa entre duas facções dentro do próprio executivo israelita, a facção encabeçada por Ben Gurion a ser tida como o mais aguerrida no conflito com os países árabes vizinhos (tradicionalmente classificada como a dos falcões), contra a facção encabeçada pelo novo primeiro-ministro Moshe Sharett, mais moderada (pela mesma terminologia simplista: as pombas). Note-se que ambos pertenciam ao mesmo partido político, o Mapai. Os acontecimentos viriam a mostrar que a «fadiga espiritual» de Ben Gurion, mais a sua ambição de se retirar para ser um mero «pastor» fora uma tentação passageira. Ele voltou ao governo em Fevereiro de 1955 (14 meses depois...) como ministro da Defesa, e mais 9 meses decorridos, em Novembro de 1955, Gurion voltaria mesmo a substituir Sharett à frente do governo, dessa vez até Junho de 1963. E, para aqueles que, com a leitura deste poste se possam estar a lembrar de alguma analogia com a actual situação política portuguesa, nomeadamente com aquela passagem acima «... todo o Gabinete, que, (...), permanecerá no Governo, provisoriamente», gostaria de assegurar que esta publicação neste momento não terá sido uma mera coincidência.

08 outubro 2023

A CONTRA OFENSIVA FALHADA DOS ISRAELITAS NO SINAI (GUERRA DO YOM KIPPUR)

8 de Outubro de 1973. Guerra do Yom Kippur. Dois dias depois da ofensiva egípcia, que havia feito as suas tropas atravessar o canal do Suez e penetrar na península do Sinai, as tropas israelitas desencadeiam uma contra-ofensiva, operação que se virá a revelar um fracasso. Concebida como uma manobra táctica que ceifaria por detrás as ligações logísticas das unidades combatentes egípcias (ver o mapa acima), a acção fracassou. Ao contrário do que acontecera em 1967, os egípcios estavam agora muito bem apetrechados e treinados em armamento anti-tanque (AT-3 Sagger e mesmo RPG-7), que neutralizou as concentrações blindadas israelitas que haviam feito o sucesso da Guerra dos Seis Dias.
Nesta contra-ofensiva, os israelitas não só não haviam progredido grande coisa no terreno como, ainda por cima, haviam perdido 73 carros de combate num só dia, número que corresponde a 42% do total inicial de 172 da divisão blindada (e a quase 10% do seu parque total...). Os egípcios, remetidos à defesa, haviam perdido, quanto muito, uma trintena de tanques - e os tanques soviéticos sempre foram de qualidade muito inferior aos ocidentais. Pior: a divisão havia perdido, entre mortos, feridos e capturados, três dos seus nove experientes comandantes de batalhão. A Comissão Agranat irá ser muito severa para com as decisões dos comandantes militares nesta frente do Sinai nesta fase da guerra.
Contudo, tão importantes quanto estes desfechos tácticos, era a conclusão estratégica que o ritmo de desgaste material desta guerra iria obrigar a um envolvimento logístico sério por parte das duas super-potências para reabastecerem os dois lados combatentes (Israel de um lado e Egipto e Síria do outro). Já aqui se mencionou o caso dos Estados Unidos e Israel, que nos envolveu directamente por causa da base das Lajes. Mais discreto foi o caso dos soviéticos e a sua ponte aérea de material de guerra para os países árabes. Mas ela existiu, como se percebe pela passagem abaixo*, em que se nota - já então! - a atitude pró-russa (e anti-americana) da Turquia, apesar de pertencer à NATO!
No total, os Estados Unidos transportaram 22.325 toneladas de equipamentos militares por via aérea a partir de 12 de Outubro de 1973. Os soviéticos entre 12.500 e 15.000 toneladas. Uma boa razão para recordar este episódio de há cinquenta anos é fazer compreender melhor aos eventuais leitores deste blogue quais são os problemas do recompletamento do material de guerra nas fases mais acesas de uma guerra moderna, como a que se trava na Ucrânia**. Compreender como se revela importante, mas também complicado, substituir todo aquele equipamento que é destruído, no caso de se tratar de um país beligerante que não tem meios industriais para o poder substituir àquele ritmo, por si próprio.

* A passagem, assim como o mapa inicial e a avaliação da batalha de 8 de Outubro constam do livro «La Guerre Israélo-Arabe d'Octobre 1973» de Pierre Razoux, Economica 1999 já aqui mencionado.
**Este texto havia sido preparado antes dos ataque do Hamas a Israel. Apesar da belicosidade das declarações do 1º ministro israelita, ainda não se trata bem de uma guerra, pelo menos com as dimensões e gravidade da do Yom Kippur.

06 outubro 2023

O INÍCIO DA GUERRA DO YOM KIPPUR

(Republicação reescrita em função de novos vídeos)
6 de Outubro de 1973. Neste dia de há cinquenta anos e à hora mais canonicamente improvável para o desencadear de ofensivas militares (14H00), egípcios e sírios, de uma forma simultânea e concertada iniciaram uma ofensiva sobre as posições que os israelitas haviam conquistado seis anos antes durante a Guerra dos Seis Dias. Esta intenção de desforra árabe, deu-se o nome de Guerra do Yom Kippur, em alusão ao feriado religioso judeu que desguarnecia precisamente naquele dia as...
...guarnições das posições defensivas israelitas. Tratou-se tanto de uma guerra convencional (para a descrição detalhada da qual se sugere o livro acima de Pierre Razoux*), como se tratou de uma guerra de propaganda disputada no palco da opinião pública mundial. Desde o princípio que houve a preocupação de encher os noticiários com os sucessos das suas respectivas armas. O Egipto acima, a atravessar o canal do Suez, Israel abaixo, a rechaçar a ofensiva síria.
* É o mesmo Pierre Razoux que, no jornal Le Monde e a propósito desta outra guerra entre o Hamas e Israel, considera agora que «o Hamas está a fazer tudo o que pode para atrair Israel para uma operação terrestre».

PORTUGAL, A BASE DAS LAJES E A GUERRA DO YOM KIPPUR

6 de Outubro de 1973. Foi o dia do início da Guerra do Yom Kippur: egípcios e sírios atacaram de surpresa e simultaneamente os israelitas num dia feriado para os últimos. Mas as vicissitudes dessa guerra só nos interessem colateralmente, e nem sequer ainda haviam chegado às redacções dos jornais em qualidade e quantidade para aparecerem com o devido destaque na edição desse dia (canto inferior direito). Em contraste, o que nessa edição de há 50 anos se pode perceber muito claramente é o recado público que a diplomacia portuguesa, encabeçada pelo próprio ministro dos Negócios Estrangeiros português, Rui Patrício, pretendia transmitir ao Departamento de Estado norte-americano. Aproveitando a estadia daquele na ONU, em Nova Iorque, os portugueses não escondiam a sua diplomática irritação com o desinteresse demonstrado pelo outro lado com a renegociação atempada do acordo que lhes permitia a utilização da base das Lajes nos Açores. «Portugal não deseja renovar o arrendamento da base aérea americana dos Açores (...) o arrendamento termina dentro de três meses e, até agora, não se realizaram quaisquer negociações tendo em vista a renovação do contrato» são as palavras atribuídas a Rui Patrício. E, num desdém ostensivo pelas cláusulas vigentes, prosseguia: «dos 436 milhões de dólares prometidos por Washington (...), Portugal recebera apenas um pequeno navio de investigação oceanográfica e um milhão de dólares destinados a bolsas para estudantes portugueses que desejassem frequentar as universidades americanas.»
Um mau negócio: «(...) o seu governo não utilizou os 400 milhões de dólares de créditos (bancários) para a compra de produtos americanos, pois encontrara na Europa melhores condições». Em suma, se os Estados Unidos não se mostravam interessados em preservar as facilidades da base das Lajes, Portugal também não se mostrava interessado nas contrapartidas recebidas até aí pela concessão dessas mesmas facilidades. Mas em breve tudo isso se iria alterar radicalmente da parte dos Estados Unidos. À medida que a guerra do Yom Kippur evoluía, mais Israel se via à beira do colapso militar. A seu pedido, os Estados Unidos iniciaram uma vasta ponte aérea transportando material de guerra que substituísse aquele que estava a ser perdido na frente de combate. O vídeo abaixo dá uma versão estupidamente ingénua desse auxílio, embora a pretensa ingenuidade bíblica e o papel salvífico de Richard Nixon, não lhes dê, aos autores, para querer ressalvar também a importância geográfica única da base das Lajes para a montagem dessa ponte aérea que viria a ligar os Estados Unidos a Israel, salvando os seus cidadãos. A anuência portuguesa foi preciosa, tanto mais que ela contrastou com a posição da esmagadora maioria dos restantes países europeus, que procuraram preservar a sua neutralidade no conflito israelo-árabe. E, por uma (primeira?) vez, os americanos perceberam o valor da localização da base das Lajes. Claro que o acordo, tão periclitante que estava, acabou por ser renovado e que o trabalho negocial da nossa diplomacia veio a ser muito facilitado...

17 setembro 2023

O TERRORISMO «SIMPÁTICO»

(Republicação)
17 de Setembro de 1948. Um grupo terrorista radical sionista assassinava o enviado especial da ONU para a resolução do problema israelo-árabe, quando este se encontrava numa visita de trabalho à Palestina, para propor uma solução que acomodasse a hostilidade árabe e a recente proclamação do estado de Israel. Folke Bernadotte (1895-1948) era um diplomata sueco pertencente à família real sueca (era neto do rei Óscar II), que já se distinguira por negociações para o resgate de prisioneiros durante a Segunda Guerra Mundial e que casara nos Estados Unidos com uma herdeira de um grande empório industrial local ligado ao amianto. Mas, nem mesmo o facto de Bernadotte ser nobre, de abraçar causas nobres, de ser rico e de, além disso, possuir uma bela figura, induzirá a comunicação social americana (e a mundial, por arrasto) a indignar-se retumbantemente com o seu assassinato, como seria de esperar tivessem sido outros os autores do atentado. Nos Estados Unidos, onde se iriam disputar eleições presidenciais em Novembro próximo, alguém criara a convicção generalizada que o voto judaico seria decisivo para o seu desfecho. A ideia prevalecente era cortejar os judeus, Israel e a causa sionista mesmo que alguns dos seus membros mais radicais cometessem estes actos hediondos.
O teor da notícia acima no New York Times é de destacar, mas pela sua excepcionalidade. Veja-se o contraste com a primeira página do Diário de Lisboa desse mesmo dia, que corresponde muito mais à cobertura noticiosa que o acontecimento recebeu. Nota-se na notícia abaixo a ausência de uma fotografia do assassinado (que seria muito mais pertinente do que a do avião que lá aparece...) e um vocabulário redutor: Bernadotte morreu, não foi assassinado. Quanto ao teor da notícia, nada se diz dos detalhes do atentado (que se podem ler acima, no cabeçalho do NYT, do lado direito: o carro foi emboscado, a autoria foi estabelecida). Quanto ao corpo da notícia, ela não passa uma reflexão vaga e (propositadamente?) genérica sobre as implicações da sua morte para a paz mundial... Neste clima, não surpreenderá saber que as investigações das autoridades israelitas para a captura dos responsáveis foram absolutamente negligentes. Tanto que Israel foi condenado em tribunal internacional a pagar à ONU uma indemnização de 54 mil dólares. E excepcionalmente neste caso, foi depois possível avaliar qual o apoio popular que esta organização terrorista gozava junto da população. Nas eleições de Janeiro de 1949, a sua fachada política legal conquistou 1 lugar de deputado entre os 120 com que contava o Knesset... Em nome de quem é que aquela gente adoptava àquela conduta?

13 setembro 2023

POSAR PARA A FOTOGRAFIA

(Republicação rectificada e adaptada)
A cerimónia que teve lugar em 13 de Setembro de 1993 em frente à Casa Branca em Washington ficou perpetuada para o futuro pela fotografia imediatamente abaixo, onde se vê o Primeiro-Ministro israelita à esquerda, Itzhak Rabin (1922-1995) a cumprimentar o Presidente da OLP (1), Yasser Arafat (1929-2004), à direita, sob o abraço virtual de mediador de Bill Clinton (1946- ), o Presidente dos Estados Unidos.
Contudo, a imagem teria sido muito mais simbólica e genuína se a fotografia escolhida para assinalar aquela cerimónia tivesse sido substituída pela que aparece abaixo, onde é evidente, através da leitura da linguagem corporal, a dimensão do cepticismo de Ytzhak Rabin quanto à concretização na prática dos Acordos de Oslo cuja assinatura se estava então a formalizar naquele momento...
As convicções profundas de Rabin tornam-se ainda mais evidentes neste breve vídeo do rematar da cerimónia, com a duração de apenas um minuto, onde o Primeiro-Ministro israelita parece dissociar-se fisicamente da coreografia das celebrações, das palmas e dos cumprimentos múltiplos que são depois trocados à sua volta…
Para os mais distraídos quanto à realidade internacional, refira-se que a História mais do que justificou o cepticismo então demonstrado por Itzhak Rabin. É verdade que Bill Clinton teve naquela tarde o seu grande momento televisivo como mediador dos conflitos internacionais, mas passados 30 anos sobre a cerimónia tudo parece continuar na mesma no Médio Oriente, senão mesmo pior.

28 agosto 2023

ALGUMA IRRELEVÂNCIA DAQUILO QUE O GOVERNO LÍBIO POSSA OU NÃO FAZER

Colocando as aparências diplomáticas de parte, a questão prática desta notícia do Público não é a de saber se a Líbia passaria a reconhecer (ou não) a existência do Estado de Israel, a questão é saber se o próprio governo líbio, de que a ministra dos Negócios Estrangeiros faz - ou deixou de fazer - parte, tem a autoridade e, com isso, a representatividade para negociar em nome da Líbia. Abaixo mostram-se as áreas de influência em que está dividida a Líbia depois da queda de Gaddafi. Até pode ser do interesse publicitário de Israel fazer com que mais um estado árabe reconheça a sua existência. Como pode ser do interesse publicitário dos adversários de Israel que isso não aconteça. Só que há países árabes que se encontram completamente divididos por prolongadas guerras civis: Síria, Líbano, Líbia, Iémen, Iraque, Sudão. Em qualquer destes casos, a representatividade dos governos que actuam nos palcos internacionais é sempre para ser acolhida com as naturais reservas de um país que está politicamente dividido, à mercê de um qualquer golpe militar que possa reverter alguns dos compromissos assumidos, e as notícias não se podem esquecer de o salientar em episódios como o descrito acima.

09 abril 2023

OPERAÇÃO PRIMAVERA DA JUVENTUDE

9 de Abril de 1973. Destacamentos de três unidades de elite das forças armadas israelitas (Sayeret Matkal, Sayeret Tzanhanim e Shayetet 13*) realizam uma operação clandestina em Beirute, capital do Líbano. O seu alvo eram várias instalações da OLP que aí se localizavam, assim como três quadros da organização que aí residiam, numa operação de retaliação pelo que acontecera nos Jogos Olímpicos de Munique, sete meses antes. A coberto da noite, os soldados israelitas chegaram à área portuária de Beirute em barcos de borracha que haviam saído de lanchas rápidas estacionadas a 12 milhas ao largo. À chegada eram aguardados por agentes do Mossad que haviam alugados previamente carros para os conduzir até aos seus alvos e para depois os trazer de volta aos locais de desembarque para a extracção. Como em todas as operações do género, por maior que seja o treino, os intervenientes são confrontados com situações inesperadas. No computo global, os três dirigentes da OLP inicialmente visados foram abatidos, mas também terão morrido outras cinquenta pessoas, incluindo dois israelitas, três polícias libaneses e ainda quatro civis, um deles italiano. No filme Munique (2005) aparece uma reconstituição do ataque (acima). As imagens reais recolhidas pelos jornalistas no dia seguinte (abaixo) são bastante menos glamorosas.
* Informação precisa, no estilo de Nuno Rogeiro, mas absolutamente supérflua para a narrativa e para quem não se interesse minimamente pela designação dos corpos de elite das forças armadas de todo o mundo.

28 março 2023

OS PROTESTOS POPULARES EM FRANÇA E EM ISRAEL

As imagens televisivas da expressão dos protestos até se podem assemelhar. Aquilo que os protestantes alegam para se manifestarem é que em nada se assemelha nos dois países, só que isso requer uma explicação desenvolvida. E o que está errado é que a comunicação social costuma ficar-se apenas pela primeira parte, a das imagens, eventualmente legendadas, porque é isso que capta as audiências. Se for somente pelas imagens, tudo isto que vemos abaixo é mais ou menos a mesma coisa. E não é.

18 janeiro 2023

AS PRIORIDADES DE BENJAMIN NETANYAHU

No passado Sábado, cerca de 80.000 pessoas manifestaram-se contra a intenção do recém empossado governo israelita de Benjamin Netanyahu. Muito mais do que a composição (extrema direita religiosa) do novo governo, o que é estranho é a prioridade alocada pelo primeiro-ministro e pelo ministro da Justiça, Yariv Levin, a uma profunda reforma do sistema judicial israelita. Trata-se de uma reforma que procura reduzir os poderes do Supremo Tribunal de Israel e, através dela, alterar necessariamente os equilíbrios que estão estabelecidos entre os poderes executivo, legislativo e judicial. É evidente que este género de disputas não são exclusivas de Israel, embora este mesmo género de iniciativas tenham sido conotados mais recentemente com países com outros governos de extrema direita, como serão os casos da Hungria de Viktor Orbán e da Polónia de Mateusz Morawiecki. Só que ao contrário desses outros países, Israel, apesar dos seus quase 75 anos de existência, não possui uma Constituição. E nesses 75 anos, o Supremo Tribunal e o ramo judiciário de Israel já deram mostras de decisões de uma coragem política que o executivo e o legislativo nunca ousariam: um ex-primeiro-ministro (Ehud Olmert) foi condenado - e cumpriu pena - por corrupção; um ex-presidente (Moshe Katsav) foi condenado - e cumpriu pena - por abuso sexual. A corrupção é um problema recorrente da política israelita, mas os tribunais em Israel têm pelo menos a reputação de não brincar em serviço, mesmo se o réu for um político de destaque (o que não se pode dizer de outros países...).

Associemos agora esta prioridade governamental e a reacção que ela está a suscitar com o facto de que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu tem vindo a estar envolvido nos últimos anos num conjunto de inquéritos criminais a casos de corrupção de que o visado não tem conseguido desembaraçar-se. Ou melhor, desembaraça-se de um e embrulha-se no próximo. Objectivamente, aquilo que parece estar em discussão - em 12 de Janeiro, Esther Hayut, a presidente do Supremo Tribunal, tomou a iniciativa inédita de criticar publicamente o plano do governo, classificando-o de “uma ferida mortal na independência do judicial” - não afectaria directamente os inquéritos criminais que correm sobre os casos em que Netanyahu está envolvido. Mas é difícil evitar a impressão de que neste regresso ao poder ele traz contas pessoais para acertar com o aparelho judicial. No passado, Benjamin Netanyahu havia-se apresentado como um defensor da independência e dos poderes do Supremo Tribunal. Andando nestas andanças políticas há tantos (30!) anos, também é muito possível ele tenha mudado genuinamente de ideias, mas esta sofreguidão em promover esta reforma judicial, apesar de esbarrar com protestos de rua desta dimensão e visibilidade, indicia, pelo menos, muito pouca sageza. Outro aspecto interessante em tudo o que está a acontecer em Israel, é o relativo desinteresse como esta fractura está a ser coberta em termos mediáticos, que foi precisamente a razão que me levou a destacar o assunto aqui no Herdeiro de Aécio.