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04 dezembro 2023

A CONTÍNUA IMPOTÊNCIA DA PRESENÇA DOS ESTADOS UNIDOS NO LÍBANO

4 de Dezembro de 1983. Os Estados Unidos (e a França e a Itália) haviam enviado forças militares para o Líbano para resolver um problema criado por Israel, que invadira aquele país para dali desalojar as forças da OLP. Invadiu, expulsou os combatentes palestinianos, mas depois Israel ficou lá atascado, no meio da guerra civil libanesa. Os três países ocidentais haviam enviado forças militares para a manutenção da paz no país mas rapidamente se viram arrastados para o conflito. Seis semanas antes, dois camiões bombas, conduzidos por suicidas, haviam provocado mais de 300 mortos nos aquartelamentos do exército norte-americano e francês. Este dia 4 de Dezembro tornou-se mais um exemplo do vespeiro em que se tinha tornado a presença dos norte-americanos naquelas paragens, por muito musculada que a tentassem fazer. Inicialmente fora um avião F-14 de reconhecimento que havia sido alvejado por um míssil SA-7 a partir de posições que se sabiam ocupadas por tropas sírias. Depois, em retaliação, duas esquadrilhas estacionadas nos porta-aviões USS John F. Kennedy e USS Independence ao largo do Líbano atacaram os locais de onde viera o míssil. Foi pior a emenda que o soneto: o fogo anti-aéreo dos sírios abateu um A-6 e um A-7. Dos três tripulantes abatidos (o A-6 tem dois tripulantes), um morreu, um foi resgatado mas o outro foi capturado pelos sírios e levado para Damasco. Depois seguiu-se um mês de negociações acompanhadas pela média em que o assunto se misturou com a questão racial - o prisioneiro era negro - e o protagonismo de um dos activistas dos direitos afro-americano, o reverendo Jesse Jackson, que ficou com a fama do feito com a sua manobra de diplomacia paralela. O presidente Reagan saiu entalado de tudo isto e a sua administração não via a hora das suas tropas se irem embora dali...

06 outubro 2023

O INÍCIO DA GUERRA DO YOM KIPPUR

(Republicação reescrita em função de novos vídeos)
6 de Outubro de 1973. Neste dia de há cinquenta anos e à hora mais canonicamente improvável para o desencadear de ofensivas militares (14H00), egípcios e sírios, de uma forma simultânea e concertada iniciaram uma ofensiva sobre as posições que os israelitas haviam conquistado seis anos antes durante a Guerra dos Seis Dias. Esta intenção de desforra árabe, deu-se o nome de Guerra do Yom Kippur, em alusão ao feriado religioso judeu que desguarnecia precisamente naquele dia as...
...guarnições das posições defensivas israelitas. Tratou-se tanto de uma guerra convencional (para a descrição detalhada da qual se sugere o livro acima de Pierre Razoux*), como se tratou de uma guerra de propaganda disputada no palco da opinião pública mundial. Desde o princípio que houve a preocupação de encher os noticiários com os sucessos das suas respectivas armas. O Egipto acima, a atravessar o canal do Suez, Israel abaixo, a rechaçar a ofensiva síria.
* É o mesmo Pierre Razoux que, no jornal Le Monde e a propósito desta outra guerra entre o Hamas e Israel, considera agora que «o Hamas está a fazer tudo o que pode para atrair Israel para uma operação terrestre».

08 março 2023

O GOLPE DE ESTADO NA SÍRIA

8 de Março de 1963. Golpe de Estado na Síria. Não era surpresa porque naquele tempo uma apreciável percentagem  dos países muçulmanos do Próximo Oriente eram tutelados por regimes militares (laicos), casos do Egipto, Síria, Iraque ou Paquistão. E a mudança dos protagonistas políticos fazia-se através destes pronunciamentos militares, com maior ou menor derramamento de sangue. No caso concreto da Síria, um dos quatro países na primeira linha do combate contra Israel, houvera um golpe de Estado em Setembro de 1961 (18 meses antes), voltará a haver outro em Fevereiro de 1966 (35 meses depois). Mudanças onde, ao contrário da actualidade, a questão religiosa desempenhava uma função muito secundária.

25 fevereiro 2023

IMAGENS DE COMO O PASSADO EM ALGUNS PAÍSES MUÇULMANOS PODE PARECER HOJE UM PAÍS ESTRANGEIRO

Teerão 1971 - actualidade
Damasco c. 1975 - actualidade
Cabul 1979 - actualidade

02 fevereiro 2022

O MASSACRE DE HAMA

Nunca dei – possivelmente por desatenção minha – por que, nos jornais, se assinalasse a 2 de Fevereiro a efeméride do Massacre de Hama, de que se cumprem hoje 40 anos. Trata-se de um episódio passado na Síria (Hama é a cidade que aparece assinalada a vermelho no mapa acima), que permanece praticamente desconhecido, mas que foi uma demonstração cabal de como a gestão das indignações é um imenso jogo hipócrita jogado à escala mundial, e onde a esmagadora maioria da opinião pública mundial é manipulada no objecto das suas simpatias e antipatias como se de uma manada se tratasse…
Mas comecemos pelo princípio. Em Janeiro de 1982, o regime laico do presidente Hafez El Assad (acima) estava a acusar sintomas de desgaste. Dentro do caleidoscópio religioso sírio, Assad e os seus homens de confiança pertenciam quase todos a um grupo que representava uma minoria entre a comunidade muçulmana maioritária (90%), a dos alauítas (10%). E, invocando os valores tradicionais do islão sunita maioritário e liderando a contestação ao laicismo do regime de Assad, aparecia uma organização clandestina transnacional chamada Irmandade Muçulmana, com fortes apoios dentro de sectores da sociedade síria.
A secção egípcia da organização acabara de se cobrir de glória quando, em Outubro de 1981, se responsabilizara pelo assassinato, em plena parada militar (vídeo acima), do presidente Sadat do Egipto. Sadat estava então proscrito em todo o mundo árabe, por ter assinado unilateralmente a paz com Israel, mas isso não invalida que a proeza tivesse sido encarada de forma muito apreensiva pelos dirigentes laicos dos países árabes como Assad da Síria, Khadafi da Líbia ou Saddam Hussein do Iraque. E no caso da Síria, a secção local da Irmandade havia entretanto desencadeado uma campanha bombista…
Só que, ao contrário da homogeneidade egípcia, a sociedade síria (como a libanesa ou a iraquiana) ainda se organiza à volta de clãs, e os alinhamentos político-religiosos fazem-se mais por essa lógica do que pela ideologia. Na Síria, os simpatizantes da Irmandade Muçulmana predominavam numa região e tinham uma espécie de capital religiosa: Hama (acima). Foi a perdição da cidade. O ataque desencadeado pelo exército sírio há 28 anos, e que foi comandado pelo próprio irmão de Assad, Rifaat (abaixo, os dois irmãos), tinha por objectivos isolar a cidade do exterior enquanto impunha ali um regime deliberado de terror. Hama, então com cerca de 200.000 habitantes, foi sujeita a uma metódica busca casa a casa, com as autoridades exercendo um verdadeiro poder discricionário de seleccionar suspeitos, a começar pelo clero sunita... Qualquer veleidade de resistência era aniquilada, a tiro de armas ligeiras nos casos individuais, com armas pesadas e artilharia (abaixo) nas manifestações colectivas. Embora a cidade permanecesse proibida aos jornalistas, o regime apostava que os métodos de terror que estava a aplicar viessem a ser divulgados pela população através doutros métodos, velhos de séculos, os da reputação e do boato… Nunca se virá a saber quantos mortos terá causado a repressão sobre Hama. Há várias estimativas que variam entre os 5.000 e os 40.000 mortos. Lembre-se como o regime estava interessado em inflacionar esses números. Rifaat Assad assumiu descontraidamente 38.000... Mas note-se como as fotografias da destruição então causada (acima e abaixo), e ao contrário dos massacres perpetrados pelos israelitas e seus aliados naquela mesma região, não exibem nem um único cadáver… E sabe-se como, sem essas imagens, os massacres praticamente deixam de existir para a informação mundial…
A Irmandade Muçulmana na Síria nunca mais se recompôs da destruição. O episódio de Hama veio a tornar-se num exemplo de manual do que não se deve fazer. Perante aquele desnível de poder, a Irmandade Muçulmana nunca deveria ter assumido a cidade de Hama como seu santuário. Ao fazê-lo, defrontando um regime que não estava submetido a qualquer escrutínio popular e que, ainda para mais, se estava a sentir seriamente ameaçado com a sua campanha bombista, sobrestimou as suas capacidades. E esqueceu-se que os massacres de árabes só são importantes quando perpetrados por israelitas…

12 julho 2021

O FIM DAS HOSTILIDADES NA CAMPANHA SÍRIO-LIBANESA

12 de Julho de 1941. Os franceses aceitavam pôr fim às hostilidades provocadas pela invasão britânica dos seus dois mandatos da Síria e do Líbano. A campanha durara um pouco mais de um mês - de 8 de Junho a 12 de Julho de 1941 - e, porque colocara forças britânicas e francesas a combaterem-se frontalmente, é um daqueles episódios propositadamente esquecidos do conflito magno que constituiu a Segunda Guerra Mundial. Já aqui me referi a ele neste blogue numa série dedicada precisamente a esses sideshows mais ou menos desconhecidos da Segunda Guerra Mundial.

16 setembro 2020

«SETEMBRO NEGRO»

16 de Setembro de 1970. O tão antecipado confronto militar entre as autoridades jordanas e as organizações palestinianas acantonadas no país tem finalmente lugar. Os combates ir-se-ão prolongar pelos próximos onze dias, até dia 27, período ao longo do qual o sangrento conflito foi acompanhado e se manteve em lugar destacado na comunicação social de todo o Mundo (abaixo). Tratou-se de um conflito de características essencialmente urbanas, em que o exército jordano procurava desalojar o inimigo dos bairros de refugiados palestinianos onde sempre haviam predominado. Os problemas dos jordanos, que gozavam de uma inegável superioridade material e que venceriam militarmente o conflito, eram de dois tipos: a) Prevenir a multiplicação de baixas civis, sobretudo entre os refugiados palestinianos, o que teria custos políticos no resto do mundo árabe; b) impedir que os militares iraquianos e sírios interviessem no conflito ao lado da OLP, contando para isso com a mediação do Egipto. Em última instância, a Jordânia apelou directa e ostensivamente aos Estados Unidos (abaixo), e isso é capaz de ter sido determinante para o desfecho deste «Setembro Negro». Quanto ao desfecho, do ponto de vista militar a vitória jordana foi incontestável: para além dos palestinianos subjugados, também os sírios apanharam uma pequena tareia. Do ponto de vista político, a vitória jordana teve uma aparência mais disfarçada, mas as organizações armadas que constituíam a OLP perderam a capacidade de operar autonomamente em território jordano. Com o tempo, elas foram-se transferindo gradualmente para o Líbano, transportando consigo um caos político-militar muito congénito. Em 1975 começava, por sua vez, uma Guerra Civil, neste último país, com a contribuição generosa dos palestinianos. Foi a validação final da decisão difícil do rei Hussein da Jordânia de os expulsar do seu país em Setembro de 1970.

23 maio 2020

O FIM DA AUTORIDADE FRANCESA SOBRE A SÍRIA E O LÍBANO

Ainda 23 de Maio de 1945. A reinstalação da autoridade francesa naqueles que haviam sido os seus mandatos no Próximo Oriente (Síria e Líbano) mostra-se mais do que problemática. Os dois países haviam aproveitado o período de extrema fraqueza da França depois da sua derrota de 1940 para ambos ganharem autonomia e até proclamarem a sua independência (1943 e 1944), sob a tutela das tropa de ocupação britânicas que ocupavam os países desde 1941. Com o fim da Guerra em 8 de Maio de 1945, pensara-se em Paris reencetar os programas de autonomia progressiva que haviam sido previsto ainda antes de 1939. Era esquecer cinco anos de acontecimentos decisivos, contar com a colaboração benévola dos britânicos, mais a solidariedade de americanos e russos, e ainda presumir a complacência benévola dos árabes. A França comportava-se como um daqueles seus aristocratas que foram corridos dos seus domínios por ocasião da Revolução de 1789 e que agora regressava a tomar posse dos seus palácios, pretendendo que nada de substantivo se alterara com os anos de ausência. Fica por saber se era ingenuidade ou se era apenas petulância gálica, mas iriam confrontar-se com uma resistência militar que superava a capacidade militar francesa em lhes fazer face - os exércitos coloniais locais haviam-se bandeado em peso (70% dos quadros e 40% dos soldados) para o lado das forças independentistas. Dia 28 de Maio os franceses viriam a receber uma nota americana a respeito da sua política na região e a 31 de Maio seriam os britânicos a exigir que os franceses aceitassem um cessar fogo. Os dias da França no Próximo Oriente estavam contados. Na revanche, nos anos que se seguiram, os franceses iriam cuidar de contribuir para emerdar o mais possível todas as iniciativas britânicas para resolver o problema palestiniano, do qual o Reino Unido iria sair dali por três anos e com o rabo entre as pernas...

26 março 2019

AGORA TENTE LÁ DESCOBRIR AS DIFERENÇAS...


26 de Março de 1979. Nos jardins da Casa Branca em Washington, tem lugar a cerimónia da assinatura oficial do Tratado de Paz entre o Egipto e Israel (acima). O presidente dos Estados Unidos de então, Jimmy Carter (1924- ), serve de anfitrião e os signatários são o presidente Anwar Sadat (1918-1981) do Egipto e o primeiro-ministro israelita, Menachen Begin (1913-1992). Em consequência do Tratado, Israel comprometia-se a devolver faseadamente o território egípcio que ocupara durante a Guerra dos Seis Dias em 1967. Nem de propósito, ontem foi a vez do longínquo sucessor de Carter, Donald Trump (1946- ) assinar por sua vez uma declaração reconhecendo oficialmente a soberania israelita sobre os montes Golã, que os israelitas conquistaram à Síria nessa mesma guerra de 1967. Presente com Trump estava o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu (1949- ), mas, naturalmente, não havia nenhum representante sírio... Pelo contraste das suas cerimónias percebe-se com nitidez quanto os Estados Unidos se tornaram agora num actor da cena internacional diferente, perigosamente diferente, porque descaradamente parcial... Ou, como alertava o matemático Ian Malcolm (Jeff Goldblum) no filme Parque Jurássico, a supremacia norte-americana é tão evidente que os protagonistas da Casa Branca parecem ter-se esquecido da distinção ética entre a capacidade de poder fazer algo e a sabedoria de saber se o deve fazer...

12 agosto 2018

OS DOIS MIGS SÍRIOS QUE ATERRARAM POR ENGANO EM ISRAEL

12 de Agosto de 1968. Há cinquenta anos, dois caças Mig-17 da Força Aérea síria aterravam inesperadamente num antigo aeródromo militar no Norte de Israel. Apesar de as autoridades israelitas terem noticiado que se devera a causas acidentais, a explicação foi acolhida com um cepticismo que se justificava por vários precedentes. Em 1962, numa operação de espionagem que correra mal, os israelitas haviam tentado aliciar um piloto egípcio de um Mig-17 a desertar para Israel. A operação correra mal, a rede de espionagem foi denunciada e três agentes acabaram executados. Porém, em 1964, uma operação semelhante foi bem sucedida, quando o capitão Mohammad Abbas Helmy  da Força Aérea egípcia desertou com o seu Yak-11 de treino para Israel. O desertor veio a ser executado no Cairo dois anos depois. E em Agosto de 1966, realizara-se uma terceira operação do mesmo género, protagonizada agora pelo capitão Munir Redfa da Força Aérea iraquiana, tendo em vista a obtenção de um caça Mig-21. Perante este historial, percebe-se o cepticismo internacional que acolheu as explicações oficiais de que o a aterragem dos Migs-17 do tenente Walid Adham e do 2º tenente Radfan Rifai, da Força Aérea síria, se devera a erros de navegação. Contudo, os pilotos sírios haviam aparentemente usado mapas datados de 1945, haviam entrado no espaço aéreo libanês, haviam-se desorientado e pensavam estar a aterrar numa base aérea do Líbano, quando estavam a aterrar num aeródromo praticamente desactivado em Israel, numa manhã soalheira (eram 08H45), e sem combustível suficiente para tornar a descolar . Era uma história suficientemente estúpida para ser verosímil. Não abonava nada em favor da preparação da navegação que era ministrada pela Força Aérea síria aos seus quadros, mas os factos posteriores vieram corroborá-la: os dois pilotos permaneceram aprisionados até 1970, aquando da realização de uma troca de prisioneiros entre israelitas e sírios. Acrescente-se que, em Outubro de 1989, um major sírio virá a desertar aos comandos de um Mig-23.

14 abril 2018

SEM O CARLOS FINO, A COISA PERDE METADE DA PIADA


Uma primeira reflexão histórica sobre o bombardeamento sobre a Síria é que, depois de Bagdade e agora com Damasco, das capitais califais clássicas do apogeu medieval da civilização islâmica só fica a faltar mesmo o Cairo (Na presunção que bombardear Córdoba seria uma injustiça para com os espanhóis...). A segunda reflexão é que os bombardeamentos, sem Carlos Fino a comentá-los da varanda do hotel local e, sobretudo, sem José Rodrigues dos Santos, histérico, a mandar-lhe palpites dos estúdios cá de Lisboa, sem qualquer deles a ouvir-se, dizia eu, a coisa perde metade da piada. A gente habitua-se a um certo figurino da guerra...

01 fevereiro 2018

O PAN-ARABISMO


1 de Fevereiro de 1958. O Egipto e a Síria proclamavam a sua união numa nova entidade política designada por República Árabe Unida. O ideal da unificação dos países árabes sob a égide de Nasser soava extremamente apelativo para as suas populações: a fusão fora votada favoravelmente por 92% dos sírios e nas monarquias adjacentes (Arábia Saudita, Iraque ou Jordânia) vacilava-se nas adesões, diante do chamamento romântico à reconstrução daquele que fora o império do século XII de Saladino (mapa abaixo). Os novos cruzados do século XX eram, evidentemente, os israelitas, que, 770 anos depois, havia que expulsar novamente de Jerusalém e da Terra Santa. Contudo, rara é a História que se reescreve. Neste caso, as elites sírias rapidamente se viram subjugadas aos interesses superiores do Egipto e a ressentir-se com isso. A 28 de Setembro de 1961 um golpe de Estado na Síria pôs fim à breve experiência. É importante notar que a religião islâmica desempenhou um papel muito secundário nesta efervescência pan-árabe de há sessenta anos.

28 agosto 2016

AGORA SEM AVÉ MARIAS E SEM PELOUROS

E com muitas avé marias e pelouros, nos fomos a eles e os matámos todos num credo.
A fotografia é do Líbano de 1976, em plena guerra civil, tirada por Ferdinando Scianna. A decoração mariana da coronha da M-16 identifica a confissão do combatente mas não a facção pela qual combate. Quarenta anos depois parece que, por aquelas mesmas paragens, eles continuam a morrer, muitos, sem necessidade de um pelouro ou de um credo, de uma avé maria ou de um padre nosso que, para morrer, as orações entoadas pelo padre ou os Allah hu Akbar do muezzin são indiferentes para os mortos...

27 agosto 2016

OS RUSSOS EM PALMIRA E A GUERRA DAS IMAGENS

É inegável que a presença dos soldados russos na Síria tem sido um tremendo golpe de propaganda a que os norte-americanos não conseguem ripostar de forma equivalente. Uns vão em apoio dos seus aliados locais, os outros apenas fornecem o material e as palavras de encorajamento. A fotografia acima é de duas sentinelas que guardam o edifício onde estava sediada a administração de Palmira, agora recapturada. O aviso pintado na coluna do lado direito (Мин нет) informa-nos que o local já foi desminado e desarmadilhado. Mas nem tudo poderão ser sucessos nesta guerra de imagens, atente-se a esta fotografia abaixo de algum material de guerra - no caso, granadas de morteiro - que foi capturado aos radicais islâmicos quando da reconquista.
Ultrapassando a imaginação (limitada?) do fotógrafo russo, pode imaginar-se ver ali a oração conjunta, no preciso momento em que os fiéis se prostram de cabeça no chão, os bojos das granadas a equivalerem-se aos rabos e costas dos fiéis, comparem-se as duas fotografias abaixo... De uma certa forma, e numa certa liberdade interpretativa, fica a parecer que até o próprio material de guerra se havia convertido ao islão...

22 fevereiro 2016

58º ANIVERSÁRIO DE UM PROJECTO ROTUNDAMENTE FALHADO

Em 22 de Fevereiro de 1958 os presidentes Gamal Abdel Nasser do Egipto e Shukri al-Quwatli da Síria assinavam o acordo para a fusão dos dois países que daria origem ao nascimento da República Árabe Unida. Paradoxalmente, a iniciativa partira da Síria, onde, espantemo-nos, naquela época e ao contrário do Egipto, até havia uma opinião pública e eleições com um grau mínimo de liberdade. Era essa opinião pública que, entusiasmada com a projecção da imagem de Nasser no mundo árabe após a guerra do Suez, empurrava as elites políticas sírias para uma associação com o Egipto. A situação deu margem de manobra para que Nasser pudesse impor as suas condições para a fusão. A República que nascia decalcava quase todas as suas instituições das egípcias, a começar pelo monopartidarismo, que era estranho às tradições políticas sírias¹. Contudo, os dados dos referendos que, realizados no dia anterior (21 de Fevereiro), validavam a assinatura dos dois presidentes, eram indicativos do que se poderia esperar, a prazo, daquela unidade. Não por causa dos resultados, que eram, como seria de esperar, entusiásticos no seu unanimismo pela fusão, mas pelos 1.313.000 eleitores da Síria quando comparados com os 6.104.000 do Egipto.
Sem contrapartidas de segurança, conhecidas as condições desequilibradas em que o acordo fora firmado, o ascendente do presidente egípcio e o facto de, demograficamente, haver seis egípcios por cada sírio, antecipava-se que o processo não tardaria a degenerar, como degenerou, num descarado Anschluß (do nome da anexação da Áustria pela Alemanha em 1938). Variados exemplos do tratamento subordinado dado à Síria e aos sírios podem ser lidos na Wikipedia. Um caso que se veio a revelar importante foi o das forças armadas sírias, que Nasser tentou mas não conseguiu controlar com a nomeação de comandantes egípcios e sírios que lhe fossem leais. Três anos e meio depois das ilusões, quando, entre outras medidas, se quis introduzir a união monetária entre os dois países, a situação política na Síria já degenerara tanto que em Setembro de 1961 um grupo de oficiais do exército sírio deu um golpe de estado que não teve quase nenhuma oposição. Uma ideia de união que fracassou porque as sociedades árabes haviam evoluído muito e já não se viviam anos em que um projecto daquela envergadura se podia efectuar à volta da figura, ainda que carismática, de uma espécie de califa laico.
¹ Para além das tradições históricas distintas dos dois países, até no seu passado colonial, o Egipto fora um protectorado britânico (1882-1952) enquanto a Síria fora um mandato francês (1919-1946).

18 janeiro 2016

SOBRE A SÍRIA SÓ SEI QUE POUCO SEI

Os complexos mapas que vão sendo publicados sobre a situação militar na Síria são suficientemente elucidativos quanto à dificuldade em identificar as facções em confronto, quais as suas posições e as regiões que estão militarmente em disputa. Mas, melhor que esses na expressão da complexidade da situação, que já transbordou para o Iraque, só mesmo um gráfico que foi apresentado pela revista The Economist já há vários meses, onde cruzou as atitudes entre si dos diversos actores do conflito: são 14(!) actores, apesar de todas as simplificações ali feitas (os Estados Unidos e os vários países da União Europeia estão emparelhados, por exemplo, e o mesmo acontece com a Arábia Saudita e os vários países da Liga Árabe - ora isso não é propriamente verdade...). Claro que o potencial militar no terreno e o peso político daqueles 14 actores variarão enormemente, mas apercebemo-nos pelo panorama geral de como a constituição de dois blocos antagónicos, confederando por negociação os objectivos em dois polos rivais, se afigura mais do que problemática. Ao contrário do enredo clássico de um filme do Oeste, não existem apenas dificuldades para que os bons se ponham de acordo: os norte-americanos não vão deixar de embirrar com Assad e o seu governo e os russos não vão deixar de o defender; os maus do fundo do gráfico, a Al-Qaeda e o Daesh, antagonizam praticamente todos os outros actores, mas não será por isso que deixarão de rivalizar entre si quanto à supremacia de ser o pior. Sinceramente, acho que a maioria das notícias que nos chegam da Síria são assertivas demais para a situação que o esforçado gráfico da The Economist procurou sintetizar.

02 dezembro 2015

«GOVERNO ALEMÃO APROVA REFORÇO DA MISSÃO MILITAR NA SÍRIA»

Acompanhando a actualidade das notícias e considerada a reputação da paisagem da região em causa (mais a profusão de palmeiras...), não será despropositado recuperar um respeitado e provecto símbolo militar alemão a estes tempos modernos.
 

13 novembro 2015

ALLAHU AKBAR! HEIL HITLER! BANZAI!


O que se pode concluir destas imagens que nos chegam da guerra civil na Síria é que ela está a ser travada entre múltiplas facções, onde algumas serão estranhas e outras estranhíssimas. Mesmo sem saber de que lado combaterão os que aparecem nas imagens acima - são muito bem capazes de ser daquele que os americanos querem que consideremos os bons - a profusão das invocações a Allah são, no mínimo, desconcertantes. Alguém imagina artilheiros alemães ou japoneses na Segunda Guerra Mundial a saudar de forma equivalente os seus disparos aos gritos de Heil Hitler! ou Banzai!?

01 novembro 2014

VOLUNTÁRIOS DE TODOS OS PAÍSES, COMBATEI-VOS

Notícias como esta, que dão conta da existência de 15.000 voluntários vindos de todo o Mundo dispostos a combater na jihad na Síria, confundem-nos: o que os motivará? Por outro lado, entre 1936 e 38, houve outros 40.000 voluntários, também oriundos de todo o Mundo, que se apresentaram dispostos a combater pelo lado republicano na guerra civil de Espanha. Podem-se tentar arranjar as explicações mais sofisticadas para tentar diferenciar os dois momentos e os dois conflitos, mas o incómodo da analogia é evidente, perturbado entre a incompreensão do que motiva os voluntários actuais e a necessária reapreciação, à luz da evidência, da fundamentação do que motivava os voluntários de há 75 anos.

03 setembro 2014

NOVOS PROCESSOS DE TRATAMENTO DA OBESIDADE: GUERRAS CIVIS EM PAÍSES DE GORDUCHOS

Podemos apreciar acima um mapa do Mundo mostrando a prevalência da obesidade por país. Não será surpreendente encontrar os Estados Unidos na categoria dos países mais gordos, com uma prevalência de obesos superior a 30% da população. Surpresa será a ausência nesse grupo de países europeus e a presença de outros como o México, a Venezuela, a África do Sul e um punhado de países árabes do Médio Oriente. Sobretudo, no último grupo, países que estão a ser devastados por guerras civis como a Líbia e a Síria, onde os combates e a insegurança poderão estar a provocar nas populações locais tratamentos de emagrecimento tão eficazes e radicais como aqueles que outrora fizeram a fama e a fortuna do doutor Tallon