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15 junho 2024

O 70º ANIVERSÁRIO DA FUNDAÇÃO DA UEFA

15 de Junho de 1954. Fundação em Basileia, na Suíça, da União das Associações Europeias de Futebol, que costuma ser designada pelo acrónimo da organização em inglês: UEFA. Actualmente a organização é composta por 55 associações, algumas das quais constituem cedências políticas à geografia, já que não se localizam total ou parcialmente na Europa. É o caso de Chipre, Israel e Cazaquistão pela totalidade e da Rússia e da Turquia parcialmente. Também a classificação como europeus dos três países caucasianos (Arménia, Azerbaijão e Geórgia) é passível de discussão. Outros países, mesmo que indiscutivelmente europeus, estão inscritos com mais de uma associação, caso do Reino Unido com cinco associações (Inglaterra, Escócia, Gales, Irlanda do Norte e Gibraltar) e da Dinamarca com duas (Dinamarca e ilhas Faroé). Outro caso peculiar é o da associação do Kosovo, região que goza de um estatuto político algo indefinido, reconhecido por alguns países, mas não por outros. Futebol, geografia e política constituem uma mistura pouco coerente.

15 abril 2024

A ASSINATURA DO ACORDO DE MARRAQUEXE

(Republicação)
15 de Abril de 1994. Assinatura do Acordo de Marraquexe, envolvendo a assinatura de 124 países e que se veio a revelar a antecâmara da criação da Organização Mundial de Comércio, organização que viria a nascer em 1 de Janeiro do ano seguinte. Foi um verdadeiro safanão no comércio internacional e na ordem internacional que existira até aí, mas também foi uma daquelas ocasiões históricas de cujo valor histórico todos os grandes observadores mediáticos - e, com eles, as opiniões públicas - só se terão apercebido bem depois de ter acontecido.

15 dezembro 2023

QUEM HAVERIA DE DIZER...

...que um dia havíamos de vir a ver republicanos americanos e comunistas portugueses perfeitamente de acordo quanto a uma questão magna de política internacional?... Ainda por cima, quando o assunto que os associa envolve a Rússia. O cartoon é da autoria de Bill Bramhall. A alusão é à famosa fotografia do içar da bandeira em Iwo Jima em 1945, só que esta bandeira é branca, a bandeira da rendição. G.O.P. são as siglas como o partido republicano costuma ser designado.

13 dezembro 2023

O CONVITE... QUE NÃO ERA PARA SER ACEITE

13 de Dezembro de 1963. Franco Nogueira, o então ministro dos Negócios Estrangeiros português encontrava-se em Nova Iorque, na sede da ONU, organização onde se registavam grandes pressões sobre Portugal e a sua política colonial. No decurso de uma visita «de cortesia» que o ministro efectuara ao então secretário-geral da organização, o birmanês U Thant, este último recebera um convite para visitar as duas maiores colónias portuguesas em África: Angola e Moçambique. A notícia que acima lemos acima, onde se dá conta de que o convidado estará a ponderar a decisão, é apenas a terceira demão de hipocrisia num processo repleto dela. A primeira demão, é o pincel da parte portuguesa que faz o convite, quando já espera de antemão que ele seja declinado: a ideia é deixar a outra parte em maus lençóis ao recusar o convite. A segunda demão é o pincel internacional da ONU, que não quer validar com uma presença do seu secretário-geral a legitimidade de qualquer território sob tutela colonial; aquilo que ela está disposta a ceder na negociação é algo muito limitado. Finalmente há esta terceira demão de hipocrisia, fingindo-se que qualquer das duas partes estarão a conversar de boa fé e com seriedade. Para quem estiver interessado em saber como esta história vai acabar, na ONU vai-se empurrar discretamente o assunto por seis meses, até, depois de uma insistência portuguesa em finais de Maio, da parte da ONU se assumir oficialmente a recusa, a 4 de Junho de 1964.

05 novembro 2023

OS PERCURSOS QUE AGORA SEPARAM A ÚRSULA DO AGOSTINHO

Úrsula von der Leyen foi à Ucrânia naquilo que me parece ter sido uma iniciativa calculada para mostrar quais são as prioridades europeias. Tirando a Euronews, pouca atenção lhe deram. Parece óbvio que a agenda mediática que nos envolve continua dominada por aquilo que interessa aos norte-americanos e não aos europeus e é dessas prioridades informativas que costumamos ser servidos. Emblemático disso, o especialista da guerra Agostinho Costa na nossa CNN parece ter sido transferido definitivamente do Donbass para a Faixa de Gaza (abaixo). Não sei é se a sua parcialidade continua a agradar e a irritar os mesmos da guerra anterior... É que me parece que ele havia pró-russos que agora são pró-israelitas.

25 setembro 2023

QUANDO DONALD TRUMP ABANDONOU A SUA ZONA DE CONFORTO...

(Republicação adaptada)
25 de Setembro de 2018. Por uma vez, Donald Trump foi à assembleia geral da ONU proferir um discurso diante de uma plateia que não estava preventivamente encenada para endossar incondicionalmente aquilo que ele dizia... e foi o que se viu. As suas gabarolices foram acolhidas com gargalhadas contidas... que explodiram ao primeiro pretexto. Houve quem comparasse o episódio com o do sapato de Khrushchev. Concedendo atenuantes ao sapato...

21 setembro 2023

«AO VIVO DE NOVA IORQUE»: TRÊS MINUTOS E MEIO DE "CONVERSA PARA BOI DORMIR"

Há quatro meses havia sido notícia que Lula da Silva ficara "chateado" com Vladimir Zelensky porque "o tinha deixado pendurado" numa cimeira. Para Lula, será importante mostrar ao Mundo que Zelensky presta atenção ao que o brasileiro tem para dizer sobre a invasão da Ucrânia, e para Zelensky é importante mostrar que a importância que o ucraniano lhe dispensa é sofrível, é o mínimo acima do limiar da má educação. Os dois, para colmatar o episódio de há quatro meses, e para não ficarem com a fama de mal educados, encontraram-se agora em Nova Iorque. Só mesmo os media brasileiros (e alguns portugueses por arrasto) deram relevância prévia ao encontro. E escolhi este vídeo da CNN Brasil que me parece eloquentemente simbólico do quanto nada havia para noticiar. São três minutos e meio em que a repórter, «ao vivo de Nova Iorque», nada consegue dizer de substantivo sobre o conteúdo das conversações, deixando a suspeita que nada havia de importante para dizerem pessoalmente um ao outro - é aquilo que os brasileiros classificam como "uma conversa para boi dormir". Conversa tão oca que, mesmo em três minutos e meio, o boi adormece logo. Este género de jornalismo é mesmo uma merda de perda de tempo!

19 setembro 2023

A LIBERTAÇÃO DOS PRISIONEIROS QUE NINGUÉM SABIA PRESOS

Não se pode dizer que a questão dos prisioneiros norte-americanos que estavam detidos no Irão fosse um assunto com presença destacada no noticiário internacional. E percebe-se a delicadeza da negociação para a sua libertação, obrigada a preservar essa discrição. O que me parece completamente despropositado é o contraste da atitude que os media haviam mantido - e bem - até agora com estas celebrações pela sua libertação que põem as audiências perante a circunstância de não saber muito bem o que se está a celebrar como um grande sucesso. Tanto mais que, dos cinco americanos que foram libertados, apenas três estão a ser identificados, os outros dois permanecem incógnitos por razões que, no meio de tanta efusividade, ninguém se incomoda a perguntar nem a esclarecer. Se o objectivo da notícia é querer que se embarque no regozijo por se ter alcançado tal resultado, para celebrar a vitória com esta veemência teria sido melhor ter dado outra notoriedade ao jogo enquanto ele decorria... Assim, fica com aspecto de Carnaval fora de época.

18 setembro 2023

A ADMISSÃO DAS DUAS ALEMANHAS NA ONU

(Republicação)
18 de Setembro de 1973. Foi já há 50 anos que os dois estados alemães vieram a ser admitidos simultaneamente na Organização das Nações Unidas. Passaram-se já cinquenta anos mas convém acrescentar que as duas Alemanhas haviam tido que esperar 28 anos pela sua entrada na ONU. O problema não era apenas, nem sobretudo, o de se tratar de um dos países vencidos da Segunda Guerra Mundial: refira-se que o Japão se encontrava precisamente nessa mesma situação, mas já fora admitido 17 anos antes. A questão primordial que atrasara a admissão das duas Alemanhas era a da divisão do país. Aliás, o mesmo problema impedia ainda naquela altura a admissão das duas Coreias e dos dois Vietnames. Mas, por fim, os dois blocos da Guerra Fria haviam chegado a um acordo que possibilitara a admissão simultânea pelo menos das duas Alemanhas, a de Leste e a de Oeste, conjuntamente e em contraste com a das Bahamas, um pequeno país de 180.000 habitantes que acabara de receber a independência do Reino Unido há apenas dois meses. As fotografias assinalam a cerimónia simbólica do içar das bandeiras dos três novos estados membros em Nova Iorque. Há uma carregada ironia no facto do secretário-geral da ONU de então ser o austríaco Kurt Waldheim, que acima vemos a discursar. Ironia pelo facto de posteriormente se ter vindo a descobrir que Waldheim tinha um passado militar assaz controverso na Wehrmacht, quando ele também havia sido alemão entre 1938 e 1945 (por força da anexação forçada da Áustria à Alemanha).

15 setembro 2023

MARROCOS FAZ O FAVOR A OUTROS PAÍSES EM SER AJUDADO

Pelos vistos, andámos décadas a fio iludidos com a ideia que, quando acontecia uma catástrofe natural num determinado país, era uma benesse para esse país que os outros países da comunidade internacional acorressem a ajudá-lo com pessoas, equipamentos e bens. O que está a acontecer com Marrocos, na sequência do terramoto de Marraquexe, está a demonstrar que não. Com aquela dose de despeito pelo facto da ajuda da França ter sido preterida, o Le Monde dá hoje conta da existência de um clube muito selecto de países de que Marrocos aceita o auxílio: Emirados Árabes, Espanha, Qatar e Reino Unido. A de outros, como a da França, antiga potência colonial, ou a da Argélia, país vizinho e rival, são dispensáveis. Aparentemente, depois da denúncia da profusão de ONGs de objectivos nem sempre transparentes, também a indústria do altruísmo está a sofrer uma transformação no formato como costuma ser apresentada.

11 setembro 2023

AFINAL NÃO É BEM COMO LULA TINHA DITO...

O presidente brasileiro acabou por dar o dito por não dito a respeito da detenção de Putin em território brasileiro. Mas, mostrando-se irritado pela contrariedade, a sua frustração virou-se agora para o facto do Brasil ser um signatário do estatuto de Roma, uma decisão que foi tomada durante a presidência do seu antecessor Fernando Henrique Cardoso. Uma consulta aos países signatários, mostra que a esmagadora maioria dos países europeus (com excepção da Rússia, Bielorrússia e Ucrânia) o subscreveu, assim como o fizeram a esmagadora maioria dos países americanos (com a excepção dos Estados Unidos, Cuba e Nicarágua). Considerando, «a importância do Tribunal Penal Internacional para a protecção dos direitos humanos», é difícil compreender como é que o Brasil poderia ter tomado uma atitude distinta daquela que tomou há vinte e cinco anos. Lula da Silva, porém, parece ter perdido a tranmontana, e compara, com inveja, as limitações que o estatuto de Roma agora lhe impõe, à liberdade de que gozam os seus parceiros dos BRIC como a China, a Índia ou a Rússia. É nitidamente o deslumbramento de um líder de potência regional, que não gosta de contrariedades legais deste género. Este episódio serve para nos recordar que, ao apreciar a evolução da situação política recente no Brasil, a antipatia por uma figura como Bolsonaro foi muito mais abrangente do que a simpatia por uma figura como Lula da Silva, Lula esse, que, valha a verdade, não é assim grande coisa... (o outro é que é uma grande merda)

22 maio 2023

LULA ESTÁ CHATEADO COM ZELENSKY E NÓS TEMOS PENA

Quando uma potência de pequena/média dimensão, como é o caso da Ucrânia, se torna a protagonista de um conflito internacional cuja dimensão a supera, tem que acautelar-se para que os seus interesses vitais não sejam sacrificados pelos grandes - e verdadeiros - protagonistas da disputa. A História está repleta de exemplos de grandes potências que estiveram dispostos a sacrificar aquilo que pertencia aos seus aliados subordinados, como expediente para apaziguar as grandes potências adversárias. No nosso caso concreto e até à Primeira Guerra Mundial e por diversas vezes, o Reino Unido mostrou-se disposto a ceder as grandes colónias portuguesas em África em benefício - e para apaziguamento - da Alemanha; mas talvez o caso mais escandaloso tenha ocorrido em Munique em 1938, quando esse mesmo Reino Unido e a França retalharam a Checoslováquia em benefício - e para apaziguamento - daquela mesma Alemanha, num processo diplomático em que a sacrificada Checoslováquia nem foi convidada a estar presente... Não é difícil deduzir que em Kyiv essa história do sacrifício de Praga de 1938 estará muito presente para não o repetir. A Ucrânia será uma potência de pequena/média dimensão, mas não muito propensa a deixar-se domesticar e muito cuidadosa para com aqueles, como o Brasil, que se arrogam uma importância política internacional que ninguém lhes parece reconhecer.

Quanto à condução da sua actividade diplomática, a prioridade de Zelensky será para com as potências que forneçam aos ucranianos meios de combate e de resistência. É por isso e para isso, cativar os países que ainda estejam verdadeiramente indecisos para a sua causa, que o presidente ucraniano andará a saltitar por esse mundo fora, como aconteceu recentemente com a sua presença na Liga Árabe. Depois, na hierarquia das prioridades da Ucrânia, há que prestar atenção àquelas potências que verdadeiramente contam e que só se fingem indecisas: estão do lado russo da barricada - leia-se, a China. Com a China, Zelensky joga uma diplomacia subtil: Xi Jinping vai a Moscovo e Zelensky convida-o para ir também a Kyiv; claro que Xi não vai, embora arranje um sucedâneo de manobra diplomática - uma conversa telefónica - que satisfaz as duas partes mas que não engana ninguém: tal qual a situação internacional se apresenta, os líderes importantes que vão a Moscovo não vão a Kyiv e vice versa. Restam os outros, os líderes que não têm importância alguma, como será o caso de seis líderes africanos, encabeçados pelo presidente da África do Sul, que anunciaram recentemente a sua intenção de lançar uma missão de paz, visitando as duas capitais. O Brasil com Lula da Silva é mais um país que pertencerá a este último grupo de aplicados minions, com o inconveniente de Lula da Silva já ter proferido declarações que o tornaram mal quisto entre as potências ocidentais. Para mais, numa cimeira do G-7, o Brasil nem está presente por inerência, antes e apenas por convite. Ou seja, na ocasião Lula da Silva é tão convidado como Zelensky. Se este último lhe deu tampa e se baldou ao encontro é porque não terá visto grande vantagem na sua realização - foi má educação. Ou talvez tenha sido um correctivo diplomático aplicado em quem se pensa mais do que aquilo que é...

25 abril 2023

GUTERRES ESTEVE BEM

Pena que a comunicação social portuguesa, que tantas vezes e a despropósito nos quer arrancar sintomas de simpatia por António Guterres, apenas pelo facto dele ser nosso compatriota, não esteja a aproveitar esta oportunidade para o enaltecer, quando o merece. Porque uma coisa é ter de negociar com a Rússia, outra é ter a coragem de chamar mentiroso a Lavrov quando ele mente.

20 abril 2023

O FACCIOSISMO DA REVISTA «THE ECONOMIST»

Esta será a terceira vez que retorno a este mesmo tema, este mês, (1) e (2), mas a culpa atribuo-a toda à continuada e descarada parcialidade como a revista inglesa The Economist tem estado a acompanhar e comentar as antevisões e os balanços dos altos representantes de grandes potências que têm passado recentemente por Pequim. Os quatro artigos abaixo estão dispostos pela ordem cronológica da sua publicação, o mais antigo tem pouco mais de duas semanas (4 de Abril). Nele se manifestava a preocupação que o anfitrião Xi Jinping pudesse dar a volta ao visitante Emmanuel Macron. Na altura perguntei porque não formulavam a questão da forma oposta: e Macron, não seria capaz de dar a volta a Xi?... Ou melhor: provavelmente ninguém daria a volta a ninguém, que estas visitas são coreografadas com antecedência. A atitude é substancialmente diferente no artigo do lado (10 de Abril), a respeito do que esperar da visita de Luiz Inácio Lula da Silva a Pequim, onde uma sobranceria desdenhosa irritante sintetiza a política externa brasileira como hiperactiva, ambiciosa e ingénua (repare-se que a visita de Lula é a Pequim, mas a foto mostra-o na companhia de Joe Biden). Em Londres, na sede da The Economist, consideram Lula um totó. 
Passados dois dias (12 de Abril), o mesmo Emmanuel Macron voltava a ser objecto de uma nova crítica preocupada porque cometera um erro a respeito de Taiwan. Macron partira no dia 8 e a sugestão do artigo é que poderá ter sido algo que ele declarou que dera carta branca a que a China desencadeasse os exercícios militares ao largo da ilha... que começaram nesse mesmo dia 8. Em contraste, podemos folhear afincadamente a mesma The Economist nestes últimos dias para encontrar comentários às declarações produzidas por Luiz Inácio Lula da Silva na China. Podemos, mas, até hoje e já lá vão seis dias, não encontraremos nada sobre as declarações de Lula da Silva de que «as potências ocidentais estariam incentivando a guerra na Ucrânia». Não deve ser um erro de Lula, talvez sejam manifestações de hiperactividade ingénua do Itamaraty... Para colmatar esta omissão crítica da revista inglesa a respeito das declarações (desastradas) do presidente brasileiro, terão dado relevo, no entretanto (15 de Abril), à visita da ministra dos negócios estrangeiros alemã, Annalena Baerbock. Na The Economist gostam muito dela, mas não será bem a mesma coisa cobrir as visitas de chefes de Estado e de um mero ministro dos estrangeiros...

Em suma, é sabido desde há muitas décadas, dos tempos do general de Gaulle e mesmo antes disso, que o Eliseu tem sempre uma agenda própria quando se trata de política externa e que raramente se acerta com a das outras potências. Este foi mais um episódio. O que é menos conhecido é que uma revista internacional que se reclama de uma data de princípios notáveis de independência e isenção também mostre ter agenda própria, veja-se a forma facciosa - no caso anti-francesa - como notícia os factos.

16 abril 2023

A APROVAÇÃO DA RESOLUÇÃO 819 DO CONSELHO DE SEGURANÇA DA ONU

16 de Abril de 1993. O Conselho de Segurança da ONU aprova por unanimidade dos seus 15 membros (entre os quais se contam dois países de expressão portuguesa, Brasil e Cabo Verde) a sua resolução 819. Nela se reafirmam resoluções prévias sobre o mesmo tema, e o Conselho expressa a sua preocupação com as acções das unidades paramilitares sérvias nas cidades e vilas do Leste da Bósnia-Herzegovina, incluindo ataques a civis, às forças de das Nações Unidas e à interrupção de comboios de ajuda humanitária. Apesar da assertividade da redacção do texto, a falta de meios e de atitude das tropas de interposição no terreno para intimidarem uma das facções (precisamente as unidades paramilitares sérvias), veio a resultar no massacre de mais 8.000 pessoas em Srebrenica em Julho de 1995. Foi uma grande lição de modéstia para aquela bolha de diplomatas que vive na ilusão de que a diplomacia é um fim e não apenas um meio. Afinal, quando os agentes de mediação não tem meios de intimidar as partes desavindas, o mais prudente é estarem quietos e pouparem-se a fazer figura de parvos.

13 abril 2023

«L' INSUPPORTABLE MANU»

A política externa francesa nunca foi particularmente apreciada pela The Economist e isso tornou a mostrar-se evidente pela cobertura que a revista fez à visita que o presidente francês acabou de realizar a Pequim. Havia dado conta aqui dessa parcialidade antes da visita, agora dou conta dela depois da mesma visita, mais uma vez, a escolha insidiosa de um título - «O erro de Emmanuel Macron sobre Taiwan» - a dar uma sugestão que tudo o que está a acontecer à respeito da ilha se lhe poderá dever. E mais uma vez, a manter-se o contraste - fascinante... - entre a cobertura destacada a esta visita e o desinteresse manifestado por outras visitas adjacentes no tempo: havia sido a de Pedro Sanchez de Espanha, agora é a de Lula da Silva do Brasil. Quanto ao insuportável Manu, é uma personagem de BD.

07 abril 2023

PERGUNTAS COM A RESPOSTA INSIDIOSAMENTE INCLUÍDA

Pela maneira como a The Economist coloca a pergunta sobre que resultados se podem esperar da iniciativa diplomática do presidente francês Emmanuel Macron, percebe-se o quanto depositam poucas esperanças nela. Se a iniciativa diplomática foi do francês - armado mais uma vez em representante da Europa sem ninguém lhe ter passado procuração... - então a lógica para avaliar essa iniciativa seria a de, na revista, perguntarem-se se Emmanuel Macron conseguiria dar a volta a Xi Jinping. Se a conduta da China poderá, em consequência da visita, tornar-se verdadeiramente mais neutral do que tem sido até agora. Ora o título escolhido põe a questão ao contrário: pergunta se o chinês vai dar a volta ao francês... Neste género de artigos, mesmo que eu tenha uma opinião e uma expectativa pré-formada (e aqui tenho: o primeiro-ministro espanhol passou por Pequim a semana passada e nada conseguiu), o que dispenso é um articulista cuja opinião é óbvia de antemão, mas a disfarçar-se de analista equidistante. 

25 março 2023

OS CONCORRENTES AO «MASTER CHEF» DOMINICANO

De há uns anos para cá, quando da realização destas importantes cimeiras internacionais, adoptou-se o hábito de mascarar os ilustres visitantes com o trajo local. Às vezes produz impressões colaterais, como acabou de acontecer na Cimeira Ibero-Americana, acabada de realizar na República Dominicana. Ao ver Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa vestidos com aquelas fatiotas brancas locais, a minha impressão instintiva é que qualquer dos dois se preparava para concorrer, com outros, ao concurso do Master Chef local. Aliás, quem não se lembra ainda da famosa receita de cataplana crua do primeiro-ministro?...

15 março 2023

A APROXIMAÇÃO IRANO-SAUDITA MEDIADA PELA CHINA: AS FOTOGRAFIAS E O RESTO

As fotografias que se publicaram da cerimónia da assinatura deste último acordo entre a Arábia Saudita e o Irão, mediado pela China, são espectaculares, parecem plenas de simbolismo. As reacções dos órgãos de informação deste lado de cá do Mundo dividem-se entre as apreciações mais entusiásticas e outras apreciações mais prudentes. Estas parecem-me muito mais consistentes: é melhor esperar para ver o que acontece de concreto. O Médio Oriente é uma região conhecida por ter responsáveis políticos que assinam muito facilmente tratados que depois permanecem letra morta. (Exemplo recente: o plano de paz gizado por Jared Kushner, genro de Donald Trump, em Setembro de 2020, envolvendo Israel e alguns países do Golfo, foi declarado letra morta seis meses depois de assinado) A acrescer a isso, sabe, quem acompanha os assuntos da região com outra profundidade, que a Arábia Saudita e o Irão mantêm uma rivalidade e uma clivagem profundas desde há décadas, de um nível idêntico às que separam Israel dos seus vizinhos árabes, e que ultrapassá-las não será tarefa fácil para os dois rivais signatários (para melhor compreender essa rivalidade sugere-se a leitura do livro abaixo de 2020). Considerando isto e, por muito que a China seja a novidade da equação, aparecendo pela primeira vez a protagonizar uma iniciativa nesta região e desta dimensão, manda a experiência que nos mantenhamos prudentes quanto à evolução dos acontecimentos.

04 março 2023

O ESCRUTÍNIO DE UMA AUDIÊNCIA DESCOMPROMETIDA

Na cimeira dos G20 na Índia, vemos acima o ministro dos Estrangeiros russo, Sergey Lavrov, a ser saudado com uma gargalhada desdenhosa da assistência quando tenta passar a ideia que terá sido a Ucrânia a começar a guerra em curso! Estes episódios, por muito que exponham o protagonista ao ridículo, não têm depois consequências de maior e são rapidamente esquecidas (para contrariar, recordem-se, por exemplo, o acolhimento dado às fanfarronadas de Donald Trump na assembleia geral da ONU em 2018, ou às mentiras do mesmo Lavrov em Munique, a respeito da invasão russa da Crimeia, proferidas em 2015). Estes acontecimentos, mostram-nos porém, pela raridade com que acontecem, como são «acolchoados» os ambientes em que evoluem estas altas figuras da política internacional, evitando-se que eles apareçam diante de audiências descomprometidas, audiências que depois podem reagir genuinamente aos disparates que proferem, como aqui aconteceu. É que, quando estas gargalhadas irrompem, não é porque se discorda de quem está a falar - é porque ele está a dizer uma aldrabice tão grande que as pessoas só se podem rir do disparate...