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19 janeiro 2024

HÁ MAIS DE QUARENTA ANOS QUE EU NÃO ACREDITO NAS HISTÓRIAS «PURAS» DE AGRESSÕES A JORNALISTAS, CASO NÃO HAJA OUTRAS TESTEMUNHAS IMPARCIAIS A CORROBORAR

Esta história que aqui vou contar já tem mais de 45 anos, ocorreu por ocasião das cerimónias do 175º aniversário do Colégio Militar, cerimónias que foram presididas pelo então presidente da República, general Ramalho Eanes. Antes das cerimónias se iniciarem, e diante da guarda de honra que o aguardava, houve uma cena que ainda hoje recordo. Formou-se inicialmente uma poule de foto-jornalistas postados no sítio mais propício para fazer a melhor fotografia ao presidente, quando ele chegasse. Infelizmente, o sítio era também o mesmo por onde forçosamente o mesmo presidente, o seu ajudante, e o comandante da guarda de honra haveriam de passar quando o primeiro passasse revista aos membros que - como eu - constituíam a guarda de honra. Não podia ser. Um alferes da PE (Polícia do Exército) explicou pacientemente isso aos foto-jornalistas e estes dispersaram. Passado alguns instantes formava-se novo grupo, mais pequeno (dois ou três), no mesmo local, e o mesmo alferes voltou a explicar-lhes, aos fotógrafos insistentes, precisamente a mesma coisa. Enquanto isso, nós, na guarda de honra, apreciávamos este jogo do gato e do rato impávidos, mas nem por isso desatentos e, por isso, divertidos. Chega o presidente, começam os procedimentos, saudações, hino, e não é que há um fotógrafo mais coriáceo que, apesar do que acontecera, volta para o lugar do crime?... Aí, o alferes da PE, que era de compleição avantajada, esgotara a paciência, e, pegando sem cerimónia no fotógrafo pela gola e pelos fundilhos, despejou-o para uma distância de uns dois metros longe do local onde presidente e acompanhantes passariam, onde o fotógrafo aterrou para um lado e a sua máquina para outro. A cena foi violenta mas é minha convicção profunda que a assistência só não irrompeu em aplausos porque: a) era uma tropa disciplinada; b) tínhamos as mãos ocupadas a segurar as armas. O fim da história é um anti-clímax, o fotógrafo afastando-se dorido com a máquina de onde se partira qualquer coisa, rogando pragas e ameaçando represálias, que não dei por que se concretizasse. Mesmo sem as fotos mais especiais daquele parvalhão, a ocasião ficou registada para a posterioridade, como o comprovam as duas fotos mais acima.
Regressemos ao presente e ao recente episódio em que o Expresso se vitímiza porque um dos seus jornalistas foi expulso de um «evento universitário». Da própria notícia que o jornal publica percebe-se que os convites haviam sido feitos extemporaneamente por membro do staff do Chega (quando estes não eram sequer os anfitriões do evento), que o jornalista terá sido previamente instado por três vezes para o abandonar e quanto à expressão «agredido» que é usada pelo jornal, essa parece excessiva quando se lê que ele terá sido «agarrado pelos pés e pelos braços» e posto fora do recinto onde decorria o evento. Removido sem qualquer cortesia sim, mas essa falta de cortesia começara quando ele se recusara a abandonar o local, recusando razões que preferiu não reconhecer como válidas. Recordando aquilo que aconteceu diante de mim há 45 anos, o que faltará a esta história é recolher o depoimento de alguém que a possa descrever de maneira imparcial. Não se dê o caso do jornalista se ter comportado como um parvalhão, como aconteceu com o foto-jornalista do parágrafo mais acima. Porém e em vez disso, quanto mais o tempo passa, mais se percebe que, em vez de o esclarecer, o exercício dos colegas deste jornalista tem sido o de tentar conspurcar o incidente com o maior número de entidades possíveis: Chega, UCP, Iniciativa Liberal... Como sempre, parece ser tempo perdido pedir-lhes, aos jornalistas, objectividade em acontecimentos em que estão em jogo os seus interesses de classe. O que, não nos esclarecendo nada quanto ao que terá acontecido, elucida-nos, ao menos, porque é que quiseram transformar aquilo que aconteceu em notícia.

18 outubro 2023

O «RÉCUS» E O OUTRO CONDECORADO

(Republicação)
Ainda a pretexto do mesmo tema de um outro poste mai'las condecorações com a Ordem da Torre e Espada do Valor, Lealdade e Mérito, vejam-se estas duas fotos da cerimónia ocorrida a 18 de Outubro de 1973, por ocasião da abertura solene do ano lectivo 1973/74 do Colégio Militar, presididas, como então era comum, pelo presidente da República, o almirante Américo Tomás. Por estar de costas, haverá uma certa dificuldade em identificar o distinguido da fotografia da direita, mas o aluno condecorado na fotografia da esquerda reconhece-se de caras: é o José Firmino Vieira de Meireles Corte Real (tratado entre amigos mais familiarmente por Récus), que ali recebe do chefe de Estado a sua Medalha de prata de Aplicação Literária respeitante à sua classificação do 1º ano (com fita vermelha).

09 maio 2023

«SABE O QUE É O COLÉGIO MILITAR?»

Lembro-me muito bem deste serão televisivo de há cinquenta anos porque, sendo então aluno do Colégio Militar, tivemos todos direito a ver um programa a respeito da instituição que passou na RTP2. Éramos mais de 100 para um só televisor, mas a fascinação de muitos de se poderem ver a si próprios no pequeno ecrã superava isso tudo. O programa está hoje disponível no arquivo da RTP.

06 outubro 2022

...À MINHA MANEIRA

6 de Outubro de 1972. Foi o dia da minha entrada para o Colégio Militar. Assinalo o dia à minha maneira. Parafraseando uma outra famosa profissão de fé de cariz militar, haverá outras maneiras de assinalar a efeméride, mas esta é a minha. Para recordar e explicar que era um modo de vida (internato) que se aceitava há 50 anos, mas que só dificilmente se torna aceitável neste século XXI. E que era um estabelecimento de ensino exigente - dos dezasseis que aparecem nesta fotografia só oito (ou seja, metade) estariam lá no fim do ciclo liceal, dali por sete anos. E como ainda há poucos dias escreveu um desses últimos oito: «Donde, era o que era».
Time it was, and what a time it was, it was
A time of innocence, A time of confidences
Long ago, it must be, I have a photograph
Preserve your memories; They're all that's left you

28 maio 2022

O BASTÃO DE MARECHAL DE ÓSCAR CARMONA

28 de Maio de 1947. As comemorações do 21º aniversário do golpe do 28 de Maio assinalavam-se pela entrega do bastão de marechal ao presidente da República, Óscar Carmona. Os 21 anos que já haviam decorrido depois do acto fundador do regime, esvaziara a propaganda do Estado Novo da sua aura renovadora, e agora havia que recorrer a estes apontamentos de cenografia, que nada representavam de evolução política. Nos 21 anos futuros até à morte de Salazar (1968), o Estado Novo iria continuar a ser o que sempre fora, aquilo que se mudava era por força das circunstâncias externas. De assinalar, na cerimónia de há 75 anos, o destaque dado ao Colégio Militar, a instituição de ensino frequentada pelo presidente Carmona.

03 setembro 2020

...COMO AS «DESCULPAS» DO «CHIMILU»

Eu tive um camarada no Colégio Militar que se «chamava» «Chimilu». O «Chimilu» era muito bom moço, embora com as suas idiossincrasias, uma das quais divertia, irritando, os seus camaradas. É que ele não sabia a diferença entre uma «explicação» e uma «desculpa». Ou seja, quando apanhado em falta, mesmo em faltas menores, fosse porque se esquecera de fechar a cama à hora de almoço, fosse por se ter atrasado para a formatura, o «Chimilu» tinha sempre fé que as razões que possuía para que isso tivesse acontecido o inocentavam e o dispensavam da sanção. O problema era que o «juiz» nunca estava de acordo com ele... Isso não o fazia desistir numa próxima vez. Preserverava, perante o nosso olhar irónico, num encadeado de explicações a que a exuberância de gestos com as mãos, à italiana, acrescentava uma cenografia cómica, porque todos, menos ele, conhecíamos o desfecho... Felizmente nunca pensou dedicar-se a uma carreira jurídica, ele que tinha esta lacuna de não conseguir destrinçar entre os argumentos de uma das partes e a sentença do juiz. O Ricardo Costa (acima) padece do mesmo mal do «Chimilu». Para quem não ande em cima de tudo aquilo que «indigna» as redes sociais, o que acima está reflectido é um momento particularmente infeliz da SIC Notícias que, no princípio desta semana, exibiu uma falsa primeira página do New York Times, onde alguém havia inserido uma notícia forjada a respeito da festa do Avante! Tê-la validado por verdadeira implicou algumas decisões indesculpavelmente estúpidas, nomeadamente não se interrogar por que razão um jornal como o New York Times daria um destaque de primeira página a um assunto daqueles num país como o nosso, ou então, não discernir o contraste estético entre a apresentação da notícia em causa com as do resto da página. São aspectos como estes, quiçá o teor incendiário da notícia, que estão em causa. Mas, como se pode ler acima, Ricardo Costa conta-nos uma outra história, entorpecente, a de como aquilo foi ali parar, coisa que nós sabemos, já que quem estava a assistir à emissão o viu, escarrapachado, ridículo, no painel ao lado da jornalista Clara de Sousa. E retirado logo «15 minutos depois» da apresentação, com «um pedido de desculpas», porque devem ter começado a chover telefonemas indignados para a redacção. Como «as mãos explicativas» do «Chimilu» de outrora, também aquela «conversa» do Ricardo Costa não os absolve de nada. Como o «Chimilu» de outrora, também Ricardo Costa se mostra merecedor de um potente «caldo» naquela sua nuca lisa...

25 agosto 2017

SOBRE O COLÉGIO MILITAR E A MODÉSTIA REPUBLICANA

Quis o acaso que tivesse encontrado esquecidas na rede duas fotografias de uma ignorada romagem de saudade de antigos alunos do Colégio Militar. As fotografias têm uma data - 8 de Novembro de 1938, ou seja, há quase 79 anos! - e também uma legenda: tratar-se-ia do curso de saída do ano lectivo de 1887/88. Comemorar-se-á portanto o cinquentenário dessa saída. O que o arquivista já não terá conseguido fazer foi identificar os doze antigos alunos. Ora eu penso ter conseguido assinalar um deles, aquele que aparece nas duas fotografias marcado pelas pequenas setas azuis. Curiosamente e como alguém me observou, é o único que, em qualquer das fotos, não olha directamente para a objectiva. A pessoa em causa identificar-se-á porque era uma pessoa mediática, mesmo para aquele tempo: trata-se do general António Óscar de Fragoso Carmona, antigo aluno 24/1882. É o Presidente da República que ali aparece trajando civilmente numa visita de carácter pessoal onde, se atentarem, os seus antigos camaradas nem destaque lhe deram na mesa do refeitório!
Trata-se de um contraste gritante com a proeminência que, na actualidade e às vezes, tenho assistido a ser conferida a certos antigos alunos (se calhar, malgrado eles...) à custa do Colégio Militar que frequentaram. Como o mostra privilegiadamente Óscar Carmona, a relação de um antigo aluno com a instituição é uma questão do foro pessoal, não deve ser para ser aproveitada por Causas e outros movimentos políticos. E é ainda pior quando esse aproveitamento subverte uma deontologia de igualdade e remete para uma tradição que, como as fotos acima o demonstram à evidência, jamais existiu.

23 março 2017

«CABRÃO! FILHO DA PUTA! O TEU PAI É UM FASCISTA!»

Porque me foi contada por uma testemunha com sentido de humor e capacidade de observação, a história da manifestação e da contra-manifestação da Avenida de Berna desta semana teve muito mais piada que a bisonha descrição que foi publicada pelo Expresso. Corrobora o que me disseram: que o fascismo deixou de ser uma ideologia para se tornar num insulto, quando se pode ler acima que aqueles que, teoricamente, se deviam orgulhar do epíteto, devolvem-no agora como insulto aos seus rivais. Ora esta concepção multifuncional do fascismo transportou-me saudosamente ao passado, àquele primeiro mês imediatamente depois do 25 de Abril em que fascismo e ser-se fascista carregava consigo as culpas de todos os erros do Mundo. E em que o Peidinha, jovem já então muito atento às evoluções politicas que o rodeavam, e a quem estava prometida uma promissora carreira política (só que, ironicamente, no CDS quando este foi PP...), se decidiu a actualizar o seu catálogo de insultos tendo em atenção o novo Portugal democrático. Para além dos insultos mais canónicos, Cabrão! Filho da Puta!, o Peidinha rematava agora com a vergasta do insulto supremo: O teu pai é um Fascista!

03 março 2017

A PROPÓSITO DO 3 DE MARÇO, ANIVERSÁRIO DO COLÉGIO MILITAR

Haverá cerca de uns 70 anos, senão mesmo um pouco mais, a separar a mais antiga da mais recente destas três fotografias, todas elas de um curso de finalistas do Colégio Militar e tiradas no mesmo (e tradicional) local para as fotografias de conjunto: as escadarias da enfermaria (a enferma). A mais antiga foi tirada na década de 1930, a intermédia a meio do intervalo temporal, algures na década de 1970, e a mais recente pertencerá a um curso do Século XXI. Que melhor pretexto combiná-las para aflorar da tradicional maneira higienizada o tema da intemporalidade do Colégio Militar?...
É uma das formas de analisar este encadeamento de fotografias. Uma outra poderá ser a de valorizar o crescente formalismo atribuído à ocasião pelos fotografados, até à fotografia mais recente, em que a categoria da graduação de cada um (exibida no colarinho) parece determinante para o lugar que ele ocupa na foto - os mais importantes à frente, os outros mais para trás. O espírito colegial, mesmo na sua intemporalidade, não poderá (nem deverá) permanecer impermeável aos valores da sociedade onde se insere, em que a importância crescente em estratificar, mesmo entre iguais, é um deles.
Neste dia 3 de Março, em que o Colégio Militar completa 214 anos gostaria de deixar expresso que, compreendendo que esse seja o espírito actualmente prevalecente no Colégio Militar, espero que se compreenda reciprocamente quanto esse espírito não é o meu. As graduações do 8º (antes 7º) ano não têm (nunca tiveram) a seriedade desproporcionada que ora lhes vejo a serem atribuídas. Tivessem sido realmente importantes e aquele que foi, durante o ano lectivo 1939/40, o furriel nº 92 não seria o venerando conselheiro de Estado Eduardo Lourenço, perdido algures na primeira fotografia...

08 janeiro 2017

«O» 125 AZUL

Uma boa ocasião para escutar e ler a verdadeira poesia de Luís Represas. Que não se confunde com a de Florbela Espanca. E quem terá sido «o» 456 durante nove anos não estranhará que receba a propósito dessa sua confusão, a alcunha apropriada de «o» 125 Azul.

Foi sem mais nem menos
Que um dia selei a 125 azul
Foi sem mais nem menos
Que me deu para arrancar sem destino nenhum

Foi sem graça nem pensando na desgraça
Que eu entrei pelo calor
Sem pendura que a vida já me foi dura
P'ra insistir na companhia

O tempo não me diz nada
Nem o homem da portagem na entrada da auto-estrada
A ponte ficou deserta nem sei mesmo se Lisboa
Não partiu para parte incerta
Viva o espaço que me fica pela frente e não me deixa recuar
Sem paredes, sem ter portas nem janelas
Nem muros para derrubar

Talvez um dia me encontre
Assim talvez me encontre

Curiosamente dou por mim pensando onde isto me vai levar
De uma forma ou outra há-de haver uma hora para a vontade de parar
Só que à frente o bailado do calor vai-me arrastando para o vazio
E com o ar na cara, vou sentindo desafios que nunca ninguém sentiu

Talvez um dia me encontre
Assim talvez me encontre

Entre as dúvidas do que sou e onde quero chegar
Um ponto preto quebra-me a solidão do olhar
Será que existe em mim um passaporte para sonhar
E a fúria de viver é mesmo fúria de acabar

Foi sem mais nem menos
Que um dia selou a 125 azul
Foi sem mais nem menos
Que partiu sem destino nenhum
Foi com esperança sem ligar muita importância àquilo que a vida quer
Foi com força acabar por se encontrar naquilo que ninguém quer

Mas Deus leva os que ama
Só Deus tem os que mais ama

04 novembro 2016

A EVOLUÇÃO DOS ANIVERSÁRIOS DO COLÉGIO MILITAR (vistos pelas páginas do Diário de Lisboa)

O Diário de Lisboa foi um jornal vespertino que se começou a publicar a 7 de Abril de 1921 e foi um dos jornais de referência da imprensa portuguesa até encerrar as suas portas em 30 de Novembro de 1990. Aquilo que de importante terá acontecido em Portugal nesses quase 70 anos de publicação passou quase certamente pelas suas páginas. E o formato e o destaque como esses acontecimentos foram noticiados são também relevantes para a nossa apreciação de como evoluiu a sociedade portuguesa nesse período que abrange uma parcela substantiva do século XX. O Colégio Militar é um estabelecimento de ensino que frequentei faz muuuitos anos e cuja história me continua a intrigar - provavelmente muito mais do que quando o frequentava, certamente porque a idade nos torna cépticos quanto à fidelidade das versões oficiais. Se o Diário de Lisboa foi uma instituição, o Colégio Militar é uma instituição. Se já era uma instituição centenária quando o jornal apareceu, hoje o Colégio Militar é bicentenário, 26 anos depois do desaparecimento do Diário de Lisboa. Só que é indiscutivelmente uma instituição completamente diferente: o segredo da sobrevivência destas instituições é mudarem, fingindo que não mudam. Porque as sociedades que as envolvem também mudam, e é essa mudança que eu me dispus a investigar (uma investigação decerto superficial mas que me divertiu muito fazer associando jornal e Colégio), acompanhando a forma como, ao longo dos 70 anos de publicação, o Diário de Lisboa foi noticiando o aniversário (e as cerimónias associadas) do Colégio Militar. Alunos e ex-alunos saberão de cor a data, mas em benefício dos leigos diga-se que o dia é 3 de Março.
1922-1925-1926
Logo no seu primeiro ano de publicação (recorde-se que no ano anterior o jornal só se começara a publicar em Abril), o Diário de Lisboa teve a delicadeza de assinalar as cerimónias comemorativas do 119º aniversário do Colégio Militar, presididas pelo ministro da Guerra, que tiveram lugar a 3 de Março de 1922. As notícias referentes aos aniversários do Colégio Militar naquela década eram compactas, mas há que ter em conta que o jornal tinha então apenas 8 páginas! Nem mesmo a presença do presidente da República (Bernardino Machado) por ocasião das celebrações do 123º aniversário, em Março de 1926, parece constituir razão para desenvolver o artigo. Por acaso, tive acesso a uma fotografia dessa cerimónia que abaixo insiro.
Por essa época, o número de alunos a frequentar o Colégio Militar rondariam os 460, números que só voltariam a ser consistentemente atingidos (e mesmo superados) dali por trinta anos, nos finais da década de 1950.
1931-1932-1934
A grande diferença política deste período em relação ao bloco anterior é que, depois da revolução de 28 de Maio de 1926 passou a vigorar a Ditadura Militar. O presidente da República (Óscar Carmona) era um ex-aluno do Colégio Militar, comparecia com regularidade às cerimónias que aí decorriam (no caso acima, esteve presente nas cerimónias de 1932 e de 1934), o que explicará talvez o maior desenvolvimento dado às notícias.
1937-1939
Aparentemente, para além da estreia da publicação de fotografias, no final da década de 1930 ter-se-á atingido o zénite do culto de personalidade dedicado a Oliveira Salazar. Nas cerimónias de 1937 o momento mais marcante da mesma terá sido a inauguração de um retrato do chefe do governo, a quem alguém dedicou um panegírico, cerimónia essa onde o homenageado, certamente pela sua proverbial modéstia, não pôde estar presente. Dois anos depois, e numa cerimónia presidida pelo chefe do Estado, o presidente do Conselho repetiu a desfeita. Como se lê no final da notícia: foi adiada a cerimónia em que se iria conferir ao sr. dr. Oliveira Salazar o título de ex-aluno honorário. Adiante esclarece-se que se tratava de uma distinção raríssima, que era concedida apenas pela terceira vez na história do Colégio Militar, e que seria acompanhada da entrega do estojo de medalhas da fotografia abaixo.
Confesso que há uma certa ironia em ver aquelas medalhas de aptidão militar e física a serem concedidas a alguém tão pouco físico e tão pouco militar como Salazar. A cerimónia adiada foi remarcada para Junho, Salazar tornou a não poder estar presente, o estojo acabou por lhe ser entregue discreta e posteriormente em Novembro desse ano. Não sei, nem me interessa, se ele sempre chegou a ser feito ex-aluno honorário. A atitude era a de quem estava nitidamente a fazer o favor de aceitar. Um dos grandes promotores da distinção concedida ao presidente do Conselho foi o general Humberto Delgado, também ele ex-aluno, mas não terá sido especificamente por causa desta desfeita que ele se veio a incompatibilizar futuramente, de uma forma que ficou célebre, com Salazar...
1942-1943-1944
Anos da Segunda Guerra Mundial. Anos difíceis. Apesar da boa imprensa, já que as notícias eram publicadas nas paginas centrais e com ilustração de uma fotografia, os efectivos do batalhão colegial diminuíam todos os anos. Por curiosidade refira-se que, de quando em vez, estabelecia-se nova confusão quando ao ano de fundação do Colégio Militar: 1802 ou 1803? Já em 1932, o jornal anunciara a celebração do 130º aniversário. Dez anos depois repetia-se a confusão, e o efeito é que, a crer nestas duas edições do Diário de Lisboa, separadas por uma ano, o Colégio Militar comemorou por duas vezes o seu 140º aniversário...
1945-1948-1947
Em 1945, o Colégio Militar atingirá um mínimo de alunos a frequentá-lo: pouco mais de 300. E no entanto, o Diário de Lisboa conceder-lhe-á a honra, até aí inédita, de noticiar as cerimónias do 3 de Março de 1945 em primeira página devidamente ilustrada (à esquerda). A ala política do regime e o seu chefe saíram do mega-conflito que terminava muito fragilizados, por causa da pressão política exercida pelos Aliados triunfantes, e crescia a susceptibilidade de Salazar à pressão da ala militar do regime, protagonizada pelo ministro da Guerra Santos Costa (acima, à direita), um habitué das cerimónias.
1949-1950-1951
Outra forma de observar essa inflexão, consiste em constatar a ascensão da importância da figura veneranda do chefe do Estado, em substituição do culto de personalidade ao chefe do governo de antes da guerra (Salazar). Óscar Carmona foi promovido a Marechal numa grandiosa cerimónia em 28 de Maio de 1947, cerimónia essa que escapa ao âmbito deste levantamento que aqui faço, mas onde importa referir que o Colégio Militar teve um papel nuclear: foram cinco dos seus alunos que lhe entregaram o bastão simbólico. Carmona veio a falecer em Abril de 1951.
1952-1953
O sucessor de Carmona na presidência, Craveiro Lopes, era, se possível, também como ex-aluno, um ainda mais acérrimo defensor da instituição. Presidira até à Associação dos seus Antigos Alunos (AAACM). Nos primeiros anos do seu mandato, ajudado também pelo facto do Colégio Militar celebrar o seu 150º aniversário, pretexto para condecorar a instituição, as notícias referentes ao seu aniversário surgiam destacadas e ilustradas na primeira página.
1955-1956-1958
O padrão noticioso e o desenvolvimento permanece essencialmente o mesmo, embora valha a pena referir que se vai notando que cada vez se vai reduzindo mais o enfoque que é dado à componente religiosa das cerimónias.
1959-1960
A substituição de Craveiro Lopes por Américo Thomaz (que não era ex-aluno) na presidência da República, não terá tido impacto significativo no desenvolvimento das notícias, quiçá algum no seu destaque. Nem mesmo a presença exótica dos alunos do Colégio Militar do Rio de Janeiro em 1960 (à direita)constituiu razão para dar às cerimónias destaque de primeira página.
1961-1962
O curioso neste conjunto é o contraste entre a forma exuberante como as cerimónias foram noticiadas em 1961 (158º aniversário) e a discrição de 1962. No corpo desta última notícia pode ler-se que naquele ano as cerimónias se revestiram de carácter íntimo em conformidade com o ambiente do momento nacional. O momento seria ainda, imagino, a ocupação dos territórios indianos pela União Indiana em Dezembro do ano anterior.
1963-1964
Mas, no ano seguinte e nos que se lhe seguiram, as tradicionais celebrações do 3 de Março regressaram ao tradicional desenvolvimento, destaque fotográfico e localização de primeira página.
1965-1966
Encadeadamente, a cada ano que passava, as fotografias das cerimónias do aniversário do Colégio Militar eram puxadas para a primeira página do Diário de Lisboa, como comprovação do prestígio social de que gozava a instituição.
1967-68
Não só o número de alunos que frequentavam o Colégio Militar duplicara nos últimos 20 anos (à esquerda - seiscentos alunos), como esse número mostrava tendência para continuar a aumentar, promovida pela rotação crescente dos oficiais das Forças Armadas, causada pelas guerras em África.
1969-1970
Mas o final da década de 70 é também o canto do cisne desse período de apogeu da notoriedade social. Simbolicamente, a notícia do Diário de Lisboa que dá conta das cerimónias de 1970 (à direita), tem um artigo em caixa adjacente, onde se protesta contra a realização de desfiles dentro da cidade que causam graves prejuízos para o trânsito...
1971-1973-1974
Noticiosamente, pelo que se pôde observar no Diário de Lisboa, a mudança de atitude foi abrupta. As notícias mudaram-se para o interior, deixaram de ser ilustradas, foram reduzidas como as de há cinquenta anos antes (década de 1920). Foram entregues a estagiários e mal revistas: veja-se acima a dupla gralha do 70º aniversário a noticiar as cerimónias de 1973...
1977-1978
Depois do 25 de Abril, o Diário de Lisboa foi um dos jornais que, como quase toda a imprensa, acabou indirectamente nacionalizado em 1975 e se orientou para um tipo de leitor de esquerda, próximo do partido comunista. Ora essa não era a praia do Colégio Militar e as notícias envolvendo a instituição não recolheriam o interesse dos seus leitores-alvo (na concepção dos autores do jornal). Repare-se (à direita) como nem a presença do presidente da República (Ramalho Eanes), nem a imposição de uma condecoração à instituição por ocasião do seu 175º aniversário parece razão para que o artigo receba algum desenvolvimento.
1985
O panorama ao longo da década de 80 apenas terá piorado. A ausência de alguns números fez com que a pesquisa deste período não pudesse ter sido realizada com o mesmo rigor dos outros mas, de qualquer modo, o único exemplar que encontrei mostra que, se alguma coisa, a situação só se terá acentuado em relação ao que acontecera no passado.

22 outubro 2016

O CHOCOLATE COMACOMPÃO E A BOLAMA

Eu nunca comi o chocolate comacompão com pão. Respeitava um ritual: nem o desembrulhava; com a unha do polegar rasgava metodicamente a prata que o embrulhava (diga-se que este embrulho que a imagem acima apresenta já é o do depois do 25 de Abril, quando as disposições revolucionárias aboliram uma outra cobertura adicional em celofane onde aparecia estampada a imagem do chocolate no meio de duas fatias de pão de forma), vincando os três regos que separavam as quatro barras que o formavam. Depois havia o partir cuidado das barras do chocolate, individualizando-as para serem engolidas inteiras, metendo-as à boca e deixando-as derreter metodicamente, para que no processo se evidenciassem as passas e os bocadinhos de amêndoa insertos no chocolate. Nunca achei que aquele chocolate se valorizaria se fosse comido com, ou se fosse associado ao, pão. Anos mais tarde, eu até poderia vir a explicar que o comacompão se afigurava como um caso emblemático de um processo de branding incompetente por parte da Regina que o fabricava. Era a qualidade do produto que o fazia vender-se e que ainda hoje desperta saudades. Mas, para o que interessa, ele representava para mim um dos paradigmas da bolama. A bolama é um conceito difícil de transmitir aos que não foram alunos do Colégio Militar, porque a bolama não se define, a bolama é (ou era). A definir-se do que se trata, seria uma daquelas entradas robustas, de preencher uma coluna inteira de uma página da enciclopédia, porque a bolama pode ser um doce, mas também podem ser salgados, até mesmo ovos mexidos, desde que os ovos tivessem sido gamados do galinheiro do pai da Rosa. Porque a bolama também não pode ser compreendida sem o conceito volátil da sua propriedade... Gamaram-ma, assim como eu também a gamei, alguma com o prazer acrescido do gamanço ter sido feito a alguém que o merecia. E era um consolo para a alma comer qualquer coisa rara que não tivesse vindo do rancho geral. Era um sentido de particularidade. Ao contrário de outras, que tenho ouvido evocadas com uma exuberância que por vezes me parece descabida, bolama é (era?) uma palavra do típico vocabulário colegial que tenho deixado de ouvir com o correr dos tempos. Porventura porque será uma das que, nos dias que correm e com um outro estilo de relação entre alunos e encarregados de educação, terá perdido a sua razão de ser?

21 outubro 2016

O SAPROPEL

Durante os meus sete anos de Colégio Militar terei ouvido, aprendido e usado centenas de alcunhas. Ainda hoje preciso de me disciplinar interiormente para tratar mais civilmente alguns dos meus amigos daqueles tempos. Trava-se - e creio que travamos todos, aqueles que lá andámos, nos casos das alcunhas populares que pegaram de estaca - um combate entre aquilo que é genuíno e aquilo que é conveniente. Mas o que eu queria aqui realçar, a propósito dessas alcunhas, é quando se descobre retroactivamente e ao fim de décadas, a sofisticação que acompanhava algumas das alcunhas que então usávamos, inconscientes que estávamos do seu mais profundo significado. Científico, como era o caso do Sapropel. O Sapropel aparece nesta fotografia acima, mas tive o cuidado de não o identificar e como, por outro lado, suspeito que actualmente tem uma aparência muito diferente, confio não estar a ser indiscreto. O seu anonimato estará praticamente garantido. O camarada que o baptizou é que era cá duma erudição, pois o sapropel, é uma palavra que resulta da «contração das palavras em grego sapros e pelos, que significa putrefação e lama, respectivamente». Trata-se de um «termo usado na geologia marinha para descrever sedimentos de cor escura que são ricos em matéria orgânica». Este «evento anóxico oceânico» produz uma matéria não muito agradável ao contacto. Tratava-se portanto de alguém com uma reputação vincada de manter relações difíceis com o saco de banho, a saboneteira, o shampoo, enfim, os produtos de higiene em geral, mas uma atitude corrigível que não era rara de encontrar na difícil adaptação dos anos iniciais de Colégio. Mas o que, ao fim de todos estes anos, torna o Sapropel diferente do Javardo e do irmão, o Javardinho, foi a capacidade de nos ter incutido desde tenra idade, que o sapropel era algo intrinsecamente sujo, embora sem sabermos concretamente do que se tratava. São estes os bons alicerces de uma sólida cultura geral.

07 maio 2016

À CONVERSA COM ANTÓNIO AVELAR DE PINHO, POR ACASO, OU TALVEZ NÃO, UM EX-ALUNO DO COLÉGIO MILITAR

Nos tempos em que isso teria feito diferença, e entre o elenco de vultos que haviam frequentado o Colégio Militar que eram regularmente invocados quando das ocasiões solenes, eu teria preferido saber que o António Avelar de Pinho, que era então o letrista da Banda do Casaco, era ex-aluno (ex-259) e dos rijos (de 1957 a 1965). No campo dos que se distinguiam no campo da música ele ter-me-ia dito muito mais do que (por exemplo) o já então falecido Tomás Alcaide (ex-236 de 1912 a 1920), o canónico evocado nas circunstâncias.

Esta conversa de António Avelar de Pinho (que não conheço pessoalmente) é exclusiva para aqueles que disponham de 36 minutos. Entre ex-alunos, vê-se quanto o homem é da casa. E não apenas de um certa ala da casa. Voga ecleticamente desde as críticas ao discurso ideológico e distorcido do Estado Novo e do SNI de António Ferro até às críticas à pose pedante e preconceituosa de Fernando Lopes Graça. No fim fica-me a pena de não me ter podido imiscuir na conversa, e fazer algumas perguntas que quem lhas coloca desconhecerá o interesse: sendo letrista e músico, qual a influência - se alguma - teve o Carioca? E professores de português? Quais teve? O Menau e/ou o Juju?

10 abril 2016

A ABERTURA SOLENE DO ANO LECTIVO DE 1937-38 NO COLÉGIO MILITAR E A MEDALHA DE OURO DO CORONEL VARELA GOMES

A data é 11 de Outubro de 1937 (2ª Feira), a hora um pouco depois das três da tarde, e o local é o Largo da Luz fronteiro ao Colégio Militar. A figura da fotografia mais reconhecível é o presidente da República de então, Óscar Carmona (1869-1951, ex-aluno daquele estabelecimento de ensino 24/1882); atrás dele os entendidos reconhecerão a passada pesada do então subsecretário da Guerra, capitão Santos Costa (1899-1982); e a acompanhá-los aquele que era o comandante do batalhão colegial naquele ano lectivo (1937-38), o aluno nº 251, António Jacinto Hidalgo Barata (1920-1993). Mas, para mais detalhes, o melhor será ler a notícia que, nesse mesmo dia, o Diário de Lisboa publicava a respeito do evento (pp. 4-5).
No Colégio Militar realizou-se esta tarde, com a assistência do sr. Presidente da República, a sessão solene de abertura das aulas e distribuição de prémios do passado ano lectivo.
Pela manhã realizou-se a recepção aos novos alunos, formando o batalhão do Colégio e proferindo o director-interino, o sr. tenente-coronel Frutuoso de Carvalho, um discurso de exortação, ao cumprimento do dever, seguido de algumas palavras dirigidas no mesmo sentido, aos novos alunos, pelo comandante de batalhão.
Pelas 15 horas chegou o sr. Presidente da República, acompanhado do sr. general Amílcar Mota e tenente Carvalho Nunes, sendo recebido pelo subsecretário da Guerra, sr. capitão Santos Costa, pelo director-interino do Colégio, corpo docente e vários oficiais superiores do Exército.
O sr. general Carmona, depois de passar revista ao batalhão do Colégio que formava no largo fronteiro com bandeira e a banda de Caçadores 5, entrou no edifício, detendo-se alguns momentos no gabinete do director e dirigindo-se seguidamente ao ginásio do Colégio, que se enchera completamente com famílias de oficiais e alunos.
O sr. Presidente da República tomou lugar no estrado de honra, sentando-se a seu lado os srs. subsecretário da Guerra, generais Eduardo Marques e Amílcar Guerra e coronel Arrobas. O director do Colégio, depois de abrir a sessão em nome do sr. Presidente da República, proferiu um discurso agradecendo a presença do Chefe do Estado no acto tradicional da abertura solene das aulas e terminando por ler, um relatório, a traços largos, da vida escolar durante o última ano lectivo. Seguidamente, deu a palavra ao professor sr. tenente Castanheira Samuel que proferiu, com grande elevação, a oração de «sapiência». Usou ainda da palavra o sr. Cónego Governo que falou acerca do tema: «Escola com Deus, e escola sem Deus».
A notícia não detalha, mas ter-se-á seguido a tradicional cerimónia de distribuição de prémios aos alunos que mais se haviam distinguido no ano lectivo anterior. A lista de distinguidos era reduzidíssima, nesses tempos de critérios rigorosos: mal ultrapassava a dúzia num batalhão colegial composto por 450 alunos, distribuída entre os que receberam medalhas por aplicação literária (8) e por aptidão militar e física (6). Entre os do primeiro grupo e também entre os mais novos contava-se o aluno nº 94, João Maria Paulo Varela Gomes (1924- ) que, para orgulho da família, presume-se, terá recebido na ocasião a sua medalha de ouro como a acima, de fita cor-de-laranja correspondente ao terceiro ano - na época era o fim de um dos ciclos liceais. Mal se adivinharia então a promoção - pelo menos mediática... - que o futuro reservava àquele excelso aluno do Colégio Militar. De figurante anónimo numa notícia pacata do interior do jornal, dali por quase 25 anos (1 de Janeiro de 1962) o então capitão Varela Gomes ver-se-ia promovido para as manchetes da primeira página do mesmo Diário de Lisboa como cabecilha dos revolucionários por ocasião da intentona do golpe do quartel de Beja.
Hoje nonagenário, imaginar o intempestivo, irascível e insuportável Varela Gomes feito adolescente aplicado, um dos melhores alunos do Colégio Militar no seu tempo, antes de se transformar no revolucionário que teria nascido no continente errado (a América Latina com o seu caudilhismo congénito seria o seu continente natural...), é uma daquelas histórias politicamente transversais (embora não politicamente inocentes...) que só estabelecimentos com a gravitas do Colégio Militar podem produzir, porque é um estabelecimento de ensino do tamanho de um país e não só de uma facção política...

06 abril 2016

«LE BEURRE!!!»

«Le Beurre!!!» - o grito, de uma veemência denunciadora e proferido em voz anónima mas suficientemente alta para que o visado e o destinatário a ouvissem, era a demonstração - percebi-o muito depois - do quanto a direita política podia ser irreverente uns bons quinze anos antes do aparecimento de O Independente, e do quanto o Peidinha, o autor do comentário, poderia ser ali considerado uma espécie de Miguel Esteves Cardoso precoce. O visado bem podia continuar a manobra de amanteigar o professor, mas agora, despertadas as atenções, fazia-o como num palco onde o auditório se tornara incomodativamente hostil. No Colégio Militar e naquela época o amanteiganço era considerada uma actividade proscrita. E não foram poucas as vezes em que o graxista, considerado o opróbrio, desistiu do intento por causa da linguinha de prata do Peidinha. O Peidinha, passados mais de 40 anos, já não pode ser o Peidinha, tem que ser tratado de forma mais respeitável, mas recentemente a pessoa que, como o Prince, outrora foi tratada por aquela alcunha, anunciou-me a sua muita vontade de cravar alguns ferros publicamente. Estou à espera e só espero que não tenha perdido a verve...

21 março 2016

O CARNAVAL DO «CHABAL»

No calendário o Carnaval é para ser festejado durante três dias, mas naquele caso não era bem isso que acontecia. Para a Turma D, tornara-se assim como uma espécie de tradição que o Carnaval, especialmente naqueles seus aspectos mais pirotécnicos, durasse todo o 2º período, prolongando-se até às férias da Páscoa. Desde Janeiro começavam os testes, complexos, de bombas cada vez mais potentes, cuja potência era medida pelos tostões que custavam (15 tostões, 25 tostões, cinco escudos...) acompanhados de ensaios sobre pavios cada vez mais engenhosos, cujo estado da arte do retardamento acabou por ser um daqueles cigarros português suave sem filtro depois de aceso, que garantia uns bons quinze minutos de alibi antes de explodir no pleno silêncio das aulas em curso, tendo certo dia quase causado uma síncope ao desprevenido Dondon. Enfim, no domínio do petardismo o PRP-BR da Isabel do Carmo não faria melhor e não se pensava nisso assim, mas, consideradas as simpatias políticas dos actores principais, formar-se-iam ali quadros para uma organização terrorista de extrema-direita e/ou anarquista caso ela tivesse sido necessária.
O clímax deste experimentalismo, ocorreu certo dia quando alguém sugeriu ao patrocinador-mor que se estudasse os efeitos de tais detonações quando realizadas em meios líquidos... Como? Porque não encher um lavatório com água e largar lá para dentro uma bomba impermeabilizada para ver o que acontece? O ensaio terá tido uma audiência muito menor do que mereceria, considerando a romaria que se formou para ir ver como ficara o lavatório após a experiência, mas contam os testemunhos dos membros da comissão de controlo de estragos que a explosão em si terá sido um desapontamento: não houve nenhuma coluna de água que se elevasse da superfície da água, encharcando os presentes; em contrapartida, foi do fundo do lavatório, súbita e amplamente esburacado, que se formaram uma espécie de cataratas espectaculares cujo único defeito foi durarem tão pouco até ao esvaziamento do lavatório, tornado definitivamente imprestável... Bem se sabe que os nossos conhecimentos gerais de Física eram uma lástima, tanto mais quanto propiciados por um pedagogo como o Semita, mas, que diabo, o senso comum chegava para desconfiar do que iria acontecer...
E saudades desse tempo porque, se fosse hoje e como se vê acima, o autor da proeza acabava identificado pela PSP...

03 março 2016

QUANDO O PASSADO NÃO É UM PAÍS ESTRANGEIRO

Cerimónia do 3 de Março de 1926 - há precisamente 90 anos. Mesmo os ratas que apareçam nesta foto e que caso estejam vivos, serão hoje centenários. Diz-me a intuição que, pela inclinação das sombras no claustro, a fotografia terá sido tirada pela tarde, já avançada. Mas a minha intuição bem pode estar enganada. A presidir à cerimónia esteve o então presidente da República Bernardino Machado, que poucas mais semanas permaneceria no poder: a 28 de Maio daquele houve a revolução que estabeleceu uma ditadura militar posteriormente transformada no Estado Novo. E, ao contrário do conhecido ditado e para a maioria do ex-alunos que passaram pelo Colégio Militar, este passado não será um país estrangeiro.

25 novembro 2015

EVOLUÇÃO DOS EFECTIVOS DO BATALHÃO COLEGIAL de 1909 a 2008

Este quadro acima mostra o que foi a evolução dos efectivos dos alunos do Colégio Militar nos últimos cem anos (de 1909 a 2008), tais quais os dados que constam de Meninos da Luz Quem é Quem II, livro publicado pela AAACM em 2008. É interessante estudá-lo porque as conclusões que de ali se tiram nem sempre concordarão com o discurso prevalecente a respeito do que foi o passado da instituição. A primeira conclusão que gostaria de destacar refere-se ao século que precede o que aparece no gráfico, o século XIX. Ao longo dele, a hoje bicentenária instituição atravessou um primeiro século longe de ser memorável. Como aqui tive oportunidade de destacar já há dois anos num outro poste, apesar do que hoje se quer fazer crer, os governos da monarquia, e a instituição em si, não foram os promotores mais activos do Colégio Militar. Em 1909, ano penúltimo da monarquia, o batalhão colegial tinha 334 alunos, um efectivo que só veio a ser atingido novamente na fase de quase colapso do final da Segunda Guerra Mundial (1945). E vale a pena acrescentar que, numa fase inicial, o entusiasmo da 1ª República que se seguiu à monarquia por aquela instituição não variou significativamente. Até 1917. Quiçá pela entrada de Portugal na Primeira Guerra Mundial, quiçá por outras razões, os efectivos do batalhão colegial cresceram abruptamente em quase ⅓ em pouco anos, atingindo e superando os 460 no quadriénio de 1925-28. Data desses anos - e só desses anos, que a monarquia nos cento e sete anos iniciais nunca se terá lembrado de o fazer... - conceder a primeira grande condecoração recebida pelo estandarte do Colégio Militar: o grau de membro honorário da Ordem Militar da Torre e Espada de Valor Lealdade e Mérito.
Na fotografia acima de Outubro de 1923, a cerimónia da abertura do ano lectivo do Colégio Militar é distinguida pela presença simultânea tanto do Chefe do Estado, Manuel Teixeira Gomes (à esquerda) quanto do Chefe de Governo, António Maria da Silva (ao centro, cumprimentando-o), diante da continência do anfitrião, o director do Colégio Militar, general Bernardo de Faria e Silva. Nunca mais as cerimónias oficiais do Colégio Militar conseguiram congregar a presença simultânea de ambas as figuras mais importantes do Estado. Após do Golpe Militar de 28 de Maio de 1926, os efectivos de alunos do Colégio Militar sofrem uma pequena mas abrupta queda até 1930 (413 alunos) depois retomada até 1935/36 (de novo 460 alunos) com a progressiva instalação das instituições do Estado Novo. Mas o apoio do Estado Novo ao Colégio Militar é, no mínimo, um apoio equívoco. Nesta fotografia abaixo da cerimónia da abertura do ano lectivo de 1937, continua a ser o Chefe do Estado, Óscar Carmona (ex-aluno 24/1882) a presidir à cerimónia, mas quem se identifica por detrás de si e do comandante de batalhão (aluno 251 - Hidalgo Barata) é Santos Costa, subsecretário de Estado da Guerra, eminência parda do ministério, cujo titular formal era então Oliveira Salazar¹. Nos oito anos que se seguirão, o Colégio Militar vai atravessar um dos piores, senão mesmo o pior momento da sua existência: verá cair os efectivos do batalhão colegial de ⅓, desde os mais de 460 alunos de 1936 até aos 300 com que contava em 1945, o ano do fim da Segunda Guerra Mundial.
Constato, sem conseguir explicar, a recuperação que se registou a partir daí até aos finais da década de 1950. Em 1958, o Colégio Militar tinha 437 alunos e, sobretudo, esse crescimento da população escolar fora feito sem sacrificar a imagem de excelência da selecção dos admitidos e do ensino que era ministrado. Numa confissão sã e descomprometida, o próprio ex-presidente Jorge Sampaio admitiu nas suas memórias que concorrera (e chumbara) em 1949 nas suas provas de admissão ao Colégio Militar. Em 1958, a inauguração do novo edifício do Corpo de Alunos propiciou outras facilidades logísticas que permitiram que o batalhão colegial passasse em quatro anos (1958-62) de uma forma abrupta 437 para 600 alunos. Em cima disso, a eclosão das guerras em África e o aumento da rotação das colocações dos oficiais das Forças Armadas foram factores que pressionaram os efectivos colegiais a prosseguir no seu aumento até roçarem os 700 em 1975. São os anos - que hoje poderão parecer muito estranhos a quem não os viveu - em que o chefe do Estado - o almirante Américo Thomaz (que nem era ex-aluno, abaixo ao centro) - não faltava a uma cerimónia de uma abertura solene do ano lectivo do Colégio Militar. E nada de receber medalhas a magote (abaixo): cada um ia lá sozinho e, se fossem mais do que um(a), recebia as medalhas e os prémios que tivesse a receber logo todos de uma vez para poupar a veneranda figura do chefe do Estado!
Depois do 25 de Abril, Spínola, Costa Gomes, (por acaso, ambos ex-alunos) e depois Eanes deixaram de ter tempo de comparecer anualmente nas cerimónias do Colégio Militar. A não ser excepcionalmente: em 1978 Eanes estava presente quando da cerimónia dos 175 anos da instituição. Nos oito anos que se seguiram à descolonização (1975-1983), o Colégio Militar perdeu consistentemente alunos a cada ano que passava (de mais de 680 para 480 alunos). E, nos nove anos depois disso (1983-1992), embora a tendência fosse menos nítida, o saldo foi, mesmo assim, assaz negativo (de 480 para 410 alunos). Era também um reflexo da diminuição da importância da função dos militares na sociedade portuguesa e era evidente que Portugal e a sociedade portuguesa haviam sofrido, para além dessa, outras transformações substanciais a que o Colégio Militar ter-se-ia que adaptar. É reconhecível no gráfico inicial o esforço que foi desenvolvido entre 1992 e 2004, que conseguiu elevar a frequência de alunos do batalhão colegial de novo para números superiores a 500. Mas também era reconhecível como essa dinâmica parecia estar-se a esgotar de 2004 para cá. Sobre o futuro do Colégio Militar, já li por aí muitas opiniões: umas com que concordo, outras com que discordo, outras que nem percebo o que querem; numa outra classificação, paralela à anterior, há as que me parecem fundamentadas, e as básicas, que se esquecem disto: para ter sobrevivido durante 200 anos o Colégio Militar já teve que se adaptar e ter sido imensas coisas que dessem respostas à sociedade onde se inseriram e não apenas aquilo que o opinador quer preservar dos tempos em o frequentou.
Nota final: Isto é uma espécie de aposta com um leitor deste blogue, também ele ex-aluno do Colégio Militar, sobre o hipotético acolhimento de uma análise que se pretende séria sobre assuntos relacionados com o Colégio Militar.

¹ Tudo indicia que o interesse pessoal do omnipotente presidente do Conselho António Salazar pelo destino do Colégio Militar fosse, nesses anos, muito mitigado. Tanto assim que o lóbi dos ex-alunos, encabeçado por Humberto Delgado (ex-aluno 398/1916) se lembrou de, numa operação manteigueira, lhe oferecer em 1939 um estojo com todas as medalhas escolares fazendo de Salazar um ex-aluno honorário (abaixo). Sintoma da indiferença de Salazar, a cerimónia, que fora prevista originalmente para ser realizada com todo o estadão a 3 de Março de 1939, dia do 136º aniversário do Colégio Militar, foi desmarcada por impossibilidade do próprio homenageado para as cerimónias de encerramento oficial desse ano lectivo em Junho de 1939, novamente desmarcada por nova impossibilidade de Salazar, e o estojo acabou por lhe ser entregue numa cerimónia discreta no seu gabinete em Novembro desse ano... Que manteiga mais mal empregada!