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02 julho 2024

A FUNDAÇÃO DA FORÇA AÉREA FRANCESA

(Republicação)
2 de Julho de 1934. Foi a data da fundação da Força Aérea Francesa (Armée de l'Air) como um ramo autónomo das suas Forças Armadas. Já se haviam passado 16 anos depois da criação equivalente da RAF (Royal Air Force) entre os seus antigos aliados britânicos, ainda durante a Primeira Guerra Mundial (a 1 de Abril de 1918), mas acredita-se que esta decisão terá sido precipitada pela criação no ano anterior e ainda às escondidas, da equivalente Luftwaffe, entre os seus antigos inimigos e ainda rivais alemães. Porém, formalmente, esta última só aparecerá em 26 de Fevereiro de 1935. Mas, ao contrário das outras duas, a Armée de l'Air francesa, derrotada na Primavera de 1940, teve uma importância negligenciável para o desenrolar das operações aéreas da Segunda Guerra Mundial. O prestígio do ramo, com as Aventuras de Tanguy e Laverdure, são uma criação bem posterior, da década de 1960, na BD e na televisão...

24 junho 2024

«OUSAR LUTAR, OUSAR VENCER» E A LUTA DO MRPP PARA CONTROLAR A FACULDADE DE DIREITO DE LISBOA

24 de Junho de 1974. Uma notícia dava ampla ressonância ao comunicado de um grupo de estudantes que se auto-baptizara «Ousar Lutar, Ousar Vencer» (as ressonâncias maoistas são óbvias) e que entrara em confronto aberto com a «Comissão Pré-Eleitoral» (CPE) da Faculdade de Direito de Lisboa (FDL), estrutura que provisoriamente substituíra a Associação Académica daquela faculdade. O que se deduz do que aparece no comunicado, é que há uma disputa por quem controla a Reunião Geral de Alunos (RGA - uma sigla que então surgia e que viria a ter grande ressonância durante o PREC). Houvera uma RGA dois dias antes, onde vingara a proposta de SUSPENSÃO IMEDIATA DE EXAMES (sic - é assim que aparece redigida, em maiúsculas). Os da «Ousar Lutar, Ousar Vencer», que terão sido os proponentes, explicam no comunicado que «a decisão» é o «passo necessário que permitirá aos estudantes iniciar o duro e urgente trabalho de reestruturação da Faculdade». Sendo «duro e urgente», a verdade é que não aparece uma discrição mais detalhada daquilo em que consistirá o tal «trabalho de reestruturação». Em contrapartida o que aparece é um veemente desmentido que aquela suspensão equivalesse a uma «forma encapuçada de passagens administrativas que ninguém» propusera, conforme afirmariam as «calúnias» dos «actuais membros da CPE». Para aquele dia 24, às 21 horas, estava marcada nova RGA, ou seja, um rematch para se saber quem controlava a FDL - o MRPP da «Ousar Lutar, Ousar Vencer», ou os seus adversários da CPE? Convém acautelar que esta última seria provavelmente controlada pelos comunistas canónicos do PCP. Estava-se em dia de São João Baptista e esta seria um dos baptismos de fogo das lutas académicas sem que fossem alvo da PIDE...

22 junho 2024

A ALEMANHA CONTRA A ALEMANHA

22 de Junho de 1974. O serão deste Sábado prometia um curioso jogo de futebol na televisão em que, para o campeonato do Mundo então em curso, se enfrentavam as duas selecções alemãs: a selecção anfitriã da Alemanha Ocidental contra a sua vizinha da Alemanha Oriental. Este jogo era o primeiro entre as duas selecções e o facto concitava uma curiosidade suplementar (e, não se sabendo então, seria o único jogo entre as duas selecções). Venceu a Alemanha Oriental por 1-0. Mas seria contudo a Alemanha Ocidental, apesar de derrotada neste jogo, que se viria a sagrar campeã mundial no torneio. Uma nota adicional: nesta época, que se seguiu imediatamente ao 25 de Abril, ainda a designação das Alemanhas aparecia desprovida de qualquer subtil conteúdo ideológico. Havia apenas a geografia: era a Alemanha Ocidental e a Oriental. Só depois é que se procurou trabalhar as designações das Alemanhas, com uma Federal (Ocidental), que até era federal, e a outra Democrática, que, apesar da designação e da militância do lóbi comunista em promovê-la por cá, nunca teve nada de democrático.

17 maio 2024

O JINGLE – 2

(Republicação)
Ainda a propósito de jingles e para não ser continuamente negativo, queria evocar aquilo que considero um grande jingle: o do Corneto da Olá, aparecido, ainda em preto e branco, nos finais dos anos 70. Os anúncios começavam a aparecer na televisão por esta altura, mês de Maio, quando começava a fazer calor e os gelados se tornavam apetecíveis, mas o que o anúncio parecia prometer era que as Férias de Verão desse ano iam ser em grande… Podiam-no ser, a maioria das vezes nem tanto, mas no mesmo mês de Maio do ano seguinte as expectativas renasciam… Enfim, a mensagem de sonho de qualquer partido político...

03 maio 2024

OS «CRIMES» DO «INSPECTOR» VARATOJO

(Republicação a pretexto do cinquentenário da primeira publicação do anúncio do inspector Varatojo, desmentindo que a inspecção dele tivesse alguma coisa a ver com a PIDE)
Figura mediática (sobretudo televisiva) de antes do 25 de Abril, a imagem de Artur Varatojo (1926-2006) estava indissociavelmente ligada à criminologia e à literatura policial. Foi por isso com alguma surpresa que, nas semanas que se seguiram ao 25 de Abril, os leitores dos jornais o viram a ele (entre muitos outros), a desmentir em anúncios pagos (abaixo) que alguma vez tivesse pertencido ou estado ligado à PIDE. Houve quem atribuísse essas preocupações ao epíteto forjado de inspector que adoptara por causa da sua imagem.
Porém, uma possível explicação alternativa, mais séria e mais elaborada, para o que parecia a defesa contra uma sanha persecutória contra o Varatojo podemos encontrá-la na capa de uma revista que foi publicada dois meses e meio depois do 25 de Abril e onde se empilham casualmente fichas de funcionários da PIDE e ali encontramos uma de um homónimo (assinalada a branco) do nosso amável investigador policial. Eram tempos de Liberdade, mas onde era impróprio usurpar títulos de inspector e possuir-se um apelido inconveniente
Este é um texto que, conjuntamente com o do Caçador de Pides mais abaixo e glosando mais uma vez José Carlos Ary dos Santos, poderá constituir uma série a que, pela imaginação e por isso orientadas para o céu, se pode dar o título de, em vez de portas, as mansardas que Abril abriu

01 maio 2024

...SOLDADOS E MARINHEIROS...

(Republicação)
Mário Soares nunca ficou a dever nada ao rigor. Ouvi-lo anos mais tarde a descrever os primeiros dias após o 25 de Abril, nomeadamente a rigidez como os comunistas se apegavam à simbologia do leninismo era um desafio aos factos e às fotos, mas não à essência das suas críticas a um comportamento que procurava mimetizar acontecimentos 57 anos depois dos originais (a revolução russa). Os 57 anos decorridos tornavam a reencenação ridícula. Para Soares, os momentos lenínicos de Cunhal compactavam-se na sua chegada apoteótica ao aeroporto de Lisboa, onde o faziam subir para um carro blindado abraçar-se a um soldado e a um marinheiro para discursar às massas. Com rigor (que nunca incomodou Soares...), importa esclarecer que se tratou de dois momentos distintos, embora em dias encadeados. Álvaro Cunhal chegou a Portugal a 30 de Abril de 1974 e discursou em cima do blindado logo à saída do aeroporto (ao jeito de Lenine), mas o abraço conjunto ao soldado e ao marinheiro para as câmaras só veio a ter lugar no dia seguinte, 1º de Maio de 1974 - completam-se hoje 50 anos (acima). Mas o que os esforços do PCP da época têm de cómico não é apenas o meia bola e força da tal evocação sintética de Soares. É também o zelo formal dos discípulos de Cunhal no método científico que eles usam para refutar Soares, concentrando-se no detalhe e na forma (Cunhal não abraçou o soldado e o marinheiro em cima do blindado), que não no conjunto e na substância (a constatação que havia uma preocupação dos comunistas em fazer Cunhal assumir atitudes públicas associáveis a gestos de Lenine). Porque na substância, a ironia de Mário Soares em realçar o quanto Cunhal aparecia empenhado a ressuscitar uma coreografia que já estava então muito mais do que ultrapassada, essa ironia é mais do que justificada: repare-se como na foto acima já não existirá espaço para se incluir na foto um outro militar, da Força Aérea, ramo das Forças Armadas que já existia no Portugal de 1974, mas ainda não na Rússia de 1917, onde então só havia apenas soldados e marinheiros... Lá nos manuais de propaganda dos comunistas não se sabia ainda o que fazer com as fardas azuis dos aviadores...

30 abril 2024

SOBRE A CHEGADA DO 25 DE ABRIL AO CINEMA E A SUA (R)EVOLUÇÃO - DAS «PORTAS QUE ABRIL ABRIU» ATÉ ÀS «CUECAS QUE ABRIL DESPIU»...

(Republicação a pretexto do dia do cinquentenário da estreia em Portugal de «O Último Tango em Paris»)
Em termos cinematográficos o 25 de Abril ficou também para sempre associado a O Último Tango em Paris. Estreado a 30 de Abril de 1974 no Monumental (acima), uma das primeiras constatações concretas pelos portugueses do que era o usufruto da Liberdade: assistir a um desses filmes bem condimentados (mas intelectuais) sem quaisquer cortes da censura, como acontec(er)ia por essa Europa fora… Não era bem verdade, mas isso então não interessava nada¹. Tratava-se de toda uma nova relação do espectador português com a arte

Que se exprimiu de imediato, na forma oportunista que caracterizava o teatro de revista, com a aparição de uma peça intitulada O Último Fado em Lisboa, uma enorme salada russa, incluindo danças e cantares dessa mesma proveniência, a que se juntava umas danças do ventre e uns nus artísticos de umas artistas que já se haviam deixado ver em melhores dias. Não deixa de ser irónico que vanguardistas concorrentes como César de Oliveira, Filipe La Féria (esse!), Graça Lobo e Mário Viegas tenham boicotado revolucionariamente a peça...
Nesses tempos heróicos, em paralelo com referências como O Couraçado Potenkin ou então O Destacamento da Guarda Vermelha, a educação do típico espectador português em transição para o socialismo também se fazia no segmento do Último Tango: filmes europeus com muita conversa intelectual mas acompanhada de coboiada. O apogeu desses filmes terá sido o estreado a 2 de Janeiro de 1975 no Império (acima) com um título intraduzível (La maman et la putain²) e um apelo descarado ao voyeurismo, veja-se o cartaz abaixo.
Infelizmente, e apesar da ousadia do título, o filme revelava-se uma pastilha comprida e chata com 3 horas e 37 minutos de duração, conversa demais e muito pouca acção para o que era sugerido como se antecipa abaixo. Apesar do impacto da altura, actualmente o filme estará praticamente esquecido e os gostos dos espectadores portugueses começaram a clarificar-se, separando-se aqueles que preferiam os enredos dirigidos então por Ingmar Bergman dos que preferiam os enredos protagonizados por Linda Lovelace

¹ O filme não fora estreado em Espanha, em Itália o realizador (Bernardo Bertolucci) fora levado a Tribunal, etc. ² Para os menos dotados para línguas a tradução para português é: a mamã e a puta.

29 abril 2024

AS PRESIDENCIAIS FRANCESAS DE 1974 E AS ESPECIFICIDADES DAS ESPOSAS DE CADA CANDIDATO

(Republicação)
Última semana de Abril de 1974. Enquanto por cá se vivia o ambiente decorrente do 25 de Abril, em França preparava-se a primeira volta das eleições presidenciais desencadeadas pelo falecimento no cargo de Georges Pompidou (a 2 de Abril). Pela primeira vez, emulando o modelo norte-americano e esquecendo a tradição francesa que, por exemplo, fizera de Yvonne de Gaulle uma presença sempre discreta ao lado do marido, os mecanismo da campanha concentravam-se nas esposas dos candidatos.
No caso da esposa do candidato da direita republicana Valery Giscard d'Estaing, aquilo que havia a contrariar era o perfil aristocrático do candidato, ainda aumentado pelas origens familiares da esposa, nascida Anne-Aymone Sauvage de Brantes. A aristocracia de França sempre fora tradicionalmente inimiga da República e havia que atenuar essa imagem. Daí a ideia de uma fotografia mostrando-a diante de uma colecção de instrumentos de cozinha, qual Filipa Vacondeus precoce, cozinhando para o povo.
No caso da esposa do candidato das esquerdas, François Mitterrand, aí não havia, naturalmente, qualquer perigo de conotação com a aristocracia. O problema do casal Mitterrand, Danielle (nascida Danielle Gouze) e François, era que, como era já conhecido nos círculos informados, eles haviam deixado de ser um casal, vivendo vidas separadas. Para as eleições próximas, e paradoxalmente para o candidato da esquerda, quase como se se tratasse de monarcas, houve que encenar fotograficamente uma vida comum ficcional.
E havia finalmente a esposa do candidato gaullista, Jacques Chaban-Delmas. Aí o problema não era a esposa, Micheline Chavelet Chaban-Delmas, uma divorciada com 4 filhos, cuja beleza era comparada pelos seus apoiantes à actriz Ali McGraw de Love Story, antes a abrasiva reputação sentimental do próprio candidato, que se divorciara da primeira mulher para casar com a secretária, enviuvando desta segunda esposa por causa de um controverso acidente de viação (1970) quando já vivia maritalmente com Micheline. Acessoriamente, era primeiro-ministro...

TEMPOS DE GRANDE ENTUSIASMO... MAS DE GRANDE INGENUIDADE TAMBÉM!

Os dias que se seguiram ao 25 de Abril de 1974 foram tempos de grande entusiasmo, mas acompanhados de uma grande ingenuidade por parte de uma sociedade completamente impreparada para uma nova coreografia e uma nova dinâmica social. Os tempos pediam novos ícones e eles surgiam, emprestados, sem que nos apercebêssemos do empréstimo e considerando-os - até hoje - coisa nossa. A nova palavra de ordem - e as palavras de ordem eram, em si, coisas novas! - a nova palavra de ordem «O Povo Unido Jamais Será Vencido» fora o refrão de uma canção revolucionária chilena do Verão de 1973 (acima). Quanto àquela que ficara consagrada como «A Marcha do MFA», essa era um pouco mais antiga, datava de 1927 quando fora adoptada como o hino dos Fuzileiros britânicos (Royal Marines, abaixo). Mas parecia-nos que tudo havia começado connosco!

28 abril 2024

O TV 7 de 28 de Abril de 1974

(Republicação de um original de 25 de Abril de 2008, mas com imagens melhoradas e duas ligações para o programa em causa, já depois disso oportunamente colocados no arquivo da RTP)

Muito melhor que os Capitães de Abril da RTP1, a RTP Memória preferiu passar no mesmo dia um programa de informação da época, que se intitulava TV 7 (1) e (2) que fora transmitido a 28 de Abril de 1974. Apresentavam-no Luís Filipe Costa e Maria Margarida e, seguindo a estética televisiva criada 3 dias antes por Fialho Gouveia, além dos apresentadores andarem descontraidamente pelo cenário, tornava-se obrigatório acender e fumar um ou dois cigarros durante o programa...
Em contrapartida, naquela época embrionária do PREC, os convidados ainda tinham de se sentar… de vez em quanto. E aquele TV 7 estava repleto de convidados, que eram quase todos caras novas na televisão daquela época. Entre outros, Maria Lamas, Victor Wengorovius, Carlos Carvalhas, Blasco Fernandes, Arons de Carvalho e, o mais importante de todos, Baptista-Bastos, que, pasme-se, já então contava aquelas histórias sem propósito algum, mas que ainda usava gravata…
Ainda não foi desta que fiquei a saber precisamente onde é que Baptista-Bastos estivera no 25 de Abril, mas fiquei a saber que, estivesse onde tivesse estado, ainda teria estado convencionalmente de gravata e não com o laço que depois tanto o popularizou…

27 abril 2024

OUTROS HERÓIS DE ABRIL – O CAÇADOR DE PIDES

(Republicação)
Na ressaca dos dias imediatos ao 25 de Abril de 1974, o Rossio e as outras mais frequentadas da baixa da Lisboa tornaram-se locais de um amplo trabalho de mobilização das massas populares. Ficaram famosos alguns trabalhos de cobertura fotográfica dessa mobilização com a identificação e prisão de agentes da PIDE ainda em liberdade em sequências que chegaram a ser publicadas em reputados órgãos de informação internacional (acima). Contudo, os 50 anos que entretanto decorreram podem permitir-nos vê-las, às fotografias, com uma atenção que o fervor revolucionário daquela época não possibilitava: dediquemo-nos ao militar assinalado (qual barão desarmado de Camões...) que, na última fotografia da série acima, arrasta para longe da fúria popular o pide ensanguentado.
A sua cara está apontada directamente para a objectiva e a sua expressão é indiscutivelmente triunfal, embora a exuberância do bigode, que não tardaria a banalizar-se num exército que passara a estar sempre, sempre ao lado do povo, nos comece a dar os primeiros sinais de suspeita, por não ter podido crescer até àquela exuberância anti-regulamentar nos escassos dias então decorridos depois do 25 de Abril... Melhor: o lídimo representante do MFA envergava uma das vulgares fardas de trabalho (designada por nº 2, salvo erro) onde coexistia uma barreta de condecorações com uma (condecoração) propriamente dita (o que nunca se faz) e esta era, nada mais, nada menos, do que uma cruz de guerra, que se atribui por feitos em combate. Isso não impedia que esse heroísmo redobrado coexistisse com uma notória falta de aprumo (uma camisa desbarrigada, um porta-chaves demasiado à vista), talvez explicável pelos dois números que faltariam ao blusão para que ele assentasse devidamente ao nosso herói. Nas suas platinas nem galões nem divisas, sugerindo que, apesar do ar de quem lidera o destacamento, se estava perante um soldado básico, um condutor de homens inato, mas modesto...
Naquele ano de 1974, a Páscoa fora recente, calhara a 14 de Abril, o Carnaval fora por isso em finais de Fevereiro mas, em finais de Abril parecia ainda haver quem se divertisse mascarado em pleno Rossio e – bónus suplementar para o folião – sem que ninguém desse ou se incomodasse com isso… Suspeito que faltaria ao criador original (José Carlos Ary dos Santos) a capacidade de saber rir deste caminho aonde o poderia levar a ironia dos seus próprios versos, mas creio que esta também foi mais uma das portas que Abril abriu

23 abril 2024

«MY BOY LOLLIPOP»

Há canções que que sabemos que sabemos, sem saber porque é, ou como é, que as sabemos. Mas estão cá dentro do ouvido. É o caso desta «My boy lollipop», um sucesso na Europa em ritmo cafrializado (mais tarde classificá-lo-ão de ska) e que já tem sessenta anos.

22 abril 2024

A CHEGADA DO «PRÍNCIPE PERFEITO»

22 de Abril de 1964. Confesso que foi com muita satisfação que acabei por descobrir estes registos antigos do movimento do porto de Lisboa para conseguir precisar que foi há 60 anos que o paquete «Príncipe Perfeito» acostou e desembarcou os passageiros. Eu era um dos passageiros e, como já aqui escrevera, a minha primeira passagem do Equador foi no sentido Sul-Norte.

02 abril 2024

A MORTE DO PRESIDENTE FRANCÊS GEORGES POMPIDOU

2 de Abril de 1974. Morte simultaneamente inesperada e esperada do presidente francês Georges Pompidou. A morte é inesperada para o grande público: o presidente Pompidou contava então 62 anos e fora eleito em Junho de 1969 para um mandato de sete anos, que terminaria em 1976. A morte é esperada entre o círculo próximo da presidência francesa e também entre as elites mundiais que estão normalmente mais bem informadas do que os comuns. O presidente padecia de uma doença cancerígena denominada macroglobulinemia de Waldenström que lhe fora diagnosticada alguns anos antes (quantos, é questão de controvérsia). Os tratamentos a que se submetera haviam-lhe provocado alterações físicas - a sua cara inchara, por exemplo, o andar tornara-se arrastado - que era possível disfarçar, a custo, perante a comunicação social, mas que era impossível disfarçar nos encontros com os seus homólogos. Soube-se depois que a CIA, aquando de uma das viagens de Pompidou ao estrangeiro, procedera a uma operação para recolha da sua urina, por forma a fazer um diagnóstico independente da doença que o afectava. Para os primeiros meses de 1974, os cancelamentos sucessivos da agenda presidencial tornavam cada vez mais difícil aos responsáveis do palácio do Eliseu esconder do conhecimento geral os problemas de saúde do seu ocupante. As imagens acima são das suas exéquias, que tiveram lugar a 6 de Abril na catedral de Notre-Dame de Paris, onde, entre os cerca de 3.000 presentes, se contavam 28 chefes de Estado entre as delegações representativas de 82 países. A questão da transparência do estado de saúde do presidente francês foi muito discutida na época, houve promessas de que aquele secretismo não se repetiria, mas, passados uns quinze anos, durante a presidência de François Mitterrand, voltou tudo a acontecer de novo, quase rigorosamente idêntico, mas com a significativa diferença que Mitterrand não morreu em funções, mas apenas oito meses depois de abandonar o cargo.

30 março 2024

À DESCOBERTA DE MERCÚRIO

(Republicação)
30 de Março de 1974. Descobria-se como era a aparência do planeta Mercúrio. A sonda responsável pelo envio das primeiras fotografias do primeiro planeta do Sistema Solar denominava-se Mariner 10. Embora o seu percurso pelo espaço fizesse com que a maior aproximação da sonda ao planeta tivesse ocorrido ainda no final do dia anterior (às 20H47 TMG), foi só neste dia que, por causa da delicadeza e lentidão das transmissões, começaram a ficar disponíveis para a comunicação social as primeiras fotografias da superfície de Mercúrio. Era um grande feito científico... mas também uma grande desilusão mediática: para o grande público, aquilo que se podia ver era uma reedição daquilo que já se vira na Lua, um corpo rochoso que se destacava da escuridão, marcado por uma profusão aleatória de crateras de impacto (acima o mosaico de fotos dessa passagem em que a Mariner 10 se chegou a aproximar até 700 km da superfície do planeta). Ao contrário do que acontece com Marte, Vénus, Júpiter ou até, mais recentemente, com o longínquo Plutão, Mercúrio é um planeta desprovido de charme.

24 março 2024

PREPARANDO O NASCIMENTO DA «BRITISH AIRWAYS»

24 de Março de 1974. Preparando o nascimento da British Airways, que seria a nova companhia aérea de bandeira britânica e que resultava da fusão da BOAC e da BEA, aparecia uma enorme campanha publicitária prévia, que também chegava à imprensa portuguesa (à esquerda). O nascimento oficial da nova companhia estava marcado para dia 31 de Março e o mesmo anúncio ir-se-ia repetir quotidianamente nas futuras edições do jornal. Para quem se dispusesse a reflectir sobre o seu significado, o gesto - decidido por um parlamento de maioria conservadora em 1971 - representava a desistência pelo Reino Unido de um modelo de organização das suas linhas aéreas correspondente às suas pretensões imperiais: uma empresa responsável pelas ligações com a Europa (BEA) e outra (BOAC) com o antigo império (Canadá, Austrália, Índia, África do Sul, etc.). As realidades do que acontecera depois de 1945 tornara aquelas pretensões obsoletas. Com a adesão à CEE, o Reino Unido apostara a fundo na integração europeia. E, como quase todos os países europeus haviam feito, com a Lufthansa, a Air France ou a Alitalia, também o Reino Unido adoptava agora o modelo de uma grande companhia aérea de bandeira.

22 março 2024

DEDICADO EM REGISTO NOSTÁLGICO AOS CAMARADAS DA SOEIRO PEREIRA GOMES

Celebrações do 40º aniversário da Alemanha Oriental, a um mês do colapso do regime comunista local. Depois de 1989 nunca mais as coisas foram as mesmas. Em Portugal e apesar do barulho que eles se impuseram fazer logo imediatamente depois de 10 de Março («Cerca de duas centenas de delegados, dirigentes e ativistas sindicais da administração pública manifestaram-se hoje na baixa de Lisboa»), a constatação a cada eleição que passa, é que o ideal e as ilusões comunistas ortodoxas morrem mais um bocadinho. Contudo, pior do que tudo, este lento processo de definhamento tem sido feito sem qualquer dignidade, porque os comunistas se têm agarrado a todos os expedientes e até a amizades fingidas. A propósito daquilo que acabou de acontecer na Rússia (que por lá chamaram eleições presidenciais), vale a pena recordar velhos tempos (Janeiro de 2005), em que o PCP, certamente por solidariedade para com o partido irmão russo*, ainda não se havia tornado na organização incondicionalmente putinista que hoje conhecemos.
* Partido Comunista russo que entretanto, sob Putin, se terá tornado noutra memória histórica, precedendo o PCP. A Rússia actual é a demonstração acabada que uma ditadura é uma ditadura e o que é importante numa ditadura é que ela seja obediente a um ditador independentemente das razões que este último arranje para ser obedecido.

30 janeiro 2024

OS ASSUNTOS, TAL QUAL ELES SÃO, EM CONTRASTE COM A MANEIRA COMO NOS QUEREM CONTAR

30 de Janeiro de 1984. O Diário de Lisboa publica, via AFP, um artigo de opinião de um jovem (27 anos) sociólogo francês chamado Didier Lapeyronnie sobre a questão do sigilo bancário suíço (note-se que os dados que aqui forneço sobre a identidade do autor do artigo não eram então facultados ao leitor do jornal). Sobre o conteúdo do artigo, mesmo uma leitura menos atenta mostra quanto ele é inequívoco na condenação das práticas da banca suíça. Mas o próprio artigo acaba dando uma esperança contra tais práticas condenáveis, porque quase quatro meses depois, a 20 de Maio, «os eleitores helvéticos (iriam) ser chamados às urnas para se pronunciarem, por via de referendo sobre uma iniciativa socialista "contra o abuso do segredo bancário"». A impressão geral que se extraía do artigo - pelo menos, foi o que aconteceu comigo - é que os suíços teriam então uma oportunidade de se exprimir contra uma prática duvidosa, senão mesmo condenável, de proteger a identidade de depositantes que ali escondiam fortunas de origens inconfessáveis. Esta era a opinião de Didier Lapeyronnie com este seu artigo de há 40 anos, avalizado pela France Press. E depois... houve quem não se tivesse esquecido do assunto, e tivesse ficado atento aos resultados do referendo (abaixo). Numa proporção de quase 3 para 1, os suíços que se pronunciaram manifestaram-se a favor da manutenção do sigilo bancário. E foi assim que eu descobri que monsieur Lapeyronnie não estava afinal nada sintonizado com a opinião generalizada dos próprios suíços... Achava coisas. Era aquele tempo em que eu dava muita valia à opinião que vinha do estrangeiro, por vir do estrangeiro.

19 janeiro 2024

HÁ MAIS DE QUARENTA ANOS QUE EU NÃO ACREDITO NAS HISTÓRIAS «PURAS» DE AGRESSÕES A JORNALISTAS, CASO NÃO HAJA OUTRAS TESTEMUNHAS IMPARCIAIS A CORROBORAR

Esta história que aqui vou contar já tem mais de 45 anos, ocorreu por ocasião das cerimónias do 175º aniversário do Colégio Militar, cerimónias que foram presididas pelo então presidente da República, general Ramalho Eanes. Antes das cerimónias se iniciarem, e diante da guarda de honra que o aguardava, houve uma cena que ainda hoje recordo. Formou-se inicialmente uma poule de foto-jornalistas postados no sítio mais propício para fazer a melhor fotografia ao presidente, quando ele chegasse. Infelizmente, o sítio era também o mesmo por onde forçosamente o mesmo presidente, o seu ajudante, e o comandante da guarda de honra haveriam de passar quando o primeiro passasse revista aos membros que - como eu - constituíam a guarda de honra. Não podia ser. Um alferes da PE (Polícia do Exército) explicou pacientemente isso aos foto-jornalistas e estes dispersaram. Passado alguns instantes formava-se novo grupo, mais pequeno (dois ou três), no mesmo local, e o mesmo alferes voltou a explicar-lhes, aos fotógrafos insistentes, precisamente a mesma coisa. Enquanto isso, nós, na guarda de honra, apreciávamos este jogo do gato e do rato impávidos, mas nem por isso desatentos e, por isso, divertidos. Chega o presidente, começam os procedimentos, saudações, hino, e não é que há um fotógrafo mais coriáceo que, apesar do que acontecera, volta para o lugar do crime?... Aí, o alferes da PE, que era de compleição avantajada, esgotara a paciência, e, pegando sem cerimónia no fotógrafo pela gola e pelos fundilhos, despejou-o para uma distância de uns dois metros longe do local onde presidente e acompanhantes passariam, onde o fotógrafo aterrou para um lado e a sua máquina para outro. A cena foi violenta mas é minha convicção profunda que a assistência só não irrompeu em aplausos porque: a) era uma tropa disciplinada; b) tínhamos as mãos ocupadas a segurar as armas. O fim da história é um anti-clímax, o fotógrafo afastando-se dorido com a máquina de onde se partira qualquer coisa, rogando pragas e ameaçando represálias, que não dei por que se concretizasse. Mesmo sem as fotos mais especiais daquele parvalhão, a ocasião ficou registada para a posterioridade, como o comprovam as duas fotos mais acima.
Regressemos ao presente e ao recente episódio em que o Expresso se vitímiza porque um dos seus jornalistas foi expulso de um «evento universitário». Da própria notícia que o jornal publica percebe-se que os convites haviam sido feitos extemporaneamente por membro do staff do Chega (quando estes não eram sequer os anfitriões do evento), que o jornalista terá sido previamente instado por três vezes para o abandonar e quanto à expressão «agredido» que é usada pelo jornal, essa parece excessiva quando se lê que ele terá sido «agarrado pelos pés e pelos braços» e posto fora do recinto onde decorria o evento. Removido sem qualquer cortesia sim, mas essa falta de cortesia começara quando ele se recusara a abandonar o local, recusando razões que preferiu não reconhecer como válidas. Recordando aquilo que aconteceu diante de mim há 45 anos, o que faltará a esta história é recolher o depoimento de alguém que a possa descrever de maneira imparcial. Não se dê o caso do jornalista se ter comportado como um parvalhão, como aconteceu com o foto-jornalista do parágrafo mais acima. Porém e em vez disso, quanto mais o tempo passa, mais se percebe que, em vez de o esclarecer, o exercício dos colegas deste jornalista tem sido o de tentar conspurcar o incidente com o maior número de entidades possíveis: Chega, UCP, Iniciativa Liberal... Como sempre, parece ser tempo perdido pedir-lhes, aos jornalistas, objectividade em acontecimentos em que estão em jogo os seus interesses de classe. O que, não nos esclarecendo nada quanto ao que terá acontecido, elucida-nos, ao menos, porque é que quiseram transformar aquilo que aconteceu em notícia.