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01 setembro 2019

ESTARÃO OS ÁUGURES FADADOS A SER SUBSTITUÍDOS (TAMBÉM) PELA «INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL» OU ADAPTAR-SE-ÃO MAIS UMA VEZ?

Se os adivinhos da Antiguidade se assumiam em toda a sua esplendorosa aldrabice, como muito bem recordou Goscinny no seu álbum O Adivinho de 1972 (acima), os oráculos, profetas, ou arúspices da Modernidade, disfarçam-se. O que perdura e que faz a ligação entre os antigos e os modernos é o obrigatório aspecto respeitável do protagonista (a idade ajuda), a impenetrabilidade do processo que conduz às conclusões (às vezes essa impenetrabilidade esconde-se por detrás de uma multiplicação desnecessária de palavras) e a ambiguidade da mensagem. E claro, a complacência do auditório, que normalmente está mais propenso a lembrar-se dos sucessos do que dos insucessos. As tecnologias do século XXI podem estar a dar cabo deste último aspecto.
Tomemos a afirmação, peremptória, deste opinador do Observador e do seu artigo de hoje. Mário Pinto tem 88 anos e, se calhar, devia resguardar-se mais. Não sei se terá chegado a aperceber-se das potencialidades das novas tecnologias em facilitar a detecção das contradições das opiniões que dá com as que deu no passado. Neste caso concreto, em que o jornal até é o mesmo, a importância da economia que agora, Setembro de 2019, não "é obra" deste governo, em Maio de 2015 era objecto de um tratamento assaz distinto - e, não por acaso, naquela época o governo até era outro. Mais do que isso, a questão da economia, que nessa altura não se percebia ser obra de quem (talvez por não apresentar resultados particularmente concludentes), alegadamente funcionava "como uma voz da direita contra a política de esquerda". As pessoas aos 88 anos deveriam conter-se e escrever coisas tão sábias quanto inócuas, resistentes aos testes de coerência, como fora privilégio dos áugures do antigamente. Mas não. Ignorantes quanto às capacidades inquisitivas de uma mera pesquisa no Google, parece que ainda precisam de se expor e fazer figuras tendenciosas como as do artigo acima, equiparando-se àqueles paineleiros dos serões futebolísticos da TV Cabo, em que adoptam critérios de julgamento completamente díspares, conforme a grande área onde a jogada decorre.
Note-se que eu concebo várias razões, algumas delas válidas, para que a evolução da economia não seja levada a crédito das políticas governamentais. Mas são razões a tomar em conta em todas as circunstâncias. Não se pode renegá-las quando a evolução é positiva, o governo é de esquerda e estamos deste lado do Atlântico como Mário Pinto, e aceitá-las quando a evolução é negativa, e o governo de direita, e/ou estamos na América.

13 julho 2019

«HAT TRICK» E O RESTO

Apercebi-me que, para o explicar, teria que escrever aqui uma espécie de crónica a dizer mal das crónicas dos outros, o que seria ridículo. Para não ser assim, aqui fica a minha sugestão para que as vão ler ao Público, uma fiada de opiniões fazendo eco das lutas geracionais e do ensimesmamento do meio em que compartilham tópicos (o artigo racista de Fátima Bonifácio) e alvos (os outros cronistas). Mas como um fim de semana é precioso demais para se estragar com artigos de opinião circunscritos, ainda resta um outro artigo, ainda sobre o tema do momento, da autoria de Miguel Poiares Maduro, esse com pedagogia, embora com demasiada candura, que isto de esperar que a expulsão de Bruno de Carvalho seja o «fecho de um ciclo» no Sporting ou que «a capacidade intelectual que lhe é reconhecida» (a Fátima Bonifácio) não seja posta em causa precisamente pelo que escreveu, são opiniões-desejos do autor muito para além do que me parece razoável. Nem tanto ao mar nem tanto a terra.

30 abril 2019

VOCÊS AINDA SE LEMBRAM?...

Há precisamente sete anos. E, se vale a pena evocá-los, não será para exonerar agora Mário Centeno de responsabilidades, que as reduções dos défices nunca se concretizam por milagre e têm um preço a pagar. Mas é importante conduzir a proporções decentes os argumentos de uma corrente de opinião que agora quer transformar os antecessores de Centeno numa espécie de percursores do seu sucesso. Porque, ao ler o que um dos seus antecessores prometia há sete anos, deixa de haver espaço para fantasias dessas. Os factos da História julgaram-no: ou as metas do então ministro das Finanças eram uma colossal aldrabice ou então ele era um incompetente colossal. Não se tratou de uma questão da sorte e azar do jogo político.
...e é preciso, no mínimo, ingenuidade empírica, para pressupor que as diminuições dos défices se comportam aritmeticamente. Quem passou pela experiência sabe que o que é difícil nunca são os primeiros cortes, são os últimos, quando já não se sabe por onde mais cortar e tem que se ir ao osso. É o tipo de conhecimento que se adquire na prática, não a dar aulas de economia. Segundo os últimos dados, a dívida pública portuguesa situava-se em 121,5% do PIB em finais de 2018.

20 abril 2019

VASCO AINDA NÃO ESCREVEU NADA SOBRE O RELATÓRIO MUELLER MAS «THE SHOW AIN'T OVER TILL THE DRUNK LORD WRITES»

O Vasco é conhecido por muitos um pensador, mas é considerado por uns quantos por ser um pensador cómico. Escreve um diário num jornal. Consta que tem muita influência na opinião pública. Embora a esmagadora maioria das opiniões que se podem ler a seu respeito não sejam nada abonatórias quanto ao conteúdo e método dos seus pensamentos. Só que, infelizmente como tira teimas, Portugal não é a Ucrânia, e os cómicos como o Vasco não se dispõem a concorrer à presidência. Mesmo que pareçam muito mais sabichões, se calhar desconfiam que não iriam obter assim tantos votos. No diário que escreve, um dos tópicos que tem merecido a atenção recorrente de Vasco Pulido Valente é a América sob Donald Trump.
Mas, tanta terá sido a regularidade, que se destaca a excepção desta semana que findou, onde a tão apregoada publicação do relatório Mueller (ainda que necessariamente sombreado) já não lhe mereceu a atenção e as reflexões que o anúncio da entrega desse mesmo relatório lhe havia provocado, por contraste, a 24 de Março. Desatenção, falta de tempo, ou, por esta vez, o cronista céptico abocanhou a narrativa do procurador Barr e não parece disposto a dar a mão à palmatória? A omissão de Vasco é um grande sombreado. Contudo, há uma expressão americana de que muito gosto e que aqui pode ser empregue, adaptada: "The show ain't over till de fat lady sings" que, neste caso, se deve refrasear para "The show ain't over till the drunk lord writes".

02 março 2019

O COLINHO DE RUI TAVARES

Tem vezes em que vale a pena deixar repousar as nossas reacções mais imediatas, como se se tratasse de açúcar disperso em cima da salada de frutas, para que elas se transformem com o tempo numa calda açucarada que envolva o ridículo da situação inicial. Aqui há três semanas, entre as vozes que se fizeram ouvir comentando o despropósito da promoção dada à nova formação política de Pedro Santana Lopes contou-se a de Rui Tavares (acima). Ora, o colunista do Público conta-se entre aquela escassa meia dúzia - talvez - de políticos em Portugal que não tem moral nenhuma para falar do favorecimento de Pedro Santana Lopes, já que goza de um tratamento benigno similar na comunicação social. Foi só preciso escoar-se pouco mais de uma semana (dez dias) para o tornarmos a constatar, com uma promoção despropositada (feita no mesmo jornal onde escreve, o Público) à candidatura da sua pessoa às eleições europeias. As eleições primárias do Livre terão lugar amanhã e desafio o leitor a encontrar naquele e noutros jornais, artigos referentes a outras candidaturas concorrentes no Livre ou mesmo sequer a quaisquer outras prospectivas candidaturas às eleições europeias de outros partidos marginais. Porque, valha verdade, e quanto ao estatuto marginal do Livre (e, já agora da Aliança de Pedro Santana Lopes), a última sondagem que se acabou de publicar, dando um resultado irrisório à segunda formação (1,7% para a Aliança), humilha ainda mais o Livre, rebaixando-o à condição de irrelevante: nem aparece. Sendo assim, qual a relevância jornalística da candidatura de Rui Tavares à Europa que a distinga da do Ricardo Arroja ou do Tino de Rãs? É por Tavares ser um gajo porreiro? Eu também o acho porreiro. E então?...

05 janeiro 2019

OS «INCÊNDIOS POLÍTICOS» NÃO SE PROPAGAM AOS RADICAIS «MOLHADOS»?

A propósito da celeuma provocada pelo convite da TVI a uma personagem (Mário Machado), com algum impacto mediático, conotada com a extrema direita e que acima vejo a ser comparado a um "incêndio político", lembro-me de um episódio semelhante, ocorrido há apenas um ano e através de um convite dessa mesma TVI, a uma outra personagem (Arnaldo Matos), também com algum impacto mediático, só que oriunda do outro extremo do espectro político, da extrema esquerda. Não sei quantos ainda se lembrarão da aparição deste último no programa televisivo Governo Sombra, contracenando com os habitués do programa. Eu lembro-me e comecei logo por não gostar. Por várias razões, a começar pelo facto de ter Arnaldo Matos na conta de um façanhudo, sem ponta de espírito de humor. E lembro-me que não me senti só nesse meu desagrado que se confirmou com o programa (para quem o quiser rever). Recupero uma parte do comentário que Francisco Seixas da Costa escreveu então no seu blogue a respeito daquela iniciativa da TVI:
«Entrámos no último dia do ano com o programa televisivo "Governo Sombra" a ter como convidado Arnaldo Matos. O atual "dono" do PCTP-MRPP foi recebido com um tom visivelmente complacente pelos "residentes" do programa, ansiosos por lhe extraírem declarações chocantes e expressões radicais, à altura daquilo a que o velho político sempre habituou o seu auditório. Conhecedor do palco que pisava, Matos não se fez rogado e, no meio de elogios táticos aos anfitriões, esteve à altura da "performance" aguardada, chamando "nazis" aos gestores alemães da Auto-Europa e mostrando compreensão pelos ataques do Estado Islâmico. Foi notório o gozo com que continua a ser recebida a qualificação de "social-fascista" que o MRPP sempre aplica ao PCP. É que o MRPP continua a ser o "enfant chéri" (para ser simpático) de certos meios, que sempre o cobrem com uma espécie de juízo de inimputabilidade, que nos dias de hoje o coloca ao nível de uma caricatura de comédia
Suponho que o parágrafo sintetiza bem o mau gosto, a indulgência e o desconforto de um programa que se pretendia de humor e que o perdeu em grande parte. Ouvir Arnaldo Matos a relativizar os ataques terroristas dos jiadistas em Paris e em Londres foi chocante. E também não houve coragem de se lhe perguntar o que é que ele pensava de Estaline... Mas era uma questão de opiniões e o incidente ficou-se - e bem! - por aí: tratara-se de uma escolha assaz infeliz da TVI (e da TSF). Tanto assim que, de então para cá, já houve ocasião para que os habitués do "Governo Sombra" se desforrassem de um convidado que desconfio tenha sido pouco empático (veja-se o vídeo abaixo). Se me perguntassem agora que reservas teria para um programa com Mário Machado como convidado, seriam as mesmas que dispensara ao com Arnaldo Matos. Tudo o resto me pareceu comparável embora não tenha assistido inicialmente ao segundo. Só que a ressonância nas redes sociais se veio a revelar incomparável. Há um enorme e (para mim) incompreensível contraste entre aquilo que (não) aconteceu há um ano com Arnaldo Matos e o que está a acontecer agora por causa de Mário Machado: há um arrepiante clamor histérico, uma tal incongruência e uma tal dualidade de critérios que, pelo fanatismo e pela irracionalidade, me chocam mais do que todos os disparates que os dois radicais possam proferir. Sejamos claros: eu concordo com quase todos os que criticam Mário Machado e pelo que lhe criticam. Mas, mais do que a ressurgência do fascismo, assusta-me a veemência com que tantos se sentem na obrigação de, neste caso, se manifestarem e nos termos em que o fazem, quando nos outros se demitem de se manifestar. Quero aproveitar todo este barulho para destacar a insuportabilidade do silêncio no passado.

09 dezembro 2018

OS PROBLEMAS DA FRANÇA E QUANDO OS PROBLEMAS DA FRANÇA NÃO PODEM SER CULPA DO COSTA

Alguém me chamou a atenção para as colunas de opinião do Público de hoje, pletóricas quanto a opiniões explicativas sobre aquilo que está a acontecer em França: Ana Sá Lopes, Vicente Jorge Silva, Teresa de Sousa, Jorge Almeida Fernandes. Honestamente, há ali redundância opinativa a mais e quiçá jornalismo a menos, porque se as imagens são inúmeras e ricas em impacto, os factos são escassos. Mas o contraste com a cobertura do Observador ao mesmo assunto não podia ser maior. Como se vê acima, apenas um peso pluma da opinião daquele outro jornal (chamado Diogo Prates) se dedicou ao tópico, talvez porque, mesmo para os exercícios de argumentação mais elaborada a que se costumam dedicar José Manuel Fernandes, Helena Matos ou Rui Ramos, iria ser preciso um prodigioso salto de lógica para culpabilizar para já António Costa por tudo aquilo que vemos a acontecer em França. Mas não se espere pela demora...

24 outubro 2018

É UM GOSTO QUANDO ESTE PASQUIM TEM DE DAR O BRAÇO A TORCER

Dada a forma memorável como no Observador se acompanhou a crise grega, as vitórias eleitorais do Syriza e o desempenho do primeiro-ministro Alexis Tsipras, não se devem perder as oportunidades de enfatizar as ocasiões em que o mesmo jornal, ainda que a contragosto, se vê obrigado a dar-nos conta dos sucessos registados naquele país no reequilíbrio da sua situação financeira, com aquele primeiro ministro a encabeçar um governo daquele partido - de quem tanto mal foi dito! Vale a pena realçar que, acentuando o contragosto, a notícia acima, colocada hoje on-line, é apenas a transposição da produzida pela agência Lusa.
É estranho que um jornal que teve no passado tal riqueza de pensadores e de opinadores sobre a realidade grega, não tenha agora um disponível para escrever uma peça autónoma sobre o tema da Grécia, nem que fosse - para variar! - uma honesta penitência... Para os leitores, estes exemplos do passado, comprovados no presente, devem ser um alerta sobre a credibilidade da publicação. Eu gostaria de acreditar que terá sido pelo aprender com os erros passados, que a atitude do Observador para com a actual indisciplina orçamental da Itália se esteja a mostrar muito mais moderada do que a ferocidade como José Manuel Fernandes causticou a Grécia ao longo de todo o ano de 2015 (abaixo).
É que, se não tiver sido por ter aprendido a lição de ter disparatado em demasia com a Grécia, a outra hipótese que resta para a condescendência agora demonstrada pelo Observador para com a Itália, dever-se-á ao facto de que a indisciplina orçamental de agora vir de organizações políticas de extrema-direita, enquanto que Tsipras e o Syriza eram de extrema-esquerda...

28 setembro 2018

OS PRIMÓRDIOS DO «FLASHBACK» E DA «QUADRATURA DO CÍRCULO»

Nas páginas do Diário de Lisboa de 26 e 27 de Setembro de 1988 travava-se uma polémica entre os deputados José Magalhães (comunista) e José Pacheco Pereira (social-democrata). Vivia-se então sob o cavaquismo e sob a maioria esmagadoramente absoluta do PSD, mas algo terá a polémica revelado em relação às personalidades dos dois intervenientes que despertou o interesse dos promotores da (então embrionária) informação-espectáculo - nomeadamente Emídio Rangel e a «sua» TSF. Menos de dois anos depois, podemos ouvi-los aos dois nessa rádio, e com o mesmo Rangel como anfitrião, a contracenarem com o perpetuamente chique Vasco Pulido Valente num programa de comentário político denominado «Flashback». Quis a ironia que os dois sustentassem e robustecem o prestígio do programa, apesar do abandono daquele - Vasco Pulido Valente - que fora claramente o pensado por Rangel para ser a sua estrela. Simultaneamente, José Magalhães respeitabilizara-se, transferindo-se dos comunistas para os socialistas (1990-91) enquanto o Muro se desmoronava. Melhor sob o cavaquismo, pior sob Guterres (Magalhães era muito mais dogmático e canhestro do que Pacheco Pereira a defender o «seu» governo), o programa perpetuou-se ao longo de mais de uma década na TSF. Depois foi ressuscitado em formato televisivo com o nome de «Quadratura do Circulo» na SIC em 2004 onde se mantém catorze anos depois. O único membro original que permanece é José Pacheco Pereira, que acabou por se tornar na estrela que teria sido - mas não foi - Vasco Pulido Valente. Já aqui escrevi no blogue que o comportamento de José Pacheco Pereira no programa me faz lembrar o Garfield - hirsuto, mal disposto, cor de laranja... mas fofinho. A subsistência de José Pacheco Pereira na ribalta mediática nestes últimos 30 anos tem sido uma demonstração continuada de que se pode ter uma carreira política independente dos partidos - desde que não se ambicione desempenhar funções executivas... E uma demonstração também que há muitos por aí com um percurso semelhante a que falta a sinceridade de, nos momentos cruciais (as eleições) assumirem onde votam, e fora deles, confessarem ao que vêm.

09 junho 2018

AS BLASFÉMIAS DE ANTÓNIO FILIPE ou O PASSADO DO MARXISMO-LENINISMO FOI UMA DOUTRINA MUITO DIFERENTE DA QUE HOJE ELE PREGA

Bernardino Soares é o desgraçado de quem as redes sociais - e eu também - sempre se riem por causa das suas famosas hesitações quanto à natureza democrática do regime norte-coreano, mas qualquer entrevista de um intelectual comunista (no caso foi António Filipe) reveste-se sempre de passagens de bom humor montypythoniano - i.e. de grande sofisticação intelectual, cuja compreensão só está ao alcance de alguns. A entrevista torna-se mais interessante porque o entrevistador tem a chancela do Observador, um projecto político travestido de jornal, que é reputado por usar precisamente os mesmos métodos de distorção da verdade e de reescrita da história dos comunistas.
Mais do que a história da Coreia do Norte, o que se percebe pela leitura da entrevista é a História do próprio marxismo-leninismo que acaba levando alguns valentes sacolejões à conta da inspiração de António Filipe para o comunismo do século XXI. O internacionalismo proletário, a fidelidade a um centro coordenador, tornou-se uma coisa demodée. A construção do socialismo passou a poder ser feita à discrição do partido comunista local, bem longe vão os tempos de Stalin e a sua ruptura com Tito (acima) e a consequente expulsão dos comunistas jugoslavos do Cominform, por estes terem pretendido preservar a autonomia do seu partido em relação às directivas vindas de Moscovo.
Trinta anos passados, já o PCP se legalizara e António Filipe se tornara num adolescente, e essa mesma questão de adaptação dos modelos de socialismo em função da realidade local estava ainda em cima da mesa, agora com a controvérsia do Eurocomunismo, que na notícia abaixo de há 41 anos é "vivamente atacado" (na pessoa de Santiago Carrillo, secretário geral do PCE) pela agência noticiosa da União Soviética. A mesma União Soviética que, por cá e como se descobre agora por mais este sacolejão histórico de António Filipe, o PCP afinal nunca quis "decalcar como modelo". Haja quem se lembre, a propósito do tema, do alinhamento de Álvaro Cunhal e das suas fidelidades.
Finalmente, registe-se esta habilidade de António Filipe ao emparelhar distraidamente cultos de personalidade, como se o do imperador do Japão ou o da família real britânica desculpasse o culto de personalidade dos Kim da Coreia do Norte. Não tem nada a ver uma coisa com outra: é que as duas monarquias não são marxistas-leninistas, nem têm a pretensão de defender a igualdade dos homens. São coerentes. O marxismo-leninismo é que manteve sempre uma relação incomodada com o culto da personalidade, condenado pelo XX Congresso do PCUS em 1956, mas sobranceiramente descartado por cá por Álvaro Cunhal, que sempre gostou de paparicos.

24 abril 2018

O PREC DA DIREITA

Ao contrário do que Rui Ramos acima descreve, a sociedade portuguesa gerou uma alternativa em 2015: ideologicamente ela era protagonizada por pessoas como ele próprio e pelos seus amigos do Observador (jornal aparecido em 2014). O que aconteceu é que essa alternativa foi rejeitada, assim como já o havia sido 40 anos antes a alternativa das esquerdas radicais urbanas composta por organizações como o MES, a UDP ou o PRP-BR nos tempos do Processo Revolucionário em Curso (PREC), o original de 1975. Felizmente, num caso e noutro, não se entregou o país aos radicais, porque era isso que em 2015, ainda sem dinheiro, se perfilava por detrás de um Portugal à Frente cujos protagonistas se mostravam, mais do que desgastados, esvaziados de ideias. O mérito não é dos «colegas de Sócrates», ao contrário do que o despeito de Rui Ramos pretende sugerir.

30 janeiro 2018

«ONDE É QUE EU JÁ LI ISTO?...»


O filme O Pátio das Cantigas original tem uma cena onde, Vasco Santana, perdido de bêbado, tem um diálogo (monólogo) com um candeeiro de iluminação pública a quem ele pede lume. Perante a impassibilidade do candeeiro, Vasco Santana encrespa-se e ralha-lhe, em modos e termos que estarão muito para além do que se esperaria da cultura de um canalizador - a sua personagem, Narciso Fino. É ao terminar a sua arenga que surge a punchline do monólogo que é também uma das consagradas do filme: surpreendido com a sua própria erudição, Vasco Santana pergunta-se a si mesmo: Onde é que eu já li isto?... (ao 1:22). Hoje de manhã, não era eu que monologava, mas tive uma branca algo parecida à de Vasco Santana ao ler um dos parágrafos do artigo de opinião de Nuno Garoupa no Diário de Notícias: Onde é que eu já lera aquilo? Aquilo é um parágrafo do artigo em que se procura demarcar Passos do passismo. Passos (Coelho) é o homem político, passismo é "esse movimento orgânico (...) que ocupou o partido, as redes sociais e muita opinião publicada". De Passos exumam-se virtudes - liberal, corajoso e decidido, fair play e elegância - e é um azar dos Távoras que entre os seus seguidores do tal movimento orgânico só se consigam encontrar defeitos - conservador, mesmo reaccionário, fundamentalista e radical, truculento, caceteiro, insultuoso, quando não mesmo boçal. Em que circunstâncias do passado já eu encontrara alguém que fora também uma inspiração para que os seus seguidores tivessem adoptado o reverso dos seus predicados?... Cavaco (Silva) e o cavaquismo. Este era precisamente o mesmo discurso a respeito de Cavaco por volta de 1996, há precisamente 22 anos, quando, encerrado com uma derrota nas presidenciais esse seu primeiro ciclo de ambições, era preciso dar uns retoques ao passado recente, para que o homem tivesse ainda um futuro político: os méritos dos dez anos anteriores pertenciam-lhe, os excessos deviam-se a quem o rodeara, os cavaquistas. Enfim, creio que aos 26 anos - a idade então de Nuno Garoupa - já se devia prestar a estas coisas para depois não as repetir. É engraçado que seja um estrangeirado como Nuno Garoupa, que, como tantos outros estrangeirados desde Eça, até costuma evocar esse estatuto para nos criticar - tantas vezes com razão - por causa de algumas das nossas idiossincrasias colectivas, agora se tenha rendido ele a esta outra idiossincrasia típica de evitar culpabilizar o responsável, diluindo a responsabilidade de um período político da história recente por um colectivo cujos membros, além de receberem com as culpas do líder, não são para ser nomeados: Não se aponta que é feio. Mas tentar dissociar Passos Coelho dos quatro anos e meio em que conduziu o país também o é (feio).

22 dezembro 2017

O PROGNÓSTICO "À JOÃO PINTO" E A DESCOBERTA DE UM SISTEMA ELEITORAL HÁ MUITO ENVIESADO

«Se fosse um referendo...» Se o artigo de opinião tivesse sido escrito antes do acto eleitoral, sem que se soubesse qual seria o seu desfecho, ainda a opinião do articulista teria algum valor, assim é um comentário baseado num prognóstico à João Pinto. Mas é sobre outro aspecto da lógica futebolística que este artigo de Rui Ramos me despertou a atenção, atentemos àquela passagem que destaquei sobre a sua aparente descoberta dos defeitos do enviesamento do sistema eleitoral. Se o sistema eleitoral espanhol é enviesado, esclareça-se que assim nasceu e tem permanecido assim desde que se realizaram as primeiras eleições democráticas em Espanha (1977). O que é maravilhoso é que Rui Ramos e outros tantos como ele tenham demorado 40 anos a descobrir isso. Em Espanha o sistema de distribuição do número de deputados que virão a ser eleitos pelos círculos eleitorais (as 50 províncias) não é absolutamente proporcional: cada província tem direito a um mínimo de dois deputados (2 x 50 = 100) e só os restantes 250 do Congresso de 350 deputados são distribuídos proporcionalmente à respectivas populações de cada província. A consequência é que as províncias mais subpovoadas estão sobre representadas*. Há assim uma vantagem comparativa do peso do voto rural sobre o voto urbano, sabendo-se que o primeiro é tradicionalmente mais conservador enquanto o segundo é mais esquerdista. As consequências subtis desse enviesamento que Rui Ramos só agora descobriu podem ser apreciadas no quadro abaixo, que nos mostra uma síntese das oito eleições legislativas espanholas que tiveram lugar de há 25 anos para cá. Do lado esquerdo aparece a votação nacional do PSOE, o número de deputados que elegeu, e o coeficiente que resulta da divisão do primeiro valor pelo segundo, quanto custou, em votos, eleger cada deputado do PSOE. Do lado direito, em sentido inverso, estão precisamente as mesmas contas feitas para o PP. E a conclusão que aparece no quadro central é inequívoca: com excepção das eleições de 1993 e independentemente de quem tenha sido o vencedor do acto eleitoral, os deputados do PP têm sido eleitos consistentemente de forma mais económica do que os do PSOE. Ou seja, o tal «sistema eleitoral enviesado» tem beneficiado a direita espanhola.
A metodologia que acima foi descrita é a mesma que é empregue para as eleições autonómicas. E o efeito distorcido nas representações parlamentares será do mesmo género. Só que neste caso concreto da Catalunha e para visível incómodo de Rui Ramos, o voto rural é não apenas conservador como também acentuadamente nacionalista catalão. É assim que, fazendo a comparação entre os três partidos mais bem colocados de quando custou em votos em média eleger um deputado nas eleições de ontem, a formação que os conseguiu mais baratos foi a direita nacionalista catalã de Puigdemont (27.660), seguida da esquerda nacionalista catalã de Oriol Junqueras (29.030) e só depois a direita constitucionalista espanhola de Inés Arrimadas (29.770). Será portanto a diferença deste coeficiente de 2.110 votos que terá causado todo este incómodo e mau perder a Rui Ramos, como se ele fosse um daqueles facciosos comentadores de futebol que, assume uma postura muito distanciada das emoções, mas depois só fala dos erros da arbitragem nos jogos em que acha que eles prejudicaram a sua equipa.

* Ao contrário do que acontece em Portugal, em que o eleitor do distrito de Portalegre e do distrito de Lisboa têm aritmeticamente a representação o mais aproximada que for possível.

28 julho 2017

HISTÓRIAS SEM HERÓIS

O comentário irónico abaixo de hoje de Nicolau Santos sobre o desemprego fez-me lembrar um outro artigo de há uns dias, referente ao mesmo tema, os bons números do desemprego, mas os registados no Reino Unido, onde a taxa é metade da nossa (4,5%) e isso apesar de todas aquelas profecias consequentes do Brexit que se têm produzido de há um ano para cá. O que é aborrecido e incomum é que o problema que é levantado pelo jornal inglês se mostra estrutural: segundo o autor, como as estatísticas do emprego têm vindo a ser progressivamente tão adulteradas, agora atingem-se números que a teoria consideraria de pleno emprego e a realidade desmente-os: não há qualquer falta de mão de obra no Reino Unido, é tudo uma grande vigarice. Há uma interessante polémica nas páginas da publicação britânica em reacção a essa conclusão, mas isso parece-me o tipo de assunto que não interessa nada, nem a Nicolau Santos, nem aos seus adversários do outro lado da barricada. Como a nossa taxa baixou para 9% então é bom para Nicolau Santos, e como é bom para ele, os seus adversários do outro lado da trincheira ignoram-na. Mas se observarmos o assunto adicionando-lhe a perspectiva da notícia em inglês - os números serão fiáveis? - a história perde a piada: não tem herói nem tem vilão, os números serão uma fraude, a culpa não será exclusivamente do Costa nem do Passos Coelho. Martelar números do desemprego até os desacreditar e perderem o significado teve que resultar dos esforço continuado do aparelho do Estado por décadas, independentemente de quem ocupou sucessivamente o poder. É o tipo de tema que nem interessa discutir. Aliás, quando alguém sai da cenografia convencionada e faz uma crítica assim tão abrangente é porque é populista...

27 julho 2017

VER O FILME AO CONTRÁRIO


Alguém me chamou a atenção para o artigo que hoje Helena Garrido assina no Observador. Normalmente costumo sugerir quem me lê que leia também o artigo que comento. Neste caso, eu obviamente li-o, mas vou abrir uma excepção: o artigo é quase todo um desinteressante tratado de traulitada política pura e dura (quem é que ainda se recorda que Helena Garrido foi promovida pela sua especialização em economia ?...), como se percebe logo pelo antetítulo adoptado: Maioria de Esquerda. O que importa comentar (e que até vou transcrever aqui para o próprio blogue) é o penúltimo e o último parágrafos, o momento em que, parecendo partir de uma perspectiva distanciada e filosófica, se chega às (previsíveis) lamentações e à exibição do corporativismo da classe dos jornalistas. Escreve Helena Garrido e (comento eu):

Finalmente, mas não menos importante, temos assistido nos últimos tempos a um crescendo de agressividade contra o jornalismo e os jornalistas. (Declaração de interesses: sou jornalista). Sim, os jornalistas cometem erros como todos os profissionais. (Mais do que isso: os jornalistas vivem em alguma parte dos erros cometidos pelos outros profissionais, desde um maquinista que descarrila o comboio até aos juízes que se saem com uma sentença disparatada. Os políticos, então, podem agradecer inteiramente a reputação de que a classe goza aos jornalistas). O número de erros cometidos hoje é maior do que no passado? É provável. A velocidade imposta pela informação em tempo real, a concorrência e a crise financeira em que se encontram os media levam a admitir que se cometam mais erros. (Tudo isso são balelas; é o mesmo género de argumento que serviria para defender que, por exemplo, como cada vez há mais tráfego aéreo, se justificaria que houvesse cada vez mais acidentes de aviação para noticiar, quando se verifica precisamente o contrário). Mas é o jornalismo em geral menos rigoroso do que no passado? Em alguns temas que até estariam ausentes dos media no passado é provável – o recente caso do vídeo de Paco Bandeira é exemplo disso. (Também exemplo de transformar em informação aquilo que não o é, e de desprezar o que o é, porque, a par do vídeo com sete anos de Paco Bandeira, não se encontram simultaneamente muitas análises prévias ao que poderia vir a ser o resultado das eleições em Timor-Leste, num exemplo do que é informação séria tradicional). Mas nas matérias importantes, o rigor da informação transmitida é até superior, quer pelas ferramentas que hoje se tem para cruzar fontes, quer pela possibilidade de disponibilizar nos sites algumas fontes dessa informação. (É bem verdade, mas conviria acrescentar que a pressão para a qualidade também vem de fora: aquilo que antigamente desencadeava algumas cartas críticas ao director - a que se podia, ou não, dar seguimento - hoje pode transformar-se no escárnio das redes sociais em poucos minutos) Claro que esse poder de informar melhor – como por exemplo, o de saber quase de imediato que um site espanhol divulgou a lista das armas roubadas em Tancos – incomoda muito mais o poder. (Ao contrário do que Helena Garrido opina, aqui não há nada de novo e este é mesmo o lado para onde "o poder" dorme melhor. "O poder" tem e sempre teve os seus jornais e sempre comprou quase todos os jornalistas que lhe apeteceu. E "o poder" não é só o da "Maioria de esquerda" - ou "de direita" - que ela escolheu para antetítulo. Há esse tipo de poder e há os outros tipos de poderes de que Helena Garrido parece não se dar conta. Ou ela pensa que o Luís Amaral mantém o jornal onde ela escreve apenas como hobby e para exercer a sua vasta benemerência? Ou não sabe que é algo de muito semelhante que acontece com a Sonae e o Público e com os outros órgãos de comunicação social? Ou pensará que Nicolau Santos está à vontade para escrever o que lhe apeteça sobre as dificuldades actuais da Impresa em financiar-se?)

Estamos a olhar para sintomas na nossa sociedade que nos deviam preocupar. (aos jornalistas ou aos leitores?) Porque, para agora citar livremente uma frase atribuída a Bertolt Brecht (que não é dele), hoje o que se passa pode estar a ter efeitos negativos na outra tribo ou partido que não é o nosso. Ou pode estar a condicionar a opinião de pessoas de quem discordamos. Amanhã pode começar a acontecer com os nossos amigos. Um dia estará a acontecer connosco. E já pode ser tarde de mais. (Ao contrário desta espécie de bravata ao invés - em que se finge ser ameaçado em vez de ameaçar - a invocação da frase atribuída a Brecht parece-me um exagero. O que se vê é que há cada vez mais gente a expressar-se e isso inclui os que querem condicionar a opinião alheia. Se calhar não são as pessoas que Helena Garrido consideraria dignas de o fazer. Mas isso é um problema dela. Imaginem que eu, a princípio, até pensava que o que ela percebia mesmo era de economia...).

24 julho 2017

É MAIS DO QUE APENAS DISCORDÂNCIA...

Depois de ter passado 2015 a profetizar repetidamente as maiores desgraças para a Grécia (acima), é preciso ter o maior dos descaramentos para agora assobiar para o lado e deixar escoar os dias sem um comentário sequer à notícia abaixo - já lá vão doze dias! - sobre a saída da Grécia do procedimento por défice excessivo. Sobre a natureza conturbada do caminho trilhado por eles até aqui, Alexis Tsipras, ao menos, penitencia-se, confessando que cometeu enormes erros - e até isso se pode ler no próprio jornal onde José Manuel Fernandes escreve! Mas o publisher do Observador não cometeu erros de análise. A realidade é que se enganou.
São episódios como este que fazem de José Manuel Fernandes, no âmbito da opinião publicada e da honestidade intelectual, no equivalente daquilo que representa Isaltino de Morais para a gestão autárquica e a ética da causa pública. Passeiam-se ambos por aí, impunes e aparentemente absolvidos pela opinião pública, com a adicional de que a Fernandes nem sequer há razões para o sancionar com o equivalente à estadia no hotel da Carregueira de Isaltino Morais, visto que é só um aldrabão consumado, não roubou nada a ninguém. Mas isso será motivo para convidá-lo para opinar em tudo o que é programa de televisão?...

13 julho 2017

OS SENADORES MAUS e OS SENADORES BONS ou então OS «ULEMÁS»

Quando acompanhado em continuidade já se sabe que não se pode classificar José Manuel Fernandes como um modelo de coerência. Vêmo-lo aqui abaixo, há menos de três anos, a renegar o conceito de senador e a utilidade de debater as ideias das venerandas figuras caso ele fosse aplicado a uma pessoa como Diogo Freitas do Amaral. Hoje, em contraste, podíamos vê-lo como num êxtase a prestar um tratamento deferencial a António Barreto que desempenha no happening do Observador um papel que não se iria distinguir particularmente da entrevista de Freitas do Amaral que lhe suscitara tão antipática reacção em 2014. Pelos vistos, ele haverá senadores que dizem coisas de que José Manuel Fernandes gosta, enquanto para ter senadores dos quais discorda ele «preferirá os plebeus». Se houvesse um Senado mesmo a sério e ele fosse constituído à imagem dos desejos do publisher do Observador seria uma câmara de gente idosa, decerto, mas também um bocadinho facciosa, ou não será?...
O resultado da entrevista, dada por António Barreto ao Observador, que aparece condensada num encadeado de tweets (a fazer lembrar os processos modernaços agora tão popularizados por Donald Trump...), é um resultado interessante mas dela não se poderá dizer que contenha grandes novidades que justificassem o êxtase prévio de José Manuel Fernandes. Ainda no princípio do mês de Junho passado, António Barreto dera uma outra entrevista ao Expresso que pouco se diferencia desta de hoje. Ninguém, nem mesmos estes senadores (os que agradam a José Manuel Fernandes...) pensará em catrefas de ideias novas e interessantes a cada mês que passe. Por isso, as entrevistas mimetizam-se, desde a descrição dos antigos períodos de há 40 anos, logo depois do PREC, em que houve necessidade da rectificação dos excessos da Reforma Agrária, até à antipatia e desconfiança veemente de António Barreto pelos comunistas, que condiciona a forma como aprecia a situação política actual, a famigerada geringonça.
Mas o que acho mais irónico de todas estas entrevistas, assaz repetitivas e previsíveis, a pessoas com o perfil de retirados a quem prestam atenção de menos (ou então de mais...), é o hábito de qualificar pessoas com aquelas características por senadores. Trata-se de um tratamento de cortesia, visto que as pessoas assim designadas, para além do respeito propiciado pela idade e sabedoria acumulada, na verdade não têm quaisquer responsabilidades legislativas. Ora, não fosse o nosso eurocentrismo e a nossa aversão por conhecer outras civilizações que não a Ocidental e estas pessoas sábias e de pensamento fortemente conservador poderiam ser muito mais exemplarmente tratadas informalmente por ulemás (acima). O Ulemá aparece definido na respectiva página da wikipedia como «um teólogo ou sábio e versado em leis e religião, entre os muçulmanos». Entre os sunitas, a importância de um ulemá é informal e é função da sua audiência e do respeito que suscita entre a comunidade dos crentes, qual espécie de rating da audiência televisiva moderna. No caso concreto de António Barreto até se pode acrescentar que ele tem uma barba a condizer...

12 junho 2017

O GRÁFICO «MARTELADO» DE JOSÉ GOMES FERREIRA (2) - ACHILLE TALON AINDA NÃO DISSE TUDO

Eu não tenho a pretensão de que o que se escreve por aí me tem por destinatário, bem pelo contrário, o blogue onde escrevo, pelo conteúdo e também pelo suporte onde se localiza, está cada vez mais longe de ser um mainstreamer. Mas a redacção que José Gomes Ferreira deu à resposta às críticas que lhe fizeram na sequência do debate que manteve com o primeiro-ministro foi suficiente abrangente para que eu me sentisse atingido. Ao qualificar-se de vítima de uma «grande fogueira nas redes sociais (...) atiçada pelos novos inquisidores dos tempos modernos» a acusação de inquisidor sobra para todos os que criticaram a sua intervenção nessas mesmas redes sociais, como foi o meu caso. Em concreto, contudo, ele não refutou especificamente aquilo que o critiquei - o facto de ter adulterado de uma forma que não pode ter sido casual o gráfico que exibiu durante o programa (acima). Admito que fosse difícil rebater todas as críticas em detalhe, já que elas se multiplicaram, mas a verdade é que o tempo e o teclado lhe chegaram para dedicar--se ao assunto do grafismo que havia mostrado que se mantinham em vigor (as) medidas de austeridade. Pois. Até pode ter razão. Mas o meu ponto é que, quanto a grafismo e quanto ao único outro gráfico exibido em todo o resto do programa há alguns números do défice do estado que lá apareceram que foram descarada e incompreensivelmente martelados, conforme creio ter demonstrado. E sobre isso não ocorreu a José Gomes Ferreira dizer-nos mais nada.
Sobre aquilo que escreve em sua defesa, teria preferido não me pronunciar. José Gomes Ferreira não parece compreender que, para que as pessoas sejam conotadas com uma determinada facção não é preciso que se comportem como seus incondicionais. É perante estas confusões que se constata como a futebolização se entranha insidiosamente na forma de pensar colectiva. O exercício a que se dedicou em sua defesa ao enumerar as críticas (supostamente técnicas) que endereçou ao anterior executivo de Passos Coelho (e a outros antes dele) resultou num fracasso patético. Porque eu não tenho dúvidas que José Gomes Ferreira pensa pela sua cabeça e não foi um incondicional do governo anterior. Mas isso não o transforma no Jornalista Independente (com maiúsculas) que pretende ser: é só ver a diferença do gráfico corrigido abaixo, com o inicial que ele nos pretendeu impingir durante o debate com António Costa. Um bónus adicional neste último: assinalado a laranja estão as previsões de défices que foram antecipadas em Abril de 2012 no Documento de Estratégia Orçamental 2012-16 (p.30). O governo PSD/CDS já tinha por essa altura dez meses de governação e essa será a melhor estimativa do reequilíbrio que aquele governo pretenderia alcançar adoptando a tal austeridade acelerada. Curiosamente, não me lembro de ter visto José Gomes Ferreira alguma vez a rasgar as vestes por causa deste desvio colossal entre aquilo que os grandes sacrifícios prometiam e o que se alcançou (mas, também confesso, estou muito longe de ser um espectador assíduo dos seus programas...).
Uma coisa se pode dizer contudo, para usar o mesmo género de ironia como António Costa destroçou José Gomes Ferreira: deste último gráfico pode concluir-se que o défice desta última execução orçamental de Mário Centeno em 2016 - o mítico 2,0%! - foi muito pior do que aquele que Vítor Gaspar antecipara para esse mesmo ano (0,5%)... alcançado no papel.

31 maio 2017

AS CAIXAS DE RESSONÂNCIA CÁ DA PARÓQUIA

O Wall Street Journal, que hoje tanto elogia Portugal por ter «emergido como uma estrela do mercado das obrigações» (acima), é aquela mesma publicação que há sete meses o havia considerado «propenso a uma nova crise da sua dívida pública» (mais acima), e em que um dos seus editores escrevia, ainda há dois meses e meio, que o país se prefigurava como um «problema potencial na crise da dívida da eurozona». O Wall Street Journal é, manifestamente, um jornal plural, onde os seus colaboradores - Patrícia Knowsmann, Jeannette Newmann, William Watts - não têm receio nem complexos de se contradizerem. Exemplo diferente é o da imprensa doméstica que, apesar de leitora atenta do que se vai publicando naquele jornal, parece só se decidir a fazer eco daquilo que por lá aparece publicado quando se enquadre com o seu discurso político. A notícia favorável de hoje, por exemplo, têmo-la que a ler publicada no Jornal Económico, enquanto as desfavoráveis, a de há sete meses foi objecto de publicação no Expresso e a de há dois meses e meio, no Observador. Este último jornal não está interessado em dar relevo a notícias como a de hoje... Mas o mais triste de tudo nem sequer são estes indícios de tentativa de manipulação da opinião pública, é o método, é a atitude paroquial de invocar o que se escreve no Wall Street Journal como argumento em proveito da própria causa, quando as boas opiniões domésticas costumam estar muito mais bem fundamentadas do que as dos correspondentes estrangeiros.

16 maio 2017

PELO QUADRAGÉSIMO ANIVERSÁRIO DA ESTREIA DE GABRIELA NA TELEVISÃO PORTUGUESA

16 de Maio de 1977. Ao serão estreava-se na RTP a primeira telenovela brasileira: Gabriela, Cravo e Canela, uma adaptação para folhetim da obra homónima de Jorge Amado. Na edição do dia seguinte do Diário de Lisboa o crítico televisivo Mário Castrim mostrava-se francamente prudente quanto às perspectivas do seu sucesso, embora a observação do episódio inicial lhe permitisse emitir desde logo várias opiniões tão substantivas quanto assertivas: «Primeiro, porque o nível artístico da Telenovela não suscitará entusiasmo por aí além. Em segundo lugar, porque transmitir durante 45 minutos durante não sei quantos meses - eis qualquer coisa que ultrapassa todos os esquemas das Televisões europeias.» Mas, apesar de parecer ter uma opinião já formada, Mário Castrim prometia ainda regressar ao assunto: «Viremos a ter oportunidade de falar com mais vagar desta Telenovela. Para já, fique-se com a ideia de que se trata, a vários planos, de uma obra artesanal. Como se justifica, então, a fama de que vem precedida? (...) Para se compreender o entusiasmo, havemos de comparar esta Gabriela, não com Bellamy ou qualquer outro folhetim inglês já nosso conhecido, mas com... os folhetins brasileiros, cuja qualidade abaixo de cão tem fama em todo o mundo. Quanto ao êxito (...) junto do público português, o meu cepticismo permanece (...) ao contrário do que a alguns possa parecer, a língua constitui um obstáculo à comunicação (...) a oralidade brasileira quase necessita de legendação. Ao menos um glossário, isso falta.» Precisamente seis meses mais tarde, por ocasião da transmissão do último episódio da mesma telenovela, e constatado o indiscutível sucesso popular de Gabriela, o mesmo crítico escrevia uma outra crónica, desdizendo radicalmente tudo o que escrevera... Não quero cometer a crueldade de o citar metodicamente em todas as suas enormes contradições mas podemos citar as encomiásticas palavras finais desta última crónica «...cada cena era bilhete de trânsito para uma antologia de Televisão.» De artesanato a antologia!