25 de Novembro de 1918. Mbala é, ainda hoje, uma remota vila do nordeste da Zâmbia. Contava com 17.000 habitantes em 2000. Situada a 22 km da extremidade meridional do lago Tanganica, mas a 900 metros acima dele, e por isso colocada a uns salubres 1.670 metros de altitude, a povoação passara a ser a sede da administração colonial britânica naquela região desde 1893, quando fora rebatizada com o nome de Abercorn (Escócia). É por esse nome que a podem encontrar assinalada por uma circunferência alaranjada no mapa abaixo. Foi nesse sítio que há precisamente cem anos se desenrolaram as últimas cerimónias que punham fim à Primeira Guerra Mundial. A coluna alemã comandada pelo coronel von Lettow-Vorbeck (que já aqui baptizei de «a raposa da savana») depunha finalmente as armas depois de terem sido informados da assinatura do armistício que ocorrera duas semanas antes. As imagens que existem da ocasião solene foram pintadas por um artista local (acima), uma obra muito menos ingénua do que à primeira vista se possa pensar. Vencedores à direita, vencidos à esquerda, veja-se a diferença das árvores de cada lado ou o facto do primeiro ter comparecido de automóvel e o segundo montado a cavalo (na realidade, os britânicos enviaram uma viatura que transportasse comodamente o vencido). De uma certa forma, esta cerimónia perdida no meio de África é que põe fim à Grande Guerra. Só com a assinatura de von Lettow-Vorbeck é que deixará de haver alemães em armas por uma causa imperial, causa essa cujo imperador já há umas semanas perdera o poder...
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25 novembro 2018
20 outubro 2015
O POVOAMENTO DA FEDERAÇÃO DA RODÉSIA E DA NIASSALÂNDIA
A Federação foi um projecto político britânico criado após a Segunda Guerra Mundial e que se destinava a conceder um certo modelo de autonomia política a alguns territórios britânicos em África contornando as pressões para que as descolonizações se processassem da maneira mais convencional onde o poder fosse transferido para as elites africanas indígenas maioritárias. A ideia era criar condições para replicar o modelo da África do Sul, onde a população de ascendência europeia, ainda que minoritária (20%), o era substantivamente e atingia uma dimensão crítica (eram 2,5 milhões de sul-africanos brancos em 1950) para conferir estabilidade a um regime de supremacia branca.
A Federação foi constituída no centro da África meridional, entre Angola e Moçambique (ver mapa acima), reunindo as regiões que são hoje a Zâmbia, o Zimbabué e o Malawi (e que na época eram conhecidas por Rodésia do Norte e do Sul e Niassalândia). Quando foi fundada, em 1953, possuiria uns 6.850.0000 habitantes, dos quais apenas 2,5% (170.000) eram de origem europeia, e cerca de ⅔ destes últimos concentravam-se na Rodésia do Sul, que era, naturalmente, o cérebro e a locomotiva do projecto. E a ideia não era copiar exactamente o modelo sul-africano, onde os africanderes haviam acabado de institucionalizar o apartheid, mas implementar um modelo de inspiração britânica, mais benigno.
É no quadro desse ambicioso projecto que se pode compreender a notícia de jornal dessa época que insiro abaixo, onde se antecipava que nos 25 anos seguintes a Federação esperava receber um milhão de imigrantes europeus para a equilibrar demograficamente. Esse milhão de emigrantes europeus transplantados para o meio de África foi um projecto exuberantemente falhado e esquecido e que se chega a tornar cómico quando conhecido a 60 anos de distância, agora que se conhece a continuação dos acontecimentos. Nunca os territórios africanos conseguiram despertar um interesse da imigração europeia à escala antevista pelos visionários do projecto da Federação. Os europeus emigrados preferiram outros destinos, sobretudo na própria Europa. A Federação durou dez anos (1953-1963), até que cada um dos seus membros seguiu o seu percurso distinto.
No final da década de 1970, ao fim dos tais 25 anos míticos da notícia acima, a população de origem europeia total dos três países separados cifrava-se em cerca de 350.000 pessoas, das quais mais de 80% se concentrava na então Rodésia do Sul, o único deles que ainda prosseguia em versão reduzida o projecto de supremacia branca. Também esse terminou em 1980. O número de brancos actualmente na região outrora concebida para receber um milhão deles cifrar-se-á à volta dos 75.000. Convém remexer de quando em vez nestes projectos neocoloniais britânicos fracassados para não se ficar com a opinião que as ambições coloniais anacrónicas só aconteceram connosco...
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31 outubro 2014
O LEGADO DO PRESIDENTE SATA
Não se tivesse dado o caso de ter tido um sucessor branco, ainda que interino, e a notícia da morte de Michael Sata, o presidente da Zâmbia, nem teria saído dos rodapés das páginas noticiosas. Figura praticamente desconhecida fora do seu país, vale a pena evocá-lo por um daqueles episódios em que o poder político se confronta com o poder económico e em que este triunfa - como sempre triunfou ao longo da História (querendo-nos convencer que não, vivemos tempos atípicos). A história teve o seu clímax há quase precisamente um ano e pode ser contada de forma sumária assim:
A Zâmbia é um dos maiores produtores mundiais de cobre (8º). A segunda maior empresa de extracção de cobre do país é a Konkola Copper Mines (KCM – logo acima). Desde 2004 que essa empresa é, por sua vez, detida maioritariamente pela Vedanta, uma multinacional mineira de capitais indianos porém domiciliada em Londres. Mas a KCM mostrava estar em dificuldades quando, em Outubro de 2013, apresentou um plano de recuperação. Como se tornou quase indispensável em todos os bons planos de recuperação económica, também este envolvia o despedimento de muitos trabalhadores, 1.529 para ser mais preciso, o que correspondia a cerca de 7% da força de trabalho da KCM. E, claro, as acções da Vedanta subiram na Bolsa de Londres (abaixo). Os Mercados adoram planos de recuperações em que se despedem muitos trabalhadores, quantos mais, mais os Mercados apreciam.
E é aqui que apareceu Michael Sata e o governo zambiano. A anunciarem que, se a KCM procedesse aos despedimentos anunciados lhes retiraria a concessão mineira. E os Mercados, volúveis, se gostam de planos de recuperação onde se despede muita gente, não gostam de empresas que, apesar de recuperadas, perdem as suas autorizações para operar e ganhar dinheiro... E lá vieram as cotações outra vez por aí abaixo. É evidente que nestes casos se arranja sempre uma empresa de rating - mais prestigiada ou mais obscura - que anuncia cortar o rating do país acompanhado das declarações de um analista da mesma indignado com o comportamento anti-económico (anti-liberal!) dos decisores políticos do país em causa, profetizando a insustentabilidade da sua conduta e o colapso eminente. Na disputa ideológica pode-se fingir ser assim mas, na prática, este braço de ferro durou apenas uma semana e acabou com a KCM a pedir publicamente desculpas ao governo zambiano – depois da licença de trabalho do seu CEO na Zâmbia ter sido ostensivamente revogada.
Mais do que isso, o governo zambiano nomeou uma comissão de auditora, que concluiu, já em Agosto deste ano, aquilo que se queria que se concluísse: que não era preciso despedimentos, a empresa estava a ser mal gerida – quando conveniente, também se pode concluir que o privado também gere mal as empresas. É evidente que todo este episódio não teve grande difusão fora da Zâmbia. Agora constate-se o enorme contraste com a atitude do poder político português, especialmente nos últimos três anos. Claro que isso ocasiona que se publicite que Portugal seja o 25º país onde é mais fácil fazer negócios da lista Doing Business (que orgulho!), enquanto a Zâmbia ocupa nessa mesma lista um modestíssimo 111º lugar. Mas a verdade é que a KCM continua a operar no país, apesar das regras draconianas a que o governo zambiano a obriga: outra constante económica ultimamente muito esquecida é que - se não houver venalidade dos governantes - a atracção pela extracção do cobre e por lucrar com isso costuma sobrepor-se a qualquer ideologia.
Mais do que isso, o governo zambiano nomeou uma comissão de auditora, que concluiu, já em Agosto deste ano, aquilo que se queria que se concluísse: que não era preciso despedimentos, a empresa estava a ser mal gerida – quando conveniente, também se pode concluir que o privado também gere mal as empresas. É evidente que todo este episódio não teve grande difusão fora da Zâmbia. Agora constate-se o enorme contraste com a atitude do poder político português, especialmente nos últimos três anos. Claro que isso ocasiona que se publicite que Portugal seja o 25º país onde é mais fácil fazer negócios da lista Doing Business (que orgulho!), enquanto a Zâmbia ocupa nessa mesma lista um modestíssimo 111º lugar. Mas a verdade é que a KCM continua a operar no país, apesar das regras draconianas a que o governo zambiano a obriga: outra constante económica ultimamente muito esquecida é que - se não houver venalidade dos governantes - a atracção pela extracção do cobre e por lucrar com isso costuma sobrepor-se a qualquer ideologia.
30 outubro 2014
RACISMO NEGRO
Na Zâmbia, morreu o presidente Michael Sata (1937-2014), mas o que irá acontecer com a sua sucessão é, para além de exótico, uma demonstração inequívoca não apenas da existência daqueles cargos políticos simbólicos que estão destinados a serem ocupados pelos membros de minorias nacionais para melhor cosmética dos regimes, como sobretudo que, mesmo depois do fim do colonialismo, o racismo não precisou da sua existência para continuar a subsistir em África. Recorde-se que a Zâmbia é um país que completou recentemente (26 de Outubro) os 50 anos de independência. É um país sólido das suas instituições, um daqueles raros países africanos onde já se processaram alternâncias de poder por força da vontade popular expressa nas urnas. E onde é pacífico que no caso da morte do presidente em exercício, o vice-presidente – no caso, Guy Scott (1944), acima à esquerda – assume interinamente o cargo. E contudo, parece haver um preceito constitucional que impede Scott de concorrer às próximas eleições: porque os seus pais – não o próprio – eram de ascendência britânica e não nasceram na Zâmbia... Embrulhado na curiosidade de se tratar do primeiro caucasiano a presidir a um governo africano desde há vinte anos (depois do sul-africano F.W. de Klerk), a redacção das notícias a este respeito mostram uma condescendência para com esta descriminação que só pode atribuir-se a uma certa obtusidade quanto ao seu significado. Alguém já imaginou o que serão os comentários (justamente) ultrajados se António Costa não puder concorrer a primeiro-ministro por causa da ascendência goesa de um pai que não nasceu cá?
09 março 2012
A LINHA «DA FRENTE»
A fotografia acima data dos princípios dos anos 80 e nela identificam-se (da esquerda para a direita): Sam Nujoma da Namíbia (1929- ), o único dos presentes que, à data da fotografia, ainda não era chefe de estado nem de governo, Kenneth Kaunda (1924- ), que era então o Presidente da Zâmbia, Samora Machel (1933-1986), o Presidente moçambicano, Julius Nyerere (1922-1999), o Presidente da Tanzânia, Robert Mugabe (1924- ), então ainda 1º Ministro do Zimbabwe e finalmente o Presidente angolano José Eduardo dos Santos (1942- ).O bloco representado por aqueles cinco países (mais a SWAPO namibiana) designava-se por Estados da Linha da Frente – assinalados a vermelho no mapa abaixo. O inimigo comum era a África do Sul (a azul), que era então dirigida pelo regime dos africânderes. Assinale-se a cor amarela dos países que estavam geograficamente mesmo à frente, como o Botswana, a Suazilândia ou o Lesoto que, por causa das represálias do poder militar e económico dos sul-africanos, não se podiam dar ao luxo de ser tão radicais quanto os vizinhos da frente mais resguardados…

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19 fevereiro 2009
A GUERRA DA SAVANA RODESIANA (RHODESIAN BUSH WAR)
Os britânicos tiveram a sua Malásia e os norte-americanos o seu Vietname, ambas em regiões tropicais, os franceses a sua Argélia e os soviéticos o seu Afeganistão, ambas em regiões áridas, houve ainda outras, mas a guerra subversiva que mais se terá assemelhado em todos os aspectos a qualquer das três que foram travadas pelos portugueses em África terá sido a Guerra da Savana Rodesiana (Rhodesian Bush War).
Há muitas mais coisas a torná-las semelhantes do que apenas uma questão de todas elas se terem travado no mesmo continente, em regiões de proximidade (no caso de Angola) ou mesmo de contiguidade geográfica (no caso de Moçambique). Também é mais do que a circunstância de haver uma quase sobreposição temporal entre os três casos envolvendo os portugueses (Angola, Guiné e Moçambique, 1961-74) e o rodesiano (1965-80).
É o caso das fotografias de propaganda do regime se assemelharem, como a de cima, com mulheres e crianças de fazendeiros brancos assassinados pelos guerrilheiros da ZAPU em 1975, a lembrar as que haviam sido tiradas em 1961 no Norte de Angola, na sequência das acções da UPA. Como os portugueses haviam conseguido em Angola, também na Rodésia conseguiram dividir a oposição armada em mais do que um movimento: ZAPU e ZANU.Por um período de cerca de meia hora, uma esquadrilha de 6 Hunters, acompanhada de outra de 4 bombardeiros Canberra, tomou conta do espaço aéreo zambiano, enquanto bombardeavam a principla base da ZAPU, que se situava perto da capital da Zâmbia, Lusaka. O vídeo acima reproduz parte das instruções então dadas pelo líder da esquadrilha atacante à torre de controlo do aeroporto de Lusaka…
Que contraste com a (tentativa de) discricionariedade da Operação Mar Verde em Conacri em 22 de Novembro de 1970! Nestes momentos, que o tempo transcorrido acabava por tornar propenso ao revisionismo histórico, vale a pena perguntar qual terá sido a contribuição destas operações especiais, tão ousadas quanto ilegais, para o desfecho das guerras… Muito pouca! Afinal, tanto os rodesianos como os portugueses perderam as suas Guerras…
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