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27 julho 2019

A LONGA SENTENÇA DA SRA. CHAMOY THIPYASO

A melhor forma de explicar sucintamente quem foi a sra. Chamoy Thipyaso (acima) é descrevê-la como a dona Branca da Tailândia. Se bem que os esquemas fraudulentos protagonizados pelas duas senhoras não sejam idênticos, há vários aspectos paralelos, nomeadamente o facto de que o colapso das respectivas organizações ocorreu na década de 80, com apenas alguns anos de intervalo. Mas se a dona Branca é apenas um fenómeno nacional, a sra. Chamoy alcançou a reputação mundial quando, a 27 de Julho de 1989, cumprem-se hoje precisamente trinta anos, foi condenada a 141.078 anos de prisão, uma pena que constitui um record mundial absoluto das sentenças mais extensas. Por uma vez, pareceu que a justiça tailandesa se inspirou no milagre multiplicador a que estes esquemas Ponzi costumam obedecer, e aplicou-lhe uma sanção que parecia reproduzir os ganhos futuros que haviam sido prometidos aos incautos aderentes ao esquema que a ré encabeçara. (Para comparação, diga-se que a justiça portuguesa, leniente, condenou dona Branca apenas a um ano de prisão) O Supremo Tribunal tailandês refreou contudo a especulação condenatória, e reduziu-a a um máximo decente de 20 anos, dos quais a sra. Chamoy não chegou a cumprir 8. Mas de uma fama de record Guiness não se livrou: é que, condenada a 11 anos do fim do século XX, só acabaria de cumprir pena em pleno século MCDXXXI!

06 novembro 2018

A GRANDE CONFERÊNCIA DA ÁSIA ORIENTAL

6 de Novembro de 1943. Conclusão em Tóquio da Grande Conferência da Ásia Oriental, reunindo o primeiro-ministro japonês Hideki Tōjō (ao centro, na fotografia) com os países satélites, pretensamente independentes, ocupados pelas armas japonesas. Esta Cimeira, a que os livros sobre a Segunda Guerra Mundial não costumam dedicar grande atenção, representou um importante esforço diplomático dos japoneses para congregar os apoios dos nacionalismos asiáticos quando a situação militar evoluía nitidamente em seu prejuízo. Entre os presentes contaram-se (da esquerda para a direita): Ba Maw (Birmânia), Zhang Jinghui (Manchúria), Wang Jingwei (China colaboracionista), o anfitrião Tōjō (naturalmente ao centro...), Wan Waithayakon (Tailândia, provavelmente o país mais autónomo entre os convidados), José P. Laurel (Filipinas) e Subhas Chandra Bose (Índia livre, de que aqui se falou neste blogue há poucos dias). Tão interessantes quanto as presenças, são as ausências: as dos coreanos, que o Japão considerava uma colónia sua, sem qualquer direito a exprimir-se; as dos vietnamitas e cambojanos, que o governo japonês não quisera convidar para não afrontar a França de Vichy (que era um seu aliado nominal); e as dos malaios e indonésios, já que os japoneses ainda não se haviam decidido em que sentido haviam de conduzir a sua política colonial e a defesa dos seus interesses, no meio do emaranhado étnico que constituía a região. Mas não seria por estas últimas inconsistências que a Grande Conferência foi um evento noticioso fátuo, perdido no meio de tantos outros acontecimentos daquele dia (o Exército Vermelho reconquistara Kiev). As pretensões japonesas eram uma farsa.

21 dezembro 2016

A DOÇARIA DE DONA GUIOMAR

Apesar do nome, Maria Guiomar de Pina (1664-1728) nasceu e passou toda a sua vida na Tailândia. A sua ascendência era indubitavelmente asiática, apesar de misturada: uma mãe de ascendência japonesa, que fugira do seu país quando ali começara a perseguição aos cristãos e um pai que viera de Goa (daí o nome português), mas cuja ascendência era, por sua vez, bengali e japonesa. O que a conotava culturalmente com o Ocidente, e eventualmente com Portugal, era a religião, assertivamente católica romana. Tanto assim que, quando Guiomar casou em 1682, teria então 18 anos, foi o marido que adoptou a religião da esposa. Fosse outra a ocasião e a história do marido também merecia ser aqui contada, um grego das ilhas jónias chamado Konstantinos Gerakis (1647-1688) que chegara à Ásia ao serviço da Companhia britânica das Índias Orientais em 1675 mas que depois se reconvertera num conselheiro do rei Ramathibodi III da Tailândia. Entretanto aportuguesara o nome para Constantino Falcão e convertera-se ao catolicismo romano, ele que já fora ortodoxo e anglicano. Durante uma meia dúzia de anos, sob os nomes/títulos de Thao Thong Kip Ma e Chao P'raya Vichayen, o casal gozou de influência e prestígio na corte tailandesa. Mas se o apogeu da passagem do marido pelas altas esferas do poder é hoje um episódio esquecido da História da Tailândia, o mesmo não acontece com Dona Guiomar, reconhecida doceira, a quem ainda hoje se atribui a introdução na cozinha tailandesa de vários pratos adaptados da doçaria conventual portuguesa, que Dona Guiomar aprendera sem nunca ter visitado as origens. Os dois exemplos das fotos acima são o foi thong (à esquerda), a versão tailandesa dos nossos fios de ovos e o thong yip (à direita), as nossas trouxas de ovos embora com outro formato. Há ainda mais pratos de doçaria, normalmente à base de gemas de ovo, que também são atribuídos à inventividade de Dona Guiomar (khanom mo kaeng, a versão tailandesa da tigelada, ou sangkhaya, uma espécie de marmelada de coco), mas só a maternidade dos dois primeiros doces é incontroversa. Contudo, é indiscutível reconhecer que nos séculos XVI e XVII a nossa gastronomia portuguesa chegou até ao Extremo Oriente (Japão) para depois se repropagar (não nos esqueçamos que Dona Guiomar era ¾ japonesa) para outras regiões da Ásia. E depois é uma gastronomia com estes pergaminhos que se presta à submissão a uns inspectores espanhóis que vêm cá atribuir umas estrelinhas a uns restaurantes?... Devíamos é ser nós a atribuir o Prémio Dona Guiomar de Pina aos restaurantes estrangeiros por esse mundo fora que se esmerem na feitura da tradicional doçaria conventual portuguesa!

31 janeiro 2013

«SIDESHOWS» DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL (10) – A GUERRA FRANCO-TAILANDESA

Completam-se hoje 72 anos que a bordo de um cruzador japonês foi assinado um cessar-fogo que pôs fim a esta breve guerra entre franceses e tailandeses, um episódio que tende a passar desapercebido entre todos os acontecimentos associados à Segunda Guerra Mundial. O reino da Tailândia fora um dos raros países asiáticos a escapar à voracidade colonial das potências europeias. Mas, mesmo tendo conseguido preservar a sua independência, muitas das regiões adjacentes, acabaram por ser anexadas por franceses e britânicos ao longo do último terço do Século XIX, entrando pelos primórdios do XX (1867-1909) como se comprova no mapa acima.
Uma das preocupações centrais da Tailândia nesses anos de supremacia mundial do homem branco era a de procurar realçar, sempre que possível, o estatuto do país. Envolveu-se na Primeira Guerra Mundial do lado da Entente em Julho de 1917. Chegou a enviar um pequeno grupo expedicionário para França, onde se contava até uma esquadrilha de aviação. A atenção dedicada às forças armadas e à sua modernização tornaram-se uma outra expressão dessa preocupação com o estatuto da Tailândia e uma consequência disso foi a importância delas na condução da vida política do país: desde o Golpe de 1932 que os militares dirigiram o país.
Em 1940 a Tailândia era um país de média dimensão (15 milhões de habitantes) dirigido pelo General Phibunsongkhram (acima, 1897-1964). A Segunda Guerra Mundial começara no ano anterior mas ainda não atingira a Ásia em pleno. Porém, já se sentiam alguns dos seus efeitos colaterais. A derrota da França perante a Alemanha em Junho de 1940 fora um deles e Phibunsongkhram estava apostado em aproveitar a debilidade gaulesa para recuperar algumas das cedências territoriais que a Tailândia fora obrigada a fazer décadas atrás. Mas as autoridades coloniais francesas na Indochina nem se dignaram reagir às pressões diplomáticas tailandesas iniciais.
Do lado tailandês subiu-se a parada, encenando umas manifestações em Bangkok onde se exigia o regresso dos territórios cedidos (acima), pretexto para o aumento da tensão fronteiriça e o reforço do dispositivo militar (abaixo). No terreno, quase se equivalendo em efectivos (60 e 50 mil, respectivamente), os tailandeses superiorizavam-se paradoxalmente aos franceses na tecnologia: nos blindados, na artilharia e, sobretudo, na aviação. Só no mar a vantagem era francesa. O conflito, que tinha vindo a decorrer surdamente junto às fronteiras desde Outubro, veio a ser assumido com a invasão tailandesa da Indochina francesa nos princípios de Janeiro de 1941.
Procurando equilibrar a superioridade demonstrada pelo inimigo em terra e no ar, o Almirante Jean Decoux (1884-1963) fez avançar as suas forças navais francesas que se superiorizaram decisivamente às tailandesas na batalha naval de Koh Chang em 17 de Janeiro de 1941. Mas a situação estratégica do governo colonial na Indochina, obediente a Vichy era extremamente precária: haviam-se incompatibilizado com os antigos parceiros britânicos, que controlavam o Oceano Índico, por onde teriam de vir quaisquer reforços da metrópole; viam-se submetidos à pressão japonesa, que já os haviam instado a autorizarem a instalação de bases suas no Norte do Vietname.
Foi sob o patrocínio destes últimos que decorreram as negociações que levaram à assinatura do cessar-fogo de que hoje se celebra a efeméride. O local foi o cruzador nipónico Natori. Os maiores beneficiados imediatos dessa assinatura foram as autoridades coloniais francesas, porque a situação no terreno lhes estava a evoluir de forma desfavorável. Apesar da vitória em Koh Chang, o número de prisioneiros franceses (acima) ou as fotos com troféus capturados (abaixo, trata-se de um estandarte da famosa Legião Estrangeira) exibem uma imagem quase desconhecida de outra derrota de uma potência europeia diante de um povo de cor
Todavia, os grandes vencedores a prazo, ao permitirem-lhes exercer um direito de tutela, foram os japoneses. Concedendo-lhes algumas províncias limítrofes no Tratado de Paz assinado em Maio de 1941, a Tailândia viu-se empurrada (embora muito maltratada) para a órbita nipónica. O desfecho da Segunda Guerra Mundial, imediatamente depois da qual a Tailândia teve que devolver as províncias que recebera, tornou todo este episódio convenientemente esquecível do ponto de vista político por qualquer das partes. Do ponto de vista militar contudo, a vitória tailandesa foi um feito de armas e desde 1941 que um monumento se ergue em Bangkok comemorando-a.

16 abril 2009

O QUE SE PASSOU NA TAILÂNDIA

Há cerca de um ano e meio, entre Setembro e Outubro de 2007, a comunicação social apareceu inundada de notícias e fotografias a respeito de tumultos na Birmânia e houve até quem, imaginativamente, a baptizasse de Revolução Açafrão, por causa da cor das indumentárias tradicionais dos monges budistas que apareciam a protagonizar as manifestações e que, acessoriamente, até davam excelentes imagens quando eram agredidos… Era uma excelente história, aparecida numa excelente altura (Agosto e Setembro são sempre meses maus para notícias), e propícia a um enredo de Hollywood, com bons (os monges) e maus (a Junta Militar que governa a Birmânia há 47 anos).

Já tive oportunidade de explicar neste blogue as condições que estiveram por detrás do nascimento do nacionalismo birmanês e que levaram a que um regime militar se venha a prolongar por quase meio século (Os Maus). Mas, se menciono aqui estes episódios recentes da história da Birmânia, é apenas para estabelecer o contraste com o que tem acontecido no seu país vizinho, a Tailândia. Precisamente um ano antes da Revolução Açafrão (19 de Setembro de 2006), os militares tailandeses também haviam estado em destaque ao promover um Golpe de Estado que derrubara o governo de gestão do 1º Ministro Thaksin Shinawatra (abaixo), cancelando as eleições marcadas para o mês seguinte.
A atender às reacções da informação norte-americana, apesar de terem declarado a lei marcial, dissolvido o parlamento, suspendido a constituição, proibido toda a actividade política e adiado sine die as eleições, os membros desta Junta Militar, ao contrário da birmanesa, eram bons. E o regime musculado erigido para governar a Tailândia não parece despertar qualquer preocupação naquelas organizações mais capazes de fazer eco das suas preocupações com as situações políticas por esse Mundo fora... Afinal, sempre vieram a ser organizadas eleições na Tailândia em Dezembro de 2007. Só que, pormenor não despiciendo, o partido de Thaksin, que ganhara as anteriores, não pôde concorrer…

Como acontece com a Venezuela, a disputa política na Tailândia parece passar por fracturas sociais entre uma elite urbana, concentrada sobretudo em Banguecoque, que sempre deteve tradicionalmente o poder político e um conjunto de classes sociais periféricas, tanto urbanas como rurais, que detêm uma maioria eleitoral aritmética. São elas que fazem Hugo Chávez ganhar nas urnas a legitimidade da sua conduta folclórica, são elas que fazem com que o Thai Rak Thai, o partido proscrito do 1º Ministro exilado, tenha conseguido obter maiorias claras nas consultas eleitorais em que participou. Mas parece que os bloqueios do regime vigente acabam por legitimar outras condutas entre os apoiantes de Thaksin…

O que eles conseguiram fazer a 11 de Abril passado foi desmontar uma importante operação de relações públicas que havia sido preparada pelo regime tailandês, acolhendo na cidade de Pattaya, uma Cimeira da organização regional asiática, a ASEAN, contando ainda com a presença dos líderes da China, da Índia e do Japão. Só que os manifestantes invadiram o hall do hotel de luxo onde a Cimeira iria decorrer (vídeo acima), obrigando as autoridades a, por precaução, evacuar pelo terraço, recorrendo a helicópteros, as delegações estrangeiras que entretanto já lá estavam instaladas. Em bom português, foi uma barracada das antigas… Mas os activistas também parecem ter-se enganado nas suas expectativas…

Ao contrário da jogada que procuravam forçar, o actual 1º Ministro, Abhisit Vejjajiva, não parece disposto a demitir-se, apesar da humilhação. E no crescendo que se sucedeu, apesar de menos documentadas do que na Birmânia, as cenas de rua pareciam mostrar um colorido tão interessante quanto o da Revolução Açafrão porque os apoiantes de Thaksin se identificam pela cor das suas camisas, vermelhas. Os incidentes saldaram-se oficialmente por 2 mortos e 123 feridos. Aparentemente, desde Londres, onde está exilado, o líder dos contestatários, Thaksin Shinawatra apelou à actuação pacífica dos seus apoiantes e à intervenção do Rei, Rama IX (abaixo), coisa que este, mais do que provavelmente, não fará.
Não resisto a uma pequena nota final sobre a premência das notícias disponíveis, oriundas das agências noticiosas, quase todas insistindo em como a situação na Tailândia já se encontra pacificada, em contraste com a forma como foi feita a cobertura da Revolução Açafrão, que foi explorada pelas mesmas agências noticiosas até aos últimos incidentes… Ou o tratamento informativo dado agora a Thaksin Shinawatra em contraste com a benevolência que costuma ser dada à Prémio Nobel da Paz Aung San Suu Kyi… Como se sabe, isto de pertencer à esfera de influência norte-americana tem muito que se lhe diga em termos de identificação mediática sobre quem são os bons e os maus

17 novembro 2006

A ÁSIA ENTRE OS DOIS COLOSSOS DO FUTURO – 2

TAILÂNDIA

A Tailândia é, conjuntamente com o Japão, um dos dois países do Extremo Oriente que não sofreu o ónus da colonização no auge da expansão do colonialismo europeu dos Séculos XIX e XX. Tem, por isso, um currículo na História Mundial recente bastante fora do normal, comportando-se como um país asiático com política externa autónoma, seja como aliado da Entente anglo-francesa contra a Alemanha na Primeira Guerra Mundial, em 1917-18, tendo mesmo chegado a enviar forças para a Europa, ou como aliado – dessa vez ficou do lado errado… - do Japão na Segunda Guerra Mundial, entre 1941 e 1945, ou como membro da ONU logo desde 1946 (Portugal só entrou em 1955…). E onde, tal qual como o Japão e como se viu mais uma vez recentemente, por ocasião do golpe militar que ali ocorreu em Setembro passado, quer a instituição da monarquia, quer a pessoa do seu monarca, ainda hoje gozam de um prestígio intocável.

Mas quase tudo o resto distingue a Tailândia do Japão. A sua geografia, para começar, um país continental de 513.000 Km2, com umas amplas costas de 3.200 Km., e fronteiras extensas com o Laos (1.750 Km.) e com a Birmânia (1.800 Km.), e menores com o Cambodja (800 Km.) e a Malásia (500 Km.). E embora não possua fronteiras directas com a China e o Vietname, há trechos da sua fronteira em que ela se encontra, para os dois casos, a menos de 100 Km. da desses países. Ao contrário dos seus países rivais da região (Birmânia e Vietname) e embora a sua capital (Bangkok) seja frequentemente comparada a Veneza, não existe um grande rio com um grande delta que constitua o núcleo histórico e demográfico do país (o maior rio é o Mun, afluente do Mekong, com 675 Km. de extensão), muito embora a Tailândia compartilhe com os vizinhos o clima de monções e o regime agrícola correspondente a esse clima.

Em termos populacionais a Tailândia conta actualmente com uma população que se estima atingir os 65,5 milhões de habitantes (2005), o que dá ao país uma densidade populacional de 127 hab./Km2 (ligeiramente superior à portuguesa), significativamente superior à de qualquer dos seus vizinhos, mas que, em termos asiáticos mais alargados, representa apenas metade da do Vietname, por exemplo. E para a sua composição acontece um daqueles casos raros (na Europa o mesmo acontece na Hungria) em que a cultura e o idioma prevalecente actualmente estão associados a um grupo conquistador (os Thai) que foram absorvendo gradualmente os povos sob a sua dominação. Assim, é extremamente difícil fazer uma classificação distinguindo quem é Thai de quem é Lao, um grupo étnico com 20 a 30 milhões de membros que habita o leste do país e que também predomina no Laos, o país vizinho a que aliás dá o nome.

Mas, para além destes dois grandes grupos, desde há séculos que sempre houve uma imigração continuada de chineses em números significativos, que hoje se encontram integrados e misturados em níveis distintos na sociedade tailandesa conforme a antiguidade da sua vinda da China. Essa dificuldade traduz-se na dificuldade em os recensear e as melhores estimativas apontam para que haja actualmente na Tailândia entre 7 a 9 milhões de chineses e seus descendentes. E é sobretudo a religião muçulmana (cerca de 4% da população total) que ajuda a fornecer traços distintivos às populações do Sul e da península malaia, num país onde o último recenseamento regista uma esmagadora maioria de população budista theravada (94,6% em 2000). Depois há ainda os pequenos grupos étnicos que, nas áreas fronteiriças, a Tailândia compartilha com os países vizinhos como os Mon (Birmânia) ou os Khmers (Cambodja).

Como acontece com a Birmânia, também a religião predominante e o alfabeto tailandês (embora a religião seja a mesma, os dois alfabetos são distintos, embora de inspiração comum) servem de prova de que houve uma influência cultural indiana forte durante o primeiro milénio, embora os primeiros relatos históricos só comecem no Século X. Tal como os magiares na Hungria vão buscar as suas origens às estepes asiáticas, também o santuário original dos thais fica na China, na província de Yunão, de onde eles se começaram a deslocar lentamente para Sul entre os Séculos X e XII desalojando e pressionando o reino da civilização khmer para sudeste e para o actual Cambodja. No século XIII surgem os primeiros principados importantes e em 1350 o príncipe que funda uma capital central em Ayuthia (a fazer lembrar o exemplo moscovita por essa mesma altura) acaba por ganhar a supremacia num território que, pela configuração, representa o embrião da actual Tailândia, embora naquela altura se chamasse Sião.

Tornou-se um reino com um elevado grau de sofisticação, como os portugueses vieram a descobrir quando se tornaram sua potência vizinha, ao conquistarem Malaca em 1511, altura em que o Sião esteve envolvido numa luta épica com os birmaneses que terminou por vencer nos finais do Século XVI. Do contacto ficou a norma, que perdurou por mais de 300 anos, da corte siamesa empregar o português como idioma diplomático, para desconcerto do embaixador norte-americano que ali apresentou credenciais no Século XIX. Mas a infiltração europeia acabou por ser bloqueada com a expulsão de todos os comerciantes europeus da capital e do fecho das feitorias em 1688.

Os conflitos entre tais e birmaneses reacenderam-se no Século XVIII, com vantagem para os segundos que conquistaram e destruíram a capital siamesa em 1767. Mas o estado veio a recompor-se em 1782 na pessoa de um general que se veio a coroar (é o fundador da dinastia actual) e que fundou Bangkok, a nova e actual capital da Tailândia, a pouca distância da anterior. Expulsos os birmaneses para Oeste e dada a fraqueza progressiva dos Khmers, o Sião acabou por descobrir um novo inimigo histórico nos vietnamitas com quem houve alguns choques durante a primeira metade do Século XIX. No entanto a área de influência siamesa teve de recuar substancialmente com a chegada dos franceses à Indochina (1859), com as suas fronteiras orientais a só ficarem definidas em 1910.

Entretanto o país havia-se aberto ao exterior (1855), só que o processo de assimilação da cultura ocidental que tanto sucesso teve no Japão não teve na Tailândia o mesmo carácter maciço, tendo-se restringido apenas à aristocracia. Mas as Forças Armadas foram das instituições mais afectadas por essa modernização, o que as transformou, a partir do importante Golpe de Estado de 1932 em agentes de mudança. Apesar de ter escolhido mal durante a Segunda Guerra Mundial (alinhou com o Japão), a evolução da Tailândia actual faz lembrar em mais do que um aspecto a Turquia, onde existe uma democracia intermitente sob a supervisão dos militares, sem problemas significativos de identidade nacional e à procura de um ritmo de desenvolvimento económico que lhe permita acompanhar alguns dos seus vizinhos mais avançados (a Malásia e Singapura).