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09 janeiro 2022

QUANDO A ALBÂNIA APARECE NOS NOTICIÁRIOS...

...raramente é por uma boa razão. O país passou do comunismo para o capitalismo, mas continua a ser o mais atrasado da Europa, e esta história que nos é contada pelo canal Euronews não se me afigura lá muito convincente (faz mais sentido tratar-se de uma guerra entre facções rivais, em vez d«o descontentamento pelas lutas internas no partido»...). Sobretudo, torna-se-me irresistível relembrar os outros tempos em que a Albânia era conhecida por um eremitismo marxista-leninista caricato, de propaganda bombástica, ridícula e kitsch. Se já foi um absurdo ter continuado a acreditar no comunismo em versão soviética à medida que os indícios contrários se acumulavam, foi preciso ter-se sido mesmo muito estúpido para ter acreditado nesta outra versão recôndita.  
(O postal evocativo pertence originalmente ao blogue Verão Quente e outras Estações)

11 dezembro 2020

A QUEDA DO COMUNISMO NA ALBÂNIA

11 de Dezembro de 1990. Se há trinta anos os países comunistas do Leste estavam atrasados quando em comparação com o resto da Europa, a Albânia destacava-se de entre eles por ser um país (também) comunista que estava ainda mais atrasado do que os outros países comunistas. Ali, até o comunismo caiu com atraso... e não caiu (inicialmente) com estrondo. Foi, como se pode apreciar pela fotografia acima, tudo muito civilizado: o líder comunista Ramiz Alia (ao centro do lado esquerdo da foto), ladeado de dois lugares tenentes entretanto caídos no esquecimento (Lisen Bashkurti e Skënder Gijnushi) teve uma amena conversa com aqueles que são descritos na legenda da fotografia por «dirigentes estudantis e jovens professores» onde se ficou a saber que «o pluralismo fora legalizado». E pronto, apesar de por cá haver quem fizesse e tivesse feito propaganda afirmando que a Albânia era um país bestial (abaixo), assim se findaram 46 anos do papel dirigente e exclusivo do partido comunista em terras albanesas. Como de costume, a nossa comunicação social não aproveitou devidamente a ocasião para ir colher a opinião de todos esses cómicos que achavam ou haviam achado a Albânia um país «farol do socialismo», cómicos esses que, quase todos, ainda hoje andam por aí à solta, ainda por cima a pregar moral aos outros...

13 julho 2020

...E HAVIA AINDA AQUELES QUE HAVIAM DITO QUE O MELHOR SOCIALISMO ERA O DA ALBÂNIA...

13 de Julho de 1990. Em Portugal, a vergonha embaraçada pelo colapso generalizado do socialismo por todo o lado era um privilégio do PCP e dos comunistas, mas não era um exclusivo deles: havia também a UDP e o seu escol de militantes presentes e passados (Acácio Barreiros, Esther Mucznik, António Perez Metelo, José Mariano Gago, Nuno Crato, Jorge Coelho, João Carlos Espada, Henrique Monteiro, José Manuel Fernandes, Mário Tomé, Luís Fazenda) que alardeara como modelo preferível ao soviético o socialismo albanês. Albânia que, como se vê acima, nesta edição de há trinta anos do Diário de Lisboa e numa notícia de primeira página, fazia agora uma triste figura marxista-leninista, como produtora de refugiados que abandonavam o tal de paraíso em levas que a fotografia abaixo tão simbolicamente documenta. É verdade que a esmagadora maioria dos nomes acima mencionados já então se passeavam por outras paragens políticas, mas recordo-me perfeitamente como, já na altura, se percebia que qualquer deles, mesmo os que haviam saído e por muito que então fingissem que já não tinham nada a ver com o assunto, não escapavam a uma carimbadela na testa, pela ingenuidade das suas ingenuidades políticas da juventude.

29 novembro 2019

O DIA DA «LIBERTAÇÃO» DA ALBÂNIA

29 de Novembro de 1944. Foi a data escolhida pela Resistência albanesa para considerar o seu país definitivamente liberto da ocupação das tropas alemãs, data essa que posteriormente veio a ser comemorada como o Dia da Libertação (Dita e Çlirimit em albanês). Assemelhando-se em muitos aspectos aos outros movimentos de Resistência balcânicos, casos do jugoslavo ou do grego, também o albanês aparecia totalmente tutelado pelo partido comunista local. Alcançado o poder, os comunistas albaneses iriam construir um estado que se tornaria célebre por ser, simultaneamente, e durante os 45 anos que se seguiriam, o país mais isolado da Europa e também o mais pobre. E no entanto... Sempre me intrigou como a proclamada pureza ideológica - e que tanto encantou tantas luminárias da UDP durante os tempos do PREC, mas essa é toda uma outra história... - do regime albanês tivesse à sua frente uma pessoa com a aparência castiçamente jovial do seu grande líder Enver Hoxha (1908-1985). Ao contrário da forma tipicamente façanhuda como os dirigentes dos partidos comunistas aparecem fotografados, nestas fotografias: a de cima datada dessa época, onde podemos apreciar um Enver Hodxa que se distingue dos demais pela expressão, por não assumir uma pose marcial, por ter a túnica aberta, por ser o único a fumar; e na de baixo, de tanta descontracção no cerro do punho, até parece ser um marxista-leninista menos compenetrado. E era esta pessoa, que tomaríamos à primeira vista por um bacano, a face de um dos regimes comunistas mais herméticos e repressivos de sempre!

07 abril 2019

A INVASÃO ITALIANA DA ALBÂNIA

7 de Abril de 1939. A Itália invade a Albânia. A resistência albanesa colapsará em poucos dias e o país é anexado. No campeonato dos amores próprios ofendidos dos ditadores belicistas da Europa, é desta forma que Mussolini responde a Hitler, que se esquecera de o avisar das suas intenções de invadir a Boémia e a Morávia, ou ainda de recuperar Memel à Lituânia. Ainda faltam cinco meses para a eclosão da Segunda Guerra Mundial, mas este acompanhamento compassado destes momentos de uma diplomacia cada vez mais musculada permite perceber melhor como o Grande Conflito não foi sentido pelos observadores como um inesperado balde de água fria, antes como uma progressiva entrada numa banheira de água a escaldar.

12 janeiro 2016

HÁ PRECISAMENTE CEM ANOS...

Depois de finalmente derrotado pelas invasões conjugadas da Áustria, Alemanha e Bulgária (setas vermelhas) numa campanha que durara pouco mais de dois meses (entre Outubro e Dezembro de 1915), o exército sérvio - recorde-se que fora nos Balcãs e por causa da defesa da Sérvia que começara a Primeira Guerra Mundial - acabou por retirar para a Albânia (tracejado laranja), país neutral no conflito. Segundo as Leis Internacionais, os combatentes sérvios deveriam ter sido desarmados e deveriam ter permanecido internados na Albânia até ao fim do conflito. Mas não foi propriamente isso que se passou...
A 12 de Janeiro de 1916 começaram os embarques dos cerca de 150.000 soldados sérvios no porto albanês de Durrës (que a Itália ocupara preventivamente no ano anterior...) numa frota de navios fretados por franceses, britânicos e italianos para os transportar (seta laranja) para a ilha grega de Corfu (assinalada a branco), onde seriam reequipados para os reengajar no combate contra as Potências Centrais, pela libertação do seu país ocupado. Vale a pena acrescentar que também a Grécia era então um país neutral, embora as potências aliadas tivessem disposto da ilha ignorando por completo a soberania grega.
Estes são aqueles episódios das grandes guerras que se tornam esquecidos mas não apenas por não terem grande relevância para a sua evolução e desfecho. Esquecem-se e/ou são citados superficialmente porque demonstram o quanto, nessas situação de conflito, os beligerantes tendem a não se preocupar com princípios morais. Só a História do conflito (a ser escrita posteriormente) irá distinguir os atropelos à legalidade de cada uma das partes, evidenciando os praticados pelos vencidos, esquecendo convenientemente - é o caso - os dos vencedores. O Direito Internacional é um conceito tão relativo que chega a ser pertinente perguntar se existe...

01 dezembro 2014

OS DESCENDENTES DOS DISCÍPULOS DE ENVER HOXHA E UMA EVOCAÇÃO A RÁDIO TIRANA

A Albânia é um pequeno país europeu, com cerca de 3 milhões de habitantes (ou seja, menos de ⅓ de Portugal) e indicadores económicos e sociais que a colocam – a ela sim – na cauda da Europa. Já assim era há 40 anos mas a aura de que então gozariam as ideologias e o facto de ali vigorar um regime que era uma dissidência de outra dissidência (maoista) do comunismo soviético, parecia conferir àquele país uma capacidade de gerar uma empatia entre a juventude portuguesa para-revolucionária do pós 25 de Abril que era absurdamente desproporcionada para a sua real importância estratégica. Esse conjunto de jovens determinados a aplicar por cá experiências sociais de sucesso (acima) vindos daquelas paragens estavam agrupados numa organização denominada UDP (União Democrática Popular), onde militaram nomes proeminentes da actualidade: Jorge Coelho, João Carlos Espada, José Manuel Fernandes, Henrique Monteiro ou Esther Mucznik serão apenas alguns nomes de um elenco riquíssimo de antigos admiradores da sociedade edificada na Albânia pelo partido comunista dirigido por Enver Hoxha, elenco esse que até se encontra representado ao mais alto nível no actual governo pela pessoa de Nuno Crato, o ministro da Educação (foto abaixo).
Saber-se por onde andaram todas aquelas figuras nos seus anos loucos de juventude servirá para que se reduza às devidas proporções muito daquilo do que agora dizem e escrevem, sobretudo se o enquadrarmos pelo percurso de cada um desde aqueles anos tresloucados, em alguns casos a paixão e o estilo são até os mesmos, o objecto da dita paixão é que se situa agora nos antípodas ideológicos. Mas isso é a história dos que saíram. Porque há a história dos que ficaram: como uma daquelas telenovelas radiofónicas que, passado o período do apogeu de popularidade e da saída das estrelas que lha conferiam, se insiste em manter no ar, também a UDP ainda sobrevive na figura de uma associação política que faz parte, por sua vez, do conglomerado que constitui o Bloco de Esquerda. Nestes dois últimos fins-de-semana, a associação política esteve em vias de conseguir conquistá-lo, ao Bloco, por dentro. Falhou, mas para que isso acontecesse, os outros tiveram que engendrar uma solução que é um disparate – 6 coordenadores?! Como é que se coordena seja o que for a seis vontades, ainda que a uma só voz? Mas, enquanto a Heidi tentava ontem explicar a razoabilidade da solução na conferência de imprensa, não me impedi de olhar para eles, lá atrás, patibulares como os seus antepassados – que a revolução sempre foi uma coisa muito séria! – e perguntar-me, nostálgico, quantos deles reconhecerão o velho indicativo de Rádio Tirana¹?

¹ Era uma estação de rádio em onda curta que, naqueles meios e nos idos anos de 1975, era chiquíssimo, quase obrigatório, dizer-se que se ouvia. Ficou famoso um aviso seu, a propósito das intenções maléficas de uma esquadra da NATO que se aproximava das costas portuguesas. Simbólico dos tempos, o anúncio era acompanhado de um apelo para uma concentração no Terreiro do Paço para a defesa de Portugal – provavelmente porque ficava ali mesmo à beira-rio, impedia-se a esquadra de desembarcar...

23 agosto 2013

A IMPORTÂNCIA DA ALBÂNIA PARA CONFERIR UM TOQUE «CHIC» AO MOVIMENTO «SOIXANTE-HUITARD”

Quando em 2068 se celebrar o centenário dos acontecimentos de Maio de 68 em Paris, uma imagem daqueles dias como a que se aprecia acima, fotografada por Janine Nièpce (1921-2007), ter-se-á transformado provavelmente num enigma. A fascinação manifestada pelos jovens franceses da época por um país insignificante e longínquo como a Albânia, tutelado por um regime isolacionista e repressivo como o de Enver Hoxha (1908-1985), arrisca-se a ser considerada um capricho de uma geração mimada.

11 maio 2012

O 25 de ABRIL n'A ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA

Ainda na ressaca da recusa dos membros da Associação 25 de Abril em estarem presentes nas cerimónias oficiais alusivas àquela data este ano, vale a pena recordar este cartaz eleitoral que a UDP afixou durante a campanha para uma das eleições legislativas da década de 1980. Reclamando serem eles a levar o 25 de Abril para a Assembleia, não me recordo se Vasco Lourenço e os seus camaradas se terão à época sentido compelidos a demarcar-se publicamente de um partido que promovia um projecto totalitário que se inspirava ideologicamente no regime albanês(!), como recentemente o fizeram. Ou será que aquilo que se conhecia dos pensamentos (e práticas) de Enver Hoxha respeitava (e se assemelhava a)os conteúdos programáticos da Constituição nascida com a revolução dos cravos?

09 julho 2010

MULTIDÕES À BEIRA MAR

Haverá várias fotografias (a original terá sido tirada em Coney Island nos Estados Unidos em 1940), com o mesmo tema da de cima, em que se vê uma densa multidão à beira-mar na praia. Impressionam porque confirmam que, mais do que restrita à questão das relações laborais, a questão da massificação tornou-se um fenómeno cultural e as pessoas tendem a adquirir os mesmos gostos e a passar os seus tempos de ócio da mesma maneira. Aliás, no final de tarde do próximo Domingo, à frente de um televisor assistindo à final do Campeonato do Mundo de futebol, mais uma vez isso tornar-se-á a confirmar…

Há uma outra fotografia famosa em que o tema é também uma multidão à beira-mar num dia de Verão (abaixo). Só que esta outra multidão não está ali propriamente em lazer, trata-se de refugiados albaneses a chegarem a Itália. Estava-se em 1991, o Muro de Berlim caíra, e alguns milhares de habitantes do paraíso albanês haviam sequestrado o navio para emigrarem para Itália, reatando as rotas marítimas seculares do Sul do Mar Adriático que a Guerra-Fria bloqueara. As imagens daquela e doutras fugas iriam acabar de vez com a militância dos comunistas ingénuos. Ficava a restar a dos comunistas devotos

17 outubro 2009

ALBÂNIA, A VANGUARDA DO SOCIALISMO

Não deixa de ser um enorme paradoxo que só depois do fim do socialismo e com o triunfo do capitalismo global (a tão celebrada e criticada globalização) é que eu tivesse tido oportunidade de assistir a alguns dos momentos mais memoráveis de celebração do verdadeiro socialismo de vanguarda, também designado modelo albanês, de que a UDP (União Democrática Popular) tanto nos falava elogiosamente no tempo do PREC.
Prosaicamente retirado dessa expressão do capitalismo internacional selvagem que dá pelo nome de You Tube, pode ver-se acima a primeira parte de um vídeo de cerca de hora e meia que se percebe ter sido dedicado tanto aos guerreiros da revolução como também ao 5º Congresso do Partido Comunista da Albânia que teve lugar em 1966. Na minha opinião, o melhor vídeo é o último da série, o da sessão de encerramento
Embora não perceba albanês, creio já ter adquirido experiência suficiente a ver documentários deste género para ter uma ideia do conteúdo... E, sinceramente, não só não lhes reconheço mérito quando comparado com o que então era cá produzido (acima, para comparação, o vídeo da inauguração da Ponte Salazar também de 1966), como até penso que, em documentários de propaganda, a vantagem seria portuguesa(*).
Visto a esta distância é impossível não passar um atestado de menoridade mental ou então questionar a honestidade intelectual de todos aqueles entusiastas da UDP que, nos tempos do PREC, terão sido brindados com estas sessões de propaganda e, mesmo assim, continuavam a afirmar-se crentes nas soluções (acima) que eram propostas para as tais sociedades ideais, anti-capitalistas, anti-revisionistas e anti-outras-coisas-mais...
Escolhi terminar com um vídeo das celebrações do 1º de Maio de 1971 em Tirana. Luís Fazenda(**) ia então fazer 14 anos... Em Junho do ano anterior a Albânia resolvera abrir-se ao turismo mas limitado apenas aos cidadãos da Alemanha Democrática. Mas como o programa turístico incluía a participação obrigatória na campanha da colheita de batata, o período de inscrições aberto em Berlim terminou sem que aparecesse algum interessado…
(*) Contudo, como só a verdade é revolucionária, há que constatar que o camarada Enver Hodja tinha muito mais jeito para discursar do que o nosso almirante Américo Tomás...
(**) Luís Fazenda é o dirigente mais destacado da facção herdeira da UDP dentro do Bloco de Esquerda.

08 janeiro 2008

O QUE FAZER A UM PRESIDENTE QUE NÃO TEM PRÉSTIMO

Recebi como prenda de Natal a 1ª Página do Diário de Notícias do dia do meu nascimento. Nela, o destaque vai para a cobertura à visita que o Presidente da República está a acabar de efectuar à Madeira. Vale a pena o detalhe. Entre outras preciosidades, no seu último discurso, o Chefe de Estado dizia que partia com a certeza de que para os habitantes daquelas ilhas a Pátria e os seus direitos não podiam ser discutidos. Tempos de pompa e trivialidades, ainda faltavam algumas décadas para aparecerem os calotes financeiros do Alberto João Jardim para se discutirem pátrias…
A agenda do presidente não parece ter sido muito carregada, e a redacção da notícia ressente-se disso, com o detalhe da visita ao Grémio das Indústrias dos Bordados da Madeira e a escrupulosa e fastidiosa descrição da composição da mesa de honra do banquete oferecido pelo Chefe de Estado. E porque Américo Tomás era almirante e marinheiro militante o regresso fez-se de barco (também é verdade que ainda não existia o aeroporto do Funchal…), demorando a viagem entre o Funchal e Lisboa, a bagatela de 31 horas!

Depois, regressemos ao presente e ficamos a saber que no seu último ano no cargo, o presidente Bush deverá sair da América como nunca fez até agora. Há uma visita ao Médio Oriente já em Janeiro, outra a África em Fevereiro, à Europa em Abril, ao Japão em Julho, vai aos Jogos Olímpicos de Pequim em Agosto. Se calhar, até podia ir de barco… A piada da notícia é que, segundo o que alguns analistas afirmam, passar mais tempo no estrangeiro servirá para compensação da actual baixa popularidade doméstica de George Bush…

Doméstica? Até ver, só os albaneses parecem gostar dele e mesmo assim já lhe gamaram o relógio…

12 maio 2007

O PAÍS A QUE CHAMAM FYROM

Por anos a fio, e até hoje em alguns casos (a União Europeia é um deles), a obstinação grega obrigou que uma das antigas unidades da federação jugoslava fosse designada pelo acrónimo bizarro de FYROM, que corresponde, em inglês, a Former Yugoslav Republic Of Macedonia (Antiga República Jugoslava Da Macedónia). A objecção grega está associada ao que os gregos consideram a sua posse histórica do nome de Macedónia, desde a Antiguidade e do reino de Filipe e Alexandre. Aliás, imediatamente ao Sul da república que se separou da federação jugoslava, existem três distritos gregos usando esse nome: a Macedónia Central, a Macedónia Ocidental e a Macedónia Oriental e Trácia.

O ministro dos negócios estrangeiros grego, quando enviado a Portugal no princípio do diferendo (1992) para nos conquistar para a sua causa, arranjou uma analogia bastante imbecil, envolvendo-nos com uma Espanha a decompor-se, numa demonstração que o trabalho dos membros da sua Embaixada em Lisboa tinha uma grande margem de progressão… A analogia envolvia a independência da província espanhola da Extremadura e do incómodo que isso nos causaria por causa da semelhança do nome desse país hipotético com a nossa província da Estremadura, que nem sequer lhe fica contígua… E, contudo, com o mesmo uso do hipotético teria sido bem simples e eficaz sensibilizar-nos: se a Andaluzia se separasse de Espanha e adoptasse o nome histórico de Algarve, como nos sentiríamos?...
Politicamente, Macedónia é uma designação cheia de potencial para se transformar numa tremenda trapalhada. Pode ser uma região histórica, sem significado actual, ou pode ser uma região geográfica, passível de ser organizada politicamente das maneiras mais diversas, pode também ser apenas um subgrupo cultural de entre os eslavos dos Balcãs, mas poderá ser uma verdadeira nação separada, será praticamente tudo o que dela quisermos fazer. Ao mesmo tempo, podem-se percorrer os países vizinhos (Sérvia, Bulgária e Grécia) e encontrar ali alguma unanimidade de opiniões em como não existem razões suficientemente válidas para que exista uma identidade macedónia própria que justifique a existência de um país independente.

A argumentação que sustenta a existência de um idioma macedónio autónomo é peça importante para a afirmação da existência de uma nacionalidade macedónia. Todos os idiomas eslavos dos Balcãs se assemelham e as várias formas faladas que se empregam na Macedónia tanto se distinguem entre si como das variantes empregues nas regiões adjacentes dos vizinhos da Sérvia e da Bulgária. Mas as referências usadas no macedónio literário aproximam-no daquelas que caracterizam o búlgaro, embora privilegiem os padrões do búlgaro empregue nas regiões ocidentais da Bulgária, enquanto o próprio búlgaro literário o faz com os padrões da Bulgária oriental, onde se situa Sófia, a capital.

A maioria dos macedónios são cristãos ortodoxos, organizados numa Igreja Ortodoxa Macedónia autónoma que foi recriada (ou criada, conforme as versões…) em 1958. Pôde-se notar o apoio discreto do governo federal jugoslavo na sua fundação e a Igreja Macedónia ainda hoje é proscrita na comunidade das Igrejas Ortodoxas. Existe uma minoria muçulmana, embora haja uma enorme certa complexidade em classificá-la: há os que são de cultura albanesa, outros são classificados como bósnios ou mesmo turcos e há ainda a categoria dos muçulmanos de cultura macedónia. Num exemplo flagrante como os resultados dos censos podem ser trabalhados, o último grupo cresceu de 1.600 pessoas no recenseamento de 1953 para 39.500 no de 1981…
Pelo que ficou escrito nos dois últimos parágrafos deste poste, é fácil perceber a importância da acção do governo jugoslavo do pós-guerra, chefiado por Tito, um croata, na promoção da constituição de uma nacionalidade macedónia distinta que enfraquecesse a Sérvia (a comunidade mais numerosa da Jugoslávia) e assim facilitasse o estabelecimento dos indispensáveis equilíbrios internos entre sérvios e croatas dentro da federação jugoslava. Foi uma manobra superiormente bem feita, porque, para além dessa componente de equilíbrio interno, a criação de uma nação macedónia neutralizou as aspirações da Bulgária que os queria considerar búlgaros além de que a escolha do nome se tornou uma potencial ameaça para a Grécia numa eventual disputa de um acesso para o mar…

Mas toda a beleza maquiavélica da criação da Macedónia assentava no pressuposto que ela continuaria a ser uma das unidades constitutivas de uma federação… Agora que se tornou independente, isolada do mar e rodeada de vizinhos hostis (Albânia, Sérvia, Bulgária e Grécia), a Macedónia é um verdadeiro problema político em potencial para a União Europeia, mais um par de botas balcânico, tipificado naquela proibição formal do país usar o seu próprio nome e na manutenção, ainda hoje, de um Quartel-General da NATO em Skopje, capital da Macedónia, não venha a acontecer qualquer coisa de inesperado…

09 abril 2007

OS ALBANESES

Estima-se que os Albaneses ou, mais precisamente, os seus antepassados, designados por Ilírios, apareceram nos Balcãs ocidentais, por volta do século XII a.C. De uma forma mais rigorosa, o que se pode dizer é que, a partir das evidências arqueológicas, se constata que existe uma ruptura significativa no material arqueológico encontrado nas escavações por volta dessa época. Quer os objectos encontrados, quer a própria estrutura dos túmulos, modificaram-se.

As análises dos historiadores do século passado enquadravam estes achados com uma descrição dos acontecimentos (e similares - como acontecia também com os povos gregos mais antigos) bastante viva: grupos tribais avançando metodicamente, vindos de norte, com os seus carros e os seus rebanhos, e eliminando a população residente. Actualmente, a perspectiva que se tem é menos dramática: a modificação nos métodos de enterro pode querer dizer uma modificação total da população, mas também pode apenas ser interpretada como a adopção de novos e melhores métodos, sem ser necessária a chegada de levas maciças de imigrantes.

Neste último cenário, a cultura antiga desaparece mas sem ser preciso explicar a extinção pela ocorrência de uma carnificina. Nos tempos mais recentes, constata-se que tanto o Cristianismo como o Islão penetraram em África, alteraram os hábitos religiosos locais, sem que se tivesse verificar uma substituição das populações locais. A população biológica permaneceu basicamente a mesma, foram os aspectos culturais da sua civilização que se modificaram.

Será possível, senão mesmo mais provável (entre duas opções, sem outros indícios materiais, é mais razoável – embora menos interessante – adoptar aquela que se revelar menos sangrenta), que algo de semelhante se tivesse passado nos Balcãs ocidentais do século XII a.C. Em consequência, os povos aí residentes (resultado de uma mistura em proporções desconhecidas entre residentes e recém chegados) adoptaram as práticas culturais que hoje os historiadores designam genericamente por ilírias.

Os testemunhos escritos que existem dos Ilírios são essencialmente indirectos: no período clássico grego, estes últimos identificavam como ilírios os povos vizinhos que habitavam a Norte e a Oeste do seus territórios europeus. Mas não existem registos escritos próprios dos Ilírios e torna-se necessário recorrer aos vestígios arqueológicos e às análises linguísticas para esboçar a sua história primitiva. A opinião mais consensual dos académicos é que, por essa altura, os Ilírios dominavam na região que é composta, actualmente, tanto pela Albânia como pela ex-Jugoslávia. Os seus descendentes permaneceram continuamente nas regiões montanhosas da moderna Albânia desde o Século XII a.C. até a actualidade, e nesse sentido, os albaneses podem reivindicar uma ascendência ilíria muito antiga. No resto do seu antigo território, houve outras culturas que vieram a tomar o seu lugar.
O albanês é um idioma indo-europeu, mas sem parentes próximos; acredita-se que seja a única língua sobrevivente dos diversos dialectos ilírios do passado. Algumas teorias atribuem-lhe um parentesco próximo com a língua etrusca, hoje extinta, usada na península italiana. Mas a análise linguística é aqui dificultada pelo facto do mais antigo documento escrito em albanês só datar de 1554 (ao contrário do que acontece com os idiomas eslavos, de que existem registos escritos bem mais antigos, para não mencionar já o caso do grego), o que deixa um campo aberto à especulação de como teria evoluído durante os 2.000 anos anteriores. A análise linguística fica assim muito condicionada à onomástica (o processo de formação das designações dos locais), à comparação das designações dos objectos de uso corrente e a um enorme esforço dedutivo a partir destes escassos dados. Mas é certo que, já no século IV a.C., os gregos e os ilírios só se podiam entender por intermédio de intérpretes, ao contrário do que acontecia, por exemplo, com os macedónios – que (afirmam os gregos), “maltratavam” a língua, mas não a ponto de a tornar incompreensível. Para além das diferenças no sucesso das suas carreiras como conquistadores, havia outras distinções profundas entre as figuras de Alexandre Magno e de Pirro.

A arqueologia é uma segunda fonte de informações para traçar a história dos albaneses. Existe uma evolução contínua e lógica nas práticas de enterro, no vestuário e nas demais formas de expressão cultural desde os anos do século XII a.C. até à Idade Média. Com base nisto, e complementado com a falta de registos em períodos históricos de uma significativa imigração de um grupo cultural distinto para aquela região, justifica-se existir um certo consenso à volta da opinião que os antigos Ilírios se transformaram nos modernos Albaneses.

A afirmação da Albânia como nação independente deu-se em 1912. A retirada do poder otomano acabou por deixar os antigos auxiliares preferenciais (como muçulmanos) do Império Turco, na situação ingrata de ter de defender o seu território contra a cobiça e a animosidade dos seus vizinhos eslavos e grego. O grau de preparação do novo país era lamentável – por força das regras internas do Império Otomano, a educação processava-se de acordo com a confissão religiosa, com os muçulmanos a aprenderem o alfabeto árabe, os ortodoxos, o grego, e os católicos, o latino. E o desenvolvimento económico seguia o mesmo padrão – a Albânia só inaugurou a sua primeira via-férrea em 1947...

Conhecendo este enquadramento histórico, que colocava a Albânia genuinamente na cauda da Europa* em índices de desenvolvimento, torna-se incompreensível (para além de poder ser descaradamente divertido, quando observado à posteriori) a relevância assumida pela Albânia na disputa ideológica no movimento comunista internacional, que arrastou consigo movimentos comunistas radicais por essa Europa fora (entre nós, houve a UDP, onde militaram tantas figuras interessantes da nossa actualidade política – Jorge Coelho, José Manuel Fernandes…) que consideravam aquela sociedade subdesenvolvida escondida por detrás de um muro de silêncio como a referência da sociedade socialista a construir… Para remate do disparate, vale a pena contar o episódio de época da abertura da Albânia ao turismo, em 1970, limitado no início aos cidadãos da República Democrática Alemã, onde não houve inscrições porque o roteiro estabelecido para a viagem impunha que o turista participasse, obrigatoriamente, na campanha da colheita da batata…
Os Albaneses ultrapassam hoje os cinco milhões. Mais de três milhões vivem na Albânia propriamente dita, e perto de outros dois milhões, dispersam-se pelas regiões adjacentes, o Montenegro (onde constituem 6,5% da população), a Macedónia moderna (onde são quase 20%), e a, recentemente muito famosa, região do Kosovo, onde estão em maioria (71% da população). Outras pequenas comunidades existem, quer no Norte da Grécia, quer no Sul de Itália, sendo esta última o resultado de um contínuo tráfego marítimo no sul do Adriático que nem o fechado regime comunista do pós guerra (1945-90) conseguiu interromper. Em termos históricos, durante o domínio otomano turco, por razões que presumivelmente se ligariam com a acentuação da sua distinção cultural, os albaneses converteram-se em massa ao Islão. Mas hoje, ainda existe uma minoria de confissão cristã (estimada em 30%), quer ortodoxa (a sul), quer católica (a norte), entre a comunidade de cultura albanesa. No entanto, a política anti religiosa seguida pelo regime comunista (1945-90), transformou qualquer análise sobre as confissões religiosas dos albaneses de estimativas em meras conjecturas. Os ortodoxos são apadrinhados e protegidos de uma forma não disfarçada pelo governo grego, que lhes dá um estatuto de gregos étnicos, que é mais descaradamente político do que sociologicamente verdadeiro.

É contudo importante referir que, por detrás da aparente homogeneidade com que um estrangeiro percepciona a cultura albanesa, existe uma forte clivagem entre duas comunidades distintas: os Ghegs, a norte, e os Tosks, a sul. Para além de usarem dois dialectos coloquiais diferentes (com uma evolução distinta de perto de 1.000 anos) que, por vezes, se tornam incompreensíveis entre si, a expressão das diferenças entre as duas comunidades extravasa para o vestuário tradicional, o folclore e os costumes em geral. Simplificadamente, embora a xenofobia e o isolacionismo seja uma característica comum à mentalidade albanesa em geral (note-se que a capital albanesa, Tirana, é uma cidade interior - mau grado as costas mediterrânicas e os bons portos que o país tem), pode-se definir a mentalidade Gheg como mais fechada sobre si mesma, enquanto que os Tosks representam uma linha mais virada para o exterior – o que é consubstanciado pelo facto das comunidades albanesas em Itália e na Grécia serem Tosks.

Apenas umas palavras finais em relação com a questão do Kosovo: a região tem uma importância histórica crucial para os Sérvios, devido às batalhas de resistência que ali foram travadas (embora perdidas) contra os invasores otomanos, no século XIV, e os sérvios já constituíram, no passado, uma fracção bastante significativa da população ali residente (embora como exemplo seja um pouco forçado, imagine-se Portugal a ceder a Batalha, os terrenos de Aljubarrota, o Mosteiro de Santa Maria da Vitória...); para os albaneses, conscientes da sua ascendência ilíria, isso não passa de alguns séculos, quando se compara com a sua presença de mais de 3.000 anos naquela região, um argumento que é reforçado pelo facto de, actualmente, serem ali maioritários, e de uma forma clara. Mas, ao fim e ao cabo, isto são apenas argumentos... Compete à política real dar-lhes a expressão conveniente. Parece apontar para a constituição de um segundo estado albanês, com a previsível independência do Kosovo, onde predominam os Ghegs. Mas iludem-se aqueles que esperam que essa decisão seja uma solução; é apenas uma evolução do mesmo problema para um novo patamar mais complexo…

* Por sistema, sempre que apareçam aquelas notícias de jornal mencionando indicadores em que se conclui sempre que Portugal está na cauda da Europa, verifiquem se eles são comparados com os da Albânia, Bulgária ou Roménia (entre outros países)... É que isso que raramente acontece para que não se estrague o teor depressivo do artigo…

04 abril 2007

A PEDIDO DE VÁRIAS FAMÍLIAS…

Suspeito que haverá alguns professores maldosos no Brasil que encarregaram os seus alunos de fazer trabalhos sobre as religiões existentes nos territórios que outrora formaram o Império Romano do Oriente. Não exagerarei quando disser que já encontrei pelo menos uma dezena de visitantes que aqui vieram ao blogue à procura especificamente dessa informação. E, em atenção a essas variadas famílias brasileiras aí vai uma pequena história do Império Romano do Oriente e das suas religiões actuais.

Se a história é – como qualquer poste de blogue – necessariamente breve, a duração do Império não o é. O Império Romano do Oriente, que corresponde à metade oriental do Império Romano conforme se observa no primeiro mapa, teve uma duração que superou os 1.000 anos: de 395 d.C. até 1453 d.C. Para os padrões medievais europeus era um estado de uma complexidade e sofisticação muito avançada, assente em três parâmetros identificativos: direito romano, cultura grega e religião cristã ortodoxa.

Mas não começou assim. Ao princípio, logo depois da separação do Ocidente (e da subsequente queda deste) era um verdadeiro Império, aglomerando a heterogeneidade e rivalidade das três grandes regiões que, mesmo assim o compunham, cada qual com a sua metrópole: o Egipto e a sua capital Alexandria, o Oriente e a sua grande cidade comercial, Antioquia, e finalmente os Balcãs e a Ásia Menor, conectados pela grande capital do Império, Constantinopla.
Cada uma daquelas três regiões, embora a maioria da população se tivesse tornado cristã, acabaram a distinguir-se entre si por ela professar ritos religiosos distintos: designados por coptas no Egipto, por jacobitas na Síria e por ortodoxos em Constantinopla. E, mesmo quando o Império Romano se reexpandiu para Ocidente no reinado de Justiniano no Século VI (mapa acima), a anexação ainda adicionou o catolicismo romano àquele, já complexo, puzzle religioso.

As divergências acabavam por não representar nada de substantivamente diferente quanto ao essencial da mensagem cristã (tal qual havia sido definida no Concílio de Niceia em 325). Mas, quando são utilizadas para fins políticos, as pequenas diferenças doutrinárias podem parecer abismos impossíveis de transpor: vejam-se, por exemplo, as rupturas no movimento comunista internacional do Século XX entre leninistas, trotskistas ou maoistas. Algo semelhante aconteceu naquela época, só que associado à natureza de Cristo e à procedência do Espírito Santo

A disputa política – disfarçada de teológica – foi levada a extremos tais dentro do Império Romano do Oriente que frequentemente Alexandria e Antioquia, como capitais regionais, procuravam ser neutrais nas disputas de Constantinopla com os seus inimigos externos, quando não mesmo se opunham aos interesses do centro do Império. E no Século VII, por ocasião da expansão islâmica, a adesão dos cristãos não ortodoxos à nova ordem dos invasores foi maciça, onde passaram – convertidos à nova fé ou não – a constituir a maioria dos quadros não militares.
Havendo vantagens materiais para o fazer, normalmente nunca houve coacção para que houvesse uma conversão do cristianismo para o islamismo entre as populações dos países que hoje são o Egipto, a Jordânia, Israel, o Líbano ou a Síria. Ela foi-se processando gradualmente. Actualmente em todos eles (com excepção de Israel, cujo povoamento é resultante da imigração maciça moderna de judeus, mas a realidade entre a população palestiniana é idêntica à dos outros países mencionados) há minorias cristãs, que podem variar entre os 5 (Jordânia) e os 35% da população (Líbano). Mas a sua proporção tem vindo a baixar no último século, porque a tendência para emigrar é muito superior entre os cristãos: na Síria, por exemplo, a proporção de cristãos baixou de 17% (1958) para 10% (2001).

Regressando ao passado, o Império Romano conseguiu a proeza notável de resistir ao impacto da expansão islâmica (acima) que alcançou tanto a França como a Índia, embora ficasse mais reduzido em extensão, mas com a vantagem de ser tornado muito mais coeso, englobando apenas a Ásia Menor e as regiões europeias, onde apenas predominava o cristianismo ortodoxo. As maiores pressões que o Império passou a sofrer vinham agora das regiões europeias, onde os povos eslavos (búlgaros, sérvios) estavam a procurar criar estados de confissão ortodoxa mas independentes da tutela imperial de Constantinopla.

Da batalha de Manzikert (1071), travada no século XI entre romanos* e turcos, ficou o simbolismo do início da perda progressiva da influência do velho Império nas regiões da Ásia Menor perante a constante pressão dos povos turcos, de religião islâmica. Mas também a população local, sujeita ao poder turco, se foi convertendo progressivamente. Nos últimos grandes momentos do Império (meados do século XIII - abaixo em azul), ele agrupou-se à volta do Mar Egeu, tanto nas suas costas europeias (onde se situa a Grécia moderna) como nas asiáticas, numa disposição parecida com a do período áureo da civilização da Grécia Clássica**.
O Império Romano do Oriente extinguiu-se quando Constantinopla foi tomada pelos turcos em 1453, enquanto o Império Otomano por eles fundado continuou a expandir-se pela Europa balcânica convertendo alguns dos povos conquistados (albaneses e bósnios) à religião muçulmana. O retrato religioso do Império Otomano (abaixo a sua configuração no apogeu de 1580) que, em mais do que um aspecto, pode ser considerado sucessor do Império Romano do Oriente, é bastante complexo, com cristãos e muçulmanos coexistindo em todo os lados, os primeiros geralmente em maioria na Europa, os segundos na Ásia.
Só no princípio do Século XX, através de um gigantesco (e pouco divulgado) processo de transferência recíproca de populações a Grécia e a Turquia modernas adquiriram uma verdadeira homogeneidade religiosa – assunto aqui tratado num poste anterior. De resto, todos os outros países que pertencem a regiões que fizeram parte outrora do Império Romano do Oriente ainda aqui não mencionados, quando são maioritariamente cristãos (Sérvia, Bulgária, Chipre) têm minorias muçulmanas, e quando são maioritariamente muçulmanos (Albânia), têm minorias cristãs.
Como é que é? Deu ajuda no trabalho? As respostas podem endereçar-se para o meu correio: herdeirodeaecio@hotmail.com

* Note-se que entre os historiadores ocidentais se criou o hábito de designar os romanos por bizantinos, para fazer esquecer que eram eles eram os verdadeiros e legítimos – sem interrupções! – herdeiros das instituições políticas romanas. Aliás, árabes e turcos, para quem essas controvérsias eram irrelevantes, designavam os habitantes do Império colectivamente pelo nome de Rum.
** Uma fracção apreciável das cidades da Grécia clássica – a começar pela famosa Tróia – situa-se na actual Turquia ocidental.