A inteligência artificial não deve ter dado por isso, mas aqueles que lêem notícias e que não são desprovidos dela, mas na sua forma natural, já devem ter reparado na fortíssima campanha que a Arábia Saudita tem despendido para conferir respeitabilidade ao seu campeonato de futebol. Eles foram comprar o Cristiano Ronaldo, depois foram comprar o Neymar (acima à esquerda), mas o que parece é que, para além deles dois, os clubes sauditas compram tudo aquilo que lhes apetece. Mas aquilo que o dinheiro saudita parece querer comprar será mais do que apenas os jogadores e os treinadores de primeiro plano do futebol: será sobretudo a respeitabilidade de fazer parte da elite do futebol mundial. Tanto é assim, que não surpreendeu a notícia da semana passada quanto à intenção dos sauditas virem a disputar a liga dos campeões europeia (notícia do centro). Em suma, os sauditas estarão cheios de vontade de subir de estatuto e terão dinheiro para aquilo tudo. Só que são sauditas... têm dinheiro, mas não são civilizados. A notícia de que os seus guardas fronteiriços se têm entretido a praticar tiro ao alvo com os migrantes etíopes (à direita) constitui uma novidade muito oportuna para os desacreditar num tópico onde eles, de resto, não têm crédito nenhum: o do respeito pelos direitos humanos. A notícia constitui uma novidade porque as nossas atenções - europeias - sobre as migrações dos países pobres para os países ricos se têm concentrado apenas naquelas que nos afectam - nomeadamente as que cruzam o Mediterrâneo. Só que neste último caso, registam-se tragédias porque os navios se afundam e os migrantes se afogam. No caso da fronteira saudi-iemenita, os guardas sauditas têm dado uma ajudinha às tragédias, a acreditar no que se pode ler relatório da Human Rights Watch que foi acabado de publicar. Os incidentes constantes do relatório abarcam um período que se estende de Março de 2022 a Junho de 2023. A ressonância que lhe está a ser conferida a este relatório, por parte duma ONG que não é conhecida por aí além, também dá que pensar... Para quem não tivesse ainda pensado numa boa razão para que o Al-Hilal de Jorge Jesus não participasse na liga dos campeões, aí está esta.
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21 agosto 2023
15 março 2023
A APROXIMAÇÃO IRANO-SAUDITA MEDIADA PELA CHINA: AS FOTOGRAFIAS E O RESTO
As fotografias que se publicaram da cerimónia da assinatura deste último acordo entre a Arábia Saudita e o Irão, mediado pela China, são espectaculares, parecem plenas de simbolismo. As reacções dos órgãos de informação deste lado de cá do Mundo dividem-se entre as apreciações mais entusiásticas e outras apreciações mais prudentes. Estas parecem-me muito mais consistentes: é melhor esperar para ver o que acontece de concreto. O Médio Oriente é uma região conhecida por ter responsáveis políticos que assinam muito facilmente tratados que depois permanecem letra morta. (Exemplo recente: o plano de paz gizado por Jared Kushner, genro de Donald Trump, em Setembro de 2020, envolvendo Israel e alguns países do Golfo, foi declarado letra morta seis meses depois de assinado) A acrescer a isso, sabe, quem acompanha os assuntos da região com outra profundidade, que a Arábia Saudita e o Irão mantêm uma rivalidade e uma clivagem profundas desde há décadas, de um nível idêntico às que separam Israel dos seus vizinhos árabes, e que ultrapassá-las não será tarefa fácil para os dois rivais signatários (para melhor compreender essa rivalidade sugere-se a leitura do livro abaixo de 2020). Considerando isto e, por muito que a China seja a novidade da equação, aparecendo pela primeira vez a protagonizar uma iniciativa nesta região e desta dimensão, manda a experiência que nos mantenhamos prudentes quanto à evolução dos acontecimentos.
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29 janeiro 2021
A «BATALHA» DE KHAFJI
29 de Janeiro de 1991. Havia quase duas semanas que a ofensiva de bombardeamentos desencadeada a partir de 17 de Janeiro pela coligação liderada pelos Estados Unidos prosseguia, mas a verdade é que a Guerra do Golfo, por muito mediática que estivesse a ser, prosseguia só no ar. No mar e sobretudo em terra, não se anunciavam quaisquer movimentações da parte das tropas aliadas para desalojar o exército iraquiano que invadira e se instalara em território do Koweit, que era afinal, o propósito último daquela guerra. Eis senão quando, nesta guerra que se travava também para proveito das audiências, os iraquianos saem da defensiva e desencadeiam um ataque sobre a cidade fronteiriça saudita de Khafji. Foi uma manobra audaciosa e com que os adversários não contavam. Num dia, a cidade foi conquistada pelos iraquianos, mas a conquista era inconsequente do ponto de vista militar: nos dois dias seguintes, a cidade foi retomada, tendo a coligação tido o cuidado de atribuir os louros da reconquista a unidades militares sauditas e qataris. Objectivamente foi um pequeno recontro de três dias, com o nome pomposo de batalha, mas com as baixas pessoais a rondar as poucas centenas (se tanto) em qualquer dos lados. E no entanto, tornou-se um bom pretexto para, nas semanas que se seguiram, haver uma romaria de equipas de televisão na cidade para filmarem os estragos dos combates. A RTP também teve a sua oportunidade (abaixo), naquela ocasião abrilhantada pela apresentação - o drama, a tragédia, o horror! - de Artur Albarran.
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12 outubro 2019
COMO SE FOSSE UM MEGA JOGO DE BATALHA NAVAL
Há quatro meses eram dois petroleiros que eram atacados no Golfo de Omã, depois foi um petroleiro iraniano a ser arrestado pelos britânicos em Gibraltar, os iranianos, em retaliação, apreenderam dois petroleiros britânicos no Golfo Pérsico, há cerca de um mês foram as refinarias sauditas a ser atacadas por rebeldes iemenitas (que, afinal, são capazes de ter sido iranianos). Agora, são novamente os iranianos a queixarem-se de que um dos seus petroleiros foi atacado ao largo da Arábia Saudita (vídeo abaixo). Em tudo isto, que se assemelha a uma gigantesca batalha naval em que os canos dos barcos atingidos não interessam, apenas o conteúdo da carga (petróleo), há apenas um padrão discernível: o de que o preço do crude se mantenha adequadamente elevado devido às preocupações que os incidentes suscitam. Será bruxaria, como acima diz o capitão Haddock?... Talvez não.
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15 setembro 2019
O ATAQUE ÀS REFINARIAS SAUDITAS
A propósito do ataque desencadeado pelos rebeldes iemenitas contra refinarias sauditas lembrei-me deste episódio de uma aventura de Tanguy e Laverdure por aquelas paragens, desenhada já há uns bons cinquenta anos, que envolve precisamente o ataque contra as instalações de uma grande companhia petrolífera que sustenta um regime despótico num hipotético emirado da região. O que mudou parece ter sido os meios: onde antigamente havia que dispor de aviação, agora a operação pode fazer-se visando as instalações com drones. Mas, como na ficção de outrora, na realidade actual ficam expostas as vulnerabilidades destes alvos económicos em países que estão tão dependentes da exportação de uma matéria prima.
Uma coisa é certa: as imagens de uma refinaria a arder são, como se vê abaixo, de uma estética impressionante, a que as televisões não conseguem dizer que não...
04 novembro 2018
AQUI HÁ UM ANO ERA UM GAJO BESTIAL... - 1
Há precisamente um ano, apenas quatro meses depois de se ter tornado no príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman era-nos apresentado como um gajo bestial, que encabeçava «um novo comitê de combate à corrupção», comité esse que prendia príncipes e antigos ministros às dezenas; progressista, deixava as mulheres conduzir e assistir até a jogos de futebol! Um ano depois, através daquilo que se vai descobrindo sobre o assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi em Istambul, pode concluir-se, ironicamente, que a construção de tal imagem de Mohammed bin Salman talvez tenha sido um pouco favorável demais... Torcer o pescoço a adversários políticos exilados não é moderno, nem é de molde a granjear simpatias Mundo fora... As ligações de hipertexto são todas para artigos de um mesmo jornal, o Público, mas a questão que coloco destina-se a toda a comunicação social: de forma patente, ela limitou-se a repassar adiante propaganda da facção saudita no poder, sem qualquer certificação da sua veracidade. Onde é que andam os pedidos de desculpa?...
20 outubro 2018
«QUE A SUA ALMA DESCANSE EM PAZ» (JÁ QUE O SEU CORPO FOI SERRADO AOS PEDAÇOS...)
Finalmente as autoridades sauditas admitiram o que todos estavam cansados de saber: que os próprios haviam assassinado o antigo assessor governamental, agora jornalista exilado, Jamal Khashoggi. A explicação é ridícula mas, num remate de falta de jeito, perante um audiência já bem pouco tolerante, reconheça-se, a nota do reconhecimento remata com a invocação piedosa para que a alma do defunto descanse em paz (Que a sua alma descanse em paz). É bonita de se ver tal preocupação das autoridades sauditas com a alma já que, por aquilo que se foi sabendo entretanto e em contraste, o corpo terá sido serrado em bocados mais portáteis de transportar para fora do consulado na Turquia, onde o assassinato teve lugar. Mas todo este processo merecer-nos-á algumas reflexões políticas adicionais, que não tenho encontrado exploradas na comunicação social. Não há nada de mais humilhante para um regime do que uma operação de serviços secretos que corre mal. E não importa a natureza desse regime: a grande França, potência nuclear e país de pergaminhos democráticos, passou uma vergonha imensa ao ser apanhada a afundar um barco do Greenpeace na Nova Zelândia em 1985. Nós, por cá também tivemos algo idêntico àquilo que agora aconteceu em Istambul, quando do assassinato de Humberto Delgado em Espanha em 1965. As especulações sonsas e hipócritas então feitas por Salazar à frente das câmaras de televisão («...a nós convinha que falasse, a outros conviria mais o silêncio...») bem podem servir de inspiração agora para aquilo que possamos ouvir dizer ao príncipe herdeiro saudita Mohammad bin Salman. Mas, para que um fiasco seja consagrado, é preciso que um serviço rival exponha a operação. Não aconteceu de forma exuberante no caso de Delgado com os espanhóis, mas os americanos, que tinham (e mantêm) o Greenpeace sob protecção, e os turcos neste último caso, que decorreu, aliás, no seu próprio país, foram prestimosos em alimentar a comunicação social com os detalhes sórdidos das operações. Eloquente quanto ao papel importante da Turquia em todo o incidente, o secretário de Estado norte americano Mike Pompeo deslocou-se primeiro à Arábia Saudita, mas depois também à Turquia, muito embora os holofotes tivessem ficado quase todos em Riade, quando o que é importante é o que os Estados Unidos têm para oferecer à Turquia em troca do seu capital de queixa. Por esta vez, a atitude da administração Trump não se distingue das que a antecederam (talvez com a excepção da de Obama) na indulgência como lida com os sauditas: arrasta os pés no reconhecimento daquilo que é óbvio, embora Donald Trump confira à obtusidade um requinte muito pessoal. Em suma, tudo aponta para que, na grande ordem internacional, o assassinato de Jamal Khashoggi, depois deste apogeu de escândalo, se resuma a um momento embaraçoso de Mohammad bin Salman, como outrora os outros haviam sido para Salazar e François Mitterrand. Ou, para fazer um trocadilho irónico ao jeito daquelas declamações sentidas de Pedro Abrunhosa, que podiam significar tudo e o seu contrário (atente-se à letra): «É preciso ter calma, não dar o corpo pela (i)alma»...
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15 outubro 2018
NOTÍCIAS À VOLTA DO QUE PARECE ÓBVIO
Convém realçar o que é óbvio: que a melhor solução para resolver o problema do desaparecimento do jornalista saudita seria que ele reaparecesse. É por isso que, ou ele resolveu pregar uma partida à noiva e quis deixá-la plantada à porta do consulado saudita em Istambul, ou então esta atitude rufiã que está sendo adoptada pela Arábia Saudita, ao sentir-se ameaçada se não der explicações aceitáveis sobre o incidente, me parece mais do que eloquente sobre aquilo que lhe terá acontecido. E o óbvio é que, mesmo que a Turquia não seja um comparsa neutro na trama, não deve haver agora maneira de o desaparecido reaparecer. É que os mistérios da ressurreição são mais fenómenos teológicos do cristianismo que não do islão... E, vem a propósito, vale a pena agora recordar o que na revista Foreign Policy se escrevia há onze meses, analisando as rivalidades naquela região na perspectiva norte-americana e os desequilíbrios que a nova política externa de Donald Trump lá fora provocar: «Donald Trump soltou a Arábia Saudita que sempre desejámos - e tememos». Aí está ela...
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25 agosto 2018
A OFERTA PÚBLICA DA ARAMCO
As notícias do Negócios e do Eco contradizem-se absolutamente, mas isto é que é bom jornalismo. É indício que existem duas opiniões entre as cúpulas sauditas quanto à questão da abertura do capital da grande petrolífera estatal saudita. E que as duas correntes se disputam. Mesmo que o assunto não nos interesse minimamente, reconhece-se quando um tópico se torna apelativo. E é diferente de ler a mesma coisa, redigida de forma subtilmente diferente nos vários jornais.
02 julho 2018
HAJE
Todos os anos cerca de dois milhões de muçulmanos concentram-se em Meca, na Arábia Saudita, para fazer o haje, a peregrinação à cidade santa que, por obrigação e tendo meios para isso, qualquer muçulmano tem que realizar pelo menos uma vez na vida.. Ao contrário de ir a Roma e ver o Papa, aquela obrigação tem que ser realizada num período específico do ano, o que provoca colossais concentrações de peregrinos no santuário (acima). E colossais desastres, quando se produzem estampidos entre essas multidões nos seus espaços fechados, que nunca foram concebidos para conter tanta gente. A 2 de Julho de 1990, há precisamente 28 anos, aconteceu um primeiro grande acidente do género, num túnel de acesso ao santuário. Morreram 1.426 pessoas pisoteadas e sufocadas, entre elas um apreciável número (680) de peregrinos de origem indonésia. Noutras circunstâncias, aquilo que ocorreu ter-se-ia transformado numa enorme tragédia mundial (alguém está a imaginar o impacto de (por exemplo) um centésimo daquelas vítimas (14 mortos) na praça de São Pedro em Roma?...) mas, no caso, conluiaram-se o tradicional secretismo das autoridades sauditas com o completo desinteresse dos grandes órgãos de informação ocidentais por tudo o que se passasse em países esconsos em que os mortos fossem muçulmanos. A comprovar isso, só no dia seguinte é que os jornais portugueses noticiavam a catástrofe, no caso que se recupera abaixo, na página 9, num cantinho da página e - embora isso não fosse culpa do jornal - com uma contagem das vítimas muito inferior à realidade. Para contraste com a actualidade, em que o excesso penderá até talvez para o outro lado, e sem que a comparação sirva de desculpa para o terrorismo islâmico, mesmo assim vale a pena recordar que era esta a importância mediática dos muçulmanos antes de 11 de Setembro de 2001.
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04 março 2018
A DESCOBERTA DE PETRÓLEO NA ARÁBIA SAUDITA
3 ou 4 de Março de 1938. Foi "apenas" há oitenta anos que as primeiras jazidas de petróleo foram descobertas na Arábia Saudita. Durante quase toda a primeira metade do Século XX, durante os anos da Primeira e (sobretudo) da Segunda Guerras Mundiais, as referências geográficas dos grandes centros de produção petrolífera, pelas quais tantas decisões estratégicas foram tomadas, nada tiveram a ver com as areias da Península Arábica. É assim que, mesmo dali por quatro anos, a grande ofensiva da Wehrmacht do Verão de 1942 na Frente Leste tinha como objectivo final a captura dos campos petrolíferos do Azerbaijão, para que estes pudessem alimentar a máquina de guerra alemã, assim como a conquista japonesa da Indonésia, que ocorrera no principio desse mesmo ano, tinha tido precisamente esse mesmo objectivo de satisfazer as necessidades do exército e da marinha imperiais. Os Estados Unidos, por contraste, não precisavam de se preocupar com essa matéria prima, dado que eram de longe os maiores produtores mundiais de petróleo dessa altura, representando 60% da produção mundial! (veja-se quadro abaixo) As voltas que a vida dá...
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27 junho 2017
O CALOTE SAUDITA
Os sauditas bem gostam de passar por imensamente ricos mas, quando lhes dá para o calote, tornam-se tão bons como qualquer país pelintra de terceiro mundo. Como se percebe pelos cabeçalhos, esta história dos salários atrasados já se arrasta há bastante mais de um ano (por cá, ainda o primeiro-ministro era Pedro Passos Coelho, imagine-se!) e, o que o assunto tem feito correr em demasia em tinta é compensado pelo que lhe falta em vergonha, pelo menos se contarmos por bons os compromissos que foram sucessivamente assumidos pelas autoridades sauditas. Repare-se que a última notícia da série é de hoje e já envolve Santos Silva, o ministro dos Negócios Estrangeiros e o dinheiro parece ainda à distância de um canudo. E anda Donald Trump a gabar-se de ter realizado com estes mesmos tipos a maior venda de armas na história dos Estados Unidos? Fiem-lhes, fiem-lhes...
10 junho 2017
DESCULPEM, JÁ ENCONTRARAM O QATAR?
Em continuação de uma primeira parte, trata-se da tradução integral do artigo abaixo, que aparece hoje publicado na The Economist, mas com uns (acrescentos meus).
O presidente da América deu-se tão bem com o rei da Arábia Saudita que tornou seus os objectivos da política externa do monarca. A Arábia Saudita sunita detesta o Irão xiita que ela considera o seu maior rival. E Donald Trump pensa o mesmo. Aparentemente ele passou a compartilhar a perspectiva saudita que o grande financiador do terrorismo no Médio Oriente é o pequeno Emirato do Qatar. Deu-lhe para aplaudir quando, a 5 de Junho, a Arábia Saudita, o Bahrein e os Emiratos Árabes romperam as relações diplomáticas com o Qatar conjuntamente com as ligações aéreas, marítimas e terrestres. Os restantes estados do Golfo deram duas semanas para os cidadãos qataris saírem. Mais ridículo, os Emiratos declararam que quem publicasse opiniões favoráveis ao Qatar estaria sujeito a penas de prisão até 15 anos. E Trump tweetou: “Talvez isto seja o princípio do fim do horror do terrorismo!”
Apesar de pequeno, o Qatar é importante. É o maior produtor mundial de gás natural liquefeito e uma grande plataforma giratória do tráfego aéreo. É também o local da sede da Al Jazeera, o que de mais próximo haverá de uma televisão livre no mundo árabe (não se pode é criticar a monarquia qatari). Mantém boas relações com o Irão, com o qual explora conjuntamente um depósito de gás natural. Também se mostra apoiante da Irmandade Muçulmana, a face mais popular do Islão político (e que não goza assim de tanta popularidade noutros países muçulmanos). E tudo isso faz com que a Arábia Saudita os deteste. O regime saudita já tentou no passado vergar o Qatar à sua vontade mas falhou. O Qatar possui uma importante base aérea norte-americana no seu território que, até agora, lhes transmitia uma sensação de segurança. Mas com Donald Trump na Casa Branca isso deixou de ser assim tão linear.
(A The Economist não fala disso, mas em Israel também não se gosta particularmente destas liberalidades e independências do Qatar. Um velho documento (2010) catado e publicado pela WikiLeaks punha o então director do Mossad (serviços secretos israelitas) a queixar-se junto de um seu interlocutor norte-americano de que o Qatar andava a “aborrecer toda a gente”, nomeadamente por causa das emissões da Al Jazeera. O israelita ia ao ponto de evocar a hipótese de que essas emissões desencadeassem a próxima guerra na região, porque os restantes protagonistas da região consideravam o monarca qatari pessoalmente responsável pelo conteúdo das emissões. A mensagem era acompanhada de uma sugestão para que os Estados Unidos retirassem a sua base do Qatar.)
Não foram fornecidas razões concretas para votar o Qatar ao ostracismo. Existem uma data de rumores de que qataris ricos financiam o terrorismo. A acusação, que também se aplica a sauditas ricos, não em sido concretizada, embora o Financial Times tenha publicado que o Qatar pagou mil milhões de dólares ao Irão e à Al-Qaeda para a libertação de membros da sua família real que haviam sido feitos reféns durante uma daquelas caçadas tradicionais com falcões no Iraque. E mil milhões dão para comprar uma grande quantidade de explosivos.
A disputa acabou por dividir o Conselho de Cooperação do Golfo, uma organização que promove uma certa estabilidade numa região onde ela é escassa. E a consequência é que ela pode levar o Qatar e outros dois membros da organização, Kuwait e Omã, que agora se recusaram a associar aos sauditas, a estreitaram mais os seus laços com o Irão. Os ânimos poderão arrefecer em breve mas, para alguns observadores, o maior receio é que o preço a pagar pelo recuo saudita será o açaimar do jornalismo da Al Jazeera.
O apoio de Donald Trump à iniciativa saudita também prejudicou à credibilidade americana. Deixou a impressão que, com ele, a superpotência pode deixar cair os seus aliados depois de uma mera conversa com os seus inimigos. “Durante a minha recente viagem pelo Médio Oriente afirmei que não pode continuar a haver financiamentos à Ideologia Radical. Os líderes apontaram para o Qatar – vejam!” foi o que Donald Trump tweetou a 6 de Junho. O que resta de elementos tradicionalistas na política externa da administração Trump apressou-se a acorrer no dia seguinte a tentar compor o desastre, quando o presidente ofereceu os seus préstimos como mediador...
Mas não é só aí. O presidente egípcio, Abdel-Fattah al-Sisi, também ficou com a impressão que o presidente Trump é um líder que o irá permitir lidar com os seus inimigos com outra autonomia. A 23 de Maio, dois dias depois dos dois se terem encontrado e elogiado em Riade, o regime egípcio prendeu um opositor por causa de um gesto obsceno que ele alegadamente terá feito num comício que se dera há cinco meses. E em 25 de Maio o governo bloqueou o acesso a vários websites de conotação liberal, incluindo o Mada Masr, um jornal on-line local e os sites da Al Jazeera ou o Huffpost em arábe. No Bahrein, as autoridades abateram 5 pessoas e prenderam outras 286 no seguimento de um raid a casa de um clérigo xiita. No seguimento disso, o principal partido da oposição laica foi dissolvido. Noutros tempos, os Estados Unidos teriam manifestado o seu desagrado por tudo isto. Agora não – e isso é receita certa para um Médio Oriente muito mais turbulento.
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25 março 2017
TERRORISMO NO PAÍS DE ONDE VÊM OS TERRORISTAS
25 de Março de 1975. Há 42 anos o rei Faiçal da Arábia Saudita (1906-1975) morria assassinado a tiro, quando de uma audiência pública numa das suas residências. O assassino fora um dos seus próprios (mas inúmeros) sobrinhos, também ele chamado Faiçal ibn Musaid (1944-1975). Razões apontadas para o assassinato houve várias, e puderam ir desde simpatias para com as facções mais radicalmente conservadoras do islão, já que um dos irmãos do assassino fora morto pelas autoridades sauditas como militante wahabita, até influências da CIA sobre um jovem saudita demasiadamente ocidentalizado durante os 8 anos em que Faiçal ibn Musaid estudara nos Estados Unidos (abaixo, ao lado da namorada Christine). No meio de tão díspares hipóteses, uma certeza oficial: a da insanidade mental do assassino. É assim que o episódio continua a ser evocado. A insanidade não tem, porém, na Lei Islâmica, as implicações a que estamos acostumados na legislação ocidental. Faiçal foi julgado e executado (decapitado) publicamente menos de três meses depois do assassinato do tio.
Naqueles tempos e naquele país estes episódios não se prestavam a confusões, mas actualmente, e imaginando que o tresloucado de Barcelos gritasse Allahu Akbar enquanto degolava as suas vítimas, adivinhe-se se a história já não teria corrido o Mundo?...
01 novembro 2016
A «INCOMPETÊNCIA» DOS MINISTROS DAS FINANÇAS
Ontem aconteceu ao ministro saudita das Finanças (notícia da esquerda): foi demitido pelo rei. Mas há menos de dois meses acontecera o mesmo ao angolano (notícia da direita), fora demitido pelo presidente. A razão para os problemas que se adivinham estão à vista de todos: a cotação do barril de petróleo reduziu-se para metade em 2015 e as receitas dos países que viviam dependentes da sua venda já não darão para sustentar os gastos sumptuários de outrora, mas a culpa é dos ministros das Finanças. Afinal, os déspotas também são obtusos. E nós as imaginarmos que é só nas democracias que o povo tem dificuldade em entender os factos mais corriqueiros da vida...
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12 maio 2013
A DISPUTA DE AL BURAIMI
Al Buraimi é um oásis remoto no interior da península arábica como se pode ver acima, assinalado no mapa. Tradicionalmente a suserania daquela região havia pertencido ao sultão de Omã quando em 1949 o rei da Arábia Saudita apresentou a reivindicação de que essa região seria sua. A pretensão saudita afectaria o traçado (acima, a tracejado) das suas fronteiras tanto com o sultanato de Omã como com o emirato do Abu Dhabi, o maior, o mais importante e o mais ocidental da federação que constitui os actuais Emirados Árabes Unidos. Nessa época as duas monarquias (o sultanato e o emirato) eram ambas protectorados britânicos e, por outro lado, detrás das ambições sauditas não era difícil identificarem-se os interesses da Aramco.
A Aramco era a empresa responsável pela exploração do petróleo da Arábia Saudita. Era um consórcio de algumas das grandes petrolíferas norte-americanas, as Standard Oil da Califórnia, de Nova Jersey (veio a ser a Exxon) e de Nova Iorque (tornou-se depois na Mobil) associadas à Texaco. A área reivindicada era mais importante que o oásis porque se localizava numa zona muito prometedora (veja-se abaixo) quanto à existência dos maiores e mais rentáveis campos petrolíferos do Médio Oriente. A Arábia Saudita já era uma produtora de petróleo desde 1939 mas os britânicos, talvez por serem ainda plenamente abastecidos pelo petróleo iraniano não viam razões para dinamizar a sua prospecção noutros locais da região que tutelavam. Posteriormente na região disputada também se vieram a descobrir jazidas de petróleo.
A manobra saudita, patrocinada pela Aramco, começou por fazer-se sentir no terreno através de uma incursão de um emir saudita acompanhado de uma escolta oficiosa que atenuava a formalidade da invasão e que se instalou numa das três aldeias do oásis em 1952. Em vez de resolver o problema da forma tradicional, correndo os intrusos a tiro, os britânicos persuadiram os dois monarcas afectados (o sultão de Omã e o emir do Abu Dhabi) a resolverem a disputa de forma civilizada, levando-a à avaliação de um tribunal arbitral. Mas os próprios britânicos perderam a paciência quando os opulentos sauditas atrapalharam as negociações formais com tentativas pouco discretas de subornar juízes e intervenientes da parte contrária.
Em 1955, o Reino Unido deu a sua cobertura a uma operação militar conjunta de omanitas e de soldados ao serviço do Abu Dhabi, enquadrada por oficiais britânicos que culminou com a expulsão dos sauditas. A então recém-formada unidade militar do Abu Dhabi tornou-se a antecessora das actuais forças armadas dos Emiratos. A atitude britânica provocou uma certa azia do outro lado do Atlântico e o assunto tornou a ser várias vezes ventilado, especialmente quando as relações entre os dois países anglo-saxónicos atingiram um nadir por causa da Crise do Suez de 1956, mas a disputa não voltou a ter grande visibilidade até à sua resolução em 1974, já depois das independências dos Emiratos Árabes e de Omã (1971), através da assinatura de um Tratado de Fronteiras. Um livro a sair proximamente poderá acrescentar alguns pormenores importantes a esta história.
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21 setembro 2012
AS MICRO-CONFERÊNCIAS DO QUINCY
Em Fevereiro
de 1945, quando de regresso da Conferência em Yalta, o Presidente Franklin D.
Roosevelt resolveu aproveitar a ocasião da sua vinda à Europa para promover
umas outras micro-conferências com dirigentes de países não europeus. Para que
ele fosse tecnicamente o anfitrião, as reuniões tiveram lugar no cruzador
norte-americano USS Quincy, fundeado no Grande Lago Amargo do Canal do Suez. Foi
aí que Roosevelt recebeu o jovem rei Faruk que, nem de propósito, era técnica(
e teórica)mente o soberano do Egipto que rodeava o Quincy…
Outro convidado foi Hailé Selassié, imperador da Etiópia. Apesar de
terem sido os britânicos a reconduzirem este último ao trono em 1941, toda esta
coreografia do Aliado àqueles que classificava de actores marginais aborrecia
sobremaneira Winston Churchill, um imperialista convicto, sem disposição para
as sensibilidades do que viria a ser conhecido por Terceiro Mundo. E tinha
alguma razão: para memória futura, daquelas reuniões só perdurou a tida com o rei Ibn-Saud da Arábia Saudita, o início de uma estreita relação entre os Estados
Unidos e o petróleo saudita…
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22 outubro 2011
O HERDEIRO
Na verdade, de acordo com a Lei Básica da Governança, adoptada em 1992 sob o Rei Fahd, que regulamenta as regras da sucessão ao trono saudita, a posição de Príncipe Herdeiro acaba por combinar não apenas a questão das precedências na sucessão futura ao trono mas também os equilíbrios com o exercício do poder político na actualidade. Assim foi em 2005 quando o Rei Abdallah (nascido também em 1924) sucedeu ao seu meio-irmão Fahd (1921-2005) e assim será agora quando o Conselho se reunir para escolher o sucessor de Sultan, em que o favorito é o Príncipe Nayef bin Abdul-Aziz bin Saud (n. 1933). Claro que estes costumes são retrógrados, reaccionários e de cariz feudalista. Onde é que já se viu numa sociedade socialista, cientificamente evoluída, o poder transitar assim de um dirigente octogenário para um seu irmão septuagenário?...
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13 maio 2007
NOTÍCIAS QUE CAUSAM IMPACTO
Já foram várias as vezes que vi recuperada uma daquelas notícias de impacto que começa sempre por variações ao título: Arábia Saudita importa areia. Depois segue-se a explicação: a areia saudita presta-se a certas utilizações (para a construção civil, o que já levou a Arábia Saudita a suspender as suas exportações de areia para o vizinho Bahrein…) mas não para outras, como a limpeza interna de oleodutos, onde se utiliza a injecção de um tipo de areia que tem de ser importada da Austrália ou da Holanda…A notícia que a China virá a sentir carências de mão-de-obra daqui a dois anos é um outro exemplo de notícia que chama a atenção do leitor. Segue-se a explicação: o ritmo a que a mão-de-obra das regiões do interior da China tem sido liberto das actividades agrícolas tem sido muito mais lento do que as necessidades criadas pelo crescimento industrial nas suas zonas litorais, as maiores responsáveis pelo crescimento da economia chinesa a taxas próximas dos 10% anuais (9,8% é a previsão The Economist para 2007).
Um pouco distinto deste universo, mas também capaz de causar impacto, eu concebo que o desaparecimento de uma criança no Algarve seja uma notícia que possa despertar o interesse das audiências. Não compreendo é que explicações ulteriores serão capazes de a deixar em cartaz por uma semana a fio. Ainda ontem (Sábado) a SIC lhe reservava os dez minutos de abertura do Telejornal, com a repórter (Maria João Ruela) a concluir que durante aquele dia nada de especial acontecera…. e a deixar no ar, por responder, a pergunta seguinte, lógica: houve algum dia – com excepção do do desaparecimento - em que aconteceu efectivamente alguma coisa?
Ou será que artigos como este são explicação para o que aconteceu?
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16 outubro 2006
O PROGRAMA NUCLEAR DA TURQUIA
Quando em 7 de Outubro último, o presidente do Egipto, Hosni Mubarak disse em entrevista publicada pelo semanário egípcio As Forças Armadas que o seu país tem direito a usar energia nuclear com fins pacíficos, toda a gente entendeu o seu recado. Aliás, nada mais eloquente do que a escolha de um jornal intitulado As Forças Armadas para realçar o uso pacífico que se pretende fazer da energia nuclear…A chamada proliferação nuclear tem destas coisas. É um pouco como aquele sentimento que nos faz invejar as coisas do nosso vizinho e, quantos mais países passarem a dominar o armamento nuclear, tantos mais vizinhos invejosos aparecerão. Pela estimativa de El Baradei, o director da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), eles poderão ser actualmente uns 20 ou 30.
E não será difícil deduzir quais serão, siga-se apenas a geografia da proliferação, de que um dos seus eixos – o detentor do armamento nuclear justifica a sua aquisição pela posse do mesmo por parte do país que o antecede – terá começado nos Estados Unidos (começam sempre…), União Soviética, China, Índia, Paquistão, Irão… até aos próximos candidatos da série que serão a Arábia Saudita, a Turquia e precisamente o Egipto.
Por isso mesmo, não deve constituir qualquer surpresa no mundo profissional das informações militares o anúncio feito agora por Mubarak, nem deve ser brilhante a dedução que sauditas e turcos devem estar agora mesmo – se já não estivessem antes… – a dedicar os seus melhores esforços á obtenção de meios que lhe permitam dispor das matérias primas necessárias para a construção de um dispositivo nuclear.
Pelos vistos, como já deu para perceber mesmo no mundo dos leigos, num engenho nuclear o segredo estará na pureza do material utilizado e nos processos conducentes a obtê-la, e não a técnica de construção do engenho, cujos princípios parecem estar banalizados. Aliás, especula-se agora como terá sido uma falta de pureza do material nuclear explosivo que teria estado por detrás do alegado fracasso do teste norte-coreano.
Em certas ocasiões, é por pequenas coisas que não acontecem que se podem perceber melhor a profundidade de certos assuntos. Se o recente diferendo franco-turco, a propósito da criminalização da opinião sobre o genocídio arménio em França tivesse raízes sérias, era uma manobra muito provável que a máquina propagandística francesa tivesse feito saltar para a luz do dia a existência de um programa nuclear turco.
A imagem de uma Turquia à procura de uma bomba atómica seria capaz de arrasar, por muitos anos e bons, em termos de opinião pública, a sua imagem e as veleidades da sua adesão à União Europeia. Assim como está o assunto, com muita parra e pouca uva (apenas 1/5 dos deputados votaram a lei na Assembleia Nacional), mostra bem onde os responsáveis franceses o querem: como uma manobra política (canhestra) de consumo interno…
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