17 de Setembro de 1939. Depois de, no primeiro dia do mês, a Alemanha ter invadido a Polónia pelo Ocidente, desencadeando a Segunda Guerra Mundial, a União Soviética tomava a iniciativa de invadir a Polónia por Oriente. Apesar de ser um Domingo, foi outro dia também muito rico do ponto de vista noticioso, com o Diário de Lisboa a produzir três edições, cada qual com primeiras páginas distintas. Se dúvidas houvesse, estas dissipavam-se quanto ao teor das combinações que haviam sido feitas entre nazis e comunistas. A reacção que perpassava pela nossa opinião pública e pelas que nos eram próximas era que, se os nazis alemães eram os maus e o lado errado daquela guerra, o comportamento dos comunistas russos mostrava-se infame. Entre os seguidores mais fiéis destes últimos, a narrativa completamente deturpada como os acontecimentos daquela época são evocados ainda agora (abaixo) continua a ser infame, mesmo abjecta, acusando as «potências capitalistas» da cumplicidade com os nazis que foi efectivamente protagonizada pela potência comunista.
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17 setembro 2019
24 agosto 2019
AS MAIS AMPLAS LIBERDADES DEMOCRÁTICAS (como apregoava Álvaro Cunhal)
24 de Agosto de 1989. Pela primeira vez em mais de 40 anos, um não comunista - e que não gozava da confiança deles - ocupava um cargo de primeiro-ministro num país da Europa de Leste: Tadeusz Mazowiecki (1927-2013) na Polónia. Mas a identidade e nacionalidade do pioneiro será o que menos interessará nesta efeméride do prenúncio do colapso do comunismo. Repare-se acima no estilo como o acontecimento era noticiado por um dos jornais da cor: a notícia em si é remetida para um ante-título discreto; o título escolhido é de interpretação dúbia - em que é que consiste a cilada? quem é que arma a cilada? os comunistas ao novo poder na Polónia, como se depreende da leitura linear? ou a cilada é a existência de um primeiro governo não comunista, prenúncio de uma recuperação capitalista na Polónia e no resto da Europa de Leste, como se pode também subentender daquele formato, propositadamente equívoco, do título?; e o facto de se tratar de um acontecimento inédito em mais de 40 anos de história de uma Europa dividida é, pura e simplesmente, escamoteado pelos jornalistas do Diário de Lisboa. Nunca é de mais insistir em lembrar estas ocasiões porque já se percebeu que os memorialistas acérrimos de outras ditaduras têm verdadeiros ataques de amnésia quando os abusos das ditaduras são estes, inconvenientes.
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08 agosto 2019
OS POLACOS CONQUISTAM MINSK
8 de Agosto de 1919. O novo exército polaco conquista a cidade de Minsk ao exército vermelho dos bolcheviques (acima, uma fotografia da entrada das tropas na cidade; abaixo, o mapa das operações). Ora Minsk é a actual capital da Bielorrússia. A conquista mostrava que as ambições da recém-renascida Polónia, e ao contrário do princípio das nacionalidades preconizado por Woodrow Wilson, iam muito para além da constituição de um estado nacional polaco e procuravam recuperar as fronteiras que haviam sido as da Polónia histórica, o estado multinacional que fora sucessivamente retalhado por alemães, austríacos e russos entre 1772 e 1795. Mas, apesar das circunstâncias serem extremamente propícias, sobretudo por causa da milagrosa fraqueza momentânea e simultânea dos dois inimigos hereditários (alemães e russos), a ambição polaca revelou-se demasiada.
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12 março 2019
AS VOLTAS QUE A EUROPA LEVOU EM VINTE ANOS
12 de Março de 1999. No Museu Harry S. Truman, no Missouri, tem lugar a cerimónia da adesão da Hungria, Polónia e República Checa à NATO. Na imagem acima, vemos a anfitriã, a então secretária de Estado Madeleine Albright (por sinal, nascida em Praga), a discursar perante os ministros dos Negócios Estrangeiros dos três países recém-admitidos, num momento que parecia de consagração para a ampliação da esfera de influência dos Estados Unidos na Europa. Vinte anos depois, aqueles mesmos três países estão considerados entre os mais mal comportados da Europa (veja-se o vídeo abaixo), sendo votados a um semi-ostracismo por causa do autoritarismo dos seus regimes e a mesma Madeleine Albright que lhes terá servido de madrinha escreve, não apenas a seu respeito, mas também por causa do que está a acontecer na Europa de Leste, um livro intitulado «Fascismo - Um Alerta». São só precisos vinte anos para que na Europa se tenha dado uma grande volta...
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14 fevereiro 2019
A BATALHA DE BEREZA KARTUSKA
14 de Fevereiro de 1919. Na pequena cidade de Biaroza (actualmente conta com 30.000 habitantes e situa-se na Bielorrússia ocidental) trava-se aquela que alguns autores consideram a primeira batalha de um conflito polaco-soviético que se irá prolongar pelos dois anos seguintes. Ficou conhecida com a designação da mesma povoação, mas em polaco: Bereza Kartuska. Tratou-se de um engajamento táctico menor: cerca de 60 polacos confrontaram-se com um destacamento soviético de efectivos um pouco superiores (80). Mas foram os polacos que venceram.
Em condições normais, o poder militar polaco não teria qualquer capacidade de se opor ao russo. Mas as condições de há cem anos estavam longe de ser normais. A Primeira Guerra Mundial acabara há três meses. E a Polónia reconstituída, reunindo territórios que haviam pertencido aos Impérios russo, alemão e austríaco, era um país apenas em nome, sem instituições nem fronteiras. As forças armadas vencedoras da batalha existiam mas ainda não possuíam sequer enquadramento legal, que apenas virá a ser aprovado pelo parlamento polaco (Sejm) dali a duas semanas, a 26 de Fevereiro de 1919.
Do lado dos russos, o regime era mais antigo mas nem tanto assim: a famosa revolução que levara os bolcheviques ao poder tivera lugar em Novembro de 1917, há apenas quinze meses. E a partir daí o poder soviético confrontara-se com uma guerra civil. Se os meios militares dos soviéticos eram muito superiores aos polacos, também é verdade que aqueles tinham que os dispersar por causa da multiplicidade dos seus inimigos. Se na Europa Ocidental já se negociavam os termos da Paz, do outro lado do continente, a sua instauração ainda iria demorar mais uns dois ou três anos...
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07 novembro 2018
AS ELEIÇÕES NA POLÓNIA
7 de Novembro de 1938. Noticiava-se as eleições polacas do dia anterior: «A proporção de votantes foi cerca de 60% (...) ¾ dos candidatos pertenciam à União Nacional e a oposição não teve praticamente nenhum candidato (...) Os círculos governamentais declararam-se satisfeitos com os resultados (...) O resultado das eleições (...) não determinará nenhuma mudança notável no curso da política interna da Polónia.» Como se percebe, recordando um poste que aqui publicámos há poucos dias, a Polónia de há oitenta anos estava, como acontecia com Portugal, muito longe de ser um regime democrático. Isso em si não pode ser invocado para atenuar o repúdio pela agressão alemã que viria a ter lugar dali por menos de um ano, mas reconheça-se que perturba fortemente a reputação do país como vítima, para mais quando se esclarece que a dita União Nacional (curioso nome, não?) adoptara um conjunto de teses sobre a questão judia que se inspiravam nas famosas Leis de Nuremberga dos seus vizinhos alemães. A Polónia de 1939 deve ser vista mais como uma vítima das ambições implacáveis de Adolf Hitler e da sua localização geográfica, do que propriamente objecto da hostilidade ideológica da Alemanha nazi, como acontecia com os vários países verdadeiramente democráticos da Europa Ocidental, que se engajaram na Segunda Guerra alegando defendê-la - à Polónia, à democracia, mas sobretudo aos equilíbrios europeus. E se a natureza dos regimes desses países atacados à época pela Alemanha, pela Itália (Grécia) e pela União Soviética (países bálticos) é recorrente e convenientemente esquecida, isso acontece não apenas por questões de propaganda circunstancial. A verdade é que, ao contrário de um certo discurso que insiste em perpetuar-se, as ditaduras atacaram-se umas às outras porque elas nunca foram internacionalistas e coordenadas como os comunistas o foram. Muitos dos países da Europa de Leste tiveram este passado durante o período de entre guerras (1919-1939)... e prolongaram-no depois em ditaduras comunistas (1945-1989) pelos quarenta anos que se seguiram. Surpreendermo-nos actualmente com a natureza das democracias numa Polónia ou numa Hungria será uma constatação desagradável, mas apenas surpreendente para quem desconheça as histórias do século XX daqueles países do Leste Europeu.
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04 julho 2018
O DESASTRE DE AVIAÇÃO EM QUE MORREU O GENERAL SIKORSKI
4 de Julho de 1943. Há precisamente 75 anos, o general Sikorski morria num desastre de aviação quando o avião em que viajava se despenhou ao descolar da pista de Gibraltar. Władysław Sikorski (1881-1943) era então simultaneamente o dirigente político e militar da Polónia no exílio, a estrutura que representava aquele país depois da sua extinção de Setembro de 1939, concretizada em conjunto pelos nazis alemães e pelos comunistas soviéticos, quando repartiram o antigo território polaco entre si. A Polónia dirigida por Sikorski não controlava território, mas continuava a ter cidadãos, dezenas de milhares dos quais constituíam unidades militares engajadas na luta contra o Eixo. Como acontece sempre que uma figura política deste destaque morre num acidente aéreo, houve muita especulação quanto às circunstâncias em que ele ocorreu (acima, do lado direito, a imagem do bombardeiro B-24 acidentado, virado para baixo e afundado a pouca profundidade). Parece ser irresistível a tentação de, havendo suspeitos evidentes a apontar, adicionar um pouco de mistério a um destes acontecimentos. No caso, os suspeitos evidentes eram os soviéticos, com quem os polacos se haviam recentemente incompatibilizado, após o anúncio, três meses antes e por parte dos alemães, da descoberta das valas comuns de Katyn. O mistério dura até hoje. Moderadamente, o que vale a pena acrescentar ao assunto, é que acidentes como o que envolveu Sikorski, não eram assim tão incomuns quanto isso: ainda dois meses antes, houvera um outro acidente similar, envolvendo uma outra alta patente militar e a sua comitiva: o tenente general norte-americano Frank M. Andrews (1884-1943), então comandante do Teatro Europeu de Operações, que morrera quando realizava uma visita de inspecção na Islândia. O avião acidentado era precisamente do mesmo tipo, um B-24, embora neste caso o acidente se tivesse dado à aterragem e não à descolagem, e, embora se tivesse tratado de um acidente que envolveu um dos militares de patente mais elevada dos Estados Unidos a ter morrido durante o conflito, até hoje, e ao contrário do que acontece com Sikorski, nunca existiram grandes especulações quanto às circunstâncias anómalas daquilo que possa ter acontecido com Andrews. O mistério com os acidentes aeronáuticos depende muito mais de questões subjectivas do que objectivas.
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14 maio 2018
A CRIAÇÃO DO PACTO DE VARSÓVIA
14 de Maio de 1955. Assinatura da acta de fundação do Tratado de Amizade, Cooperação e Assistência Mútua que teve lugar em Varsóvia (acima) e de onde a organização recolheu o nome pelo qual ficou mais conhecida no Ocidente: Pacto de Varsóvia. Foram oito os países signatários: Albânia, Alemanha Oriental, Bulgária, Checoslováquia, Hungria, Polónia, Roménia e União Soviética. Nesta altura a NATO, fundada em Abril de 1949, já tinha cinco anos e fora muito recentemente reforçada (9 de Maio de 1955) com a adesão da Alemanha Federal, acontecimento que servia, aliás, de pretexto para a constituição do Pacto de Varsóvia. O Tratado era composto por um preâmbulo e 11 artigos e entrará em vigor a 4 de Junho seguinte, depois de rapidamente ratificado pelos oito países signatários. A União Soviética hegemoniza o conjunto mas não deixa de ser significativo da importância distinta dos países constituintes que as versões oficiais do Tratado sejam redigidas em quatro idiomas: russo, polaco, checo e alemão. Como quase todos os documentos formais dos países comunistas (a começar pelas Constituições...), também este era imaculado quanto à redacção dos princípios - a começar pela não interferência nos assuntos internos dos países aliados - princípios esses que eram tranquilamente pisoteados quando a realidade os punha em teste.
Neste caso concreto do Pacto de Varsóvia foi só preciso esperar um ano. Em 1956 o governo húngaro anunciou a sua intenção de querer sair do Pacto e adquirir um estatuto de neutralidade à semelhança do que acontecia com a Áustria: a Hungria foi invadida pela União Soviética. Em 1961 foi a Albânia que, na sequência da cisão sino-soviética e tendo alinhado com os primeiros, abandonou na prática a organização: ter-lhe-á valido que, ao invés do que acontecera com a Hungria e do que acontecerá com a Checoslováquia, a Albânia não tivesse quaisquer fronteiras terrestres com os seus «aliados» por onde estes poderiam fazer-lhe uma visita. Em 1968, a invasão foi contra a Checoslováquia e, dessa vez, para que a União Soviética não ficasse isolada com as culpas, as suas tropas vieram acompanhadas de contingentes alemães orientais, búlgaros, húngaros e polacos para enfeitar. A Albânia aproveitou a pouca vergonha para abandonar formalmente o tal Tratado de Amizade em que a amizade tinha estas formas bem estranhas de se exprimir e cuja formatação teórica acabou por se ver expressa na Doutrina Brejnev: a autorização para que a União Soviética interviesse militarmente nos países sob a sua alçada que ela considerasse em riscos de a desertar.
De 1955 a 1968, o Pacto de Varsóvia tomou assim cerca de uma dúzia de anos para que finalmente se assumisse, em vez de uma pretensa aliança formal para a defesa de uma eventual ameaça militar do Ocidente capitalista, como uma aliança de cariz policial (uma polícia de intervenção) para disciplinar os países membros em caso de deriva indisciplinada. Mais outra dúzia de anos transcorridos e, no caso polaco de 1980/81, o padrão já se estabelecera e a seriedade da ameaça já terá sido suficiente para que os próprios polacos se auto-reprimissem. O Pacto de Varsóvia veio a durar 36 anos (1955-1991) e, nesse último terço da sua existência, ao longo da década de 1980, revelou-se mais perturbador a existência de um Mikhail Gorbachev em Moscovo do que a aparição de reformadores nas capitais das periferias a que valesse a pena exprimir a amizade, a cooperação e a assistência mútua através do envio de carros de combate para passear nas avenidas dessas capitais do Leste da Europa. Se não tivesse sido extinto a 1 de Julho de 1991, o Pacto de Varsóvia completaria hoje 63 anos. O que dela resta são expressões de Ostalgie e aparentados, como esta caixa de soldadinhos para pintar.
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19 março 2018
O INCIDENTE POLACO LITUANO
Para além da nacionalização dos petróleos mexicanos, por estes dias de há oitenta anos assistia-se ao que parecia ser mais outra grave crise na Europa, escassos dias depois da anexação da Áustria pela Alemanha. A disputa envolvia também dois países de dimensões bem distintas, a Polónia e a Lituânia, e também era o maior, a Polónia, a assumir uma postura agressiva, no caso a pretexto de um incidente de fronteira que causara a morte de um soldado polaco. Houvera dezenas de incidentes nos anos precedentes, um punhado com um desfecho infelizmente idêntico, a morte de um dos membros da segurança da fronteira de um dos seus lados, mas dessa vez, na Polónia orquestrara-se uma campanha de rádio e imprensa que mimetizava em mais do que um aspecto a pressão que quase simultaneamente em Berlim se exercera sobre Viena. Na verdade, as relações fronteiriças entre os dois países eram tensas. Desde o fim da Primeira Guerra Mundial que ambos reivindicavam a cidade de Vilnius e a região adjacente. Na altura, a Polónia ganhara a posse de Wilno (como a cidade era designada em polaco) muito à custa da sua superioridade militar, mas a questão mostrava-se muito longe de solucionada, já que os lituanos consideravam-na a capital natural do seu país. E para fazer valer o seu ponto de vista, usavam um bizarro instrumento de pressão diplomática, recusando-se a estabelecer relações diplomáticas com o seu poderoso vizinho polaco enquanto a questão de Vilnius não fosse legalmente resolvida. Parecia aparentemente pouco, mas o encadeamento dos acontecimentos mostra que era uma atitude que irritava profundamente os polacos, afectando-lhes a sua imagem internacional, uma imagem que os polacos precisavam cultivar para as suas políticas de alianças a Ocidente com a França e o Reino Unido, alianças essas contra os outros seus vizinhos mais poderosos, esses sim, inimigos históricos decisivos dos polacos: os alemães e os russos.
Esse receio não impedia, contudo, os polacos de copiar o estilo dos nazis, e é impossível não ver neste forcing da Polónia sobre a Lituânia, com a emissão de um ultimato a 17 de Março de 1938, como uma cópia do ultimato que, por sua vez, a Alemanha enviara à Áustria apenas seis dias antes e que culminara com a anexação da segunda. Será esse ambiente de déjà vu que poderá explicar em grande parte o amplo destaque noticioso que vemos a ser dado aos acontecimentos nestas edições sucessivas do Diário de Lisboa de 17, 18 e 19 de Março de 1938, apesar de se tratar de acontecimentos que decorriam quase do outro lado da Europa. Como se pode perceber pela leitura cronológica dos cabeçalhos das notícias, dia 19, cumprem-se hoje precisamente 80 anos, a Lituânia, que se vira diplomaticamente isolada, acabou por ceder às exigências polacas, nomeadamente na prosaica mas famigerada questão do reatamento das relações diplomáticas. O futuro virá a tornar os polacos numas vítimas da barbárie nazi alemã e da duplicidade soviética russa, mas a realidade daqueles dias mostrava uns polacos que se comportavam como uns sacanas para com os países mais fracos do que eles. O incidente polaco-lituano está hoje completamente esquecido, porque a narrativa adoptada depois da Segunda Guerra Mundial seguiu um outro percurso completamente retocado, exonerando os polacos de todos os pecados cometidos antes do conflito. Ora esta visita ao passado mostra que o assunto foi seguido em Portugal com bastante atenção e apreensão – e isso, apesar de, recorde-se, haver simultaneamente uma guerra civil a decorrer em Espanha. Em contrapartida e para acentuar o contraste do interesse relativo dos assuntos, e para acabarmos o assunto por onde o começámos, vale a pena ver no poste respectivo qual o espaço (exíguo) que o mesmo Diário de Lisboa dedicou à nacionalização dos petróleos mexicanos.
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16 dezembro 2017
UM EPISÓDIO POUCO EDIFICANTE DA HISTÓRIA DA POLÓNIA
16 de Dezembro de 1922. Um escassos cinco dias após a sua tomada de posse, o primeiro presidente da Polónia era assassinado quando de uma visita a uma exposição de pintura. Se a História da Polónia costuma ser sempre narrada enquadrada pelo seu carácter trágico, de que as sucessivas partições do país pelos seus poderosos vizinhos são o expoente, o outro lado da Verdade também demonstra que a luta política naquele país quando independente sempre se caracterizou por um gangsterismo que lhe tinge essa outra imagem de vítima. Embora seja muito menos conhecido. Esta história do assassinato do presidente Gabriel Narutowicz (1865-1922) deve ser contada, mesmo que sucintamente. A eleição para o cargo presidencial polaco naquela época processava-se através da realização de eleições sucessivas entre os membros da Assembleia Nacional até que um candidato obtivesse a maioria absoluta de votos. Era um processo bastante comum - acontecia o mesmo em Portugal. Ora Gabriel Narutowicz foi um candidato improvável, apresentado à última da hora por um partido menor, cuja virtude principal havia sido a capacidade de congregar os votos dos deputados de todas as formações que se opunham à eleição do candidato da formação nacionalista de direita que dispunha da maioria (relativa) da representação parlamentar, a Narodowa Demokracja (ND). A evolução do resultado das eleições poderá explicar o que aconteceu: na primeira votação, o candidato da ND, conde Zamoyski, recebeu 222 votos e Narutowicz apenas 62, enquanto na votação decisiva Zamoyski recebeu 227 votos enquanto Narutowicz o ultrapassou com 289 votos. Enfim, ao aproveitar-se mais do que seriam as antipatias do oponente do que propriamente das simpatias próprias, ter-se-á estado na presença de um verdadeiro fenómeno geringonçico bem precoce, embora sem o privilégio do contributo de Vasco Pulido Valente para o descrever e baptizar. A reacção da ND é que foi bastante mais exuberante do que a do PàF. No livro «A Concise History of Poland», cuja referência ao episódio também se pode qualificar de um pouco concisa em excesso (abaixo), a expressão adoptada é fúria. Talvez peque por defeito: nos cinco dias do seu mandato houve constantes manifestações de rua a acompanhar as deslocação do recém-empossado presidente. Activas: atiravam pedras à passagem da comitiva. Até à vernissage de há 95 anos, em que um pintor de nome Eligiusz Niewiadomski (1869-1923) assassinou o presidente, atingindo-o com três tiros. O que vale é que, em termos de justiça, também tudo se passava a um outro ritmo: o assassino foi fuzilado mês e meio depois. Houve quem o considerasse um herói. No fanatismo isso não mudou: ainda hoje há quem considere que Pedro Passos Coelho devia ter continuado a ser o primeiro-ministro, mesmo sem apoio parlamentar.
05 dezembro 2017
«DIE SCHLACHT BEI LEUTHEN»
5 de Dezembro de 1757. Dia em que se travou a Batalha de Leuthen, quando se enfrentaram os 36.000 prussianos, que eram comandados pelo seu próprio rei Frederico II (1712-1786), com os 66.000 austríacos comandados pelo príncipe Carlos Alexandre de Lorena (1712-1780), o cunhado da imperatriz Maria Teresa de Habsburgo (1717-1780). Apesar da significativa inferioridade numérica, o desfecho foi favorável aos prussianos, mas não é isso que me interessa hoje invocar. Os territórios, onde mais de 100.000 combatentes daqueles dois exércitos de cariz indiscutivelmente germânico se defrontaram há 260 anos, numa província - a Silésia - cuja posse os dois países disputavam por a considerarem inquestionavelmente germânica, esses terrenos, escrevia, pertencem actualmente (foto abaixo) à aldeia de Lutynią, distrito de Miękinia, condado de Środa Śląska, ou seja, constate-se toda a toponímia de ressonâncias indisputavelmente eslavas (no caso polacas), que é a consequência da deslocações de fronteiras e das transferências de populações que ocorreu no final da Segunda Guerra Mundial, à custa da Alemanha e das populações alemãs. Die Schlacht bei Leuthen poderá ter ainda hoje um grande significado noutras paragens mas, descontando os benefícios turísticos, Bitwa pod Lutynią terá significado discreto para os cerca de 1.100 residentes actuais no local onde ela se travou. Há quem considere, como eu, que isso ainda se pode tornar no futuro num problema da Europa. Há quem deseje, mais do que considerar, que não, que os alemães agora são gente pacífica. E há uma ampla maioria de europeus que nem sabe que a questão existe.
04 julho 2017
O «POGROM» DE KIELCE
4 de Julho de 1946. Há exactamente 71 anos tinha lugar um pogrom (palavra de origem russa que designa um ataque colectivo e maciço aos indivíduos e propriedades de uma minoria segregada, normalmente judeus) em Kielce, uma média cidade do centro-sul da Polónia (205.000 habitantes na actualidade). Nos anos precedentes, a Polónia assistira a milhares de outras ocorrências como aquela: sob ocupação alemã, a comunidade judaica polaca reduzira-se de 3,3 milhões em 1939 para 0,5 em 1945. A particularidade desta efeméride está no ano: 1946. A Segunda Guerra Mundial já acabara há catorze meses, os alemães (especialmente os residentes a oeste da nova Polónia) passaram de algozes a vítimas, expulsos desta vez pelos polacos que lhes ficavam com propriedades e bens, mas a ocorrência deste pogrom demonstrava que a sorte dos judeus só evoluíra no sentido de deixarem de ser exterminados industrialmente. Podia ser verdade que a morte de 42 judeus (e tantos outros feridos) perseguidos pela multidão seriam comparativamente um detalhe numa comunidade que se reduzira a 15% do que fora, mas o episódio representava um clímax que chocava todos aqueles que dele tiveram conhecimento. Depois do incidente, confrontaram-se duas máquinas de propaganda com interesses diferentes: a) a do regime comunista polaco quis abafá-lo, pois ele perturbava seriamente a legitimidade que o regime desejava e que os Aliados Ocidentais não lhe queriam conferir; o referendo que o regime havia organizado no Domingo anterior (30 de Junho de 1946) fora uma gigantesca fraude; b) a dos sionistas judeus quis empolá-lo o mais possível, posto que transmitir a imagem de insegurança (mesmo após a guerra) das comunidades judaicas da Europa de Leste era uma forma de estimular essas comunidades a emigrar e condicionar as opiniões públicas ocidentais a aceitar a emigração de todos esses judeus para a Palestina. Dali por 21 anos (1967), já a comunidade judaica na Polónia estaria reduzida a umas 25 a 30.000 pessoas, a esmagadora maioria delas sem ser sequer praticantes mas isso não impediu que houvesse uma última campanha anti-sionista na Polónia.
Só se surpreende com algumas características ultra-conservadoras e xenófobas da direita polaca quem desconhecer a história daquele país. A xenofobia foi característica transversal da sociedade. E quanto ao aspecto da memória, repare-se ainda que quem descerrou a placa evocativa acima foi Lech Wałęsa em 1990 - 44 anos depois dos acontecimentos...
28 abril 2016
«OBER OST»
Sob o nome de Ober Ost, formou-se a partir de 1915, uma estrutura administrativa dos territórios que haviam sido conquistados e estavam ocupados pelo exército alemão na frente oriental. Ocupando as terras imediatamente adjacentes à Prússia e ocupando também as costas do Báltico, o Ober Ost, conforme os mapas que se exibem, tinha uma extensão total de 108.800 km² (20% da Alemanha) e, de acordo com o último recenseamento que fora efectuado pelo poder imperial russo em 1897, uma população cifrada em 2.900.000 habitantes. Mas muito heterogénea, tanto na composição como também na forma como se distribuía: havia uma área central onde predominavam os lituanos (34% da população), outra onde predominavam os bielorrussos (21%) a sul e noutra ainda os letões (10,5%) a norte, mas os judeus (13,5%), os polacos (12%) e os russos (6%) estavam disseminados por toda a parte, sobretudo nas cidades. A sua capital, que era a localização do Quartel-General alemão para a Frente Leste era a cidade de Kaunas. De acordo com as leis internacionais e as práticas da época, os territórios conquistados seriam para ser administrados pelas autoridades civis pré-existentes durante o período que durasse a ocupação militar. O status quo político só poderia ser alterado depois da guerra. Porém, naquele caso, as autoridades imperiais russas também haviam fugido à frente dos exércitos alemães, cumprindo as instruções de Petrogrado de criar aos invasores a tradicional política russa de terra queimada diante de um invasor. Os militares alemães foram assim sugados para aquele vácuo administrativo e tiveram que assegurar muitos aspectos triviais do quotidiano para o prosseguimento das suas operações. Não sendo assim uma criação deliberada dos alemães – o regime em vigor na mesma época na Bélgica também ocupada era diferente deste, por exemplo – o Ober Ost tornou-se, apesar disso, no mais famoso sistema de ocupação militar a que se assistiu durante a Primeira Guerra Mundial. E isso porque, como veremos adiante, configurou um claro antecedente aos métodos brutais que os mesmos alemães viriam a assumir no Leste da Europa na Segunda Guerra Mundial.
A figura dominante desse estado militar de Ober Ost foi Erich Ludendorff (acima), a sua pessoa mas também o seu pensamento político-militar, que depois se viria a impor em toda a Alemanha nos dois anos finais do conflito (de 1916 a 1918). Como se fosse uma adaptação ao século XX do trabalho dos cavaleiros teutónicos que haviam colonizado a Prússia, Ludendorff descrevia esta sua tarefa como uma obra de civilização que iria beneficiar o exército, a Alemanha mas também o próprio país e os seus habitantes – atente-se à ordem como os factores são nomeados... Os oficiais de Ludendorff tornaram-se vítimas da sua própria propaganda e concebiam-se como paladinos da civilização e da cultura. Ober Ost estava destinada a ser uma colónia adjacente ao Reich, um estado tampão onde se fixariam os alemães vindos da Rússia depois da vitória. A engenharia militar, por exemplo, não só reerguera as diversas pontes destruídas pelos russos à retirada como até construíra outras, 434 no total, incluindo uma extensíssima cruzando o rio Bug na província meridional de Bialystok. Outros investimentos foram feitos directamente nos sectores produtivos, conservas, lacticínios, serrações, carpintarias para aproveitar a rica cobertura florestal do sul do país. Também a educação, pelo menos a dos níveis mais elementares, não foi descurada: sob o regime militar o número de escolas primárias duplicou para mais de 1.350. O problema era o que esta utopia custava, e não apenas em custos materiais, aos habitantes locais, para quem tudo aquilo não estava a ser construído. Naquilo que seria um híbrido entre uma Constituição local e uma Ordem de Serviço de uma unidade militar, deixava-se isso claro a 7 de Junho de 1916 quandos e escrevia que os interesses do exército e do Reich alemão se sobreporão sempre aos do território ocupado. Como uma qualquer colónia de África, a menor preocupação dos militares alemães era captar a simpatia das populações submetidas...
Considerações várias, algumas delas pertinentes, levaram as autoridades a restringir completamente a circulação das pessoas. Havia barreiras para o exterior mas também as havia internas, separando as várias províncias, tornando os passes obrigatórios para a mais ínfima deslocação. Com uma meticulosidade alemã, todo o país foi submetido a um registo de pessoas – um cartão de identificação para os maiores de 10 anos – e de propriedades – um cadastro como as autoridades russas nunca haviam elaborado. O regime tributário tornou-se opressivo, não apenas através dos impostos directos sobre as pessoas, os imóveis ou os lucros, mas sobretudo via impostos indirectos, cobrados através de monopólios estatais em produtos como os cigarros, bebidas alcoólicas, cerveja, sal, açúcar, sacarina e fósforos. E o rigor alemão dava uma outra eficácia fiscal a documentos como licenças de pesca ou a autorizações - muito contestadas - para a posse de cães. Mas a exigência das autoridades militares de Ober Ost que era pior suportada pelas populações locais fora m as corveias que lhes começaram a ser impostas a partir de Janeiro de 1916. Muitos milhares foram assim recrutados para trabalhar nos projectos alemães de construção de novas estradas, vias férreas e linhas telegráficas, em que os empreendimentos saíam a um preço de saldo – os trabalhadores não eram remunerados... Os judeus, como grupo predominantemente urbano, sem trabalhar nas áreas que os alemães reputavam de sensíveis (como a agricultura), foram desproporcionadamente afectados por essa mobilização para os Z.A.B. – Zivil Arbeiter Batallionen (batalhões de trabalhadores civis). Só na província da Lituânia, estima-se que 130.000 homens e mulheres foram recrutados dessa maneira. Não se sabe o número de mortes mas sabe-se o de execuções: 1.000 - mais uma vez: apenas nessa província. As condições eram horríveis, a alimentação má e escassa (250 gramas de pão/dia), os alojamentos estavam rodeados por arame farpado, as sanções por mau comportamento eram frequentes e envolviam agressões físicas, e os prisioneiros – pois não passavam disso – raramente conseguiam contactar com as suas famílias. As taxas de deserções e, sobretudo, de mortalidade eram impressionantes.
Em Agosto de 1916, porque a dupla Hindenburg/Ludendorff foi chamada a Berlim para assumir a direcção estratégica do esforço de guerra alemão, o Ober Ost passou a ser dirigido por uma figura decorativa e mais amena do que o fora o austero Ludendorff, o príncipe Leopoldo da Baviera (acima), um velhote de 70 anos (acima). Ainda bem para os alemães porque um dos efeitos colaterais da Revolução de Fevereiro de 1917 na Rússia, e da consequente capacidade de atracção que ela produziu entre as populações locais, foi que obrigou os alemães a terminar com as práticas mais criticáveis, dissolvendo, por exemplo, embora apenas na teoria, os ZAB em Setembro de 1917. Claro que sob outro nome acabou por quase nada mudar, porque o investimento nas infra-estruturas do Ober Ost, agora numa perspectiva de vitória, parecia ser cada vez mais importante para os alemães para poder ser cancelado. O problema é que as duas revoluções russas de 1917 - a de Fevereiro, derrubando o czar, e a de Outubro que levou os bolcheviques ao poder - haviam criado uma dinâmica independentista entre as várias nacionalidades que anteriormente haviam estado submetidas ao poder imperial russo – polacos, finlandeses, lituanos, letões, estónios, ucranianos – dinâmica essa que os alemães já não conseguiam controlar por causa da forma como haviam malbaratado a boa vontade dessas nacionalidades nos primeiros anos da guerra. Tipicamente, quando num gesto de leniência os alemães permitiram que em Setembro de 1917 se reunisse a Taryba, uma assembleia de notáveis lituanos, esta rapidamente extravasou as suas competências e em Fevereiro de 1918, em antecipação às concessões que os alemães haviam obtido dos russos no Tratado de Brest-Litovsk, proclamou a independência da Lituânia. Relativamente pouco conhecida, como de resto o é toda a História da Frente Leste da Primeira Guerra Mundial (1914-17), esta proto-colónia chamada Ober Ost demonstra a superioridade implícita como os alemães sempre se apresentaram diante dos seus vizinhos europeus e de como se trata de um fenómeno social independente (que até precedeu historicamente a ascensão) do nazismo.
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27 março 2016
A FORÇA DA CLASSE OPERÁRIA
Para quem gostar de evocar efemérides, assinale-se que hoje se completa o 35º aniversário da primeira demonstração da central sindical Solidariedade contra o governo comunista da Polónia. Apesar de ter sido denominada suavemente por greve de advertência, a greve parcial de quatro horas (das oito da manhã ao meio dia, como se pode ler acima) teve um sucesso retumbante, com uma adesão estimada entre os 12 a 14 milhões de grevistas. Fazendo uma proporção com o que isso poderia representar em Portugal, seria uma adesão equivalente a quase 4 milhões de trabalhadores, o que seria muito mais do que aquilo que o PCP e o seu braço sindical, a CGTP, se atreveriam à época (e depois disso) a reivindicar em situação equivalente dentro de portas. Não seria só pelas óbvias razões ideológicas mas também por prosaicas razões aritméticas que a situação laboral na Polónia era - e permanecerá - um assunto tabu para os comunistas portugueses.
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20 março 2016
OS SAPATOS ORTOPÉDICOS DO GENERAL JARUZELSKI
«No Brasil de 1966, ainda com o som das botas cardadas da ditadura militar a ecoar nas ruas.»
Retiro de um entre aqueles que não têm quaisquer dúvidas sobre o que estará a acontecer no Brasil, a frase supra, recuperação naquele estilo pseudopoético - as botas cardadas - da conhecida linguagem de pau da malta do costume, que de há 25 anos para cá não esqueceu nada mas também não aprendeu nada. São o simétrico em disparate daqueles que, também sem hesitações, apelam ao regresso dessas botas cardadas (a que não chamam botas cardadas). E é tanto assim que nem adianta perguntar aos primeiros se as botas cardadas são a identificação poética de todos os regimes militares ou se as botas dos regimes de direita são mais cardadas que as dos regimes de esquerda. Alguns casos haverá, como o regime militar instaurado em 1981 na Polónia, em que suspeito que para eles, os militares até calçavam sapatos ortopédicos. Qual é mesmo a diferença entre uns e outros?
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17 março 2016
(MAIS) UM PARADOXO SOBRE KATYN
Katyn é, sucintamente, o nome de uma floresta onde, entre Abril e Maio de 1940, se procedeu a um massacre das elites polacas que no Outono anterior haviam sido capturadas pelos soviéticos, quando da quarta partilha da Polónia entre alemães e russos. A estimativa mais conservadora do número dos que foram então executados é de 22.000 pessoas. Controversas permaneceram durante os cinquenta anos seguintes (até 1990) a nacionalidade de quem foram os autores do massacre. Por conveniência das circunstâncias, conveio que, durante e logo depois do fim da Segunda Guerra Mundial a sua autoria fosse atribuída aos alemães vencidos (acima) ignorando as provas esmagadoras de que a responsabilidade do acto pertenceria verdadeiramente aos soviéticos (abaixo). Em mais uma ironia que, mesmo depois da verdade esclarecida, se tendem a perpetuar sobre este assunto, quando se busca na internet imagens sobre as execuções, podem aparecer-nos mais facilmente fotografias (forjadas) sobre aquilo que não aconteceu (acima), enquanto sobre o que agora se sabe indiscutivelmente que aconteceu só dispomos de desenhos estilizadas (abaixo) - é que, a propósito deste último, reconheça-se que, mesmo não estando em cuecas como na foto acima, é muito improvável que os oficiais polacos executados envergassem estes uniformes tão imaculados depois de já estarem há sete meses em cativeiro...
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27 outubro 2015
«FROM POLAND WITH LOVE»
Pelos vistos haverá vários modos como os resultados eleitorais dos países da União desagradam aos mercados – não acontece só quando se vota maioritariamente à esquerda como foi o caso português ou num partido sem tradição de poder como era o Syriza na Grécia. No caso da Polónia esse desagrado foi provocado pela vitória e pela maioria absoluta alcançada pela direita nacionalista, uma ideologia a que por cá não estamos acostumados – Passos e Portas também são de direita, mas da internacionalista, e ainda por cima de um internacionalismo muito centro-europeu. Uma das características desta direita nacionalista vencedora é que, não implicando com todo o capital como se acusa a esquerda de fazer, implicam com o capital estrangeiro por serem nacionalistas. E, no caso concreto polaco, propõem-se tributá-lo mais, ao tal capital estrangeiro. Para nós, são propostas capazes de parecer interessantes de experimentar por cá, já que andámos estes últimos anos habituados a que a nossa direita internacionalista, em vez do capital estrangeiro, se concentrasse em tributar mais o trabalho nacional. Mas como o nacionalismo português de direita anda desaparecido... De toda a forma, vi como muito precipitada esta campanha de simpatia (acima) que foi logo desencadeada no dia seguinte ao das eleições polacas em prol das futuras vítimas portuguesas (Jerónimo Martins, o BCP ou a Eurocash¹) da nova maioria política em Varsóvia. Por maior que seja a respeitabilidade e independência de órgãos de informação como o Expresso ou o Observador a relação corporativa entre os nossos agentes económicos, mesmo não estando propriamente dominada pela luta de classes tal qual preconizada pelo marxismo clássico, ainda está muito marcada pelas antipatias espoletadas pelo famoso Aguenta! Aguenta! de Fernando Ulrich... É a vez de Soares dos Santos e de Nuno Amado Trzymaj się! Trzymaj się!
25 março 2015
ZWI MIGDAL
Todos conhecem o significado da palavra Máfia. Os mais atentos conseguem até distinguir a especificidade geográfica da Máfia (siciliana) da Camorra (napolitana) e da Ndrangheta (calabresa). Ou saber ainda que esse género de organizações se designa por Tríades na China ou Yakuza no Japão. Que o tráfico de cocaína conferiu poder e notoriedade às suas homólogas latino-americanas designadas por Cartéis: da Colômbia, do México, etc. E finalmente que a queda do Muro de Berlim integrou no universo mediático das máfias conhecidas as da Europa de Leste: da Rússia, da Geórgia, etc. Contudo, estou quase tentado a apostar que quem me seguiu até aqui concordando aprovadoramente e com conhecimento nunca terá ouvido falar da Zwi Migdal...
De que se trata? De uma organização formada predominantemente por judeus polacos e russos na segunda metade do Século XIX (ambos eram então súbditos do tsar) que, sobre uma designação respeitável (Sociedade Judaica de Auxílio Mútuo), promovia o chamado tráfico de brancas (prostitutas) da Europa de Leste para a América. Mais do que os Estados Unidos, a região onde o negócio se veio a revelar mais rentável foi a Argentina, o Uruguai e o Sul do Brasil, regiões onde a chegada mais recente da imigração europeia provocara, nos anos próximos da transição do Século XIX para o Século XX, um desequilíbrio acentuado entre os sexos (em 1895 havia na Argentina 1,7 homens para cada mulher!), o que fazia o negócio gerar lucros fabulosos. Estima-se que no seu apogeu, por volta de meados da década de 1920, os membros da Zwi Migdal (meia centena) terão chegado a controlar, só na Argentina, uns 2.000 bordéis e 30.000 prostitutas, a esmagadora maioria das quais havia vindo da Europa, porque mais adaptadas ao gosto da clientela. Representariam sensivelmente metade do mercado total da prostituição argentina. Penso ser dispensável explicar como se desenrolavam as operações desde a contratação na aldeia remota da Europa até à instalação no bordel, assim como é evidente que, para que tal empório existisse, ele tinha que contar com a cumplicidade das autoridades. No Brasil as operações da Zwi Migdal, embora precoces (os primeiros registos datam de 1872, ainda do período imperial) foram mais localizadas (no Norte e Nordeste as prostitutas judias sofriam a concorrência da mão de obra local), embora elas ainda hoje possam ser notadas no vocabulário do português sul-americano: há a palavra cafetão como sinónimo de proxeneta, por analogia com os prósperos kaftans tipicamente russos envergados pelos encarregados dos estabelecimentos; ou então a desqualificação que no Brasil sofreu o qualificativo polaco ou polaca (por sinónimo de prostituta), substituído por polonês ou polonesa, ao contrário do que acontece no português europeu.
Apesar de progressivamente mais perseguido pelas autoridades do Novo Mundo (acima, notícias de um jornal argentino de 1930 anunciando a prisão de 108 membros da organização), a Zwi Migdal prosseguiu as suas actividades até ao começo da Segunda Guerra Mundial. Mas, mais do que a Guerra, foi o Holocausto que exterminou o campo de recrutamento dos operacionais da Zwi Migdal. Factores adicionais posteriores – como o estabelecimento da Cortina de Ferro ou a fundação de Israel – conjugaram-se para pôr fim a esta conotação fortíssima entre esta máfia judaica e a prostituição. Porque o assunto das máfias sempre desperta os seus entusiasmos, é no mínimo curioso apercebermo-nos de como a Zwi Migdal se pode ter tornado hoje tão pouco recordado. Mas creio que será compreensível, tal a persistência da imagem da vitimização dos judeus de 1945 para cá. Publicar títulos em que se podem ler expressões como a Mafia Judia (abaixo) é correr sérios riscos de acusações de anti-semitismo.
06 novembro 2014
A BÊNÇÃO DOS MORTEIROS
Uma fotografia demonstrativa da complexa predominância que o catolicismo desempenha na sociedade polaca: em cerimónia solene, um sacerdote procede à bênção dos novos morteiros que irão passar a equipar a unidade (formada ao fundo da foto). Há os que não conseguem deixar de pensar na contradição da bênção de equipamentos letais. Há os outros que nem se dispõem a pensar nisso. Para os mais interessados em assuntos outros que não os teológicos, esclareça-se que se trata de modelos Granatnik wz.36 de 46 mm. Estava-se em 1938, era o que de mais avançado haveria naquele tipo de armamento, mas para o que à História interessa, pouco iria influenciar o desfecho dos acontecimentos do Outono do ano seguinte (1939)...
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01 setembro 2014
FOI HÁ PRECISAMENTE 75 ANOS…
A 1 de Setembro de 1939, perto de Sopot, cidade polaca da Pomerânia junto ao Mar Báltico, soldados de um destacamento motorizado alemão removem a cancela de um posto fronteiriço polaco. Repare-se o ar de satisfação galhofeira do soldado (quarto a contar da esquerda) que se apropriou do escudo nacional polaco com a águia branca. Numa ironia prospectiva pode-se acrescentar que o gesto pode ser descrito como uma tentativa pioneira (e que veio a tornar-se mal sucedida…) de derrubar as barreiras alfandegárias na Europa.
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