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19 novembro 2019

O SENADO AMERICANO RECUSA UMA PRIMEIRA PROPOSTA DE RATIFICAÇÃO DO TRATADO DE VERSAILLES

19 de Novembro de 1919. Por uma primeira vez o Tratado de Versailles é discutido no Senado dos Estados Unidos. O Senado (96 membros) possuía uma maioria republicana (enquanto o presidente Woodrow Wilson era democrata) e os senadores distribuíam-se, grosso modo, por três grupos: os que estavam dispostos a ratificar o Tratado (quase todos democratas e sintonizados com o presidente), os denominados irreconciliáveis (sobretudo republicanos mas também alguns democratas do Sul), que nunca votariam favoravelmente a sua ratificação, e os reservacionistas moderados (todos republicanos), um bloco pequeno (9 senadores) mas influente, que se dispunham a vir a ratificar o Tratado de Versailles desde que a adesão norte-americana contivesse algumas cláusulas de reserva. Aquela ratificação iria necessitar de um consenso, já que precisaria de uma maioria qualificada de ⅔ (64 senadores), só que Woodrow Wilson, que participara pessoalmente em Paris em muitos aspectos da elaboração do Tratado, mostrava-se indisponível para contemporizar com a facção dos reservacionistas, encabeçada pelo decano do Senado, o senador Henry Cabot Lodge do Massachusetts. Foi a proposta deste último, contendo quatorze reservas ao Tratado de Versailles que foi votada, e que foi derrotada há cem anos, pela oposição combinada dos democratas alinhados com o presidente Wilson com os irreconciliáveis. Foi uma vitória pírrica do presidente. Preso à cama em consequência de uma apoplexia que o deixara paralisado do lado esquerdo, fica a dúvida se Woodrow Wilson estaria na posse inteira das suas faculdades quando se engajou neste enfrentamento político do qual não podia esperar resultados positivos. No final, os Estados Unidos não ratificaram o Tratado de Versailles, nem na versão linear desejada por Wilson, nem na versão com reservas apresentada por Lodge.

28 junho 2019

O CENTENÁRIO DA ASSINATURA DO TRATADO DE VERSAILLES

28 de Junho de 1919. Na mesma galeria dos espelhos que assistira à proclamação do Império alemão em 1871, mas agora propositadamente remodelada para o efeito (acima), tem lugar, a partir das 3 da tarde, a cerimónia da assinatura do Tratado que punha fim ao conflito entre as potências vencedoras e a Alemanha. A dias da cerimónia e perante a relutância do governo alemão em assinar o documento, as potências aliadas endereçaram-lhe um ultimato. Os alemães assinaram resignados, vencidos mas não convencidos, e dispostos a sabotar todas aquelas cláusulas injustas a que se pudessem furtar.

Mas as atenções da ocasião foram todas para os signatários vencedores (abaixo). Mas trata-se de uma excelente ocasião, para mais carregada de simbolismo, para recordar que o jornalismo é apenas... jornalismo, e que os jornalistas...

21 junho 2019

O AUTO-AFUNDAMENTO DELIBERADO DA FROTA ALEMÃ INTERNADA EM SCAPA FLOW

21 de Junho de 1919. Em retaliação contra as condições que consideravam draconianas impostas pelo Tratado de Versalhes, as tripulações dos navios de marinha de guerra alemã, a Hochseeflotte, que haviam permanecido internadas na base escocesa de Scapa Flow desde Novembro de 1918, à espera de decisão quanto ao seu destino, afundaram deliberada e concertadamente os seus navios. Os esforços dos britânicos para o impedir não tiveram grande sucesso: 52 das 74 embarcações foram afundadas. E por essa vez, as tripulações da Hochseeflotte, que se haviam anteriormente notabilizado pelo seu comportamento insurrecto, corresponderam disciplinada e patrioticamente às ordens do almirante Ludwig von Reuter.

16 junho 2019

OS ALIADOS ENDEREÇAM UM ULTIMATO À ALEMANHA

Versailles, 1919. Acima vemos Clemenceau, com a cartola levantada, Wilson, preparando-se para a levantar, e Lloyd George, que, de sorriso malandro e agarrado à bengala, parece não fazer tenção de saudar os presentes como os seus homólogos. Apesar da cortesia sugerida pela imagem, a 16 de Junho de 1919, há precisamente cem anos, os Aliados endereçaram um ultimato à Alemanha: em Berlim tinham cinco dias para se decidirem a aceitar incondicionalmente os termos do Tratado que viera a ser negociado até aí. Negociado sobretudo entre os vencedores, entenda-se. Se Berlim não o fizesse, os Aliados ameaçavam revogar as condições de armistício que se mantinham desde 11 de Novembro de 1918, o que constituía uma forma eufemística e rebuscada de invocar o reinício das operações militares e da ocupação da Alemanha, num momento em que a Alemanha se desmoronara militarmente por dentro. Mas mesmo desmoronada, as reacções populares na Alemanha sobre o assunto eram as que se podem deduzir pela fotografia abaixo, de uma manifestação de protesto diante do Reichstag (de uma certa forma irónica, muito idênticas às que os gregos faziam aqui há uns poucos de anos na praça Sintagma de Atenas). Mas, acompanhado da ameaça expressa que a situação só podia piorar, a aceitação do Tratado lá acabou por passar com uma votação de 237 votos favoráveis versus 138. O Tratado foi assinado dia 28 de Junho, mas o que nos interessa aqui são os bastidores da História.
ADENDA: Nem de propósito e a coincidir com o centenário do ultimato, numa daquelas coincidências que torna a opinião expressa ainda mais ridícula, temos um dos mais desastrados opinadores das colunas de opinião da imprensa portuguesa ((1),(2),(3)), a desprezar os ensinamentos do passado, para reencenar a actualidade, agora com Londres no lugar que há cem anos era de Berlim. A estes opinadores a História não ensina nada, mas creio que eles também não andam nisto para aprender, muito menos ensinar, resume-se a uma questão, como escrevia ontem João Miguel Tavares, de nos fornecer «chaves de interpretação»... embora desconfie que as «portas» onde essas «fechaduras» estão aplicadas, guardam salas onde o conhecimento não é a preocupação principal.  

18 janeiro 2019

ABERTURA DA CONFERÊNCIA DE PAZ DE PARIS

18 de Janeiro de 1919. É o dia da abertura da grande Conferência da Paz que, em Paris, se propunha criar a nova Ordem Internacional que se seguiria ao fim da Grande Guerra. Para o efeito, o próprio presidente dos Estados Unidos, Woodrow Wilson, cometera a proeza inédita de se deslocar pessoalmente à Europa para as conversações com os outros representantes das potências vencedoras. Na capa do livro acima, vêmo-lo à direita, acompanhado do anfitrião francês Georges Clémenceau ao centro e do primeiro-ministro britânico David Lloyd George à esquerda. As personagens principais estão de cartola, as secundárias de palhinha. O livro em questão, intitulado Paris 1919 - Seis Meses que Mudaram o Mundo é um excelente livro para nos explicar aquilo que aconteceu durante a Conferência. Está muito bem escrito e estruturado, recebeu por isso o Prémio Samuel Johnson em 2002 (é considerado o mais prestigiado prémio literário britânico para obras de não ficção). O único óbice é que não está traduzido - pelo menos para português europeu. E é nestas ocasiões que apetece descarregar a nossa ira frustrada:
a) Nos críticos literários domésticos que se especializaram em não perceber um avo de obras de não ficção.
b) Nas editoras portuguesas, por não se darem ao trabalho de traduzir e editar em tempo estas obras de referência (para vergonha, a versão turca de Paris 1919)
c) Nas mesmas editoras portuguesas, porque, quando finalmente editam uma dessas obras, ao fim de uns vinte anos, fazem uma promoção que apenas as menoriza.

25 novembro 2018

A ÚLTIMA RENDIÇÃO DA GRANDE GUERRA

25 de Novembro de 1918. Mbala é, ainda hoje, uma remota vila do nordeste da Zâmbia. Contava com 17.000 habitantes em 2000. Situada a 22 km da extremidade meridional do lago Tanganica, mas a 900 metros acima dele, e por isso colocada a uns salubres 1.670 metros de altitude, a povoação passara a ser a sede da administração colonial britânica naquela região desde 1893, quando fora rebatizada com o nome de Abercorn (Escócia). É por esse nome que a podem encontrar assinalada por uma circunferência alaranjada no mapa abaixo. Foi nesse sítio que há precisamente cem anos se desenrolaram as últimas cerimónias que punham fim à Primeira Guerra Mundial. A coluna alemã comandada pelo coronel von Lettow-Vorbeck (que já aqui baptizei de «a raposa da savana») depunha finalmente as armas depois de terem sido informados da assinatura do armistício que ocorrera duas semanas antes. As imagens que existem da ocasião solene foram pintadas por um artista local (acima), uma obra muito menos ingénua do que à primeira vista se possa pensar. Vencedores à direita, vencidos à esquerda, veja-se a diferença das árvores de cada lado ou o facto do primeiro ter comparecido de automóvel e o segundo montado a cavalo (na realidade, os britânicos enviaram uma viatura que transportasse comodamente o vencido). De uma certa forma, esta cerimónia perdida no meio de África é que põe fim à Grande Guerra. Só com a assinatura de von Lettow-Vorbeck é que deixará de haver alemães em armas por uma causa imperial, causa essa cujo imperador já há umas semanas perdera o poder...

23 novembro 2018

PHILIPPE PÉTAIN, O HERÓI E O VILÃO

23 de Novembro de 1918. Há cem anos e recém terminada a Primeira Guerra Mundial, uma França vencedora e reconhecida, elevava Philippe Pétain à condição de Marechal de França. Precisamente vinte e cinco anos depois, a 23 de Novembro de 1943 (acima), essa mesma França, agora ocupada pelos alemães, assistia aos esforços das autoridades encabeçadas por esse mesmo Philippe Pétain para tornar aceitável um regime de colaboração em que os franceses eram a parte subordinada. O prestígio de Pétain era um elemento incontornável desse esforço. E cem anos depois (abaixo), Philippe Pétain continua a ser essa personagem histórica complicada, herói do primeiro dos grandes conflitos mundiais do século XX e vilão do outro. A História é feita por homens e escrita por outros homens, mas é evidente que, para a preservação da memória, tanto a Política quanto a Informação não precisam deles complexos...

13 novembro 2018

A OCUPAÇÃO DE CONSTANTINOPLA

13 de Novembro de 1918. Desembarque dos primeiros contingentes aliados em Constantinopla, a capital do Império otomano. Os britânicos estão em franca maioria (2.616 efectivos - acima), mas franceses (540 - abaixo) e italianos (470 - mais abaixo) também se quiseram mostrar presentes. As tropas de ocupação chegarão a ser 50.000. Há cem anos, o momento não podia deixar de despertar evocações simbólicas - uma espécie de desforra - referente à data de 29 de Maio de 1453, 465 anos antes, dia em que a cidade fora conquistada pelos otomanos aos bizantinos.
Mas essa era apenas parte da História, e a parte da História que convinha evocar para aquela ocasião. Porque em 13 de Abril de 1204, a 714 anos de distância, portanto, já a mesma Constantinopla fora conquistada por um exército de cruzados vindo da Europa ocidental, um exército cuja composição - descontando os alemães, desta vez ausentes - muito se assemelhava à dos contingentes que há cem anos se exibiam, desfilando, perante os habitantes da milenar cidade imperial. A rematar, registe-se a discriminação: nem Berlim, nem Viena ou Budapeste virão a ser ocupadas...

12 novembro 2018

A GREVE GERAL NA SUÍÇA E A «SEMANA VERMELHA» NA HOLANDA

12 de Novembro de 1918. Na Suíça, um comité revolucionário convoca uma greve geral. A questão peculiar neste evocação não é a greve geral. É o facto de a greve ter ocorrido na Suíça e logo no dia seguinte à assinatura do armistício que pusera fim à Grande Guerra. A Suíça fora um país que permanecera neutral, não existia a comoção da derrota que costuma servir de explicação histórica aos movimentos revolucionários que eclodiram simultaneamente por toda a Alemanha. E contudo, a sua classe operária, especialmente nos cantões alemães reagiu desta forma, abstraindo-se das notícias da conclusão do conflito. Cerca de 250.000 trabalhadores aderiram à paralisação, um dos sectores mais afectados foi o ferroviário, um sector crucial naquelas circunstâncias em que a agilidade dos abastecimentos alimentares era uma pedra-de-toque da disposição das opiniões públicas. Mas note-se também, e porque a Suíça se mantivera afastada dos combates, que os militares não haviam sofrido o desgaste que ocorrera entre os beligerantes. As imagens oficiais dos acontecimentos transmitem-nos uma imagem de força, com 100.000 soldados nas ruas e nos pontos nevrálgicos (acima e abaixo). O desfecho acabou por ser favorável às autoridades federais. A greve durou 48 horas. Depois dela, mais de 3.500 grevistas foram presentes a tribunal militar, uma apreciável percentagem deles empregados dos caminhos de ferro, embora menos de 5% (147) fossem condenados.
Nesse mesmo dia 12 de Novembro e noutro país que também permanecera neutral, os Países Baixos (Holanda), o primeiro-ministro Ruijs de Beerenbrouck (abaixo, à direita) tentava amenizar o ambiente tenso que o país atravessava, com o anúncio do aumento da quantidade da ração de pão de 200 para 280 gramas/dia. Na Holanda vivia-se então a Semana Vermelha (De Roode Week no original - 9 a 14 de Novembro de 1918), uma tentativa dos socialistas locais (22% do parlamento), dirigidos por Pieter Jelles Troelstra (abaixo, à esquerda), para desencadearem uma acção insurrecional, ao bom jeito do que acontecera no ano anterior na Rússia. Também na Holanda, um exército que não sofrera o desgaste dos combates foi utilizado para enfrentar os revolucionários que, afinal, eram bem menos do que se pensara dos dois lados. Num daqueles combates pela memória como os acontecimentos vêm a ser evocados no futuro, a Semana Vermelha foi rebaptizada de Erro de Troelstra (Vergissing van Troelstra), como se tudo não tivesse passado de um erro de avaliação do líder socialista holandês, o que as evidências sugerem não ter sido bem o caso... Estes dois casos, que vemos muito raramente referidos, ambos ocorridos em países que haviam permanecido neutrais, mostram claramente que o ambiente social tenso que se vivia na Europa no Outono de 1918 transbordava dos países beligerantes para o resto do continente.

10 novembro 2018

O KAISER REFUGIA-SE NA HOLANDA

10 de Novembro de 1918. Às 06H00 da manhãzinha de há cem anos Guilherme II, Imperador da Alemanha e Rei da Prússia, apresentava-se na estação de comboios de Eisden (Limburgo), na fronteira da Bélgica com a Holanda. Até aí, nas últimas semanas, aquele que era designado correntemente por o Kaiser, estivera instalado em Spa, cidade do Leste da Bélgica onde se instalara o OHL, o Grande Quartel General dos exércitos alemães. Fora aí que, no dia anterior, recebera a novidade, veiculada pelos jornais berlinenses, que ele próprio havia abdicado... (veja-se abaixo*) A situação de Guilherme tornara-se periclitante: perdera o apoio político na capital, prosseguiam as negociações para a rendição da Alemanha (onde não seria de excluir que, entre as cláusulas, se exigisse a sua extradição) e a progressão dos exércitos aliados mantinha-se inexorável, o que, caso os combates prosseguissem, lhe daria apenas um punhado de semanas até que eles alcançassem Spa. Entre a sua comitiva concluiu-se que a melhor solução naquelas circunstâncias seria refugiar-se num país neutral. E o país neutral mais próximo era mesmo a Holanda. E é assim que vamos encontrar numa fria manhã de Outono o outrora todo poderoso Imperador a conter a sua impaciência calcorreando o cais de uma obscura estação ferroviária, enquanto as autoridades holandesas da cidade mais próxima (Maastricht) entravam em contacto com o governo holandês em Haia. Ainda nesse dia, a autorização para que o Kaiser se refugiasse na Holanda acabou por ser concedida. Cortesias entre cabeças coroadas, a rainha Guilhermina dos Países Baixos emprestou-lhe o castelo de Amerongen para se instalar, castelo onde, passadas algumas semanas, a 28 de Novembro de 1918, Guilherme acabou por anunciar o acto da sua abdicação, desta vez num documento redigido pelo seu punho...
* para os menos habilitados a decifrar as letras em estilo gótico, no cabeçalho pode ler-se Abdankung des Kaisers - traduzido: abdicação do imperador

04 novembro 2018

A MORTE DE WILFRED OWEN

4 de Novembro de 1918. Há cem anos morria em combate o tenente Wilfred Owen (1893-1918) durante a Batalha do Sambre. A Grande Guerra estava a uma semana do seu término, mas isso não sabiam ele e os homens do seu pelotão que nesse dia se dispuseram a atravessar o canal que liga o Sambre ao Oise sob fogo inimigo. O tenente Owen ficou mais conhecido como poeta de guerra. Já aqui publiquei um poema seu na versão original. Hoje, atrevi-me a traduzi-lo.


Encolhidos, quais mendigos velhos envergando sacos,
Arrastando os pés, tossindo compulsivamente, atravessamos o lamaçal,
Virando costas à luz bruxuleante dos sinalizadores
E começámos a caminhada para a retaguarda distante.
Homens marchavam adormecidos. Muitos haviam perdido as suas botas
Mas lá continuavam, pés em sangue. Tudo seguia alquebrado; cego;
Bêbado de fadiga; surdo e desinteressado para o rugido
Dos obuses de gás que discretamente explodiam lá para trás.

Gás! GÁS! Rápido, malta! – O alívio de conseguir ajustar, atabalhoadamente, aquelas máscaras desajeitadas a tempo;
Mas alguém urrava e caindo,
Debatia-se como se estivesse em chamas ou sob cal viva...
Embaçado, através das enevoadas lentes da máscara e de uma grossa luz verde;
Como se estivesse debaixo de um mar verde, vi-o a afogar-se.

Em todos os meus sonhos e diante de meus olhos impotentes,
Ele atira-se a mim, sorvendo o ar, asfixiando-se, afogando-se.

Se, em algum sonho sufocante, também pudesses ali estar
Por detrás da carroça em que o arremessamos.
E observasses os olhos brancos contorcidos na sua face,
A sua cara dependurada, como a de um demónio que se cansara de pecar.
Se pudesses ouvir, a cada solavanco, o sangue
Gargarejar espumoso dos seus pulmões corrompidos,
Obsceno como um cancro, amargo como a bílis regurgitada que provoca feridas incuráveis em línguas que não têm culpa alguma.
Meu amigo, não irias, com tão grande zelo, contar
A crianças ansiosas por alguma glória desesperada,
A velha Mentira: Dulce et decorum est pro patria mori.

03 novembro 2018

O ARMISTÍCIO DE VILLA GIUSTI

3 de Novembro de 1918. Se a Itália foi a última das grandes potências europeias a entrar na Grande Guerra, também se vai destacar por ser a primeira delas a sair dela. Há precisamente cem anos, numa Vila dos arredores de Pádua, os italianos, devidamente acompanhados dos seus aliados, assinaram um armistício contra o adversário que verdadeiramente lhes interessava, o Império Austro-Húngaro, a passar então por um processo acelerado de desagregação nas suas entidades nacionais constitutivas. O armistício foi assinado um pouco depois das três da tarde embora o quadro abaixo, evocativo da cerimónia, mostra o acto a ter lugar ao redor de uma mesa muito maior do que a verdadeira e sob a artificialidade da luz eléctrica, sugestivo de complicadas e prolongadas negociações que, na verdade, não ocorreram - bastou aos italianos a ameaça de romperem as negociações para que a aristocracia austro-húngara se precipitasse a assinar, na esperança de ainda salvar o que pudessem do seu império.

29 outubro 2018

O PRINCÍPIO DO GRANDE MOTIM DA «HOCHSEEFLOTTE»

29 de Outubro de 1918. Enquanto os acontecimentos se precipitavam entre os exércitos nas frentes de combate e entre os políticos nas capitais europeias, nos portos do norte da Alemanha e entre marinheiros, o Almirante Franz von Hipper, o herói alemão da Batalha da Jutlândia, dava ordens para que os 23 grandes navios da Frota de Alto Mar (Hochseeflotte) que comandava, se preparassem para levantar ferro. Nos conveses fervilhavam os boatos sobre as intenções do comando: a opinião de uns era que se preparava uma grande confrontação decisiva com a Royal Navy; outros, não desmentindo essa opinião, compunham a suposição com outra, a de que o mítico Almirante Tirpitz - ou mesmo até o próprio Kaiser em pessoa - se preparariam para comandar pessoalmente a Frota naquilo que seria um apropriado Götterdämmerung! A verdade era mais prosaica, o plano era o de travar uma última batalha naval, mas apenas para tentar melhorar a posição negocial da Alemanha perante uma derrota mais do que antecipada. Seria a salvação da Honra da Hochseeflotte que, desde a Batalha de Jutlândia de 1916, em nada mais contribuíra para o desfecho da Guerra. Mas isso era o que pensavam os oficiais. Nos conveses cá de baixo, pelo contrário, os marinheiros antecipavam que a missão poderia tornar-se num desastre pessoal para muitos deles e para mais, por uma causa que parecia perder sentido a cada dia que passava. E cada um dos grandes navios da Frota, com tripulações de mais de um milhar de homens com funções especializadas, eram locais propícios para o fervilhar de muitos boatos, uma grande fábrica navegante, propícia para a acção revolucionária...
Antes da alvorada de 29 de Outubro de 1918, muitos sinais de luzes clandestinos se trocaram entre as silhuetas negras dos couraçados e cruzadores de batalha ancorados na baía de Jade (Jadebusen). As tripulações, descontentes, procuravam informar-se do estado de espírito das suas congéneres dos outros navios, consultando-se quanto às intenções do comando e quanto às acções a adoptar para as contrariar. Quando o Almirante Hipper convocou os capitães dos navios para as 08H00 no seu navio almirante, o SMS Baden, em vários navios os marinheiros que deviam tripular as lanchas que transportariam o respectivo capitão não se apresentaram ao serviço. Tiveram que ser forçados. A meio da manhã (quando a partida da Frota estaria prevista para o meio-dia), os pequenos actos de resistência passiva haviam já dado lugar à amotinação assumida. No SMS Thüringen, no SMS Helgoland e no SMS Markgraf, os fogueiros ameaçaram apagar as caldeiras se os respectivos navios fossem para o mar. Hipper teve que se resignar a adiar a partida, usando o pretexto do nevoeiro, enquanto aguardava que a situação se acalmasse. Mas só piorou. Descobriu-se que vários fogueiros dos cruzadores SMS Derfflinger e do SMS Von der Tann se haviam esquecido de regressar a bordo. E, ao longo do dia, as tripulações de vários outros navios da Frota mostraram-se contaminadas: SMS Kaiserin, SMS Regensburg, SMS König ou SMS Kronprinz Wilhelm.
São momentos penosos de contar e que mancham o historial de qualquer marinha de guerra, a que no caso da Marinha Imperial Alemã (Kaiserliche Marine), acresce a reputação de disciplina e obediência que os próprios alemães gostam de associar a si próprios. Praticamente desconhecida, vale a pena acrescentar que esta situação de amotinação só piorou, apesar do compasso de espera de 24 horas dado por Hipper. Conte-se, apenas como exemplo, que, logo à alvorada do dia seguinte, a tripulação do SMS Thüringen se recusou a acatar de novo as ordens de levantar ferro, que os cabrestantes se avariou miraculosamente (o que impedia a manobra das âncoras) e que logo depois foi convocada uma reunião (ilegal) de marinheiros para um dos conveses inferiores do navio (nos tempos do nosso PREC designá-la-íamos por um plenário de marinheiros) onde seriam debatidas novas medidas de luta a adoptar. A escalada iria culminar com um enorme motim colectivo no porto de Kiel em 1 de Novembro. Mas essa é toda uma outra história...

28 outubro 2018

NEM SÓ COM CRAVOS SE FAZEM REVOLUÇÕES, HOUVE QUEM AS FIZESSE COM CRISÂNTEMOS

28 de Outubro de 1918. Se o 25 de Abril de 1974 de Lisboa ficou recordado pelos seus cravos, vale a pena evocar como, há cem anos e nas ruas de Budapeste, se iniciou um outro pronunciamento militar que também se iria caracterizar pelas flores ostentadas pelos soldados que nele participaram. Só que, como se estava no Outono, as flores escolhidas foram os crisântemos. O pronunciamento militar ocorre no quadro de uma cada vez mais previsível derrota das Potências Centrais na Primeira Guerra Mundial. E nas várias capitais e entre as nacionalidades do Império Austro-Húngaro começa o posicionamento político antecipando a desagregação daquela entidade prevista pelos quatorze pontos do presidente Wilson (nesse mesmo dia, em Praga, os checos proclamam a independência de um novo país chamado Checoslováquia).
Os húngaros haviam sido uma das nacionalidades privilegiadas sob o Império mas agora procuravam dissociar-se dele aquando da derrota. Organizações com designações bastante abrangentes, mas com escassa representatividade popular (em Budapeste era o Conselho Nacional Húngaro, em Praga chamava-se Conselho Nacional Checoslovaco), emitiam proclamações assumindo as rédeas de uma situação política fluída. Mas, mais importante para a imposição dessas vontades ditas revolucionárias era a sensação de saturação que grassava nas fileiras depois de quatro anos de guerra. Em Budapeste e em Praga em 1918, em Lisboa em 1974 ou em Petrogrado em 1917, não havia praticamente ninguém que defendesse o status quo e é por isso que, em alguns desses sítios, os revoltosos puderam embelezar-se, tal como as suas armas, com flores.

26 outubro 2018

A QUEDA DE LUDENDORFF

26 de Outubro de 1918. O General Erich Ludendorff é substituído no seu cargo de Erster Generalquartiermeister pelo General Wilhelm Groener. Desde 1916 que esse cargo anónimo de Primeiro Quartel-mestre-general se tornara no responsável máximo pela condução da guerra do lado alemão, por detrás das figuras decorativas do Imperador Guilherme II e do Chefe de Estado Maior General, o Marechal Paul von Hindenburg. Nos dias precedentes, Ludendorff entrara em conflito com estas duas figuras, ao confrontá-las com a sua opinião de que a Alemanha chegara ao fim das suas capacidades de resistência militar e que devia solicitar um armistício. Guilherme e Hindenburg preferiram substituir o requerente, desconhecedores do facto de que essa era também a opinião de Groener. Do ponto de vista militar e político, e assistindo-se a uma retirada geral dos exércitos alemães, era preferível que a Alemanha obtivesse um armistício antes do seu território ser invadido.

14 outubro 2018

O ÚLTIMO COMBATE DO NRP AUGUSTO DE CASTILHO

14 de Outubro de 1918. A Grande Guerra está a menos de um mês do seu fim mas disso não sabia a tripulação do NRP Augusto de Castilho (acima) quando recebeu a missão de escoltar o navio San Miguel, que transportava 54 tripulantes, 206 passageiros, assim como várias toneladas de carga e que, tendo partido originalmente de Lisboa, acabara de escalar o Funchal (Madeira), prosseguindo agora a viagem até Ponta Delgada nos Açores. Como se percebe pela silhueta, o Augusto de Castilho não era um verdadeiro navio de guerra, concebido de origem para o efeito, apenas um arrastão armado (um naval trawler para empregar a terminologia de referência da Royal Navy),...
...uma antiga embarcação de pesca que fora reconvertida para uso militar através da colocação de peças de artilharia. Neste caso concreto do Augusto de Castilho, haviam sido duas: uma de 65 mm à proa e outra de 47 mm na ré. A comandá-lo encontrava-se o 1º Tenente Carvalho Araújo. Pelo raiar da aurora de há cem anos, os dois navios foram detectados pelo submarino alemão SM U-139, comandado por um veterano dos U-Boot, o capitão-tenente Lothar von Arnauld de la Perière. Dispondo de duas peças de 150 mm, o poder de fogo do submarino, mesmo à superfície e não fazendo uso dos torpedos, era incomensuravelmente superior ao da embarcação armada portuguesa.
Os alemães começaram a fazer fogo às 06H15. O que os navios portugueses podiam fazer eram apenas acções evasivas, nomeadamente criar uma cortina de fumo artificial que lhes permitisse a fuga enquanto o Augusto de Castilho atraía para si as atenções disparando a peça situada à ré. Em desespero de causa, o capitão Carvalho Araújo acabou por ordenar que o seu navio desse meia volta, aproando ao submarino, num sacrifício consciente, para que se aumentasse as possibilidades de fuga do San Miguel. A acção durou umas duas horas ao fim das quais o NRP Augusto de Castilho fora seriamente danificado, o seu capitão fora mortalmente atingido mas o San Miguel conseguira fugir.
Na perspectiva portuguesa tratou-se de um feito de armas que enobrece a sua Marinha de Guerra, o comandante Carvalho Araújo foi condecorado e promovido a título póstumo. Mas do ponto de vista da Kaiserliche Marine, há qualquer coisa de perturbador na banalidade como aquele assunto terá sido encarado pelos veteranos dos U-Boot, ao descobrir-se que uma parte da acção esteve a ser filmada(!). Ora, isto de transportar uma pesada máquina de filmar para o espaço confinado de um submarino e depois instalá-la na ponte, durante um combate, não deve ter sido tarefa simples. Mas, para o terem feito, é porque não devem ter considerado o combate muito renhido...

05 outubro 2018

O CENTENÁRIO DA MORTE DE ROLAND GARROS

5 de Outubro de 1918. Morte em combate aéreo, sobre a Frente Ocidental, do piloto francês Roland Garros (1888-1918). No dia seguinte teria sido o seu 30º aniversário... Desde o principio da Guerra que se percebera que Garros teria sido um melhor objecto de propaganda do que um efectivo piloto de combate como ele desejou ser. Já em 1914, ele seria uma personagem a preservar do desgaste da frente de combate, porque adquirira uma reputação como aviador de referência, ao estabelecer dois records de altitude em 1911 e 1912 e, sobretudo, quando em 1913 fora o primeiro aviador a fazer a ligação entre o Sul de França e o Norte da África francesa (foto acima). Foi um aviador dos primeiros meses de guerra, preocupado com a questão de equipar as aeronaves com uma potência de fogo que lhes permitisse abater as suas congéneres inimigas e, sobretudo, a questão mais prática de conseguir que essa potência de fogo se pudesse exprimir sem danificar os hélices do seu próprio avião.
Roland Garros encontrou uma solução adaptada para o problema, mas foi capturado cedo demais (18 de Abril de 1915) para capitalizar militarmente - em aviões inimigos abatidos - com o seu dispositivo. A solução técnica que acabou por prevalecer foi uma outra, completamente distinta da de Garros. Este ficou prisioneiro por quase três anos, até conseguir evadir-se em Fevereiro de 1918 em companhia de um outro piloto aviador, Anselme Marchal (1882-1921). Na fotografia acima podemos vê-los aos dois a serem condecorados em 1918 por essa proeza. Mas a guerra aérea a que Roland Garros pretendia agora novamente regressar já não tinha nada a ver com aquela em que ele participara três anos antes. Mais do que a questão do poder de fogo que tanto o preocupara em 1915, o que mais evoluíra nos anos em que estivera prisioneiro fora o design e a manobrabilidade dos aviões e a potência dos motores.
Roland Garros teve que reaprender a pilotar as novas aeronaves. Também as tácticas de combate haviam evoluído muito. Num terceiro aspecto, esse mais pessoal, Garros teve que passar a usar óculos, por causa da miopia. Mas, continuava a ser uma personagem de referência da aviação francesa, a que se acrescentava o feito da evasão, como se percebe pela capa acima da revista ilustrada Le Miroir de 1918 em que aparece em conjunto com o ás dos ases francês René Fonck (1894-1953). Em 2 de Outubro de 1918, quando os exércitos alemães já estavam a ceder praticamente em toda a Frente Ocidental, Roland Garros ainda conseguiu alcançar a sua última vitória aérea confirmada. Há precisamente cem anos, acabou-se-lhe a sorte. Actualmente, o nome de Roland Garros continua a possuir ressonância, mas por causa do nome do estádio onde se disputam as partidas do Open de França em ténis.
Em 1969, a revista juvenil Tintin, publicava uma pequena história a seu respeito, mas concentrando-se no episódio das suas pesquisas para que uma metralhadora pudesse ser disparada sem danificar os hélices do avião.

04 outubro 2018

O AFUNDAMENTO DO HIRANO MARU

4 de Outubro de 1918. Pela madrugada de há cem anos, cerca das 05H30 da manhã e a cerca de 200 milhas náuticas a Sul da Irlanda o navio japonês Hirano Maru (acima) foi atacado e afundado por um submarino alemão quando iniciava uma viagem que, previstamente, ligaria Liverpool a Yokohama. O vento soprava forte, o mar estava correspondentemente agitado, e o navio japonês foi torpedeado a uma hora matutina, quando a maioria dos passageiros e tripulação estariam a dormir. Das 320 pessoas que seguiam a bordo, apenas 28 se salvaram. O submarino atacante era o SM UB-91 (ficha abaixo), comandado pelo capitão-tenente Wolf-Hans Hertwig. A Primeira Guerra Mundial registou milhares de episódios como o descrito, cerca de uns 6.000 e isso contando apenas os navios que foram afundados pelas Potências Centrais. O que este episódio merece de referência para aqui o destacar prende-se com a nacionalidade dos navios envolvidos: não sendo únicas, foram pelo menos muito raras as ocasiões em que submarinos alemães afundaram navios japoneses. E, com o benefício de conhecermos o futuro, somos capazes de compreender a ironia destas situações, considerando a reversão das alianças que terão lugar no conflito mundial seguinte.

20 setembro 2018

O ATAQUE DOS HUSSARDOS A NAZARÉ

«Cerca das 05H30 da manhã de 20 de Setembro de 1918, os Hussardos de Gloucestershire, a guarda avançada da 13ª brigada da 5ª divisão de Cavalaria cavalgou os quilómetros finais da estrada de El Afule e reagrupou-se na crista dos montes que rodeavam Nazaré.
Cidade modernizada, com 15.000 habitantes, Nazaré localiza-se no fundo de um vale fértil de forma circular pontificado por olivais e searas. Os montes à volta erguem-se de forma tão abrupta que, à distância, as açoteias das casas parecem, em alguns locais, serem degraus de escadas. Fora Nazaré que o general Otto Liman von Sanders, o alemão que comandava os exércitos turcos na Palestina, escolhera para instalar o seu Quartel General.
À medida que o Sol subia nos céus aquecendo o dia, os hussardos a cavalo trotaram aceleradamente para o centro da cidade, onde acabaram por chegar às 06H30, à procura de von Sanders, com a esperança de o capturar. O inimigo, ainda adormecido, nem os suspeitava ali, e foi completamente apanhado de surpresa.
Os cavaleiros tinham permanecido em sela, durante as últimas 24 horas, descontando os períodos de repouso e dar de beber aos animais. Mas a oportunidade que se lhes apresentava era suficientemente boa para lhes mobilizar as últimas forças.
Apesar da vantagem da surpresa, o combate de rua que se iria desenrolar não costuma ser vantajoso para as tropas montadas. Mas os homens de Gloucester estavam equipados com espadas para além das versões curtas de cavalaria da espingarda Lee-Enfield, arma de outras épocas mas que, tanto eles quanto a cavalaria australiana, haviam copiado dos lanceiros indianos quando os viram a usá-las.
Os serventes das metralhadoras dispostas nas varandas e açoteias começaram a abrir fogo enquanto os soldados turcos e alemães oriundos, na sua grande maioria, das unidades de retaguarda e de serviços, acordavam com os tiros e ripostavam com o armamento que tinham à mão a partir das janelas. O combate rapidamente se tornou uma confusão, sem uma frente definida.
Soldados que estavam aboletados no Mosteiro Latino (5) rapidamente se começaram a render e por toda a cidade os assaltantes iam reunindo os prisioneiros, muitos deles ainda de pijama.
Mais acima, a rua principal de Nazaré estava engarrafada com uma coluna de camiões alemães (2) cujos condutores queriam desesperadamente inverter a marcha para fugirem pelo saída do Norte, que os britânicos ainda não haviam selado.
Os homens de Gloucester esquadrinhavam a cidade à procura de von Sanders, mas sem se aperceberem que Casa Nuovo (1), um antigo hospício, era o seu Quartel General. Mal o ataque começara, o general Sanders, apesar de estar ainda em pijama, fugira no seu carro rua acima, passando pela mesquita (3), para apanhar a estrada de montanha que o conduzisse para Tiberíades (4).
Cerca das 08H30, outras unidades da 13ª brigada juntaram-se aos hussardos. Mas o cansaço e a falta de efectivos fez com que os atacantes não dispusessem dos meios necessários para controlar a cidade e guardar simultaneamente os 1.500 prisioneiros que fizera. A meio da manhã, retiraram, levando os prisioneiros consigo.
Haviam apreendido variadíssimos documentos importantes mas havia-lhes escapado a importância de Casa Nuovo. Documentação muito mais importante veio posteriormente a ser recuperada e queimada pelos turcos.
A acção custara 13 baixas aos Hussardos de Gloucestershire e 28 cavalos haviam sido abatidos. Uma outra unidade da brigada reocupou a cidade, dessa vez permanentemente, no dia seguinte.»
 
O número quase insignificante de baixas britânicas (13), ainda para mais incorridas num Teatro de Operações periférico (a Frente da Palestina), mostra-nos a pequeníssima importância que terá tido esta acção no contexto global da Primeira Guerra Mundial. A importância em a publicitar deve-se ao facto de ter tido por protagonista uma unidade de cavalaria. Em Setembro de 1918, a Primeira Guerra Mundial já contava quatro anos, mas as características da guerra de trincheiras haviam feito que a arma de cavalaria tivesse praticamente desaparecido dos relatos de guerra. Como forma de compensação, e porque o comandante britânico, o general Edmund Allenby, era um cavaleiro, qualquer acção em que a utilidade da cavalaria pudesse ser invocada (neste caso era a superior mobilidade das tropas montadas que haviam permitido surpreender o inimigo), era saudada com a exuberância desmesurada que a descrição acima mostra. Na verdade, a cavalo e antes da motorização, o ritmo da guerra processava-se ainda a um ritmo que hoje nos faria sorrir: o general von Sanders fugiu para uma povoação que ficava a uns meros 30 km de Nazaré. E considerava-se em segurança aí...

08 agosto 2018

O «DIA NEGRO» DO EXÉRCITO ALEMÃO

8 de Agosto de 1918. Pelas 04H20 de uma madrugada enevoada, os Aliados desencadeiam mais uma ofensiva na Frente Ocidental. Completados os quatro anos de guerra, ao longo dos quais se completara uma paulatina e custosa aprendizagem, os procedimentos para o desencadear das ofensivas haviam-se finalmente aprimorado e estandartizado: as 10 divisões francesas e as 9 divisões britânicas (incluindo australianos e canadianos) que atacaram numa frente de 23 km, eram apoiados por quase 1.500 peças de artilharia, por 600 tanques (ligeiros e pesados) e por mais de 1.700 aviões, numa combinação ar-solo que era a novidade táctica da estação. Apesar da formação de alguns pontos de resistência pelos alemães, ao fim do dia os atacantes haviam conseguido progredir cerca de 11 km nas linhas adversárias e conquistado 285 km² de território anteriormente detido pelo inimigo. Eram resultados que replicavam, de forma espetacular e simétrica, os sucessos tácticos que haviam sido alcançados pelas armas alemães nas suas ofensivas da Primavera. Mais, da mesma forma como os soldados britânicos (e também os portugueses...) se haviam deixado abater quando das ofensivas germânicas, desta vez coube a vez ao exército germânico baixar os braços e fugir, ou então deixar-se capturar: ao anoitecer, 281 oficiais e 12.131 homens, assim como cerca de 400 peças de artilharia haviam sido capturados. Nas suas memórias de guerra, Erich Ludendorff virá a qualificar os acontecimentos como o «dia negro» do exército alemão. Como se vê, o desaparecimento do ânimo para continuar a guerra chegou a todos os exércitos.