Eu desconfio que a previsão que Donald Trump vai ganhar as próximas eleições presidenciais americanas terá alcançado o estatuto de axioma no panorama do opinionismo nacional. O homem apanhou um tiro de raspão, fizeram-lhe uma excelente foto na ocasião e o eleitorado norte-americano apresenta-se rendido à evidência mística. Até Miguel Esteves Cardoso, que só costuma escrever sobre fait-divers acha que sim. Pois eu acho que talvez não. Não o faço com aquela assertividade de Vasco Pulido Valente, que avaliava a distribuição relativa de opiniões para depois se engajar resolutamente num artigo onde defendia a minoritária e menos razoável, mas com a precaução de quem já se convenceu do desfecho de eleições envolvendo Trump e se enganou redondamente. Mas isso aconteceu em Novembro de 2016 e a lição ficou-me de emenda. Ao contrário do que terá acontecido com mais figuras gradas do opinionismo nacional que, em 2020 e também ainda a meses das eleições, já manifestava opiniões muito concretas sobre o seu desfecho. Miguel Sousa Tavares, que não escreve só sobre fait-divers e que, se calhar, devia escrever apenas sobre fait-divers, aparece-nos abaixo em Agosto de 2020 a dar as eleições daquele ano decididas de antemão para Donald Trump. por todas as razões que ele lá escreve. Ora, interpretar o comportamento e as prioridades do eleitorado americano aqui deste lado do Atlântico, a ponto de antecipar categoricamente o desfecho do que acontecerá em Novembro de 2024, continua a ser um exercício arriscado. Primeiro porque faltam quatro meses até às eleições e, até lá, muitas outras coisas podem acontecer. Em segundo lugar e sobretudo, porque querer interpretar o pensar do eleitorado norte-americano é um exercício arriscadíssimo: ter presumido, por exemplo, que uma percentagem maioritária deles se indignaria com o patrocínio que Donald Trump deu ao assalto ao Capitólio em Janeiro de 2021 foi apenas o maior erro de um encadeado de mal-entendidos quanto à forma como o americano médio pensará. Porque o comportamento do eleitorado nos Estados Unidos é assim tão errático, nada me parece garantir que o episódio de ter apanhado um tiro transformará em simpatias muitas das antipatias anteriormente geradas por Donald Trump. Pode ser que sim, mas nada melhor do que esperar para ver... Para não fazer a mesma figura que Miguel Sousa Tavares fez aqui há quatro anos.
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15 julho 2024
04 julho 2024
EU NÃO SOU NORTE-AMERICANO, A REVISTA «THE ECONOMIST» TÃO POUCO, MAS HÁ QUE CONVIR QUE APOIADO NUM ANDARILHO «NÃO É MANEIRA DE GOVERNAR UM PAÍS»
«O último debate presidencial foi horrível para Joe Biden, mas o encobrimento que lhe sucedeu está a ser pior. Foi uma agonia assistir a um velho confuso a lutar para se lembrar das palavras e dos factos. A sua incapacidade de argumentar contra um fraco oponente foi desanimadora. Mas a operação dos membro da sua campanha para negar aquilo que dezenas de milhões de americanos viram com os seus próprios olhos é mais tóxica do que qualquer um desses dois aspectos, porque a desonestidade subjacente provoca o desprezo entre aqueles que ouvem as explicações.
A grande consequência foi a de colocar a Casa Branca ao alcance de Donald Trump. Sondagens posteriores revelam que os eleitores daqueles estados que Biden tem de vencer se voltaram contra ele. A sua vantagem pode estar em perigo mesmo em estados antes considerados seguros, como a Virgínia, o Minnesota ou o Novo México.
Joe Biden merece vir a ser lembrado pelo sua actuação e pela sua imagem de decência, não por este seu declínio. É apenas normal que tenham surgido os primeiros políticos democratas destacados a pedir abertamente que ele se afastasse da corrida presidencial. No entanto, aquelas manifestações públicas não serão nada se comparadas a uma onda crescente de consternação que apenas se manifesta em privado. As pessoas têm que se consciencializar que, se não se manifestarem agora, será Trump o vencedor. Para trazer a tal renovação política que a América agora tão claramente precisa, são eles que devem pedir mudanças. E não é tarde demais.
O argumento - correcto - dos democratas é que Donald Trump não tem aptidão para ser presidente. Mas o debate e as suas consequências mostraram é que Joe Biden também não. Primeiro, por causa de seu declínio mental. É verdade que o presidente ainda pode parecer dinâmico durante aparições que sejam curtas e devidamente coreografadas. Mas não se pode administrar uma superpotência apenas com telepontos. E não se pode suspender uma crise internacional apenas porque o presidente padece de jet-lag. Alguém que não consegue terminar uma frase a respeito do Medicare pode ser confiável quando o assunto envolve códigos nucleares?
Pode dizer-se que Joe Biden está inocente do facto das suas capacidades estarem a falhar, mas ele não pode ser absolvido desta sua insistência, instigada pela sua família, pela equipa de topo e pelas elites democratas, de que ele ainda estará à altura do desempenhar a função mais difícil do mundo. A alegação do presidente Biden de que esta eleição é entre o que está certo e o que está errado é destruída pelo facto - prosaico, mas arrasador - de que a existência da sua campanha agora depende de uma mentira.»
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03 junho 2024
UMA REFLEXÃO REBUSCADA ASSOCIANDO A CHANG'E-6 E PAULO PORTAS
Foi com uma enorme discrição que se constata estar a ser noticiada a aterragem no lado oculto da Lua da sonda espacial chinesa Chang'e 6. A missão tem por objectivo recolher amostras de poeira e rochas lunares para posterior análise na Terra. Para isso, o sistema está organizado em quatro módulos: um orbital à volta da Lua, este módulo de aterragem na superfície lunar que foi agora utilizado, um terceiro módulo de redescolagem depois da recolha das amostras do solo e finalmente um quarto módulo preparado para as proteger quando do seu retorno à Terra. Trata-se de uma proeza que já foi alcançada pelos Estados Unidos e pela União Soviética durante a sua Corrida para a Lua de há 50 anos, mas neste caso da Chang'e 6 existe a curiosidade - e a dificuldade - científica acrescida desta pesquisa estar a realizar-se do lado oculto da Lua. Há aqui um investimento notório por parte da China, não apenas científico, mas também de prestígio. O vídeo acima é uma prova disso, e é impossível não nos sorrirmos ao ouvir a escolha que fizeram para a banda sonora do momento da aterragem, «O Danúbio Azul», num piscar de olhos deliberado à famosa cena do filme 2001 - Odisseia no Espaço.
Contudo, mais interessante do que acompanhar a própria proeza científica, têm sido os meus esforços para tentar compreender a racionalidade como estas proezas científicas costumam ser noticiadas pela comunicação social. A portuguesa e a internacional, esclareça-se. Ainda este ano, em Fevereiro, acompanhei aqui no blogue uma iniciativa privada de fazer aterrar uma sonda também na Lua, que recebeu uma promoção prévia entusiasmada (1) e que depois, após uma tentativa ridícula de atrasar as más notícias (2), se veio a revelar um fiasco... colossal (3). O contraste com as notícias a propósito desta Chang'e 6 não podia ser maior. Entre a comunicação social portuguesa e do resultado da pesquisa que acabei de fazer com o Google Notícias (acima) apenas o jornal Público se tinha dado ao trabalho de processar a informação que lhe chegara via Reuters. Eu vivo ainda na ilusão de que, porque estes temas são científicos, a sua repercussão noticiosa devia ser mais neutra. Mas nestas ocasiões parece-me que a objectividade é a mesma que aquela que acompanha a difusão dos pensamentos dominicais de Luís Marques Mendes na SIC versus Paulo Portas na TVI. O primeiro até pode dar um traque que é garantido que o Expresso comenta de imediato a importância do som emitido, enquanto o segundo, nem mesmo citando os ensinamentos de Confúcio, tem qualquer hipótese que lhe dêem atenção... (note-se: não tenho pena alguma de ele ser descriminado, devia era ignorar-se Marques Mendes da mesma maneira)
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14 maio 2024
SUGESTÕES PARA MELHORAR O ESPECTÁCULO DA POLÍTICA ESPECTÁCULO
Para quem estivesse estado distraído, ou não ligue a essas coisas, ontem houve um debate com quatro cabeças-de-lista às próximas eleições europeias. O debate em si terá sido o menos importante, o que foi bom foi o que se seguiu, colecções de comentadores a darem notas aos intervenientes (acima). Parece-me ridículo mas, se for para levar a política espectáculo às suas possibilidades máximas, a minha sugestão é que as televisões e os jornais alarguem as possibilidades de votação e de notificação aos espectadores e leitores, assim como já se faz noutros certames - ainda no fim de semana passado foi o festival da eurovisão (abaixo). Melhor: as votações do público podem incidir não apenas sobre os políticos como também sobre os comentadores que, depois de darem notas aos políticos, ver-se-iam na situação de as receber por sua vez do público - talvez os tornasse mais modestos nos julgamentos...
Enfim, acredito que, bem explorado, este processo do televoto produzirá muito maior animação à volta do acontecimento central sem que seja necessário assistir a ele - o debate propriamente dito. Afinal, conheço muita gente que me confessa que se dispensa de ouvir as canções do festival (de que normalmente não gosta...), o que lhe interessa é seguir depois as votações. E aqui a coisa assemelha-se: ninguém está interessado naquilo que o Bugalho ou a Temido tenham para dizer, já que foi previamente ensaiado, a animação começa depois de eles saírem de cena. Agora, imaginem a animação suplementar que umas chamadinhas de valor acrescentado poderiam dar ao espectáculo! Rematemos com um exemplo: se for agora eu a dar notas aos que deram notas, arrisco-me a considerar que esta classificação final abaixo dos comentadores do Expresso (Martim Silva, Paula Santos, Paulo Baldaia e Pedro Cordeiro) foi a mais estúpida de todas as classificações que vi até agora.
PS - Agora a sério e a propósito daquilo que pode acontecer em televisão se ela verdadeiramente se democratizar em prol do que serão os desejos da audiência, lembrei-me deste poste que aqui publiquei vai para cinco anos: «Eis o que queremos que você pense»
02 maio 2024
IGNORÂNCIAS...
As ignorâncias acontecem com todos nós. Eu ainda me lembro de quando, e «apesar da preocupação do Bloco de Esquerda» com a moralidade política, era esta mesma Mariana Mortágua que não compreendia o conceito e as consequências do que era ser-se deputado em exclusividade. E, aqui entre nós, parecia-me ignorância mais importante do que esta de saber quantos são o número de quinas do escudo nacional.
ARGUMENTAÇÃO EM ESTILO «PEGA DE CERNELHA»
Repare-se acima como, se embarcarmos na estrutura como João Miguel Tavares argumenta o episódio das declarações do ministro da Defesa, deixa de ser primordial aquilo que o ministro disse, para a importância se transferir para as reacções ao que ele, Nuno Melo, teria dito. O teor das suas declarações deixa de ser o núcleo do problema, já que terá sido apenas «algo vagamente surpreendente». Não. O que Nuno Melo disse foi particularmente estúpido e é isso que explicará a amplitude do ribombar das reacções. O exercício a que João Miguel Tavares acima se dedica é o de (tentar) inverter o nexo entre a causa e o efeito, será como tentar pegar um touro mas sem lhe tocar nos cornos (os cornos são os disparates proferidos por Nuno Melo). Em tauromaquia (e é o próprio João Miguel Tavares que evoca a metáfora tauromáquica no seu artigo, quando compara Nuno Melo a «um forcado do Aposento da Moita»), chama-se a esse expediente uma «pega de cernelha» (veja-se imagem acima). Emprega-se quando não se quer ou não se pode pegar o touro de caras. Quanto a forcados, ainda que metafóricos, João Miguel Tavares também não se sai muito bem como cabo honorário dos Amadores de Portalegre.
20 abril 2024
NUNO MELO, A "HELOÍSA APOLÓNIA" DO PSD
Segundo o que a Lusa pôs a circular, o CDS realiza o seu 31º Congresso este fim de semana em Viseu. Não havendo sequer simulacro de disputa pela liderança, o evento parece que irá decorrer perante o desinteresse geral, mesmo dos aficionados deste género de disputas políticas. O António José Teixeira ou o Sebastião Bugalho, por exemplo, não parecem dispostos a estragarem este fim de semana para irem para Viseu dizerem coisas ao fundo do pavilhão onde decorrem os trabalhos. - como acontecia no passado. Quem os viu e quem os vê... aos do CDS, já que aos outros - Teixeira, Bugalho e os outros da mesma laia - ninguém dará nada por eles se não se fizerem ser vistos, só que tem de ser nas ocasiões em que haja mesmo quem os esteja a ver, mesmo que estejam a dizer baboseiras como neste segundo caso imediatamente abaixo... Com estas significativas ausências (note-se que a imagem abaixo de António José Teixeira é do 27º congresso do CDS...), o CDS tem todo o aspecto de se ter transformado num has been para o comentadorismo político doméstico.
Noutros tempos e do outro lado do espectro, quando os comunistas ainda tinham força democrática para eleger ao menos uma dezena/dúzia de deputados, costumavam arregimentar uma organização satélite denominada partido ecologista "Os Verdes", a quem os comunistas cediam um ou dois assentos parlamentares, fingindo-se passar por uma coligação. Claro que "os (ditos) Verdes" tinham uma história de completa ausência de autonomia: contavam-se pelos dedos das mãos o número de vezes em que, durante toda uma legislatura de quatro anos, os seus dois deputados haviam votado de forma diferente dos seus patrocinadores comunistas. E as divergências nunca eram frontais: se uns haviam votado contra, os outros haviam-se abstido... A paródia de autonomia era tal que "os Verdes" eram designados em surdina e para paródia como "as melancias": eram verdes no nome e na denominação, mas vermelhos por dentro e substantivamente. As melancias eram encabeçadas - creio que ainda o são - por uma senhora simpática - e boa parlamentar - chamada Heloísa Apolónia. E foram uma organização que nunca existiu para além da coreografia parlamentar.
O que nos trás de volta à fotografia inicial, ao CDS, a Nuno Melo que o dirige (embora seja bem menos simpático do que Heloísa Apolónia), à fotografia que o exibe orgulhoso a mostrar a placa do gabinete atribuído à parelha de deputados que elegeu nas listas do PSD e ao facto de estarem condenados os dois - líder e partido - a tornarem-se também em coisas que não têm qualquer existência autónoma para além da coreografia parlamentar. Neste caso não haverá frutas correspondentes para as identificar, mas uma caneca azul forrada a cor-de-laranja transmite a ideia daquilo a que estou convencido a que o CDS está reduzido...
14 abril 2024
...E SE EU JÁ TIVER LIDO O ARTIGO ORIGINAL DA «THE ECONOMIST»?
Entrando no domínio da análise dos cenários possíveis, se eu já tiver lido o artigo original da revista The Economist em que Teresa de Sousa se pendura hoje para escrever o seu no Público, então tudo aquilo que ela escreve é uma insuportável repetição de ideias alheias a que há que adicionar, ainda para chatear mais, um exercício escusado de name dropping: «Timothy Garton Ash, o historiador de Oxford que tem estudado a Europa como poucos...». Se o artigo é supérfluo, então este último requinte petulante era completamente dispensável... Para uma apreciável percentagem de leitores que se interessam a sério por estes assuntos, onde me incluo, estamos diante de um exercício gratuito de Teresa de Sousa que pediu umas ideias emprestadas para preencher uma página inteira de um jornal. Já tinham lido o original... Depois há uma outra apreciável percentagem de leitores do Público que não se interessam substancialmente por estes assuntos, aqueles para quem a visão de uma página inteira dedicada a este tema da hipotética vitória de Putin na Ucrânia não cativará a leitura. O que restará na intersecção destes dois grupos é um tipo de leitor que, um dos comentadores do artigo de Teresa de Sousa compara, com muita felicidade, com os leitores clássicos das Selecções do Reader's Digest, uma revista octogenária composta de condensações traduzidas de artigos norte-americanos de tendência conservadora (abaixo). Já teve os seus dias, agora o principio está obsoleto, porque uma maioria dos potenciais leitores consegue aceder aos artigos originais e tem capacidade de os ler. Ao ler este artigo de Teresa de Sousa, e fazendo minhas as palavras do comentador a que me referi mais acima «sinto-me como se estivesse a ler as Selecções do Reader's Digest» e eu acrescento, sinto-me a ser tratado como um leitor típico daquela revista, o que está longe de ser um elogio. Teresa de Sousa que se aplique!
Aliás, só para chatear e contraditar aquilo que a Teresa de Sousa escolheu transcrever, a mesma edição da The Economist contém um artigo de opinião de um especialista chinês (este não terá estudado a Europa como poucos, porque é chinês...), artigo esse em que a ideia prevalecente é que os problemas mais graves do conflito se colocam à Rússia, não à Ucrânia. Recorde-se que as maiores críticas à orientação ideológica das Selecções sempre estiveram no critério da sua escolha dirigida dos artigos que publicavam...
29 março 2024
«PORTUGAL DEVIA...»
Ontem, ao ver Miguel Poiares Maduro a mandar bitaites sobre os nomes que compunham o novo governo numa das televisões do comentário, dei-me a especular quanto às razões para que ele não fizesse parte do elenco que comentava. Poiares Maduro tem 57 anos e é um dos poucos militantes do PSD que conjuga essa idade (oportuna) com a circunstância de ter a experiência governamental de antigo ministro. São esses factores que se conjugam para que se preste atenção a opiniões suas como a manifestada acima, em Setembro de 2017 (nos tempos da geringonça), em que, segundo ele, "Portugal devia estar a crescer acima de 3,5%". Seja como for, ficou-nos a dúvida se esta sua ausência do novo governo do PSD se deverá à ausência de um convite ou à indisponibilidade manifestada pelo próprio. Mas, para mim, faria todo o sentido vê-lo a porfiar para que Portugal passasse a crescer (economicamente) a (mais do que) 3,5% ao ano, tanto mais que ele, ao contrário de outros comentadores, é dos que "não vê razão para (que um) executivo minoritário correspond(a) a instabilidade". É uma pena e espero sinceramente não estar a ser involuntariamente irónico se considerar esta ausência como uma oportunidade desperdiçada por Luís Montenegro...
15 março 2024
OPINIÕES QUE SE RESPEITAM DE OPINADORAS QUE SE DÃO AO RESPEITO
A publicação do relatório da comissão independente para o esclarecimento de situações de assédio no Centro de Estudos Sociais de Coimbra foi acolhido de forma tépida pela opinião publicada. E isso terá sido assim porque, mais uma vez, o assunto não contou com o interesse mais exuberante e efervescente das tradicionais campeãs das causas femininas do circuito do opinionismo. É esse panorama desolador que confere ainda mais reverência ao artigo de hoje de Susana Peralta no Público. Reconheça-se que não foi a única a referir-se ao tema com o mesmo propósito condenatório da conduta (passada e também presente) de Boaventura Sousa Santos. Mas reconheça-se que, entre outras grandes protagonistas desse ramo do opinionismo assertivo - Mariana Mortágua, Isabel Moreira, Fernanda Câncio - continua a haver uma absurda - e desacreditada - diferença de critérios conforme haja ou não simpatia da opinionista pelo abusador, nunca é demais recordar este poste abaixo, de Setembro do ano passado. Alguém quer apostar contra mim que, mais uma vez e agora a propósito da publicação deste relatório, qualquer uma destas três palermas abaixo não vai dizer também nada?...
(Republicação)
No quadro acima temos, em primeiro lugar, uma reacção numa rede social da deputada e líder do Bloco de Esquerda Mariana Mortágua ao Caso Rubiales; ao lado temos a reacção da mesma Mariana Mortágua ao Caso Boaventura Sousa Santos. Imediatamente abaixo temos o comentário da deputada socialista Isabel Moreira sobre Boaventura Sousa Santos, quando comparado com o que ela disse mais recentemente a respeito de Rubiales. E finalmente, ainda a propósito desses mesmos dois casos, há os dois artigos de opinião escritos pela jornalista Fernanda Câncio a respeito de ambos, Rubiales e Sousa Santos. Não viram nada escrito por qualquer uma delas a respeito de Sousa Santos?... Pois é... É a diferença entre quem tem princípios e quem tem atitudes.
12 fevereiro 2024
JOÃO MARIA JONET
Ontem encontrei-o na SIC Notícias acompanhado de dois gigantes veteranos do opinionismo - Ricardo Costa e Pedro Marques Lopes - a comentar os debates daquele serão (PAN vs. PSD; BE vs. PCP). E gostei. E ainda gostei mais que se tivesse aproveitado das conhecidas idiossincrasias dos opinadores que o acompanhavam - nomeadamente uma infinita capacidade para se ouvirem a si próprios - para se distinguir deles. Mormente mostrou que entendia que aquele ecossistema de debates e comentários televisivos podia ser apenas isso: um ecossistema encerrado em si mesmo, com muito pouca projecção para o verdadeiro mundo, onde os potenciais eleitores decidem, em primeiro lugar, se vão votar ou não vão votar e só depois é que decidem em quem votarão. Jonet é pessoa que está naquela bolha, mas percebe-se que sabe que aquilo é uma bolha. Os outros dois, e muitos dos que lá vejo naquela mesma coreografia, no geral nunca tiveram nem inteligência para se perguntarem se estão a raciocinar como os comuns mortais do outro lado do ecrã...
07 fevereiro 2024
AGORA SÓ FALTA MESMO TRATAR O "MOSCOW TUCKER" POR... "MOSCOW TUCKER"
No seguimento do poste de ontem sobre a "Hanoi Jane" e agora o "Moscow Tucker". Não me digam que, por causa da correcção política, têm pruridos em atribuir alcunhas quando elas são bem atribuídas; é que assim concedem a iniciativa toda ao Trump e à malta dele (como é o caso deste Tucker Carlson).
Por outro lado, e como o frisa acima - e bem - a jornalista Abby Phillip da CNN, entre outras mentiras, Tucker Carlson não é jornalista. É um dos grandes equívocos do panorama da comunicação da actualidade, não apenas na América, mas em todo o lado. Quase todos querem fazer passar a sua actividade política por actos de jornalismo, incluindo ironicamente os próprios jornalistas... que assim se transformam em pessoas que têm documentos a dizer que o são.
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06 fevereiro 2024
IRONIAS DA HISTÓRIA E COM HISTÓRIA: DA "HANÓI JANE" PARA O "MOSCOW TUCKER"?...
Em Julho de 1972, durante a guerra do Vietname, a actriz e activista liberal norte-americana Jane Fonda realizou uma visita à cidade de Hanói, a capital do Vietname do Norte, contra quem os Estados Unidos mantinham uma guerra semi-declarada (os Estados Unidos tinham nomeadamente em curso uma operação de bombardeamento sistemático de alvos militares e económicos em território norte-vietnamita denominada Operação Linebacker). A visita de Jane Fonda, então com 34 anos e com a popularidade de ter recebido um óscar naquele ano, pode ter sido muito bem intencionada, mas os anfitriões organizaram-lhe a visita de tal forma que a transformaram numa completa peça de propaganda pró-norte-vietnamita, como se pode apreciar pelo vídeo acima. Pior do que isso, o teor condenatório, desprovido de qualquer condescendência nas suas declarações a respeito dos pilotos seus compatriotas, que entretanto haviam sido capturados e estavam aprisionados em condições deploráveis no Vietname do Norte, não podem ser assacadas senão à própria.
A iniciativa e o comportamento que adoptou durante esta visita mereceram-lhe a alcunha pouco simpática de "Hanói Jane", no mesmo estilo das alcunhas que anteriormente haviam sido atribuídas às locutoras de propaganda dos inimigos dos Estados Unidos nessa e noutras guerras anteriores - Tokyo Rose (Japão) ou Hanoi Hannah. O clímax terão sido as fotografias que lhe fizeram numa peça de artilharia AA (anti-aérea instalada para derrubar os aviões americanos), uma fotografia que desencadeou mais do que críticas, o próprio desprezo dos militares e, de forma mais geral, dos conservadores americanos pela actriz americana. Como se percebe pelo artigo do Washington Post de 2018, Jane Fonda continuou e continua a pagar o preço da sua conduta, da qual já deu mostras de se arrepender em parte. Mas depois de todo esta explicação, agora mudemo-nos para o presente e falemos de Tucker Carlson, um comentador político conservador de 54 anos, que se tornou popular (e controverso) por, durante seis anos e meio, ter mantido um programa quotidiano de opinião no canal Fox News.
O programa de Carlson foi abruptamente cancelado em Abril do ano passado. Quais serão os projectos e quais são as deambulações de Tucker Carlson depois disso permanecerão, contudo, assunto interessantes. Aprecie-se a notícia de que ele estará em Moscovo, notícia que é acompanhada da especulação que a sua intenção (entretanto confirmada) será realizar uma grande entrevista a Vladimir Putin. Na Rússia de Putin parece gostar-se de Tucker Carlson e, reciprocamente, Tucker Carlson gosta muito da Rússia de Putin. Estes dois episódios, o da "Hanói Jane" e o do "Moscow Tucker" não serão escrupulosamente simétricos mas é evidente que a dissidência de opiniões dos dois em relação ao mainstream das opções da política externa da América é assaz semelhante. O problema será que um e outro se registam em lados opostos do espectro político. Como de costume, o que eu gosto de ver é o que acontecerá à coerência. Quantos conservadores considerarão o comportamento actual de Tucker Carlson como uma traição à América? E quantos liberais defenderão a sua liberdade de opinião?...
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03 fevereiro 2024
O «PARADOXO MONTENEGRO» E O »PARADOXO JOÃO MIGUEL TAVARES»
João Miguel Tavares escreve hoje o seu artigo de opinião no Público perguntando-se porque «é que a poderosa máquina de propaganda do Governo e do PS não transformou os 98,7% na maior notícia do ano?» (Eu tenho uma resposta: porque a quase totalidade das pessoas persuasíveis à propaganda desta época não faz, nem quer fazer, a mínima ideia do significado dos 98,7%. O sucesso de um indicador macroeconómico não se vende agora.) João Miguel tem uma outra resposta, diferente, que ele aliás adianta no seu artigo. Baptizou-a de «paradoxo Montenegro», baseada numa «frase imorredoura» pronunciada pelo presidente do PSD vai para dez anos: "A vida das pessoas não está melhor, mas a do país está muito melhor". Ainda segundo João Miguel Tavares, «ele tinha razão».
E é aqui que começa a minha discordância. João Miguel Tavares pode não ter dado por isso, mas houve duas razões para que Luís Montenegro tivesse sido, como ele o descreve, «o bombo da festa durante meses». A mais elementar e que ele terá captado, é que as declarações de Montenegro davam mostras de uma enorme insensibilidade social. A razão mais complexa, que lhe terá escapado, é que a vida do país, no conceito das contas pública a que Montenegro se estava a referir, também não estava melhor. Aproveito para o recordar acima, que o indicador da dívida pública, o tal que agora se situa em 98,7%, andava em 2014 pelos 128,7%, aumentara e, pior, o Governo (de Passos Coelho) voltara a enganar-se, outra vez, nas previsões. Portanto, além de insensível, Montenegro não tinha razão, estava a mentir.
Não se trata apenas do indicador de 2014 ser 30% acima do de hoje (128,7% vs. 98,7%) , é sobretudo uma questão de, apesar das prioridades do governo de então, não se registarem resultados compatíveis com os sacrifícios que estavam a ser impostos aos portugueses. Se neste artigo se revela o «paradoxo Montenegro», paradoxalmente, também se percebe que existe o «paradoxo João Miguel Tavares», aquele que estabelece que, quando é conveniente, uma opinião pode ser assertivamente emitida, mesmo que uma consulta ao passado (este blogue tem memória!) comprove que essa opinião não tem nada a ver com o que foram os factos... A China maoista também fazia disso, embora de forma visual, e por isso, mais caricata.
O ARTISTA ANTÓNIO MARINHO E PINTO QUE SE RECANDIDATAVA PARA «PRESTAR CONTAS»
3 de Fevereiro de 2019. A edição do Público dedicava uma notícia e um editorial ao anúncio da recandidatura ao parlamento europeu de António Marinho e Pinto, ele que fora a surpresa das eleições anteriores de 2014, quando alcançara uma inesperada votação de 7% e 234.600 votos com a discreta etiqueta do MPT. Editorial e notícia eram coincidentes na antipatia que a personagem merecia aos dois autores, Manuel Carvalho e Liliana Valente. De 2014 para 2019, Marinho e Pinto arranjara entretanto um partido próprio e dissera muitas coisas, provavelmente demasiadas coisas que teriam tido o condão de irritar uma parte da assistência. Quanta dela (assistência) continuava a simpatizar consigo era coisa que só se descobriria dali por meses. Sabemos hoje o resultado da «prestação de contas» de Marinho e Pinto: uns míseros 15.800 votos, ou seja e apresentado de outro modo, ele perdeu a simpatia de 14 em 15 eleitores que havia cativado nas eleições que haviam decorrido cinco anos antes. Neste caso, o desfecho eleitoral veio demonstrar que a opinião pública e a opinião publicada mostravam-se absolutamente sintonizadas.
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30 janeiro 2024
OS ASSUNTOS, TAL QUAL ELES SÃO, EM CONTRASTE COM A MANEIRA COMO NOS QUEREM CONTAR
30 de Janeiro de 1984. O Diário de Lisboa publica, via AFP, um artigo de opinião de um jovem (27 anos) sociólogo francês chamado Didier Lapeyronnie sobre a questão do sigilo bancário suíço (note-se que os dados que aqui forneço sobre a identidade do autor do artigo não eram então facultados ao leitor do jornal). Sobre o conteúdo do artigo, mesmo uma leitura menos atenta mostra quanto ele é inequívoco na condenação das práticas da banca suíça. Mas o próprio artigo acaba dando uma esperança contra tais práticas condenáveis, porque quase quatro meses depois, a 20 de Maio, «os eleitores helvéticos (iriam) ser chamados às urnas para se pronunciarem, por via de referendo sobre uma iniciativa socialista "contra o abuso do segredo bancário"». A impressão geral que se extraía do artigo - pelo menos, foi o que aconteceu comigo - é que os suíços teriam então uma oportunidade de se exprimir contra uma prática duvidosa, senão mesmo condenável, de proteger a identidade de depositantes que ali escondiam fortunas de origens inconfessáveis. Esta era a opinião de Didier Lapeyronnie com este seu artigo de há 40 anos, avalizado pela France Press. E depois... houve quem não se tivesse esquecido do assunto, e tivesse ficado atento aos resultados do referendo (abaixo). Numa proporção de quase 3 para 1, os suíços que se pronunciaram manifestaram-se a favor da manutenção do sigilo bancário. E foi assim que eu descobri que monsieur Lapeyronnie não estava afinal nada sintonizado com a opinião generalizada dos próprios suíços... Achava coisas. Era aquele tempo em que eu dava muita valia à opinião que vinha do estrangeiro, por vir do estrangeiro.
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21 dezembro 2023
TODOS AQUELES INTELECTUAIS DO OBSERVADOR QUE TINHAM UMA OPINIÃO PREMENTE SOBRE A GRÉCIA E A QUEM NÃO OUVIMOS OUTRAS OPINIÕES SOBRE O MESMO PAÍS NOS NOVE ANOS QUE SE SEGUIRAM
A Grécia acabou de ser eleita como o país do ano pela revista liberal britânica The Economist. As razões para a nomeação constam dos dois parágrafos acima, do lado esquerdo. Mas aquilo que me ocorreu de imediato a propósito desta eleição e da Grécia foi regressar a Janeiro de 2015 e ao frenesim opinativo a que se dedicava o jornal Observador como antecipação às eleições que ali iriam ter lugar: dez artigos de opinião assinados por outros tantos intelectuais formulando essencialmente uma opinião que era a mesma e era premente (acima à direita). A esta distância temporal (quase nove anos) percebe-se que as eleições da Grécia só eram importantes porque continham o significado simbólico de serem uma antecâmara das que viriam a ter lugar em Outubro daquele mesmo ano em Portugal. O engraçado nesta associação involuntária entre a The Economist e o Observador é constatar que as inclinações ideológicas das duas publicações até nem são assim tão distantes entre si. O que as distingue indelevelmente é a profundidade como cada uma trata os assuntos. E a funcionalidade. Não me parece que no Observador se venha a reconhecer à Grécia de 2023 alguma utilidade como instrumento de arremesso político para as próximas eleições portuguesas de Março de 2024. Por isso, se continuarem a escrever para aquele jornal, todos aqueles dez intelectuais irão escrever sobre outras coisas que não a Grécia.
15 dezembro 2023
SOBRE A DESCOBERTA TARDIA DA OBTUSIDADE DE PEDRO SILVA PEREIRA
A jornalista Ana Sá Lopes dedicou a primeira parte da sua newsletter de ontem a contar-nos um episódio que lhe ocorreu em 2004, envolvendo Pedro Silva Pereira. A forma como o episódio está escrito não deixa dúvidas quanto ao muito fraco conceito em que a jornalista tem o político: um obtuso que «não percebera nenhuma das coisas». É sempre educativo conhecer estes episódios, só é pena conhecê-los quase 20 anos depois de terem ocorrido. A opinião de Ana Sá Lopes - e, como a própria invoca, neste caso estamos e estávamos a tratar de textos de opinião - a sua opinião teria tido todo um outro relevo político entre 2005 e 2011, quando Pedro Silva Pereira foi ministro da Presidência dos dois governos de José Sócrates... Claro que as coisas que Ana Sá Lopes escreve nos dias que correm são para ser tomadas cum grano salis, mas também é verdade que há 20 anos éramos todos mais ingénuos e levaríamos com outra seriedade que a opinião secreta de Ana Sá Lopes era que este homem de mão de José Sócrates era um idiota chapado... A atentar à sua carreira política depois da queda de José Sócrates é muito possível que Ana Sá Lopes não fosse a única a ter essa opinião. Mas os jornalistas é que andam por aí para nos darem a sua opinião. Ou não?...
14 dezembro 2023
48 HORAS
Confesso agora que estranhei a virulência da coluna de opinião de João Miguel Tavares de anteontem, no lugar do costume (jornal Público). Não que não lhe reconhece fundamentos nas críticas que fazia à pusilanimidade de Luís Montenegro, que agora renega o acordo de regime que fizera em Setembro de 2022 com o governo de António Costa quanto à metodologia para a escolha da localização do novo aeroporto de Lisboa. Mais do que apenas isso, subscrevo e endosso as referências que ele ali faz ao envolvimento sempre esquisito, sempre viscoso, de José Luís Arnaut. Tudo verdadeiro e pertinente, não fosse o meio envolvente. É que vai haver eleições. E, nessas circunstâncias, não se escrevem coisas destas que metralham a própria trincheira (a de João Miguel Tavares), ele sabe-o, e não o tenho por um daqueles desalinhados que distribuem pancada pelos seus e pelos outros para gáudio das audiências, como um José Pacheco Pereira ou um Sérgio Sousa Pinto. Mas, para clarear o mistério, foi só preciso esperar 48 horas, como o título daquele antigo filme (1982) com o Nick Nolte e o Eddie Murphy. Terão sido 48 horas tensas, como aquelas em que decorrem as peripécias do filme, mas tudo tem um desfecho claro: como se percebe pela sua coluna de hoje, João Miguel Tavares vai fazer campanha pela Iniciativa Liberal. E, sendo assim, o PSD tornou-se num rival. Espero que tenha compreendido bem, não me vá ele aparecer depois de amanhã a escrever qualquer coisa de muito desagradável a respeito de Rui Rocha... Confio que não.
11 novembro 2023
SOBRE O DISCURSO DESTA NOITE DE ANTÓNIO COSTA...
Em paralelo com os festivais dos comentadores que agora se exercitam, permitam-me dizer que me impressionou o arranque (por sinal atrasado 8 minutos, como de costume...) do discurso de António Costa, ao pedir logo desculpas a propósito do tópico que lhe será mais prejudicial: a descoberta dos envelopes com quantias avultadas de dinheiro encontrados no gabinete do seu chefe de gabinete, Vítor Escária. Falando em analogias, a notícia da descoberta dos envelopes terá sido o equivalente ao momento João Perna no processo de José Sócrates. (Para quem já esteja esquecido, João Perna¹ era o motorista que levava as elevadas quantias de dinheiro a Sócrates) Num caso e noutro, o aparecimento de dinheiro vivo em quantidade liquidou quaisquer dúvidas na opinião pública que o assunto era sórdido. Ninguém normal lida assim com tanto numerário. A António Costa só lhe restava descartar-se do seu chefe de gabinete no início da sua intervenção, assim como deixou para o fim da sua intervenção, a pretexto de uma pergunta final de um jornalista que duvido que não tenha sido preparada, a sua demarcação do seu amigo Diogo Lacerda Machado. O soundbite pareceu-me apropriado demais para não ter sido preparado de antemão: «a realidade é que um primeiro-ministro não tem amigos».
¹ É oportuno recordar que João Perna acabou por não vir a ser julgado por esses transportes, por causa de «um erro processual» «cometido pelo Ministério Público». O MP é óptimo a plantar pistas convincentes na comunicação social, o problema é que nos tribunais aquele mesmo MP mostra-se uma merda de incompetência.
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