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07 julho 2024

MODERAÇÃO NO IRÃO

No caso do desfecho das recentes eleições presidenciais iranianas, a melhor moderação que se pode aplicar é às expectativas que se queiram fazer sobre a eleição de um presidente considerado... moderado. Isso já havia acontecido há onze anos (notícia da esquerda) e nada mudou de substantivo no Irão. E nada mudará porque o poder de facto pertence ao Supremo Guia Espiritual Ali Khamenei, que sucedeu originalmente ao Aiatolá Khomeini e que detém o verdadeiro poder no Irão desde há já 35 anos. Convém ter presente que nestas eleições presidenciais iranianas não é o verdadeiro poder que está em disputa. Assim como acontece também nas eleições legislativas francesas, já que o assunto vem a propósito...

15 abril 2024

TENHO 99% DE CERTEZA QUE OS 99% DE TAXA DE SUCESSO NAS INTERCEPÇÕES DOS MÍSSEIS IRANIANOS SÃO UMA ALDRABICE

Embora o assunto seja completamente distinto, estes 99%, que foram compilados com tanta celeridade - ainda os mísseis e os drones iranianos mal tinham acabado de atingir Israel, inteiros ou aos pedaços - estes 99%, escrevia, fazem-me lembrar os escrutínios de eleições em locais tão confiáveis quanto a Coreia do Norte. Há números - o 7 e 99% são dois deles - que têm uma mística muito própria...

20 março 2024

A PREMATURA PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA NA PÉRSIA

20 de Março de 1924. É apresentado à votação no parlamento persa (Majlis) uma resolução a respeito da questão do regime: monarquia ou república. Convém esclarecer os leitores que a questão era mais formal do que substantiva: o homem forte da Pérsia era o primeiro-ministro Reza Khan, que alcançara o poder através de um golpe de Estado em Fevereiro de 1921. Para o que interessa, num episódio a que os jornais da época deram o destaque que acima se vê, dos 117 deputados que estavam presentes à sessão, 32 apoiaram directamente o projecto republicano, 56 exigiram a abdicação de Ahmad Shah em favor de seu primo Firouz Kajar (ou seja, uma mudança dinástica) e 29 formaram um grupo moderado, inclinado para a direita religiosa, em torno da personalidade de Hassan Modarres, um clérigo xiita, uma espécie de antepassado do aiatolá Khomeini, grupo esse que não se quis comprometer com qualquer das soluções. Como não se formara nenhuma maioria clara em prol de uma das soluções e como Reza Khan ainda não tinha uma ideia precisa de como é que prolongaria o seu regime, a decisão é que ele decidiu não decidir.

27 janeiro 2024

O AIATOLÁ, OS GENERAIS E OS MÍSSEIS LÁ ATRÁS

Esta fotografia foi tirada há dois meses, em 19 de Novembro de 2023, por ocasião da visita do Líder Supremo da Revolução Islâmica, o Aiatolá Ali Khamenei, ao Comando Aeroespacial dos Guardiões da Revolução Islâmica (o corpo de elite das forças armadas iranianas). Foi visivelmente posada e a intenção dessa pose é transparente: pretende reconfortar a opinião pública doméstica e transmitir uma imagem ameaçadora para as opiniões públicas internacionais, nomeadamente a dos Estados Unidos e as europeias. O destaque vai naturalmente para o Aiatolá, ao centro e parecendo estar a usar da palavra, na primeira fila imediatamente por detrás dele aparece um sortido de generais (só na fila seguinte aparecem os civis...), mas a imagem é dominada por um outro sortido, o de misseis, que, em fundo e em cores distintas, sugerindo funcionalidades diferentes, aparecem dispostos a apontar ameaçadoramente para cima, como prontos a ser utilizados. A imagem que estas potências muçulmanas pretendem promover no exterior passou a ser uma de tecnologia sofisticada e já não a de grandes multidões eivadas de fé religiosa. Uma nota irónica final: apesar de bem encenadas, estas coreografias do Irão parecem não impressionar os dirigentes de outras potências muçulmanas rivais, como se percebeu pelos incidentes de há pouco mais de uma semana com o Paquistão (abaixo).

19 agosto 2023

O GOLPE DE ESTADO NO IRÃO

19 de Agosto de 1953. Depois de quatro dias de indecisão - podem-se apreciar acima os títulos contraditórios das primeiras páginas do Diário de Lisboa - sobre quem seria a facção vencedora entre um golpe e um contragolpe de Estado no Irão, é a facção monárquica do Xá que se consagra sobre a republicana do primeiro-ministro Mossadegh. Uma vitória que, veio-se muitos anos depois a descobrir, muito devera à intervenção oculta das agências de espionagem dos Estados Unidos (CIA) e do Reino Unido (MI6). O livro abaixo foi publicado originalmente em 2003, incorporando os elementos dos arquivos da CIA, mas não os do MI6, que estão ainda em segredo.   

15 março 2023

A APROXIMAÇÃO IRANO-SAUDITA MEDIADA PELA CHINA: AS FOTOGRAFIAS E O RESTO

As fotografias que se publicaram da cerimónia da assinatura deste último acordo entre a Arábia Saudita e o Irão, mediado pela China, são espectaculares, parecem plenas de simbolismo. As reacções dos órgãos de informação deste lado de cá do Mundo dividem-se entre as apreciações mais entusiásticas e outras apreciações mais prudentes. Estas parecem-me muito mais consistentes: é melhor esperar para ver o que acontece de concreto. O Médio Oriente é uma região conhecida por ter responsáveis políticos que assinam muito facilmente tratados que depois permanecem letra morta. (Exemplo recente: o plano de paz gizado por Jared Kushner, genro de Donald Trump, em Setembro de 2020, envolvendo Israel e alguns países do Golfo, foi declarado letra morta seis meses depois de assinado) A acrescer a isso, sabe, quem acompanha os assuntos da região com outra profundidade, que a Arábia Saudita e o Irão mantêm uma rivalidade e uma clivagem profundas desde há décadas, de um nível idêntico às que separam Israel dos seus vizinhos árabes, e que ultrapassá-las não será tarefa fácil para os dois rivais signatários (para melhor compreender essa rivalidade sugere-se a leitura do livro abaixo de 2020). Considerando isto e, por muito que a China seja a novidade da equação, aparecendo pela primeira vez a protagonizar uma iniciativa nesta região e desta dimensão, manda a experiência que nos mantenhamos prudentes quanto à evolução dos acontecimentos.

25 fevereiro 2023

IMAGENS DE COMO O PASSADO EM ALGUNS PAÍSES MUÇULMANOS PODE PARECER HOJE UM PAÍS ESTRANGEIRO

Teerão 1971 - actualidade
Damasco c. 1975 - actualidade
Cabul 1979 - actualidade

22 abril 2022

A QUEDA DA FORTALEZA DE ORMUZ

22 de Abril de 1622. Ormuz é uma ilha que domina o estreito a que empresta o nome, à entrada do Golfo Pérsico, no Oceano Índico. Entre 1515 e 1622 esteve sob controle dos portugueses que ali construíram um imponente castelo que dominava o tráfego marítimo que entrava e saía do golfo. A guarnição do castelo era portuguesa - especialmente as patentes mais elevadas - mas a população era quase totalmente local - árabe ou persa. E há precisamente quatrocentos anos - reinava em Portugal um dos Filipes espanhóis - o castelo foi conquistado depois de um cerco montado por navios ingleses mas com o emprego de infantaria persa. Ninguém por cá se lembra da data. Depois do exagero que foi a insistência nas glórias passadas no ensino da História no período do Estado Novo, agora caímos no extremo oposto de não dedicar qualquer atenção à importância que já tivemos noutras paragens do mundo.

29 janeiro 2022

O APARECIMENTO DA EXPRESSÃO «EIXO DO MAL»

29 de Janeiro de 2002. No seu discurso do Estado da União dirigido às duas câmaras do Congresso, o presidente George W. Bush emprega pela primeira vez a expressão «Eixo do Mal» (axis of evil no original). Na altura, o presidente identificou quem o compunha: a Coreia do Norte, o Irão e o Iraque. No entanto, ao contrário do Eixo da Alemanha, Itália e Japão da Segunda Guerra Mundial, onde a expressão se inspirara, nos vinte anos entretanto decorridos depois daquele discurso nunca se conseguiu explicar de que forma é que aqueles três países - Coreia do Norte, Irão e Iraque - se articulavam de forma concertada entre si para actuarem no panorama internacional como um eixo. Talvez porque no caso mais antigo se tratasse de uma verdadeira aliança funcional entre os três países e no segundo caso, o do século XXI, se tratasse apenas de uma expressão com ressonância, mas desprovida de significado.

20 outubro 2021

ELOGIO - ATRASADO - AO RECÉM FALECIDO ABOLHASSAN BANI-SADR

Embora com semana e meia de atraso, assinale-se aqui o falecimento no exílio, em Paris, de Abolhassam Bani-Sadr, que foi o primeiro presidente da República Islâmica do Irão (Janeiro de 1980- Junho de 1981). Na fotografia acima, desses tempos, numa fase da campanha eleitoral das eleições que ele venceu - à iraniana - com 78% dos votos, Bani-Sadr é, obviamente, o intelectual, o que usa óculos enquanto os outros empunham armas. O que o notabiliza na história do Irão foi o facto de ele ter entrado em conflito com o aiatolá Khomeini, que queria - e conseguiu - fazer dos presidentes iranianos figuras que lhe fossem completamente subordinadas. Embora tivesse sido derrotado politicamente, Bani-Sadr constitui uma daquelas figuras trágicas, mas merecedoras de reconhecimento, já que não se prestaram a ser figurantes de uma encenação com a qual não concordavam. (Por analogia e evocando um caso português, recordo que ouço muito poucos elogios a Luís Campos e Cunha, que deixou a pasta das Finanças quatro meses depois de tomar posse no governo de José Sócrates...) Outra virtude de Bani-Sadr (num aspecto em que já não se pode aplicar, felizmente, a Campos e Cunha...) é que o iraniano morreu aos 88 anos e descalço, no quarto do hospital, um destino que é muito raro entre os opositores do regime dos aiatolás.

12 outubro 2021

A CELEBRAÇÃO DOS 2.500 ANOS DO IMPÉRIO PERSA


12 de Outubro de 1971. Com a chegada do Xá a uma base militar próxima de Persépolis, iniciavam-se as cerimónias das celebrações dos 2.500 anos da fundação do império persa por Ciro, o Grande. A data escolhida foi, obviamente, tão especulativa quanto arbitrária - estava-se a celebrar algo que teria acontecido em 529 a.C.! Contudo, o que era importante era o significado político da celebração e não o seu rigor histórico. Através dela, o regime iraniano procurava demarcar-se daquela que seria a sua «civilização» (para empregar uma terminologia que então não existia, só veio a ser popularizada vinte e dois anos depois com Samuel Huntington) e para ir buscar as suas raízes a várias estruturas políticas muito bem sucedidas que haviam precedido o Islão: os impérios aqueménida, arsácida e sassânida. Era uma movimentação ousada, mas intelectualmente brilhante, que procurava atribuir ao Irão uma especificidade outra que não a religiosa, nomeadamente o xiismo, que o distinguia das outras correntes do Islão. Com a valorização que se pretendia com o gesto de atribuir àquelas raízes pré-islâmicas, procurava-se fomentar ainda mais o laicismo da sociedade iraniana, aquilo que, na época, parecia condição favorável para as reformas sociais e a sua ocidentalização, conforme se comprovara com o que acontecera nos cinquenta anos precedentes com a vizinha Turquia. Se a ideia se apresentava teoricamente brilhante, a sua implementação, tal qual ela pôde ser apreciada nestas cerimónias, revelou-se um desastre. Cerimónias como o cortejo histórico (que se pode ver no vídeo mais abaixo) só podiam suplantar na magnificência dos meios, que não na imaginação, aquilo que já se vira noutras celebrações equivalentes, até mesmo por cá, por ocasião da exposição do Mundo português de 1940.
O ponto frágil de todas as celebrações, contudo, percebe-se hoje, foi a prioridade que se deu a projectar as cerimónias para o exterior, e a falta de cuidado que houve em transformá-las em festas populares. Houve uma preocupação extrema em ter presentes as mais destacadas figuras políticas internacionais (especialmente monarcas - Bélgica, Dinamarca, Etiópia, Jordânia, Nepal, Noruega,...), mas isso apenas acentuou o carácter aristocrático das cerimónias - significativamente, os banquetes que foram servidos, previstos para 500/600 convidados, um deles para durar cinco horas e meia(!), foram encomendados em Paris, ao restaurante Maxim's. Não é por isso de estranhar que todos os vinhos e espumantes que acompanhavam os banquetes fossem franceses. Enquanto isso, e porque Persépolis se situa numa das regiões remotas do Irão e nada fora pensado em termos de transportes colectivos para o local, o melhor que qualquer iraniano poderia fazer para acompanhar as cerimónias que proclamavam a grandiosidade e perenidade do seu país era segui-las pela... televisão. Caso o conseguisse, porque as emissões de cobriam apenas 30% dos iranianos. Escolhi uma fotografia que me parecesse simbólica da ocasião: nela se vê, à direita, o Xá a discursar, por detrás dele vê-se toda a comitiva que o acompanhava, doméstica e internacional, mas não se chega a ver para quem é que o Xá está a discursar. Na realidade, o que a fotografia não mostra é que não estaria lá ninguém, o povo iraniano brilhou pela ausência nestas cerimónias que, não fora a seriedade política que o regime iraniano lhes pretendeu atribuir, bem podiam ser comparadas no seu exclusivismo aristocrático a uma daquelas caçadas à raposa típicas da gentry inglesa.

16 setembro 2021

A ABDICAÇÃO DO XÁ

16 de Setembro de 1941. Depois de ter ocupado o poder durante vinte anos, com o país invadido simultaneamente por tropas britânicas e soviéticas por causa do comportamento equívoco face à Alemanha, o Xá abdica no seu filho de 21 anos. O novo Xá irá permanecer no poder por 37 anos e meio. A notícia acima não o diz, mas, no mesmo dia, e depois de o ter feito com a Alemanha, o governo iraniano rompera relações com a Itália, a Roménia, a Hungria e a Itália - os países aliados da Alemanha no conflito em curso. No dia seguinte, tropas soviéticas entrariam em Teerão.

07 junho 2021

MISSÃO OSIRAK

Domingo, 7 de Junho de 1981. Uma formação de caças F-16 e F-15 israelitas bombardeia e danifica seriamente uma central nuclear iraquiana que ainda estava em fase de acabamento. A central nuclear denominava-se Osirak e estava a ser construída com a tecnologia e a colaboração francesa. Apesar das garantias prestadas pelas duas partes envolvidas (Iraque e França) de que os dois reactores nucleares não iriam ser utilizados - nem teriam capacidade - para a produção de armamento nuclear, os israelitas, cépticos, desencadearam unilateralmente o ataque preventivo. O único aliado circunstancial de Israel neste seu ataque clandestino ao Iraque terá sido - ironia suprema! - o Irão, que estava então envolvido na guerra Irão-Iraque e a quem também interessava descartar a hipótese, ainda que remota, de que o seu inimigo pudesse vir a possuir armas nucleares. Hoje, parece adquirido que essa hipótese era absurda. A paranóia israelita contara muito, mas o que mais terá pesado na decisão israelita terá sido o significado político do gesto, demonstrando aos países árabes vizinhos a que limites Israel estaria disposto a ir para manter a superioridade nuclear na região. Significativamente a operação, que permanecera secreta até à sua execução, foi depois propagandeada em todos os seus detalhes, numa página da wikipedia que lhe é dedicada em exclusivo (abaixo, assinalada a azul a rota dos aviões sobre a Arábia Saudita). A conclusão é que os israelitas são ainda melhores publicistas do que militares. Em contraste, dois meses antes, os iranianos tinham por sua vez também efectuado um muito bem sucedido raid aéreo a longa distancia para bombardearem uma base aérea iraquiana de retaguarda denominada H-3 (assinalado a verde no mapa). A esse raid mal se deu cobertura noticiosa na altura, e ainda hoje vale apenas meia dúzia de linhas nas páginas da wikipedia. E no entanto, do ponto de vista militar, a dos iranianos foi uma operação bem mais complexa e interessante do que aquela que motivou este poste.

21 fevereiro 2021

O GOLPE DE ESTADO NA PÉRSIA

Há cem anos, o Xá da Pérsia chamava-se Ahmad, tinha 23 anos, era o sétimo soberano da dinastia Qajar, que reinava na Pérsia desde os finais do século XVIII (1789), e tinha o aspecto que a fotografia acima exibe. Em 21 de Fevereiro de 1921 os habitantes de Teerão foram acordados por tiros de canhão e pelo ruído de botas militares marchando pelas ruas. Sem terem encontrado grande resistência, os cossacos, a unidade de cavalaria de elite do exército persa, formada à semelhança de unidades idênticas do grande vizinho russo, acabara de tomar o poder na capital. Depois de se afixarem cartazes por toda a cidade proclamando a lei marcial, as tropas detiveram algumas dezenas de personalidades políticas de destaque. Os homens fortes do golpe eram o militar Reza Khan, comandante dos cossacos e o civil Seyyed Zia, jornalista. Tratava-se de um render da guarda, uma nova geração a chegar ao poder. Mas a pessoa do Xá era tão irrelevante que os golpistas nem se incomodaram a depô-lo. A primeira disputa séria foi entre a ala militar e a ala civil dos golpistas: Reza venceu e dali por três meses, em Maio de 1921 Seyyed Zia era exilado. Mas foi só em Dezembro de 1925 que Reza assumiu o título de Xá, em substituição de Ahmad.

22 setembro 2020

O IRAQUE INVADE O IRÃO, INICIANDO A GUERRA IRÃO-IRAQUE (1980-88)

22 de Setembro de 1980. Como corolário de uma situação tensa que se foi agudizando, o Iraque invade o Irão, embora a notícia desse dia do Diário de Lisboa não chegue a dar isso a entender ao leitor, no meio do fogo cruzado dos comunicados (qual deles o mais aldrabado...) dos dois beligerantes. Sobre o conflito que irá opor os dois países durante os próximos oito anos, já aqui fizera uma sugestão de leitura, de um livro que, infelizmente, três anos entretanto passados, não vejo grandes perspectivas de vir a ser traduzido.

05 maio 2020

O FIM DO SEQUESTRO DA EMBAIXADA IRANIANA EM LONDRES

5 de Maio de 1980. Chega ao fim o sequestro de cinco dias à embaixada iraniana em Londres. Os assaltantes eram um comando de seis homens da minoria árabe do Irão, que haviam feito originalmente 26 reféns. Seguiram-se dias de negociações, em que as opiniões públicas ocidentais se mostravam vacilantes quanto à sua opinião: afinal, seis meses antes haviam sido os próprios iranianos a promover um assalto à embaixada norte-americana em Teerão. Mas os britânicos haviam conduzido o assunto preservando toda a legalidade das regras seculares de diplomacia: por exemplo, o assalto de há quarenta anos revestia-se da delicadeza de incidir sobre território iraniano. Coberto em directo pelas câmaras da TV (acima), o episódio serviu para promover as virtudes do SAS. Na verdade, e do ponto de vista informativo, a cobertura em directo serviu para mostrar que uma cobertura em directo pode não servir para nada: não se percebe o que está acontecer, mas a coreografia pode servir para um eficiente instrumento de propaganda: a reputação do SAS atingiu um zénite. Morreram quase todos os assaltantes, salvaram-se quase todos os reféns. Nunca mais se ouviu falar da organização que reivindicara a acção. Quarenta anos depois, ainda não se consegue ter a certeza de quem realmente a organizou - Estados Unidos? Iraque? Outros?...

24 abril 2020

OPERAÇÃO «EAGLE CLAW»

24 de Abril de 1980. Operação Eagle Claw. O melhor desta operação era mesmo o nome: garra de águia. Obviamente, ainda teria sido melhor se ela tivesse atingido os seus objectivos, ou seja: libertar furtivamente os reféns americanos que os iranianos mantinham captivos em Teerão desde há cinco meses e meio. Só que uma operação destas teria que ser necessariamente complexa, e uma operação desse jaez tem uma terrível propensão a correr mal. E, tendo essa propensão para correr mal, teria sido avisado avaliar as consequências políticas e de imagem de um fracasso. Ou, se calhar, isso foi devidamente avaliado, e houve uma fracturante diferença de opiniões: o presidente Jimmy Carter, apoiado pelo seu conselheiro de segurança nacional Zbigniew Brzezinski, decidiu-se a autorizar a operação, mas isso custou-lhe o secretário de Estado Cyrus Vance, que se demitiu. No terreno, ou seja no Irão e durante a noite, que a operação era obviamente clandestina, as coisas também correram mal. Três dos oito helicópteros de grande porte escolhidos para resgatar os reféns tiveram problemas de funcionamento, o que colocaria problemas de lotação no transporte dos reféns. Carter já autorizara que a operação fosse abortada quando, na evacuação, um dos aviões de reabastecimento colidiu com um dos helicópteros: na explosão e incêndio subsequentes morreram oito militares americanos. No terreno ficaram as carcaças calcinadas das duas aeronaves (acima) e ainda cinco helicópteros CH-53 mais ou menos intactos que os desmoralizados americanos deixaram para trás (dois deles ainda estão ao serviço dos iranianos). Mas, se militarmente fora mau, quando a notícia do fiasco foi conhecida, há 40 anos, aí é que as consequências de imagem se fizeram sentir no prestígio da América, como se pode constatar neste trecho desta reportagem televisiva, feita por uma equipa ocidental, mas com a complacência conivente das autoridades iranianas, logo no dia seguinte aos acontecimentos. A seguir à imagem humilhante dos reféns da embaixada, e numa tentativa precisamente para os resgatar, a imagem mundial da superioridade americana fora novamente arrasada e isso revelava-se muito pior do ponto de vista político do que do militar.

04 novembro 2019

COMEÇO DA CRISE DOS REFÉNS DA EMBAIXADA AMERICANA DE TEERÃO

4 de Novembro de 1979. Cerca de 400 manifestantes assaltam a embaixada norte-americana em Teerão, tomando como reféns 56 pessoas que ali se encontravam. O assalto decorreu perante a passividade e o sequestro recebeu o posterior endosso das autoridades iranianas. O gesto de há 40 anos constituiu uma ruptura completa com as centenárias regras e protocolos internacionais da segurança diplomática e dos seus agentes e os Estados Unidos acusaram de tal modo o golpe que até hoje não o quiseram esquecer. Mas, para que os americanos não fossem colocados nessa posição de vítimas, a distorção (spin) na redacção da notícia de um típico jornal pró-comunista e anti-americano, como era o caso do Diário de Lisboa (acima), consistiu em esconder (página interior) e banalizar o acontecimento, como se fosse normal um estado usar agentes civis seus para ocupar as instalações diplomáticas e tornar reféns o pessoal diplomático de outro estado, com o fito de utilizar estes últimos como reféns e meio de pressão diplomática - "Até que o Xá seja entregue". O Xá não foi entregue e a esmagadora maioria dos reféns americanos (42) irão permanecer em cativeiro por quatorze meses e meio, só sendo libertados em 20 de Janeiro de 1981. Nessa altura, o Xá já havia morrido, seis meses antes... Se a conduta dos Estados Unidos no Irão fora, até aí, vergonhosa e mesmo condenável, o Irão, com esta tomada de reféns, empatou muito rapidamente o jogo.

12 outubro 2019

COMO SE FOSSE UM MEGA JOGO DE BATALHA NAVAL


Há quatro meses eram dois petroleiros que eram atacados no Golfo de Omã, depois foi um petroleiro iraniano a ser arrestado pelos britânicos em Gibraltar, os iranianos, em retaliação, apreenderam dois petroleiros britânicos no Golfo Pérsico, há cerca de um mês foram as refinarias sauditas a ser atacadas por rebeldes iemenitas (que, afinal, são capazes de ter sido iranianos). Agora, são novamente os iranianos a queixarem-se de que um dos seus petroleiros foi atacado ao largo da Arábia Saudita (vídeo abaixo). Em tudo isto, que se assemelha a uma gigantesca batalha naval em que os canos dos barcos atingidos não interessam, apenas o conteúdo da carga (petróleo), há apenas um padrão discernível: o de que o preço do crude se mantenha adequadamente elevado devido às preocupações que os incidentes suscitam. Será bruxaria, como acima diz o capitão Haddock?... Talvez não.

24 setembro 2018

QUANDO AS PARADAS CORREM MAL...

Há qualquer coisa nas imagens da parada militar recentemente atacada no Irão que mas faz associar às cenas de uma outra parada militar acidentada, realizada também no Médio Oriente, no Egipto em 6 de Outubro de 1981 e que culminou com o assassinato de Anwar Sadat (fotografia abaixo, a preto e branco). Porém, na parada do Cairo de há 37 anos, o que se subverteu não foi a demonstração do poder militar. O ataque incidiu sobre as personalidades do palanque, a imagem forte é a das cadeiras derrubadas por aquelas quando da sua fuga, e o que se retém é a ideia da insubmissão de uma facção militar radical ao poder institucional. Mas no caso recente das imagens de Ahvaz, aquilo que ocorreu no palanque é secundário, a força da imagem advém dos soldados estendidos no chão, e é a própria demonstração do poder militar iraniano que se pretendia reforçar com aquela parada que se vê lesada - soldados armados mas sem munições e por isso impotentes para reagir aos atacantes.