No quadro de uma profunda opacidade informativa quanto a muitos dos acontecimentos associados às guerras que as tropas portuguesas travavam então em Angola e na Guiné, não deixa de ser surpreendente ver esta admissão publicada, de um incidente por «fogo amigo», quando tropas portuguesas dos fuzileiros foram alvejados pela própria FAP no Sul da Guiné, incidente esse de onde haviam resultado três mortos e um número não publicado de feridos. Não é o género de notícia que qualquer serviço de informação de quaisquer forças armadas goste de dar publicidade. O incidente teve lugar em 8 de Julho, três dias antes desta notícia, depreende-se que a presença de forças anfíbias no Sul da Guiné seja ainda uma consequência da Operação Tridente, que decorrera nos três primeiros meses de 1964, mas nada de mais substantivo encontrei sobre o assunto nas pesquisas que efectuei na internet.
Mostrar mensagens com a etiqueta Informação. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Informação. Mostrar todas as mensagens
11 julho 2024
09 julho 2024
A SÉRIO? NÃO ENCONTRARAM MAIS OUTRAS PESSOAS QUE COMPARTILHASSEM A OPINIÃO DO «HACKER PORTUGUÊS RUI PINTO»?
Dando uma vista de olhos à página do Google Notícias deparamo-nos com as reacções à entrevista dada ontem à noite pela procuradora Lucília Gago à RTP. Entre as reacções em destaque, uma que se afigura assaz razoável, muito do senso comum, criticando aquilo que de mais embaraçoso ela ontem disse - a ausência de qualquer contrição pelos erros cometidos pelo ministério público durante algumas destas últimas investigações mais mediatizadas. «PGR "deve ser responsabilizada quando comete erros flagrantes"» É só pena que, naquela página, a opinião não venha acompanhada da identificação do autor... Accionada a conexão para a página original, descobre-se que afinal o autor é o «hacker português Rui Pinto» e que a opinião foi repescada de um tweet que ele publicou... A sério? Lá no Notícias ao Minuto não encontraram mais ninguém que exprimisse aquela mesma ideia? Outras pessoas que não tivessem sido condenadas a quatro anos de prisão com pena suspensa? Pessoas que tivessem o cadastro limpo, por exemplo? Há por aí uma grande confusão entre os jornalistas, quando se decidem a dar destaque à opinião de pessoas só porque elas são conhecidas, quando o que acontece é que as razões pelas quais elas são conhecidas são precisamente as razões que desqualificam as opiniões que elas possam ter.
Etiquetas:
Inanidades,
Incompetência,
Informação
THE ECONOMIST: UM ENGANO EM GRANDE E UM DISFARCE EM MAIOR
Mesmo para o jornalismo de qualidade é valido aquela princípio que as avaliações dos erros próprios só se conseguem ler nas páginas da concorrência... Foram os próprios que anteciparam resultados que depois os deixaram chocados ao não se concretizarem. E quanto ao problema da governabilidade da França, ele já existia de antemão, as premissas para a sua resolução é que são completamente distintas daquilo que havia sido antecipado por eles.
03 julho 2024
PAÍSES BAIXOS E A NOTÍCIA QUE HOUVE UM CÃO QUE MORDEU NO CARTEIRO
Quase sete meses e meio depois das eleições legislativas de 22 de Novembro de 2023, finalmente tomou posse o novo governo dos Países Baixos. Há seis meses, houve uma grande animação mediática internacional porque as eleições haviam sido ganhas pelo PVV. O PVV é mais um daqueles partidos-de-um-homem-só-de-discurso-radical, como acontece com o Chega nacional, e o André Ventura lá do sítio chama-se Geert Wilders. E como é um homem só, quando o encarregaram de formar governo... ficou a falar sozinho. OS restantes partidos recusaram-se a integrar um governo que fosse encabeçado por Wilders. Este acabou por desistir ao fim de mais de três meses de esforços, em Março deste ano. Foi uma clamorosa derrota pessoal do próprio, ostracizado pelos seus pares. Os detalhes da constituição do novo governo constam das notícias que ontem saíram a este respeito. Geert Wilders não faz parte do elenco. Se fizesse, as notícias da tomada de posse em Haia não teriam recebido a cobertura discreta que receberam. Consciencializem-se que a comunicação social não é absolutamente nada neutra na forma como nos transmite os acontecimentos. Quando é o cão a morder no carteiro não lhes interessa nada - o que importa é ser o carteiro a morder o cão! Extrapole-se daqui que, entre nós, André Ventura não tem a importância que parece nos media, a importância vem de quem dá ressonância ao que ele diz e faz.
02 julho 2024
SOBRE UMA CERTA MEDIOCRIDADE DO ACOMPANHAMENTO INFORMATIVO DE ELEIÇÕES ESTRANGEIRAS
Este Domingo houve eleições legislativas em França e na próxima Quinta-Feira havê-las-á no Reino Unido. Qualquer delas muito interessantes e importantes. Só que o acompanhamento que os canais informativos portugueses fazem destas eleições é... medíocre. A culpa nem é dos convidados. Alguns, nem todos, sugerem, pelas suas intervenções, quão aprofundados são os seus conhecimentos sobre a matéria. O problema é que eles são convidados pelos jornalistas do estúdio a reexplicar (pela enésima vez!) todas as particularidades daquele acto eleitoral - que são as mesmas dos actos eleitorais precedentes! É uma forma de se perder e de enxotar uma parte importante da audiência: os espectadores que sabem esses detalhes elementares mudam imediatamente de canal e só lá ficam a assistir aqueles que já se tinham esquecido do elementar. Forma-se assim um circuito fechado em que os comentadores portugueses em estúdio, uns mais esforçados, outros mais pedantes, dissertam sobre uns tópicos mais elementares, outros tópicos mais superficiais, para uma audiência que as circunstâncias do formato do programa tornaram pouco exigente: por exemplo, ficaram a saber que as eleições francesas são a duas voltas, e que tudo - a composição da Assembleia Nacional - só ficará decidido daqui por uma semana, mas da próxima vez que houver eleições em França eles já se esqueceram disso tudo. É que as últimas eleições legislativas francesas tinham sido apenas há dois anos...
Indo recuperar aqueles que, a meio da narrativa precedente já se tinham ido embora, cansados de ouvir lugares comuns, vamos encontrá-los durante estas noites eleitorais nos canais mais elevados e escondidos das grelhas, acompanhando a informação e a opinião junto de fontes mais originais (no duplo sentido da palavra...). Foi assim no Domingo passado (França) e irá ser assim na Quinta-Feira (Reino Unido) e no Domingo próximos (outra vez em França). Confesso que fico bastante intrigado quando vejo certos comentadores televisivos domésticos de assuntos internacionais a mostrarem-se tão cheios de si próprios.
Etiquetas:
França,
Informação,
Política,
Reino Unido,
Sociedade,
Televisão
23 junho 2024
UM EXEMPLO DO QUE DEVE SER O VERDADEIRO JORNALISMO
Na campanha eleitoral em curso no Reino Unido, o primeiro-ministro Rishi Sunak foi dizendo que «...não admira que a Grã-Bretanha depois do Brexit ultrapassou a França, o Japão e a Holanda para se tornar no quarto maior exportador do Mundo.»
Suponho que não será preciso saber inglês - os gráficos da SkyNews são suficientemente claros - para compreender o significado da explicação do jornalista, desmontando o enviesamento da argumentação de Sunak. Confrontando com os números de anos anteriores, a economia britânica já alcançara aquela posição no comércio internacional, tanto antes como depois do Brexit. Uma coisa é certa: é o jornalismo deste cariz que força os protagonistas políticos a acautelarem-se nesta fase em que se diz tudo e se promete tudo. Como alguém comentou comigo: «É para isto que servem os jornalistas». Prefiro os factos, dispenso opiniões. Eu chego às minhas conclusões sem a ajuda desses ditos outros jornalistas (como João Miguel Tavares se atreve a classificá-los).
21 junho 2024
ENTRA O VERÃO E COMEÇAM AS NOTÍCIAS REAQUECIDAS NO MICRO-ONDAS
Com a entrada do Verão começam a faltar as notícias e os espaços passam a ser preenchidos com a redescoberta do que é evidente, como se de novidade se tratasse, uma espécie de recondicionamento da notícia, reaquecida num micro-ondas da oportunidade. Aqui, e porque o assunto é a evidência de que a CGTP é uma extensão do PCP para a actividade sindical, algo que é óbvio há quase 50 anos, tantos quantos duram os anos da mentira do desmentido (veja-se acima, em Abril de 2022), o aparelho que reaquece o tópico merece ser apresentado numa versão vermelha e de esquerda, popular e proletária. Só que, para que a metáfora fosse completa, a dimensão do micro-ondas devia ser cada vez mais pequena, a cada ano que passa e a pretensa "independência" da CGTP é reaquecida.
Etiquetas:
Dialéctica,
Inanidades,
Informação
19 junho 2024
AS PRIORIDADES DA POLÍTICA EXTERNA PORTUGUESA EM 1974 E A ATENÇÃO QUE OS ESTADOS UNIDOS LHES DISPENSAVAM
19 de Junho de 1974. No regresso de um périplo que o presidente norte-americano Richard Nixon dera por países do Médio Oriente, ocorre um encontro nos Açores entre ele e o novo presidente português, António de Spínola. A reunião durou uma hora e a atenção dispensada pelas duas partes ao encontro pode ser constatada pela importância noticiosa que lhe foi conferida dos dois lados do Atlântico (acima e abaixo). A fragilidade da Casa Branca por causa do Caso Watergate costuma ser uma explicação para o desinteresse inicial dos Estados Unidos pelas consequências previsíveis da descolonização, mas essa não parece ser a única explicação: os problemas de Nixon são independentes das decisões editoriais do New York Times, que parecem sintoma de um desconhecimento desinteressado dos problemas de Lisboa. Em contraste, as atenções dispensadas (e as expectativa postas) por Lisboa podem ainda hoje ser recordadas pela reportagem que a RTP realizou sobre a partida de António de Spínola.
Etiquetas:
50º Aniversário,
Estados Unidos,
Estratégia,
Informação
18 junho 2024
DIA DO CARNAVAL CONTRA O CAPITAL
(Republicação)
18 de Junho de 1999. Coincidindo com a abertura da 25ª Cimeira do G8, que iria começar nesse dia em Colónia, Alemanha, é convocado um conjunto de manifestações anti-capitalistas e anti-globalização para terem lugar em cerca de trinta cidades do Mundo. O título que foi escolhido para as designar - Dia do Carnaval contra o Capital - ainda hoje resulta mobilizador, embora, como é costume neste género de eventos, a identidade dos organizadores continue a permanecer um pouco difusa, permitindo a especulação quanto às suas intenções, para além da contestação pura e simples a um modelo político, económico, social que há vinte e cinco anos parecia não se deparar com alternativas ideológicas sérias. Quanto às manifestações propriamente ditas, onde a de Londres terá sido uma das maiores, senão mesmo a maior, ela terá juntado cerca de quatro mil pessoas (dados policiais), um número insignificante que terá tentado superar esse handicap com a abordagem carnavalesca dos protestos (fotografia intermédia).
Mas aquilo que terá constituído uma revelação na dita jornada de protesto mundial foi a rapidez como a comunicação social mundial se precipitou para lhe dar atenção a partir do momento em que os protestos se tornaram violentos (fotografia abaixo). Parecia ser isso que se esperava que eles - os manifestantes - fizessem e, a partir do momento em que o fizeram, as manifestações ganharam muito mais cobertura mediática do que a que alcançariam se eles se portassem bem. Estava estabelecido um padrão para o século XXI. Uma manifestação anti-qualquer-coisa garantiria cobertura mediática robusta só se os manifestantes começassem a escaqueirar o que tinham à frente e a confrontar-se com a polícia: foi o que aconteceu dali por seis meses na reunião da OMC de Seattle; foi o que aconteceu na cimeira de Praga do FMI e do BM em 2000; foi o que aconteceu na 27ª Cimeira do G8 de Génova em 2001; é aquilo que tem vindo a acontecer, finalmente, embora num contexto nacional e não mundial, com os protestos dos coletes amarelos em França, que se perpetuam sem que se perceba para quê, a não ser deixar as televisões de notícias entretidas ao fim de semana, quando faltam tópicos de que se fale.
E, no entanto, de quando em vez, percebe-se qual é o verdadeiro poder das manifestações de rua quando elas expressam uma verdadeira opinião popular significativa, como o que aconteceu em Hong Kong em Junho de 2019. Quando cerca de 5% da população vem para a rua manifestar-se contra uma medida legislativa indesejada, não é preciso que os manifestantes partam nada, nem baterem-se contra ninguém, para aparecerem nos telejornais. O acontecimento tem um significado político, não é apenas um espectáculo para passar na televisão, é a sério e os poderes políticos percebem o recado.
Etiquetas:
25º Aniversário,
5º Aniversário,
Informação,
Política
07 junho 2024
CENAS TRISTES QUE SE FAZEM À PORTA DE UM TRIBUNAL
Começo por explicar que as imagens de um pouco mais de minuto e meio de declarações de Manuel Pinho ontem, à saída do tribunal, onde havia sido condenado a dez anos de prisão, estão disponíveis na página da TVI player. Mas o momento é bom demais para apenas ser apreciado televisivamente e por isso merece a sua transcrição. Para que se saboreie de outra maneira a evolução da atitude de Manuel Pinho que começa por tentar dissertar sobre a injustiça que acabara de ser cometida contra a sua mulher, se mostra depois arrogante para com os jornalistas que o interrompiam com perguntas sobre o essencial (a sua condenação e a de Ricardo Salgado), se vê a braços depois com uma ameaça de insurreição dos microfones se ele não mudasse de assunto para aquilo que verdadeiramente lhes interessava, até à fase em que passa aos elogios bajuladores para com aqueles que, ainda um minuto antes, tratara com tanta sobranceria («Vamos combinar uma coisa: se quer falar... comigo não fala! Eu não respondo»).
Manuel Pinho - «...em que se dizia que a colecção que a minha mulher criou é a jóia da coroa e uma das melhores do Mundo. No entanto...»
Confusão de vozes. Voz do jornalista da SIC a sobrepor-se: - «...foi condenado a dez anos de prisão. Era o que esperava?»
Manuel Pinho - «Eu agradeci... Eu agradecia que não me interrompessem, está bom?... Aaah... Ora bem, e foi condenada por ser casada comigo. Imaginem que era ao contrário. Que era um homem que arranjava um emprego por causa da mulher.»
Nova confusão de vozes de onde acaba a sobressair a voz da jornalista da RTP: - «Foi condenada, segundo o tribunal, porque ocultou o dinheiro...»
Manuel Pinho - «Eu agradecia que não me interrompesse. Vamos combinar uma coisa: se quer falar... comigo não fala! Eu não respondo. Muito bem.»
Ainda uma terceira confusão de vozes, com mais participantes, onde se ouve novamente o jornalista da SIC: «...vamos fazer perguntas...»
Manuel Pinho resigna-se e deixa cair o assunto da mulher - «Ora bem. Nós vamos recorrer porque a sentença não tem nada a ver com o que se passou no tribunal. Vocês cobriram o que se passou no tribunal... e não tem nada a ver. Nós tínhamos uma estratégia para este julgamento. Em primeiro lugar era fazer o possível que ele fosse rápido. Demorou sete meses e se não demorou quatro, não foi por razões que nos fossem imputadas... (a notícia abaixo é eloquente quanto a essa estratégia)
Manuel Pinho (continuação): - «É possível fazer um julgamento rapidamente. E depois uma grande aposta na transparência. E na transparência vocês foram fundamentais. Porque vocês relataram de uma forma precisa, honesta e fidedigna tudo o que se passou aqui. E portanto toda a gente sabe o que se passou aqui. E o que se passou aqui não tem nada a ver com a sentença. Portanto eu não estou agradecido à imprensa porque vocês cumpriram o vosso dever, mas quero aqui prestar a minha homenagem porque vocês são vítimas de muitas críticas...»
Saúdam-se as condenações. Deseja-se que seja apenas a primeira de outras que tardam, destacando a de José Sócrates. Quanto à cena que acima se reproduz, tal é a mediocridade demonstrada por Manuel Pinho que, fossem as circunstâncias outras, até seria de se manifestar alguma pena por este pateta que nem sabe engraxar com um decoro de sofisticação. Mas a verdade é que a corrupção foi de demasiados milhões para o destinatário que percebemos que ele é. Cinicamente, até se pode considerar que houve aqui um desperdício de recursos por parte de Ricardo Salgado, que pagou demais pelo que Pinho vale. Quanto ao comportamento dos microfones, eu vivo para o dia em que eles, por causa da indigência do que está a ser dito, espontaneamente os retirem da frente do entrevistado, como parece ter estado quase a acontecer ontem com Manuel Pinho.
O FIM DE «UM CONFLITO GRAVÍSSIMO», QUE ACABOU COM «UM JANTAR DE CONFRATERNISAÇÃO» (sic)
O «conflito gravíssimo» iniciara-se em 3 de Junho. Os aviadores aquartelados no campo de aviação da Amadora haviam-se sublevado por causa da demissão do respectivo comandante, o major Cifka Duarte. De imediato e durante os dias seguintes os insurrectos haviam permanecido cercados por tropas da guarnição vizinha de Queluz. E depois de quatro dias de impasse, é neste dia de há cem anos que se rendem, graças à acção do general Bernardo Faria que entra no campo desarmado, acompanhado por 45 oficiais de várias unidades militares. Tudo terminou com «um jantar de confraternisação» (sic). Claro que o conflito nunca foi gravíssimo, a gravidade do incidente, hoje completamente esquecido, só terá tido um impacto fortemente negativo e imediato na reputação dos pilotos da aeronáutica militar daquele tempo.
Etiquetas:
100º Aniversário,
Aviação,
Informação
05 junho 2024
AS ELEIÇÕES SÓ SE DECIDEM COM A CONTAGEM DOS VOTOS
Ainda há duas semanas - à esquerda - os especialistas previam uma vitória esmagadora (landslide) do BJP do primeiro-ministro indiano Narendra Modi. Uma vitória com - escrevia-se então no Hindustan Times - «resultados idênticos senão mesmo ligeiramente melhores» do que os que haviam sido registados nas eleições de 2019. Contudo, o escrutínio dos votos - que na Índia é particularmente demorado: terão votado 642 milhões de eleitores! - parece apontar que as sondagens em que os especialistas tinham baseado as suas previsões estavam afinal erradas. Como se percebe pela notícia da direita, mais recente, do mesmo Hindustan Times, o BJP perdeu lugares no parlamento (cerca de 60) e terá perdido mesmo a maioria absoluta da câmara (Lok Sabha) de que dispunha. Este terá sido apenas mais um exemplo - mas um exemplo de grande dimensão! - de que a melhor atitude em eleições é aguardar mesmo pelos resultados. E o primeiro-ministro Narendra Modi não consegue disfarçar o facto incómodo de que, mesmo tendo ganho as eleições e preparando-se para continuar à frente do governo, acabou de as perder por causa das expectativas.
O segundo aspecto importante desta questão não é politico, mas noticioso e respeita à relação dos media com os seus leitores. Publicações de prestígio como é o caso da revista The Economist aqui acima, contradizem-se galhardamente em 3 dias (de 1 para 4 de Junho) e não parecem sentir qualquer necessidade de, para além de darem uma completa cambalhota no teor do que noticiam, se explicarem diante dos seus leitores.
03 junho 2024
UMA REFLEXÃO REBUSCADA ASSOCIANDO A CHANG'E-6 E PAULO PORTAS
Foi com uma enorme discrição que se constata estar a ser noticiada a aterragem no lado oculto da Lua da sonda espacial chinesa Chang'e 6. A missão tem por objectivo recolher amostras de poeira e rochas lunares para posterior análise na Terra. Para isso, o sistema está organizado em quatro módulos: um orbital à volta da Lua, este módulo de aterragem na superfície lunar que foi agora utilizado, um terceiro módulo de redescolagem depois da recolha das amostras do solo e finalmente um quarto módulo preparado para as proteger quando do seu retorno à Terra. Trata-se de uma proeza que já foi alcançada pelos Estados Unidos e pela União Soviética durante a sua Corrida para a Lua de há 50 anos, mas neste caso da Chang'e 6 existe a curiosidade - e a dificuldade - científica acrescida desta pesquisa estar a realizar-se do lado oculto da Lua. Há aqui um investimento notório por parte da China, não apenas científico, mas também de prestígio. O vídeo acima é uma prova disso, e é impossível não nos sorrirmos ao ouvir a escolha que fizeram para a banda sonora do momento da aterragem, «O Danúbio Azul», num piscar de olhos deliberado à famosa cena do filme 2001 - Odisseia no Espaço.
Contudo, mais interessante do que acompanhar a própria proeza científica, têm sido os meus esforços para tentar compreender a racionalidade como estas proezas científicas costumam ser noticiadas pela comunicação social. A portuguesa e a internacional, esclareça-se. Ainda este ano, em Fevereiro, acompanhei aqui no blogue uma iniciativa privada de fazer aterrar uma sonda também na Lua, que recebeu uma promoção prévia entusiasmada (1) e que depois, após uma tentativa ridícula de atrasar as más notícias (2), se veio a revelar um fiasco... colossal (3). O contraste com as notícias a propósito desta Chang'e 6 não podia ser maior. Entre a comunicação social portuguesa e do resultado da pesquisa que acabei de fazer com o Google Notícias (acima) apenas o jornal Público se tinha dado ao trabalho de processar a informação que lhe chegara via Reuters. Eu vivo ainda na ilusão de que, porque estes temas são científicos, a sua repercussão noticiosa devia ser mais neutra. Mas nestas ocasiões parece-me que a objectividade é a mesma que aquela que acompanha a difusão dos pensamentos dominicais de Luís Marques Mendes na SIC versus Paulo Portas na TVI. O primeiro até pode dar um traque que é garantido que o Expresso comenta de imediato a importância do som emitido, enquanto o segundo, nem mesmo citando os ensinamentos de Confúcio, tem qualquer hipótese que lhe dêem atenção... (note-se: não tenho pena alguma de ele ser descriminado, devia era ignorar-se Marques Mendes da mesma maneira)
Etiquetas:
Astronáutica,
Informação,
Opiniões
28 maio 2024
A REVOLUÇÃO DE 28 de MAIO (uma outra...)
(Republicação)
Esta (outra) Revolução de 28 de Maio ocorreu em 1944 e no Equador. Os equatorianos crismaram-na de La Gloriosa, mas a sua notoriedade, na época e depois, permanece pequena fora do país - terá sido mais uma daquelas exuberantes mudanças de regime em que a América Latina era tão pródiga e, ainda por cima, ocorrida num país que não é dos mais destacados do subcontinente. Sintomático disso, e porque as atenções à situação internacional se dispersavam pelos vários teatros da grande guerra em curso, a notícia só apareceu nos nossos jornais daí por dois dias, tendo feito um percurso estranhamente sinuoso, dada como oriunda de Amesterdão (na Holanda ocupada), dando como fonte o "serviço britânico de informações" e no fim assinada pela agência noticiosa alemã D.N.B. O local da inserção da notícia, adequado à irrelevância que La Gloriosa mereceria aos portugueses, era o canto inferior direito da última página do jornal de dia 30 de Maio.
Etiquetas:
80º Aniversário,
Equador,
Informação
27 maio 2024
O DESCONTENTAMENTO ESLOVACO DENTRO DA CHECOSLOVÁQUIA
27 de Maio de 1964. O New York Times publicava um artigo sobre aqueles temas que eram raramente abordados no Ocidente - os nacionalismos subordinados dos países da Europa de Leste. A simplicidade da propaganda tendia a descrever estes países como meros satélites da União Soviética sem mais. Mas, para além das especificidades, havia aspectos associados a alguns deles que lhes davam características únicas. A Jugoslávia e, neste caso, a Checoslováquia eram países recentes (1918) e que resultavam da agregação de mais do que uma nacionalidade. Neste caso, a notícia era oriunda de Bratislava, capital da Eslováquia, e instruía o leitor sobre o desconforto dos «quatro milhões de eslovacos» que «constituíam cerca de 20% da população» total da Checoslováquia (um número mais realista seria 28%). As causas para tal desconforto assentavam no facto de que, na condução da política nacional da Checoslováquia, predominava a maioria checa. E, quanto a relações de proximidade, o artigo não deixava passar algumas evidências da geografia, como o facto de que a distância de Bratislava a Praga, a capital da Checoslováquia, é de 330 km, enquanto a capital da Hungria, Budapeste, está a 200 km e, mais importante para a argumentação subjacente ao artigo, Viena, a capital da Áustria, está apenas a 80km! Mas até 1989, aqueles países eram ditaduras e estes assuntos eram encarados no Ocidente como preciosismos que não interessavam para a rivalidade Leste-Oeste. Só que não eram preciosismos, mas assuntos muito sérios para os directamente envolvidos: tanto assim que os dois países se dissociaram um do outro escassos anos depois do fim da Guerra Fria.
Etiquetas:
60º Aniversário,
Dialéctica,
Eslováquia,
Informação,
República Checa
25 maio 2024
A APRESENTAÇÃO DO RELATÓRIO COX
(Republicação)
25 de Maio de 1999. Em Washington DC, uma comissão da Câmara de Representantes apresenta um documento com 900 páginas que se dedicara a investigar as actividades da espionagem militar dos chineses nos últimos 25 anos (os 25 anos anteriores, perceba-se, desde 1974). Para a imprensa, o Relatório adquiriu o nome de quem presidiu à comissão, o congressista republicano da Califórnia, Christopher Cox. Sob o conteúdo e as conclusões do Relatório Cox, podem-se sintetizar as 900 páginas (muitas delas sombreadas, pelas tradicionais razões de segurança), dizendo que a comissão formara a convicção que durante todos aqueles anos os serviços de informações da República Popular da China haviam desenvolvido esforços concertados para a aquisição do design dos engenhos termonucleares norte-americanos de última geração, numa tentativa de colmatar o hiato tecnológico que separava a China dos seus rivais (Estados Unidos e Rússia). Mais: o Relatório considerava que a espionagem chinesa fora bem sucedida nesses esforços. Este é o género daqueles acontecimentos inoportunos com que os governos não gostam de lidar: são assuntos demasiado sérios para poderem ser descartados facilmente por aqueles que gerem o spin das notícias, e ao mesmo tempo são assuntos demasiado graves, para que as opiniões públicas, as mais das vezes indignadas, não reajam, apossando-se do tema, e com isso causando danos diplomáticos indesejáveis. Neste caso, apesar da seriedade das acusações, a Administração Clinton parecia não se mostrar interessada em indignar-se muito e puxar pelo assunto, conforme se percebe logo pelo princípio do artigo (abaixo) enviado no dia seguinte por Bárbara Reis para o Público. Fossem as circunstâncias as actuais, e imagine-se o banzé!
Etiquetas:
25º Aniversário,
China,
Estados Unidos,
Informação
23 maio 2024
«NOVIDADES PARA AS TROPAS»
Este é o exemplar de 23 de Maio de 1944 de um jornal pirata produzido pelos norte-americanos a partir de 1944, na fase final da Segunda Guerra Mundial. Apesar do título - NACHRICHTEN für die truppe pode traduzir-se por NOVIDADES para as tropas - o jornal era distribuído por toda (sobre) a Alemanha, através do seu lançamento usando verdadeiros bombardeiros B-17. As “notícias” eram daquele género denominado “propaganda cinzenta”, ou seja, uma mistura de verdadeiras reportagens sobre acontecimentos reais nas várias frentes de guerra, bem como informações verdadeiras da “frente interna” na Alemanha, informações essas que frequentemente eram silenciadas pelos canais oficiais alemães. Além dessas descrições verdadeiras da situação militar na fase final da Segunda Guerra Mundial, onde era evidente a superioridade militar dos Aliados em todas as frentes, inseria-se em complemento pequenas notícias de desinformação que eram deliberadamente difundidas misturadas no conjunto, a fim de confundir e desmoralizar quem lesse o jornal.
Etiquetas:
80º Aniversário,
Informação,
Segunda Guerra Mundial
19 maio 2024
FALAR A SÉRIO(?) DE ASSUNTOS DE DEFESA
O Expresso desta semana dá um destaque de primeira página a um artigo a sério respeitante a assuntos de defesa (só para assinantes). É pena que o jornalista que assina o artigo - Vítor Matos - não inclua nele qualquer comentário quer de fontes autorizadas do ministério da Defesa, quer mesmo do próprio titular da pasta, Nuno Melo, a quem ultimamente temos ouvido opiniões muito interessantes, embora só muito remotamente relacionadas com a Defesa: a agricultura e a pecuária portuguesa, por exemplo - na fotografia abaixo recordemo-lo a visitar há duas semanas a Ovibeja 2024. Além disso há o ministro dos Negócios Estrangeiros que também trata destes assuntos, mas esse também não terá sido consultado.
A ausência de opiniões pessoais e institucionais da parte do ministério da Defesa é o tipo de omissão que empobrece substancialmente o artigo de Vítor Matos, reduzindo-o a um panfleto promocional sobre uns aviões de construção norte-americana de última geração, denominados F-35, giríssimos, caríssimos, a que, por acaso, já me referira desaprovadoramente aqui neste blogue em Março de 2021. O CEMFA, general Cartaxo Alves, que ali defende a sua dama*, chega ao extremo de invocar o argumento que os vizinhos - Bélgica, Noruega, Dinamarca - já compraram e portanto nós também temos de ter uns iguais, argumento que, além de irrelevante só por si, devia ser sempre socialmente confrangedor...
* Ou seja, faz lóbi para que lhe comprem uns aviões de combate modernos e bonitos.
Etiquetas:
Aviação,
BD,
Inanidades,
Incompetência,
Informação
IMAGENS DE OUTROS SANTOS PORTUGUESES – 2
70º aniversário da morte de Catarina Eufémia. Republicação
A fotografia acima é um retrato (como então se dizia) típico dos anos cinquenta de uma mulher pobre – uma verdadeira proletária, no sentido marxista do termo – como se comprova pela modéstia dos adornos visíveis que usa: um colar simples com uma medalha. Chamava-se Catarina Eufémia, era uma trabalhadora rural que encabeçava uma manifestação reivindicativa quando foi morta pela GNR em 19 de Maio de 1954 em Baleizão no Baixo Alentejo. A sua condição de proletária e de analfabeta torna muito improvável a afirmação que ela fosse uma militante clandestina do PCP, conforme este último ainda hoje reclama.
Mas uma coisa é certa: o PCP dispôs de outros candidatos a santos mártires pela causa (como será o caso de José Dias Coelho), mas foi nela que apostou decisivamente para esse papel, sobretudo depois do 25 de Abril. Como aconteceu com Ribeiro Santos, a representação de Catarina Eufémia tornou-se estilizada, usando um jogo de padrões claro/escuro que se tornasse reconhecível nas pinturas murais (acima). E houve até quem tivesse ido mais longe e tentado tornar a imagem da Santa um pouco mais misteriosa e atractiva, invertendo-a no seu eixo vertical, como se pode observar neste cartaz abaixo, datado de 1980…
Em complemento ao texto inicial, vale a pena publicar a notícia da época, publicada no Diário de Lisboa do dia seguinte, que dá conta da «impressionante manifestação de pesar» do seu funeral. Como a realidade frequentemente vem acompanhada de ironia, o nome da vítima aparece trocado: Maria da Graça Sapinho, em vez de Catarina Eufémia... O episódio é dado como acidental e o autor dos disparos, o tenente Carrajola, é dado como estando sob prisão, em Évora. E vale a pena assinalar que, pelo conteúdo, parece não ter havido intervenção da censura na publicação da notícia. É um daqueles casos em que agora não se menciona esse aspecto, mas, caso tivesse havido censura à notícia, a propaganda do PCP não deixaria de o realçar.
Etiquetas:
70º Aniversário,
Dialéctica,
História,
Informação
15 maio 2024
SOBRE O FACCIOSISMO FUTEBOLÍSTICO DA COMUNICAÇÃO SOCIAL EM PORTUGAL
15 de Maio de 1964. Na finalíssima da Taça dos Vencedores das Taças, disputada em Bruxelas, o Sporting ganhava a competição frente ao MTK, clube húngaro, contra o qual disputara uma final na mesma cidade dois dias antes, final essa que acabara empatada 3-3. Mas o destaque do poste nada tem a ver com o acontecimento em si, antes com a cobertura noticiosa que recebeu em Portugal. O Diário de Lisboa nem uma chamada de primeira página faz para o acontecimento, remete-o para uma discreta 10ª página, embora aí em termos francamente congratulatórios.
A explicação poderia ter sido a de que há sessenta anos as vitórias em competições europeias de futebol de clubes não mereceriam o destaque como hoje são cobertas. Poderia... mas os tempos agora permitem-nos uma consulta rápida para verificar se isso era verdade e comparar, aliás, como fora a paginação do mesmo Diário de Lisboa quando fora o Benfica a ganhar (por duas vezes) a sua competição europeia de clubes, em Maio de 1961 e de 1962. E contra factos não há argumentos: já há sessenta anos na redacção do Diário de Lisboa os sportinguistas não tinham capacidade de decisão...
Etiquetas:
60º Aniversário,
Desporto,
Informação,
Sociedade
Subscrever:
Mensagens (Atom)



























