2 de Maio de 1984. Cerimónia de assinatura de um acordo tripartido entre a África do Sul , Moçambique e Portugal sobre as condições de fornecimento da energia eléctrica produzida pela barragem portuguesa e edificada em Moçambique, ao cliente sul-africano. A cerimónia tem lugar na cidade do Cabo, na África do Sul, dando expressão à importância suplementar da parte sul-africana. o único consumidor regional capaz de absorver os níveis de produção gerados pela barragem. Para além disso, África do Sul e Moçambique estavam em conflito surdo. As possibilidades de que o acordo frutificasse eram escassas. Mas isso a notícia não se atrevia a dizer.
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02 maio 2024
16 março 2024
O ACORDO DE NKOMATI
(Republicação)
O Acordo de Nkomati foi assinado em 16 de Março de 1984 entre os mais altos representantes da África do Sul e de Moçambique, respectivamente, o então Primeiro-Ministro P.W. Botha e o Presidente Samora Machel. As duas partes signatárias comprometiam-se a não apoiar os movimentos oposicionistas da outra parte, a saber, Moçambique deixaria de apoiar moral e logisticamente o ANC, enquanto a África do Sul deixá-lo-ia de fazer, material, moral e logisticamente à Renamo. O Acordo ia permanecer letra morta, mas isso ainda não se sabia na altura da cerimónia, quando estas fotografias foram tiradas.
O Acordo representava uma grande vitória diplomática da África do Sul, pela brecha que conseguira criar no ostracismo a que o regime do apartheid havia sido remetido por todos os seus vizinhos africanos. Do outro lado, também Samora Machel provocara uma ruptura no campo ideológico a que pertencia em favor do pragmatismo. Mas, mesmo isso, não impediu que a poderosa máquina comunicacional sul-africana se mostrasse implacável na forma sacana como tratou os novos amigos, observe-se cuidadosamente o instantâneo abaixo que acabou por se tornar numa espécie de fotografia oficial da reunião.
Em primeiro plano e do lado esquerdo aparecem o Ministro dos Negócios Estrangeiros sul-africano Roelof Pik Botha e P.W. Botha, ambos de condecoração ao pescoço(*), o segundo de chapéu clássico na cabeça que lhe dá um aspecto distinto. No outro extremo, está o Ministro dos Negócios Estrangeiros moçambicano, Joaquim Chissano, também com uma condecoração ao peito, só que esta não deveria ser a recíproca sul-africana (**). Mas a figura dominante do instantâneo é mesmo Samora Machel, olhando de uma forma deslumbrada para cima.(*) Sendo as duas condecorações idênticas e não se vendo outras é muito provável que se tratem de condecorações moçambicanas acabadas de entregar por Samora Machel aos dois.
(**) A condecoração tem um design de inspiração russa/soviética, também muito usado pelos países desse bloco, mas jamais pelos países do outro, como era o caso da África do Sul.
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23 agosto 2023
A ÁRVORE PLANTADA POR SUA EXCELÊNCIA
Esta fotografia foi tirada em Moçambique mas é uma denúncia da mediocridade inconsequente de muitos deste género de gestos políticos públicos. Passado o momento da cerimónia, quando lá devem ter estado dezenas de pessoas a dar-lhe importância, a árvore plantada por pessoa tão ilustre - presidente da República de Moçambique! - ali ficou, sem ser cuidada, nem regada, sem ter ninguém que olhasse por ela, até vir a definhar. E não sei se o ilustre plantador da árvore, se confrontado com a fotografia, manifestaria alguma sombra de embaraço ao ver o seu nome associado a tal fracasso, a tal ridículo... Desconfio que não, porque parecer-se estóico nesses momentos completamente embaraçantes é um dos segredos de se ser (um bom) político. Quanto a Armando Guebuza, não tenho condições para opinar se a árvore será uma boa metáfora dos seus dez anos de presidência. Mas esta mesma árvore é uma excelente metáfora da seriedade e empenho como muitas iniciativas são encaradas em Moçambique.
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15 abril 2023
O EGO DE KAÚLZA DE ARRIAGA
15 de Abril de 1973. O Comando-Chefe das Forças Armadas em Moçambique faz publicar o comunicado acima, onde se faz um relatório/inventário do que havia sido «a acção e os resultados» da actividade das forças armadas portuguesas em Moçambique nos últimos três anos - de 31 de Março de 1970 a 31 de Março de 1973. Esses três anos correspondem ao período em que aquele comando-chefe fora exercido pelo general Kaúlza de Arriaga. Este último, que aparece nas duas fotografias do lado direito, sempre se considerara um rival de António de Spínola (que ocupava cargo equivalente na Guiné) e também sempre cuidara de promover a sua imagem na Metrópole quando as circunstâncias se propiciavam, como era este o caso. Aqui estamos perante uma exibição de um dos procônsules do império português, em vias de desaparecer.
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16 dezembro 2022
O MASSACRE DE WIRIAMU
16 de Dezembro de 1972. Ocorre em Moçambique, província de Tete, o massacre de Wiriamu. Uma companhia de Comandos do exército português assaltou a povoação de Wiriamu. Tinha como missão capturar um comandante (Raimundo Delepa) da Frelimo que ali se encontraria escondido e de neutralizar o destacamento armado que o acompanhasse. A informação veio a revelar-se errada, mas os assaltantes atacaram a povoação como se os habitantes fossem o inimigo, massacrando-os. Como acontece muito frequentemente nestes casos, é impossível precisar um número aproximado de vítimas, variando desde os 150 mortos contados pela Cruz Vermelha, até aos 385 que constam da wikipedia em português. De qualquer modo, por muito que o número de vítimas impressione (e impressiona!), o que acaba por se tornar importante nestas narrativas, são os esforços para denunciar aquilo que aconteceu e os esforços contrários para o esconder e evitar sancionar os culpados. No caso, os culpados são os membros da 6ª companhia de Comandos que esteve envolvida no massacre, que até era «constituída quase totalmente por pessoal de recrutamento de Moçambique», como se pode ler na ficha abaixo. Abafado em Portugal, a notícia do massacre acabou por ser divulgada no Reino Unido através do jornal The Times, mas só sete meses depois, em Julho de 1973 (...uma oportuna semana antes da visita que Marcello Caetano iria realizar a Londres...). Mais recentemente, o primeiro-ministro português António Costa, de visita a Moçambique, pediu desculpa pelo massacre. Mas gostaria de terminar o texto com dois comentários às imagens que escolhi para ilustrar o assunto. Acima, uma fotografia feita poucos anos depois do massacre, ainda antes de ele se tornar solene, mostra uma faixa assinalando a aldeia e o local onde ocorreu: em que a data está errada, o que nada abona em favor da seriedade como o episódio foi assumido inicialmente pelas autoridades da Frelimo no novo Moçambique independente. Também em registo negligente, mas de sentido contrário, abaixo publica-se uma página relatando a «actividade operacional» da 6ª companhia de Comandos de Moçambique, a unidade que esteve envolvida no massacre. A entrada que relata a «operação Marosca» tem uma nota: «destruído aldeamento de Wiriyamu em 16 de Dezembro de 1972; na sequência da operação "Marosca", que causou vários mortos civis». Ora 150 mortos (pelo menos) parece-me muito mais do que vários, trata-se do cúmulo do eufemismo!...
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19 novembro 2022
A GUERRA TRAZIDA ATÉ ÀS PORTAS DOS LAURENTINOS
19 de Novembro de 1942. Se, entre os portugueses da metrópole se vivia a sua condição de neutrais compenetradamente, considerada a proximidade que os separava dos eventos da guerra, entre as comunidades portuguesas que viviam nas colónias, designadamente as das cinco colónias africanas*, o grande conflito mundial que então se travava era amenizado pelas circunstâncias do distanciamento. É perante esse panorama que se pode evocar a comoção que percorreu Lourenço Marques, a capital da colónia de Moçambique, há precisamente oitenta anos. Daquele porto saíra o cargueiro norueguês Gunda, um navio construído em 1919 com 2.141 toneladas de deslocamento e com uma tripulação de 46. Transportava 3.134 toneladas de carvão sul-africano para o porto de Zanzibar. Não foi muito longe. Com algumas horas de navegação, no local assinalado no mapa abaixo com sinal azul, o Gunda foi interceptado pelo submarino U-181 da Kriegsmarine e afundado. Nuns mares povoados por tubarões, apenas 8 dos 46 tripulantes sobreviverão ao torpedeamento.
E contudo, o episódio teve lugar a umas escassas 40 milhas náuticas da que hoje é a paradisíaca praia do Bilene. Nos dias que se seguirão, até ao fim daquele mês, o U-181, que era comandado pelo (então) Capitão-Tenente Wolfgang Lüth (que virá a ser um dos maiores ases daquela arma), afundará ainda mais seis navios (quatro gregos, um americano e um britânico) patrulhando aquelas mesmas paragens que eram também as rotas de aproximação ao porto neutral de Lourenço Marques. O cumulo da intimidação acontecerá a 28 de Novembro de 1942, quando o cargueiro grego Evanthia, que vinha de Áden e se dirigia para Lourenço Marques, será afundado a tiros de canhão a umas escassas dez milhas náuticas da costa moçambicana, quase ao alcance de João Belo. Terá sido um dos períodos de maior tensão sofrido pela cidade, que terá sido sentida sobretudo pelos membros da comunidade de origem europeia, e tensão essa que, curiosamente nunca terá sido sofrida com a mesma intensidade durante a sua própria guerra colonial ou de libertação, a que foi travada entre 1964 e 1974.
* Refira-se a excepção importante das duas colónias portuguesas do Oriente, Macau e, especialmente, Timor, que estavam cercadas, no primeiro caso, e mesmo ocupadas, no segundo, pelo exército japonês.
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09 outubro 2022
OS FUZILAMENTOS EM MOÇAMBIQUE
9 de Outubro de 1982. O que mais nos choca nesta notícia é mesmo a forma como é noticiada: casualmente. Trata-se de um país de língua oficial portuguesa, trata-se da aplicação da pena capital por «pertença e colaboração com organizações clandestinas, rebelião armada e terrorismo». Onde estariam as notícias com as reacções muito críticas daquelas organizações de direitos humanos que costumam acompanhar estes excessos? Não havia. Mais. Havia que não esquecer que, até 1974, haviam sido as autoridades coloniais portuguesas em Moçambique que haviam desempenhado aquele mesmo papel repressor das «organizações clandestinas», da «rebelião armada» e do «terrorismo». E haviam-no feito, apesar das críticas, sem recorrer oficialmente a estes métodos extremos. Se o tivessem feito, a história de Portugal e de Moçambique teria sido muito diferente, já que muitos quadros da Frelimo capturados teriam sido então executados para exemplo, durante a fase da guerrilha. A especulação é curiosa porque, há coisa de um mês, o primeiro-ministro português pediu desculpa a Moçambique por um massacre cometido pelo exército português há 50 anos. Um gesto que, se bem compreendi, acabou por ter um acolhimento misto em qualquer dos dois países. E que me veio levantar a questão se, para além deste sarar das feridas do período colonial, Moçambique não precisará também e sobretudo, de fazer o mesmo ao período de chumbo dos tempos do monopólio do poder da Frelimo?
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04 outubro 2022
A ASSINATURA DO PRIMEIRO ACORDO DE PAZ EM MOÇAMBIQUE
4 de Outubro de 1992. Assinatura em Roma do Acordo Geral de Paz para Moçambique. Assinaram-no Joaquim Chissano, como presidente de Moçambique, e Afonso Dhlakama, como dirigente máximo da Renamo. As expectativas eram grandes, mas é possível perceber com o distanciamento dos trinta anos entretanto decorridos, quanto a sociedade moçambicana não possuía ainda a maturidade suficiente para o cumprimento dos ambiciosos objectivos de democratização da sociedade que estavam previstos no Acordo que se firmava em Roma. E mais do que a força política e militar da Renamo a contestar a da Frelimo no poder, é a autoridade do próprio Estado que permanece muito débil (ver Manuel António e o fenómeno Naparama). Em 2013, as duas partes signatárias voltaram ao conflito armado. E em 2019 tornou a reencenar-se nova cerimónia de assinatura de um acordo de paz entre o governo da Frelimo e a Renamo. A exuberância é grande, talvez em demasia, considerando o aspecto avantajado dos dois signatários e o respectivo abraço, mas o mais significativo é que a ingenuidade e as expectativas da cerimónia de 1992 já se haviam perdido há muito. E entretanto rebentou uma insurreição islâmica na província de Cabo Delgado que o governo não consegue controlar.
21 agosto 2022
OS EXCESSOS DE BOA VONTADE PARA COM OS PALOPS
21 de Agosto de 1982. Esta notícia a respeito do restabelecimento do comércio do açúcar entre Portugal e Moçambique é sintomático de como, 7 anos depois das independências, a atitude portuguesa para o reatamento das relações tradicionais com as suas antigas colónias era voluntariosa, também um pouco complexada, mas podia ser, sobretudo, muito ingénua. Por detrás da (aparente) força da posição negocial moçambicana escondia-se uma indústria açucareira em completo descalabro, conforme se comprova pela passagem abaixo, extraída de um estudo recente (2021) sobre aquela indústria - na verdade, houve uma redução de mais de 90% da produção entre 1975 e 1992! Moçambique acabou dependendo de importações de açúcar dos países vizinhos... Pondo as arrogâncias contra o colonialismo de parte, a verdade crua é que era previsível em 1982 que Moçambique nunca estaria em condições de vir a satisfazer quaisquer quotas de um contrato «a longo prazo» com Portugal. Essa era a verdade, por muito que custasse às autoridades moçambicanas reconhecer que a saída dos portugueses tinha arruinado irreversivelmente, para além das suas capacidades, algumas das actividades económicas mais proeminentes de Moçambique. As autoridades portuguesas eram obrigadas a sabê-lo, para não andarem a perder tempo com estas fantasias. Em vez disso, subsistia este faz-de-conta, sustentado em complexos ideológicos e remorsos pós coloniais.
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17 julho 2021
O 25º ANIVERSÁRIO DA CPLP
17 de Julho de 1996. Data da fundação da CPLP, Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Hoje tem 9 países membros: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Assim, à primeira vista, parecia uma ideia engraçada. À segunda vista e com 25 anos de existência, não tenho ideias, porque não tenho noção da actividade desenvolvida. Nem da identidade ou sequer da nacionalidade de quem a dirige, que descubro ser português. Mas descubro que deve ser giro pertencer-lhe como membro associado, atentando à profusão e disparidade de países que se mostram «oficialmente interessados» nesse estatuto, uma lista que começa alfabeticamente pela Albânia(!) e acaba em Taiwan, do outro lado do Mundo.
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25 outubro 2020
AS KALASHNIKOVES DO TENENTE CORONEL PALMELA E DO COMANDANTE ROXO
Comecemos por apresentar o tenente-coronel Carlos Palmela, comandante do batalhão de Caçadores 20 sediado em Vila Cabral em 1967-68 e que aparece do lado direito da fotografia acima, a falar com o seu oficial de operações naquele batalhão, o major Teixeira. O tenente-coronel Palmela foi o primeiro oficial português que me lembro - e ao vivo! - de ter visto a usar uma Kalashnikov (AK-47) como arma pessoal quando saía em operações para o mato. Confesso que o facto de a sua arma se distinguir facilmente (por causa do carregador curvo) da espingarda G-3, a que era usada por todos os restantes militares armados, conferia ao seu detentor um implícito ascendente reforçado sobre as tropas que comandava. Porque era diferente. Foi uma impressão que se formou e perdurou, até muitos anos mais tarde, quando, com outro entendimento e discernimento, um veterano do conflito me fez ver que, em termos práticos, aquela opção do tenente-coronel Palmela por uma arma que era também utilizada pelo inimigo, até não seria assim tão sensata. Com os confrontos e as trocas de tiros a terem lugar muitas vezes em situações confusas, em resultado de emboscadas, em regiões de densa vegetação, em que não se conseguem distinguir atiradores amigos de inimigos, usar uma arma que tem uma assinatura acústica idêntica às empregues pelo inimigo, é também correr o risco suplementar de se ver alvo do fogo dos do nosso lado. Afinal, descobri, andar armado com uma AK-47 naquelas circunstâncias, em que o resto da tropa usa G-3, é um adereço que tem vantagens, mas só até ao momento em que precisamos da arma para o seu propósito último: que é o de dar tiros... contra o inimigo. É tomando isso em conta que vale a pena falar de outra figura de Vila Cabral, muito mais famosa que o tenente-coronel Palmela.
Havia-me recordado desta história antiga e dos seus ensinamentos quando me deparei, há muito pouco tempo, com uma publicação numa rede social, em que se fazia um elogio rasgado ao comandante Roxo. Diga-se, desde já, que a patente de comandante é um expediente, já que Daniel Roxo, sendo uma das grandes figuras da Guerra em Moçambique, nunca esteve incorporado no exército português. É ele que aparece armado da mesma Kalashnikov em todas estas fotografias acima. E numa delas, aparece até, como recordava o tenente-coronel Palmela, armado com a sua AK-47 em contraste com as G-3 dos seus soldados. (o batalhão comandado por Palmela também era de recrutamento local e, por causa isso, também era constituído, à mesma, predominantemente por tropas africanas). Noutra fotografia, aparece a apontá-la, como se tivesse a fazer fogo. Numa terceira, é o único elemento dos seis da foto que está armado. E na última, parece exibir a AK-47 como se fosse uma ferramenta de trabalho, como que em contraponto à máquina fotográfica de quem abraça. Eu não sei se a fama que lhe atribuem como combatente será totalmente merecida, se a AK-47 lhe dava assim tanto jeito nos momentos em que teve de se defrontar com a guerrilha da Frelimo, se ele merecerá todos os elogios que lhe endereçam ainda agora todos aqueles nostálgicos do Império, nostálgicos esses que ainda hoje se recusam a perceber porque Portugal teve de sair de África, mas constato que no domínio da fotogenia o comandante Roxo era muito bom. E a fotogenia, vim eu a descobrir vários anos depois de me explicarem a impropriedade do uso de uma AK-47 nas circunstâncias em Daniel Roxo a empregava, é muito mais importante para o robustecimento de uma reputação de herói do que os outros predicados que se esperam dos grandes guerreiros. Creio já aqui o ter demonstrado neste blogue, em casos tão díspares quanto os de Otto Skorzeny ou de Douglas MacArthur.
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25 setembro 2020
A CAMPEÃ OLÍMPICA MOÇAMBICANA
25 de Setembro de 2000. Maria Mutola vence a prova dos 800 metros dos Jogos Olímpicos de Sidney. Torna-se assim na primeira - e, até agora, única - campeã olímpica moçambicana, feito tanto mais notável quando o título foi alcançado numa das modalidades com maior projecção mediática dos jogos - o atletismo. Como acontecia com o caso parecido da checa Jarmila Kratochvílová, eu sempre tive uma simpatia por estas atletas feias e másculas, sem qualquer charme e por isso predestinadas a não cair nas simpatias do público. Apetece ironizar: não são patinhos feios, são patinhos muito feios. Acresce a essa minha simpatia intuitiva, que Maria de Lurdes é de Lurdes mas só com um u, e que, sobretudo, é moçambicana. Torci por ela como se fosse portuguesa.
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23 julho 2020
A BOMBA QUE EXPLODIU NA SEDE DA FRELIMO - A CENSURA DE ENTÃO E A OUTRA CENSURA DEPOIS DESSA
(Ainda) 23 de Julho de 1970. A sede da Frelimo em Dar-es-Salaam, capital da Tanzânia, é alvo de um atentado bombista que é devidamente noticiado pelo Diário de Lisboa do dia seguinte (acima, à esquerda). A imprensa nacional, que tinha grande dificuldade - visado pela censura - em noticiar o que acontecia em qualquer dos três teatros de operações de África - e, neste caso, estava a acontecer, como adiante veremos - teve nesta ocasião uma inusitada carta branca para poder noticiar o atentado que visou a sede da Frelimo. A ironia do momento é que, naquela precisa altura, estava a decorrer no norte de Moçambique a Operação Nó Górdio, uma acção militar de grande envergadura das forças armadas portuguesas desencadeada precisamente contra as forças da guerrilha da Frelimo. Sobre o detalhe do andamento dessa operação (que decorreu ao longo de todo o mês de Julho até princípios de Agosto) é que não se conseguia saber quase nada pelos jornais... Mas essa é a ironia de há 50 anos. A ironia actual é precisamente a inversa: se consultarmos as cronologias das guerras de África publicadas nos volumes a esse respeito, caso dos livros Guerra Colonial (2000) ou Os anos da guerra colonial (2010), em ambos, como se constata acima (ao centro), a bomba que rebentou na sede da Frelimo desapareceu da cronologia. Nunca existiu(?). Um desaparecimento tanto menos justificável quando, na cronologia mais recente (a do centro, à direita) os autores de ambas, Aniceto Afonso e Carlos Matos Gomes, resolveram dar destaque para esse dia 23 de Julho de 1970, a uma resolução do conselho de segurança da ONU a respeito... da África do Sul. Até cheguei a considerar possível que a explosão da dita bomba fosse afinal uma manobra de desinformação... não tivesse vindo a deparar-me com essa mesma notícia reportada num jornal ganês daquela época (o Daily Graphic - à direita). Vale a pena dizer que, o episódio, apesar de significativamente grave, não teve a importância de um atentado semelhante no ano anterior, em que uma encomenda armadilhada matara o dirigente supremo da organização, Eduardo Mondlane. A esta distância temporal terá mais significado a sua omissão em cronologias pejadas de tantos episódios de somenos, mais do que o facto de ela contar desfavoravelmente para a narrativa patriótica da organização guerrilheira. Cinquenta anos transcorridos, creio que já passou tempo suficiente para que se escreva a História daqueles três conflitos, cada um por si, mas sem os faccionalismos da propaganda da época, dos treze anos em que elas perduraram, e também sem os faccionalismos ideológicos das análises militares que se seguiram e que, comprovadamente como aqui se deduz, perduram há muito mais tempo que isso.
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05 julho 2020
A AUDIÊNCIA DE PAULO VI AOS LÍDERES DA FRELIMO, PAIGC E MPLA
5 de Julho de 1970. Os jornais do dia dão destaque a uma audiência que o Papa Paulo VI dera alguns dias antes (1 de Julho) a três líderes dos movimentos de libertação das colónias portuguesas: Amílcar Cabral do PAIGC, Agostinho Neto do MPLA e Marcelino dos Santos da Frelimo. Normalmente uma notícia deste cariz teria sido censurada, mas ela tornava-se indispensável para dar enquadramento à violenta nota emitida pelo ministério português dos Negócios Estrangeiros, condenando a iniciativa - e daí o hiato de tempo transcorrido entre a data da audiência e ela ter sido noticiada em Portugal. O gesto do Vaticano, acautelando o futuro da igreja católica naqueles três países, era tão compreensível quão previsível seria a reacção da parte portuguesa que se seguiu. Nesta altura dos acontecimentos, a atitude romana era a de tentar aplacar a irritação de Lisboa e, para isso, até mesmo os sacerdotes, que tanto admoestavam os fiéis escutando as confissões, por causa do pecado da mentira, não se eximiam de ser eles, por sua vez, a mentir grosseiramente: escrevia-se a rematar a notícia acima «Um prelado do círculo pontifical observou que os três dirigentes, que são católicos, tinham sido admitidos à audiência "na sua qualidade de cristãos". A audiência durou sete a oito minutos.» (Em primeiro lugar, nenhum dos três era conhecido por ser cristão praticante; em segundo lugar, Agostinho Neto nem era católico, a sua formação fora feita na missão protestante metodista dirigida por seu pai; em terceiro lugar, a audiência podia ter sido breve, mas chegara para que o Papa tivesse oferecido a cada um, um exemplar da sua encíclica ‘Populorum Progressio’)
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16 junho 2020
A INTRODUÇÃO DO METICAL EM MOÇAMBIQUE
16 de Junho de 1980. Se ontem se falou aqui de uma operação de substituição do dinheiro em circulação há 75 anos em França, hoje fala-se de uma operação idêntica ocorrida em Moçambique há 40. Só que, para além da operação de permuta, o país adoptou uma nova denominação para a sua moeda, metical, em substituição do escudo do período colonial. O processo estava concebido para tomar três dias (é o que se pode ler na notícia acima), mas irá prolongar-se por muito mais tempo, já que o estado moçambicano estava longe de possuir as capacidades logísticas para montar os milhares de locais de troca que seriam necessários para que os prazos fossem cumpridos. Só mesmo havendo um milagre*... Mas não era de nada disso, dos absurdos de esperar resultados de uma logística que não existia, que se falava nas notícias que por cá se publicavam a respeito do assunto. A ênfase ia inteira para a ideologia e a política, pelas notícias de cima ficava-se a saber que o metical era uma denominação utilizada outrora pelos mercadores árabes e que agora «reaparecia». Nas notícias de baixo, no último dia do prazo, o tom é de satisfação, porque a operação iria ser um«rude golpe para alguns colonos portugueses» que, porque estavam fora de Moçambique e porque as fronteiras permaneceriam encerradas durante o período autorizado de permuta, não poderiam trocar o dinheiro na sua posse pelos novos meticais. Nesse aspecto, não consigo encontrar resultados tangíveis sobre o resultado da operação de introdução do metical que fossem equivalentes aos 92% de sucesso do caso francês. Sobre aquilo que eu considero que seria a verdadeira notícia, o completo fiasco logístico, isso ficava reduzido a um pequeno parágrafo sobre «serem vistas longas bichas de pessoas a trocarem as notas», mas isso era no Maputo, a capital. Do Moçambique profundo, de Nampula ou do Niassa, não se sabia nada de como estava a correr a troca de escudos por meticais mas desconfio que, para o Diário de Lisboa, até era melhor que fosse assim...
* Recorde-se que no exemplo francês de ontem, para os 40 milhões de franceses espalhados por 550.000 km², houvera 34.000 postos em operação durante doze dias; no exemplo moçambicano eram 12 milhões de pessoas espalhadas por 800.000 km² e pretendiam-se obter os mesmos resultados em três dias... Claro que a economia francesa de 1945 estava muito mais monetarizada do que a moçambicana de 1980, mas, mesmo assim, teriam sido precisos muitos milhares de postos de troca guarnecidos por protecção armada para que os moçambicanos pudessem cambiar os escudos por meticais no prazo estabelecido... E, se os houvesse, a propaganda, como o fez a francesa, não teria perdida a oportunidade de se exibir.
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05 novembro 2019
A PURGA DA CÚPULA DA FRELIMO
5 de Novembro de 1969. Uma das páginas com o noticiário internacional desse dia mostrava uma notícia oriunda de um local de que não era muito frequente falar-se, nas publicações portuguesas: Dar-es-Salam, capital da Tanzânia, cidade onde se instalara a cúpula da FRELIMO, a organização nacionalista moçambicana que combatia desde 1964 a presença portuguesa em Moçambique. As notícias oriundas da capital do país vizinho davam conta do clímax das disputas internas naquela organização depois do assassinato - uma encomenda armadilhada, muito provavelmente enviada pelos serviços secretos portugueses - de Eduardo Mondlane, o dirigente máximo da organização até Fevereiro daquele ano. A conclusão da disputa - e havia alguma volúpia na forma como o assunto era noticiado pela parte portuguesa - anunciava-se sangrenta - e para isso não fora preciso a contribuição da PIDE. A facção derrotada e o seu líder Uria Simango necessitara de se acolher à protecção da polícia tanzaniana, por receio do que lhe pudesse acontecer às mãos da própria organização, que agora passara a ser liderada pela dupla Samora Machel (ala militar) e Marcelino dos Santos (ala política). Quanto ao futuro, ele virá comprovar quanto os receios de Uria Simango eram fundamentados. Numa data imprecisa entre 1977 e 1980, Uria Simango irá desaparecer, algures no Niassa, onde estava detido num campo de reeducação. As histórias das lutas internas das organização nacionalistas africanas que lutaram contra o colonialismo português são tão sórdidas quanto as lutas de gangues.
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03 agosto 2019
O MASSACRE DE PIDJIGUITI
3 de Agosto de 1959. Dá-se o massacre de trabalhadores portuários guineenses num dos cais do porto de Bissau que ficou a ser conhecido pelo Massacre do Pidjiguiti. A história do que aconteceu está por aí publicada em várias versões: desde uma publicada no Expresso e que mete um cão, até uma outra contada na primeira pessoa e que reduz o número de mortos a 16, uma fracção dos 40 a 70 (para além de uma centena de feridos!) que costumam constar das versões nacionalistas tornadas oficiais depois da independência. Pouco importa. O que é coincidente é que todos os nacionalismo africanos que entraram em conflito com o colonialismo português precisaram, por esta altura, de um acontecimento deste género que tivesse servido de estopim para a luta anti-colonial: foi este massacre do Pidjiguiti na Guiné Bissau (1959), havia sido o massacre de Batepá em São Tomé e Príncipe (1953), virá a ser o de Mueda em Moçambique (1960) ou o da Baixa do Cassange em Angola (1961). Foram explorados de forma muito semelhante para efeitos de propaganda: o contexto das reivindicações (normalmente laborais) é deturpado, o papel das organizações dirigentes é retocado, enquanto o número de vítimas é inflacionado.
Mas há um outro aspecto que contrasta com esta deturpação da verdade histórica e que justifica esta evocação simbólica de hoje a um desses massacres: é que não nos podemos esquecer que estes episódios violentos terão sido, mais do que provavelmente, apenas os publicitados de uma longa lista deles, desconhecidos, que forçosamente acompanharam a implantação do regime colonial português nas suas províncias africanas ao longo de muitas décadas. E é em memória de todas essas prepotências desconhecidas que agora ainda faz sentido falarmos do assunto, apesar dos exageros e de tudo o resto.
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25 junho 2019
O AFUNDAMENTO DO BATELÃO NO ZAMBEZE
25 de Junho de 1969. Por uma vez excepcional desde 1961, os títulos de primeira página dos jornais vão para um acontecimento no ultramar português e directamente relacionado com as guerras que aí se travavam. Um batelão, que tradicionalmente fazia o transporte entre as duas margens do Zambeze e que na ocasião transportava um destacamento militar, afundara-se por causas que ainda hoje estão por esclarecer. 101 militares e 5 membros da tripulação haviam-se afogado. O desastre representava uma significativa perda de vidas humanas, muitas mais do que qualquer dos pequenos episódios que caracterizavam a guerra, episódios esses que só apareciam nos jornais em pequenas notícias, através dos comunicados oficiais.
Mas, para quem acompanhasse as notícias, a comparação entre aquilo que se noticiava (ou podia ser noticiado...) a respeito destas guerras que envolviam Portugal, e o que era noticiado simultaneamente acerca da guerra no Vietname, não deixava de ser intrigante, porque a lógica parecia ser precisamente a oposta. O destaque do que nos chegava do Vietname via América ia para os combates, ainda que eles por vezes fossem pouco significativos à escala da dimensão do conflito, enquanto os acidentes, ainda que provocassem centenas de vítimas, eram tratados como notícias colaterais. Connosco era o contrário. Deixá-lo-ia de o ser, daí por um ano, com Kaúlza de Arriaga.
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18 abril 2019
MARCELO CAETANO EM LOURENÇO MARQUES
18 de Abril de 1969. No decurso da visita que estava a efectuar ao Ultramar, Marcelo Caetano estava em Lourenço Marques (actual Maputo). Eu também lá estava. Foi um dia muito concorrido para ir ver o presidente do Conselho conforme mostra o filme amador acima. Eu também tinha uma daquelas bandeirinhas que se entrevêm. E recordo-me que, à passagem do carro que transportava este Marcelo, ele era acompanhado por uma turba que o acompanhava em passo de corrida, com um daqueles entusiasmos festivos sem qualquer causa aparente, gozar a festa pela festa, uma atitude que só os laurentinos pareciam ter.
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24 dezembro 2018
O ACIDENTE DE ALMEIDA SANTOS
Há cinquenta anos, numa das suas páginas interiores, onde se noticiavam os acontecimentos locais, o Diário de Lisboa dava conta de um «choque de automóveis ocorrido próximo da Polana, em Lourenço Marques» (Moçambique), de onde saíra bastante ferido o futuro dirigente socialista António Almeida Santos, que fora suturado com «mais de duzentos pontos no crânio e nas faces». Uma indicação que o advogado oposicionista era uma figura local suficientemente relevante para que o seu acidente se tornasse numa notícia na metrópole.
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