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25 abril 2024

MAIS CRAVOS EM ARMAS ERRADAS

(Republicação a propósito do cinquentenário)
Já aqui escrevera, no 25 de Abril do ano passado, sobre cravos colocados nas armas erradas. Regresso ao tema, observando a forma displicentemente ligeira como, por vezes, o tema dos cravos do 25 de Abril é tratado. A silhueta da arma da figura acima, por exemplo, é facilmente reconhecível como uma AK-47, uma arma de origem soviética. Para além do erro factual (Portugal sempre pertenceu à NATO, seria impossível que os seus soldados usassem armas daquela proveniência em 1974), e com a ignorância mais do que provável dos autores da montagem, aquela arma pode prestar-se a interpretações maliciosas (mas quiçá pertinentes) sobre a influência que o marxismo-leninismo teve no desvio dos ideais originais do 25 de Abril, só posteriormente corrigidas a 25 de Novembro de 1975.

Aliás, desconhecido de muitos, a começar pelos portugueses, a associação entre cravos e armas individuais de infantaria, especialmente as de origem soviética, é um fenómeno bem mais antigo do que 1974. Abaixo podemos ver um cartaz polaco dos anos próximos do fim da Segunda Guerra Mundial, da época em que vigorava uma amizade fraterna entre russos e polacos. Do ponto de mira da arma (uma PPSh de origem soviética) vêm-se sair dois cravos, um vermelho outro branco, representativos das cores nacionais da Polónia. Apesar de se tratar de uma estética bem conseguida, não consta que os cravos tivessem adquirido grande significado simbólico entre os polacos... Deve ter sido porque lá na Polónia daqueles anos os cravos da Liberdade não se davam muito bem por causa do clima…

25 outubro 2023

AS DUAS POLÓNIAS ESCONDIDAS POR DEBAIXO DA POLÓNIA (2)

Já o havia referido no Herdeiro de Aécio (em Outubro de 2008, há quinze anos!) como as influências das antigas fronteiras que haviam dividido a Polónia entre 1815 e 1918 parecia continuar a influenciar o mapa eleitoral do país, mesmo quase um século depois dessas fronteiras terem sido abolidas e de quase toda a população de língua alemã que ali vivia ter sido expulsa. Como se pode observar pelo mapa abaixo, esse mesmo fenómeno mantêm-se, quando se analisam os resultados das eleições que tiveram lugar em meados deste mês.

05 setembro 2023

TRAUMA DE GUERRA

Em Setembro de 1948 numa escola de Varsóvia, o fotógrafo David Seymour, capta este desenho perturbado e perturbador de uma criança chamada Terezka que teria então 7 ou 8 anos e que assim reproduzia as suas experiências durante a Segunda Guerra Mundial. Uma investigação muito posterior quanto à sua identidade veio a estabelecer que Terezka nunca veio a recuperar a sua sanidade mental: morreu internada em 1978.

02 junho 2023

O QUE É QUE ESTAVAM A FAZER «TROPAS POLACAS» NO IRAQUE?

Esta notícia de 2 de Junho de 1943, narrando factos (a visita de um general polaco ao Iraque), esquece-se de responder à pergunta óbvia que acorreria ao leitor: o que é que estavam a fazer «tropas polacas» no Iraque?... Como é que haviam lá ido parar? Por um lado, a Polónia fora derrotada pelos alemães logo nos inícios da guerra em Setembro de 1939. Depois disso, haviam-se constituído algumas unidades polacas na Europa ocidental a partir de polacos expatriados (e evadidos) que ainda combatiam ao lado dos Aliados. Mas, neste caso, nunca constou que havia uma grande comunidade de emigrantes polacos no Iraque e, por outro lado, Bagdade fica, em linha recta, a mais de 2.800 km de Varsóvia... O que a notícia não explicava (não convinha...), é que estas «tropas polacas» eram antigos prisioneiros de guerra, agora libertados e transportados via Irão, que os soviéticos haviam feito quando, ainda em Setembro de 1939, eles haviam invadido por sua vez a Polónia, em consequência do famoso acordo de partilha da Polónia entre Hitler com Staline. Esses tempos em que os dois haviam sido aliados (1939-41) era um assunto a que agora não convinha aludir...

16 dezembro 2022

UM EPISÓDIO POUCO EDIFICANTE DA HISTÓRIA DA POLÓNIA

16 de Dezembro de 1922. Um escassos cinco dias após a sua tomada de posse, o primeiro presidente da Polónia era assassinado quando de uma visita a uma exposição de pintura. Se a História da Polónia costuma ser sempre narrada enquadrada pelo seu carácter trágico, de que as sucessivas partições do país pelos seus poderosos vizinhos são o expoente, o outro lado da Verdade também demonstra que a luta política naquele país quando independente sempre se caracterizou por um gangsterismo que lhe tinge essa outra imagem de vítima. Embora seja muito menos conhecido. Esta história do assassinato do presidente Gabriel Narutowicz (1865-1922) deve ser contada, mesmo que sucintamente. A eleição para o cargo presidencial polaco naquela época processava-se através da realização de eleições sucessivas entre os membros da Assembleia Nacional até que um candidato obtivesse a maioria absoluta de votos. Era um processo bastante comum - acontecia o mesmo em Portugal. Ora Gabriel Narutowicz foi um candidato improvável, apresentado à última da hora por um partido menor, cuja virtude principal havia sido a capacidade de congregar os votos dos deputados de todas as formações que se opunham à eleição do candidato da formação nacionalista de direita que dispunha da maioria (relativa) da representação parlamentar, a Narodowa Demokracja (ND). A evolução do resultado das eleições poderá explicar o que aconteceu: na primeira votação, o candidato da ND, conde Zamoyski, recebeu 222 votos e Narutowicz apenas 62, enquanto na votação decisiva Zamoyski recebeu 227 votos enquanto Narutowicz o ultrapassou com 289 votos. Enfim, ao aproveitar-se mais do que seriam as antipatias do oponente do que propriamente das simpatias próprias, ter-se-á estado na presença de um verdadeiro fenómeno geringonçico bem precoce, embora sem o privilégio do contributo de Vasco Pulido Valente para o descrever e baptizar. A reacção da ND é que foi bastante mais exuberante do que a do PàF. No livro «A Concise History of Poland», cuja referência ao episódio também se pode qualificar de um pouco concisa em excesso (abaixo), a expressão adoptada é fúria. Talvez peque por defeito: nos cinco dias do seu mandato houve constantes manifestações de rua a acompanhar as deslocação do recém-empossado presidente. Activas: atiravam pedras à passagem da comitiva. Até à vernissage de há 100 anos, em que um pintor de nome Eligiusz Niewiadomski (1869-1923) assassinou o presidente, atingindo-o com três tiros. O que vale é que, em termos de justiça, também tudo se passava a um outro ritmo: o assassino foi fuzilado mês e meio depois. Houve quem o considerasse, ao assassino, um herói. No fanatismo, nada mudou: ainda hoje há quem continue a considerar que, em Novembro de 2015, Pedro Passos Coelho devia ter continuado a ser o primeiro-ministro, mesmo sem dispor de apoio parlamentar. Só porque sim.

30 novembro 2022

O ANTI-SEMITISMO NA POLÓNIA (...E NA UCRÂNIA)

Esta notícia de 30 de Novembro de 1932 comprova quanto as manifestações de anti-semitismo podiam ser frequentes nos países da Europa de Leste, nomeadamente na Polónia. Como pormenor inconveniente adicional, refira-se que a cidade de Lwow (hoje Lviv), que em 1932 era polaca, hoje é ucraniana. O anti-semitismo também se estendia aos ucranianos.

07 abril 2022

O FANTASMA DE ÁLVARO CUNHAL E A QUESTÃO DO QUE COMBINA BEM COM OS ÓCULOS ESCUROS

Há quarenta anos o regime militar polaco, resultante da imposição da Lei Marcial naquele país em 13 de Dezembro de 1981, estava diplomaticamente isolado no que aos países ocidentais dizia respeito. E quem é a carinha laroca que os comunistas se lembram de ir desencantar para dar uma aparência contrária a isso? Álvaro Cunhal que, como se lê na notícia acima, era «o primeiro secretário-geral de um partido comunista da Europa ocidental» a «avistar-se» com os óculos escuros do general Jaruzelski, o rosto sombrio da ditadura militar polaca. Mesmo não sendo comunista (o que é uma opção política), mas apenas como português (que isso, já não é opção), assaltava-me a vergonha alheia ao ver a secção portuguesa do movimento comunista internacional dar mostras de tal servilismo perante interesses que, na mais benigna das hipóteses, nos eram alheios - mas que, sobretudo, eram descaradamente contrários a tudo o que o PCP pregava por cá. Enfim, comunismo e ética eram (e continuam a ser) antónimos. Quarenta anos passados, vê-se o quanto o fantasma de Álvaro Cunhal está vivo no seu seguidismo de Moscovo, assombrando ainda hoje a sede do PCP, na Soeiro Pereira Gomes. O que mudou foram as circunstâncias em que se usam óculos escuros. Passou-se da farda de Pinochet, para o fato e gravata de Jaruzelski, para o tronco nu de Putin!

23 março 2022

OS ESPIÕES COMUNISTAS DOS PAÍSES DA EUROPA DE LESTE

O acontecimento explica-se pela leitura da notícia. O ministério dos Negócios Estrangeiros português instara as representações diplomáticas da União Soviética, Polónia e Alemanha Oriental a reduzir os seus efectivos acreditados na capital portuguesa, considerando a desproporção de funcionários existentes nas respectivas capitais: os soviéticos possuíam em Lisboa o sêxtuplo dos funcionários diplomáticos portugueses a trabalhar em Moscovo; os polacos e os alemães de Leste, tinham só mais do dobro. Imperava uma cortesia hipócrita, de quando em vez desmascarada, já que o nível das relações económicas, comerciais, culturais e outras entre Portugal e qualquer daqueles países não justificava os batalhões de efectivos estacionados ao redor das suas embaixadas nas capitais da Europa ocidental. No PCP é que não se apreciava particularmente estas operações.

13 março 2022

O FRENESIM MEDIÁTICO DA ACTUALIDADE QUANDO COMPARADO COM A «BLITZKRIEG» ORIGINAL

Tal é o frenesim mediático que acompanha a cobertura da invasão russa da Ucrânia, que hoje, 18º dia do conflito, vivemos sob a impressão que já aconteceram imensas coisas importantes. Na verdade, não aconteceram. Mais, raramente acontecem. Um óptimo exercício para o perceber consiste em sobrepôr o calendário actual da invasão russa da Ucrânia, com o calendário da invasão alemã da Polónia, a campanha que coincide com o eclodir da Segunda Guerra Mundial, a partir de 1 de Setembro de 1939. O ritmo dos acontecimentos parecia tão acelerado naquela altura que apareceu a palavra blitzkrieg (guerra relâmpago em alemão) para o descrever. Mas, mesmo por esse padrão e apesar dos exércitos polacos estarem a recuar em todas as frentes, um pouco à semelhança do que parece estar a acontecer na Ucrânia, só ao 17º dia dos combates (17 de Setembro) é que aconteceu algo de significativo: noutro momento indigno da Rússia, esta invadiu a Polónia pelo Leste. Talvez a Bielorrússia esteja a pensar fazer o mesmo... Servindo o exemplo polaco de referência - Varsóvia resistiu quatro semanas e a campanha da Polónia terminou em cinco (35 dias) - então será de antecipar a conquista de Kiev pelos russos para uma data à volta de 23 de Março e a rendição das tropas ucranianas para o fim deste mesmo mês. Tudo o que for para além disso é para ser considerado bónus para os ucranianos. Explicado o método simples como foram estimadas, são previsões que valem o mesmo que várias outras que já ouvi por aí pela comunicação social.

24 fevereiro 2022

UMA SINTÉTICA HISTÓRIA DA UCRÂNIA

Esta é a republicação de um poste originalmente publicado no Herdeiro de Aécio em 21 de Março de 2014, na sequência da crise que culminou com a ocupação da Crimeia pelos russos, poste esse que, historiando a questão sempre delicada das relações entre russos e ucranianos, as circunstâncias actuais terão tornado novamente interessante (re)considerar.
Uma das ironias mais interessantes da actual situação que confronta Rússia e Ucrânia é que o primórdio da História dos dois países é comum. Ou melhor: a História da Rússia começou na Ucrânia. O primeiro capítulo de A History of Russia c. 882 – 1996 de Paul Dukes é dedicado à construção e colapso de Kiev, 882 – 1240; também em Russia’s Empires de Philip Longworth o primeiro dos impérios russo é o de Kiev, c.850 – 1240. O primeiro capítulo deste segundo livro aborda até um tema pertinente, mas de discussão impertinente nos dias que correm: quem são os russos? Serão os ucranianos um subgrupo dos russos? Mas ultrapassemo-lo para começar a narrativa da fundação da cidade de Kiev (Kyiv em ucraniano) nas margens do rio Dniepre, na encruzilhada de duas rotas comerciais: uma terrestre que ligava de Leste para Oeste a Europa e a Ásia Centrais, a outra fluvial e na época muito mais importante, de Sul para Norte, conectando o mar Báltico e o mar Negro e, através deste, a grandiosa metrópole de Constantinopla, a capital do Império Romano.
As elites desse primeiro estado russo terão vindo de Norte, da Escandinávia, numa época em que, como vikings, os povos nórdicos atravessaram uma verdadeira explosão populacional que os fez instalarem-se por quase toda a Europa. Mas as principais influências culturais vinham do Sul. O ano de 988 é considerado o ano da adopção do cristianismo como religião oficial pela corte de Kiev – compare-se com datas simbólicas semelhantes para a Polónia (966) ou a Hungria (1000). Porém, ao contrário destes dois casos, o rito adoptado em Kiev é o Ortodoxo e a subordinação é ao Patriarca de Constantinopla, em vez do Papa. É a expansão deste estado conectando Kiev num eixo de Sul para Norte até à cidade mercantil de Novgorod (veja-se o mapa acima) que lhe confere o carácter pan-eslavo que o torna o antepassado daquilo que seria uma ideia mais vasta transcendendo o que seria apenas os primórdios da nacionalidade ucraniana. Esse estado foi-se expandindo e fraccionando em unidades menores autónomas ao longo dos Séculos XI e XII, até à data inequívoca do seu colapso final, a da conquista e o saque de Kiev pelos mongóis em 1240.
Os centros de poder mudaram-se com ela. A Ocidente haviam sobrado da conquista mongol os principados da Galícia e da Volínia, em breve fundidos num só reino e também numa complexa relação de hostilidade política mas aproximação cultural com os reinos católicos adjacentes da Polónia e da Hungria. A Nordeste, uma miríade de principados genuinamente russos começava a recompor-se dos efeitos do tsunami mongol e a evoluir paulatinamente para a concentração à volta de Moscovo como centro do primeiro estado genuína e especificamente russo. Mas foi de Noroeste que vieram os próximos senhores da Ucrânia: em 1362, Kiev foi conquistada, passando a fazer parte de um grão-ducado da Lituânia que estava em vias de se tornar territorialmente num dos maiores estados europeus (acima). Em 1386, esse grão-ducado reuniu-se ainda num regime de união pessoal com o reino da Polónia. Durante quase 200 anos a unidade dessa associação de coroas permaneceu frágil, à mercê das vontades dos nobres polacos, onde a escolha do rei se processava por eleição. Era um estado extensíssimo, mas frágil por falta de uma metrópole central: note-se no mapa abaixo o rosário de cidades importantes mas todas periféricas, sem capacidade de assumir a preeminência, desde Vilnius no Norte, a capital da Lituânia propriamente dita e depois, no sentido horário, Smolensk, Kiev, Lvov, Cracóvia e Varsóvia.
Finalmente, em 1569 deu-se a formalização da União dos dois estados, num figurino que iria durar outros 200 anos, embora a solução tenha sido alcançada à custa de uma supremacia da metade polaca (e católica) sobre as restantes nacionalidades. No entanto, reconheça-se que o ressurgimento económico de Kiev data dessa época da segunda metade do Século XVI. É nessa altura que a palavra Ucrânia (que quer dizer região fronteiriça) começa a ser empregue, que a nobreza ucraniana, que era originalmente lituana, se torna polaca por aculturação, e que uma identidade verdadeiramente ucraniana se começa a forjar com o aparecimento dos cossacos. Cossaco é uma palavra que tem uma interpretação fluida: há quem o considere um grupo étnico, há quem o considere sobretudo um modo de vida. Tratava-se originalmente de servos que abandonavam as suas regiões de origem para se irem instalar para lá do Dniepre, terras ainda por desbravar e que, por isso, estavam fora do alcance das autoridades tradicionais. Essas sociedades que aí se formavam eram predominantemente masculinas, violentas, permitiam ascensões sociais abruptas e eram também ferozmente ortodoxas, nem que fosse para acentuar o contraste com o catolicismo polaco do status quo que haviam abandonado. Os cossacos costumam ser frequentemente comparadas aos cow-boys do Oeste norte-americano embora tivessem ainda sobre eles a possibilidade adicional de se tornarem mercenários.
Em 1648, um desses generais mercenários, Bohdan Khmelnytskyi (1595-1657), desencadeou uma revolta bem-sucedida contra o poder lituano-polaco no fim da qual (1654) conseguiu obter o reconhecimento de uma autonomia para um estado cossaco na Ucrânia a Leste do Dniepre englobando a própria cidade de Kiev. O mapa acima mostra-nos a área desse estado autónomo. Mas note-se como, tratando-se da fronteira da civilização de então, quase todo o terço oriental da Ucrânia moderna, incluindo até a cidade de Kharkov (Kharkiv em ucraniano, cidade que só virá a ser fundada em 1656), ainda não faz parte dessa civilização. Ora, no Portugal contemporâneo já se havia dado a Restauração (1640) e era a última dinastia da sua História que ocupava já o trono. As inúmeras análises que se lêem actualmente sobre a Ucrânia tendem a esquecer esse aspecto: a sua relativa juventude quando comparada com os espaços da velha Europa. Para o que interessa, Khmelnytskyi transformou-se num herói da história ucraniana… mas também da história russa: as necessidades da política internacional obrigaram-no, para que a secessão tivesse sucesso, a trocar a suserania polaco-lituana pela dos russos de Moscovo. Em contrapartida, o tratamento histórico dado ao seu sucessor Ivan Mazepa (1639-1709) já não será assim tão consensual, porque ele tentou inflectir a política de associação com a Rússia, coligando-se com os seus inimigos suecos. Infelizmente para ele, o tsar Pedro o Grande venceu a decisiva batalha de Poltava em 1709. Os cossacos da Ucrânia Oriental perderam quase todos os seus direitos especiais. E 84 anos mais tarde, nas partições da Polónia de 1793 e 1795 (abaixo), a Rússia conseguia anexar quase toda a Ucrânia Ocidental, com excepção da Galícia (com a cidade de Lvov, rebaptizada de Lemberg), que coube à Áustria.
Apresentando-se repartida por dois Impérios multiculturais, a Ucrânia desaparece da História política por 200 anos para conseguir ressurgir no Século XIX através da sua identidade cultural. A questão é que existiam dois pólos que a dinamizavam, através da literatura e da poesia: Kiev na Rússia e Lvov na Áustria. Havia muito a distingui-los: o passado histórico, que fazia com que a religião predominante na Galícia fosse o greco-catolicismo (ortodoxos, mas integrados na hierarquia da igreja católica romana) enquanto a religião maioritária do resto dos ucranianos era a ortodoxa tradicional (sedeada em Moscovo); mas também o presente político, dividindo para reinar, os austríacos incitavam o nacionalismo ucraniano para que ele servisse de contrapeso ao polaco, os russos, pelo seu lado, reprimiam-no brutalmente, o ucraniano e o polaco. Entre 1876 e 1906 proibiu-se na Rússia a impressão de obras escritas em ucraniano. Eram publicadas em Lvov. A relação entre as duas metrópoles da cultura ucraniana faz lembrar, ainda hoje, a de dois irmãos que não desenvolveram grande intimidade entre si. Mas note-se a ausência nesta equação de cidades importantes situadas na Ucrânia, como a já acima referida Kharkov ou então Odessa, fundada em 1794 por decreto de Catarina II, uma cidade portuária de formação cosmopolita (teve até o duque de Richelieu por um dos seus primeiros governadores), situada nas costas do mar Negro. Em 1917, Odessa era a quarta maior cidade do Império e a maior da Ucrânia, mas era uma cidade imperial, mais russa que ucraniana.
O colapso dos Impérios russo em 1917 e austro-húngaro em 1918 constituiu uma oportunidade impar para que os nacionalistas obtivessem a independência da Ucrânia. A fotografia acima é de Janeiro de 1919, foi tirada em Kiev, uma manifestação celebrando a proclamação da união da antiga Ucrânia russa com a Ucrânia ocidental que fora austríaca. As ameaças à existência desta Ucrânia eram, porém, poderosas. Não apenas as duas facções russas (vermelhos e brancos) que se digladiavam na guerra civil pelo domínio do Império e que recolhiam significativas simpatias entre os ucranianos de concepção pan-eslava, mas também as aspirações nacionalistas de uma Polónia entretanto renascida, disposta a recuperar territórios da Ucrânia ocidental que haviam sido seus 125 anos antes. Em 1925, a Ucrânia estava de novo dividida por uma nova fronteira que se assemelhava muito à de 1914, só que a Galícia e a Volínia (com Lvov) estavam agora sob tutela polaca (abaixo). Agora era do lado russo que havia uma maior tolerância para a cultura ucraniana – embora a capital da república socialista soviética da Ucrânia até 1934 tivesse sido Kharkov! – enquanto a repressão cultural se fazia sentir mais vincadamente a Ocidente, com os polacos a procurar assimilar culturalmente os ucranianos. Porém, para além dos aspectos culturais, a administração soviética da Ucrânia tornou-se responsável por uma palavra específica, cunhada para acontecimentos que só se tornaram verdadeiramente conhecidos de há uns 25 anos para cá: Holodomor. É sinónimo de uma fome generalizada e deliberadamente provocada, consequência directa do processo de colectivização das terras agrícolas e que terá custado a vida a vários milhões nos princípios da década de 1930, sob Staline.
Foi em consequência disso que, durante a Segunda Guerra Mundial e especialmente depois da invasão da União Soviética pela Alemanha em 1941, os nacionalistas ucranianos começaram por acolher favoravelmente os invasores alemães até se aperceberem que eles não passavam de um terceiro partido num gigantesco embate de titãs, pouco atreitos às subtilezas de quem estava de permeio. Acabaram por ser aliados de uns e outros (alemães e soviéticos) assim como também os combateram. Serão poucos os que sabem que um dos principais generais soviéticos a ter combatido na Ucrânia, Nikolai Vatutin (1901-1944), morreu em consequência dos ferimentos causados por uma emboscada montada por guerrilheiros ucranianos; serão poucos os que sabem que vários anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial ainda havia uma guerrilha nacionalista activa que obrigava à mobilização de vários milhares de homens do KGB. Mas a verdade é que não foi apenas por culpa dos soviéticos que os nacionalismos dos povos constituintes da União Soviética (é também o caso dos povos bálticos) desapareceram da agenda mediática nos 45 anos que se seguiram ao fim da guerra. Os Estados Unidos também os consideraram causas nacionais desinteressantes, demasiado expostas e com poucas possibilidades de sucesso, situadas muito para além das fronteiras de segurança que os soviéticos haviam traçado em Ialta – nomeadamente a cortina de ferro. Mas não nos antecipemos…
A Ucrânia terá sido uma das repúblicas da União Soviética mais severamente devastada pelo conflito de 1941-45. Depois da guerra recuperou as duas províncias ocidentais que haviam pertencido à Polónia. O processo foi também acompanhado de uma importante migração de populações: mais de um milhão de polacos foram transferidos para Ocidente, um número substancialmente inferior de ucranianos atravessaram a fronteira no sentido inverso. A Ucrânia era a segunda república mais importante da União, a seguir à própria Rússia e a política oficial era de que tudo corria pelo melhor na relação entre elas (acima, um cartaz de propaganda a esse respeito). É claro que nem sempre era bem assim: em 1972, Leonid Brejnev afastara o primeiro secretário do partido comunista ucraniano Petro Shelest, acusado de nacionalismo e substituído por um Vladimir Shcherbytsky de muito mais confiança. Tanta, que ele ainda por lá estava, no mesmo cargo, em 1989… Nesse mesmo ano realizou-se aliás o último censo soviético. Segundo ele, 72% da população da Ucrânia era classificada como ucraniana, enquanto 22% era russa, concentrada sobretudo nas províncias (oblast) orientais e meridionais (abaixo). Mas tratava-se de uma daquelas imagens convenientes, típicas da lógica soviética de mostrar aquilo que se deseja (uma nacionalidade maioritária dentro da sua própria república), e não aquilo que já então deveria existir e que se mostra no mapa final, resultado do censo realizado em 2001: há uma apreciável proporção de ucranianos que se exprimem em russo e que constituem, com os russos propriamente ditos, um bloco sociológico (e também político) que tem um peso demográfico (e também eleitoral) muito semelhante ao dos ucranianos que se exprimem em ucraniano (mais abaixo).
Podem-se ver nesta ligação alguns exemplos da coincidência entre a distribuição geográfica das votações de diversos actos eleitorais e estes mapas etno-linguísticos. Pode dizer-se que na Ucrânia coexistem dois eixos ligando cidades importantes: há um, cultural, no sentido Leste-Oeste que liga Kiev a Lvov (azul), cidades a que aqui várias vezes nos referimos ao longo desta sintética História da Ucrânia; há outro, económico, de Nordeste para Sudoeste, unindo Kharkov com Odessa (vermelho), cidades que foram muito menos referidas. O que é muito mais difícil será perceber como se pode conectar um eixo com o outro… e manter a unidade da Ucrânia sem que uma das metades tenha a sensação que está a ser dominada pela outra. Trata-se de um país dividido e será uma evidência dizer que não se devem propor propostas de divisão de um país de ânimo leve. Mas também é verdade que não se pode excluir tal hipótese e que houve várias razões circunstanciais que levaram as potências a decidirem-se pela divisão de um país: fosse por 20 anos (o Vietname), por 70 anos (e ainda a contar: caso da Coreia) ou mesmo sem fim à vista (a Índia e o Paquistão). Mas permitam-me agora regressar à cortina de ferro que deixámos em suspenso lá em cima e evocar o exemplo da Alemanha, com uma sociedade aparentemente muito mais cimentada do que aquilo que acontecerá na Ucrânia, que também permaneceu dividida por 45 anos devido às tais circunstâncias. Vale a pena essa referência para nos apercebermos do quanto as fronteiras de segurança da Rússia recuaram neste últimos 25 anos, quando a criação de um estado satélite quase no centro da Europa (Alemanha Democrática) é agora substituída pela hipótese de um seu equivalente (Ucrânia oriental) na sua vizinhança imediata. Esta última observação não é para o leitor ter pena dos russos, é para que se perceba que os norte-americanos não andam nisto para lhes facilitar a vida.

23 outubro 2021

RELEMBRAR QUANTO «OS PROLETÁRIOS DE TODOS OS PAÍSES NÃO ESTAVAM NADA UNIDOS»...

Apesar dos apelos dos slogans marxistas*, a ambicionada unidade do proletariado de todo os países, acaba por ser uma grande aldrabice. A sessão do congresso anual dos sindicatos britânicos de há 75 anos mostrava-o à saciedade. A sessão é descrita como «tempestuosa» e foi dominada pela hostilidade dos congressistas para com os trabalhadores imigrados polacos, descritos como «os visitantes mais impopulares que a Grã-Bretanha tem tido». Lembre-se que, depois de 1945, os comunistas se haviam apropriado no poder na Polónia. Por isso, a questão da presença de trabalhadores polacos no Reino Unido, muitos dos quais se tinham ali refugiado durante a Segunda Guerra Mundial, continha uma delicadeza política que se sobrepunha a considerações económicas da disputa dos mesmo postos de trabalho com os trabalhadores britânicos entretanto desmobilizados. A acrescer a isso, o governo britânico era trabalhista, de uma esquerda que ia buscar a sua maior sustentação política precisamente àqueles sindicatos que agora se manifestavam contra os polacos. Esta hostilidade dos proletários britânicos para com os proletários polacos que não queriam regressar ao seu país, agora teoricamente dirigido por uma ditadura do proletariado, possui uma ironia acrescida quando observada agora a esta distância de 75 anos: a comunidade polaca no Reino Unido cresceu enormemente no século XXI, tendo passado de 66.000 pessoas em 2001 até ultrapassar as 900.000 pessoas em 2016, ano do referendo do Brexit; depois disso, a comunidade reduziu-se em 25%, nomeadamente no contingente de camionistas que se encarregavam dos transportes rodoviários. Essa falta - estimada em 100.000 camionistas - está a fazer-se sentir seriamente no Reino Unido, provocando várias rupturas de stocks de muitos produtos de consumo, o mais preocupante são os combustíveis. A questão é que os camionistas polacos, instados a retomar o trabalho no Reino Unido, não se mostram interessados nisso - «Não, obrigado, primeiro-ministro», é a resposta de um camionista polaco a uma oferta de um visto de trabalho por três meses. Há que concordar que faz um certo contraste com a forma como os seus avós eram tratados há 75 anos.
* Há uma corrente do nosso pensamento intelectual muito minoritária, muito ignorante, mas muito assertiva, que atribui a autoria da frase a Lenine (Fernanda Câncio).

20 outubro 2021

PORQUE É QUE HÁ CERTAS NOTÍCIAS QUE NÃO SÃO NOTICIADAS?

Comece-se por explicar que o primeiro-ministro polaco, Mateusz Morawiecki, esteve ontem de visita ao parlamento europeu, em Bruxelas. Onde foi ostensivamente maltratado. Não apenas pelos parlamentares europeus, mas também pelos membros da comissão, a começar pela sua presidente Ursula von der Leyden. O governo polaco está entalado entre as suas (naturais) pretensões de soberania, a sanção de Bruxelas de não lhes conceder os fundos comunitários e uma opinião pública polaca que, ao contrário da britânica, se mostra esmagadoramente a favor da permanência na União Europeia (17% a favor da saída contra 62% a favor da manutenção). Mas chega de falar do que é importante. Falemos do que é noticiável, nomeadamente o episódio que aparece no vídeo acima, que foi protagonizado pelo próprio Mateusz Morawiecki e pelo eurodeputado português Pedro Silva Pereira, naquela ocasião a presidir aos trabalhos parlamentares enquanto o polaco discursava. Apesar de não ter encontrado nenhuma versão em português, o episódio conta-se em poucas linhas: o 1º ministro polaco estava a prolongar o seu discurso, o  presidente em exercício da câmara já o havia instado por mais do que uma vez a terminá-lo, o orador queixou-se da insistência, dizendo que estava a cumprir o que fora combinado, um discurso de 30 a 35 minutos, ao que o português replicou que não confirmava aquela afirmação (ou seja, o polaco estava a mentir*). A cena foi rematada pelo pedido do polaco: «Não me interrompa, por favor». O eurodeputado socialista português no entanto, reservou para si uma punchline depois do 1º ministro polaco ter terminado o seu discurso: depois de enfatizar que procedera com a maior tolerância para com a ultrapassagem do tempo concedido, alertou que o respeito demonstrado pelo tempo concedido também era uma medida do respeito demonstrado pelo 1º ministro polaco para com aquela casa da democracia europeia. Ora se, quando do futebol internacional, é notícia de destaque um golo de um dos jogadores portugueses a actuar em qualquer dos grandes clubes por essa Europa fora, é com grande estranheza que não vejo este golo europeu de Pedro Silva Pereira a ser destacado pelos noticiários nacionais, para mais quando se trata de um eurodeputado socialista. Será porque, mesmo tratando-se de um socialista, não interessa dar-lhe destaque mediático por se tratar de um socratista?...

* Os serviços fizeram depois saber que o que ficara acordado era que von der Leyden e Morawiecki fariam os dois, por essa ordem, uma curta intervenção de cinco minutos ao parlamento. De facto, a intervenção da presidente da comissão durou cerca de dez minutos; a do 1º ministro polaco trinta e três minutos (e a notificação do presidente Pedro Silva Pereira, que aparece acima, ocorreu quando já haviam passado 27 minutos de discurso)

18 outubro 2021

A PREVISÍVEL DITADURA MILITAR MARXISTA-LENINISTA NA POLÓNIA

18 de Outubro de 1981. Depois de, oito meses antes, o general e ministro da Defesa Wojciech Jaruzelski, se ter tornado o chefe do governo polaco, agora era a vez de, por sua vez, se ver eleito para dirigente do partido comunista polaco. Na Polónia, uma sociedade socialista, a liderança política, administrativa e militar concentrava-se num só general. À concentração dos poderes num só homem, isso até era uma marca de água de qualquer regime comunista. Agora que esse homem fosse um militar de carreira, um general, isso era indiscutivelmente uma novidade na teoria histórica do marxismo-leninismo. Ao contrário do que anunciava o título da notícia, o problema não era a apreensão do papa (João Paulo II, um polaco) nem as prudências das duas superpotências. A questão centrava-se mais na incógnita de se começar a navegar em mares que as cartilhas do marxismo-leninismo nunca haviam cartografado. Marx falara da ditadura do proletariado, não da ditadura do generalato. Para mais, havia a propaganda comunista contra os regimes militares, normalmente de origem sul-americana e oligárquicos, embora houvesse alguns exemplos sul europeus, casos da Grécia ou da Turquia. Mas esta situação na Polónia era ao contrário das que os comunistas estavam acostumados a atacar: o que diria a doutrina  quando os ditadores militares eram progressistas, como chegara a ser o espectro em Portugal em 1975, por ocasião do PREC?... Nesse caso, um ditador militar e a imposição de uma ditadura militar torna-se bom? Isso ia contra toda a genética da subordinação dos militares ao poder dos sovietes, um princípio que fora estabelecida desde o princípio da União Soviética por Lenine, com Trotsky a protagonizá-lo à frente do Exército Vermelho. Normalmente, estas questões da doutrina da Fé seriam decididas em Roma Moscovo pelo camarada Mikhail Suslov, mas, quem estivesse atento ao que se estava a passar, aperceber-se-ia que o «"nerd" do socialismo soviético tardio» até aparecia por detrás da solução do general Jaruzelski...

04 julho 2021

O «POGROM» DE KIELCE

4 de Julho de 1946. Há exactamente 75 anos tinha lugar um pogrom (palavra de origem russa que designa um ataque colectivo e maciço aos indivíduos e propriedades de uma minoria segregada, normalmente judeus) em Kielce, uma média cidade do centro-sul da Polónia (205.000 habitantes na actualidade). Nos anos precedentes, a Polónia assistira a milhares de outras ocorrências como aquela: sob ocupação alemã, a comunidade judaica polaca reduzira-se de 3,3 milhões em 1939 para 0,5 em 1945. A particularidade desta efeméride está no ano: 1946. A Segunda Guerra Mundial já acabara há catorze meses, os alemães (especialmente os residentes a oeste da nova Polónia) passaram de algozes a vítimas, expulsos desta vez pelos polacos que lhes ficavam com propriedades e bens, mas a ocorrência deste pogrom demonstrava que a sorte dos judeus só evoluíra no sentido de deixarem de ser exterminados industrialmente. Podia ser verdade que a morte de 42 judeus (e tantos outros feridos) perseguidos pela multidão seriam comparativamente um detalhe numa comunidade que se reduzira a 15% do que fora, mas o episódio representava um clímax que chocava todos aqueles que dele tiveram conhecimento. Depois do incidente, confrontaram-se duas máquinas de propaganda com interesses diferentes: a) a do regime comunista polaco quis abafá-lo, pois ele perturbava seriamente a legitimidade que o regime desejava e que os Aliados Ocidentais não lhe queriam conferir; o referendo que o regime havia organizado no Domingo anterior (30 de Junho de 1946) fora uma gigantesca fraude; b) a dos sionistas judeus quis empolá-lo o mais possível, posto que transmitir a imagem de insegurança (mesmo após a guerra) das comunidades judaicas da Europa de Leste era uma forma de estimular essas comunidades a emigrar e condicionar as opiniões públicas ocidentais a aceitar a emigração de todos esses judeus para a Palestina. Dali por 21 anos (1967), já a comunidade judaica na Polónia estaria reduzida a umas 25 a 30.000 pessoas, a esmagadora maioria delas sem ser sequer praticantes mas isso não impediu que houvesse uma última campanha anti-sionista na Polónia.
Só se surpreende com algumas características ultra-conservadoras e xenófobas da direita polaca quem desconhecer a história daquele país. A xenofobia foi característica transversal da sociedade. E quanto ao aspecto da memória, repare-se ainda que quem descerrou a placa evocativa acima foi Lech Wałęsa em 1990 - 44 anos depois dos acontecimentos...

27 março 2021

A FORÇA DA CLASSE OPERÁRIA

Para quem gostar de evocar efemérides, assinale-se que hoje se completa o 40º aniversário da primeira demonstração da central sindical Solidariedade contra o governo comunista da Polónia. Apesar de ter sido denominada suavemente por greve de advertência, a greve parcial de quatro horas (das oito da manhã ao meio dia, como se pode ler acima) teve um sucesso retumbante, com uma adesão estimada entre os 12 a 14 milhões de grevistas. Fazendo uma proporção com o que isso poderia representar em Portugal, seria uma adesão equivalente a quase 4 milhões de trabalhadores, o que seria muito mais do que aquilo que o PCP e o seu braço sindical, a CGTP, se atreveriam à época a reivindicar em situação equivalente dentro de portas. Não seria só pelas óbvias razões ideológicas mas também por prosaicas razões aritméticas que a situação laboral na Polónia era - e permanecerá - um assunto tabu para os comunistas portugueses.

28 fevereiro 2021

A MORATÓRIA QUE SALVAVA FINANCEIRAMENTE A POLÓNIA

28 de Fevereiro de 1981. Muito escondida no Diário de Lisboa, esta seria porventura uma das notícias mais interessantes daquele dia, a de que os Estados Unidos haviam prorrogado os prazos de vencimento das dívidas que a Polónia havia contraído junto dos bancos americanos. Por arrastamento, os restantes bancos ocidentais que haviam emprestado dinheiro à Polónia iriam adoptar aquela mesma medida. A Polónia era então uma presença rotineira nos cabeçalhos noticiosos por causa da crise social que ali grassava desde o Verão de 1980. Sendo um país da órbita da União Soviética, uma preocupação recorrente era o comportamento que esta última adoptaria no caso da crise política polaca escapar ao controle dos dirigentes locais: havia os precedentes das intervenções soviéticas na Alemanha Oriental (1953), na Hungria (1956) e na Checoslováquia (1968). Mas o que não se assumia era que os Estados Unidos eram, como acima se vê, outra das incógnitas da equação polaca. A Polónia era um país comunista onde, graças a subsídios, se vivia com um padrão de vida acima do que a sua própria economia conseguia suportar. Mas, porque a Leste os capitais eram escassos, quem acabava por sustentar esse «bem-estar socialista» era a «banca capitalista» do Ocidente. A execução das dívidas que os Estados Unidos haviam diferido, salvava a Polónia de ser relegada para a condição de um estado pária no campo das finanças mundiais (FMI) por incumprimento. Incumprimento esse que não interessaria ao «status quo» - tanto o comunista quanto o capitalista. E também não interessava a ninguém que se soubesse com tanta nitidez que a Polónia estava quase tão dependente financeiramente de Washington como o estava politicamente de Moscovo. A notícia aparecia na página 10 e não muito desenvolvida nas explicações das justificações e consequências do que noticiava.

09 dezembro 2020

A ELEIÇÃO DE LECH WAŁĘSA PARA A PRESIDÊNCIA DA POLÓNIA

9 de Dezembro de 1990. Na Polónia e na segunda volta de uma eleições presidenciais pela primeira vez livres*, Lech Wałęsa é eleito presidente da Polónia. Apesar de não se querer prestar muita atenção à fraquíssima afluência às urnas (53,4%), a eleição de Wałęsa é aceite pelos polacos e também internacionalmente como uma inevitabilidade: não é ele o segundo polaco mais conhecido no Mundo, logo a seguir ao papa João Paulo II? E, para o Ocidente, não se tornou Wałęsa num ícone de uma Guerra Fria acabada de vencer? O problema da eleição de Wałęsa, saberão naquela altura só aqueles que acompanham o assunto por dentro, são as debilidades estruturais (algumas de carácter, mas sobretudo de formação e de preparação) do novo presidente polaco. Como muitos ícones da política, mais simbólicos que substantivos, são excelentes quando são invocados e brandidos mas tornam-se um problema quando são eleitos para cargos executivos para os quais não mostram qualquer preparação e/ou vocação (alguns anos antes de Wałęsa, Corazón Aquino fora um outro exemplo desse mesmo fenómeno nas Filipinas). A presidência de Lech Wałęsa (1990-1995) virá a revelar-se conflituosa e controversa e ele virá a perder, ainda que marginalmente (recebeu 48% dos votos), a segunda volta das eleições presidenciais polacas de 1995. Mas a grande humilhação do antigo electricista, líder sindical,  tornado ícone da Polónia Livre, aconteceu em 2000, quando se apresentou por uma terceira vez ao escrutínio dos polacos e recebeu uns míseros 1% dos votos... Ultrapassado e desconsiderado no mundo abrasivo da política polaca, a reputação de Lech Wałęsa atingiu o seu nadir nos princípios do século XXI quando teve de se defender de acusações de colaboracionismo com a antiga polícia política comunista. Depois disso, pôde-se assistir a movimentos de recuperação da sua reputação, como é o caso deste filme mais abaixo de 2013 de Andrzej Wajda. Uma nota mesmo a propósito mas sobre a situação política actual: como se percebe com esta evocação, o problema da existência de pessoas verdadeiramente impreparadas para ocupar cargos unipessoais de grande responsabilidade não é recente; e, no entanto, o Mundo parece nunca ter assistido a um caso com tanta ressonância mediática quanto o de Donald Trump nos Estados Unidos. As razões para tal ressonância serão certamente outras que não a mediocridade dos protagonistas. Contudo, uma coisa é certa: exemplos como o de Lech Wałęsa podem ajudar-nos a avaliar algumas das manobras políticas em perspectiva; assim, quando se agita a possibilidade de Donald Trump se voltar a recandidatar em 2024, lembro-me do preço político que Wałęsa pagou por cinco anos longe dos holofotes da imprensa, e do consequente 1% que ele recolheu nas eleições de 2000. Será que Trump consegue superar o oblívio estando fora da Casa Branca?...   

07 dezembro 2020

«DER KNIEFALL VON WARSCHAU»

Ainda 7 de Dezembro de 1970. Willy Brandt, o chanceler da Alemanha Federal que estava então a realizar uma visita à Polónia, quando de uma cerimónia protocolar que passava pela deposição de uma coroa de flores junto do monumento em Varsóvia aos heróis do levantamento de Gueto em 1943, reforça o simbolismo desse momento, ajoelhando-se em contrição diante do monumento. O episódio, exibindo um arrependimento público e simbólico pelo comportamento dos alemães durante a Segunda Guerra Mundial, não parece ter tido um particular relevo na ocasião em que aconteceu: atente-se abaixo à notícia daquele dia no Diário de Lisboa onde ele nem sequer é referido...
«O programa de Brandt, antes da cerimónia de assinatura, incluía a deposição de flores no túmulo do Soldado Desconhecido da Polónia e num monumento aos judeus do «ghetto» de Varsóvia que participaram numa revolta de três semanas contra os seus carrascos nazis, em 1943.» Mas depois de ter acontecido, a atitude de Brandt veio a ser promovida, tendo uma ampla repercussão na Alemanha, onde ficou conhecida por der kniefall von Warschau (a genuflexão de Varsóvia). Hoje, como se vê mais acima, até há um monumento a esse momento, e este não será certamente o último dos momentos tornados históricos em que a esmagadora maioria dos presentes nem deram que ele fosse histórico...

18 outubro 2020

ASSINATURA DO ARMISTÍCIO QUE PÔS FIM À GUERRA POLACO SOVIÉTICA

18 de Outubro de 1920. Os beligerantes assinam um armistício que põe fim à Guerra Polaco-Soviética. O Tratado de Paz formal irá ser assinado em Riga, Letónia, em 18 de Março de 1921. Algumas vezes nos referimos aqui no Herdeiro de Aécio às vicissitudes dessa guerra que, desencadeada quase logo depois do fim da Primeira Guerra Mundial, a partir de Fevereiro de 1919, foi uma confrontação entre polacos e russos pelos contornos da fronteira oriental da Polónia na perspectiva polaca enquanto que, na perspectiva russa, agora travestida de soviética, não devia haver sequer fronteira: a Polónia devia regressar ao império aonde pertencera no tempo dos czares. Numa primeira fase, a sorte sorrira às armas polacas, que chegaram a ocupar as capitais da Bielorrússia e da Ucrânia. Contudo, nos últimos cinco meses da guerra, a partir de Junho de 1920 e veja-se os mapas acima, os soviéticos haviam desencadeado uma poderosa ofensiva que só foi derrotada in extremis às portas de Varsóvia, a capital polaca, em Agosto. Nos dois meses que se seguiram, até à assinatura deste armistício, assistiu-se a uma recuperação pelos polacos de muito do território entretanto cedido, mas também a uma tomada de consciência por parte de Piłsudski e dos outros dirigentes da Polónia que era melhor não abusar da sorte, não tentar levar ao limite uma relação de poderes entre a Polónia e a Rússia que era circunstancial.

14 outubro 2020

OUTRA BOMBA DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Nem de propósito: no mesmo dia em que evoco os 80 anos da explosão na estação de metro de Balham, é notícia internacional a descoberta e posterior explosão (acima) de uma enorme bomba britânica da Segunda Guerra Mundial. Com um peso total de 5,4 toneladas e contendo 2,4 toneladas de explosivos, a bomba - de um tipo alcunhado de tallboy - fora usada em 16 de Abril de 1945 contra um cruzador pesado alemão, mas falhara o alvo e o propósito: não detonara. Permaneceu esquecida no fundo de um canal a uns dez metros de profundidade pelos 74 anos seguintes, até ser redescoberta em Setembro de 2019, aquando dos trabalhos para aprofundamento do canal. Foi nas operações para remoção da bomba que algo terá corrido mal e, em vez da explosão controlada e limitada que se previra, houve a explosão ao bom velho estilo WW2 das imagens acima. Esta explosão da bomba esquecida é também acompanhada de uma boa metáfora da situação dos sítios onde foi descoberta: se as notícias a dão como tendo sido descoberta na Polónia, as explicações são parcas para o facto de que, quando a bomba foi lançada, o foi sobre a Alemanha. O canal e as regiões adjacentes à cidade de Stettin/Szczecin foram territórios cedidos pela Alemanha à Polónia depois do final da guerra. De uma outra forma, metafórica, a controvérsia sobre a posse daquelas paragens, é uma outra bomba submersa com 75 anos de idade de que raramente se fala, esperando-se que a Alemanha não volte ao assunto e que nunca expluda...