Mostrar mensagens com a etiqueta Síria. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Síria. Mostrar todas as mensagens

26 março 2019

AGORA TENTE LÁ DESCOBRIR AS DIFERENÇAS...


26 de Março de 1979. Nos jardins da Casa Branca em Washington, tem lugar a cerimónia da assinatura oficial do Tratado de Paz entre o Egipto e Israel (acima). O presidente dos Estados Unidos de então, Jimmy Carter (1924- ), serve de anfitrião e os signatários são o presidente Anwar Sadat (1918-1981) do Egipto e o primeiro-ministro israelita, Menachen Begin (1913-1992). Em consequência do Tratado, Israel comprometia-se a devolver faseadamente o território egípcio que ocupara durante a Guerra dos Seis Dias em 1967. Nem de propósito, ontem foi a vez do longínquo sucessor de Carter, Donald Trump (1946- ) assinar por sua vez uma declaração reconhecendo oficialmente a soberania israelita sobre os montes Golã, que os israelitas conquistaram à Síria nessa mesma guerra de 1967. Presente com Trump estava o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu (1949- ), mas, naturalmente, não havia nenhum representante sírio... Pelo contraste das suas cerimónias percebe-se com nitidez quanto os Estados Unidos se tornaram agora num actor da cena internacional diferente, perigosamente diferente, porque descaradamente parcial... Ou, como alertava o matemático Ian Malcolm (Jeff Goldblum) no filme Parque Jurássico, a supremacia norte-americana é tão evidente que os protagonistas da Casa Branca parecem ter-se esquecido da distinção ética entre a capacidade de poder fazer algo e a sabedoria de saber se o deve fazer...

12 agosto 2018

OS DOIS MIGS SÍRIOS QUE ATERRARAM POR ENGANO EM ISRAEL

12 de Agosto de 1968. Há cinquenta anos, dois caças Mig-17 da Força Aérea síria aterravam inesperadamente num antigo aeródromo militar no Norte de Israel. Apesar de as autoridades israelitas terem noticiado que se devera a causas acidentais, a explicação foi acolhida com um cepticismo que se justificava por vários precedentes. Em 1962, numa operação de espionagem que correra mal, os israelitas haviam tentado aliciar um piloto egípcio de um Mig-17 a desertar para Israel. A operação correra mal, a rede de espionagem foi denunciada e três agentes acabaram executados. Porém, em 1964, uma operação semelhante foi bem sucedida, quando o capitão Mohammad Abbas Helmy  da Força Aérea egípcia desertou com o seu Yak-11 de treino para Israel. O desertor veio a ser executado no Cairo dois anos depois. E em Agosto de 1966, realizara-se uma terceira operação do mesmo género, protagonizada agora pelo capitão Munir Redfa da Força Aérea iraquiana, tendo em vista a obtenção de um caça Mig-21. Perante este historial, percebe-se o cepticismo internacional que acolheu as explicações oficiais de que o a aterragem dos Migs-17 do tenente Walid Adham e do 2º tenente Radfan Rifai, da Força Aérea síria, se devera a erros de navegação. Contudo, os pilotos sírios haviam aparentemente usado mapas datados de 1945, haviam entrado no espaço aéreo libanês, haviam-se desorientado e pensavam estar a aterrar numa base aérea do Líbano, quando estavam a aterrar num aeródromo praticamente desactivado em Israel, numa manhã soalheira (eram 08H45), e sem combustível suficiente para tornar a descolar . Era uma história suficientemente estúpida para ser verosímil. Não abonava nada em favor da preparação da navegação que era ministrada pela Força Aérea síria aos seus quadros, mas os factos posteriores vieram corroborá-la: os dois pilotos permaneceram aprisionados até 1970, aquando da realização de uma troca de prisioneiros entre israelitas e sírios. Acrescente-se que, em Outubro de 1989, um major sírio virá a desertar aos comandos de um Mig-23.

14 abril 2018

SEM O CARLOS FINO, A COISA PERDE METADE DA PIADA


Uma primeira reflexão histórica sobre o bombardeamento sobre a Síria é que, depois de Bagdade e agora com Damasco, das capitais califais clássicas do apogeu medieval da civilização islâmica só fica a faltar mesmo o Cairo (Na presunção que bombardear Córdoba seria uma injustiça para com os espanhóis...). A segunda reflexão é que os bombardeamentos, sem Carlos Fino a comentá-los da varanda do hotel local e, sobretudo, sem José Rodrigues dos Santos, histérico, a mandar-lhe palpites dos estúdios cá de Lisboa, sem qualquer deles a ouvir-se, dizia eu, a coisa perde metade da piada. A gente habitua-se a um certo figurino da guerra...

01 fevereiro 2018

O PAN-ARABISMO


1 de Fevereiro de 1958. O Egipto e a Síria proclamavam a sua união numa nova entidade política designada por República Árabe Unida. O ideal da unificação dos países árabes sob a égide de Nasser soava extremamente apelativo para as suas populações: a fusão fora votada favoravelmente por 92% dos sírios e nas monarquias adjacentes (Arábia Saudita, Iraque ou Jordânia) vacilava-se nas adesões, diante do chamamento romântico à reconstrução daquele que fora o império do século XII de Saladino (mapa abaixo). Os novos cruzados do século XX eram, evidentemente, os israelitas, que, 770 anos depois, havia que expulsar novamente de Jerusalém e da Terra Santa. Contudo, rara é a História que se reescreve. Neste caso, as elites sírias rapidamente se viram subjugadas aos interesses superiores do Egipto e a ressentir-se com isso. A 28 de Setembro de 1961 um golpe de Estado na Síria pôs fim à breve experiência. É importante notar que a religião islâmica desempenhou um papel muito secundário nesta efervescência pan-árabe de há sessenta anos.

06 outubro 2017

O INÍCIO DA GUERRA DO YOM KIPPUR

6 de Outubro de 1973. Neste dia de há 44 anos e à hora mais canonicamente improvável para o desencadear de ofensivas militares (14H00), egípcios e sírios, de uma forma simultânea e concertada iniciaram uma ofensiva sobre as posições que os israelitas haviam conquistado seis anos antes durante a Guerra dos Seis Dias. Esta intenção de desforra árabe, a que se deu o nome de Guerra do Yom Kippur, em alusão ao feriado religioso judeu que desguarnecia precisamente naquele dia as...

...guarnições das posições defensivas israelitas, foi tanto uma guerra convencional (para a descrição detalhada da qual se sugere o livro acima de Pierre Razoux), como uma guerra de propaganda. Logo no primeiro dia de operações tanto sírios (vídeo acima), como egípcios (no de baixo) se apressaram a exibir diante dos correspondentes da imprensa internacional as rendições e os próprios prisioneiros israelitas em situações humilhantes, à semelhança do que haviam feito os israelitas seis anos antes.

28 agosto 2016

AGORA SEM AVÉ MARIAS E SEM PELOUROS

E com muitas avé marias e pelouros, nos fomos a eles e os matámos todos num credo.
A fotografia é do Líbano de 1976, em plena guerra civil, tirada por Ferdinando Scianna. A decoração mariana da coronha da M-16 identifica a confissão do combatente mas não a facção pela qual combate. Quarenta anos depois parece que, por aquelas mesmas paragens, eles continuam a morrer, muitos, sem necessidade de um pelouro ou de um credo, de uma avé maria ou de um padre nosso que, para morrer, as orações entoadas pelo padre ou os Allah hu Akbar do muezzin são indiferentes para os mortos...

27 agosto 2016

OS RUSSOS EM PALMIRA E A GUERRA DAS IMAGENS

É inegável que a presença dos soldados russos na Síria tem sido um tremendo golpe de propaganda a que os norte-americanos não conseguem ripostar de forma equivalente. Uns vão em apoio dos seus aliados locais, os outros apenas fornecem o material e as palavras de encorajamento. A fotografia acima é de duas sentinelas que guardam o edifício onde estava sediada a administração de Palmira, agora recapturada. O aviso pintado na coluna do lado direito (Мин нет) informa-nos que o local já foi desminado e desarmadilhado. Mas nem tudo poderão ser sucessos nesta guerra de imagens, atente-se a esta fotografia abaixo de algum material de guerra - no caso, granadas de morteiro - que foi capturado aos radicais islâmicos quando da reconquista.
Ultrapassando a imaginação (limitada?) do fotógrafo russo, pode imaginar-se ver ali a oração conjunta, no preciso momento em que os fiéis se prostram de cabeça no chão, os bojos das granadas a equivalerem-se aos rabos e costas dos fiéis, comparem-se as duas fotografias abaixo... De uma certa forma, e numa certa liberdade interpretativa, fica a parecer que até o próprio material de guerra se havia convertido ao islão...

22 fevereiro 2016

58º ANIVERSÁRIO DE UM PROJECTO ROTUNDAMENTE FALHADO

Em 22 de Fevereiro de 1958 os presidentes Gamal Abdel Nasser do Egipto e Shukri al-Quwatli da Síria assinavam o acordo para a fusão dos dois países que daria origem ao nascimento da República Árabe Unida. Paradoxalmente, a iniciativa partira da Síria, onde, espantemo-nos, naquela época e ao contrário do Egipto, até havia uma opinião pública e eleições com um grau mínimo de liberdade. Era essa opinião pública que, entusiasmada com a projecção da imagem de Nasser no mundo árabe após a guerra do Suez, empurrava as elites políticas sírias para uma associação com o Egipto. A situação deu margem de manobra para que Nasser pudesse impor as suas condições para a fusão. A República que nascia decalcava quase todas as suas instituições das egípcias, a começar pelo monopartidarismo, que era estranho às tradições políticas sírias¹. Contudo, os dados dos referendos que, realizados no dia anterior (21 de Fevereiro), validavam a assinatura dos dois presidentes, eram indicativos do que se poderia esperar, a prazo, daquela unidade. Não por causa dos resultados, que eram, como seria de esperar, entusiásticos no seu unanimismo pela fusão, mas pelos 1.313.000 eleitores da Síria quando comparados com os 6.104.000 do Egipto.
Sem contrapartidas de segurança, conhecidas as condições desequilibradas em que o acordo fora firmado, o ascendente do presidente egípcio e o facto de, demograficamente, haver seis egípcios por cada sírio, antecipava-se que o processo não tardaria a degenerar, como degenerou, num descarado Anschluß (do nome da anexação da Áustria pela Alemanha em 1938). Variados exemplos do tratamento subordinado dado à Síria e aos sírios podem ser lidos na Wikipedia. Um caso que se veio a revelar importante foi o das forças armadas sírias, que Nasser tentou mas não conseguiu controlar com a nomeação de comandantes egípcios e sírios que lhe fossem leais. Três anos e meio depois das ilusões, quando, entre outras medidas, se quis introduzir a união monetária entre os dois países, a situação política na Síria já degenerara tanto que em Setembro de 1961 um grupo de oficiais do exército sírio deu um golpe de estado que não teve quase nenhuma oposição. Uma ideia de união que fracassou porque as sociedades árabes haviam evoluído muito e já não se viviam anos em que um projecto daquela envergadura se podia efectuar à volta da figura, ainda que carismática, de uma espécie de califa laico.
¹ Para além das tradições históricas distintas dos dois países, até no seu passado colonial, o Egipto fora um protectorado britânico (1882-1952) enquanto a Síria fora um mandato francês (1919-1946).

18 janeiro 2016

SOBRE A SÍRIA SÓ SEI QUE POUCO SEI

Os complexos mapas que vão sendo publicados sobre a situação militar na Síria são suficientemente elucidativos quanto à dificuldade em identificar as facções em confronto, quais as suas posições e as regiões que estão militarmente em disputa. Mas, melhor que esses na expressão da complexidade da situação, que já transbordou para o Iraque, só mesmo um gráfico que foi apresentado pela revista The Economist já há vários meses, onde cruzou as atitudes entre si dos diversos actores do conflito: são 14(!) actores, apesar de todas as simplificações ali feitas (os Estados Unidos e os vários países da União Europeia estão emparelhados, por exemplo, e o mesmo acontece com a Arábia Saudita e os vários países da Liga Árabe - ora isso não é propriamente verdade...). Claro que o potencial militar no terreno e o peso político daqueles 14 actores variarão enormemente, mas apercebemo-nos pelo panorama geral de como a constituição de dois blocos antagónicos, confederando por negociação os objectivos em dois polos rivais, se afigura mais do que problemática. Ao contrário do enredo clássico de um filme do Oeste, não existem apenas dificuldades para que os bons se ponham de acordo: os norte-americanos não vão deixar de embirrar com Assad e o seu governo e os russos não vão deixar de o defender; os maus do fundo do gráfico, a Al-Qaeda e o Daesh, antagonizam praticamente todos os outros actores, mas não será por isso que deixarão de rivalizar entre si quanto à supremacia de ser o pior. Sinceramente, acho que a maioria das notícias que nos chegam da Síria são assertivas demais para a situação que o esforçado gráfico da The Economist procurou sintetizar.

02 dezembro 2015

«GOVERNO ALEMÃO APROVA REFORÇO DA MISSÃO MILITAR NA SÍRIA»

Acompanhando a actualidade das notícias e considerada a reputação da paisagem da região em causa (mais a profusão de palmeiras...), não será despropositado recuperar um respeitado e provecto símbolo militar alemão a estes tempos modernos.
 

13 novembro 2015

ALLAHU AKBAR! HEIL HITLER! BANZAI!


O que se pode concluir destas imagens que nos chegam da guerra civil na Síria é que ela está a ser travada entre múltiplas facções, onde algumas serão estranhas e outras estranhíssimas. Mesmo sem saber de que lado combaterão os que aparecem nas imagens acima - são muito bem capazes de ser daquele que os americanos querem que consideremos os bons - a profusão das invocações a Allah são, no mínimo, desconcertantes. Alguém imagina artilheiros alemães ou japoneses na Segunda Guerra Mundial a saudar de forma equivalente os seus disparos aos gritos de Heil Hitler! ou Banzai!?

01 novembro 2014

VOLUNTÁRIOS DE TODOS OS PAÍSES, COMBATEI-VOS

Notícias como esta, que dão conta da existência de 15.000 voluntários vindos de todo o Mundo dispostos a combater na jihad na Síria, confundem-nos: o que os motivará? Por outro lado, entre 1936 e 38, houve outros 40.000 voluntários, também oriundos de todo o Mundo, que se apresentaram dispostos a combater pelo lado republicano na guerra civil de Espanha. Podem-se tentar arranjar as explicações mais sofisticadas para tentar diferenciar os dois momentos e os dois conflitos, mas o incómodo da analogia é evidente, perturbado entre a incompreensão do que motiva os voluntários actuais e a necessária reapreciação, à luz da evidência, da fundamentação do que motivava os voluntários de há 75 anos.

03 setembro 2014

NOVOS PROCESSOS DE TRATAMENTO DA OBESIDADE: GUERRAS CIVIS EM PAÍSES DE GORDUCHOS

Podemos apreciar acima um mapa do Mundo mostrando a prevalência da obesidade por país. Não será surpreendente encontrar os Estados Unidos na categoria dos países mais gordos, com uma prevalência de obesos superior a 30% da população. Surpresa será a ausência nesse grupo de países europeus e a presença de outros como o México, a Venezuela, a África do Sul e um punhado de países árabes do Médio Oriente. Sobretudo, no último grupo, países que estão a ser devastados por guerras civis como a Líbia e a Síria, onde os combates e a insegurança poderão estar a provocar nas populações locais tratamentos de emagrecimento tão eficazes e radicais como aqueles que outrora fizeram a fama e a fortuna do doutor Tallon

04 agosto 2012

O TEMPO DAS ARMAS E O TEMPO DA DIPLOMACIA

Não me parece nada surpreendente que Kofi Annan tenha anunciado a sua intenção de não prolongar o seu mandato como mediador da ONU para o conflito sírio. O que surpreendeu – e isto é escrito como um elogio – foi a sua perseverança, apesar dos fracassos consecutivos das suas iniciativas. Ainda que os diplomatas costumem ter tradicionalmente um discurso mais escorreito do que os militares quando defendem a pertinência das suas iniciativas, este é um exemplo típico que, antes da maturação da vontade de ambas as partes, o exercício da negociação – que qualquer dos lados nunca pode rejeitar para não parecerem mal na fotografia… – vem a revelar-se um passatempo inútil.

Relembre-se como já aqui se havia recordado neste blogue, antes da actual guerra civil, e a propósito do massacre de Hama de Fevereiro de 1982, como o regime sírio registava um sólido historial de impunidades na repressão civil. Surpreendente seria que, mau grado os trinta anos passados, o mesmo regime tivesse mudado de atitude, tanto mais que os seus apoios internacionais se mantêm. E o episódio do abate de um caça turco que invadiu espaço aéreo sírioque os turcos encaixaram sem retaliar – veio mostrar não apenas a solidez militar do regime, como desiludir os mais entusiasmados que começavam a pensar numa intervenção directa num país em desagregação.

Apesar da catadupa de notícias negativas no noticiário internacional, o regime sírio parece afinal ter sido pouco desgastado e, consequentemente, mantem-se disposto a oferecer muito pouco aos rebeldes. Vale a pena lembrar que em Dezembro de 1916, a meio da Primeira Guerra Mundial, houve uma tentativa de mediação em que se perguntou aos beligerantes as suas condições para a negociação de um armistício. As propostas da Entente foram, grosso modo, as que vieram a constar do Tratado de Versalhes em 1919. Mas nessa altura, elas só tiveram o condão de irritar uma Alemanha (abaixo) que se sentia até aí – e com toda a razão… – numa posição militar tacticamente vantajosa.
A caricatura intitula-se A Pomba da Entente (Die friedenstaube der entente), mas trata-se de um abutre que, à laia de ramo de oliveira, carrega um azorrague no bico e um mapa nas garras onde a Alemanha e seus aliados aparecem despojados de parte dos seus territórios.

18 julho 2012

OS BOMBISTAS SUICIDAS «BONS» E OS BOMBISTAS SUICIDAS «MAUS»

Quase emparceiradas, duas notícias da actualidade dão-nos conta de dois ataques bombistas perpetrados por um suicida - cada um o seu, evidentemente... Sinal do como já nos teremos acostumado a este fenómeno até há dez anos inexplicável, mas também de um omnipresente cinismo na forma de o noticiar, as notícias fazem de um dos suicidas dos bons enquanto o outro é, como acontecia tradicionalmente até aqui, dos maus. Este último atacou um autocarro de inocentes turistas israelitas acabados de chegar à Bulgária, os pobres; o outro, porém, explodiu-se em Damasco na Síria e fez uma Razia no Aparelho de Segurança Sírio… é bem feito!

11 abril 2011

الجمهورية العربية السورية

República Árabe da Síria

Desde há cerca de um mês para cá que, a cada semana que passa, parecem aumentar os protestos populares na Síria contra o regime do Partido Baath, instalado no poder desde 1970 e que foi liderado inicialmente por Hafez al-Assad (1970-2000), e depois da sua morte, pelo seu filho Bachar (abaixo). A acumulação de incidentes já terá provocado mais de 170 vítimas mortais porém, no painel de destaques das notícias internacionais, aquilo que se passa na Síria mantêm-se noticiosamente marginal quando em comparação, por exemplo, com a situação na Líbia, que parece manter-se como o destino predilecto dos enviados especiaisEmbora os dois regimes tenham uma antiguidade semelhante (41 e 42 anos) e sejam igualmente impiedosos para com os seus opositores (recorde-se o esquecido episódio do Massacre de Hama tratado neste blogue), as raízes da sociedade síria são muito mais antigas e ela é muito mais sofisticada e complexa do que a líbia. Assim, o protagonismo multifacetado de Gaddafi na Líbia é substituído na Síria pela especialização: enquanto o Líder Bashar al-Assad acena com a cenoura prometendo reformas, o Ministro do Interior, General Saeed Mohammad Samour ameaça com o bastão aqueles que quiserem protestarContudo, aquilo que parece ser mais espontâneo e genuíno – e por isso mais simpático... – nestas manifestações dos sírios é também aquilo que, paradoxalmente, estará a dificultar a sua cobertura noticiosa para o exterior: a esmagadora maioria dos cartazes empunhados aparecem normalmente escritos em árabe (acima e abaixo) e não no inglês de que os vídeos e as fotografias da informação mundial se habituaram a ser alimentadas… No caso desta criança curda, ela até pode exibir bem alto a queixa que a restituição da minha nacionalidade não põe fim aos meus sofrimentos¹, mas quantos de nós ocidentais a sabem ler? ¹ Um dos actos conciliatórios recentes foi o de restituir a nacionalidade síria à minoria curda.

02 fevereiro 2010

O MASSACRE DE HAMA

Nunca dei – possivelmente por desatenção minha – por que, nos jornais, se assinalasse a 2 de Fevereiro a efeméride do Massacre de Hama, de que se cumprem hoje 28 anos. Trata-se de um episódio passado na Síria (Hama é a cidade que aparece assinalada a vermelho no mapa acima), que permanece praticamente desconhecido, mas que foi uma demonstração cabal de como a gestão das indignações é um imenso jogo hipócrita jogado à escala mundial, e onde a esmagadora maioria da opinião pública mundial é manipulada no objecto das suas simpatias e antipatias como se de uma manada se tratasse…
Mas comecemos pelo princípio. Em Janeiro de 1982, o regime laico do presidente Hafez El Assad (acima) estava a acusar sintomas de desgaste. Dentro do caleidoscópio religioso sírio, Assad e os seus homens de confiança pertenciam quase todos a um grupo que representava uma minoria entre a comunidade muçulmana maioritária (90%), a dos alauítas (10%). E, invocando os valores tradicionais do islão sunita maioritário e liderando a contestação ao laicismo do regime de Assad, aparecia uma organização clandestina transnacional chamada Irmandade Muçulmana, com fortes apoios dentro de sectores da sociedade síria.

A secção egípcia da organização acabara de se cobrir de glória quando, em Outubro de 1981, se responsabilizara pelo assassinato, em plena parada militar (vídeo acima), do presidente Sadat do Egipto. Sadat estava então proscrito em todo o mundo árabe, por ter assinado unilateralmente a paz com Israel, mas isso não invalida que a proeza tivesse sido encarada de forma muito apreensiva pelos dirigentes laicos dos países árabes como Assad da Síria, Khadafi da Líbia ou Saddam Hussein do Iraque. E no caso da Síria, a secção local da Irmandade havia entretanto desencadeado uma campanha bombista…
Só que, ao contrário da homogeneidade egípcia, a sociedade síria (como a libanesa ou a iraquiana) ainda se organiza à volta de clãs, e os alinhamentos político-religiosos fazem-se mais por essa lógica do que pela ideologia. Na Síria, os simpatizantes da Irmandade Muçulmana predominavam numa região e tinham uma espécie de capital religiosa: Hama (acima). Foi a perdição da cidade. O ataque desencadeado pelo exército sírio há 28 anos, e que foi comandado pelo próprio irmão de Assad, Rifaat (abaixo, os dois irmãos), tinha por objectivos isolar a cidade do exterior enquanto impunha ali um regime deliberado de terror.
Hama, então com cerca de 200.000 habitantes, foi sujeita a uma metódica busca casa a casa, com as autoridades exercendo um verdadeiro poder discricionário de seleccionar suspeitos, a começar pelo clero sunita... Qualquer veleidade de resistência era aniquilada, a tiro de armas ligeiras nos casos individuais, com armas pesadas e artilharia (abaixo) nas manifestações colectivas. Embora a cidade permanecesse proibida aos jornalistas, o regime apostava que os métodos de terror que estava a aplicar viessem a ser divulgados pela população através doutros métodos, velhos de séculos, os da reputação e do boato…
Nunca se virá a saber quantos mortos terá causado a repressão sobre Hama. Há várias estimativas que variam entre os 5.000 e os 40.000 mortos. Lembre-se como o regime estava interessado em inflacionar esses números. Rifaat Assad assumiu descontraidamente 38.000... Mas note-se como as fotografias da destruição então causada (acima e abaixo), e ao contrário dos massacres perpetrados pelos israelitas e seus aliados naquela mesma região, não exibem nem um único cadáver… E sabe-se como, sem essas imagens, os massacres praticamente deixam de existir para a informação mundial…
A Irmandade Muçulmana na Síria nunca mais se recompôs da destruição. O episódio de Hama veio a tornar-se num exemplo de manual do que não se deve fazer. Perante aquele desnível de poder, a Irmandade Muçulmana nunca deveria ter assumido a cidade de Hama como seu santuário. Ao fazê-lo, defrontando um regime que não estava submetido a qualquer escrutínio popular e que, ainda para mais, se estava a sentir seriamente ameaçado com a sua campanha bombista, sobrestimou as suas capacidades. E esqueceu-se que os massacres de árabes só são importantes quando perpetrados por israelitas…

22 setembro 2009

CALVÁRIOS DA APRENDIZAGEM DA HISTÓRIA: ALGUNS NOMES ÁRABES E O CALENDÁRIO REPUBLICANO FRANCÊS

Das minhas leituras da história tenho que destacar dois períodos de duas civilizações completamente distintas que me deixaram completamente tonto porque não conseguia (e não consigo…) acompanhar com fluidez a sucessão dos acontecimentos. O primeiro período é o das cruzadas no Próximo Oriente medieval, especialmente a fase do contra-ataque dos soberanos muçulmanos locais (finais do Século XII), onde se destacam as acções de Saladino, que reconquistou Jerusalém dos cruzados ocidentais em 1187.
É preciso esclarecer que Saladino se chamava, numa transliteração mais correcta do seu nome, Ṣalāh ad-Dīn. O problema é que Ṣalāh ad-Dīn era filho de Najm ad-Dīn e sobrinho de Asad ad-Dīn e ao longo da vida teve uma data de rivais e aliados (alguns deles seus parentes…) com os nomes de Nūr ad-Dīn, ´Imād ad-Dīn, Mu'in ad-Dīn, Sayf al-Dīn, ´Adud al-Dīn, ´Izz al-Dīn, etc., o que transformou a minha leitura da sua biografia no livro acima num verdadeiro calvário só para conseguir identificar quem era quem…
Um outro drama é o período da Revolução Francesa, a partir da altura em que é adoptado o calendário republicano(*). Aqui, a tortura é a de saber quando, porque os meses passam a designar-se por nomes como Vindimiário, Ventoso, Florial ou Termidor... E o quando é muito importante numa época revolucionária como aquela, em que o vencedor deste mês podia ser o vencido do próximo: Robespierre venceu Danton, executado no 16 Germinal Ano II(**), para ser derrubado (e executado) três meses depois no 9 Termidor (**).

(*) Por coincidência hoje (22 de Setembro de 2009) começa um novo ano republicano: é o dia 1 do Vindimiário do Ano CCXVIII.
(**) 5 de Abril e 27 de Julho de 1794, respectivamente.

06 novembro 2008

O MAIS REMOTO ENTREPOSTO ORIENTAL DO IMPÉRIO

A fotografia que vêem acima é a das ruínas do castelo da pequena cidade grega de Didymoteixo - cujo nome significa naquele idioma dupla muralha. É uma cidade que está situada no interior da Trácia, mesmo sobre a fronteira entre a Grécia e a Turquia e que, antes da adesão recente da Bulgária, seria a cidade continental mais oriental de toda a União Europeia. E é engraçado comparar a localização da cidade com aquela que seria a sua equivalente há 1800 anos atrás, que se chamava Dura Europos, outra cidade também de cultura helénica, mas que estava situada muito mais para Oriente, na Síria oriental (veja-se o mapa abaixo).
Dura Europos fora originalmente uma colónia macedónica, fundada por um dos sucessores imediatos de Alexandre Magno (Seleuco). O local de implantação havia sido cuidadosamente seleccionado por razões militares: a colónia localiza-se sobre uma pequena colina adjacente ao curso do Eufrates, na sua amrgem direita, dominando à distancia a planície aluvial por onde o Rio corre (veja-se abaixo). E, olhando mais uma vez para o mapa acima, dá para perceber como, ainda hoje, os sírios poderiam aproveitar aquela localização para ali estabelecer um bastião contra uma eventual invasão que viesse do Iraque.
Mas Dura Europos só veio a ser a cidade fronteira que lhe trouxe a prosperidade, a desgraça e a fama póstuma a partir de 165 d.C., quando os partos se viram forçados a cedê-la aos romanos (era então imperador Marco Aurélio). Nesse período de apogeu, que durou quase um século (165-256), Dura Europos foi a próspera alfândega das importantes rotas do comércio com o Extremo Oriente. Os arqueólogos desenterraram inscrições sobretudo em grego, mas também em latim, em dialécticos aramaicos e arábicos e em persa. Descobriram-se vários templos dedicados aos deuses romanos, um a Mitra, uma igreja cristã e uma sinagoga.
O que a sinagoga de Dura Europos tem de particular são as suas pinturas murais – algo que é terminantemente interdito pela religião judaica que exista num Templo! – de que aqui mostro duas cenas: a da descoberta de Moisés enquanto bebé, flutuando no Nilo (acima – atente-se à inusitada nudez da serva que o tira do rio) e a do transporte da Arca da Aliança sob o jugo dos Filisteus (abaixo – trata-se daquela mesma Arca que Indiana Jones veio a descobrir muitos anos depois…) que, naquele caso, aparecem equipados como soldados persas contemporâneos, a incarnação do mal da altura, os grandes inimigos de Roma naquela região.
Dura Europos acabou por ser evacuada pelos romanos em 256 d.C., no reinado do imperador Valeriano, mas também não veio a ser ocupada pelos persas, numa espécie de acordo tácito entre as duas potências para que se eliminasse uma posição que seria um permanente foco de conflito, sempre ameaçadora para a potência que não a ocupasse. Essa evacuação súbita preservou o local e transformou-o num daqueles sonhos de arqueólogo quando o vieram a redescobrir nos princípios do Século XX. Descobriram-se coisas muito interessantes mas nada baterá o judaísmo eclético que se deveria praticar naquela sinagoga…

12 maio 2008

A SUÍÇA DO MÉDIO ORIENTE

Contou-me quem sabe que, numa reunião alargada com uma vintena de suíços mesmo que eles sejam todos originários dos cantões de língua alemã (que são a maioria: cerca de 75% da população), a primeira meia hora da reunião (e Deus sabe como eles são pontuais…) pode ser dedicada à escolha da versão cantonal oral do alemão suíço com que decorrerão os trabalhos. O debate não está aberto a estrangeiros (é o caso de quem me contou esta história, alemão de Hanôver, que preferiria uma versão oral das menos castiças…) mas ao fim daqueles 30 minutos a decisão é tomada e a reunião começa, de facto, com uma fluidez que nada tem a ver com as nossas tradicionais dispersões lusitanas.
O Líbano é frequentemente comparado com a Suíça e há alguns aspectos nos dois países que se assemelham, a começar pela geografia física (acima) que facilita a formação de agrupamentos cantonais distintos (abaixo), só que neste caso de carácter religioso. Mas as semelhanças por aqui se ficam. A hipotética vintena de libaneses da reunião do parágrafo acima não teria quaisquer problemas na escolha da língua de trabalho (árabe), mas a escolha sobre se se proferiria e quem proferiria uma oração antes da reunião teria sido o pretexto para os que queriam conduzir a reunião desencadeassem um debate que se tornaria mais importante do que os problemas que se procuravam resolver com aquela reunião.
Parece ser genético e fazer parte da gramática da disputa política local. É verdade que a localização geográfica do Líbano não ajuda à pacificação, entalado como está entre Israel e a Síria (abaixo), mas esse argumento aplicava-se também à Suíça na época das grandes rivalidades franco-alemãs e ela permaneceu neutral durante as duas Guerras Mundiais… Por outro lado, definido pelas comunidades religiosas, o quadro político libanês é mais complexo e confuso do que o suíço: até 1997, enquanto foi obrigatório mencionar a confissão religiosa do portador do bilhete de identidade, havia 17 comunidades distintas que eram legalmente reconhecidas… – 11 cristãs, 2 muçulmanas (xiita e sunita), druza, judia, ismaelita e alauíta.
É esta complexidade que torna mais fácil escreverem-se disparates quando se fala do Líbano, como o da coluna de opinião de hoje do Diário de Notícias, assinada por Manuel Queiroz, que se refere (final do parágrafo intermédio), aos cristãos de Nabih Berri, que é o presidente do Parlamento”. Ora, uma das primeiras coisas que se aprende quando se estuda o Líbano político são as cláusulas do Pacto Nacional de 1943 que repartiu os cargos do Estado libanês pelas confissões religiosas: um Presidente cristão maronita, um Primeiro-Ministro muçulmano sunita e um presidente do Parlamento, muçulmano xiita… Nabih Berri (abaixo), pelo cargo que ocupa, é obviamente xiita*. Manuel Queiroz até se podia ter informado
Já aqui na blogosfera, encontra-se uma outra abordagem para analisar estes recentes acontecimentos no Líbano, mais ideológica, mas mais defensiva, passando por alto o detalhe dos acontecimentos, e por isso menos propensa a cair nas armadilhas daqueles erros factuais. Decalcando os interesses israelitas, podem dar mais destaque à própria cobertura mediática do conflito actual, que é menor e menos enviesada do que quando Israel interveio no Líbano, ou então remetem para a incapacidade do governo libanês e da UNIFIL para derrotar o Hezbollah xiita. Mas, como já aqui escrevi e como se pode ler nos documentos originais que a mandatam, o objectivo da UNIFIL não é substituir o exército israelita…
Finalmente, lendo a substância das notícias do que aconteceu recentemente no Líbano, fica-se a saber que os recentes conflitos tiveram lugar tanto nos arredores de Beirute Ocidental** entre as milícias do Hezbollah xiita e do PSP*** druzo, como também nos arredores de Tripoli (cidade do Norte do Líbano) mas aqui entre milícias sunitas rivais, apoiantes e opositoras do governo. A vantagem parece ter pertencido à facção que aglutina as diversas forças que estão na oposição. Não é de excluir que se possa esperar uma nova invasão de tropas sírias. Só aí será apropriado fazer-se uma comparação com a cobertura informativa que foi dada aos acontecimentos do Verão de 2006. Mas até lá, a comparação parece-me excessiva…

* Embora xiita, Berri não pertence ao Hezbollah, mas sim a um partido concorrente, o Amal.
** É em Beirute Ocidental que se localizam os bairros de maioria muçulmana. Beirute Oriental é predominantemente cristã.
*** Partido Socialista Progressista. É o único caso que me lembro de um partido nitidamente étnico/confessional que é membro da Internacional Socialista. Já ouvi o seu dirigente, Walid Jumblatt, um senhor feudal típico, a receber grandes elogios de son ami Mário Soares…