4 de Novembro de 1979. Cerca de 400 manifestantes assaltam a embaixada norte-americana em Teerão, tomando como reféns 56 pessoas que ali se encontravam. O assalto decorreu perante a passividade e o sequestro recebeu o posterior endosso das autoridades iranianas. O gesto de há 40 anos constituiu uma ruptura completa com as centenárias regras e protocolos internacionais da segurança diplomática e dos seus agentes e os Estados Unidos acusaram de tal modo o golpe que até hoje não o quiseram esquecer. Mas, para que os americanos não fossem colocados nessa posição de vítimas, a distorção (spin) na redacção da notícia de um típico jornal pró-comunista e anti-americano, como era o caso do Diário de Lisboa (acima), consistiu em esconder (página interior) e banalizar o acontecimento, como se fosse normal um estado usar agentes civis seus para ocupar as instalações diplomáticas e tornar reféns o pessoal diplomático de outro estado, com o fito de utilizar estes últimos como reféns e meio de pressão diplomática - "Até que o Xá seja entregue". O Xá não foi entregue e a esmagadora maioria dos reféns americanos (42) irão permanecer em cativeiro por quatorze meses e meio, só sendo libertados em 20 de Janeiro de 1981. Nessa altura, o Xá já havia morrido, seis meses antes... Se a conduta dos Estados Unidos no Irão fora, até aí, vergonhosa e mesmo condenável, o Irão, com esta tomada de reféns, empatou muito rapidamente o jogo.
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04 novembro 2019
12 outubro 2019
COMO SE FOSSE UM MEGA JOGO DE BATALHA NAVAL
Há quatro meses eram dois petroleiros que eram atacados no Golfo de Omã, depois foi um petroleiro iraniano a ser arrestado pelos britânicos em Gibraltar, os iranianos, em retaliação, apreenderam dois petroleiros britânicos no Golfo Pérsico, há cerca de um mês foram as refinarias sauditas a ser atacadas por rebeldes iemenitas (que, afinal, são capazes de ter sido iranianos). Agora, são novamente os iranianos a queixarem-se de que um dos seus petroleiros foi atacado ao largo da Arábia Saudita (vídeo abaixo). Em tudo isto, que se assemelha a uma gigantesca batalha naval em que os canos dos barcos atingidos não interessam, apenas o conteúdo da carga (petróleo), há apenas um padrão discernível: o de que o preço do crude se mantenha adequadamente elevado devido às preocupações que os incidentes suscitam. Será bruxaria, como acima diz o capitão Haddock?... Talvez não.
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24 setembro 2018
QUANDO AS PARADAS CORREM MAL...
Há qualquer coisa nas imagens da parada militar recentemente atacada no Irão que mas faz associar às cenas de uma outra parada militar acidentada, realizada também no Médio Oriente, no Egipto em 6 de Outubro de 1981 e que culminou com o assassinato de Anwar Sadat (fotografia abaixo, a preto e branco). Porém, na parada do Cairo de há 37 anos, o que se subverteu não foi a demonstração do poder militar. O ataque incidiu sobre as personalidades do palanque, a imagem forte é a das cadeiras derrubadas por aquelas quando da sua fuga, e o que se retém é a ideia da insubmissão de uma facção militar radical ao poder institucional. Mas no caso recente das imagens de Ahvaz, aquilo que ocorreu no palanque é secundário, a força da imagem advém dos soldados estendidos no chão, e é a própria demonstração do poder militar iraniano que se pretendia reforçar com aquela parada que se vê lesada - soldados armados mas sem munições e por isso impotentes para reagir aos atacantes.
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09 setembro 2018
O IRÃO DECLARA GUERRA À ALEMANHA
9 de Setembro de 1943. Continuando uma tradição de, de quando em vez, ir aqui assinalando no blogue algumas declarações de guerra perfeitamente irrelevantes e inconsequentes, hoje calha a vez de assinalar as bodas de diamante da declaração de guerra do Irão à Alemanha. Na fotografia acima, que foi tirada em Teerão dois meses depois desta adesão iraniana à causa Aliada, vê-se o jovem Xá Reza Pahlavi (24 anos), acompanhado do primeiro-ministro Ali Soheili (o civil), a cumprimentarem Winston Churchill. No livro abaixo, o assunto encontra-se apresentado - e não muito desenvolvido - na página 99; de facto, e descontando o facto de a declaração ter tido a solenidade de ter sido aprovada pelo parlamento (Majlis) por um voto esmagador de 73 a 4, não há grande coisa a dizer da participação das forças armadas iranianas nas operações que levaram à derrota do III Reich.
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22 agosto 2018
A TELENOVELA DA POLÍTICA EXTERNA AMERICANA QUANTO À NÃO PROLIFERAÇÃO NUCLEAR
Em Maio passado, e mesmo depois do anúncio pelos Estados Unidos de que estes se iriam retirar do Acordo Nuclear firmado entre o Irão e a comunidade internacional, a Agência Internacional de Energia Atómica (IAEA) confirmava a atitude iraniana de continuar a cumprir os compromissos do Acordo, apesar do que acontecera. Em contrapartida, em Junho passado houve uma cimeira histórica em Singapura, de onde se saiu com a impressão que houvera uma promessa norte-coreana de desnuclearização futura da península. Mas dois meses depois aquela mesma IAEA vem anunciar que, pelo contrário, a Coreia do Norte não estará a cumprir os compromissos que então assumiu. Tirando a retórica e alguma cenografia em excesso, tudo se mantém como estava antes de Donald Trump ter chegado à Casa Branca. Ou seja, a política externa da administração norte-americana, e no que à questão do combate à proliferação nuclear diz respeito, é como uma daquelas telenovelas para encher horário: parece que acontece imensa coisa, mas tudo o que acontece não é para alterar o fio condutor da história, que já vinha de trás e que tem que se arrastar para aí por uns 200 episódios - sem que nada aconteça de verdadeiramente importante que possa perturbar o sentido tradicional das histórias canónicas daquelas novelas.
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23 julho 2018
A LÓGICA E A DESORDEM INTERNACIONAL
Pelas leis da Lógica (um ramo do saber que existe independentemente de quem ocupa a presidência dos Estados Unidos...), o encadeamento destas duas notícias, separadas apenas por 72 horas, teria despertado reacções, questionando sobre o que estaria a acontecer quanto à coordenação da política externa dos Estados Unidos em relação à questão da Coreia do Norte. O presidente diz que «não há pressa» e que as relações «são muito boas» enquanto o secretário de Estado exige da ONU a «plena aplicação das sanções»? Contudo, os media mal deram destaque ao assunto. Mais do que os habituais comentários dos especialistas de relações internacionais convidados para aparecer na televisão, esta «impunidade» é demonstração suficiente do desaparecimento de uma certa ordem internacional. As declarações e as atitudes dos protagonistas perderam consequência e coerência. E o fenómeno tem um nome. Apenas outras 72 horas passadas e, desta vez, Donald Trump parece estar muito zangado com o presidente do Irão...
O presidente iraniano não deve estar particularmente impressionado porque este género de bate bocas não são nada a que já não se tenha assistido (abaixo). E veja-se como agora o mesmo Trump considera que as relações com a Coreia do Norte «são muito boas»... e também como tudo continua essencialmente na mesma, tal qual o herdado de Barack Obama.
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02 maio 2018
O PASSEIO CLANDESTINO PELO JARDIM DE RECREIO
Cubitus, por Dupa. Para além da comicidade, há o sentido pedagógico do gag: aquele que vai à procura de corroborar suspeitas prévias, acaba regularmente satisfeito a encontrar provas, sejam quais forem as circunstâncias.
27 janeiro 2018
A EXPEDIÇÃO DO CORONEL DUNSTERVILLE
27 de Janeiro de 1918. Depois dos britânicos terem conquistado Bagdade dez meses e meio antes, há cem anos partia dessa cidade uma coluna motorizada comandada pelo coronel Lionel Dunsterville que estava encarregue de, internando-se pela Pérsia (apesar de o actual Irão ter sido neutral durante a Primeira Guerra Mundial), alcançar os campos petrolíferos de Baku, então pertencentes a um Império Russo que colapsara e que agora se encontravam à mercê de serem conquistados por um golpe de mão da Turquia otomana. Composta à origem de 12 oficiais e 41 soldados, a expedição foi recebendo o reforço de 210 homens, vindos do Canadá, da Austrália e da África do Sul, ao mesmo tempo que se deparava com dificuldade crescentes, quer as colocadas pelas condições geográficas como se percebe pela fotografia acima, quer por uma hostilidade tanto oficial, quanto informal, das populações das regiões da Pérsia que a coluna ia atravessando. Tanto assim que, prova de uma guerra que se travava a um ritmo hoje difícil de compreender, a coluna motorizada só veio a chegar a Baku em Agosto de 1918, demorando sete meses a cumprir os cerca de 1.300 km que separam as duas cidades.
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16 janeiro 2018
SOBRE O VALOR DE CERTAS ATITUDES
Com os meus agradecimentos ao João Pedro Pimenta.
Teerão, 16 de Janeiro de 1979. Perante o agravamento da crise do regime, o Xá do Irão parte para o exílio, de onde não regressará. Quase a embarcar e já na placa do aeroporto, um dos seus fiéis expressa para com o Xá ainda este último gesto de fidelidade. A imperatriz Farah Diba esboça um sorriso embaraçado. Como Pedro Passos Coelho estará a descobrir por estes dias que correm, ele há gestos de lealdade e de simpatia que, pela ocasião e pelas circunstâncias, não têm preço. Repare-se o contraste com a fotografia abaixo, tirada um mês depois (18 de Fevereiro), com o Aiatolá Khomeini acabado de regressar ao Irão em triunfo, e com o novo homem forte do Irão a ser cumprimentado deferentemente pelo palestiniano Yasser Arafat. 18 de Fevereiro irá ser também o dia do encerramento do congresso do PSD. Estranharei se não houver ocasião para tirar muitas fotos deste género...
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12 outubro 2017
A CELEBRAÇÃO DOS 2.500 ANOS DO IMPÉRIO PERSA
12 de Outubro de 1971. Com a chegada do Xá a uma base militar próxima de Persépolis, iniciavam-se as cerimónias das celebrações dos 2.500 anos da fundação do império persa por Ciro, o Grande. A data escolhida foi, obviamente, tão especulativa quanto arbitrária - estava-se a celebrar algo que teria acontecido em 529 a.C.! Contudo, o que era importante era o significado político da celebração e não o seu rigor histórico. Através dela, o regime iraniano procurava demarcar-se daquela que seria a sua «civilização» (para empregar uma terminologia que então não existia, só veio a ser popularizada vinte e dois anos depois com Samuel Huntington) e para ir buscar as suas raízes a várias estruturas políticas muito bem sucedidas que haviam precedido o Islão: os impérios aqueménida, arsácida e sassânida. Era uma movimentação ousada, mas intelectualmente brilhante, que procurava atribuir ao Irão uma especificidade outra que não a religiosa, nomeadamente o xiismo, que o distinguia das outras correntes do Islão. Com a valorização que se pretendia com o gesto atribuir àquelas raízes pré-islâmicas procurava-se fomentar ainda mais o laicismo da sociedade iraniana, aquilo que, na época, parecia condição favorável para as reformas e a sua ocidentalização, conforme se comprovara com o que acontecera nos cinquenta anos precedentes com a vizinha Turquia. Se a ideia se apresentava teoricamente brilhante, a sua implementação, tal qual ela pôde ser apreciada nestas cerimónias, revelou-se um desastre. Cerimónias como o cortejo histórico (que se pode ver no vídeo mais abaixo) só podiam suplantar na magnificência dos meios, que não na imaginação, aquilo que já se vira noutras celebrações equivalentes, até mesmo por cá, por ocasião da exposição do Mundo português de 1940.
O ponto frágil de todas as celebrações, contudo, percebe-se hoje, foi a prioridade que se deu a projectar as cerimónias para o exterior, e a falta de cuidado que houve em transformá-las em festas populares. Houve uma preocupação extrema em ter presentes as mais destacadas figuras políticas internacionais (especialmente monarcas - Bélgica, Dinamarca, Etiópia, Jordânia, Nepal, Noruega,...), mas isso apenas acentuou o carácter aristocrático das cerimónias - significativamente, os banquetes que foram servidos, previstos para 500/600 convidados, um deles para durar cinco horas e meia(!), foram encomendados em Paris, ao restaurante Maxim's. Não é por isso de estranhar que todos os vinhos e espumantes que acompanhavam os banquetes fossem franceses. Enquanto isso, e porque Persépolis se situa numa das regiões remotas do Irão e nada fora pensado em termos de transportes colectivos para o local, o melhor que qualquer iraniano poderia fazer para acompanhar as cerimónias que proclamavam a grandiosidade e perenidade do seu país era segui-las pela... televisão. Caso o conseguisse, porque as emissões de cobriam apenas 30% dos iranianos. Escolhi uma fotografia que me parecesse simbólica da ocasião: nela se vê, à direita, o Xá a discursar, por detrás dele vê-se toda a comitiva que o acompanhava, doméstica e internacional, mas não se chega a ver para quem é que o Xá está a discursar. Na realidade, o que a fotografia não mostra é que não estaria lá ninguém, o povo iraniano brilhou pela ausência nestas cerimónias que, não fora a seriedade política que o regime iraniano lhes pretendeu atribuir, bem podiam ser comparadas no seu exclusivismo aristocrático a uma daquelas caçadas à raposa típicas da gentry inglesa.
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02 setembro 2017
A GUERRA IRÃO - IRAQUE (1980-88)
Não é a primeira vez que o conflito entre o Irão e o Iraque é abordado neste blogue. Mas aquilo que aprendi com este livro, quando comparado com o da Osprey que me serviu de suporte ao que aqui escrevi vai para mais de dez anos, faz uma diferença abissal no que acabo por reter de essencial das caraterísticas daquela guerra. Na altura designei-a por esquecida, mas a expressão que melhor a designa será abafada. Guerra abafada pelas que se lhe sucederam, nomeadamente a Guerra do Golfo de 1990-91. Para além das 500 páginas do livro propriamente dito, há ainda umas 75 de anexos e detalhes, onde se pode descobrir, por exemplo, que Portugal facturou uns 760 milhões de dólares ao Irão, vendendo-lhe obuses e munições dos mais variados calibres (p. 560). Um pormenor que por cá se transformou no embrião de um escândalo, ainda hoje não muito bem explicado. Pierre Razoux é um historiador francês com uma obra vocacionada para os conflitos contemporâneos especialmente naquela região do Médio Oriente. (Atenção ao momento pedante à Nuno Rogeiro...) Conheço-lhe outras obras, a respeito da Guerra dos Seis Dias (1967), da do Yom Kippur (1973), ou da do Líbano de 2006. Neste livro em concreto, as suas simpatias pelo lado iraquiano e mesmo pela pessoa de Saddam Hussein são perceptiveis, algo tanto mais notável quanto a propaganda de guerra norte-americana veio a transformar o ditador iraquiano numa besta sanguinária irrecuperável depois de 1991. A descrição dos protagonistas do lado iraniano (Khomeini, Rafsanjani, Khamenei) é para ser tomada cum grano salis. Sobre o Irão existe melhor, mas duvido que o mesmo aconteça sobre o conflito propriamente dito.
16 julho 2017
A REPÚBLICA ISLÂMICA DO PSD
Analisar a actual situação política interna do PSD é um exercício que se assemelha ao equivalente que fiz tantas vezes a respeito da República Islâmica do Irão. Quando se investigam os débeis movimentos de contestação interna que surgem, na esperança de uma abertura, percebe-se que eles são ainda mais radicais e antipáticos do que as correntes predominantes: é que a contestação protagonizada pela deputada Manuela Tender à próxima eleição de Hugo Soares para a liderança da bancada parlamentar do PSD é apenas metade da história; a outra metade da história é a que nos conta que os desejos dessas opiniões menos conformadas do núcleo duro do PSD era para o aparecimento de uma candidatura de Marco António Costa, o carismático «big MAC». As opções de quadros de que o PSD agora dispõe são como os aiatolás: não os há bons; há os maus e a melhor opção é viver com eles porque a única alternativa são os péssimos. Porque, para que as metáforas não sejam apenas iranianas, Marco António Costa a chegar ao poder há de ser muito parecido a ter o partido tomado pela 'Ndrangheta calabresa.
17 maio 2015
UM IRÃO DOURADO QUE NÃO INTERESSA QUE SE SAIBA QUE EXISTE
Magnífico artigo o publicado este Domingo no Público (clicar para ampliar) sobre uma juventude dourada iraniana que existe mas não interessará exibir – ao regime e aos seus adversários. Da autoria de Ana Gomes Ferreira e parecendo ter-se ido inspirar a textos publicados pelo The Guardian, a poucos interessará exibir a opulência descuidada das elites multimilionárias de um Irão que, por ser islâmico, republicano e xiita, pretende passar por distinto das exuberâncias das monarquias sunitas vizinhas do Golfo Pérsico, ao mesmo tempo que essas mesmas imagens darão, pelo padrão do estilo de consumo daquelas mesmas elites, uma imagem de ocidentalização que desmentirá a demonização de um Irão clerical que sempre terão procurado fazer dele os seus inimigos no Ocidente. A sugestão abaixo para quem quiser aprofundar um pouco mais o que é o Irão dos últimos 35 anos.
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23 agosto 2013
NOTÍCIAS DO MICROONDAS
O mês de Agosto é também propício a que se reaqueçam notícias, para lhes dar aroma de novidade: CIA confirma participação no golpe de estado iraniano de 1953, notícia o Público, amplificando um desses disparates chegados dos Estados Unidos. A questão é a de descobrir qual a novidade, sabendo que a CIA durante os últimos sessenta anos permitiu que os seus antigos operacionais envolvidos dessem a publicidade que desejassem à sua intervenção naquele golpe de estado. Se algum perigo houver, não é o de sonegação de informação, mas de excesso da importância atribuível à participação na conspiração dos elementos norte-americanos envolvidos. Qualquer livro publicado sobre o assunto – retirei o exemplo afixado abaixo da minha biblioteca, foi publicado originalmente em 2003 por ocasião do cinquentenário do golpe – quase que é obrigado a dar a primazia à actuação dos homens da CIA (an american coup, lê-se no subtítulo) em contraste com os interesses comerciais dos britânicos e os dos próprios conservadores iranianos.
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01 março 2013
A INCERTEZA DA INEXORABILIDADE DO TRIUNFO DA CIVILIZAÇÂO OCIDENTAL
Quando se ainda exibem os retoques adicionados pelos iranianos em photoshop ao vestido de Michelle Obama, quando da sua participação na cerimónia de atribuição dos Óscares deste ano (acima), pergunto-me quantos nos aperceberemos de que nos podemos estar a embevecer despropositadamente com a pretensa inexorabilidade do progresso da imposição do nosso sistema de valores ocidental às restantes civilizações. Observe-se abaixo, para que se minore esse convencimento arrogante, uma fotografia publicitária iraniana a um Triumph Herald, tirada há cerca de cinquenta atrás… e comprovem-se os retrocessos na liberdade de imagem registados no Irão desde aí.
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08 dezembro 2010
«WISHFUL THINKING»
The Economist é uma revista de referência tanto pela solidez e profundidade das suas análises como pela qualidade estética impar das suas capas. Porém, no caso actual dos problemas monetários que estão a afectar séria – quiçá definitivamente... – a coesão da União Europeia (abaixo) e por muito que eu tenda a concordar com a grande maioria daquilo que The Economist tem publicado, também não nos devemos esquecer que a revista também possui a sua ideologia liberal e opções atlantistas sobre o grau da – falta de – integração que deveria assumir o Projecto Europeu.
É contando com isso que convém tomar com uma boa dose de circunspecção algumas das análises que aquela revista tem vindo ultimamente a produzir sobre o assunto. Nem de propósito, recupero de um outro lote de excelentes capas da The Economist em que o tema é o Irão (abaixo), uma que data de Julho de 1999 e que nos mostra um estudante iraniano contestatário que empunha uma camisola manchada de sangue enquanto os autores da revista se perguntam se não se seguiria uma segunda revolução depois daquela que derrubara o Xá em 1979 (capa central).
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08 outubro 2010
REFÉNS (QUEM OS FAZ e QUEM OS MANDA FAZER)
Hostage in Peking (acima) é um livro publicado no já longínquo ano de 1970 por um jornalista britânico chamado Anthony Grey contando a sua experiência como refém em Pequim por 27 meses (1967-1969), durante o período da Revolução Cultural. Nunca houve uma formalização quanto às acusações que incidiriam sobre Grey que esteve esse tempo todo numa detenção semi-legal tendo como carcereiros os membros da Guarda Vermelha que o submeteram a um sem número de sevícias. A detenção de Anthony Grey terminou quanto as autoridades da então colónia britânica de Hong-Kong finalmente aceitaram libertar oito jornalistas e mais treze activistas chineses que entretanto haviam sido presos…
Convidados do Ayatollah (abaixo) é um outro livro, bastante mais recente (2006) mas referente a um episódio também antigo, com mais de trinta anos, quando no seguimento da Revolução Islâmica que eclodiu no Irão em 1979 e que havia derrubado o Xá Reza Pahlavi, que fora um aliado incondicional dos norte-americanos naquela região, um grupo de Estudantes Islâmicos invadiu as instalações da Embaixada norte-americana em Teerão em Novembro de 1979 aprisionando quem lá se encontrava. Houve um faseamento de libertações dos reféns por diversas causas, mas o grupo mais numeroso, que era composto por cinquenta e duas pessoas acabou por ficar detido durante catorze meses (1979-1981).
Se enumero estes dois livros e recordo estes dois episódios é porque considero que a Memória, apesar de não a querer utilizar em combate como outros, é-nos indispensável para alargar as perspectivas como devemos analisar as questões. Ora, nestes dois casos, os dois agentes políticos que estavam por detrás das tomadas de reféns – os governos chinês e iraniano – não as podiam assumir claramente e usaram organizações de fachada, pretensamente descontroladas, para se responsabilizarem pelas acções inconvenientes. É evidente que, se as segundas alguma vez incorressem num comportamento que provocasse o desagrado dos agentes políticos que as controlavam, os sequestros teriam acabado nesse mesmo dia…
Agora passemos para um terceiro episódio aparentado com os anteriores, que se passou em Novembro de 1975 e em Portugal, mas que tive oportunidade de ler recentemente num blogue uma versão revista, como se se tratasse de uma história infantil, que nesse capítulo de histórias para crianças, e para além do exemplo recente de Isabel Alçada, a política portuguesa parece repleta de promessas de escritores que não se chegaram a concretizar… O episódio foi o Cerco à Assembleia Constituinte que durou felizmente apenas 24 horas, entre 12 e 13 de Novembro de 1975. E a versão Anita no Cerco à Constituinte, da autoria de Vítor Dias é que o sequestro apenas se destinava ao 1º Ministro, Pinheiro de Azevedo.
Mesmo descartando a discussão da legitimidade de sequestrar seja quem for para obter a satisfação de reivindicações laborais, atitude que Vítor Dias parece continuar a validar todos estes anos depois do PREC, o facto é que, se aceitarmos a sua versão açucarada, tudo fica clarificado com a falta de cartazes na multidão ameaçando expressamente dar pancada aos deputados constituintes. Estes últimos, a elite política eleita pelo povo português nas primeiras eleições livres, se não se sentiram em condições de segurança para abandonarem o Parlamento, se nem sequer jantaram e ainda tiveram que pernoitar no Parlamento, aceitando a versão de Vítor Dias nem se chega a perceber bem porquê…
É esquisito. Tão esquisito quanto o eufemismo escolhido pelo jornal A Capital naquele dia para definir a situação dos deputados: «Fechados». (abaixo) E é aqui que merece que regressemos à diferença que falei acima entre agentes políticos que decidem e organizações descontroladas que actuam. É que ninguém se interessou jamais em saber quem então dirigia a manifestação dos trabalhadores da construção civil que, segundo Vítor Dias, acampou ordeiramente no Largo de São Bento. Da mesma forma como actualmente só académicos eruditos saberão os nomes dos principais Guardas Vermelhos da Revolução Cultural ou saberão identificar, por exemplo, quem foi Masoumeh Ebtekar.
O agente político em 1975, guardou para a última frase de todas do comunicado por si emitido a sua discordância quanto ao sequestro: «(…) quer os deputados à Constituinte ficaram na prática impossibilitados de sair do Palácio de S. Bento, facto de que o PCP discordou»; mas na própria Câmara, através de Octávio Pato, enalteceu: «(…) o espírito de sacrifício de milhares de trabalhadores que, durante trinta e seis horas, sem dormir (…) ao frio da noite, sentados ou deitados nas ruas ou nas escadarias junto ao Palácio de S. Bento, ali se mantiveram e dali não arredaram pé»; e objectivamente: não se notou qualquer intervenção dos comunistas junto das estruturas unitárias para que o sequestro dos deputados nem tivesse lugar.
Vítor Dias chamou a estes seus exercícios Combates da Memória. Além do mau gosto do belicismo da expressão, o resultado é que a Memória parece sair do combate muito mal tratada, cheia de equimoses, quiçá mesmo com os olhos pisados. Contudo, numa explicação-combate imitando-lhe o estilo, a culpa não terá sido dele, que se limitou a agitar alargada e entusiasmadamente os seus braços com os punhos cerrados como um bom comunista. Se estes embateram na cara da Memória foi por acaso, como o sequestro dos outros, que se destinava a Pinheiro de Azevedo, o utente da porta ao lado... Parodiando-o, que dê um passo em frente quem tiver uma fotografia sua a dar um soco directamente no queixo da Memória…
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13 junho 2010
FOTOGRAFIA DE UM ASSASSINATO COLECTIVO
A fotografia abaixo foi tirada em Agosto de 1979 em Sanandaj, uma das principais cidades do Curdistão iraniano a cerca de 500 km a Oeste de Teerão. Não é classificável como uma fotografia de guerra, porque nem se trata de um acto associado a uma guerra, apenas à repressão, a um instantâneo de um crime. De um lado os executores são guardas revolucionários islâmicos – o Xá fora derrubado oito meses antes – enquanto os executados (onze) são descritos como membros da elite curda local que se teriam aproveitado da onda revolucionária para promoverem acções em prol do nacionalismo curdo. A fotografia mostra a resposta dos persas a essas acções…
A fotografia tornou-se mundialmente célebre e deram-lhe o título Pelotão de Fuzilamento no Irão. Considero-o um mau título. A existência de uma secção de fuzilamento está associada a alguma organização e a algum formalismo em atenção à dignidade de quem vai morrer. O que a fotografia mostra será melhor descrito como uma bagunça, um conjunto de homicídios, com cada executante agachado de G-3 na mão a apontar para o seu alvo vendado à sua frente que tanto podia ser alvejado de joelhos como de pé. Percebe-se até que nem a ordem de fogo foi coordenada, porque se vêem vítimas já atingidas pelos tiros e outras ainda não…
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02 janeiro 2010
O IRÃO POR DETRÁS DOS VÍDEOS DE TELEMÓVEL
Por detrás das proclamações grandiloquentes e do voluntarismo para o martírio anunciado pelo dirigente oposicionista iraniano Hossein Mousavi, há que ter em consideração quanto a contestação urbana e estudantil com que o poder iraniano se tem estado a defrontar e que tem estado a ser (bem) gerida para ter projecção no exterior do Irão através das filmagens dos telemóveis (acima), é capaz de ser apenas uma parte dos problemas com que se estará a defrontar o regime iraniano. As autoridades islâmicas parecem estar a responder aos contestatários em espécie, com manifestações ainda maiores que as da oposição, mas o que parece estar a escapar ao jornalismo menos informado é que esta coreografia é uma discussão entre persas. E então os outros?
Estamos acostumados a pensar no Irão como um estado nacional de mais de 70 milhões de habitantes, mas isso está muito longe da realidade. Os povos que o compõem há muito tempo que convivem juntos mas isso não torna o Irão num estado nacional. Nem sequer a atitude oficial iraniana de escamotear o facto o resolve, proibindo que a questão seja avaliada nos recenseamentos, o que conduz a que as estimativas da constituição da população iraniana sejam extremamente variadas, estimando-se, por exemplo e conforme a fonte, que o núcleo central constituído pelos persas propriamente ditos possa constituir entre 47 e 67% da população total do Irão. O que nos deixará as minorias, mesmo assim, com uma estimativa mínima de 30%, mais de 20 milhões de pessoas…
Os grupos étnicos têm as suas elites e bases políticas e nem os soldados dessas causas autonomistas e independentistas têm aparecido nas manifestações de Teerão, nem os seus generais se têm pronunciado publicamente sobre o que ali está a acontecer. Atendendo ao que aconteceu na História recente do Irão isso pode até nem ter importância no que à disputa do poder central diz respeito: os grandes momentos revolucionários da manutenção do Xá (1953) e da sua queda (1978), foram questões exclusivamente persas disputadas em Teerão. Mas a novidade estratégica em relação a esses tempos da nitidez da Guerra-Fria é que os vizinhos do Irão contíguos às regiões onde predominam as minorias, mostram-se agora mais instáveis do que nunca: Iraque, Afeganistão, Paquistão, Azerbaijão, Arménia,…
Entretidos com as vizinhanças iraquiana e afegã, a comunicação social mundial – ou seja, a dos Estados Unidos… – nem tem reparado como o Irão tem vindo a ser arrastado para conflitos de baixa intensidade em duas das suas regiões fronteiriças: o Curdistão e o Baluchistão. Paradoxalmente, em qualquer dos dois casos haverá fortes indícios do envolvimento dos serviços secretos norte-americanos, apesar da obtusidade dos seus compatriotas da informação: num artigo saído recentemente na revista Time, o título destaca os problemas no Baluchistão paquistanês, mas a verdadeira notícia do artigo é o ataque por guerrilheiros balúchis a uma cidade fronteiriça iraniana, provocando 41 mortos, incluindo alguns oficiais superiores do destacamento local dos pasdaran(*).Se tivesse acontecido com exércitos ocidentais o incidente teria aparecido nas primeiras páginas(**) dos jornais! No outro extremo do Irão, existe a guerrilha curda que está organizada num movimento denominado PJAK. Neste caso, o apoio dos norte-americanos tornou-se muito mais pusilânime depois de os Estados Unidos terem invadido o Iraque e terem de se responsabilizar também com a solução do problema do Curdistão iraquiano. Contudo, a cobertura dada aos estragos causados pelos guerrilheiros do PJAK (abaixo) representa uma mera fracção ao que acontece com os que são provocados pelos do PKK do lado turco da fronteira. O regime islâmico está a travar guerras contra-subversivas nas suas bordas mas o que a comunicação social mundial nos destaca são as batalhas que ele trava nas suas ruas…
(*) Exército dos Guardas da Revolução Islâmica, organização militar de elite.
(**) Fazendo um paralelo para o nosso caso antes de 1974, teria sido necessária a intervenção rigorosa da censura para conseguir abafar a embaraçosa notícia que, em qualquer um dos três teatros africanos, teria havido uma força de guerrilheiros que havia atacado uma povoação onde houvesse um aquartelamento sede de um batalhão e tivesse conseguido abater alguns oficiais…
(**) Fazendo um paralelo para o nosso caso antes de 1974, teria sido necessária a intervenção rigorosa da censura para conseguir abafar a embaraçosa notícia que, em qualquer um dos três teatros africanos, teria havido uma força de guerrilheiros que havia atacado uma povoação onde houvesse um aquartelamento sede de um batalhão e tivesse conseguido abater alguns oficiais…
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02 setembro 2009
... E AVIÕES NA ROTA
Quis a Ironia da História que o presidente que no vídeo acima se apresenta tão indignado pelo comportamento dos soviéticos depois do abate do Boeing 747 da Korean Air Lines em Setembro de 1983 e pelo consequente massacre de 269 vidas que seguiam a bordo, ocupasse ainda esse mesmo cargo quando uma das unidades navais do seu país abateu um Airbus 300 iraniano sobre o Estreito de Ormuz em 3 de Julho de 1988, ocasionando o massacre das 280 pessoas que nele viajavam... Claro que devia, mas, neste caso, Ronald Reagan não reapareceu na televisão para fazer o respectivo acto de contrição pelo massacre das 280 vidas inocentes que se haviam perdido dessa vez, nesse outro crime contra a humanidade.
Em consonância, não deixou de ser curioso o contraste da reacção de quase todos os órgãos de informação do aparelho informativo mundial, que antes se mostraram tão receptivos às emoções e tão indiferentes às explicações técnicas que haviam sido prestadas pelos soviéticos a respeito das circunstâncias que haviam levado ao abate do Boeing sul-coreano no Extremo Oriente, mas que se mostravam agora muito mais sóbrios e receptivos às justificações prestadas pela US Navy quanto ao que conduzira ao abate do Airbus iraniano por mísseis disparados por um cruzador norte-americano em patrulha naquela área. Contudo, precisamente como antes acontecera com o caso envolvendo os soviéticos, também aqui a assumpção de responsabilidades e do erro por parte dos seus autores não passou de uma miragem…
Em consonância, não deixou de ser curioso o contraste da reacção de quase todos os órgãos de informação do aparelho informativo mundial, que antes se mostraram tão receptivos às emoções e tão indiferentes às explicações técnicas que haviam sido prestadas pelos soviéticos a respeito das circunstâncias que haviam levado ao abate do Boeing sul-coreano no Extremo Oriente, mas que se mostravam agora muito mais sóbrios e receptivos às justificações prestadas pela US Navy quanto ao que conduzira ao abate do Airbus iraniano por mísseis disparados por um cruzador norte-americano em patrulha naquela área. Contudo, precisamente como antes acontecera com o caso envolvendo os soviéticos, também aqui a assumpção de responsabilidades e do erro por parte dos seus autores não passou de uma miragem…
Só que, para efeitos mediáticos, e para evitar o ridículo da contradição entre o vídeo inicial e a nova situação, não foi Ronald Reagan. mas o Vice-Presidente George Bush quem apareceu a defender a atitude americana. E, simbólico do peso distinto que as duas superpotências gozavam no Conselho de Segurança da ONU mesmo durante o período da Guerra-Fria, enquanto a União Soviética tivera que vetar a resolução que a condenara pelo incidente de 1983, os Estados Unidos, com a presidência rotativa do Conselho naquela altura entregue ao Brasil, até conseguiram que nem houvesse qualquer resolução condenatória, para desespero dos iranianos – acima, pode ver-se um selo postal emitido por eles a respeito do incidente.
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