31 outubro 2020

QUANDO OS JORNAIS ALIMENTAM OS COMPLEXOS DE SE SER PORTUGUÊS

Um dos primeiros obstáculos à nossa emancipação está dentro de muitas das nossas cabeças. E é um processo que se auto-alimenta, como se pode ver pelo exemplo da notícia acima. Mas, a propósito dela, comecemos por separar o trigo do joio: entre os profissionais que se dediquem a lutar pela erradicação de pandemias, considero obrigatório que estejam atentos aos resultados que se obtêm pela experimentação de processos alternativos de controle da covid-19 em países vizinhos; na Finlândia e na Estónia, como é noticiado acima, mas também em todos os países do Mundo, caso do Paquistão. Mas o que a Maria João Guimarães escreveu ontem no Público não tem nada a ver com isso. Não é conversa entre profissionais, nem sequer é conversa para que os amadores (leitores) compreendam o que os profissionais andam a fazer. Porque, obviamente e se os resultados encorajadores do controle da pandemia tiverem acontecido no Paquistão, ela não teria contado história nenhuma: os jornalistas, para serem lidos, apostam no complexo que o português típico terá em relação aos habitantes dos países do Norte da Europa (daí a referência à Finlândia e à Estónia), complexos esses de inferioridade que não existem (antes pelo contrário) em relação aos paquistaneses. É por isso que será improvável lermos no Público, escrito pela Maria João Guimarães ou por outro qualquer colega seu, textos com exemplos de sucesso ocorridos no Paquistão. Ou no Uruguai. Isto não são histórias de sucessos, são histórias de preconceitos: os que existem e os que jornalistas crêem que existem no espírito de quem os lê. O que é uma porcaria e tem vezes em que a maior porcaria do jornalismo ocorre ainda antes da primeira palavra ser escrita.

O FIM DA BATALHA DE INGLATERRA

31 de Outubro de 1940. Como se percebe pelo que se publica acima, os jornais continuam a relatar as batalhas que se travam nos céus da Europa, numa continuidade do que viera a acontecer desde o Verão, mas, embora ninguém a tenha assinalado na altura, esta data de 31 de Outubro é agora considerada a do fim da batalha de Inglaterra. Há vários números contabilizando as perdas dos dois lados, tanto mais que a duração da batalha flutua conforme a opinião dos autores, mas a contabilização mais frequentemente citada é a que refere que os britânicos perderam 915 aviões, os alemães (e italianos) 1.733. Um factor a conferir um interesse adicional ao assunto é a multiplicação de nacionalidades (catorze) entre os pilotos que combateram do lado britânico.

A CALMANTINA

A calmantina é um citrino híbrido, uma fruta muito apropriada para ser comida à sobremesa nestes novos tempos de reedição do confinamento...

30 outubro 2020

A PRIMEIRA DEPOSIÇÃO DE GETÚLIO VARGAS

30 de Outubro de 1945. Aquele mesmo Getúlio Vargas, presidente brasileiro que acabámos de encontrar nestas minhas evocações há uns meros seis dias, a 24 de Outubro... mas de 1930, voltamos a encontrá-lo agora a 30 de Outubro, mas quinze anos depois, a ser forçado a resignar por uma quartelada de contornos muito semelhantes à revolução que o levara ao poder. Porque o exército brasileiro se vira reforçado em armamento por ter participado na Segunda Guerra Mundial, desta vez nem foi preciso contar espingardas.

O SEGUNDO REFERENDO SOBRE A INDEPENDÊNCIA DO QUÉBEC

30 de Outubro de 1995. No referendo sobre a independência do Québec, esta última é recusada por uma margem de 54.000 votos (1,2%). Trata-se apenas de uma evocação por ocasião do 25º aniversário, já que o assunto - este referendo e também o anterior, em Maio de 1980 - já foi explicado sucintamente aqui no Herdeiro de Aécio, na altura (Setembro de 2014) para melhor compreensão do referendo semelhante que viria a ter lugar na Escócia.

29 outubro 2020

A VERDADE SOBRE A ÁGUA NA LUA

Estão de parabéns as jornalistas Andrea Cunha Freitas e Teresa Firmino. O anúncio da presença de água na Lua já foi tantas vezes anunciada e repetida que eu já usei o tema em jeito de paródia no Herdeiro de Aécio: anunciada em 2009, 2010, 2012, 2013, 2015, 2017, 2018... Quando a NASA anuncia, com cinco dias de antecedência, que que se preparava para comunicar uma «excitantes descoberta» acerca da Lua, pensou-se que o descaramento a impediria de regressar ao repisadíssimo tema da água lunar. Mas não. Era mesmo isso, ainda e sempre a água da Lua. O que foi positivo e completamente diferente desta vez veio a ser a atitude das duas jornalistas acima citadas do Público, que foram à procura de um astrónomo português, que lhes explicou o contexto da notícia. E elas exploraram-no devidamente: a quantidade de água existente na Lua é 100 vezes menor do que a que se pode encontrar no deserto do Sahara. «Por isso, a descoberta é interessante mais do ponto de vista intelectual do que outra coisa». Como se vê também pode ser interessante ler uma notícia rigorosa. Alguém que escreva, mesmo sem exuberância, que uma palhaçada é uma palhaçada, mesmo que (ou especialmente por) ter a chancela da NASA.

O SORTEIO DE UMA VIAGEM A PARIS NA COMPRA DE UM LIVRO

29 de Outubro de 1950. Uma curiosidade sociológica na última página do jornal: um anúncio do sorteio de uma viagem aérea de uma semana a Paris, com estadia incluída, para os compradores de um livro policial, algo que se torna incompreensível pelos padrões de consumo de hoje. As viagens tornaram-se muito mais baratas e a literatura policial passou de moda.

28 outubro 2020

O «NOSSO» BORAT DA PALAVRA

Um veste-se da maneira mais provocadora possível, o outro escreve as coisas mais tremendistas que pode. O objectivo de ambos é o mesmo: concitar as atenções sobre si. E conseguem-no: impõem-se-nos nos ecrãs, mesmo que não lhes queiramos prestar atenção. Uma diferença substantiva entre ambos é que um faz figuras tristes para fazer as pessoas rir, o outro não é para fazer as pessoas rir: acha-se inteligente.

A MORTE DE KYOICHI SAWADA

28 de Outubro de 1970. No Camboja, os guerrilheiros rebeldes, conhecidos por Khmers Vermelhos, capturam e executam de imediato um fotojornalista japonês chamado Kyoichi Sawada (1936-1970). O fotojornalista era um veterano das guerras na Indochina e fora duas vezes premiado (em 1965 e 1966) por fotografias que fizera acompanhando a guerra no Vietname (acima, vêmo-lo junto a uma dessas fotos premiadas). Ser-se fotojornalista a acompanhar conflitos deste género é uma actividade cheia de riscos: as mortes naquelas paragens de Robert Capa (1913-1954), Dickey Chapelle (1918-1965) ou Henri Huet (1927-1971) são a prova disso. Mas, para os mais atentos, havia uma diferença subtil entre o que acontecera a Sawada e o que acontecera (ou viria a acontecer) aos outros três, aqui apontados apenas como exemplo. Estes últimos haviam morrido acidentalmente, por pisarem minas, detonarem armadilhas ou então em consequência dos aparelhos onde viajavam terem sido abatidos. Sawada aproximou-se de uma zona de combate, foi capturado e sumariamente executado, sem que parecesse ter havido qualquer intervenção hierárquica dentro dos Khmers Vermelhos que se preocupasse com o valor propagandístico de Sawada depois de aprisionado. Era um comportamento que distinguia os rebeldes cambojanos dos rebeldes vietnamitas do Vietcong. Ao contrário destes, aqueles eram uns selvagens, sem qualquer cuidado com os rudimentos da gramática política da guerra, selvajaria que se concretizaria aliás depois no genocídio que teve lugar no Camboja a partir de 1975...

27 outubro 2020

A NOTÍCIA DA PRIMEIRA ACÇÃO TERRORISTA DA ARA

27 de Outubro de 1970. É com o destaque que se vê acima que é noticiada a primeira acção terrorista da ARA (Acção Revolucionária Armada), uma organização autónoma do PCP, especificamente dedicada à luta armada. Esta primeira operação teve como alvo o cargueiro «Cunene», então acostado no porto de Lisboa. O que se percebe da leitura é que, seja por ingenuidade ou fosse por malícia, as autoridades da polícia marítima pareciam não atribuir grande gravidade ao acontecimento. Mais tarde, logo depois do 25 de Abril e como seria natural, o episódio veio a ser promovido, como se de uma gesta se tratasse, usando, para a ilustrar, a notícia com mais destaque e até desenho que fora publicada em O Século (abaixo). Mas, este jornal constituíra a excepção: no resto da comunicação social de então, copiara-se o padrão sintético e desinteressado que se vê acima, publicado na última página do Diário de Lisboa com o mesmo espaço que o dedicado ao laureado com o prémio nobel da física. Soubesse-se que o PCP estivera por detrás das duas bombas e, muito provavelmente, a censura tê-la-ia abafado.
Mas, de facto, não há nada mais humilhante do que aquilo que se pretendia uma grande acção revolucionária ser tomada por um acidente corriqueiro. A comprová-lo, três dias depois, ocorria um verdadeiro acidente com explosivos a bordo do paquete Vera Cruz que acabara de transportar tropas, e em que houve a lamentar uma vítima mortal.

A RENDIÇÃO DO MARECHAL BAZAINE EM METZ

27 de Outubro de 1870. O marechal Bazaine, cercado em Metz desde 18 de Agosto, rende-se aos sitiantes prussianos. Durante os dois meses que durara o cerco a Metz a França mudara imenso: o imperador Napoleão III rendera-se em Sedan e em Paris proclamara-se a república. Os dirigentes desta recusavam-se a aceitar o veredicto das armas e animavam o espírito de resistência aos prussianos e seus aliados. Uma resistência que se mostrava mais exaltada do que substantiva, mas, de toda a maneira, esta rendição representa para as novas autoridades republicanas francesas mais um sério revés. Como era tradicional e digno, a resistência durara até ao esgotamento dos víveres na praça cercada, que naquela época representava a fase em que os soldados se viam obrigados a comer os seus cavalos, fim da esperança de alguma mobilidade. São muito poucos, e provavelmente todos alemães, os cavalos que se vêem na imagem acima, mostrando a partida de Metz dos soldados franceses agora tornados prisioneiros, para o cativeiro na Alemanha. Mas isso são argumentos que não serviram para salvar a reputação do marechal Bazaine

26 outubro 2020

O GATO ESCALDADO DESCONFIA ATÉ DA ÁGUA FRIA

Pouco importa que as revistas reputadas tentem novamente impressionar os seus leitores com gráficos e modelos de probabilidades e percentagens a respeito de qual será o desfecho das eleições presidenciais americanas. Aqueles que tiverem memória recordarão o que aconteceu há quatro anos em que esses mesmos gráficos começavam a noite eleitoral a apontar para uma vitória probabilíssima da candidata Clinton (80% no gráfico abaixo) e acabaram-na ao despontar da aurora do dia seguinte com a vitória do candidato Trump (95%). Jurei que seria a última vez que iria levar esse bullshit a sério. 

«LET'S LOOK AT THE TRAILER» ou, como se diz em inglês, «LETZ LUQ ATE DE TREILA»

Marginalmente menos popular do que Artista Bastos («Onde é que tu estavas no 25 de Abril?»), Lauro Dérmio («Letz luq ate de treila») é uma outra caricatura de Herman José que também superou em popularidade o seu inspirador, Lauro António. Lauro António que acima podemos ler numa crítica ao filme Die Hard 2, acabadinho de estrear, publicada há precisamente 30 anos. Eu até concordo com a opinião do crítico, mas continuamos a apanhar insistentemente com ele nos canais de filme da TV cabo. Talvez porque a feitura posterior dos Die Hard 3, 4 e 5, só tornaram o filme cada vez melhor com o tempo...

25 outubro 2020

A KALASHNIKOVES DO TENENTE CORONEL PALMELA E DO COMANDANTE ROXO

Comecemos por apresentar o tenente-coronel Carlos Palmela, comandante do batalhão de Caçadores 20 sediado em Vila Cabralem 1967-68 e que aparece do lado direito da fotografia acima, a falar com o seu oficial de operações naquele batalhão, o major Teixeira. O tenente-coronel Palmela foi o primeiro oficial português que me lembro - e ao vivo! - de ter visto a usar uma Kalashnikov (AK-47) como arma pessoal quando saía em operações para o mato. Confesso que o facto de a sua arma se distinguir facilmente (por causa do carregador curvo) da espingarda G-3, a que era usada por todos os restantes militares armados, conferia ao seu detentor um implícito ascendente reforçado sobre as tropas que comandava. Porque era diferente. Foi uma impressão que se formou e perdurou, até muitos anos mais tarde, quando, com outro entendimento e discernimento, um veterano do conflito me fez ver que, em termos práticos, aquela opção do tenente-coronel Palmela por uma arma que era também utilizada pelo inimigo, até não seria assim tão sensata. Com os confrontos e as trocas de tiros a terem lugar muitas vezes em situações confusas, em resultado de emboscadas, em regiões de densa vegetação, em que não se conseguem distinguir atiradores amigos de inimigos, usar uma arma que tem uma assinatura acústica idêntica às empregues pelo inimigo, é também correr o risco suplementar de se ver alvo do fogo dos do nosso lado. Afinal, descobri, andar armado com uma AK-47 naquelas circunstâncias, em que o resto da tropa usa G-3, é um adereço que tem vantagens, mas só até ao momento em que precisamos da arma para o seu propósito último: que é o de dar tiros... contra o inimigo. É tomando isso em conta que vale a pena falar de outra figura de Vila Cabral, muito mais famosa que o tenente-coronel Palmela.
Havia-me recordado desta história antiga e dos seus ensinamentos quando me deparei, há muito pouco tempo, com uma publicação numa rede social, em que se fazia um elogio rasgado ao comandante Roxo. Diga-se, desde já, que a patente de comandante é um expediente, já que Daniel Roxo, sendo uma das grandes figuras da Guerra em Moçambique, nunca esteve incorporado no exército português. É ele que aparece armado da mesma Kalashnikov em todas estas fotografias acima. E numa delas, aparece até, como recordava o tenente-coronel Palmela, armado com a sua AK-47 em contraste com as G-3 dos seus soldados. (o batalhão comandado por Palmela também era de recrutamento local e, por causa isso, também era constituído, à mesma, predominantemente por tropas africanas). Noutra fotografia, aparece a apontá-la, como se tivesse a fazer fogo. Numa terceira, é o único elemento dos seis da foto que está armado. E na última, parece exibir a AK-47 como se fosse uma ferramenta de trabalho, como que em contraponto à máquina fotográfica de quem abraça. Eu não sei se a fama que lhe atribuem como combatente será totalmente merecida, se a AK-47 lhe dava assim tanto jeito nos momentos em que teve de se defrontar com a guerrilha da Frelimo, se ele merecerá todos os elogios que lhe endereçam ainda agora todos aqueles nostálgicos do Império, nostálgicos esses que ainda hoje se recusam a perceber porque Portugal teve de sair de África, mas constato que no domínio da fotogenia o comandante Roxo era muito bom. E a fotogenia, vim eu a descobrir vários anos depois de me explicarem a impropriedade do uso de uma AK-47 nas circunstâncias em Daniel Roxo a empregava, é muito mais importante para o robustecimento de uma reputação de herói do que os outros predicados que se esperam dos grandes guerreiros. Creio já aqui o ter demonstrado neste blogue, em casos tão díspares quanto os de Otto Skorzeny ou de Douglas MacArthur.

24 outubro 2020

A REVOLUÇÃO BRASILEIRA DE 1930

24 de Outubro de 1930. Getúlio Vargas, o candidato que perdera na contagem dos votos nas eleições presidenciais de 1 de Março de 1930, vencia agora a disputa política, mas ganhando na contagem de espingardas. Nesta revolução brasileira de 1930, funcionou mais o princípio de as contar (ás espingardas) do que propriamente utilizá-las. Nunca se fizeram contas globais do quão sangrenta ela terá sido, mas uma boa indicação de que o não foi encontra-se no facto de que aquele que é considerado o seu recontro mais sangrento se denomina combate de Quatigá. Nem sequer houve vontade e efectivos que se dispusessem a travar uma batalha para defender a legitimidade republicana do presidente Washington Luís! Quanto ao número de mortos, as versões variam entre os 20 e os 200 mortos. É bem possível que tivesse vindo a morrer mais gente trinta anos depois num acidente com um foguetão russo...

RECORDANDO UDERZO...

A pretexto de uma reacção salutar às acções do extremismo islâmico em França, e por muito que as cópias sejam espirituosas, há ícones franceses que, sobretudo, me deixam saudades da expressividade dos desenhos originais. 

A CATÁSTROFE DE NEDELIN

24 de Outubro de 1960. Ocorre no Cazaquistão um dos mais graves desastres da história da astronáutica. Quando uma equipa de cientistas soviéticos procedia ao ensaio do foguetão R-16 - que viria a ser o seu primeiro míssil balístico intercontinental (ICBM) - este explode inesperadamente ainda na rampa de lançamento. Tão impressionante quanto as imagens e a magnitude do desastre - que pode ser visto no vídeo abaixo - foi o véu de silêncio que se abateu à sua volta. Oficialmente, foi preciso chegar à era de Gorbachev, quase 30 anos depois, para que alguns dos factos vieram a ser reconhecidos. O número de vítimas mortais nunca veio a ser estabelecido com precisão - entre 60 e 150 mortos e um número indeterminado de feridos com queimaduras. Uma grande maioria das vítimas eram quadros técnicos qualificados. Num gesto merecido, o acidente é hoje conhecido pelo nome do oficial general responsável pelo programa que, tendo sido uma das vítimas da explosão, foi também o responsável máximo por ela ter acontecido, ao forçar o ritmo dos ensaios e negligenciando com isso vários aspectos de segurança que estiveram por detrás da catástrofe.

23 outubro 2020

E NÃO SERÁ QUE A PERGUNTA ABAIXO É UMA PERGUNTA MENTIROSA?...

A expressão «pergunta mentirosa», recordemo-lo, entrou no léxico dos portugueses (conjuntamente com o «é proibido, mas pode-se fazer!») quando Ricardo Araújo Pereira fez aquela paródia ao vídeo do nosso actual presidente em prol do voto não, aquando do referendo do aborto em 2007. Reconheça-se que é um conceito engraçado, o do reconhecimento de que a forma como está redigida uma pergunta condiciona a discussão que se possa ter sobre o assunto a respeito do qual ela é formulada. A pergunta a montante da que é formulada é outra, e mais importante: será que há mesmo em Portugal 4.200 profissionais de saúde desempregados e disponíveis para contratar? É que aquilo que tenho lido de mais sólido e consistente a respeito dessa questão, nomeadamente no que concerne aos médicos, é que uma grande maioria dessas pretensas contratações representam, de facto, meras formalizações de lugares já ocupados. E sempre que alguém enfatiza que o discurso das contratações não passa de um logro, já que os recursos são sempre os mesmos, e que se trata apenas de operações de relações públicas, em que se finge aconchegar melhor o doente à cabeceira, destapando-lhe os pés ao fundo da cama, quando chegados à realidade, escrevia eu, segue-se um silêncio dos actores envolvidos - ministério, sindicatos e ordens (estes dois últimos são, aliás, basicamente a mesma coisa embora fingindo que não). Nenhum deles parece interessado em assentar a discussão do problema numa base real, por motivos diferentes que não quero aqui discutir. Porque embora considere toda a discussão sobre o tema uma palhaçada, respeito a coreografia, como aceito, por exemplo e embora não seja espectador, que haja peças de teatro para crianças. Agora o que não é preciso é que os jornalistas peguem numa dessas peças infantis e lhe tentem dar títulos pomposos, género «Tristão e Isolda», como acontece com a senhora do artigo do Público mais acima, que foi ouvir o senhor que é «investigador na área de Economia da Saúde». Porque, por tudo o que acima se escreveu, o problema não me parece que se coloque na existência ou não dos 100 milhões. O problema estará em encontrar - para contratar - 4.200 profissionais de saúde adicionais para reforçar as equipas médicas. A escassez é de meios humanos e esses, sabe-se, não se formam de um dia para o outro. Ou será que estou muito enganado, e, depois de seis meses de pandemia, ainda se descobrirá que há por aí uns bons milhares de médicos e enfermeiros subempregados a distribuir refeições no UberEats?... (Esta última pergunta também é um bom exemplo de uma pergunta mentirosa)

LISBOA COMO ENTREPOSTO CENTRAL DAS VIAGENS DE E PARA A AMÉRICA - 1

23 de Outubro de 1940. A importância de Lisboa como entreposto central das viagens entre a Europa e a América do Norte durante a guerra, consagrada naquela famosa cena do filme Casablanca em que apanhar o avião para a nossa capital representava a salvação, e uma fuga da zona de guerra, podia comprovar-se com a leitura de duas discretas notícias no Diário de Lisboa de há oitenta anos. Numa delas, a da esquerda, noticiava-se que o embaixador americano no Reino Unido estava de partida de Londres para Lisboa, onde apanharia um dos luxuosos hidroaviões «Clippers» (abaixo) na continuação da sua viagem de trabalho aos Estados Unidos, onde iria conferenciar com o presidente Roosevelt. Na verdade, o embaixador caíra no desagrado do governo junto do qual estava acreditado e não regressaria a Londres, mas o que é engraçado naquela notícia é comparar o percurso do voo com os actuais, em que é muito mais provável que apanhemos em Lisboa um voo para Londres, para aí apanharmos um outro voo para a América do Norte, do que a rota da viagem do embaixador (veja-se mais abaixo).
Mas a questão não seria certamente de cariz político. Joseph Kennedy teria perfeitamente podido ter feito a viagem através da Irlanda, país tão neutral quanto Portugal. Seria uma viagem mais curta mas não a fez. Na mesma edição do jornal estará uma outra possível explicação para isso (à direita). Nela publicava-se um comunicado da Pan American, a empresa que efectuava as ligações aéreas entre os dois continentes, onde se anunciava uma próxima alteração da rota dos seus hidroaviões que atravessavam o Atlântico, conforme o traçado (a azul) que se pode apreciar no mapa mais abaixo. A explicação oficial era o aproveitamento d«os fortes ventos alísios» mas a razão mais plausível para que se passassem a fazer três escalas em vez de apenas uma na cidade da Horta, nos Açores, como acontecera até aí (a laranja), é que o trajecto se afastava bastante mais do Atlântico Norte, onde então se começara a travar uma prolongada batalha. Uma batalha sobre as águas e debaixo delas, mas na Pan Am, mesmo que passando por cima, pensava-se que era melhor não arriscar.

22 outubro 2020

A ACTUAÇÃO PÚBLICA DE MARCELO FAZ-ME LEMBRAR O TED A OUVIR O «SWEET CAROLINE»...

...MARCELO TAMBÉM NÃO RESISTE A PARTICIPAR. E depois acaba sovado (metaforica e displicentemente), como aconteceu agora com o episódio da vacina em tronco nu.

OS DOIS GENERAIS AMERICANOS DESAPARECIDOS NA TURQUIA

22 de Outubro de 1970. Esta notícia dos dois generais americanos que haviam desaparecido quando viajavam num avião no Leste da Turquia virá a ter um final mais feliz do que aquilo que se anteveria no momento em que a notícia foi publicada. Um final mais feliz, mas também inesperado. Assim, o pequeno avião Beechcraft, pilotado por um major americano que seguia de Erzurum para Kars com dois generais da mesma nacionalidade a bordo, e então dado como desaparecido, havia aterrado... mas no aeroporto de Leninakan, na Arménia, União Soviética (cidade hoje rebaptizada de Guiumri). As explicações dadas pelo piloto às autoridades soviéticas eram, no mínimo, estranhas, já que o plano de voo original previa uma viagem de apenas 175 km e o avião havia percorrido 125 km adicionais até ao local onde pousara... com o piloto completamente convencido que não se desorientara. Segundo as declarações que o piloto prestara, «ventos ascencionais haviam transportado o pequeno avião para cima das nuvens» e quando reatara a manobra de aproximação à pista continuava perfeitamente convencido de estar em espaço aéreo turco. Em plena Guerra-Fria fora um péssimo sítio para um avião militar americano com 3 oficiais a bordo (e mais um oficial turco de ligação) se desorientar, mas a boa notícia é que não havia vítimas a lamentar de um acidente aéreo - que fora a primeira hipótese a colocar-se. Quanto aos militares soviéticos, descontado o cepticismo quanto à versão do piloto, tiveram que render-se à evidência que a sua enorme incompetência como navegador (mapa abaixo) seria a explicação mais provável para o que sucedera: em alternativa, considerar a hipótese que o inimigo procedera a manobras de espionagem num avião ligeiro com dois oficiais generais a bordo seria uma hipótese ainda mais estúpida que a inicial. A 10 de Novembro, as autoridades soviéticas libertaram os 4 oficiais.

21 outubro 2020

AS PRIMEIRAS ELEIÇÕES LEGISLATIVAS (E CONSTITUINTES) FRANCESAS DEPOIS DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

21 de Outubro de 1945. Têm lugar em França as primeiras eleições legislativas em nove anos. O acto eleitoral é, para além de umas eleições legislativas tradicionais, também um referendo onde se colocavam duas questões aos franceses e francesas (que haviam passado a poder votar desde 1944). Na primeira questão perguntava-se-lhes se queriam que a assembleia que estavam a eleger fosse uma assembleia constituinte. A resposta do eleitorado foi esmagadoramente favorável: 96%. Era a consumação do fim da III República e o começo da IV. A segunda questão levava em consideração a resposta dos eleitores à precedente: no caso da assembleia ser constituinte, será que o eleitor concordaria que os poderes públicos se organizassem provisoriamente (até à aprovação da nova constituição) de acordo com o projecto de lei que figurava no verso do boletim de voto? Também aqui a resposta foi positiva e robusta embora não tão esmagadora quanto a anterior: 66%. Quanto à eleição para preencher os lugares da nova assembleia, que se tornara constituinte, os vencedores foram... os comunistas do PCF, com 26% dos votos e 159 lugares em 586, uma representação parlamentar que era mais do dobro da que haviam obtido em 1936. Muito do prestígio da organização havia sido adquirido a partir de 1941 quando, depois da invasão pela Alemanha da União Soviética, os comunistas haviam passado a conduzir o trabalho clandestino de resistência contra o ocupante alemão e as autoridades colaboracionistas de Vichy. Era com um resultado semelhante ao do PCF do após guerra que os comunistas do PCP (com memória histórica) sonhavam alcançar nas nossas primeiras eleições de 25 de Abril de 1975. Mas as circunstâncias históricas eram outras e os comunistas portugueses ficaram-se pela metade daqueles 26%...

UMA HISTÓRIA QUE DEMONSTRA QUE NÃO HÁ MUITA «HISTÓRIA» PARA CONTAR NAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS AMERICANAS

Em Novembro de 1928 também houve eleições presidenciais na América, e o candidato republicano Herbert Hoover venceu-as de forma evidente, em 40 dos 48 estados que então compunham os Estados Unidos (mapa de cima). E depois, começando a partir do crash bolsista do Outono de 1929, veio a Grande Depressão. Em Novembro de 1932, quando o mesmo Herbert Hoover se apresentou à reeleição, foi, por sua vez, derrotado de forma igualmente evidente, perdendo em 42 dos 48 estados. Hoover recebeu, nessas eleições de 1932, apenas 15 milhões de votos, quando comparados com os 21 que recebera quatro anos antes. Atendendo ao que está a acontecer, especialmente à constatação da incapacidade de Donald Trump em lidar com a pandemia, não faz, para mim, sentido, esperar uma reacção do eleitorado americano que seja muito diferente da forma severíssima como outrora os seus avós sancionaram o facto de Herbert Hoover não ter conseguido estar à altura das suas responsabilidades como presidente. Em suma, sem rodeios e aprendendo com as lições de há 90 anos: se o candidato Joe Biden vencer as próximas eleições presidenciais em menos de 40 estados, então é porque os americanos são estúpidos (e merecem os problemas em que se meteram). É um exagero sentido.

20 outubro 2020

MARCELO A VACINAR-SE EM CUECAS EM 2022? E EM PELOTA EM 2024?

Comprovando a superficialidade dos gestos, convém recordar que ontem não foi a primeira vez que Marcelo tomou a iniciativa de se vacinar contra a gripe publicamente. Já havia acontecido há dois ou três anos (acima). A novidade de ontem terá sido a sua exposição em tronco nu, que foi objecto, aliás, de editorial de Manuel Carvalho no Público de hoje. A mim, pessoalmente, esta última foto de Marcelo fez-me mais lembrar o actor Lee Strasberg a fazer de Hyman Roth no filme O Padrinho II. Os memes que entretanto surgiram são mais cómicos. Ora, se a ideia da iniciativa presidencial é a de, louvavelmente, dar o exemplo, parece-me evidente concluir que a tendência da moda está a apontar para que os vacinados tirem progressivamente mais peças de roupa quando se submetem à vacinação. Daqui por dois anos até haverá que despir as calças e teremos um Marcelo a deixar-se fotografar em cuecas, e dois anos depois disso será o verdadeiro strip-tease presidencial!

19 outubro 2020

PROMULGAÇÃO DO ESTATUTO DOS JUDEUS NA FRANÇA DE VICHY

19 de Outubro de 1940. É promulgado o estatuto dos judeus na França de Vichy. Vale a pena dar uma leitura às principais notícias desse dia do jornal parisiense Le Matin, um jornal típico dos tempos da ocupação. Para ler o que aparece escrito - «a partir de agora, Israel está excluído de toda a função pública» -  como também o que não está escrito - o sr. Louis Doignon que foi exonerado das suas funções (no lado direito da página) é, sobretudo, uma figura grada da Maçonaria francesa.

OS ASPECTOS EXUBERANTES E OS ASPECTOS OCULTOS DE UMA GUERRA

19 de Outubro de 1950. Nesse dia, as tropas americanas conquistavam Pyongyang que fora, até então, a capital da Coreia do Norte. A Guerra da Coreia, que a mesma Coreia do Norte desencadeara, invadindo a do Sul em finais de Junho daquele ano, parecia próxima de um desfecho. O que não se sabia nem, por isso, se noticiava, é que naquele mesmo dia 19 de Outubro, tropas chinesas haviam começado a atravessar o Rio Yalu, gesto que, tendo-se sabido, seria classificado como um indício fortíssimo da intenção chinesa de intervir no conflito - a Guerra da Coreia não estava nada próxima de um desfecho...

18 outubro 2020

FOSSE O JORNALISMO VERDADEIRAMENTE AUTÓNOMO...

...e já há algumas semanas teria sido notícia substantiva a manobra de bastidores para o lançamento de uma eventual candidatura de Paulo Portas a Lisboa. Manobra de bastidores, mas não tão secreta assim para que ela tivesse passado desapercebida aos «influencers» de rede social, sempre preocupados em mostrarem-se «por dentro» do que se passa, como se comprova pela publicação de facebook abaixo. A questão, contudo, é evidentemente bastante mais complexa do que o «adesismo flâné» do digital influencer. Haveria que conciliar as aparências da disponibilidade de Paulo Portas, mais o seu amor próprio de não querer passar por muito «oferecido», com os anti-corpos que ele gera nas estruturas e no eleitorado do PSD, qualquer um deles (estruturas e eleitorado, e por motivos diferentes) indispensáveis para que Paulo Portas tivesse hipóteses de vencer Fernando Medina. A acrescer à dificuldade de concórdia, o problema dos últimos resultados autárquicos em Lisboa em 2017, quando o CDS obteve uma votação que representou quase o dobro da do PSD: com que bases de representatividade se constituiriam as listas autárquicas?
Em suma, deduziam-se muitas dificuldades, que eu não sei se chegaram a existir, porque os jornalistas não chegaram a acompanhar e a noticiar com o detalhe que a intriga política mereceria, aquilo que estaria - ou não estaria - a acontecer. Foi um silêncio até hoje, quando constatei que Paulo Portas havia encomendado uma entrevista no Público a Maria João Avillez. E ela lá foi, obediente, mas sempre a dar aqueles ares de quem está a fazer um favor aos outros, entrevistando-os com toda a sua sagesse. A entrevista era, essencialmente, para anunciar o fim da história da candidatura de Paulo Portas à câmara de Lisboa e mais uns trocos a propósito de Marcelo. Pelos elogios que dedica a este, o antigo director-adjunto do Pelo Socialismo continua a mostrar-se a mesma pessoa de sempre, capaz de deitar para trás das costas os rancores do passado, seja a popularidade duvidosa que conferiu outrora a uma sopa fria francesa, seja mesmo o enriquecimento semântico que trouxe ao nosso idioma com a conotação reversível do adjectivo irrevogável.
Em remate de comentário, e igual a ele próprio, Paulo Portas continua a ser o ingrato que espalha toda aquela impopularidade que consta do seu rasto político: veja-se abaixo, o agradecimento que endereça, en passant, na entrevista, aos digital influencers que, ainda assim, o endossaram, como é o caso do exemplo mais acima...
Adenda: E para regressar ao princípio, aprecie-se a «virtude» de alguns dos tais digital influencers, no caso concreto este que acompanhámos, perguntando-se inicialmente «por que não Portas», a «virtude», qualificava eu, de se dar por desentendido, e fingir não ter percebido os recados dedicados por Portas à classe. Tanto mais caricata a atitude quanto, a este, já o vi a fazer figura de raivoso, prometendo umas patéticas bengaladas, ressurreição em caricatura de um ambiente queiroziano lisboeta de há uns 150 anos. Mas aqui, quando Portas lhe aplica a bengala no sítio onde as costas mudam de nome, amocha. Vá-se lá saber porquê. Mas que tem imensa piada, tem.

ASSINATURA DO ARMISTÍCIO QUE PÔS FIM À GUERRA POLACO SOVIÉTICA

18 de Outubro de 1920. Os beligerantes assinam um armistício que põe fim à Guerra Polaco-Soviética. O Tratado de Paz formal irá ser assinado em Riga, Letónia, em 18 de Março de 1921. Algumas vezes nos referimos aqui no Herdeiro de Aécio às vicissitudes dessa guerra que, desencadeada quase logo depois do fim da Primeira Guerra Mundial, a partir de Fevereiro de 1919, foi uma confrontação entre polacos e russos pelos contornos da fronteira oriental da Polónia na perspectiva polaca enquanto que, na perspectiva russa, agora travestida de soviética, não devia haver sequer fronteira: a Polónia devia regressar ao império aonde pertencera no tempo dos czares. Numa primeira fase, a sorte sorrira às armas polacas, que chegaram a ocupar as capitais da Bielorrússia e da Ucrânia. Contudo, nos últimos cinco meses da guerra, a partir de Junho de 1920 e veja-se os mapas acima, os soviéticos haviam desencadeado uma poderosa ofensiva que só foi derrotada in extremis às portas de Varsóvia, a capital polaca, em Agosto. Nos dois meses que se seguiram, até à assinatura deste armistício, assistiu-se a uma recuperação pelos polacos de muito do território entretanto cedido, mas também a uma tomada de consciência por parte de Piłsudski e dos outros dirigentes da Polónia que era melhor não abusar da sorte, não tentar levar ao limite uma relação de poderes entre a Polónia e a Rússia que era circunstancial.

17 outubro 2020

AÍ PODE VIR NOVA HISTERIA SOBRE OS «VENUSIANOS»!

Depois de há um mês, o mundo científico e, sobretudo, o mundo jornalístico ter sido abalado pela descoberta da fosfina ou fosfamina na atmosfera venusiana, eu tremo ao pensar no terramoto que o mundo mediático poderá vir a registar, se se confirmarem os resultados contidos num trabalho entretanto apresentado para publicação na Universidade de Cornell, em que os seus autores afirmam terem encontrado glicina naquelas mesmas altitudes da atmosfera venusiana onde se havia detectado a fosfina. Mais espectacular de noticiar que esta última, a glicina é um dos aminoácidos codificados pelo código genético dos seres vivos no planeta vizinho, a Terra, e portanto um pretexto ainda melhor para publicar caixas e cabeçalhos especulando sobre a existência de venusianos. Como aconteceu há um mês, o que eu não imagino nesses títulos são explicações verdadeiramente úteis, refreando entusiasmos, como a menção de que há para aí uns 500 aminoácidos, que só 20 deles estão presentes no código genético e que, desses 20, a glicina é o mais simples de todos. Se o trabalho for aceite, o que creio ser provável que aconteça, os leitores deste blogue já estão prevenidos que a nova moda científica irá ser a das especulações sobre a vida microbiana a grande altitude em Vénus! Convirá (re)ler alguns conceitos como as teorias de Alexandre Oparin e a experiência de Miller e Urey. A propósito destas duas últimas, e em registo menos exuberante, foi publicado no entretanto no youtube (isto é, já depois da descoberta da vida em Vénus), um vídeo explicando as simulações do que pôde ocorrer, através de um programa de computador desenvolvido na Polónia, em que se ensaiam as várias combinações como as moléculas mais elementares se puderam associar, por forma a assumir as formas complexas da química orgânica que agora conhecemos. É muito giro, mas é preciso gostar do assunto.

«REMENDAR» O AEROPORTO DA PORTELA

A ironia é que a notícia tem precisamente 50 anos... e imaginamos facilmente o título a ser «reaproveitado» para um artigo a publicar amanhã sobre o mesmo assunto.

16 outubro 2020

O FOGUETÃO QUE «FUROU» A LUA

Instantâneo colhido no princípio deste mês, quando um foguetão Antares foi lançado da base MARS na Virgínia (Estados Unidos) à 01H00 da manhã de dia 3 de Outubro, com 3,5 toneladas de suprimentos para a estação espacial ISS. O fotógrafo captou o momento em que o foguetão pareceu furar a Lua, no que pode ser também uma boa metáfora de muitas discordâncias de rede social que, incidindo original e aparentemente sobre (um)a Lua, acabam desenvolvendo-se sobre o aparente e o acessório, aquilo que há muitos séculos um sábio chinês designou pelo dedo que aponta para ela, a Lua. Quando se discutem ideias, convém não nos perdermos pelos artefactos para lá chegar.

15 outubro 2020

O «ABANÃO»

Passeia-se pelas notícias do dia e lá aparece a palavra que, de tão repetida, parece ter sido cuidadosamente seleccionada pelos governamentais para ser abocanhada para título. E contudo, as reacções que tenho lido ao «abanão», contêm opiniões generalizadamente muito críticas e que coincidem com a minha, e a haver algo que tenha sido abanado, é a confiança de que o primeiro-ministro e o seu governo compreendam o alcance das medidas que querem impor aos portugueses. O problema agrava-se quando se percebe que, entre os críticos, se contam muitos daqueles que tem apreciado a actuação deste executivo com grande bonomia.

A RETIRADA DAS GUARNIÇÕES FRANCESAS DA FRONTEIRA SINO-VIETNAMITA

Outubro de 1950. Mais do que uma data precisa, o que aqui se quer evocar é todo um período que abrange toda a primeira metade do mês, em que as forças militares francesas haviam planeado retirar as guarnições que mantinham postadas ao longo da fronteira sino-vietnamita (vejam-se os mapas abaixo). A manobra justificava-se porque os vários destacamentos que guarneciam a Route Coloniale 4 (RC4 - estrada colonial nº4) haviam perdido a sua razão de ser, depois da vitória dos comunistas de Mao Zedong na guerra civil chinesa que havia terminado um ano antes. Dispostos para serem originalmente um bloqueio ao circuito logístico que, vindo da China, abastecia o Viet Minh, os vários destacamentos franceses que se aquartelavam ao longo da RC4, em cidades como Cao Bằng ou Đông Khê, tornaram-se, eles próprios, um problema, já que a movimentação das tropas e as colunas de reabastecimento eram consistentemente atacadas pelo inimigo. Em 1950, a primeira e mais extrema das duas guarnições mencionadas (Cao Bằng), já só era abastecida por via aérea. A operação de evacuação era, por isso, um processo de controlo de estragos, que vemos frequentemente camuflado atrás da famosa expressão retirada estratégica. Concebida para se processar num complexo sistema de colunas militares que se encontrariam a meio caminho e se apoiariam mutuamente, coberta mediaticamente por detrás da muito mais sensível Guerra da Coreia (onde, depois de Inchon, a vitória total parecia à vista), a operação veio a revelar-se uma derrota significativa para as armas francesas de que só gradual e discretamente se vieram a saber pormenores. As notícias acima, recolhidas de dias encadeados do Diário de Lisboa, são sempre muito discretas e parcas em pormenores mas o teor cada vez mais apreensivo dos títulos dá para perceber a gravidade da situação. O Viet Minh havia-se apercebido com antecipação das intenções dos franceses e concentrado os seus meios de combate, atacando o inimigo quando ele se tornou vulnerável ao abandonar os seus redutos defensivos, com uma vantagem de efectivos de 5 para 1, em condições de combate em que a superioridade tecnológica dos franceses não conseguiria colmatar a desproporção. Os números são discordantes, mas é razoável estimar que, dos 6.000 homens engajados do lado francês, só 10% (600) conseguiram chegar à região controlada; outros 20% foram aprisionados e os restantes 70% foram dados como mortos e desaparecidos. Apesar da vitória, o Viet Minh sofreu 30% de baixas entre os 30.000 homens engajados.

14 outubro 2020

OUTRA BOMBA DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Nem de propósito: no mesmo dia em que evoco os 80 anos da explosão na estação de metro de Balham, é notícia internacional a descoberta e posterior explosão (acima) de uma enorme bomba britânica da Segunda Guerra Mundial. Com um peso total de 5,4 toneladas e contendo 2,4 toneladas de explosivos, a bomba - de um tipo alcunhado de tallboy - fora usada em 16 de Abril de 1945 contra um cruzador pesado alemão, mas falhara o alvo e o propósito: não detonara. Permaneceu esquecida no fundo de um canal a uns dez metros de profundidade pelos 74 anos seguintes, até ser redescoberta em Setembro de 2019, aquando dos trabalhos para aprofundamento do canal. Foi nas operações para remoção da bomba que algo terá corrido mal e, em vez da explosão controlada e limitada que se previra, houve a explosão ao bom velho estilo WW2 das imagens acima. Esta explosão da bomba esquecida é também acompanhada de uma boa metáfora da situação dos sítios onde foi descoberta: se as notícias a dão como tendo sido descoberta na Polónia, as explicações são parcas para o facto de que, quando a bomba foi lançada, o foi sobre a Alemanha. O canal e as regiões adjacentes à cidade de Stettin/Szczecin foram territórios cedidos pela Alemanha à Polónia depois do final da guerra. De uma outra forma, metafórica, a controvérsia sobre a posse daquelas paragens, é uma outra bomba submersa com 75 anos de idade de que raramente se fala, esperando-se que a Alemanha não volte ao assunto e que nunca expluda...

O AUTOCARRO QUE A «BLITZ» ENGOLIU

14 de Outubro de 1940. O bombardeamento continuado, predominantemente nocturno, das cidades do Reino Unido pela Luftwaffe - a «blitz» - começara há pouco mais de um mês. A população estava ainda a habituar-se à rotina de, ao entardecer, se recolher aos abrigos que, no caso de Londres, numa maioria das vezes, se localizavam nas estações subterrâneas do metropolitano. Quis o acaso que, pelas 20H02 de há precisamente oitenta anos, uma bomba alemã de 1.400 kg tivesse caído e explodido precisamente por cima de uma dessas estações londrinas, a de Balham. A capacidade destrutiva da explosão acabou por ser ampliada pela cavidade que estava por baixo, destruindo as tubagens da água e dos esgotos que, para além dos aluimentos de terra, inundaram a estação onde muita gente se refugiara. Na confusão que se seguiu, mais de 400 pessoas conseguiram sair da estação destruída, contudo morreram entre 64 a 68 pessoas, a maioria das quais, afogadas. Mas a imagem deste desastre, que virá a ser também uma das fotografias mais simbólicas da blitz ainda estava para acontecer: passados alguns minutos, e por causa do «blackout» obrigatório (processo de reduzir a iluminação ao mínimo para não orientar os aviões inimigos), um enorme autocarro de dois andares precipita-se no meio da escuridão na cratera formada pela explosão da bomba. Paradoxalmente, este último episódio não irá causar vítimas, mas a presença do veículo afundado nas fotografias - a de cima, excepcionalmente, é a cores - dá uma outra dimensão à extensão dos estragos. Tornar-se-á uma das fotografias mais emblemáticas daqueles tempos difíceis, a que há que acrescentar ainda o pormenor irónico da publicidade lateral à compra de títulos de guerra (war bonds) no autocarro tresmalhado (abaixo, uma fotografia dele, um bocado desconjuntado, depois de içado da cratera). Desnecessário dizer, aquele trecho de metro ficou inutilizado mas a estação de metro de Balham viria a reabrir três meses depois.

13 outubro 2020

AS LEITURAS DA JORNALISTA

Quiseram os algoritmos da inteligência artificial do facebook que eu tivesse chegado à página de uma das jornalistas que se destacou pelo jornalismo de opinião. E, por esta vez, o autor deste blogue, onde impera o escárnio e imenso mal dizer, como as cantigas medievais de outrora, faz aqui um compasso, para registar o agrado como encontrou um dos livros das leituras da jornalista Ana Sá Lopes. Diga-se, de antemão, que sempre tem sido para mim um mistério o que qualifica aquela classe de jornalistas - de opinião - para o serem, para além do facto de escreverem normalmente bem. Mas a opinião, ou melhor, assumirem-se como a melhor opinião, pressupõe outros predicados que não apenas a nota artística - para a distinguir da nota técnica, como acontece com os patinadores do gelo. Ora sobre essa nota técnica, em que alicerces se fundam as opiniões que vamos lendo, os resultados, quando não são omissos, são desoladores. Costumam ser, com muita frequência, a opinião do gajo do café, só que o gajo do café sabe escrever bem. Descobrir, no caso, Ana Sá Lopes a ler esta biografia de Clement Attlee (publicada em 2016) foi uma agradabilíssima surpresa. É uma salutar diferença da prática dos seus colegas opinion makers e daqueles que o ambicionam ser - influencers - nas redes sociais, que normalmente ou confessam estar a ler o que está a bombar e na moda (por exemplo este Cavaco Silva não quer ser esquecido), ou então qualquer outra coisa que consideram sofisticado porque antigo e rebuscado (estar a ler Da Democracia na América, de Alexis de Tocqueville de 1835, é um excelente exemplo dessa atitude - experimente-se e descobrir-se-á que aquilo é soporífero demais para ser lido com gosto...). Pois bem, a biografia de Clemente Attlee é completamente diferente dessas duas versões. É recente. O biografado nem sequer é daqueles que todos têm curiosidade de ler uma biografia, como serão os casos de Churchill ou de Lenine (e por isso as há, às mãos cheias, biografias destes últimos). E, por outro lado, para além do que revela a escolha do protagonista, há também aquilo que ele representou politicamente. O trabalhismo britânico vive tempos difíceis de identidade, depois de Tony Blair ter passado por (1994-2007). A Terceira Via de Anhony Guiddens revelou-se, depois de passada a moda, num verdadeiro beco sem saída ideológico. Retroceder e ir à procura nas origens do trabalhismo no poder e de outro sentido de missão da esquerda democrática também demonstra uma curiosidade intelectual da jornalista que se regista elogiosamente. Em terceiro lugar, e como certificado adicional de confiança, percebe-se que o livro esteve a ser lido a compasso, com as entradas a seu respeito a aparecerem intercaladas (25 de Agosto, 21 de Setembro, 7 de Outubro), ao contrário dos vultos da nossos intelectualidade que se reclamam capazes de despachar muitos livros, ao mesmo tempo, e a velocidades de leitura estonteantes. Mesmo e sobretudo se escritos em estrangeiro, como é o caso desta biografia de Clement Attlee. Por tudo isto, as eventuais discordâncias que eu possa ter com Ana Sá Lopes a respeito da pessoa e da carreira de Clement Attlee podem classificar-se disso mesmo, discordâncias, já que ambas se alicerçam nas mesmas leituras. Nos tempos que correm, nunca é demais enfatizar a diferença entre uma opinião - que, como um olho do cu, todos têm - e uma opinião. É inegável que vou passar a prestar muito mais atenção ao que Ana Sá Lopes escreve. (Acima, as fotografias publicadas pela jornalista no seu facebook são as da capa, da página 247 e do verso da capa da biografia de Attlee).

MODAS DA DÉCADA DE SETENTA

13 de Outubro de 1970, terça-feira. Uma das páginas interiores do inevitável Diário de Lisboa anuncia a estreia no cinema Monumental de um filme que, apesar de banal, se irá consagrar por ser o percursor de um género muito popular ao longo da década que então começava: o filme catástrofe, neste caso, a catástrofe aeronáutica. Este ainda só se chama aeroporto, mas irá ser seguido pelos aeroportos 75, 77, 80,... O estilo é sempre o mesmo: um grandioso elenco de actores (note-se a coluna à direita do anúncio acima), um prolongado preâmbulo apresentando todas as personagens, uma viagem de avião que começa normal, até tudo se complicar, para se resolver no fim pelo melhor. O melhor filme desta série acabará por ser, ironicamente, uma paródia a eles denominada aeroplano!.
Na mesma página, do lado direito, assinalada a laranja, um outro fenómeno, este musical, também ele destinado a vingar naquela década de setenta, mas noutras paragens culturais: os cantautores espanhóis. Em Portugal já se haviam consagrado a excelência dos baladeiros por via do programa televisivo Zip-Zip, que depois se virão a consagrar como cantores de intervenção depois do 25 de Abril. Em Espanha ocorria um fenómeno semelhante, aprecie-se abaixo o video original de apresentação dos Aguaviva, o mesmo conjunto que é promovido naquela página para duas aparições no teatro Villaret, depois de uma aparição da TV portuguesa, precisamente no programa que sucedera ao Zip-Zip. Este último vídeo o tempo tornou um bocadinho datado, um eufemismo para insuportavelmente foleiro.

12 outubro 2020

EVOCANDO KHRUSHCHEV MAS PARA LEMBRAR O REAPARECIMENTO DOS «BRONCOS» NOS GRANDES PALCOS INTERNACIONAIS

12 de Outubro de 1960. Creio que não vale a pena voltar a mencionar no Herdeiro de Aécio o episódio do sapato de Khrushchev, utilizado pelo próprio como instrumento de percussão e perturbação em plena assembleia geral da ONU há precisamente 60 anos: já em 2009 aqui me havia referido a esse episódio que vive mais da reputação de ter acontecido do que de provas documentais (escassas) que tivesse mesmo acontecido (acima). O que em 2009 ainda não existia era um outro episódio, ocorrido em 2018, na sessão desse ano dessa mesma assembleia da ONU e que tem um significado tão simbólico e supérfluo quanto o do sapato do russo, quando o presidente americano arrancou umas sonoras - mas não previstas... - gargalhadas de troça da assistência, enquanto se auto-elogiava até às raias do absurdo no discurso que então proferia. Um e outro foram, nas respectivas alturas, qualificados de broncos. As assembleias gerais da ONU já viram muitos, mas a importância dos países que ambos dirigiam deu uma ressonância particular a qualquer um dos episódios. Reconheça-se que o prestígio desses países não terá caído acompanhando directamente o prestígio internacional dos próprios, mas não se pode dizer que os seus comportamentos naquele foro internacional tenham ajudado a consolidá-los.

O ATENTADO CONTRA O USS COLE

12 de Outubro de 2000. Um navio de guerra norte-americano, o destróier USS Cole, é atacado por um comando suicida embarcado, que se fez detonar junto ao navio, quando este fazia uma escala técnica no porto iemenita de Áden. A explosão provocou 17 mortos e 39 feridos numa guarnição (teórica) de 338. Claro que a operação se revestiu de muito mais impacto do ponto de vista político do que do militar: o inimigo que reivindicava o atentado era a al-Qaeda, um grupo terrorista islâmico internacional pouco conhecido e que só viria a ter o seu grande momento de glória dali por quase um ano. Em contrapartida, e do ponto de vista naval, os Estados Unidos tinham e planeavam vir a construir 88 navios idênticos ao USS Cole (a classe Arleigh Burke). O atentado representaria um destróier a menos, e nem isso, que os estragos se mostravam reparáveis. A supremacia naval americana não é beliscada pelo atentado, mas as imagens que correm o mundo com o buraco de mais de dez metros de diâmetro a bombordo afectam a imagem do seu poder, a ponto de terem sido dadas instruções para que o local do impacto fosse coberto (acima e abaixo). Este é um dos vários problemas destes conflitos de baixa intensidade e assimétricos.
Outro dos problemas é que, nestas circunstâncias e quando a necessidade aperta, a esmagadora maioria dos países são aliados dos Estados Unidos, mas os militares dos Estados Unidos sabem que há «uns que são mais aliados do que os outros». No caso concreto destes acontecimentos do USS Cole, e por muito amigos que fossem iemenitas e sauditas, o primeiro navio aliado a prestar assistência foi a fragata britânica HMS Marlborough e os americanos preferiram evacuar e tratar os feridos recorrendo aos meios que as forças armadas francesas estacionadas no vizinho Djibuti colocaram ao seu dispor. O atentado cumpriu o seu ciclo noticioso, acompanhado das previsíveis críticas à administração Clinton e apelos para uma retaliação - com que formato concreto? Quando essa retaliação teve lugar, e um drone da CIA liquidou com um missil alguém que se suspeitava ter sido o mentor do ataque, passados mais de dois anos (Novembro de 2002), já o assunto passara de moda, submerso pelos acontecimentos de 11 de Setembro de 2001. Transportado desde o Iémen até aos Estados Unidos num navio apropriado para o efeito (abaixo), o USS Cole esteve catorze meses em reparação até regressar ao serviço.