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12 abril 2016

O PRIMEIRO GOLPE DE ESTADO NA LIBÉRIA

Há 36 anos, a 12 de Abril de 1980, a Libéria registava o primeiro golpe de Estado da sua História. E com isso a história da Libéria fundia-se com a dos restantes países africanos onde tais acontecimentos eram por essa época bastante frequentes: não havia ano em que não ocorresse um ou outro golpe de Estado em algum país africano. Do ponto de vista formal a história da Libéria era um pouco distinta da dos restantes países do continente. A esmagadora maioria destes últimos haviam sido em alguma época colónias formais de países europeus. A Libéria nunca o fora, porque o país que exercia essa função - os Estados Unidos - não o assumia. Portanto a Libéria era um país pseudo-independente desde 1847 - a bandeira era uma cópia da dos Estados Unidos (abaixo), as instituições outra cópia e havia até uma classe de colonos que se sobrepunha aos nativos - eram os negros emancipados dos Estados Unidos e de outras origens americanas que eram encorajados a retornar a uma África que pessoalmente nunca haviam conhecido. Essa classe, que nunca superou os 5% da população liberiana, dominou a Libéria durante os primeiros 130 anos da sua existência. Até este famigerado golpe de Estado de 12 de Abril de 1980.
O golpe em si foi uma daquelas demonstrações de como as instituições dos novos países africanos - e a Libéria apesar dos mais de cem anos de independência não se distinguia deles - eram frágeis e passíveis de serem derrubadas com limitadas exibições de força. Como imaginara Frederick Forsyth quando escrevera o livro Os Cães de Guerra (1974), um punhado de quadros e umas dúzias de combatentes podiam apoderar-se de todo um país africano onde as estruturas do poder estivessem demasiado centralizadas. Na Libéria em 1980, os insurrectos eram apenas 17 e comandados por um sargento decidido que ainda não completara 29 anos chamado Samuel Doe. Invadiram o palácio presidencial, executaram o presidente William Tolbert e o regime colapsou por completo. Pormenor não despiciendo: nenhum dos 17 militares conspiradores pertencia à minoria de ascendência afro-americana... Com a sua promoção de sargento a presidente, Samuel Doe deve ter batido o record africano da ascensão política, mesmo num continente conhecido pelo protagonismo súbito dos militares de baixa patente (é na América Latina que quem costuma promover golpes de Estados são os generais...). Os episódios que se seguiram, contudo, o ajuste de contas com a elite de ascendência afro-americana, produziram imagens de violência selectiva e que já não tinham muito a ver com a coreografia mais benigna dos outros golpes de Estado, como é o caso das execuções dos ministros do anterior governo cuja fotografia encima este poste. O ciclo de violência então iniciado sobreviveu à execução do próprio Samuel Doe em 1990.

04 julho 2014

A COBERTURA NOTICIOSA DAS EPIDEMIAS

Desde Fevereiro deste ano que se está a registar um surto de Ébola em três países da África Ocidental: Guiné-Conakry, Serra Leoa e Libéria. O número de casos registados aproxima-se dos 800, as mortes de 500, com uma taxa de mortalidade ultrapassando os 60%. Mas foi preciso esperar pelos princípios de Julho para que o circo da informação se tivesse apercebido, mais pela coreografia do que por dedução do próprio, da seriedade do problema de Saúde Pública. Espera-se que a partir de agora o circo acompanhe a situação com o mesmo zelo como o fez há uma década com a gripe das aves (que, ameaçando-nos, acabou por não nos fazer mal algum...) e nos dê conta, com a mesma minudência, das mortes ocorridas como outrora aconteceu com um papagaio na Inglaterra e um pato na Suécia, um cisne na Escócia ou um ganso na Grécia

03 janeiro 2013

ALGUNS PRESIDENTES DA LIBÉRIA

O colonialismo em África pôde assumir formas mais imaginativas do que aquele a que estamos habituados. A Libéria, de que se exibem aqui as fotografias de alguns dos seus primeiros presidentes, foi um estado independente fundado em 1848 com o beneplácito dos Estados Unidos, alegadamente para se tornar o local de destino dos excessos da sua população negra. Acima à esquerda, aparece-nos Joseph Jenkins Roberts (1809-1876), que foi o 1º e também o 7º presidente liberiano; à direita é James Spriggs Payne (1819-1882) que foi o 4º e também o 8º presidente. Mais abaixo à esquerda, é Anthony Gardiner (1820-1885) o 9º presidente, ao lado do seu sucessor Alfred Russell (1817-1884).
Notável não é só a aparência, onde se nota uma ancestralidade fortemente misturada de origens africanas e caucasianas que noutras culturas – como a portuguesa – os levaria a serem classificados de mulatos, mas sobretudo o facto de todos eles – como também todos os seus antecessores – terem nascido nos Estados Unidos e de terem o inglês por idioma materno. Formaram uma elite social – os americano-liberianos – e um regime presidencialista copiado do norte-americano que dirigiu a Libéria por 132 anos. Foi só cinco anos depois da saída dos portugueses de África, que Samuel Doe, ao depor William Tolbert, o 20º presidente da série, libertou a Libéria de um colonialismo que nunca se assumiu.  

26 abril 2010

MORTES POLÍTICAS EM ÁFRICA

Em África a morte política ainda é, frequentes vezes, o sinónimo de morte física. A fotografia acima data de Fevereiro de 2002 e passa-se em Angola. Ao fim de uma perseguição de várias décadas as forças militares governamentais angolanas haviam finalmente apanhado e liquidado Jonas Savimbi, o líder da UNITA que havia regressado à guerrilha depois de 1992. A fotografia mostra o seu cadáver sem qualquer dignidade, de meias, depois de lhe terem roubado o que calçava, e de calças em baixo, expondo umas boxers de riscas azuis e brancas. Dando-lhe o retoque político final, um dos autores da proeza exibe a bandeira vermelha e verde da UNITA com o seu famoso galo negro.
Por muito chocante que seja esta divulgação crua da fotografia com o cadáver de Jonas Savimbi, houve quem tivesse feito pior… Em meados de 1990, quando o poder governamental na Libéria se desagregara, o próprio Presidente liberiano Samuel Doe acabou por ser capturado, interrogado e torturado por um dos líderes de uma das facções que se haviam insurgido (vídeo acima). Posteriormente, foi morto e o seu cadáver exibido todo nu numa fotografia que também correu mundo (abaixo). O carácter heterogéneo do armamento exibido pelos executores (AK-47, M-16, FN) era um indício de que os captores não pertenciam a um exército regular. Nem sequer irregular. Fora obra dum gang.

13 março 2009

VÁRIAS HISTÓRIAS DE ÁFRICA

Os acontecimentos da Guiné-Bissau suscitaram, além de mais uns episódios de tele-jornalismo caqui por mim aqui destacados, artigos e análises, alguns deles bastante interessantes, tanto em jornais como aqui nos blogues, sobre a evolução que permitiu que, num país moderno, a mais alta figura do estado e a mais alta figura das suas forças armadas sejam ambas abatidas perante a apatia geral. Em muito dessas análises parece notar-se uma corrente de opinião dominante, a da gradual desresponsabilização das antigas potências coloniais pelo caos em que degeneraram as situações políticas, económicas e sociais dos (já não tão) novos países africanos. É lógica, concisa, mas talvez seja demasiadamente simplificada.
Essas opiniões acabam por corresponder à tese nuclear do livro acima, que se intitula O Estado de África, uma História de Cinquenta Anos de Independência que, datado de 2005, faz uma cobertura crudelíssima, país por país, daquilo que tem vindo a acontecer naquele continente depois do início da Era das Independências, desencadeada com a do Gana, a 6 de Março de 1957. Só que, e há quem o assinale noutras análises, com toda a pertinência, também aqui nos blogues, a História africana não começou propriamente há cinquenta anos… A começar pela evidência que as condições em que essas independências foram alcançadas haviam sido definidas algumas décadas antes…
A Conferência de Berlim de 1884 (acima), que reuniu as potências europeias (incluindo Portugal), configurou uma África à imagem e semelhança da concepção europeia da organização do território, fronteiras e tudo. Faz bem quem relembra que a actual configuração política de África não resulta originalmente dos equilíbrios naturais das capacidades de expansão e de assimilação das próprias etnias africanas, depois transformadas em embriões de nacionalidades, mas de outros factores de equilíbrio, estranhos ao continente. Mas, por sua vez, a História de África não começa em 1884 nem, de resto, terá começado em 1415, data da conquista por Portugal da sua primeira possessão colonial africana (Ceuta).
A História de África acima data já de 1995, mas serve perfeitamente para demonstrar quanto ela é complexa e quanto as interferências europeias antes dos finais do Século XIX foram substancialmente negligenciáveis, com excepção da evolução demográfica do continente. Poderia apontar aqui vários exemplos como os tais 500 anos de colonialismo não passam de um soundbite tão cheio de ideologia quanto vazio de substância. Uma sugestão tão agradável quanto ligeira poderá ser a leitura do álbum de BD da série Passageiros do Vento da gravura abaixo: ali se reconhece que, mesmo no Século XVIII, o poder efectivo pertencia ao monarca africano, ao qual se submetiam as feitorias comerciais europeias.
E, evidentemente, a forma como esse poder era exercido nada tinha do bucolismo que depois veio a ser perturbado pelo colonialismo europeu, conforme postulam algumas versões mais ideológicas da História de África que ainda hoje circulam. Muito pelo contrário, como em todo os lugares do Mundo, por vezes havia demonstrações de uma crueldade arrepiante... Mas regressemos à Conferência de Berlim e a uma potência que nem lá foi (os Estados Unidos) e a outra que lá foi fazer figura de corpo presente (a Rússia). Ambas clamavam não ter interesses a manifestar em África e, por isso, podiam permitir-se pregar moral às outras no que diz respeito à conduta que elas deviam adoptar naquele continente...
Os Estados Unidos criaram uma ficção de país independente chamado Libéria em 1847, para onde se pretendia transferir os escravos para que eles retornassem a casa. Consistindo numa colónia em tudo, salvo no nome, e o bem-estar da população da Libéria actual (acima a bandeira) não se distingue particularmente dos seus outros países vizinhos por causa dessa evolução histórica sem passado colonial… Quanto aos russos, a adopção do marxismo-leninismo em 1917 foi um verdadeiro maná para o seu discurso moralizador dirigido aos domínios coloniais das restantes potências, estruturado em temos dialécticos. Tanto, que ainda hoje, desfeito o mito, esse discurso culpabilizante continua a manter os seus adeptos.
O imperialismo é tão antigo quanto a História da Humanidade. Nós, portugueses, já fomos colónia de cartagineses e romanos. A Corrida para África representou um momento anómalo nessa História, quando o desequilíbrio técnico e material entre uma região do Globo (Europa) e outra (África) era tão grande que permitiu que a primeira projectasse o seu poder sobre a outra, não só com um grande alcance, mas necessitando de tão poucos recursos que mesmo uma potência menor quanto Portugal permaneceu na Corrida. Mas, graças às duas potências morais, esse momento anómalo desapareceu e o que dele resta são sociedades em que o Grau de Influência Civilizacional dos antigos colonizadores é, geralmente, bastante baixo.

30 outubro 2007

ALGUNS APONTAMENTOS SOBRE OS MODERNOS CONFLITOS AFRICANOS

Na história dos conflitos dos últimos 50 anos do continente africano, que actualmente conta com 53 países independentes, torna-se surpreendente constatar como foram muito minoritários os casos em que essas independências foram alcançadas através da luta armada, na esmagadora maioria das vezes através da guerra subversiva – houve 9 casos, estando um deles, o do Sahara Ocidental, ainda hoje por resolver. Ainda mais raros (apenas 4), foram os casos em que os nacionalistas que travaram essas lutas armadas se desdobravam por mais de um movimento político-militar.
Como seria de esperar, depois da obtenção das independências, também já houve guerras civis em vários países (10), mesmo contando exclusivamente aquelas que foram mais prolongadas e significativas e descontando as escaramuças que não passaram de golpes ou tentativas de golpe de estado que demoraram um pouco mais tempo a resolver… Contudo, não se devem confundir essas guerras civis com os casos das guerras separatistas em que os promotores pretendem alcançar a independência de uma parcela do território nacional (5), normalmente rica numa das matérias primas.
Procurando traçar uma sequência geral, às guerras de libertação contra as potências coloniais das décadas de 50 e 60, terminando nos anos 70, seguiram-se as guerras civis que começaram nessa mesma década e se prolongaram pelas de 80 e 90. À disciplina militar e ao rigor da formação ideológica dos movimentos mais antigos seguiram-se a constituição de organizações com muito menos coesão interna e, por isso, potencialmente muito mais lesivas para os não beligerantes. Também os locais dos conflitos deixaram os campos para se tornaram predominantemente urbanos.
As fotografias insertas neste poste procuram dar expressão a essa evolução. Referem-se a militares do PAIGC (Guiné-Bissau) e da ZAPU (Zimbabué), em fases de guerras de libertação das décadas de 60 e 70, a um outro do MPLA (Angola), numa fotografia já por mim gabada num poste anterior, datada de 1975, tirada numa fase de transição da guerra de libertação para a guerra civil, e finalmente fotografias de duas fases das guerra civis do Congo e da Libéria, já da década de 90, depois do fim da Guerra-Fria, onde suponho que o nome das organizações a que os combatentes possam pertencer já não tem qualquer relevância…
Não será propriamente uma distinção, mas vale a pena relevar a coincidência de que Angola é o único país africano que aparece em todas as listas das categorias de conflitos acima mencionadas... Foi um dos países que acedeu à independência depois de uma guerra de libertação porque pertencia ao império colonial português. O conflito foi desencadeado por um movimento com apoio ocidental, o que subvertia a lógica da guerra-fria e levou o bloco soviético a patrocinar o seu próprio movimento, o que levou à multiplicidade de movimentos político-militares nacionalistas.
Chegados à independência (1975), o conflito entre os vários movimentos nacionalistas transferiu-se para uma guerra civil entre eles que perdurou, de forma descontínua, durante os 27 anos seguintes. Entretanto, durante esse período, a situação do enclave de Cabinda, que faz parte de Angola, mas que está geograficamente separado do resto do território e cuja plataforma continental é rica em petróleo, tornou-se politicamente disputada, com algumas das facções locais mais extremistas (FLEC) a defenderem de armas na mão a sua independência de Angola.

E é credível que muitos destes acontecimentos apenas se verificaram porque é defensável que Angola seja o país mais rico de África em recursos naturais… Às vezes é preciso ter azar…