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14 julho 2024

O APARECIMENTO DA QUINTA VÍTIMA DE JACK-THE-STRIPPER

Se quase todos ouvimos falar de Jack the Ripper (Jack o Estripador), um assassino em série que, em 1888, se notabilizou por assassinar e esventrar prostitutas em Londres, quase ninguém conhece esta história de um outro assassino em série que apareceu em Londres em 1964. O seu alvo eram também as prostitutas, só que, em vez de as estripar depois de mortas, estrangulava-as e depois despia-as, o que levou a imaginativa imprensa local a baptizá-lo de Jack the Stripper. Porém, a denominação menos imaginativa do caso que perdurou foi a de Hammersmith nude murders. E como o caso precedente do século XIX, a sucessão de assassinatos também parece ter cessado sem qualquer explicação e sem qualquer remota suspeita de quem possa ter sido o seu autor. Mas os contornos da história vieram a ser aproveitados para o argumento de um filme de Alfred Hitchcock.

11 julho 2024

UM INCIDENTE DE «FOGO AMIGO»

No quadro de uma profunda opacidade informativa quanto a muitos dos acontecimentos associados às guerras que as tropas portuguesas travavam então em Angola e na Guiné, não deixa de ser surpreendente ver esta admissão publicada, de um incidente por «fogo amigo», quando tropas portuguesas dos fuzileiros foram alvejados pela própria FAP no Sul da Guiné, incidente esse de onde haviam resultado três mortos e um número não publicado de feridos. Não é o género de notícia que qualquer serviço de informação de quaisquer forças armadas goste de dar publicidade. O incidente teve lugar em 8 de Julho, três dias antes desta notícia, depreende-se que a presença de forças anfíbias no Sul da Guiné seja ainda uma consequência da Operação Tridente, que decorrera nos três primeiros meses de 1964, mas nada de mais substantivo encontrei sobre o assunto nas pesquisas que efectuei na internet.

09 julho 2024

O DESMENTIDO DOS RUMORES DO ROMANCE DE GINA LOLLOBRIGIDA COM ROCK HUDSON

9 de Julho de 1964. Os jornais dão destaque a uma daquelas fofocas sobre estrelas de cinema que o futuro se encarregará de desmentir implacavelmente. O romance de actriz italiana Gina Lollobrigida com o actor norte-americano Rock Hudson - que haviam acabado as filmagens de Strange Bedfellows - era impossível porque - como se veio a descobrir mais de 20 anos depois - o actor era homossexual. No entanto, estes rumores podiam não ser involuntários, já que dispersavam os outros rumores.

08 julho 2024

A INAUGURAÇÃO DO AEROPORTO DO FUNCHAL

8 de Julho de 1964. Com a pompa e a circunstância como estas ocasiões eram vividas durante o Estado Novo, inaugurava-se na tarde daquele dia o novo aeroporto do Funchal, como se dá conta na primeira página do Diário de Lisboa do mesmo dia. O inauguração foi presidida pelo almirante Américo Thomaz e o primeiro avião comercial a ali aterrar foi um Lockheed L-1049G Super Constellation da TAP (veja-se a fotografia com a assistência ao fundo). Contudo e talvez por causa dos seus quase 70 anos e ainda da sua formação como oficial de Marinha, naquilo que não pode deixar de ser considerado como um anacronismo, o presidente da República deslocara-se para a Madeira... de navio. Não se pode dizer que Américo Thomaz se incomodasse muito a tentar galvanizar os portugueses, dando um exemplo pessoal de adaptação aos tempos modernos, utilizando o transporte aéreo e o novo aeroporto. Ou isso, ou então a confiança na segurança da obra não seria nada por aí além e não quiseram pôr a segurança do presidente em risco - o aeroporto veio a ser local de um grande acidente em Novembro de 1977.

06 julho 2024

A INDEPENDÊNCIA DO MALAWI

6 de Julho de 1964. Com a presença do príncipe Filipe em representação de Isabel II, têm lugar em Blantire, as cerimónias da independência do Malawi, o novo nome da antiga colónia britânica da Niassalândia, adjacente ao Grande Lago do mesmo nome e fronteiriço com Moçambique. O homem forte do novo país, o primeiro-ministro Hastings Kamuzu Banda, era um sexagenário de idade incerta (ainda não havia registos de nascimento na época em que nascera, pouco antes de 1900), que se educara nos Estados Unidos e posteriormente na Escócia, onde se viera a formar em medicina e onde chegara a praticar como clínico. Mas a sua condição de membro da pequena elite africana tornou-o num elemento dirigente natural das organizações nacionalistas que surgiram nas colónias depois de 1945 e que vieram a herdar o poder quando da concessão das independências pelo Reino Unido. A continuação da história do Malawi é uma, mais do que previsível, transformação progressiva do regime numa ditadura pessoal por parte de Banda. Menos de dois meses depois das cerimónias acima, dá-se uma crise em que Banda afasta a maioria dos ministros do seu gabinete. Em 1966, o Malawi torna-se uma república e Hastings Banda o seu presidente. O seu partido passa a ser único. Em 1971 aquele cargo passa a ser vitalício. E o reinado de Banda dura até 1993. As imagens abaixo dão, em contraste com as de cima, uma imagem do que eram as manifestações políticas durante esses primeiros trinta anos de um Malawi independente.

04 julho 2024

O FIM DE TODOS OS RACIONAMENTOS NO REINO UNIDO

4 de Julho de 1954. Só neste dia é que se assinala o fim do racionamento de qualquer produto no Reino Unido. Imposto por causa da Segunda Guerra Mundial, que durou seis anos (1939-45), prolongou-se por mais nove anos depois de ela ter terminado (1945-54).
Numa desforra apenas natural, dali por dez anos, em 1964, os mesmos britânicos elevavam esta outra canção ao seu top de vendas de discos, «Downtown» (a Baixa, em tradução muito livre), um verdadeiro hosana ao consumismo.
Como coincidência adicional, hoje os britânicos vão a votos depois de terem votado para sair da União Europeia em 23 de Junho de 2016, tendo abandonado essa mesma UE em 31 de Janeiro de 2020. O assunto parece encerrado.

03 julho 2024

O PROJECTO «ITHACUS»

Entre os projectos militares mais surpreendentes que nunca avançaram conta-se este foguetão intercontinental de transporte que constituía notícia a 3 de Julho de 1964, após o encerramento da 1ª Reunião Anual do Instituto de Aeronáutica e Astronáutica. Será desnecessário explicar em que consistia a ideia: a notícia acima explica-o. Assim como se afigura óbvio que essa ideia estava muito longe de se concretizar: seria necessário esperar ainda uns dez a doze anos (1975) e investir os «fundos necessários» (que não são estimados sequer...). Mas o objectivo estratégico do foguetão «Ithacus» parecia límpido: como potência hegemónica, os Estados Unidos passariam a dispor de meios para colocar uma unidade militar de poder de fogo significativo em muito poucas horas em qualquer local do mundo onde Washington considerasse que os seus interesses estivessem a ser ameaçados: um golpe de estado hostil num país aliado, por exemplo.
O projecto e a ideia de «Ithacus», apesar de imaginativa e engenhosa, tinha dois óbices. O primeiro e mais imediato era o seu custo e a sua eficácia, quando comparado com uma operação aerotransportada mais convencional, que colocaria os mesmos efectivos e as mesmas cargas no mesmo local, só que uma dúzia de horas depois. Seria que os custos - astronómicos - do projecto valeriam essas escassas horas de antecipação? O segundo óbice era de cariz mais estratégico e os responsáveis militares e políticos norte-americanos só se vieram a aperceber dele depois de efectuarem vários outras intervenções no Mundo, como a do Vietname, do Iraque ou do Afeganistão. O problema principal para os Estados Unidos nunca se põe quanto à celeridade como chegam aos locais de intervenção, localizem-se eles onde for por esse Mundo fora; o grande problema dos Estados Unidos têm sido sempre as condições de dignidade como depois conseguem sair desses locais. No Afeganistão, por exemplo, passaram 20 anos (2001-21) por lá e os resultados finais foram os que foram...

21 junho 2024

MISSISSIPPI EM CHAMAS

(Republicação)
O episódio teve lugar no Sul Profundo (Deep South) dos Estados Unidos durante o Verão de 1964. E as chamas do título são uma referência aos incêndios ateados pelos membros do Ku Klux Klan (acima) nas igrejas das congregações negras onde os activistas dos direitos cívicos haviam realizado previamente sessões incentivando os negros a registarem-se como eleitores. Pelo menos 20 igrejas haviam sido incendiadas quando outro incidente mais grave fez concentrar a atenção dos Estados Unidos em Neshoba, Mississippi.
A 21 de Junho de 1964, a organização que patrocinava aquelas sessões anunciou publicamente o desaparecimento súbito de três dos seus jovens activistas (acima e da esquerda para a direita: Andrew Goodman de 20 anos, James Chaney de 21 e Michael Schwerner, de 24), que haviam saído para inspeccionar os destroços duma das igrejas incendiadas no condado de Neshoba. Sabia-se que a polícia local os havia detido por umas horas mas que acabara por os libertar, tendo-se perdido o seu rasto depois disso.
Noutros tempos, um desaparecimento destes poderia ter sido considerado um incidente menor e passar desapercebido. Mas naquelas circunstâncias, no quadro da luta dos negros pelos Direitos Cívicos (acima Martin Luther King), conjugado com o facto de dois dos desaparecidos serem de origem nova-iorquina, o incidente acabou por vir a receber uma atenção mediática inusitada, a que não faltou a ressonância da clivagem entre o Norte e o Sul que havia provocado a Guerra Civil (1861-1865) precisamente cem anos antes.
Foi a pressão mediática que levou a administração federal a afectar à investigação os meios e a atenção que as autoridades estaduais e locais – do Mississippi e de Neshoba – não pareciam dispostas a dedicar. Durante seis semanas as peripécias da investigação desenvolvida pelo FBI, nomeadamente a descoberta da carcaça ardida do automóvel que transportava os activistas (acima), foram notícia nacional, até à descoberta do paradeiro dos cadáveres, enterrados num açude a uns meros 10 km a Sudoeste da capital do condado…
…e depois disso percebeu-se a razão principal para a ineficácia das investigações das autoridades locais: o próprio xerife de Neshoba e o seu adjunto também estavam directamente envolvidos nos acontecimentos que haviam conduzido ao assassinato! Concretamente, o adjunto libertara os activistas conduzindo-os à emboscada onde haviam sido mortos. Politicamente, a causa dos negros ganhara imensos pontos: em 2 de Julho, o Presidente Lyndon Johnson (também ele Sulista, do Texas) assinara a Lei dos Direitos Cívicos.
A outra batalha – a da condenação dos responsáveis pelos assassinatos – não teve um desfecho tão claro. O julgamento de 18 réus arrastou-se até 1967 e os recursos às sentenças até 1970. Quanto à atitude dos principais envolvidos durante as audiências era a insolência da fotografia acima, o adjunto Price ao lado do xerife Rainey mascando tabaco. Detestáveis! A longo prazo a causa racista estava perdida. Em 1988 Hollywood produziu um filme sobre os acontecimentos (abaixo) e eles eram considerados irrecuperavelmente maus…

05 junho 2024

COMO É QUE O DISCURSO DE ISRAEL EVOLUIU EM 60 ANOS

5 de Junho de 1964. Numa sessão realizada no Overseas Press Club em Nova Iorque, o primeiro-ministro israelita da altura, Levi Eshkol (1895-1969), proferiu um discurso em que negava o expansionismo de Israel para além das fronteiras que alcançara em consequência da Guerra israelo-árabe de 1948. Convém explicar que o discurso fora proferido diante de uma audiência composta primordialmente por jornalistas, não apenas os correspondentes de outros países sediados nos Estados Unidos, que são a razão de ser do Clube OPC, mas também os próprios jornalistas americanos, todos interessados em compreender quais as intenções do governo israelita face aos seus vizinhos árabes. As passagens mais significativas do discurso apareciam publicadas na edição do dia seguinte do New York Times. E o que Eshkol dissera é que eram os líderes árabes que levantavam erradamente a perspectiva que os israelitas se queriam expandir para lá das fronteiras que haviam obtido, enquanto, paradoxalmente, se recusavam a garantir as fronteiras existentes. A garantia de Eshkol é que a expansão económica indústria e agrícola antevista por Israel não necessitava de mais espaço do que aquele que então dispunha, e que aquilo que Israel mais precisaria nessa fase era de evolução técnica e científica, não de expansionismo. À noite, Eshkol fora jantar com o embaixador americano nas Nações Unidas, o antigo candidato presidencial democrata Adlai Stevenson (1900-1965). O primeiro ministro de Israel aparecia naquela altura internacionalmente como uma pomba...

Outra história associada a Eshkol, que é mais vezes evocada, é que a intenção de Israel nesta época seria a de projectar internacionalmente uma imagem que lembrasse a figura de Sansão, com as sua forças e fraquezas bíblicas. Pessoalmente, prefiro esta outra história que aqui publico, porque não está trabalhada para efeitos de propaganda. Embora não se possa responsabilizar pessoalmente Levi Eshkol por tudo aquilo que veio a acontecer no Médio Oriente depois de 1964, este é um discurso que vale a pena ser recordado em toda a sua hipocrisia sessenta anos depois de ter sido proferido, neste momento em que as tropas israelitas continuam as suas operações militares em Gaza e continuam a proliferar os colonatos instalados pelos israelitas em toda a Cisjordânia, como se vê no mapa abaixo.

27 maio 2024

O DESCONTENTAMENTO ESLOVACO DENTRO DA CHECOSLOVÁQUIA

27 de Maio de 1964. O New York Times publicava um artigo sobre aqueles temas que eram raramente abordados no Ocidente - os nacionalismos subordinados dos países da Europa de Leste. A simplicidade da propaganda tendia a descrever estes países como meros satélites da União Soviética sem mais. Mas, para além das especificidades, havia aspectos associados a alguns deles que lhes davam características únicas. A Jugoslávia e, neste caso, a Checoslováquia eram países recentes (1918) e que resultavam da agregação de mais do que uma nacionalidade. Neste caso, a notícia era oriunda de Bratislava, capital da Eslováquia, e instruía o leitor sobre o desconforto dos «quatro milhões de eslovacos» que «constituíam cerca de 20% da população» total da Checoslováquia (um número mais realista seria 28%). As causas para tal desconforto assentavam no facto de que, na condução da política nacional da Checoslováquia, predominava a maioria checa. E, quanto a relações de proximidade, o artigo não deixava passar algumas evidências da geografia, como o facto de que a distância de Bratislava a Praga, a capital da Checoslováquia, é de 330 km, enquanto a capital da Hungria, Budapeste, está a 200 km e, mais importante para a argumentação subjacente ao artigo, Viena, a capital da Áustria, está apenas a 80km! Mas até 1989, aqueles países eram ditaduras e estes assuntos eram encarados no Ocidente como preciosismos que não interessavam para a rivalidade Leste-Oeste. Só que não eram preciosismos, mas assuntos muito sérios para os directamente envolvidos: tanto assim que os dois países se dissociaram um do outro escassos anos depois do fim da Guerra Fria.

15 maio 2024

SOBRE O FACCIOSISMO FUTEBOLÍSTICO DA COMUNICAÇÃO SOCIAL EM PORTUGAL

15 de Maio de 1964. Na finalíssima da Taça dos Vencedores das Taças, disputada em Bruxelas, o Sporting ganhava a competição frente ao MTK, clube húngaro, contra o qual disputara uma final na mesma cidade dois dias antes, final essa que acabara empatada 3-3. Mas o destaque do poste nada tem a ver com o acontecimento em si, antes com a cobertura noticiosa que recebeu em Portugal. O Diário de Lisboa nem uma chamada de primeira página faz para o acontecimento, remete-o para uma discreta 10ª página, embora aí em termos francamente congratulatórios.
A explicação poderia ter sido a de que há sessenta anos as vitórias em competições europeias de futebol de clubes não mereceriam o destaque como hoje são cobertas. Poderia... mas os tempos agora permitem-nos uma consulta rápida para verificar se isso era verdade e comparar, aliás, como fora a paginação do mesmo Diário de Lisboa quando fora o Benfica a ganhar (por duas vezes) a sua competição europeia de clubes, em Maio de 1961 e de 1962. E contra factos não há argumentos: já há sessenta anos na redacção do Diário de Lisboa os sportinguistas não tinham capacidade de decisão...

14 maio 2024

DOS FRACOS (DE ESPÍRITO) NÃO REZA A HISTÓRIA...

Esta história havia começado em Janeiro de 1963, quando um artista de trapézio da Alemanha Oriental, chamado Horst Klein, alcançara a notoriedade por ter fugido daquele país, atravessando o Muro de forma original, escalando um grande poste de electricidade e pendurando-se num dos cabos de sustentação em aço. Tudo terá corrido bem até à sua chegada a - por cima de - Berlim Ocidental, quando Horst Klein se terá desequilibrado e caído de uma altura apreciável, já que a consequência foi a de ter fracturado os dois braços. Mas, mesmo de braços partidos ou, se calhar, até por causa deles, o homem tornou-se um daqueles pequenos heróis da Guerra Fria, entre aqueles poucos que haviam vencido o Muro que separava as duas Alemanhas. Mas a pequena notícia (acima, ao centro) de 14 de Maio de 1964 desfaz o mito: é que, chegado ao Ocidente, o homem deixou-se enganar depois pelos apelos da sua mulher Sylvia, que ficara do lado de lá, e regressara à Alemanha Oriental para ser - naturalmente - preso e condenado a 30 meses de trabalhos forçados. Suprema humilhação para Horst Klein: a mulher divorciara-se e casara-se com outro. A propaganda da Guerra Fria aceitava heróis desastrados e de braços partidos, agora assim tão estúpidos, não!

04 maio 2024

UMA DISCRETA GUERRA COLONIAL E CIVIL EM CURSO

4 de Maio de 1964. No New York Times (acima, à esquerda, clique em cima da imagem para a ampliar e poder ler) e no Diário de Lisboa do dia seguinte (embora esta de forma mais sucinta) dá-se conta do agravamento da situação militar na colónia britânica de Aden, no Iémen do Sul. Já aqui neste blogue se falou desta guerra esquecida. E também já aqui se mencionou a capacidade britânica de disfarçar pela semântica e por uma atitude política distanciada - a famosa fleuma britânica - da gravidade das situações em que aquele país se envolve. No caso da nomenclatura, volto a lembrar aquela constante de que as guerras coloniais de libertação que envolveram as colónias britânicas nunca se chamaram... guerras coloniais: esta era uma insurgência (abaixo), na Palestina fora outra insurgência, na Malásia uma emergência, em Chipre outra emergência, no Quénia uma revolta (uprising). Em suma, os britânicos nunca travaram nenhuma guerra colonial e por isso, ao contrário de franceses, portugueses ou holandeses, eles nunca perderam nenhuma guerra colonial. Esse discurso político não é lá muito compatível com os relatos da actividade militar porque, não tendo havido guerras, torna-se difícil explicar porque é que terá havido campanhas e operações militares, como se pode ler abaixo... Quanto à famosa fleuma britânica, ela está patente no desprendimento constante da notícia do Diário de Lisboa, a disponibilidade veiculada pelo jornal londrino Times para que os britânicos abandonassem Aden e o Iémen do Sul. Era ainda mais uma maneira de desviar atenções daquilo que estava verdadeiramente em disputa. É que as guerras coloniais não se travam apenas para manter a autoridade política nas colónias, as potências coloniais também as travam para gerirem o processo de transferência de poderes e o futuro regime do novo país independente. Era o que os britânicos pretendiam para o Iémen do Sul, e que hoje se sabe, então guardado para dali a três anos e meio de distância no futuro, que os britânicos falharam redondamente. (Já aqui me referi mais longamente no Herdeiro de Aécio a esta guerra colonial com outro nome)

23 abril 2024

«MY BOY LOLLIPOP»

Há canções que que sabemos que sabemos, sem saber porque é, ou como é, que as sabemos. Mas estão cá dentro do ouvido. É o caso desta «My boy lollipop», um sucesso na Europa em ritmo cafrializado (mais tarde classificá-lo-ão de ska) e que já tem sessenta anos.

22 abril 2024

A CHEGADA DO «PRÍNCIPE PERFEITO»

22 de Abril de 1964. Confesso que foi com muita satisfação que acabei por descobrir estes registos antigos do movimento do porto de Lisboa para conseguir precisar que foi há 60 anos que o paquete «Príncipe Perfeito» acostou e desembarcou os passageiros. Eu era um dos passageiros e, como já aqui escrevera, a minha primeira passagem do Equador foi no sentido Sul-Norte.

19 abril 2024

É VOCÊ QUE SÓ TEM UMA «VAGA IDEIA» DE ONDE FICA O LAOS?...

Não faz mal que só tenha essa «vaga ideia» da localização do Laos. A 19 de Abril de 1964, há precisamente sessenta anos, havia lá ocorrido um golpe de Estado e, porque o leitor de então teria precisamente o mesmo problema de não saber onde é que aquilo ficava, o jornal recorrera ao expediente de publicar discretamente um mapa que ajudasse o leitor a perceber de que país se tratara. Não é que o Laos fosse muito importante em si. Não era em 1964 e continua a não ser em 2024. A ignorância do leitor era desculpável. A questão colateral é que o Laos fazia fronteira com o Vietname e, aí sim, havia um embrião de guerra em que os Estados Unidos se preparavam para se envolver, que seria o que tornava o assunto noticiosamente interessante. Agora, tanto o país como o resto da Indochina quase desapareceram do noticiário internacional, e desde que lhe façam a pergunta à queima-roupa, suponho que nem o Nuno Rogeiro sabe quem manda no Laos (uma ditadura comunista).

03 abril 2024

OS ÚLTIMOS VESTÍGIOS DA DISPUTA PELA SUCESSÃO DE ESTALINE

3 de Abril de 1964. Num artigo publicado no oficialíssimo Pravda, órgão central do Partido Comunista da União Soviética, artigo esse que aparecera assinado por aquele que era o oficialíssimo ideólogo do partido, o camarada Mikhail Suslov, o Mundo ficava a saber que os camaradas Vyacheslav Molotov, Geórgiy Malenkov e Lazar Kaganovich haviam sido expulsos do partido por ocasião de uma reunião do Comité Central que tivera lugar mais de um mês antes, a 14 de Fevereiro de 1964. Hoje esquecidos, qualquer daqueles três homens pertencera ao círculo que rodeava o ditador Estaline e fora elemento importante na disputa para a sua sucessão depois da sua morte em 1953. (Em parêntesis, confirme-se no vídeo abaixo que todos os três aparecem como personagens destacadas no filme comédia negra A Morte de Estaline de 2017). Mas Estaline morrera onze anos antes e o vencedor da disputa que se seguira fora Nikita Khrushchev. Como o próprio artigo do New York Times se encarrega de recordar os seus leitores, eles já haviam sido afastados dos cargos cimeiros do partido a partir de 1955 e desterrados administrativamente para cargos subalternos em localidades esconsas da imensa Rússia. Mas, pelos vistos, o que se ficava a saber há sessenta anos é que essa sanção não fora considerada suficiente.
Compare-se agora a mesma notícia original quando publicada num jornal português, em que a referência às expulsões não pôde ser referida. Isto é um exemplo concreto da diferença entre uma informação livre e outra tutelada.

01 abril 2024

BRASIL EM FESTA - QUANDO O PODER POLÍTICO EMANA DO CANO DE UMA ESPINGARDA

(Republicação)
1 de Abril de 1964. Há precisamente 60 anos as altas patentes militares brasileiras desencadeavam um golpe de Estado que os tornava senhores do poder político. Acima, identificam-se (de binóculos) o general Costa e Silva que representava a facção mais radical entre os generais e, a seu lado e à civil, o general Castelo Branco, que encabeçava uma facção tida por mais moderada e que iria encabeçar o movimento revoltoso assumindo a Presidência pelos próximos três anos (1964-67). Entretanto, e para sustentar as aparências legais, os generais haviam incumbido os constitucionalistas Francisco Campos e Carlos Medeiros Silva de redigir um documento legitimador que ficou conhecido por Acto Institucional (mais tarde, como se seguiram outros, este acabou por receber o nº 1). É uma peça com passagens interessantíssimas, onde a tradicional esterilidade do «juridiquês» se combina com uma prosa de uma estética apelativa para quem professa a legitimação dos acontecimentos pela força dos meios, mais do que das convicções.
«(...) A revolução vitoriosa se investe no exercício do Poder Constituinte. Este se manifesta pela eleição popular ou pela revolução. Esta é a forma mais expressiva e mais radical do Poder Constituinte. Assim, a revolução vitoriosa, como Poder Constituinte, se legitima por si mesma. Ela destitui o governo anterior e tem a capacidade de constituir o novo governo. Nela se contém a força normativa, inerente ao Poder Constituinte. Ela edita normas jurídicas sem que nisto seja limitada pela normatividade anterior à sua vitória. Os Chefes da revolução vitoriosa, graças à acção das Forças Armadas e ao apoio inequívoco da Nação, representam o Povo e em seu nome exercem o Poder Constituinte, de que o Povo é o único titular.(...)
(...) Fica, assim, bem claro que a revolução não procura legitimar-se através do Congresso. Este é que recebe deste Acto Institucional, resultante do exercício do Poder Constituinte, inerente a todas as revoluções, a sua legitimação. (...)»
A legitimidade do novo poder é assim, e por muito que tenha sido portagonizada por generais, assumidamente revolucionária, e não parece despropositado emparceirar a linha de raciocínio acima com uma conhecida - e já então consagrada - frase de Mao Zedong, a de que o poder político emana do cano de uma espingarda. O poder dos generais era daí que vinha, era através dele que se tinha apoderado também, da opinião publicada (como se comprova acima). Confesso que - não concordando nada com o que lá está escrito! - gosto particularmente da redacção do Acto Institucional nº1. Também pelo seu significado e pelas suas implicações, parece-me ser um dos textos politicamente dialecticos mais interessantes que foram escritos em português e, não fora os preconceitos de esquerda, e fossem as palavras e os raciocínios em política para levar cartesianamente a sério, seria pacífico que o AI-1 tem muito mais valia literária que alguns livrinhos com máximas que, por aqueles anos, nos chegavam vindos da China.

21 março 2024

A PRIMEIRA PARTICIPAÇÃO PORTUGUESA NO FESTIVAL DA CANÇÃO DA EUROVISÃO

21 de Março de 1964. De imagens originais do festival propriamente dito pouco resta, porque, naquela época, as bobines com as gravações eram consideradas demasiado preciosas para se desperdiçarem preservando momentos supérfluos como festivais da canção. O que está disponível é a reinterpretação da canção vencedora, a canção concorrente italiana ("Non ho l'età"), cantada por uma intérprete (Gigliola Cinquetti) que contava então apenas 16 anos. Mais interessante que isso é recordar aqui o interesse que o acontecimento despertava cá em Portugal, como se pode perceber pela extensa cobertura noticiosa que a edição do jornal desse dia lhe dava.

19 março 2024

A EDIÇÃO DA PLAYBOY COM MIÚDAS GIRAS DE PAÍSES COMUNISTAS

Edição de Março de 1964. Os efeitos da propaganda fizera com que a percepção daquilo que separava o Ocidente do Leste transbordasse até a um ponto excessivo.