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11 fevereiro 2024

MARILYN MONROE NA COREIA

11 de Fevereiro de 1954. Marilyn Monroe num dos quatro espectáculos da tournée que estava a realizar junto das tropas norte-americanas estacionadas na Coreia. O objecto da fotografia é a audiência e não a estrela (que apenas se vê de costas).

06 novembro 2023

A GRANDE CONFERÊNCIA DA ÁSIA ORIENTAL

(Republicação)
6 de Novembro de 1943. Conclusão em Tóquio da Grande Conferência da Ásia Oriental, reunindo o primeiro-ministro japonês Hideki Tōjō (ao centro, na fotografia) com os países satélites, pretensamente independentes, ocupados pelas armas japonesas. Esta Cimeira, a que os livros sobre a Segunda Guerra Mundial não costumam dedicar grande atenção, representou um importante esforço diplomático dos japoneses para congregar os apoios dos nacionalismos asiáticos quando a situação militar evoluía nitidamente em seu prejuízo. Entre os presentes contaram-se (da esquerda para a direita): Ba Maw (Birmânia), Zhang Jinghui (Manchúria), Wang Jingwei (China colaboracionista), o anfitrião Tōjō (naturalmente ao centro...), Wan Waithayakon (Tailândia, provavelmente o país mais autónomo entre os convidados), José P. Laurel (Filipinas) e Subhas Chandra Bose (Índia livre, de que aqui se falou neste blogue anteriormente). Tão interessantes quanto as presenças, são as ausências: as dos coreanos, que o Japão considerava uma colónia sua, sem qualquer direito a exprimir-se; as dos vietnamitas e cambojanos, que o governo japonês não quisera convidar para não afrontar a França de Vichy (que era um seu aliado nominal); e as dos malaios e indonésios, já que os japoneses ainda não se haviam decidido em que sentido haviam de conduzir a sua política colonial e a defesa dos seus interesses, no meio do emaranhado étnico que constituía a região. Mas não seria por estas últimas inconsistências que a Grande Conferência foi um evento noticioso fátuo, perdido no meio de tantos outros acontecimentos daquele dia (o Exército Vermelho reconquistara Kiev). As pretensões japonesas eram uma farsa.

26 julho 2023

A BATALHA DO RIO SAMICHON

Republicação
26 de Julho de 1953. Fim da batalha do rio Samichon na Coreia. Esta batalha está longe de ter sido uma das batalhas mais importantes, simbólicas ou renhidas da hoje esquecidíssima Guerra da Coreia (1950-53). A situação táctica em que teve lugar é simples de descrever se nos socorrermos do mapa acima. O rio Samichon (assinalado a um azul muito claro) é um afluente da margem direita do muito mais importante rio Imjin (assinalado a um azul mais escuro). O vale do Samichon seria o corredor natural de progressão das tropas norte-coreanas e chinesas (setas vermelhas) no caso de elas conseguirem romper o dispositivo defensivo (a verde) que fora adoptado pelas tropas sul-coreanas e dos seus aliados ocidentais (na sua grande maioria tropas americanas). Na tentativa de obter essa ruptura, a batalha começara dois dias antes, a 24 de Julho, uma ofensiva desencadeada pela 137ª divisão chinesa, com a curiosidade de que uma parte da linha de defesa atacada era guarnecida por um batalhão australiano (as unidades restantes eram americanas) e de que uma unidade de artilharia que os apoiava ser neozelandesa. As características da ofensiva chinesa não se alteraram em relação à táctica que se viera a tornar tradicional naquele conflito: uma ofensiva nocturna (para neutralizar a superioridade aérea esmagadora do inimigo), uma preparação prévia de fogo de artilharia (sobretudo de morteiros) e vagas sucessivas de ataques de infantaria tentando submergir as posições inimigas pela superioridade maciça dos seus efectivos. A comparação das baixas sofridas pelas duas partes mostra o quanto, a esse respeito, aquela guerra era assimétrica.
Os americanos sofreram 43 mortos e 316 feridos; os australianos 5 mortos e 24 feridos; com as estimativas do número de mortos sofridos pelos chineses a cifrar-se entre os 2.000 a 3.000. Mesmo descontando o exagero destas estimativas, a desproporção entre os mortos do lado ocidental para os do inimigo, mesmo usando a estimativa mais cautelosa é de 1 para 40! Mas aquilo que é verdadeiramente impressionante nesta batalha é que ela foi a última da Guerra da Coreia. A batalha do rio Samichon cessou na véspera do dia da assinatura do Armistício - 27 de Julho de 1953 - que pôs fim às hostilidades. Era um acontecimento que estava previsto desde há dias (acima, a edição do Diário de Lisboa de há 70 anos) e que fora o culminar de um arrastadíssimo processo de negociações que durara mais de dois anos, onde houvera 575 reuniões em que - alguém estimou - se haviam trocado 18 milhões de palavras! Mas, para a parte chinesa não se punha o problema de correr o perigo de poder desfazer tudo o que se alcançara até aí e sacrificar mesmo 2.000 vidas para obter ainda, à última hora, uma pequena vantagem táctica adicional para a trazer para a mesa das negociações! Na verdade, no cômputo global e nos últimos meses, eles e os norte-coreanos haviam sofrido 72.000 baixas (dos quais 25.000 mortos) tentando fazer isso mesmo. As negociações na Coreia são tradicionalmente muito duras e inconclusivas e o problema da Coreia não se resolvem com coisas simples que se possam dizer em tweets, nem os tweets têm espaço para que se explique convenientemente porque é que essas simplicidades são um disparate... E disparate é sinónimo de Trump.

08 outubro 2022

MANIFESTAÇÃO NA COREIA

Esta notícia que nos chegava de Seul, na Coreia, em 8 de Outubro de 1947, ainda não se revestia para os leitores do significado que os acontecimentos naquela península (que estava então dividida entre uma zona de ocupação soviética a Norte, outra de ocupação americana a Sul), virão a adquirir dali por pouco mais de dois anos e meio, com a invasão perpetrada pelo exército do Norte sobre o Sul. Agora que se conhece o que reservava o futuro, as preocupações que são expressas pelos 60 mil manifestantes revelam-se premonitórias. Não terá sido certamente pela veemência dos pedidos de há 75 anos, mas a verdade é que ainda hoje continuam a existir tropas norte-americanas estacionadas na Coreia do Sul.

09 maio 2022

O SEQUESTRO DO GENERAL DODD

9 de Maio de 1952. O interesse mediático e público pelos acontecimentos da Guerra da Coreia tinham vindo a esmorecer desde o Verão de 1951. Começara um período de conversações entre beligerantes que se arrastava desde essa altura, cheio de incidentes menores e que não progrediam. De quando em vez um episódio colateral tornava a chamar a atenção para o conflito suspenso. Como aconteceu há 70 anos. Os dois lados tinham feito milhares de prisioneiros. O principal dos campos de prisioneiros que haviam sido estabelecido pelos Estados Unidos localizava-se na ilha de Geoje, uma ilha de 402 km² (cerca de metade da área da ilha da Madeira), que se situa no sul da península coreana. Em 1952, o complexo albergava o impressionante número de 170.000 prisioneiros de guerra(!), dos quais cerca de 85% eram coreanos e 15% chineses. Para além das duas nacionalidades, a composição da população prisional coreana era heterogénea, uma vez que juntava pessoal que fora capturado combatendo de armas na mão, com civis que haviam sido aprisionados por suspeitas de colaboração com o inimigo. No princípio de 1952, os americanos haviam decidido iniciar uma grande operação de escrutínio dos prisioneiros, interrogando-os, incluindo quais seriam as suas intenções no final da guerra: - regressar ao Norte ou à China ou ficar no Sul ou ir para Taiwan? Dada a parcialidade dos interrogadores, o número de respostas favoráveis à permanência posterior no dito mundo livre cifrava-se nuns expectáveis 60%, o que constituía um embaraço de propaganda para a causa comunista, que se dispôs a contra-atacar. O contra-ataque consistiu em interditar os questionários nos blocos que eram firmemente controlados pela sua hierarquia. Já tinha havido confrontos sangrentos, 55 prisioneiros mortos em Fevereiro, outros 12 em Março, e os comunistas mostravam estar dispostos a pagar em sangue a sua intenção de não deixar os americanos escrutinar a sua população prisional. Por seu lado, os sul coreanos não consideravam a questão de matar prisioneiro insurrectos a sangue frio como um problema que os incomodasse. Fora para apaziguar esse enorme clima de tensão que o brigadeiro-general Francis Dodd, conhecido por ser uma pomba, acabou sendo nomeado para o comando do enorme campo de prisioneiros.
Era uma boa intenção e uma excelente escolha, mas numa ocasião péssima, porque o outro lado não estava com qualquer interesse em transigir e as boas vontades de Dodd iriam ser gastas sem contrapartida. A análise dos acontecimentos veio a demonstrar que os prisioneiros comunistas haviam preparado de antemão a operação em que o comandante do campo foi capturado por eles. Minutos depois de o fazerem já havia grandes cartazes pintados à mão (antecipadamente) a anunciar o feito, para que a notícia corresse depressa por todo o campo. Típico do que podiam ser as incongruências da censura à imprensa em Portugal, a notícia do rapto do general Dodd não pôde ser publicada. O facto só foi relatado no dia seguinte, acompanhado da explicação de que já havia um plano para o libertar. Só aí é que o leitor português ficava a saber que tinha havido um rapto de um general americano na Coreia... Os sequestradores-prisioneiros esforçaram-se por tratar o melhor possível o seu refém. Afinal, a sua operação era sobretudo uma batalha da guerra de propaganda, fazendo-se eco de que estavam a ser mal tratados. Mas essa era apenas a parte da verdade que interessava aos comunistas promover. Subjacente ao incidente estava a disputa sobre quem controlava efectivamente os campos de prisioneiros... Os americanos, os prisioneiros comunistas, os prisioneiros não comunistas?... Quanto ao problema imediato, o brigadeiro-general Dodd veio a ser libertado dois dias depois, após negociações e um show de força americano, composto por carros de combate, infantaria equipada de lança chamas, etc. O general Mark Clark (foto abaixo), que entretanto (12 de Maio) assumira as funções de comando supremo na Coreia foi severíssimo nas sanções: Dodd foi, não só demitido do comando, como despromovido a coronel. Tradicionalmente, comandar campos de prisioneiros durante períodos de guerra nunca deu grande reputação a quem exerceu esses comandos, mas é significativo da reputação a que descera o campo de prisioneiros de Geoje, o facto do sucessor de Dodd, o brigadeiro general Haydon Boatner, ter substituído todos os oficiais do Estado Maior logo nos primeiros dias em que assumiu o cargo. E, como é evidente, os americanos detestam falar deste assunto.

10 julho 2021

O INÍCIO DAS CONVERSAÇÕES PARA PÔR FIM À GUERRA DA COREIA

10 de Julho de 1951. Começavam, numa área neutralizada adjacente a Kaesong, no centro da Coreia, as negociações que o Diário de Lisboa descrevia como «uma conferência» que estabelecesse o cessar-fogo na guerra que começara naquela península no ano anterior. Mais do que o exagero, já que o âmbito das negociações seria apenas militar e protagonizado por militares, perpassa pela notícia um certo tom de optimismo que o futuro se iria rapidamente encarregar de desmentir. Quatro meses depois ainda as negociações se arrastavam por minudências entravadas de incidentes como o demonstram as imagens abaixo. No computo global, esta nova fase estática da guerra da Coreia, entremeada de negociações, iria durar dois anos, o dobro do tempo que tomara a guerra de movimento inicial.

15 março 2021

A SEGUNDA RECONQUISTA DE SEUL

15 de Março de 1951. Depois de a terem evacuado a 4 de Janeiro, as tropas americanas retomam Seul, a capital da Coreia, por uma segunda vez. A participação da China no conflito e as derrotas que havia infligido, moderaram substancialmente o entusiasmo e as expectativas americanas quanto ao seu desfecho. E as notícias da guerra passaram a ser muito mais sóbrias, descartaram-se as proclamações vitoriosas do QG do general MacArthur que haviam levado a comunicação social ao engano. Repare-se a sobriedade como a notícia era publicada: por um lado, a cidade fora evacuada previamente pelas tropas comunistas, e por outro, a patrulha que conquistara a cidade era composta apenas por 19 homens que a haviam encontrado evacuada. Nos jornais americanos - e nos outros, por arrasto - esquecera-se a grandiosidade épica dos desembarques de Inchon, coreografados para MacArthur brilhar.

25 novembro 2020

A BATALHA DO RIO CH'ŎNGCH'ŎN

25 de Novembro de 1950. As tropas chinesas enviadas para a Coreia desencadeiam uma ofensiva ao longo do vale do rio Ch'ŏngch'ŏn, que corre sensivelmente a 80 km a sul do rio Yalu que define a fronteira entre os dois países (veja-se acima, à esquerda). À medida que progrediam para Norte, desbaratando e perseguindo o exército norte-coreano, desde o mês anterior que os serviços de informações do exército ao serviço das Nações Unidas tinham vindo a acumular indícios da presença crescente de tropas chinesas em território coreano. Este indicador de precaução colidia com a agenda política interna (norte-americana) do comandante do contingente da ONU, o general MacArthur. Este, numa das suas famosas tiradas políticas para consumo doméstico, prometera que as operações estariam terminadas antes do Natal: o slogan era «Home by Christmas» (em casa pelo Natal), referindo-se sobretudo aos norte-americanos. E a propaganda reflectia essa confiança: o Diário de Lisboa do dia em que a ofensiva chinesa começou (abaixo) noticiava «100.000 americanos e sul-coreanos» a «progredir» «excedendo os planos previstos» e já se antecipava aquilo que fazer depois: «Ocupação militar ou zona desmilitarizada?» Tanta arrogância foi desbaratada no terreno em cerca de uma semana por cerca de 230.000 chineses nesta batalha do rio Ch'ŏngch'ŏn. Sobre as consequências militares e políticas de tal desaire teremos ocasião de as analisar em posteriores evocações.

19 outubro 2020

OS ASPECTOS EXUBERANTES E OS ASPECTOS OCULTOS DE UMA GUERRA

19 de Outubro de 1950. Nesse dia, as tropas americanas conquistavam Pyongyang que fora, até então, a capital da Coreia do Norte. A Guerra da Coreia, que a mesma Coreia do Norte desencadeara, invadindo a do Sul em finais de Junho daquele ano, parecia próxima de um desfecho. O que não se sabia nem, por isso, se noticiava, é que naquele mesmo dia 19 de Outubro, tropas chinesas haviam começado a atravessar o Rio Yalu, gesto que, tendo-se sabido, seria classificado como um indício fortíssimo da intenção chinesa de intervir no conflito - a Guerra da Coreia não estava nada próxima de um desfecho...

15 setembro 2020

A BATALHA DE INCHON

15 de Setembro de 1950. Muitos dos grandes planos militares resultam porque são simples. Este, que teve lugar há setenta anos nas praias da Coreia ocidental, resultou precisamente por causa disso mesmo e também, não esqueçamos, porque os Estados Unidos dispunham de uma superioridade quase absoluta de meios marítimos, aéreos, terrestres e anfíbios para o poder concretizar. Depois de a Coreia do Norte ter invadido a Coreia do Sul em princípios de Julho daquele ano, a situação militar estabilizara na forma que se pode apreciar no mapa acima: restara uma pequena região no sudeste da península (assinalada a amarelo), onde o que sobrara das unidades militares sul-coreanas e americanas resistiam ao assalto final do exército norte-coreano. Aquele bastião era valiosíssimo politicamente, porque preservava a presença na península, mas era militarmente destituído de interesse. Atacar os invasores pela retaguarda (seta vermelha) é uma daquelas ideias simples, quase infantil. E fazê-lo junto à cidade de Seul, que constituía o nó de comunicações central por onde os exércitos invasores eram reabastecidos,.a localização ideal para isso. E depois, era preciso ser-se norte-americano, porque só eles dispunham dos meios anfíbios e navais necessários para realizar uma operação desse género: desembarcar umas dezenas de milhares de homens (40.000) em território inimigo.
Auxiliava-os significativamente o «know-how» que eles haviam adquirido em operações similares meia dúzia de anos antes, tanto na Europa (Sicília, Itália, Normandia, Provença) quanto no Pacífico (Guam, Filipinas, Iwo Jma, Okinawa). Aliás, grande parte do maior «hardware» datava ainda dessa época, da Segunda Guerra Mundial. Quanto à operação em si, baptizada de Chromite, não tem grande história. Tomando como referência o que acontecera em Overlord, o número de efectivos envolvidos foi apenas de 1/4 dos que estiveram presentes na Normandia. A superioridade em efectivos dos atacantes era de 6 para 1 (3 para 1 na Normandia). E, como também na Normandia, essa superioridade era multiplicada quando se avaliava o poder de fogo disponível dos dois lados. Onde se notava a superioridade daquele momento em relação a 1944 era na cenografia: Douglas MacArthur cuidava muito mais dessas questões de como aparecia do que Dwight Eisenhower. Nesta fotografia abaixo, de há 70 anos, têmo-lo a supervisionar as operações de desembarque em curso, binóculos na mão, escutando interessado as explicações que lhe prestam. É assim que é um general a sério...

03 julho 2020

QUANDO A GUERRA DA COREIA SE TORNOU NO MAIS IMPORTANTE ASSUNTO DO MOMENTO

3 de Julho de 1950. O Diário de Lisboa dedica toda a sua primeira e última páginas a notícias sobre o conflito na Coreia. Contudo, muito provavelmente e na semana anterior, a esmagadora maioria dos leitores daquele jornal teriam tido dificuldade em localizar a península coreana num mapa mundo. Este estranha capacidade para que certas notícias irrompam com uma importância desmesurada, como cogumelos, não é propriamente recente. Também é canónico destas situações o facto de que a notícia principal do conjunto, aquela que dava conta d«A marcha das operações» - A ofensiva dos coreanos do Norte foi contida diz o comunicado de MacArthur - ser uma mentira grosseira.

25 junho 2020

O INÍCIO DA GUERRA DA COREIA (R)

25 de Junho de 1950. Sem quaisquer preliminares diplomáticos para, ao menos, constituírem uma capa de justificação, a Coreia do Norte invade a Coreia do Sul. Hoje percebe-se que se tratou de um erro crasso de interpretação de quais poderiam ser as intenções norte-americanas por parte de Estaline e dos soviéticos. Estes não se deviam ter esquecido como os seus adversários americanos e Harry Truman acabavam de enfardar a vitória dos comunistas na Guerra Civil chinesa há menos de um ano (em 1 de Outubro de 1949), e de como isso ressoara no panorama político interno dos Estados Unidos. Havia também as naturais ambições regionais do coreano Kim Il Sung em querer fazer também um bonito no seu país, mas aí o senhor do Kremlin, como líder indisputado do mundo comunista, devia ter balanceado a capacidade de encaixe de Washington, que Estaline evidentemente sobrestimou neste caso. É bem verdade que nessa mesma perspectiva, Ho Chi Minh andava a fazer uma coisa parecida no Vietname contra os franceses, mas aí a guerra era anti-colonial e assimétrica, o fraco contra o forte, enquanto que na Coreia e desde o princípio se tratou de uma guerra civil e convencional, com os beligerantes em pé de igualdade, senão mesmo com a Coreia comunista a ficar com o papel do bruto despotista. Por outro lado, o discurso propagandístico dos invasores em prol da libertação dos seus compatriotas do sul, teria uma analogia mais do que evidente no exemplo do que os alemães de Leste com o apoio russo poderiam fazer na Alemanha dividida, assustando toda a Europa democrática, e lançando-a toda para os braços da América através da NATO. E se esse não era um problema de Kim Il Sung nem de Mao Zedong, a consolidação da Europa ocidental seria um (grande) problema de Estaline. Mas, por seu lado, os americanos caíram no erro de presumir que Estaline nunca cairia nesse erro de dar carta branca a Kim, como aqui mostrei há uns dias. É interessantíssimo analisar o que aconteceu desde que se saibam umas coisas sobre a Guerra da Coreia, como por várias vezes, a respeito deste e de outros assuntos, recomendei ao meu amigo Luís... Ler mais e opinar menos nunca fez mal a ninguém.
E é tanto mais interessante saber sobre o tema, quanto se tem assistido nos últimos três anos, depois dos americanos terem elegido aquele palhação para ocupar a Casa Branca, a um recrudescimento de conversas a respeito das sequelas dessa Guerra da Coreia, por causa da fantasia de Donald Trump querer receber um prémio nobel da Paz promovendo a paz na península. A máquina promocional da administração americana faz o seu papel de contar uma história com açúcar - e a enorme máquina comunicacional que lá vai beber não faz o seu de a escrutinar para saber que parte é verdade. Como de costume, todas as vezes em que Trump esteve com o líder norte-coreano foi mais «uma cimeira histórica», descontando todas as outras cimeiras históricas (abaixo, em 2000 e 2009, as cimeiras com a secretária de Estado Madeleine Albright e com o ex-presidente Bill Clinton), das quais também não resultou a ponta de um corno de resultados tangíveis... Caso Donald Trump tivesse estado disposto a ceder aonde os antecessores não o fizeram, talvez as cimeiras tivessem produzido qualquer coisa de diplomaticamente tangível, mas, quando se descobre que Donald Trump é um idiota que nem sequer faz ideia que o Reino Unido é uma das poucas potências com arsenal nuclear, como é que o poderemos comparar com os dilemas que se puseram a Harry Truman há 70 anos?...



Esta é uma reedição adaptada de um texto aqui publicado há dois anos.

21 junho 2020

A POSIÇÃO DOS ESTADOS UNIDOS NO EXTREMO ORIENTE

Quem lesse a edição de 21 de Junho de 1950 do Diário de Lisboa ia deparar-se com este artigo do jornalista francês Gustave Aucouturier (1902-1985), então a trabalhar para a Agência France-Presse, onde se procedia a uma análise desenvolvida e interessante da posição dos Estados Unidos entre os seus aliados no Extremo Oriente: o Japão e as Filipinas, mas também a Formosa, onde se refugiara o governo nacionalista chinês e a Coreia do Sul, resultante da ocupação dividida da península coreana depois da Segunda Guerra Mundial. A França, representada pelos pontos de vista de Aucouturier, não era um observador inocente, afadigada como estava a travar uma guerra na Indochina. E depois havia também a questão da defesa da Europa contra uma eventual agressão soviética. Mas o que torna esta análise significativa, era algo que era desconhecido tanto do autor como dos leitores do artigo nesta data da sua publicação há precisamente 70 anos. Dali por cinco dias, a 25 de Junho, a Coreia do Norte iria invadir o Sul e iniciar a Guerra da Coreia, tornando o prolixo exercício intelectual num assunto jornalístico escaldante! Para dar uma dimensão da surpresa, cinco dias antes (20 de Junho), o secretário de Estado norte-americano da época, Dean Acheson (1893-1971), afirmara taxativamente a uma comissão de senadores, numa reunião à porta fechada, que era «improvável» que a Coreia do Norte viesse a atacar a Coreia do Sul.

13 junho 2020

UMA OUTRA CIMEIRA HISTÓRICA HÁ VINTE ANOS

13 de Junho de 2000. Quase cinquenta anos passados sobre a eclosão da Guerra da Coreia, tem lugar na capital da Coreia da Norte (o país que desencadeou essa guerra) a primeira cimeira intercoreana com a presença dos presidentes das duas Coreias - a do Norte, a invasora, e a do Sul, a invadida. O ambiente parece ter sido tenso e pouco propenso a sorrisos (foto acima), mas isso não impediu que o acontecimento tivesse sido classificado - previsivelmente - pelos órgãos de informação de todo o mundo como histórico. Como tradicionalmente, quando os acontecimentos são assim classificados no momento em que ocorrem, existe uma grande probabilidade que acabem varridos para o caixote do lixo do esquecimento. Foi o caso. Não ajudou nada ao prestígio dos intervenientes ter-se vindo a descobrir que a Coreia do Sul pagara algumas centenas de milhões de dólares à Coreia do Norte, já que o evento fora um impulso na carreira doméstica e internacional do presidente sul-coreano Kim Dae-Jung (acima, à esquerda). Ele veio inclusive a receber o Prémio Nobel da Paz em 2000. Enfim, aspectos do assunto que não se sabiam na altura da cimeira e que não interessa agora desenvolver...
O que é interessante para acrescentar nesta história, para além da celebração do vigésimo aniversário do acontecimento, é que depois da cimeira histórica de 2000, ter-se-á desencadeado uma tendência para que se repetissem as cimeiras históricas, em 2007, em 2018 (três - Abril, Maio e Setembro), a ponto de se poder dizer, como se lê acima, que existe uma história destas cimeiras históricas. Mas o assunto desta história histórica estava ainda longe de estar encerrado pois, para além da sempre ansiada reunificação das duas Coreias, ele recebeu o contributo mais recente, exuberante e portentoso de Donald Trump. Com este último, e com as cimeiras que ele já arranjou à sua conta (Singapura, Hanói, DMZ - abaixo), aquela que fora até então uma história histórica, tornou-se uma história histórica histriónico. Donald J. Trump que, recorde-se, e como o outro, não é homem que não tenhamos em conta de dizer que não a comprar um Prémio Nobel da Paz...

30 junho 2019

SÓ HÁ CARROÇA, NEM HÁ BOIS...

Apreciem-se (com olhos de ver!) o que nos mostram as imagens do video acima. Demora sete minutos e a CNN transmitiu-as em directo para a sua audiência doméstica às 03H00 da manhã(!) deste Sábado. Primeiro Donald Trump pára na linha de demarcação entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul, para aí cumprimentar Kim Jong-Un, que se faz aguardar (pouco, mas o suficiente para ser Trump a esperar, o que é suficiente para os norte-coreanos, que dão imensa importância a estes pormenores). Depois ambos foram ao lado da Coreia da Norte para se tornarem a cumprimentar diante de um batalhão de fotógrafos e operadores de câmara enquanto trocavam cortesias. Depois vieram para o lado da Coreia do Sul para se cumprimentarem uma vez mais, que o batalhão não se cansava, nem o stock de banalidades elogiosas se mostrava em perigo de se esgotar. Já a farândola se perpetuava há cinco minutos e meio, quando o grupo de dançarinos e intérpretes se alargou para o presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, que, apesar de ser um dos dois anfitriões, estivera esquecido até aí. E o que é que vai acontecer mais? Nada. Gente que sabe dar passou-bens (e elogiar o interlocutor), é o acontecimento! De há anos para cá, entre a comunidade mediática ter-se-á perdido a compreensão da funcionalidade destas cerimónias que se limitam a ser simbólicas. Estou a lembrar-me, por exemplo e porque teve verdadeiro significado histórico para Portugal, da cerimónia da assinatura da adesão de Portugal à CEE nos Jerónimos em Junho de 1985 (abaixo), de como elas constituíam o pináculo de um complicado e demorado processo negocial de que se celebrava a conclusão em cerimónia adequada para o efeito. Ora aqui, no caso dos Estados Unidos e da Coreia do Norte, o que acontece com as negociações é que não aconteceu nada, mas já se celebra, embora não se saiba bem o quê. Dizia o nosso ditado popular que, quando se precipitavam os acontecimentos, se punha a carroça à frente dos bois. Na América de Donald Trump ainda é mais ridículo: nem há bois para atrelar atrás da carroça... Fotografa-se e filma-se a carroça. Mas pior, nem há quem, nesse mesmo meio mediático que é alimentado por estas palhaçadas, se dissocie dele e aponte o ridículo destas cenas. Que é dos bois?...

04 outubro 2018

AS «OUTRAS VISITADORAS»

Uma das notícias deste dia é a ruptura de relações entre as cidades de Osaka e São Francisco. A causa, explicam-nos, foi a inauguração na cidade americana de um monumento dedicado às "mulheres de conforto", uma expressão eufemística que se emprega para designar as mulheres que foram forçadas à prostituição nos bordéis militares japoneses durante a Segunda Guerra Mundial. O monumento é constituído por três estátuas, enfatizando o carácter internacional das mulheres que foram sujeitas a esse tratamento indigno, que eram, na sua esmagadora maioria, oriundas dos países que estiveram sob ocupação japonesa. As ancestralidades de cada uma das estátuas é reconhecível: há uma chinesa, uma coreana e uma filipina, nacionalidades que formam comunidades importantes naquela cidade americana da costa do Pacífico (assim como a japonesa...). Uma investigação mais aprofundada na internet permite-nos saber ainda, não apenas que a história já tem um ano de que a ruptura ora acontecida será apenas uma conclusão, como também ler quais as razões de queixa do presidente da câmara de Osaka. As razões são veementes, compreensíveis na sua intenção de proteger a reputação da comunidade nipónica versus as outras comunidades asiáticas, mas a sua argumentação é paupérrima e imagino difícil que se pudesse fazer melhor, porque o Japão bateu tudo e todos na crueldade do sistema. O que ali se expõe não é apenas "um dos lados da verdade", como argumenta Hirofumi Yoshimura: é a Verdade, porque o que está em causa já não são as alegações das partes de um julgamento, é a sentença da História. Com os métodos adoptados pelos japoneses assumiu-se escancaradamente que a prostituição se tornara apenas mais uma das componentes da logística dos exércitos. Nada que os outros exércitos não fizessem, mas de forma encapotada, como se constata em Pantaleão e as "visitadoras", um romance sarcástico escrito em 1973 pelo escritor peruano Mario Vargas Llosa a respeito precisamente desse aspecto da logística militar. Mas o que faz a grande diferença para esses outros casos é o facto de os japoneses povoarem os seus bordéis militares quase exclusivamente com mulheres estrangeiras recrutadas sistematicamente à força - incluindo até europeias(!), algo que as potências vencedoras da Segunda Guerra Mundial (e as suas opiniões públicas, correcções políticas à parte) jamais poderão perdoar aos japoneses...

25 junho 2018

O INÍCIO DA GUERRA DA COREIA

25 de Junho de 1950. Sem quaisquer preliminares diplomáticos para, ao menos, constituírem uma capa de justificação, a Coreia do Norte invade a Coreia do Sul. Hoje percebe-se que se tratou de um erro crasso de interpretação das intenções norte-americanas por parte dos soviéticos e de Estaline. Estes não se deviam ter esquecido como os seus adversários americanos e Harry Truman acabavam de enfardar a vitória dos comunistas na Guerra Civil chinesa (em 1  de Outubro de 1949). Às naturais ambições regionais do coreano Kim Il Sung em querer fazer também um bonito no seu país, o senhor do Kremlin devia ter balanceado a capacidade de encaixe de Washington, que Estaline evidentemente sobrestimou. De resto, e nessa mesma perspectiva, é bem verdade que Ho Chi Minh andava a fazer uma coisa parecida no Vietname, mas aí a guerra era anti-colonial e assimétrica, enquanto que na Coreia e desde o princípio se tratou de uma guerra civil e convencional, com os beligerantes em pé de igualdade. O discurso propagandístico dos invasores pela libertação dos seus compatriotas do sul, tinha uma analogia mais do que evidente no exemplo da Alemanha dividida, assustando toda a Europa democrática. E se esse não era um problema de Kim Il Sung, seria um (grande) problema de Estaline. Mas os americanos caíram no erro de presumir que Estaline nunca cairia nesse erro de dar carta branca a Kim. É interessantíssimo analisar o que aconteceu desde que se saibam umas coisas sobre a Guerra da Coreia...
E é tanto mais interessante saber sobre o tema, quanto se assistiu em meados deste mês e a pretexto da cimeira de Singapura, a uma profusão de conversas a respeito das sequelas dessa Guerra da Coreia em que a máquina promocional da administração americana - e a máquina comunicacional que lá vai beber - se distinguiu - como de costume - pela ignorância asinina. Como de costume, esta de Singapura - são todas! - foi mais «uma cimeira histórica», descontando todas as outras cimeiras históricas (abaixo, em 2000 e 2009, as cimeiras com a secretária de Estado Madeleine Albright e com o ex-presidente Bill Clinton), das quais não resultou a ponta de um corno de resultados tangíveis... Se Donald Trump estiver agora disposto a ceder onde os antecessores não o fizeram, aí talvez o panorama mude, mas será que ele tem a capacidade de manobra que Harry Truman há 68 anos não tinha?...



21 dezembro 2017

EM QUE CONSISTE A POPULARIDADE NO MUNDO GLOBALIZADO DO SÉCULO XXI


21 de Dezembro de 2012. Há cinco anos, um vídeo postado no You Tube ultrapassou pela primeira vez as mil milhões de visualizações (1.000.000.000). O feito foi alcançado depois de cinco meses de publicação, a uma média de 200 milhões de visualizações mensais. O contador de visitas original do You Tube teve que ser reconfigurado. O tema responsável por tal incomensurável sucesso é uma canção de um rapper sul-coreano que se auto-designa por Psy. A canção é sobre «a namorada perfeita que sabe quando ser refinada e quando se tornar selvagem» - pelo menos, é essa a descrição sintética que, sobre ela, se pode ler na Wikipedia. Gangnam é um bairro chique de Seul. Outra surpresa é que o fenómeno se originara fora dos Estados Unidos. Mas nunca antes o pueril transmitira assim toda a força do seu gigantismo, quando avaliado a esta escala. Mau grado o desenvolvimento crescente dos índices de educação das populações, a sociedade global do século XXI arrisca-se a manter-se assustadoramente frívola. Nestes últimos cinco anos o número de visualizações de Gangnam Style triplicou em relação à já impressionante marca de há cinco anos, com 3.023.221.615 visualizações no momento em que escrevo estas linhas.

18 abril 2017

A ATENÇÃO À TENSÃO NA COREIA

A superficialidade como se está a cobrir a situação na Coreia dificulta bastante que eu consiga levar o assunto com a seriedade que ele, se calhar, merecerá. Que relevo poderá ter a presença de um mero porta-aviões nas águas adjacentes a uma península de 220.000 km² onde, para mais, já se conhece o precedente histórico de um conflito moderno que durou três anos (1950-53) e que envolveu largas centenas de milhares de combatentes? Como é que se consegue anunciar a movimentação de 150.000 soldados como se isso fosse qualquer coisa que se fizesse assim de um dia para o outro? Nestas guerras, as grandes unidades navais de combate anunciam o seu destino ostensivamente mas navegam bem devagar, enquanto, em contrapartida, parece não existirem problemas de logística entre os exércitos de terra e há até quem opine que os fiascos tecnológicos são malandrices encapotadas (acima) nos ramos do armamento mais sofisticado. Se fosse há muitos anos, comparar-se-ia a situação à guerra do Solnado. Como já estamos no século XXI, as comparações sofisticam-se para filmes como Manobras na Casa Branca (Wag the dog), a alusão a uma guerra oportunamente coreografada por um produtor de Hollywood para desviar as atenções de um episódio embaraçoso para a presidência. A propósito: alguém deu por alguma evolução recente em relação ao assunto das conexões russas com a candidatura de Donald Trump?...

17 março 2017

«I LIKE THE SMELL OF NAPALM DURING THE PRESS CONFERENCE»


Os cabeçalhos que a media destaca do discurso do Secretário de Estado Rex Tillerson são os de que «a paciência estratégica para com a Coreia do Norte acabou» e que «a opção militar está em cima da mesa». E todavia o seu discurso está também envolto em referências ao multilateralismo das consultas com aliados e amigos. Mas, porque o Teatro de Operações em cima da mesa é asiático, eu próprio também não resisto à tentação de adicionar ao discurso belicoso a famosa passagem do heli-ataque acompanhado pela banda sonora da Cavalgada das Valquírias do filme Apocalypse Now mais a referência em título à confissão do Tenente-Coronel Kilgore, que gostava do cheiro do napalm pela manhã.