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10 março 2024

COMPAREMOS ENTÃO A NOSSA DEMOCRACIA COM A DA COREIA DO NORTE

Hoje, que é dia de eleições, recordemos a notícia acima, de há precisamente dez anos, sobre eleições que haviam tido lugar na Coreia do Norte. Eleições onde havia «um único candidato designado pelo partido único para cada uma das 687 circunscrições do país»... Felizmente os portugueses têm hoje muita mais escolha: há 19 partidos e coligações a concorrer a estas eleições em Portugal. E entre esses 19 há um partido cujos dirigentes manifestaram aprofundadas dúvidas que a liberdade de escolher os seus dirigentes políticos seja condição indispensável para a existência de uma verdadeira Democracia, como se comprova mais abaixo. É nestes dias que se vê quanto a verdadeira Democracia é Grande, é tolerante até para com aqueles que mostram não saber em que é que ela consiste.

31 agosto 2023

KWANGMYŎNGSŎNG-1

(Republicação dos tempos em que Donald Trump tornava a Coreia do Norte um país importante)
31 de Agosto de 1998. A Coreia do Norte anuncia a colocação em órbita do seu primeiro satélite artificial. O lançamento foi tomado inicialmente pelas agências encarregues de monitorizar tais eventos como um ensaio de um míssil intercontinental. Depois aperceberam-se que o míssil possuía um terceiro estágio destinado à aquisição da velocidade adicional necessária para colocar um objecto em órbita. Quanto ao objecto, também pouco se sabia (e sabe): há fotografias dele, mas uma grande dúvida quanto à sua massa que oscilaria entre os 6 e - 30 vezes mais! - os 170 kg. Quando do acompanhamento da fase final, as mesmas agências ter-se-ão apercebido que algo errado acontecera e que o satélite acabara por não entrar em órbita como previsto. Isso não terá constituído um problema para a Coreia do Norte, que anunciou o sucesso da empresa e que continuou a reportá-lo do mesmo modo nos dias seguintes. Só quinze dias depois, após confirmações sucessivas, é que uma cautelosa imprensa norte-americana anunciava o insucesso, deixando apenas subentendido a nota irónica do fazer-de-conta dos norte coreanos. Se acontecesse entre 2017 e 2020, atendendo à personalidade do ocupante de então da Casa Branca e do que foram as suas relações com a inventiva Coreia do Norte, talvez a notícia tivesse que ser reescrita, expurgando-a da ironia, já que ele se havia mostrado tão inventivo quanto o regime norte-coreano. (a imagem é um selo comemorativo norte-coreano do que era para acontecer e não chegou a ter acontecido...)

27 agosto 2023

AS CONVERSAÇÕES DAS SEIS PARTES

(Republicação)
27 de Agosto de 2003. Tinha lugar a primeira ronda das Conversações das Seis Partes (Six-party talks). As seis partes eram (por ordem alfabética): China, Coreia do Norte, Coreia do Sul, Estados Unidos, Japão e Rússia. E o tópico era o programa nuclear norte-coreano. Dois dias depois as conversações eram suspensas e agendada nova ronda para daí a seis meses. Segundo os diplomatas experimentados em conversações com coreanos, a primeira ronda correra excepcionalmente bem. O armistício de Panmunjon de 1953 demorara mais de dois anos a ser negociado, todos os pormenores eram objecto da mais minuciosa negociação. Mas aqui conseguira-se fixar rapidamente um formato (hexagonal) e uma disposição para a mesa de negociações! No canto superior, realce-se o pormenor - sinal de importância - de que é o representante chinês o que fica mais próximo da porta. Na fotografia acima, e embora os negociadores norte-americanos sejam dos que mais gostam de se destacar nas fotografias, os dois representantes mais fotogénicos e bem dispostos ao centro são os da Rússia e da China. Foi há quinze anos. Seguiram-se outras cinco rondas. Donald Trump ter tido a pretensão de que se resolvia tudo isto com uma cimeira foi uma estupidez, uma arrogância, uma ignorância, uma presunção, uma mediocridade.

26 julho 2023

A BATALHA DO RIO SAMICHON

Republicação
26 de Julho de 1953. Fim da batalha do rio Samichon na Coreia. Esta batalha está longe de ter sido uma das batalhas mais importantes, simbólicas ou renhidas da hoje esquecidíssima Guerra da Coreia (1950-53). A situação táctica em que teve lugar é simples de descrever se nos socorrermos do mapa acima. O rio Samichon (assinalado a um azul muito claro) é um afluente da margem direita do muito mais importante rio Imjin (assinalado a um azul mais escuro). O vale do Samichon seria o corredor natural de progressão das tropas norte-coreanas e chinesas (setas vermelhas) no caso de elas conseguirem romper o dispositivo defensivo (a verde) que fora adoptado pelas tropas sul-coreanas e dos seus aliados ocidentais (na sua grande maioria tropas americanas). Na tentativa de obter essa ruptura, a batalha começara dois dias antes, a 24 de Julho, uma ofensiva desencadeada pela 137ª divisão chinesa, com a curiosidade de que uma parte da linha de defesa atacada era guarnecida por um batalhão australiano (as unidades restantes eram americanas) e de que uma unidade de artilharia que os apoiava ser neozelandesa. As características da ofensiva chinesa não se alteraram em relação à táctica que se viera a tornar tradicional naquele conflito: uma ofensiva nocturna (para neutralizar a superioridade aérea esmagadora do inimigo), uma preparação prévia de fogo de artilharia (sobretudo de morteiros) e vagas sucessivas de ataques de infantaria tentando submergir as posições inimigas pela superioridade maciça dos seus efectivos. A comparação das baixas sofridas pelas duas partes mostra o quanto, a esse respeito, aquela guerra era assimétrica.
Os americanos sofreram 43 mortos e 316 feridos; os australianos 5 mortos e 24 feridos; com as estimativas do número de mortos sofridos pelos chineses a cifrar-se entre os 2.000 a 3.000. Mesmo descontando o exagero destas estimativas, a desproporção entre os mortos do lado ocidental para os do inimigo, mesmo usando a estimativa mais cautelosa é de 1 para 40! Mas aquilo que é verdadeiramente impressionante nesta batalha é que ela foi a última da Guerra da Coreia. A batalha do rio Samichon cessou na véspera do dia da assinatura do Armistício - 27 de Julho de 1953 - que pôs fim às hostilidades. Era um acontecimento que estava previsto desde há dias (acima, a edição do Diário de Lisboa de há 70 anos) e que fora o culminar de um arrastadíssimo processo de negociações que durara mais de dois anos, onde houvera 575 reuniões em que - alguém estimou - se haviam trocado 18 milhões de palavras! Mas, para a parte chinesa não se punha o problema de correr o perigo de poder desfazer tudo o que se alcançara até aí e sacrificar mesmo 2.000 vidas para obter ainda, à última hora, uma pequena vantagem táctica adicional para a trazer para a mesa das negociações! Na verdade, no cômputo global e nos últimos meses, eles e os norte-coreanos haviam sofrido 72.000 baixas (dos quais 25.000 mortos) tentando fazer isso mesmo. As negociações na Coreia são tradicionalmente muito duras e inconclusivas e o problema da Coreia não se resolvem com coisas simples que se possam dizer em tweets, nem os tweets têm espaço para que se explique convenientemente porque é que essas simplicidades são um disparate... E disparate é sinónimo de Trump.

19 julho 2023

O DESERTOR

Um qualquer canal de televisão norte-americano (acima, escolhemos o exemplo da NBC) consegue dedicar alguns minutos (neste exemplo, quase 4 minutos e meio) a noticiar o caso de um soldado norte-americano que se encontra detido (note-se a subtileza da expressão...) na Coreia do Norte, sem que, em algum momento da minuciosa exposição do que aconteceu, se procure adiantar uma explicação para ao que aconteceu ou se coloque a hipótese de que o soldado em causa tenha desertado voluntariamente. Noutras estações o caso é ainda mais dissecado, como acontece na CNN, envolvendo quatro especialistas(!) que, ao longo de dez minutos e meio(!), onde conseguem ter ainda mais tempo para (não) fazer precisamente o mesmo - (não) adiantar alguma explicação para o gesto do soldado americano. Compreende-se: na narrativa mediática nos Estados Unidos ninguém foge para a Coreia do Norte; é sempre ao contrário. Em contraste, a cadeia Euronews europeia (abaixo) explica num singelo minuto o que aconteceu, embora se note o cuidado em evitar tratar o soldado por aquilo que ele é: um desertor.
Adenda: A ficção continua. A administração americana pretende agora que «é provável» que o desertor «não esteja a pensar claramente». É irónico que era isto mesmo que as autoridades soviéticas diziam, há 30 anos, quando isso acontecia com os desertores deles. Os americanos devem pensar que, como a Guerra Fria acabou há mais de 30 anos, já podem ser eles a recuperar uma explicação que era já então tão ridicularizada... Outra Adenda: e foi preciso mesmo procurar muito, até se conseguir encontrar na revista The Economist (que, por sinal, é britânica...), a expressão tabu que as autoridades e toda a comunicação social americana se recusam terminantemente a empregar para descrever o que aconteceu: deserção, desertor.

12 junho 2023

NÃO ME DIGA QUE VOCÊ JÁ NÃO SE LEMBRA DA CIMEIRA DE SINGAPURA, «AQUELE SUCESSO»!?

12 de Junho de 2018. Os norte coreanos conseguem arrastar os norte americanos para uma encenação teatral na cidade estado de Singapura e colocá-los a fazer figura de palhaço, com a disponibilidade generosa de Donald Trump (acima). Com o benefício de podermos analisar o que tem vindo a acontecer nos cinco anos entretanto decorridos, refira-se que, depois de 2018, a Coreia do Norte procedeu a 111 ensaios de mísseis (49% do total dos seus ensaios).

12 dezembro 2022

O KWANGMYŎNGSŎNG-3 Unidade 2

12 de Dezembro de 2012. Foi há precisamente dez anos que, depois de várias vicissitudes, se reconhecia que os norte-coreanos haviam conseguido colocar pela primeira vez um satélite em órbita. Era o décimo país do mundo a conseguir fazê-lo recorrendo apenas a tecnologia própria. O nome, que se pode apreciar no título é um pouco difícil de pronunciar. Depois disso, a Coreia do Norte lançou já um outro satélite, em 7 de Fevereiro de 2016. Além de ter realizado uma meia dúzia de testes de um IRBM, que só têm interesse mediático na condição de o seu alcance estimado o fizer poder atingir os Estados Unidos... Mas o mais deplorável será a fanfarronice irresponsável como Donald Trump durante a sua atribulada presidência lidou com estas proezas: se em finais de Junho de 2017 a farronca consistia em dizer que «a era da paciência (com a Coreia do Norte) tinha acabado», em princípios de Novembro e porque a paciência acabada parecia reciclar-se continuamente, a farronca transformara-se em «a paciência estratégica (com a mesma Coreia do Norte) tinha acabado». Ou seja, em quatro meses e a pretexto da Coreia do Norte, Donald Trump parecia ter aprendido a existência da palavra estratégica... Hoje já ninguém se lembra dessa sua fase em que se fartava de ameaçar a Coreia do Norte. A recordação que perdurou foi a das (ditas) «cartas de amor».

09 setembro 2022

OS «PARAÍSOS SOCIALISTAS» NA IMPRENSA COMUNISTA PORTUGUESA

9 de Setembro de 1982. Os aniversários da Revolução Socialista na Bulgária e da fundação da República Popular Democrática da Coreia eram efemérides obrigatoriamente assinaladas nos jornais comunistas em Portugal e pretexto para a publicação de peças de propaganda completamente inverosímeis sobre aqueles países. Depois do colapso do comunismo em 1989, todos os supostos «avanços» que abaixo se descrevem se esfumaram porque não passavam de aldrabices. Em 2021 o rendimento per capita português foi o dobro do da Bulgária. Continua a não existir números fiáveis sobre a Coreia do Norte.

29 janeiro 2022

O APARECIMENTO DA EXPRESSÃO «EIXO DO MAL»

29 de Janeiro de 2002. No seu discurso do Estado da União dirigido às duas câmaras do Congresso, o presidente George W. Bush emprega pela primeira vez a expressão «Eixo do Mal» (axis of evil no original). Na altura, o presidente identificou quem o compunha: a Coreia do Norte, o Irão e o Iraque. No entanto, ao contrário do Eixo da Alemanha, Itália e Japão da Segunda Guerra Mundial, onde a expressão se inspirara, nos vinte anos entretanto decorridos depois daquele discurso nunca se conseguiu explicar de que forma é que aqueles três países - Coreia do Norte, Irão e Iraque - se articulavam de forma concertada entre si para actuarem no panorama internacional como um eixo. Talvez porque no caso mais antigo se tratasse de uma verdadeira aliança funcional entre os três países e no segundo caso, o do século XXI, se tratasse apenas de uma expressão com ressonância, mas desprovida de significado.

18 setembro 2021

O «INCIDENTE» DO SUBMARINO NORTE COREANO DE GANGNEUNG

18 de Setembro de 1996. Começa o «incidente» do submarino norte-coreano encalhado na costa de Gangneung, na Coreia do Sul. Na verdade, a operação começara quatro dias antes, uma missão de espionagem da Coreia do Norte ao seu vizinho, um submarino com uma tripulação de 21 membros e ainda 5 membros da verdadeira equipa de reconhecimento, espionagem e sabotagem, dos quais 3 haviam sido largados discretamente numa praia sul-coreana no dia 15. Foi ao recolhê-los, no dia 17, que as coisas se precipitaram, quando o pequeno e discreto submarino da classe Sang-O, devido a erros de navegação, encalhou... Encalhou e não se conseguiu desencalhar como se percebe pela fotografia acima. E, como acontecera 15 anos antes com um submarino soviético na Suécia, lá irrompeu a «barracada» de uma missão secreta que as circunstâncias tornaram embaraçosamente muito pouco secreta! A acrescer ao que acontecera entre suecos e russos, o «incidente» foi muito mais sangrento porque se tratava da rivalidade entre as duas Coreias. O primeiro aspecto bizarro, a acreditar na versão que as organizações coreanas de segurança mais tarde puseram a correr, é que terão sido os próprios membros da expedição clandestina a liquidar 11 dos membros que a compunham (de um total de 26). Os restantes procuraram alcançar por terra a fronteira com a Coreia do Norte. Para os capturar, seguiu-se uma ampla perseguição aos foragidos, que contou com a colaboração activa da população. No computo global, apenas um dos membros terá conseguido regressar, ainda que ferido, à Coreia do Norte. Outro foi capturado. Os restantes (13) foram todos mortos porque invariavelmente resistiram à captura. O processo também custou 16 mortos aos sul coreanos: 8 soldados em combate, 4 em acidentes associados às buscas, e ainda 4 civis assassinados pelos norte coreanos em fuga. Para «incidente», é um «incidente»!

10 julho 2021

O INÍCIO DAS CONVERSAÇÕES PARA PÔR FIM À GUERRA DA COREIA

10 de Julho de 1951. Começavam, numa área neutralizada adjacente a Kaesong, no centro da Coreia, as negociações que o Diário de Lisboa descrevia como «uma conferência» que estabelecesse o cessar-fogo na guerra que começara naquela península no ano anterior. Mais do que o exagero, já que o âmbito das negociações seria apenas militar e protagonizado por militares, perpassa pela notícia um certo tom de optimismo que o futuro se iria rapidamente encarregar de desmentir. Quatro meses depois ainda as negociações se arrastavam por minudências entravadas de incidentes como o demonstram as imagens abaixo. No computo global, esta nova fase estática da guerra da Coreia, entremeada de negociações, iria durar dois anos, o dobro do tempo que tomara a guerra de movimento inicial.

04 janeiro 2021

A RECONQUISTA DE SEUL PELOS NORTE-COREANOS (E PELOS CHINESES)

4 de Janeiro de 1951. Os soldados norte-coreanos, agora acompanhados dos «voluntários» chineses, tornam a conquistar a cidade de Seul, capital da Coreia do Sul. Repare-se a importância que era dada à Guerra na Coreia: toda a área realçada da primeira página do jornal é dedicada ao assunto. Também o cuidado da propaganda é notório: Seul (escrito à inglesa...) não fora defendida, limitando-se as tropas da ONU a operações de retardamento. Também se torna patente a percepção do quanto a natureza do conflito mudara a partir do momento em que, algumas semanas antes, se concretizara a intervenção chinesa: Estudam-se novas propostas a dirigir à China para resolver o conflito da Coreia, escrevia-se em título noutro artigo. Quanto ao terceiro artigo, tratava-se de uma falsa pergunta: Os estrategas perguntam onde se vai deter o avanço comunista... Por estrategas, entenda-se a perífrase... os próprios jornalistas. Muito incompetentes seriam os generais americanos se, por aquela altura, ainda não houvessem traçado uma posição de defesa para deter a ofensiva sino-norte-coreana. A dúvida era saber se essa posição conseguiria suster a ofensiva.

25 novembro 2020

A BATALHA DO RIO CH'ŎNGCH'ŎN

25 de Novembro de 1950. As tropas chinesas enviadas para a Coreia desencadeiam uma ofensiva ao longo do vale do rio Ch'ŏngch'ŏn, que corre sensivelmente a 80 km a sul do rio Yalu que define a fronteira entre os dois países (veja-se acima, à esquerda). À medida que progrediam para Norte, desbaratando e perseguindo o exército norte-coreano, desde o mês anterior que os serviços de informações do exército ao serviço das Nações Unidas tinham vindo a acumular indícios da presença crescente de tropas chinesas em território coreano. Este indicador de precaução colidia com a agenda política interna (norte-americana) do comandante do contingente da ONU, o general MacArthur. Este, numa das suas famosas tiradas políticas para consumo doméstico, prometera que as operações estariam terminadas antes do Natal: o slogan era «Home by Christmas» (em casa pelo Natal), referindo-se sobretudo aos norte-americanos. E a propaganda reflectia essa confiança: o Diário de Lisboa do dia em que a ofensiva chinesa começou (abaixo) noticiava «100.000 americanos e sul-coreanos» a «progredir» «excedendo os planos previstos» e já se antecipava aquilo que fazer depois: «Ocupação militar ou zona desmilitarizada?» Tanta arrogância foi desbaratada no terreno em cerca de uma semana por cerca de 230.000 chineses nesta batalha do rio Ch'ŏngch'ŏn. Sobre as consequências militares e políticas de tal desaire teremos ocasião de as analisar em posteriores evocações.

03 novembro 2020

O «DIÁRIO DE LISBOA» NA COREIA DO NORTE

3 de Novembro de 1980. Na sua página 2, o jornal do costume publicava a primeira parte de uma extensa crónica que um dos seus jornalistas (Ernesto Sampaio) escrevera por ocasião de uma visita à Coreia do Norte. Os tempos ainda eram de ingenuidade e não se perguntava quem financiara a viagem e a estadia, mas o teor encomiástico e acrítico, ridículo, daquilo que aparecia escrito como propaganda básica disfarçada de crónica, respondia em espécie aos que se dispusessem a fazer essa pergunta. Basta transcrever o início do artigo: «"Orgulho do Terceiro Mundo" - chamou o falecido presidente Boumédiène à República Popular Democrática da Coreia, na Quarta Conferência Cimeira dos Países Não Alinhados, realizada em Argel (nota: em 1973), quando essa força poderosa do nosso tempo esteve em peso ao lado de Pyongyang no reconhecimento internacional da tese da reunificação pacífica e independente de toda a península coreana, exigindo a saída do exército ocupante norte-americano. Na verdade, quem agora visita o país pela primeira vez e conheça um pouco da história recente daquela martirizada nação, primeiro colonizada e oprimida largos decénios pelo imperialismo nipónico e depois literalmente arrasada pelo imperialismo ianque, não pode deixar de se sentir alanceado por um rasgo de admiração perante a imagem de uma bela terra renascida das cinzas.» E depois continua no mesmo tom. Que panegírico primário a uma ditadura ferocíssima, completamente fechada ao resto do Mundo. Que treta. Que descaramento. 

19 outubro 2020

OS ASPECTOS EXUBERANTES E OS ASPECTOS OCULTOS DE UMA GUERRA

19 de Outubro de 1950. Nesse dia, as tropas americanas conquistavam Pyongyang que fora, até então, a capital da Coreia do Norte. A Guerra da Coreia, que a mesma Coreia do Norte desencadeara, invadindo a do Sul em finais de Junho daquele ano, parecia próxima de um desfecho. O que não se sabia nem, por isso, se noticiava, é que naquele mesmo dia 19 de Outubro, tropas chinesas haviam começado a atravessar o Rio Yalu, gesto que, tendo-se sabido, seria classificado como um indício fortíssimo da intenção chinesa de intervir no conflito - a Guerra da Coreia não estava nada próxima de um desfecho...

25 setembro 2020

UMA ORDEM INTERNACIONAL DESCONSTRUÍDA

Está tudo errado na ordem internacional vigente, quando lemos uma notícia como esta acima e não conseguimos imaginar Donald Trump a apresentar um pedido de desculpas semelhante, mesmo se o seu país fizesse uma asneira das grossas. Nas histórias das relações internacionais, e como explicação sucinta daquilo em que consistia (e consiste) a hegemonia americana, costuma mencionar-se uma conversa, já com uns 80 anos, em que intervém Franklin Roosevelt, o 32º presidente dos Estados Unidos (1933-45), avaliando um ditador de uma das repúblicas latino-americanas: « - É um filho da puta? Até pode ser um filho da puta, mas é o nosso filho da puta!». Tudo muda, quando o filho da puta em questão é o próprio sucessor de Franklin Roosevelt... Se os americanos não se importam de proteger os filhos da puta dos outros países, a esmagadora maioria destes últimos só com muita relutância se dispõe a aturar o filho da puta que os americanos elegeram.

15 setembro 2020

A BATALHA DE INCHON

15 de Setembro de 1950. Muitos dos grandes planos militares resultam porque são simples. Este, que teve lugar há setenta anos nas praias da Coreia ocidental, resultou precisamente por causa disso mesmo e também, não esqueçamos, porque os Estados Unidos dispunham de uma superioridade quase absoluta de meios marítimos, aéreos, terrestres e anfíbios para o poder concretizar. Depois de a Coreia do Norte ter invadido a Coreia do Sul em princípios de Julho daquele ano, a situação militar estabilizara na forma que se pode apreciar no mapa acima: restara uma pequena região no sudeste da península (assinalada a amarelo), onde o que sobrara das unidades militares sul-coreanas e americanas resistiam ao assalto final do exército norte-coreano. Aquele bastião era valiosíssimo politicamente, porque preservava a presença na península, mas era militarmente destituído de interesse. Atacar os invasores pela retaguarda (seta vermelha) é uma daquelas ideias simples, quase infantil. E fazê-lo junto à cidade de Seul, que constituía o nó de comunicações central por onde os exércitos invasores eram reabastecidos,.a localização ideal para isso. E depois, era preciso ser-se norte-americano, porque só eles dispunham dos meios anfíbios e navais necessários para realizar uma operação desse género: desembarcar umas dezenas de milhares de homens (40.000) em território inimigo.
Auxiliava-os significativamente o «know-how» que eles haviam adquirido em operações similares meia dúzia de anos antes, tanto na Europa (Sicília, Itália, Normandia, Provença) quanto no Pacífico (Guam, Filipinas, Iwo Jma, Okinawa). Aliás, grande parte do maior «hardware» datava ainda dessa época, da Segunda Guerra Mundial. Quanto à operação em si, baptizada de Chromite, não tem grande história. Tomando como referência o que acontecera em Overlord, o número de efectivos envolvidos foi apenas de 1/4 dos que estiveram presentes na Normandia. A superioridade em efectivos dos atacantes era de 6 para 1 (3 para 1 na Normandia). E, como também na Normandia, essa superioridade era multiplicada quando se avaliava o poder de fogo disponível dos dois lados. Onde se notava a superioridade daquele momento em relação a 1944 era na cenografia: Douglas MacArthur cuidava muito mais dessas questões de como aparecia do que Dwight Eisenhower. Nesta fotografia abaixo, de há 70 anos, têmo-lo a supervisionar as operações de desembarque em curso, binóculos na mão, escutando interessado as explicações que lhe prestam. É assim que é um general a sério...

25 junho 2020

O INÍCIO DA GUERRA DA COREIA (R)

25 de Junho de 1950. Sem quaisquer preliminares diplomáticos para, ao menos, constituírem uma capa de justificação, a Coreia do Norte invade a Coreia do Sul. Hoje percebe-se que se tratou de um erro crasso de interpretação de quais poderiam ser as intenções norte-americanas por parte de Estaline e dos soviéticos. Estes não se deviam ter esquecido como os seus adversários americanos e Harry Truman acabavam de enfardar a vitória dos comunistas na Guerra Civil chinesa há menos de um ano (em 1 de Outubro de 1949), e de como isso ressoara no panorama político interno dos Estados Unidos. Havia também as naturais ambições regionais do coreano Kim Il Sung em querer fazer também um bonito no seu país, mas aí o senhor do Kremlin, como líder indisputado do mundo comunista, devia ter balanceado a capacidade de encaixe de Washington, que Estaline evidentemente sobrestimou neste caso. É bem verdade que nessa mesma perspectiva, Ho Chi Minh andava a fazer uma coisa parecida no Vietname contra os franceses, mas aí a guerra era anti-colonial e assimétrica, o fraco contra o forte, enquanto que na Coreia e desde o princípio se tratou de uma guerra civil e convencional, com os beligerantes em pé de igualdade, senão mesmo com a Coreia comunista a ficar com o papel do bruto despotista. Por outro lado, o discurso propagandístico dos invasores em prol da libertação dos seus compatriotas do sul, teria uma analogia mais do que evidente no exemplo do que os alemães de Leste com o apoio russo poderiam fazer na Alemanha dividida, assustando toda a Europa democrática, e lançando-a toda para os braços da América através da NATO. E se esse não era um problema de Kim Il Sung nem de Mao Zedong, a consolidação da Europa ocidental seria um (grande) problema de Estaline. Mas, por seu lado, os americanos caíram no erro de presumir que Estaline nunca cairia nesse erro de dar carta branca a Kim, como aqui mostrei há uns dias. É interessantíssimo analisar o que aconteceu desde que se saibam umas coisas sobre a Guerra da Coreia, como por várias vezes, a respeito deste e de outros assuntos, recomendei ao meu amigo Luís... Ler mais e opinar menos nunca fez mal a ninguém.
E é tanto mais interessante saber sobre o tema, quanto se tem assistido nos últimos três anos, depois dos americanos terem elegido aquele palhação para ocupar a Casa Branca, a um recrudescimento de conversas a respeito das sequelas dessa Guerra da Coreia, por causa da fantasia de Donald Trump querer receber um prémio nobel da Paz promovendo a paz na península. A máquina promocional da administração americana faz o seu papel de contar uma história com açúcar - e a enorme máquina comunicacional que lá vai beber não faz o seu de a escrutinar para saber que parte é verdade. Como de costume, todas as vezes em que Trump esteve com o líder norte-coreano foi mais «uma cimeira histórica», descontando todas as outras cimeiras históricas (abaixo, em 2000 e 2009, as cimeiras com a secretária de Estado Madeleine Albright e com o ex-presidente Bill Clinton), das quais também não resultou a ponta de um corno de resultados tangíveis... Caso Donald Trump tivesse estado disposto a ceder aonde os antecessores não o fizeram, talvez as cimeiras tivessem produzido qualquer coisa de diplomaticamente tangível, mas, quando se descobre que Donald Trump é um idiota que nem sequer faz ideia que o Reino Unido é uma das poucas potências com arsenal nuclear, como é que o poderemos comparar com os dilemas que se puseram a Harry Truman há 70 anos?...



Esta é uma reedição adaptada de um texto aqui publicado há dois anos.

21 junho 2020

A POSIÇÃO DOS ESTADOS UNIDOS NO EXTREMO ORIENTE

Quem lesse a edição de 21 de Junho de 1950 do Diário de Lisboa ia deparar-se com este artigo do jornalista francês Gustave Aucouturier (1902-1985), então a trabalhar para a Agência France-Presse, onde se procedia a uma análise desenvolvida e interessante da posição dos Estados Unidos entre os seus aliados no Extremo Oriente: o Japão e as Filipinas, mas também a Formosa, onde se refugiara o governo nacionalista chinês e a Coreia do Sul, resultante da ocupação dividida da península coreana depois da Segunda Guerra Mundial. A França, representada pelos pontos de vista de Aucouturier, não era um observador inocente, afadigada como estava a travar uma guerra na Indochina. E depois havia também a questão da defesa da Europa contra uma eventual agressão soviética. Mas o que torna esta análise significativa, era algo que era desconhecido tanto do autor como dos leitores do artigo nesta data da sua publicação há precisamente 70 anos. Dali por cinco dias, a 25 de Junho, a Coreia do Norte iria invadir o Sul e iniciar a Guerra da Coreia, tornando o prolixo exercício intelectual num assunto jornalístico escaldante! Para dar uma dimensão da surpresa, cinco dias antes (20 de Junho), o secretário de Estado norte-americano da época, Dean Acheson (1893-1971), afirmara taxativamente a uma comissão de senadores, numa reunião à porta fechada, que era «improvável» que a Coreia do Norte viesse a atacar a Coreia do Sul.

13 junho 2020

UMA OUTRA CIMEIRA HISTÓRICA HÁ VINTE ANOS

13 de Junho de 2000. Quase cinquenta anos passados sobre a eclosão da Guerra da Coreia, tem lugar na capital da Coreia da Norte (o país que desencadeou essa guerra) a primeira cimeira intercoreana com a presença dos presidentes das duas Coreias - a do Norte, a invasora, e a do Sul, a invadida. O ambiente parece ter sido tenso e pouco propenso a sorrisos (foto acima), mas isso não impediu que o acontecimento tivesse sido classificado - previsivelmente - pelos órgãos de informação de todo o mundo como histórico. Como tradicionalmente, quando os acontecimentos são assim classificados no momento em que ocorrem, existe uma grande probabilidade que acabem varridos para o caixote do lixo do esquecimento. Foi o caso. Não ajudou nada ao prestígio dos intervenientes ter-se vindo a descobrir que a Coreia do Sul pagara algumas centenas de milhões de dólares à Coreia do Norte, já que o evento fora um impulso na carreira doméstica e internacional do presidente sul-coreano Kim Dae-Jung (acima, à esquerda). Ele veio inclusive a receber o Prémio Nobel da Paz em 2000. Enfim, aspectos do assunto que não se sabiam na altura da cimeira e que não interessa agora desenvolver...
O que é interessante para acrescentar nesta história, para além da celebração do vigésimo aniversário do acontecimento, é que depois da cimeira histórica de 2000, ter-se-á desencadeado uma tendência para que se repetissem as cimeiras históricas, em 2007, em 2018 (três - Abril, Maio e Setembro), a ponto de se poder dizer, como se lê acima, que existe uma história destas cimeiras históricas. Mas o assunto desta história histórica estava ainda longe de estar encerrado pois, para além da sempre ansiada reunificação das duas Coreias, ele recebeu o contributo mais recente, exuberante e portentoso de Donald Trump. Com este último, e com as cimeiras que ele já arranjou à sua conta (Singapura, Hanói, DMZ - abaixo), aquela que fora até então uma história histórica, tornou-se uma história histórica histriónico. Donald J. Trump que, recorde-se, e como o outro, não é homem que não tenhamos em conta de dizer que não a comprar um Prémio Nobel da Paz...