3 de Dezembro de 1943. Edward R. Murrow (1908-1965) foi um repórter radiofónico da CBS das décadas de 1940/50 cuja notoriedade se propagou até ao século XXI por causa do filme Good Night, and Good Luck de 2005. Em 1943 ele havia sido destacado para o Reino Unido para acompanhar mais de perto a Segunda Guerra Mundial, reportando-a para o auditório americano. Nesta noite de há 80 anos ele fez uma emissão que veio a tornar-se clássica, pelo menos para os ouvintes da CBS nos Estados Unidos. Na noite anterior, Murrow fora autorizado a voar com a tripulação de um Avro Lancaster do 619º esquadrão (baptizado de "D for Dog") da RAF britânica, acompanhando um bombardeamento nocturno que o esquadrão realizara sobre Berlim. No dia seguinte, depois do regresso e do descanso, Edward Murrow realizou a reportagem radiofónica do que presenciara (ouça-se acima no original). Deu-lhe o nome de Orchestrated Hell (Inferno Orquestrado). Quase no final da reportagem comentava: "Morrem homens no céu enquanto outros são assados vivos nas caves das casas. Nesta noite que passou, Berlim não foi uma visão nada bonita. Em cerca de 35 minutos (a cidade) foi atingida com cerca de três vezes a quantidade de bombas que caíam em Londres numa noite inteira durante a Blitz." Estas emissões eram um esforço para que os americanos acompanhassem mais de perto, sentissem, a guerra em curso.
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03 dezembro 2023
04 julho 2023
CALMA, JOANA, VAI DE FÉRIAS E QUANDO VOLTARES PODES IMPINGIR-NOS AS TUAS BUGIGANGAS
Entradas em Julho, as três protagonistas do programa As Três da Manhã da Rádio Renascença anunciaram ir de férias e terão assim suspendido a sua actividade diária para um merecido repouso. Suspenderam mesmo? Naquilo que eu suporia ser a primeira segunda-feira de descanso do trio, sou surpreendido por mais uma emissão tendo como alvo a festa de verão da TVI, mas sobretudo pela notícia do lançamento de uma linha de t-shirts com frases (ou então «momentos icónicos») da rubrica Extremamente Desagradável: ao preço de €25,00 (uma pechincha!), os fãs podem agora ostentar frases espirituosas ao peito, como «As Estrelas Não Suam» (da Temporada 2, Episódio 110), «Calma, Jovem» (T4, EP23), «Descontrolado Total» (T2, EP146) e a multilingue «I Have The Assner» (T4, EP41). São tudo frases seleccionadas, mas é caso para eu adaptar uma delas e remetê-la à expedidora: «Calma, Joana», foste tu que escolheste o período de férias, por mim está bem escolhido, mas a ideia era fazermos férias um do outro. Que tal gozares as tuas e só quando voltares, começares a impingir-nos as tuas bugigangas na loja on-line?...
24 março 2023
A «MENTAL COACH» QUE "QUASE" MARCOU O GOLO DO ÉDER PELO ÉDER
Em Portugal há (por ordem decrescente de importância):
1º) o Golo do Éder,
2º) o Éder que marcou o golo
3ª) uma senhora chamada Susana Torres que se aproveitou do Golo do Éder para se promover como Mental Coach (escrito em estrangeiro) do Golo do Éder.
Naturalmente é esta última, a Mental Coach, a que aparece mais vezes na televisão a explicar porque é que o Golo quase se deve a ela.
Mas ontem, a Joana Marques, sem ser Extremamente Desagradável, aproveitou o seu programa de rádio para perguntar ao Éder, convidado do programa, que verdade havia nas efabulações da sua antiga Mental Coach. Pelos vistos, é tudo mentira. Não é que não se suspeitasse, mas são tantas as vezes que se evita chamar a estas figuras bullshiters (escrito em estrangeiro), que estes momentos de revelação se tornam momentos de catarse.
23 novembro 2021
A GUERRA DAS ONDAS CURTAS
23 de Novembro de 1941. A Segunda Guerra Mundial travava-se em inúmeras frentes e uma delas era a página 2 do Diário de Lisboa onde a publicidade às emissões de rádio de onda curta de Berlim ombreavam com as de Londres. Repare-se nalgum contraste entre ambas, a alemã parecia ser mais extensa, o anúncio até era maior, a britânica combatia-a com a veracidade dos conteúdos («...e o mundo acredita»). Indispensável para participar neste combate era possuir um aparelho como o que se exibe abaixo. Aquele visor do canto superior direito está repleto de designações de cidades europeias que, na minha infância e em casa dos meus avós, onde havia uma coisa destas que se iluminava e funcionava, sempre me deixaram intrigado, porque na década de 60 as cidades já haviam desaparecido e aquelas denominações acabam por não significar nada.
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18 maio 2021
A BOMBA NA RÁDIO PIRATA
Amsterdão, 18 de Maio de 1971. Eclodira uma guerra entre rádios-pirata que contornavam a legislação e emitiam a partir de navios que navegavam em águas internacionais. Quando um dos países europeus para onde emitiam os incomodava, os navios mudavam de localização e a perseguição tinha de recomeçar. Mas, neste caso, fora a rivalidade entre estações (e navios) que fomentara um atentado - à bomba! - de um dos donos de uma das rádios pirata contra um dos navios concorrentes. O episódio era tão fantástico que foi aproveitado para uma história de BD protagonizada por Barelli (desenhador: Bob de Moor).
18 dezembro 2020
A REJEIÇÃO DO APELO PARA A COMUTAÇÃO DA EXECUÇÃO DE WILLIAM JOYCE, ALIÁS «LORDE HAW-HAW»
Londres, 18 de Dezembro de 1945. A Câmara dos Lordes rejeita o apelo para a comutação da execução de William Joyce. Joyce fora o locutor mais proeminente de Rádio Berlim ao longo da Segunda Guerra Mundial. E, para que o leitor avalie por si mesmo a sua competência e capacidade de persuasão, pode ouvi-lo mais abaixo, comentando - na perspectiva de Berlim, evidentemente! - os acontecimentos que estavam a acontecer em Maio de 1940. Para o desvalorizar, a contra-propaganda britânica atribuiu-lhe uma alcunha ridícula: «Lorde Haw-Haw». Mas o que as autoridades britânicas verdadeiramente pensavam a seu respeito só se veio a perceber no fim da guerra, quando, ocupando a Alemanha, foram deliberadamente à sua procura para o capturar e julgar. A captura foi atribulada: Joyce, que já possuía uma distinta cicatriz facial alegadamente adquirida numa antiga cena de ciúmes (abaixo, à esquerda), foi ferido a tiro, e logo com uma bala que o atingiu e perfurou simultaneamente as duas nádegas (abaixo, lado inferior direito).Mas nem mesmo o aspecto algo burlesco do que lhe acontecera quando da captura o salvará do que os britânicos lhe tinham preparado quando do julgamento.
William Joyce nascera numa família de origem irlandesa, embora com simpatias unionistas (i.e. pró-britânicas). Mas, mais do que isso, Joyce nascera nos Estados Unidos (em 1906) e com isso adquirira a nacionalidade americana desde nascença. Anos depois a família regressara à Irlanda e mudar-se-á para Inglaterra quando da independência irlandesa. E é em Inglaterra que Joyce militará na organização fascista BUF. A sua participação na política britânica terá sido conseguida a partir de documentação forjada, uma vez que Joyce continuava a ser um cidadão americano. Em 1939, William Joyce refugiar-se-á na Alemanha. E, no ano seguinte, naturalizar-se-á alemão. Por este percurso se perceberá o quão forçado foram as acusações de «traição à pátria» que sobre si impediam quando foi presente a julgamento. Era importante que a acusação fosse essa, para que a sentença se revestisse da gravidade da execução. O problema era que a acusação de «traição à pátria» não se sustentava porque Joyce nunca fora britânico. Mas a acusação conseguiu impressionar o tribunal com a alegação que Joyce obtivera um passaporte britânico prestando falsas declarações sobre a sua nacionalidade e, com isso e por causa disso, tornava-se elegível para ser julgado como súbdito de Sua Majestade.
É o género de argumento que só podia mesmo ter acolhimento naquelas condições delirantes de desforra do após-guerra... Impressionando não apenas o juiz que presidiu ao julgamento, mas também, como lemos mais acima, quatro dos cinco lordes que haviam sido encarregues de apreciar o seu apelo. «S. Magestade» não interveio e «Lorde Haw-Haw» foi enforcado a 3 de Janeiro de 1946. Por ser um bom locutor de rádio a trabalhar para uma causa absolutamente errada - 6 milhões de audiência regular no Reino Unido em 1940, mas um enorme decréscimo nos anos seguintes... Vários anos depois, com um distanciamento e uma clarividência diferentes, o historiador britânico A.J.P. Taylor comentava a respeito do julgamento de William Joyce: «Tecnicamente, Joyce veio a ser enforcado por ter prestado falsas declarações quando solicitou um passaporte, o género de falta que costuma ser sancionada com a aplicação de uma multa. No fundo, o seu verdadeiro crime foi ter atraído para si a reputação mítica de ter sido a encarnação de Lorde Haw-Haw». O homem que chegou a disputar à propaganda oficial a capacidade de influenciar os ingleses. E, a propósito, remate-se que o regresso dos excessos contra estes homens de que ninguém gosta, são sempre de lamentar: com Ana Gomes ou com Marisa Matias.
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28 setembro 2018
OS PRIMÓRDIOS DO «FLASHBACK» E DA «QUADRATURA DO CÍRCULO»
Nas páginas do Diário de Lisboa de 26 e 27 de Setembro de 1988 travava-se uma polémica entre os deputados José Magalhães (comunista) e José Pacheco Pereira (social-democrata). Vivia-se então sob o cavaquismo e sob a maioria esmagadoramente absoluta do PSD, mas algo terá a polémica revelado em relação às personalidades dos dois intervenientes que despertou o interesse dos promotores da (então embrionária) informação-espectáculo - nomeadamente Emídio Rangel e a «sua» TSF. Menos de dois anos depois, podemos ouvi-los aos dois nessa rádio, e com o mesmo Rangel como anfitrião, a contracenarem com o perpetuamente chique Vasco Pulido Valente num programa de comentário político denominado «Flashback». Quis a ironia que os dois sustentassem e robustecem o prestígio do programa, apesar do abandono daquele - Vasco Pulido Valente - que fora claramente o pensado por Rangel para ser a sua estrela. Simultaneamente, José Magalhães respeitabilizara-se, transferindo-se dos comunistas para os socialistas (1990-91) enquanto o Muro se desmoronava. Melhor sob o cavaquismo, pior sob Guterres (Magalhães era muito mais dogmático e canhestro do que Pacheco Pereira a defender o «seu» governo), o programa perpetuou-se ao longo de mais de uma década na TSF. Depois foi ressuscitado em formato televisivo com o nome de «Quadratura do Circulo» na SIC em 2004 onde se mantém catorze anos depois. O único membro original que permanece é José Pacheco Pereira, que acabou por se tornar na estrela que teria sido - mas não foi - Vasco Pulido Valente. Já aqui escrevi no blogue que o comportamento de José Pacheco Pereira no programa me faz lembrar o Garfield - hirsuto, mal disposto, cor de laranja... mas fofinho. A subsistência de José Pacheco Pereira na ribalta mediática nestes últimos 30 anos tem sido uma demonstração continuada de que se pode ter uma carreira política independente dos partidos - desde que não se ambicione desempenhar funções executivas... E uma demonstração também que há muitos por aí com um percurso semelhante a que falta a sinceridade de, nos momentos cruciais (as eleições) assumirem onde votam, e fora deles, confessarem ao que vêm.
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29 junho 2018
(MAR)CELO in the USA!!!
Como diria o Celo nos tempos em que dava notas na rádio: - Muito Bom! 19 valores!
04 setembro 2017
O FURO, A CAIXA E A BOMBA
Domingo, 3 de Setembro de 2017, noticiário das 13H00 de uma rádio não propriamente vocacionada para o desenvolvimento da informação. Ainda a propósito da notícia da madrugada, o ensaio nuclear realizado pela Coreia do Norte, o jornalista entrevista o físico Carlos Fiolhais sobre o assunto. O entrevistado vai derramando água sobre o que tem vindo a ser noticiado, arrefecendo as reclamações norte-coreanas de que o engenho testado fosse uma arma termonuclear. Para o efeito, explicou, ainda que sucintamente, em que é que consiste uma arma desse tipo (comumente designada por Bomba H), o que a diferencia de uma arma nuclear convencional de fissão (designada por sua vez por Bomba Atómica, ou Bomba A), e uma síntese da história da investigação científica que conduziu desta última à primeira, de muito maior potência e capacidade destrutiva. Melhor ainda: evocando as complexidades do processo que levou da detonação da primeira Bomba A (1945) à primeira Bomba H (1952), Carlos Fiolhais ousa exprimir as suas dúvidas sobre a veracidade da reivindicação norte-coreana. É o tipo de comentário técnico que ainda não se ouvira muito difundido, contém algum risco porque é uma dedução (ainda que com algum fundamento) do próprio Carlos Fiolhais, mas é emitido por alguém a quem se reconhece competência na matéria.
Seria de esperar que o furo jornalístico se propagasse num ramo de actividade em que a vigilância do concorrente é notória. Mas não. A opinião ficou-se por ali, guardadinha para os ouvintes da M80. E mais uma vez se confirma que a informação é uma coisa distinta daquilo que nos é servido como tal pela comunicação social. Fosse a notícia alarmista e seria garantido que ao fim da tarde constaria do noticiário de tudo quanto é órgão, chancelada pelo facto de ter sido emitida pelo conhecido cientista Carlos Fiolhais. Como, pelo contrário, o seu conteúdo, era, ainda assim, de cariz apaziguador, morreu ali. Mas vale sempre a pena ficar o registo elogioso dos dois - só não sei o nome do jornalista da M80 e é pena, porque o merece.
17 outubro 2016
OS DIAS DA HISTÓRIA
Todos os dias são dias da história e estes são bem evocados e de uma maneira rápida: em menos de quatro minutos. Apesar de passarem numa emissora discreta (Antena 2), não deixa de ser possível ouvi-los de outras maneiras como, por exemplo, aqui. Hoje fala-se do discurso proferido por Costa Gomes na Assembleia Geral da ONU há 42 anos. Para além do que se disse, haveria muito mais para dizer, nomeadamente sobre a descolonização que ali foi anunciada, mas... não se disse e isso será um dos bons segredos - a sobriedade - do programa de Paulo Pinto.
22 março 2015
A «PLAYLIST» DE UM POLÍTICO METIDO EM SARILHOS
Nos tempos que correm, em que ser-se convidado para fazer uma playlist é sinónimo de distinção, permitam-me especular sobre o que seriam as opções adequadas aos tempos difíceis feitas por Paulo Núncio, caso o seu gosto musical fosse o daquela linha nostálgica das canções das décadas de 70 e 80.
Donna Summer, Hot Stuff
Laura Branigan, Self Control
Gloria Gaynor, I Will Survive
Adenda: Depois de se saber o conteúdo da prédica dominical do professor Marcelo na TVI penso que, por via das dúvidas, será assisado adicionar mais uma canção...
Leonard Cohen, So Long, Marianne
01 dezembro 2014
OS DESCENDENTES DOS DISCÍPULOS DE ENVER HOXHA E UMA EVOCAÇÃO A RÁDIO TIRANA
A Albânia é um pequeno país europeu, com cerca de 3 milhões de habitantes (ou seja, menos de ⅓ de Portugal) e indicadores económicos e sociais que a colocam – a ela sim – na cauda da Europa. Já assim era há 40 anos mas a aura de que então gozariam as ideologias e o facto de ali vigorar um regime que era uma dissidência de outra dissidência (maoista) do comunismo soviético, parecia conferir àquele país uma capacidade de gerar uma empatia entre a juventude portuguesa para-revolucionária do pós 25 de Abril que era absurdamente desproporcionada para a sua real importância estratégica. Esse conjunto de jovens determinados a aplicar por cá experiências sociais de sucesso (acima) vindos daquelas paragens estavam agrupados numa organização denominada UDP (União Democrática Popular), onde militaram nomes proeminentes da actualidade: Jorge Coelho, João Carlos Espada, José Manuel Fernandes, Henrique Monteiro ou Esther Mucznik serão apenas alguns nomes de um elenco riquíssimo de antigos admiradores da sociedade edificada na Albânia pelo partido comunista dirigido por Enver Hoxha, elenco esse que até se encontra representado ao mais alto nível no actual governo pela pessoa de Nuno Crato, o ministro da Educação (foto abaixo).
Saber-se por onde andaram todas aquelas figuras nos seus anos loucos de juventude servirá para que se reduza às devidas proporções muito daquilo do que agora dizem e escrevem, sobretudo se o enquadrarmos pelo percurso de cada um desde aqueles anos tresloucados, em alguns casos a paixão e o estilo são até os mesmos, o objecto da dita paixão é que se situa agora nos antípodas ideológicos. Mas isso é a história dos que saíram. Porque há a história dos que ficaram: como uma daquelas telenovelas radiofónicas que, passado o período do apogeu de popularidade e da saída das estrelas que lha conferiam, se insiste em manter no ar, também a UDP ainda sobrevive na figura de uma associação política que faz parte, por sua vez, do conglomerado que constitui o Bloco de Esquerda. Nestes dois últimos fins-de-semana, a associação política esteve em vias de conseguir conquistá-lo, ao Bloco, por dentro. Falhou, mas para que isso acontecesse, os outros tiveram que engendrar uma solução que é um disparate – 6 coordenadores?! Como é que se coordena seja o que for a seis vontades, ainda que a uma só voz? Mas, enquanto a Heidi tentava ontem explicar a razoabilidade da solução na conferência de imprensa, não me impedi de olhar para eles, lá atrás, patibulares como os seus antepassados – que a revolução sempre foi uma coisa muito séria! – e perguntar-me, nostálgico, quantos deles reconhecerão o velho indicativo de Rádio Tirana¹?
¹ Era uma estação de rádio em onda curta que, naqueles meios e nos idos anos de 1975, era chiquíssimo, quase obrigatório, dizer-se que se ouvia. Ficou famoso um aviso seu, a propósito das intenções maléficas de uma esquadra da NATO que se aproximava das costas portuguesas. Simbólico dos tempos, o anúncio era acompanhado de um apelo para uma concentração no Terreiro do Paço para a defesa de Portugal – provavelmente porque ficava ali mesmo à beira-rio, impedia-se a esquadra de desembarcar...
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24 abril 2014
TSF: «VÃO DAR BANHO AO CÃO!»
Já foi há mais de dez anos que Lili Caneças irrompeu por um programa televisivo de Herman José mostrando-se agastada com a forma como ali era repetidamente tratada. Aparentemente a coisa teve algum impacto no rating de audiências de um programa que por aqueles dias se arrastaria penosamente, com o povão, mais uma vez e não pela última vez, saturado do Herman. Uma revisão atenta da cena contudo, é demonstrativa de como a cena foi consertada, com a câmara a seguir Lili Caneças logo desde a sua entrada em cena, confirmando, para lá de qualquer dúvida, que o realizador e o operador a conheciam de antemão. As discussões que depois pudessem existir sobre a veracidade da cena são, por um lado, elogios implícitos à capacidade dramática da amadora Lili Caneças, e por outro, demonstrações de até aonde pode ir a obtusidade daqueles que não se disponham a ver o que é óbvio. Haverá hoje quem esteja ainda convencido que Vale e Azevedo foi um excelente presidente para o Benfica. Mas o que é importante destacar neste caso é como o episódio nos educou no cepticismo para outras encenações do mesmo género.
A notícia do dia – sobretudo para a TSF – é que os seus estúdios foram ocupados esta manhã, por volta das 8H30, por um grupo de mais de 50 pessoas que, empunhando livros, entre os quais a Constituição da República Portuguesa, exigindo que se cumprisse o Direito à Liberdade de Expressão, dando voz às minorias. Expressões que identificam o grupo como um grupo de homens e mulheres de várias idades que garante não ter qualquer filiação partidária fazem-me lembrar, veterano que gosta de se lembrar do PREC, aquelas manifestações rigorosamente apartidárias dessa época que eram convocadas por comissões de trabalhadores, de moradores e outras organizações populares de base... Mas, curiosa mesmo, é a escolha da hora por parte destes ocupantes que, como os conspiradores dos golpes de Estado (esta minha associação deve ter a ver com a proximidade do 25 de Abril), gostam de se concentrar assim pela fresquinha da manhã, fenómeno que não terá decerto nada a ver com as recentes contratações de peso da concorrência para programas àquela mesma hora – estou-me a lembrar, por exemplo, da de Ricardo Araújo Pereira para a Rádio Comercial. Agora mais a sério, oh estrategas do marketing da TSF: e se fossem dar banho ao cão?...
Adenda: Só seis horas depois de ter tido lugar é que a TSF veio a noticiar a sua "ocupação" com as aspas que devia ter tido desde o princípio. Entretanto, pude ler no facebook comentários levando o incidente a sério que imagino o quanto envergonharão agora quem os escreveu. A leitura daqueles disparates faz-me lembrar o episódio da transmissão da Guerra dos Mundos na CBS norte-americana em 1938 que alegadamente terá provocado um pânico que levou centenas de milhares a fugir - embora nunca se explique para onde... Costuma ser referido como um exemplo do poder mediático. Mas considero-o mais um exemplo da infinitividade da Estupidez Colectiva que, como se vê pelos exemplos acima, é muito fácil de reencenar.
11 fevereiro 2013
É CARNAVAL, NINGUÉM LEVA A MAL
Há mais de cinco anos e meio (em Maio de 2007, ainda não havia crise…), alguém que se assina apereira2005 teve a amabilidade de carregar o vídeo abaixo no Youtube, destacando um momento de um recôndito telejornal com um pouco mais de dois minutos e meio de duração, onde se notícia a estreia como ficcionista (com uma obra intitulada Diário de um Deus Criacionista) daquele que viria a ser um controverso mas interessante ministro da Economia no futuro: Álvaro Santos Pereira. Assinale-se a coincidência das iniciais do autor da obra e de quem carregou o vídeo, que poderá não passar disso mesmo: duma coincidência…
Há cerca de cinco meses, alguém que se tem vindo a afirmar no firmamento da blogosfera, António Araújo, recupera no blogue Malomil o interesse por aquela mesma obra, entretanto relegada para um injusto esquecimento, como se comprova por aquela estampilha de 2,00 € na capa, algo que representa uma desvalorização de 89% sobre o preço inicial do livro, talvez sintoma da crise que o autor procura debalde resolver na sua outra faceta de economista. Igual a si mesmo, António Araújo escalpeliza (dolorosamente para os protagonistas) não apenas o conteúdo da obra mas também recensões e outra actividade promocional. Mas o assunto já voltara a morrer pela internet quando…
…subitamente Marcelo Rebelo de Sousa o ressuscitou – por assim dizer... – na sua intervenção semanal de ontem na TVI. Bem pode parecer que Marcelo não é um comparsa dos blogues, que não os lê (o que até nem é verdade…) ou que chega atrasado àqueles acontecimentos que são happenings blogonáuticos. Mas em frente das câmaras ele supera-se, tornando-se numa espécie de Lucky Luke da leitura (aquele que dispara mais rápido que a própria sombra): segundo as próprias palavras, esteve a lê-lo ontem à noite e ao segundo dia (lembremo-nos que mesmo Cristo esperou pelo terceiro para ressuscitar…) mostrava-se presto para comentar todas as suas 273 páginas nos 1:15s finais do seu programa.
Saboreava-se ainda o requentado dessa intervenção à despedida de ontem quando os Sinais radiofónicos de Fernando Alves na TSF desta manhã repegam por 2:25s o tema: Fernando falando de Marcelo a falar de Álvaro por causa do livro que este escrevera, juntando mais um elo à cadeia de comentários sobre um livro com mais de cinco anos e meio. Não deixou de ser patente perceber-se como qualquer das duas intervenções mediáticas, a televisiva e a radiofónica, terão ido buscar a inspiração ao texto e ao trabalho de pesquisa original de António Araújo, por acaso o único autor na cadeia que não foi remunerado pelo que fez… Mas no Carnaval é normal que ninguém leve a mal…
28 outubro 2012
O DRAMA DOS SÓSIAS DE PALCO
O guarda da aldeia onde moram Zig e Puce, que tem o nome engraçado de Amadeu Fonducoeur, notabiliza-se por se exprimir sempre em verso. Os que conhecem as histórias dessas duas figuras clássicas da BD sabem que, por detrás dessa peculiaridade, está um drama, uma vocação dramática perdida por causa de uma semelhança infeliz com um comediante famoso, que fazia com que o infeliz Fonducoeur arrancasse descoroçoantes gargalhadas aos auditórios, apesar da seriedade dos papéis que interpretava.
Agora, que o programa semanal Governo Sombra se estendeu da TSF (rádio) para a TVI24, reforçei a minha impressão que um dos participantes daquele programa vive um drama muito parecido: Ricardo Araújo Pereira. Tanto que suspeito que o visado até já se resignou. Nem o imagino a fazer um comentário em sério e a sério no Governo Sombra com o receio de o auditório arrancar em gargalhadas, por causa da extrema semelhança da sua figura e voz com aquele membro mais alto dos Gato Fedorento.
29 abril 2011
SIMETRIAS DE «ENTUSIASMOS POPULARES» COMO OS DE HÁ 75 ANOS ATRÁS
Ontem, 28 de Abril, foi a vez de José Sócrates ser o convidado daquele programa da TSF e a vez dos blogues indefectíveis do PSD publicitarem a gestão da espontaneidade das perguntas com que foi confrontado o líder socialista. Simétricas, está-se diante de manobras de um primarismo tal que apetece perguntar aos seus promotores se nada lhes ocorre de mais sofisticado do que aquilo que já se fazia há 75 anos atrás, com crianças de bandeirinhas na mão a vitoriar o Adolfo…
06 março 2011
O PREC EM IMAGENS MUSICADAS
Musicalmente, a canção que ganhou o Festival deste ano parece-me ser uma merda. Como paródia, parece-me ser oportuna. A marcha inexorável dos tempos faz com que os anteriores autores de paródias ou de tentativas de paródias dos festivais sejam agora eles os parodiados. E os tempos do PREC, como qualquer tempo de excessos, são uma mina de tópicos para isso.
A LUTA CONTRA O CAPITAL...
...A VIGILÂNCIA REVOLUCIONÁRIA...
Já aqui me referira há quatro anos atrás a esse evento único e memorável, o XII Festival – identifica-se assim, sem precisar de explicações adicionais, como se se tratasse do XII Congresso de um Partido Marxista-Leninista qualquer. Infelizmente (mãos reaccionárias decerto) alguém fez com que se perdessem esses momentos históricos dos arquivos da RTP…
...AS MANIFESTAÇÕES CONTRA O FASCISMO...
...AS OCUPAÇÕES POPULARES...
...E A ALIANÇA POVO-MFA.

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20 novembro 2010
JOMBA, O HERÓI INCOMPREENDIDO
Esta entrevista radiofónica já tem anos e anos, circulou de um lado para o outro muito antes das redes sociais serem redes sociais. É, por isso, provável que muitos dos que lêem o blogue já a conheçam. Mas creio que sempre vale a pena recordá-la. Deixando-nos de merdas, há que reconhecer que Jomba é um dedicado funcionário municipal de Cabo Delgado (nordeste de Moçambique) a quem as autoridades provinciais entregaram uma tarefa que o ultrapassa... E para quem considere a sua tarefa ridícula, informo que ontem foi o Dia Internacional da Latrina, ocasião em que a ONG homónima pediu às pessoas que, ao meio-dia e em solidariedade, se agachassem por um minuto (abaixo).
PS: Há uma versão mais desenvolvida da entrevista de Jomba (abaixo) em que o entrevistado se alarga em outros comentários, alguns de crítica social em que realça que, associado a esse aspecto fisiológico que é comum a todos nós, haveria em Cabo Delgado uma certa diferença entre as praias dos ricos e as dos pobres...
22 janeiro 2010
NEM TUDO O QUE SE PASSA, PASSA NA TSF…
A notícia TSF tem o título Ferreira Leite recusa-se a falar da situação interna do PSD, mas a versão rádio da mesma notícia inclui apenas o trecho em que se ouve a reacção da visada. O que não se ouve – por esquecimento, decerto… – é o teor das perguntas que haviam sido previamente colocadas pelos jornalistas e que estariam relacionadas, esmagadoramente, com a eventual opinião dela sobre o acontecimento fundamental de ontem, o lançamento do livro de Pedro Passos Coelho e a presença nessa cerimónia de José Pedro Aguiar-Branco… Com esta explicação talvez a reacção de Manuela Ferreira Leite fique melhor enquadrada... E podendo não se gostar da pessoa, tem de se gostar ainda menos de omissões como estas… 06 setembro 2009
SOBRE ROCK PORTUGUÊS ou AS BANDAS DE GARAGEM QUE DEVIAM TER FICADO NA GARAGEM
Já aqui tive oportunidade de me referir neste blogue aos tempos históricos do Rock português. Dos tempos em que a vontade dos GNR – e ainda não pela voz inconfundível de Rui Reininho – parecia ser a de ver Portugal na CEE (abaixo). Nesse aspecto já devem estar contentes… Ou dos tempos em que o vocalista da Go Graal Blues Band entraria certamente de uma forma mais discreta num restaurante algarvio… Mas foi a descoberta de uma preciosidade no You Tube que me levou a parafrasear Luís de Camões em Os Lusíadas:
Cessem do sábio lisboeta e do almadense
As composições grandes que fizeram;
Cale-se da Cristina e do Chico Fininho
As composições grandes que fizeram;
Cale-se da Cristina e do Chico Fininho
A fama dos êxitos que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Nazareno
A quem Neptuno e Marte obedeceram:
Que eu canto o peito ilustre Nazareno
A quem Neptuno e Marte obedeceram:
Cesse tudo o que a Musa conhecida canta,
Que outra desconhecida se alevanta.
A preciosidade que descobri foi um vídeo da época (acima) com a actuação de uma banda rock da Nazaré baptizada de Alarme e que foi a vencedora do primeiro Festival de Bandas Rock. O susto foi tal que não terá chegado a haver segundo Festival… O mais interessante foi o prémio ganho pelos Alarme, o direito a gravar um disco, um mono nas mãos do produtor, que não se cansava de passar spots promocionais na Rádio Comercial com aquele arrepiante verso inicial: Está na hora! Venham todos! Que coisa sensacional!...
Nunca soube se aquele tipo de promoção repetitiva tinha resolvido o problema dos stocks do produtor... Afinal, recordemos que aquela foi uma época de uma grande generosidade, onde tudo o que se relacionasse, ainda que remotamente, com o rock cantado em português acabava por se vender… Mas outra coisa seria a preservação da memória desses tempos, como já então Pedro Ayres de Magalhães e os Heróis do Mar prescientemente cantavam (acima): Dos fracos não reza a História, cantemos alta nossa vitória…
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