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10 outubro 2020

A INDEPENDÊNCIA DAS ILHAS FIDJI

10 de Outubro de 1970. O Reino Unido concede a independência às ilhas Fidji, um arquipélago de 330 ilhas (⅓ das quais são permanentemente habitadas), situado em pleno Oceano Pacífico. Com uma área de 18.300 km² e uma população que rondaria à data as 520.000 pessoas, o novo país era uma das últimas e das mais pequenas colónias britânicas a alcançar a independência. A representar a soberana, preside à cerimónia o príncipe de Gales. O vídeo acima terá, talvez, burlesco demais e solenidade de menos na maneira como cobre a cerimónia.

07 setembro 2007

HAKA

Agora que se vai iniciar o Campeonato do Mundo de Râguebi, vem a propósito falar do Haka, um espectáculo dentro de outro espectáculo. Trata-se de uma dança guerreira executada pela equipa neozelandesa no centro do campo, diante dos adversários, antes do jogo se realizar. Foi um ritual importado directamente do folclore maori, os polinésios que habitavam a Nova Zelândia antes do povoamento por europeus do século XIX.
Como o râguebi se tornou um jogo muito popular entre as nações polinésias do Pacífico (onde existem frequentemente pessoas com a compleição física ideal para o praticar), também elas adoptaram cânticos guerreiros semelhantes ao Haka, como sejam o Cibi de Fidji, o Siva Tau de Samoa ou o Sipi Tau de Tonga. Quando duas destas selecções se defrontam e se põem a executar o seu cântico simultaneamente o resultado é impressionante: veja-se aqui, no último mundial, Nova Zelândia versus Tonga…
Fica para o fim o esclarecimento da dúvida por quem vou torcer neste Mundial. À selecção portuguesa cumpre-lhe a enorme missão de se bater com dignidade e não perder por muitos, que este não é um desporto propenso a muitos milagres*… As razões históricas, de que já falei aqui num poste anterior, levam-me a torcer pelo País de Gales (acima), mas as razões estéticas, de que falarei num poste futuro, levam-me a torcer pelos All Blacks da Nova Zelândia (abaixo). E a razão diz-me que devia ser mais estético que histórico…
* A Espanha, por exemplo, na sua única participação em Mundiais (1999), perdeu por 27-15 com o Uruguai e depois enfardou 47-3 da África do Sul e 48-0 da Escócia. Nota adicional de humilhação: tanto a equipa sul-africana (os Springboks) como a escocesa alinharam nesses jogos quase só com reservas… Mas há quem tenha perdido 142-0 (Austrália – Namíbia) e 111-13 (Inglaterra – Uruguai), ainda no último Mundial de 2003…

30 dezembro 2006

PROTOCOLO

Protocolo é o título de uma comédia norte-americana levezinha de 1984, tão levezinha quanto a reputação da sua protagonista, Goldie Hawn. A história do filme roda à volta de uma simples (empregada de café) que, por acaso e agradecimento, é recompensada com um lugar de destaque na administração em Washington. Tentando limitar os danos e não sendo ela qualificada em coisa nenhuma, acabam por dar-lhe um lugar no protocolo, função e palavra da qual ela nem conhecia o significado. O resto adivinha-se.

Mas, para os profissionais a sério da função o protocolo é um assunto muito sério e que deve ser respeitado. E em regimes republicanos, onde, ao contrário das monarquias, existe rotação dos titulares dos cargos, a sua importância cresce enquanto depositários do know-how protocolar, enquanto os recém-chegados vêm sempre impreparados para as minudências do cargo. Exemplo? Ninguém me explicou – e desconfio que não haverá grande explicação que se possa dar… - porque razão Maria Cavaco Silva e Maria José Ritta trocaram de cadeiras na assistência, simultaneamente com os maridos, quando da posse do marido da primeira…

Mas os piores inimigos dos profissionais do protocolo de todo o Mundo deverão ser os militares e mais aquele seu hábito desagradável de, volta e meia, promoverem uns Golpes de Estado que os torna ocupantes dos palácios presidenciais, para onde levam toda aquela rusticidade que os militares tanto gostam de cultivar. Cerimónias ritualizadas como a apresentação de credenciais por parte dos embaixadores tornam-se em momentos penosos e, por exemplo, tornaram-se terrivelmente famosas as fúrias de impaciência do General Gomes da Costa nos 22 dias que ocupou o cargo entre Junho e Julho de 1926.

Mas é do outro lado do Mundo que nos chega um exemplo recente do que pode ser a demonstração da obtusidade de um dirigente militar às subtilezas protocolares e do formalismo diplomático da sua nova função. Trata-se do caso do Comodoro Bainimarama, que, enquanto comandante das suas forças armadas, assumiu no princípio deste mês o poder nas ilhas Fidji, perante a oposição declarada da potência regional tutelar daquela área do Pacífico, a Austrália. Perante a manutenção dessa mesma atitude da parte australiana, o Comodoro, sem qualquer subtileza protocolar ou diplomática, afirmou que, caso a Austrália persistisse na mesma atitude iria buscar o apoio da China e doutros países asiáticos…

É óbvio que o Comodoro está a dizer que irá fazer o que é óbvio. Estando os Estados Unidos por detrás da Austrália, os únicos poderes que poderão contrariar as pressões dos australianos sobre as Fidji terão de vir de grandes países da Ásia. E isso só acontecerá se houver interesse nisso por parte desses mesmos países. Ou seja, uma situação muito similar à que é vivida por Timor-Leste. Com comentários tão claros quanto os do Comodoro a respeito da política internacional daquela região, ficam automaticamente identificados os grandes actores em presença. Não se dispensando naturalmente as verdadeiras análises à situação, fica logo dispensada a contribuição da superficialidade de um certo tipo de analistas…

18 outubro 2006

COM TODA A NATURALIDADE

No seguimento do jogo de escondidas que aqui outro dia relatei, onde um Procurador-Geral (das Ilhas Salomão) andava a fugir à justiça, ficou-se hoje a saber (sempre pela mesma fonte, o jornal The Australian) que não só o senhor já está preso como também há um ministro do governo desse mesmo país que também foi preso por ter prestado falsas informações ao seu primeiro-ministro.

No entanto, as coisas seriam muito mais claras se não se tivesse sabido que o foragido havia regressado às Ilhas Salomão a bordo de um avião militar da Papua Nova Guiné na companhia de um sobrinho do primeiro-ministro que alega não saber de nada e ter sido aldrabado pelo ministro que mandou prender. E, embora detido, o seu governo continua a recusar-se a entregar o Procurador-Geral foragido às autoridades australianas.

Em tudo isto, depois da desenvoltura que o vimos assumir em Timor-Leste, parece-me perfeitamente expectável e compreensível que o governo australiano mostre ter pelos seus homólogos das Ilhas Salomão e da Papua Nova Guiné uma cordialidade e confiança idênticas àquela que Eliot Ness mostrava ter por Al Capone e seus amigos na Chicago dos anos 20 e 30…

Acessoriamente, ao contrário de Taur Matan Ruak em Timor-Leste que, segundo as conclusões do relatório da ONU, é censurado pelo que podia ter feito e não fez, o seu homólogo das Fidji, o Comodoro Frank Bainimarama, podia fazer e fez mesmo: foi ter com o seu primeiro-ministro para ter uma conversinha a respeito de uma lei de amnistia com a qual ele não concordava e ameaçou depô-lo se a fizesse aprovar…

Estes meus posts pretendem-se tranquilizadores. Vistos deste nosso lado do Mundo, tão civilizado, todos aqueles acontecimentos em Timor-Leste a que vamos tendo acesso parecem-nos preocupantemente bizarros. Inserindo-os na respectiva cultura local, através destas notícias que aqui trago do que acontece nos países vizinhos de Timor-Leste, torna-se tudo muito mais natural…

02 outubro 2006

TV NOSTALGIA – Fora de Série


Se, num assomo de neocolonialismo protector, nos puséssemos a tecer considerações sobre a família de estados com quem Timor tem agora de conviver por pertencerem à esfera de influência australiana, há que reconhecer que os timorenses andam agora com companhias muito bizarras.

Imagine-se, como se pode ler numa notícia saída no jornal The Australian, que nas Ilhas Salomão (um dos tais estados vizinhos de Timor) é sobre o Attorney-General – cargo equivalente ao Procurador-Geral da República – que pende um mandato de detenção por acusações de pedofilia…

Mas atenção, o mandato foi emitido por um juiz australiano, porque o Attorney-General das Salomão é de nacionalidade australiana, embora de origem indo-fidjiana (as Fidji são outro dos estados vizinhos de Timor), muito embora o presumível crime tenha sido cometido em Vanuatu (mais um dos estados vizinhos).

Contudo, a execução do mandato, a pedido das autoridades australianas, efectuou-se num aeroporto da Papua Nova Guiné (ainda mais um dos estados vizinhos), numa escala técnica do avião onde viajava este famoso Attorney-General de que entretanto se perdeu o paradeiro.

Não ajuda à transparência do caso constar que o 1º Ministro das Salomão terá contado o seu homólogo da Papua Nova Guiné para que este desse um jeitinho…. E este deve ter dado porque o Ministro dos Negócios Estrangeiros australiano, Alexander Downer, já se pôs a refilar.

Dá vontade de rematar com a conclusão dos resumos iniciais dos episódios anteriores da série Soap: Confuso? Vai deixar de o estar depois de seguir mais este episódio de … Soap! Comparado com isto tudo, um país onde o presidente parece estar politicamente dominado pela patroa e onde parece ter dado golpes de estado contra o regime vigente parece até coisa trivial.
 
PS - Eu cheguei a contar que há um diferendo político sério entre o governo australiano e o das Ilhas Salomão? E que há possibilidades que o visado nesta história seja o chefe do governo das Salomão? Claro que há sempre a possibilidade de considerar que estejam manobras australianas por detrás de todas estas peripécias apenas como meras especulações, vide algumas reacções ao exemplo timorense de há uns meses atrás...