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10 abril 2019

A EUROPA DE PREVENÇÃO

Há oitenta anos e na sequência da invasão italiana da Albânia, as notícias eram que os exércitos de toda a Europa haviam entrado de prevenção, atitude acompanhada de proclamações destinadas a auditores específicos. Note-se a página abaixo do Diário de Lisboa de 10 de Abril de 1939, em que as curiosidades maiores são a ausência de referências à Alemanha entre os países mencionados, ao mesmo tempo que o destaque principia em países que lhe são fronteiriços e que se sentirão mais directamente ameaçados por essa mesma Alemanha, como serão os casos da Holanda e da Suíça. Sem se nomear expressamente qualquer país, percebia-se claramente de onde seriam de esperar as perturbações ao status quo internacional.

01 abril 2019

UM PRIMEIRO DE ABRIL QUE NÃO FOI PROPRIAMENTE UMA PARTIDA

1 de Abril de 1944. A notícia local, discreta, dá conta que algo de errado acontecera sobre a Suíça. O que acontecera e a causa para que tivesse acontecido só se veio a apurar depois. O núcleo principal de uma formação de bombardeiros B-24 da USAAF, cerca de 50 aviões, desorientara-se devido ao mau tempo e à nebulosidade sobre França. Por muito rudimentares que fossem então os sistemas de navegação, a distância entre o alvo pretendido (as indústrias químicas de Ludwigshafen am Rhein) e o alvo atingido (Schaffhausen), que se pode perceber no mapa abaixo (são cerca de 270 km...) mostra que aquela missão não terá sido um momento maior da perícia da aviação norte americana... Mais humilhante, a USAAF criara a doutrina de proceder aos seus bombardeamentos de dia, por uma questão de precisão. Naquele caso, quiçá explicável por se tratar do Dia das Mentiras, eles haviam-se enganado não apenas no alvo e na cidade, como até se haviam enganado no país... que era um dos poucos países neutrais da Europa.
Valha a verdade que, também do lado suíço, este sobrevoo de aeronaves começou por não ser levado a sério pelos suíços, tantos eram os falsos alarmes de aviões transviados de qualquer dos beligerantes. Como se lê mais acima, as sirenes tocaram nas cidades ameaçadas, como Zurique, mas os avisos não foram valorizados por muita gente que não se incomodou a abrigar-se. Mas, por esta vez, não se tratava de alguns aviões que se haviam transviado, antes uma robusta formação deles, que não sabia muito bem onde estava mas que largou 60 toneladas de bombas sobre a cidade suíça de Schaffhausen (25.000 habitantes), causando 40 mortos e 270 feridos entre a população local. Alguns meses depois, os Estados Unidos vieram a indemnizar a Suíça em 4 milhões de dólares. Foi o incidente mais grave deste género, envolvendo Aliados e a Suíça a ocorrer durante toda a Segunda Guerra Mundial.

12 novembro 2018

A GREVE GERAL NA SUÍÇA E A «SEMANA VERMELHA» NA HOLANDA

12 de Novembro de 1918. Na Suíça, um comité revolucionário convoca uma greve geral. A questão peculiar neste evocação não é a greve geral. É o facto de a greve ter ocorrido na Suíça e logo no dia seguinte à assinatura do armistício que pusera fim à Grande Guerra. A Suíça fora um país que permanecera neutral, não existia a comoção da derrota que costuma servir de explicação histórica aos movimentos revolucionários que eclodiram simultaneamente por toda a Alemanha. E contudo, a sua classe operária, especialmente nos cantões alemães reagiu desta forma, abstraindo-se das notícias da conclusão do conflito. Cerca de 250.000 trabalhadores aderiram à paralisação, um dos sectores mais afectados foi o ferroviário, um sector crucial naquelas circunstâncias em que a agilidade dos abastecimentos alimentares era uma pedra-de-toque da disposição das opiniões públicas. Mas note-se também, e porque a Suíça se mantivera afastada dos combates, que os militares não haviam sofrido o desgaste que ocorrera entre os beligerantes. As imagens oficiais dos acontecimentos transmitem-nos uma imagem de força, com 100.000 soldados nas ruas e nos pontos nevrálgicos (acima e abaixo). O desfecho acabou por ser favorável às autoridades federais. A greve durou 48 horas. Depois dela, mais de 3.500 grevistas foram presentes a tribunal militar, uma apreciável percentagem deles empregados dos caminhos de ferro, embora menos de 5% (147) fossem condenados.
Nesse mesmo dia 12 de Novembro e noutro país que também permanecera neutral, os Países Baixos (Holanda), o primeiro-ministro Ruijs de Beerenbrouck (abaixo, à direita) tentava amenizar o ambiente tenso que o país atravessava, com o anúncio do aumento da quantidade da ração de pão de 200 para 280 gramas/dia. Na Holanda vivia-se então a Semana Vermelha (De Roode Week no original - 9 a 14 de Novembro de 1918), uma tentativa dos socialistas locais (22% do parlamento), dirigidos por Pieter Jelles Troelstra (abaixo, à esquerda), para desencadearem uma acção insurrecional, ao bom jeito do que acontecera no ano anterior na Rússia. Também na Holanda, um exército que não sofrera o desgaste dos combates foi utilizado para enfrentar os revolucionários que, afinal, eram bem menos do que se pensara dos dois lados. Num daqueles combates pela memória como os acontecimentos vêm a ser evocados no futuro, a Semana Vermelha foi rebaptizada de Erro de Troelstra (Vergissing van Troelstra), como se tudo não tivesse passado de um erro de avaliação do líder socialista holandês, o que as evidências sugerem não ter sido bem o caso... Estes dois casos, que vemos muito raramente referidos, ambos ocorridos em países que haviam permanecido neutrais, mostram claramente que o ambiente social tenso que se vivia na Europa no Outono de 1918 transbordava dos países beligerantes para o resto do continente.

03 março 2018

FOI VOCÊ QUE NUNCA OUVIU FALAR DA «INICIATIVA MINDER»?

3 de Março de 2013. Tinha lugar mais um dos referendos que se realizam com ignorada regularidade na Suíça. Este, porém, parecia muito mais engraçado do que a demasia. A iniciativa (denominada por extenso por «iniciativa popular contra as remunerações abusivas», mas se sintetizara para «iniciativa Minder» em atenção ao proponente que mais se expusera), nascera de uma reacção ultrajada da opinião pública suíça às cláusulas contratuais de uma data de executivos de topo de várias empresas suíças de destaque que, apesar das suas perdas colossais (UBS) ou até mesmo dos seus colapsos (Swissair), os protegiam financeiramente das consequências dos seus evidentes maus desempenhos. A vontade de alterar essa impunidade escandalosa, revestiu-se inicialmente de um abaixo assinado promovendo um referendo a uma alteração à Constituição suíça. O abaixo assinado foi subscrito por 118.583 pessoas, ultrapassando as 100.000 legalmente necessárias para que a proposta fosse submetida a referendo. O que aconteceu precisamente há cinco anos. A proposta para que as remunerações dos membros dos conselhos de administração das empresas suíças cotadas passasse a ser muito mais escrutinada ganhou com 67,9% dos votos. Geograficamente também saiu vencedora em todos os cantões (mapa acima). Pormenor curioso e indicativo de que nem sempre o dinheiro investido em campanhas é determinante para o desfecho das eleições: os apoiantes da proposta terão gasto 200 mil francos enquanto os seus oponentes terão despendido oito milhões de francos, ou seja quarenta vezes mais! E isto aconteceu na Suíça, país paradigma do capitalismo, sede da Nestlé e de tantas outras multinacionais. A proposta, que afinal apenas pretende reforçar o papel dos accionistas na negociação dos salários dos executivos de topo, foi incorporada na Constituição mas os executivos de topo das empresas, que continuam na prática a dominar os dois lados da mesa de negociações (é por isso que ganham o que querem...), já arranjaram formas de contornar a lei. Mas o que me parece maravilhoso foi a forma como depois não houve significativas ondas de choque da iniciativa, a comunicação social mal falou disso, tudo parece ter sido abafado, apesar de ter acontecido na Suíça. Tivesse sido uma proposta de Hugo Chávez lá na Venezuela e aí talvez tivéssemos ouvido falar dela... O que é engraçado é como este assunto tende a reaparecer em agenda, por muito que se perceba que, quem manda, o queira varrer para debaixo do tapete... Ainda a edição de hoje do Jornal de Notícias tem uma chamada de primeira página para o facto de que António Mexia ganha 52 vezes mais do que o empregado médio da EDP. Alguém está convencido que ele valha assim tanto mais que os outros... os colaboradores, como agora se diz?

07 fevereiro 2018

O VOTO FEMININO NA SUÍÇA


7 de Fevereiro de 1971. Foi só há quarenta e sete anos, e através de um referendo realizado neste dia entre os eleitores masculinos, que as mulheres suíças receberam finalmente o seu direito de voto em eleições federais. A vitória foi significativa (65,7% de sins - cuja distribuição aparece assinalada no mapa abaixo pela intensidade da cor verde em cada um dos cantões), mas, mesmo assim, a não fazer esquecer o resultado de um referendo anterior sobre aquele mesmo tema, realizado doze anos antes, em que o resultado fora precisamente o oposto (66% de nãos). Como se percebe pela distribuição abaixo, a oposição mais conservadora ao voto feminino registava-se nos cantões germanófonos. Por curiosidade, refira-se que o direito de voto às mulheres em Portugal fora originalmente concedido de forma restrita em 1931, progressivamente alargado em 1946 e 1968.

16 outubro 2017

O RACIONAMENTO ATÉ PARA OS SUÍÇOS

16 de Outubro de 1942. Há 75 anos e como se podia ler neste jornal de Neuchatel, na Suíça impunha-se o racionamento do pão e do leite. Não se pode dizer que a medida tivesse colhido os suíços de surpresa. Cercada por países em guerra e pelo impacto que isso tivera no comércio internacional, a Suíça evidenciava as fragilidades de quem sempre contara com o exterior para se alimentar. Como acontecia em Portugal, também por lá houve medidas de propaganda para aumentar a produção agrícola, aproveitando inclusive as superfícies urbanas: acima, na notícia ao lado da do anúncio do racionamento, o tema era a plantação de batatas nos jardins do Palácio Federal;
e nesta outra procede-se à colheita de cereal numa das praças centrais de Zurique (notem-se os basbaques - quem diria que na Suíça também há basbaques? - e o eléctrico em fundo). Todas essas iniciativas eram mais simbólicas que substantivas e não podiam, contudo, esconder a fraca produtividade dos terrenos agrícolas suíços e a consequente escassez de alguns produtos alimentares. O racionamento de outros produtos porém, caso do leite, surgia como uma enorme surpresa, a atender à tradicional imagem bucólica suíça das vacas e dos seus badalos, nos seus pastos de altitude. Em tempos de guerra, porém, os mitos e os bilhetes postais não serviam para alimentar a população.

03 junho 2015

CINCO CAMINHOS DISTINTOS PARA A PRESERVAÇÃO DA NEUTRALIDADE

Acabei por descobrir que, quando se debate a questão das neutralidades durante a Segunda Guerra Mundial é útil relembrar um truísmo: o de que num grande conflito com aquelas características só conseguiram permanecer neutrais os países que o conseguiram, não os que o desejaram e o proclamaram. Basta vermos uma lista dos países beligerantes da última Guerra (1939-45) para nos apercebemos do impressivo número de países europeus que se viram arrastados para ela, apesar das mais veementes profissões de neutralidade: Bélgica, Holanda, Luxemburgo, Dinamarca, Noruega, Grécia, Bulgária, etc. Ter permanecido neutral é assim considerado como uma demonstração de sucesso histórico em qualquer dos cinco países que conseguiram tal estatuto, com a notável excepção portuguesa. A Segunda Guerra Mundial acabou há 70 anos, período a que se seguiram 30 de encómios pela habilidade da acção de Salazar, até ao derrube do seu regime em 1974, a que se seguiram outros 40 de críticas e desvalorizações da conduta portuguesa durante o conflito. Creio que já vai sendo tempo de se ser razoável.

É evidente que, adoptando o ponto de vista da historiografia do pós-Guerra e de entre os cinco países que permaneceram neutrais, os mais antipáticos são as duas ditaduras ibéricas. Mesmo aí, a Espanha é para ser considerada pior que Portugal. Se, quanto aos dois blocos em conflito, do ponto de vista dos interesses estratégicos de ambos, as suas posições eram equívocas (mais a espanhola do que a portuguesa), não haveria dúvidas sobre o sentido das suas simpatias ideológicas, completamente enviesadas para o Eixo. Mais do que isso, no caso espanhol havia um passivo por saldar em relação aos dois grandes países (Alemanha e Itália) que o constituíam por causa do apoio recebido durante a Guerra Civil de 1936-39. De facto, a neutralidade espanhola teve muito mais de circunstancial do que aquilo que os adeptos do determinismo histórico gostarão de admitir. Se os resultados militares sobre os céus de Inglaterra se apresentassem mais favoráveis para a Luftwaffe no Outono de 1940, talvez Franco pudesse ter decidido de outra forma. Se Hitler tivesse outra disposição para com as ambições coloniais em África da Espanha (feitas a expensas da França), talvez Franco pudesse ter decidido de outra forma. Se Hitler não tivesse assinado o Pacto com Estaline em 1939, talvez Franco tivesse feito outra avaliação do líder alemão e pudesse ter decidido de outra forma. Sobretudo, se os espanhóis fossem menos espanhóis, e tivessem uma imagem mais realista da sua real importância no xadrez político europeu e talvez Franco pudesse ter decidido de outra forma. A conjugação de tudo isso, muito mais do que a habilidade de persuasão de Salazar sobre Franco, como sugeriu a propaganda posterior do nosso Estado Novo, fez com que a Espanha não se engajasse formalmente na Guerra. Do ponto de vista alemão, e se os espanhóis não se mostravam dispostos a dar esse passo, o status quo vigente era-lhes suficientemente vantajoso para que não valesse a pena rompê-lo por sua iniciativa, ocupando-o. Este foi um padrão de comportamento dos alemães tão válido em Espanha quanto na Suécia ou na Suíça, os três dos cinco países neutrais que estavam ao alcance directo das armas da Wehrmacht. Para mais, Hitler, que sempre valorizou os precedentes históricos nos seus processos de tomada de decisão, terá recordado o que acontecera aos exércitos napoleónicos de ocupação na Espanha dos primórdios do Século XIX.


E, por muito que a evidência nos melindre, o destino de Portugal estava indissociavelmente ligado ao que viesse a acontecer em Espanha. Enquanto Irlanda, Suécia e Suíça estavam geograficamente isoladas para resolver o problema da preservação da sua neutralidade por si sós, com as suas características autónomas, Portugal e Espanha eram o único cluster de neutrais, em que essa preservação era interdependente. Sem a predilecção que Adolf Hitler mostrava pela evocação da História, Salazar também saberia quais as lições a extrair dela: nunca haveria processo satisfatório da Alemanha ocupar directamente em Portugal sem a colaboração espanhola, como ficara aliás demonstrado durante o período napoleónico. Havia que evitar a todo o custo que a diplomacia alemã cravasse uma cunha entre os dois países, assinando o Pacto Ibérico mas sobretudo lembrando à Espanha que a cumplicidade em tal manobra lhe custaria certamente o estatuto de neutralidade por parte dos adversários da Alemanha. Era convicção de Salazar que, se os alemães entrassem na península, fosse a convite espanhol ou forçando a mão, as possibilidades de Portugal preservar a neutralidade com os alemães em Espanha tornar-se-iam praticamente nulas: ou Portugal se tornava num país-satélite do Eixo (uma Hungria) ou então tornar-se-ia em mais dos países ocupados (uma Grécia). Isto para a parcela continental, porque os seus três arquipélagos do Atlântico Norte (Açores, Cabo Verde e Madeira) iriam ser certamente disputados pelas potências beligerantes.

A questão do Portugal atlântico era o outro grande problema de Salazar. Não haviam os britânicos ocupado a Islândia (então dinamarquesa) em Maio de 1940, respondendo à ocupação da Dinamarca pelos alemães no mês anterior? E não haviam os norte-americanos ocupado a Gronelândia em Abril de 1941, oito meses antes da sua entrada na Guerra? Nos dois casos o Reino Unido e os Estados Unidos haviam-se mostrado muito ciosos do controle do espaço Atlântico, capazes de acções preventivas para preservar esse controle. No caso dinamarquês, os alemães haviam-se antecipado e ocupado a própria Dinamarca o que servira de justificação para a ocupação pelos Aliados das suas possessões atlânticas (Islândia e Gronelândia). Evitar que isso se repetisse em Portugal era o primeiro dos problemas de Salazar. O segundo dos problemas de Salazar era que o mesmo desfecho tivesse lugar, sendo as ocupações feitas pela ordem inversa: os anglo-saxónicos podiam ocupar primeiro os arquipélagos atlânticos e era isso que serviria de justificação para os alemães ocuparem o território continental. Conversações havidas no Rio de Janeiro entre norte-americanos e brasileiros para que entre essas eventuais forças de ocupação (dos Açores) houvesse um contingente brasileiro que, pela irmandade da língua, minorasse o impacto do gesto, só impressionavam em Lisboa pela ingenuidade; de resto, assustavam. Quando Salazar se decidiu finalmente a assinar um acordo com os britânicos, cedendo-lhes posições nos Açores, a tendência do desfecho da Guerra já era nítida. Os seus contornos rebuscados, invocando a (mais velha) Aliança agradarão às minúcias jurídicas de Salazar mas nada daquilo resistiria a um daqueles bons ultimatos de 48 horas de Adolf Hitler, fossem outras as circunstâncias. Em Agosto de 1943 os aliados acabavam de ocupar a Sicília e os soviéticos haviam terminado de vencer a batalha do Kursk. Mas ainda havia suficiente indefinição política para que o gesto de Salazar tivesse significado e reconhecimento: para comparação refira-se que só nesse mesmo mês é que os Estados Unidos e a União Soviética reconheceram estatuto ao CFLN (Comité Francês de Libertação Nacional) gaullista, que havia sido criado em Londres três anos antes!

É engraçada a pretensão de moralidade daquelas duas potências na forma como criticaram posteriormente à Guerra a conduta de todos os países que conseguiram permanecer neutrais, pelo egoísmo demonstrado por eles em preservar os seus interesses particulares em detrimento da segurança colectiva da Europa que a ascensão da Alemanha fazia perigar. É verdade que é a elas duas – União Soviética e Estados Unidos – que se deve primordialmente a vitória final no conflito, mas esse reconhecimento não nos pode fazer esquecer que, factualmente, ambas permaneceram neutrais o mais que puderam (dois anos a dois anos e meio) e que só entraram na Segunda Guerra Mundial quando foram arrastadas para o efeito, com a operação Barbarrossa e com o ataque a Pearl Harbour.

A Suécia terá sido, dos cinco países neutrais, o único em que não se personalizou numa única pessoa a condução política do país pelos caminhos tortuosos da neutralidade. A tarefa terá ficado dividida entre o primeiro-ministro social-democrata Per Albin Hansson e o rei Gustavo V. A contribuição e a importância de cada um dependerá da perspectiva de quem observa. É verdade que a Suécia era uma monarquia constitucional e que as responsabilidades recaíam todas no executivo e em que o chefiava mas também é verdade que a aristocracia sueca era, por norma, germanófila, de que um exemplo emblemático fora a primeira esposa de Hermann Göring, Carin. É razoável sintetizar que a pessoa do octogenário Gustav V, que subira ao trono em 1907, aportava à política externa sueca um capital de respeitabilidade que Hansson devia considerar muito bem-vindo.

Há que reconhecer que as opções em aberto para a conduta da Suécia a partir da Primavera de 1940 eram escassas. A Alemanha ocupara os outros dois países escandinavos (Dinamarca e Noruega) e a União Soviética fizera o mesmo com os três países bálticos (Estónia, Letónia e Lituânia). Os contactos marítimos de Estocolmo com o resto do Mundo passavam pelo Øresund (com 4 km de largura no seu ponto mais estreito), com a Wehrmacht posicionada do outro lado. Na península escandinava, ao contrário do que se passava na ibérica, a geografia permitia que a Alemanha pudesse ocupar o país da fachada atlântica (Noruega) sem precisar da conivência do seu vizinho. Claro que o reabastecimento logístico posterior do exército alemão seria muito mais facilitado se a Suécia, deixando-se de uma prática rigorosa da neutralidade, desse mostras de uma certa compreensão, o que veio de facto a acontecer. Toneladas de equipamento e munições e sobretudo muitos milhares de soldados da Wehrmacht em licença atravessaram regularmente o território sueco em comboios que, por serem cuidadosamente monitorizados pelos suecos, não deixavam por isso de ser violações flagrantes da neutralidade sueca. A forma como cada país escandinavo avaliou o comportamento dos seus dois outros parceiros durante a Guerra pôde ser avaliada em 1949, quando da formação da NATO: Dinamarca e Noruega aderiram, deixando a Suécia isolada na sua decisão de querer continuar a manter a neutralidade no Báltico durante a Guerra-Fria.

A ameaça dissuasora de Estocolmo em destruir as infra-estruturas das suas minas de ferro do norte que se revelavam muito convenientes, quase indispensáveis, para o esforço de guerra alemão, não teria produzido grandes efeitos de dissuasão se não houvesse garantias do outro lado que a conduta sueca seria cooperante para com a Alemanha sob o status quo que se acabara de formar na Primavera de 1940. Outra atitude da parte da Suécia teria provocado a guerra e a ocupação. Há uma estranha capa de opacidade em relação à Suécia de 1939-1945 e às formas como evoluíram as simpatias da sua opinião pública. Em 1945, não se sabe bem como, a germanofilia tradicional das suas elites havia desaparecido, o nacional-socialismo e as organizações fomentadas pelos alemães haviam tido apenas uma influência marginal na sociedade e é um trabalho laborioso tentar saber quantos voluntários suecos se apresentaram para combater nas Waffen-SS ou na Wehrmacht.
De todos os neutrais, a Suíça tinha a posição geográfica mais ingrata, a partir de Junho de 1940 ficara rodeada por todo o lado de entidades políticas pertencentes ou dependentes do Eixo. E uma situação administrativa peculiar. A situação internacional conferira um conjunto de poderes centrais extraordinários a um chefe militar, Henri Guisan, anormais num país que tradicionalmente os distribui pelas autoridades dos cantões da Confederação. Em fundo, havia a famosa neutralidade suíça, proclamada originalmente em 1516 e que fora galhardamente preservada até à Primeira Guerra Mundial (1914-18). Era um slogan, nem sempre verdadeiro. Na realidade, desde 1798 até ao fim do período das guerras napoleónicas em 1815, essa neutralidade fora pura e simplesmente esquecida pelos franceses. E podê-lo-ia voltar a ser facilmente, desta vez pelos alemães e por uma maioria de razão: uma ampla maioria (quase ¾) dos suíços era germanófona, o que viria a propósito do programa de quem se propusera reunir todos os alemães no mesmo Reich.

Nem de propósito, Henri Guisan pertencia à minoria francófona da Suíça. Era protestante. E politicamente seria de um conservadorismo musculado que não o distinguiria por aí além de Philippe Pétain. Mas as expectativas sobre Guisan e sobre o comportamento da Suíça eram muito menores do que as que se depositavam, de um lado e outro, sobre a França de Vichy. De uma Suíça economicamente muito aberta para o exterior e muito dependente dele (vale a pena recordar que a Suíça de então era conhecida por ser o maior produtor mundial de relógios – e que precisava de os exportar...), o que mais se lhe podia pedir – do lado dos Aliados – é que ela fosse o mais neutral possível. O critério de avaliação do comportamento dos suíços durante a guerra tem por isso que ser temperado. Aquilo que noutros países é considerado de uma neutralidade elementar, no caso da Suíça tem que ser valorizado doutro modo. As disputas a respeito dos direitos de circulação ferroviária entre a Alemanha e a Itália são um desses exemplos. A capacidade negocial da Suíça estava tolhida pela capacidade recíproca dos seus interlocutores em facilitar-lhe a ela o acesso a portos marítimos para o seu comércio externo com países terceiros.

Sendo o país politicamente neutral, os números do comércio externo da Suíça desses anos desmentem essa neutralidade do ponto de vista económico, fazendo da Suíça quase um satélite do Reich, produzindo para o seu esforço de guerra. Mas isso é compreensível, sendo a contrapartida de não o fazer o desemprego de uma boa parte da população vocacionada para dispersar a sua produção industrial para mercados que agora estavam fora de alcance. Muito menos compreensíveis seriam as transacções financeiras em que a Suíça reforçou o seu papel de plataforma central das menos transparentes. Em tudo isto, a importância de Henri Guisan vem a revelar-se muito mais simbólica que efectiva. Mas o Comandante-Chefe dos exércitos suíços foi precioso para lhes conferir a credibilidade de dissuasão suficiente para que os alemães não pensassem que a invasão da Suíça seria uma espécie de um Anschluss (anexação da Áustria) um pouco mais musculado

Ao contrário dos quatro casos anteriores o maior – senão mesmo o exclusivo – problema da preservação da neutralidade da Irlanda era o Reino Unido. Apresentado de uma forma prosaica, não se punha a questão dos irlandeses simpatizarem particularmente com os alemães – ainda na Grande Guerra precedente quase 50.000 irlandeses haviam perdido a vida combatendo-os – a questão é que os irlandeses detestavam ainda mais os britânicos que haviam sido a potência colonial na Irlanda até 1922. Houvera uma guerra civil e uma partição da ilha e muito ressentimento que os poucos anos transcorridos não apagaram.

A compreensão britânica quanto à atitude irlandesa era profundamente negativa e, se possível, só piorou quando Churchill se tornou primeiro-ministro em Maio de 1940. A Irlanda era um Domínio, fazia parte da Commonwealth e para um velho imperialista como Winston Churchill era um axioma que os problemas da Metrópole eram os problemas do Império. Se o Canadá, a Austrália, a África do Sul ou a Nova Zelândia haviam declarado guerra à Alemanha porque não o fizera a Irlanda? Eamon de Valera, o primeiro-ministro irlandês responder-lhe-ia que a questão não tinha nada a ver com a Irlanda.

E podia fazê-lo sem o receio das retaliações que abundavam no continente. A Irlanda era uma democracia, reivindicando-se dos mesmos valores pelos quais o Reino Unido dizia bater-se e seria um verdadeiro desastre de imagem se os britânicos forçassem de alguma forma violenta os vizinhos a alinharem-se numa posição externa de que o seu governo legítimo se havia distanciado. Por isso, ao contrário de uma Suécia, de uma Suíça e mesmo de um Portugal que teve que reforçar os contingentes militares nos seus arquipélagos atlânticos, a Irlanda pôde atravessar toda a Segunda Guerra Mundial sem precisar de investir num dispositivo militar que desse mais credibilidade à sua neutralidade.

Mas aquilo que não se podia fazer ostensivamente, podia fazer-se por omissão: o Reino Unido, que, como antiga potência, controlava praticamente todo o comércio externo da Irlanda, votou os irlandeses a uma verdadeira autarcia económica, apenas privilegiando aquilo que a Irlanda produzia e que conviria ao seu esforço de guerra. Para um país geograficamente afastado da guerra as carências de alguns artigos importados por que os irlandeses passaram durante esses anos assemelhavam-se às sofridas pelos habitantes dos países ocupados.

25 maio 2015

CONTRIBUTOS PARA UMA MELHOR COMPREENSÃO DA NEUTRALIDADE PORTUGUESA DURANTE A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL - A SUÍÇA E O CASO DÄNICKER

Alguém me sugeriu que, para que se pudesse analisar os países neutrais durante o período da Segunda Guerra Mundial com mais alguma profundidade, aqui inserisse algumas histórias de outros países para que o que aconteceu em Portugal, tantas vezes condenado, fosse visto numa perspectiva mais fundamentada. E é assim que me disponho a contar (naquele formato obrigatoriamente reduzido de um poste) o Caso Dänicker. Aconteceu na Suíça e envolveu um conjunto de manobras políticas entre as altas patentes militares locais. O coronel Gustav Dänicker (1896-1947) era, quando da eclosão da Segunda Guerra Mundial, um dos mais promissores oficiais do exército suíço. Comandava a Escola Prática de Artilharia em Walenstadt, funções que acumulava com uma cátedra de Ciências Militares na Universidade de Basileia. Um militar de reputação impecável com o único senão das suas conhecidas simpatias germanófilas – mas que incluíam um assisado e prudente distanciamento das formações políticas suíças pró-nazis. Logo após a derrota francesa a Ocidente em Junho de 1940 e da assinatura do Armistício, o Comandante-Chefe do exército suíço Henri Guisan (1874-1960, foto acima) proferiu um discurso diante de uma assembleia de oficiais reafirmando o compromisso da confederação em continuar a defender a sua conhecida neutralidade histórica (Rütlischwur) apesar da alteração das circunstâncias. As tendências pró-germânicas do coronel Dänicker – e possivelmente algum incentivo de Berlim – levaram-no a endereçar uma carta ao Comandante-Chefe informando-o que não acreditava nem no seu programa nem na sua capacidade para conduzir o país. A resposta de Guisan foi igualmente privada: satisfar-se-ia com a confiança pública do coronel.

Na Primavera de 1941, os alemães arranjaram um programa para que o coronel Dänicker visitasse o seu país de onde ele regressou mais convicto que nunca que a melhor conduta para a Suíça seria um reposicionamento mais conforme os interesses alemães. Num memorando que cuidadosamente redigiu em Maio de 1941, cinco dias depois do seu retorno, endereçado dessa vez às altas patentes militares mas também às figuras do topo da administração, ele defendeu que evitando resistir ao inevitável, a Confederação Helvética ainda poderia evitar a integração forçada na Ordem Nova europeia que surgiria com a vitória alemã. Porém, em vez de defender um pronunciamento militar ou uma Marcha sobre Berna (ao jeito da do fascismo italiano), o coronel Dänicker acabava por delegar ingenuamente em Ernst Hoffmann (1912-1986), o líder do maior partido nazi (o Nationale Bewegung der Schweiz), a tarefa de o transformar num poderoso movimento de massas que compelisse a actuação do governo federal nessa direcção (num jeito semelhante àquilo que Konrad Henlein fizera com o seu Sudetendeutsch Partei nos Sudetas checos até à sua anexação em 1938).

Convém explicar que Henri Guisan era suíço francófono (ao contrário de Dänicker que era de origem germânica), mas que também era militante da Schweizerischer Väterländischer Verband (traduzível por Federação Patriótica Suíça), uma organização de uma direita musculada, senão mesmo fascista. Haverá por isso muito pouco de ideológico e muito mais de pessoal e cultural a separar os dois homens, Guisan e Dänicker. Mas Guisan dessa vez, ao segundo desafio, resolveu contramanobrar e tornar conhecido da imprensa o memorando que recebera de Dänicker, para que houvesse um contar de espingardas que ele acreditava que se lhe iria revelar favorável. Dois dos seus comandantes de corpo assim como algumas patentes elevadas da aviação militar mostraram simpatias pelas posições de Dänicker. Mas o resto estava consigo. A posição de Guisan, embora mais perigosa a curto prazo, era muito mais bem acolhida pela opinião pública suíça (e o exército suíço é um exército de cidadãos), porque preconizava um país mais distanciado do conflito, um aspecto que ainda mais se veio reforçar quando, no mês seguinte a estes acontecimentos, a Alemanha desencadeou a Operação Barbarrosa (a invasão da União Soviética) e a guerra veio a envolver quase toda a Europa. Mas a reacção de Guisan à ameaça representada pela interferência alemã não teve nada da justiça poética do cumprimento de um desejo formulado pela maioria da população suíça: em primeiro lugar pôs os recursos do exército suíço ao serviço de um aparelho de propaganda em prol da preservação da neutralidade que defendia; havia sessões de propaganda para contrariar as dos nazis; em segundo lugar, a polícia e os serviços de informações militares acentuaram o seu controle (e infiltração) em cima das organizações de extrema-direita e pró-alemãs (note-se este último pormenor porque a SVV a que Guisan pertencia continuou a existir mesmo depois de 1945...); em Junho de 1941, 131 conhecidos nazis suíços foram presos; em terceiro lugar, os oficiais generais que haviam mostrado simpatias pelas posições de Dänicker, como o general Ulrich Wille Junior (1877-1959) foram afastados dos seus postos; e em último lugar, o próprio coronel que dá o nome ao caso, além de afastado, acabou ominosamente – estamos na Suíça! – condenado a 15 dias de detenção. A manobra alemã para, por dentro, fazer da Suíça uma aliada como o eram a Hungria, a Roménia, a Eslováquia ou a Bulgária, fracassara. Mas cadê as liberdades democráticas?...
Para quem conheça a realidade portuguesa, tudo o que acima se descreve, salvaguardadas pequenas adaptações, bem se poderia ter passado se os alemães tivessem estimulado uma figura de proa do Estado Novo conhecida pela sua germanofilia, como por exemplo o coronel Santos Costa (1899-1982), ministro do Exército, e ele se tivesse disposto a aceitar o estímulo. O desfecho, suspeito, não deveria ter sido muito diferente do que aconteceu na Suíça, com a prevalência do status quo (e de Salazar). Na Suíça, mesmo sabendo-se quanto os valores desses anos podem ser equívocos, veio a transformar-se Henri Guisan exageradamente no herói que preservou a neutralidade suíça (acima), esquecendo o resto. Em Portugal, sobre Salazar e quanto a esse mesmo assunto, o exagero é para o lado contrário, incluindo até quem tem outras obrigações por ter a pretensão de estar a falar de cátedra.

05 junho 2014

AS NEUTRALIDADES POSSÍVEIS DURANTE A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Basta olharmos para a localização dos cinco países que conseguiram permanecer neutrais durante a Segunda Guerra Mundial para nos apercebermos que as circunstâncias que rodearam a sua neutralidade foram obrigatoriamente distintas. Localizadas bem no centro da Europa de que a Alemanha assumira a hegemonia, Suécia e Suíça tiveram necessariamente que contemporizar muito mais com as exigências do III Reich do que os três restantes. Por sua vez, situadas na orla Atlântica, a Irlanda e Portugal (este muito por efeito do seu império ultramarino) tiveram a sua liberdade de acção muito mais condicionada pelos Aliados anglo-saxónicos que exerciam a sua hegemonia sobre os mares. As capacidades de coacção dependiam da geografia. Dos cinco países, pela localização e pela dimensão, apenas a Espanha, e apesar das simpatias ideológicas, possuiu a autonomia estratégica para assumir qualquer das condutas (o engajamento com o Eixo ou a neutralidade), prestando-se a ser persuadida pelos dois lados – e, mesmo assim, por vezes foi persuadida mas com argumentos contundentes, como demonstrei neste poste. Porém, terminada a Guerra, tornou-se inconveniente a todos os países neutros evidenciarem as facilidades que haviam sido prestadas aos vencidos. E essas facilidades, por força das circunstâncias acima descritas e mau grado aquilo que depois seja a reescrita da História, foram significativamente superiores entre suecos e suíços do que entre irlandeses e portugueses.
Daí um esforço propagandístico retrospectivo dos primeiros realçando as suas capacidades de auto-defesa (depois dessas capacidades não terem sido submetidas à prova...), que acompanharam alguns oportunos destaques de gestos pró-Aliados mas também algumas omissões quando os gestos beneficiaram os seus inimigos. Nestas fotografias acima, num desfile militar suíço vêem-se viaturas particulares a rebocar peças de artilharia, numa insinuação à mobilização dos recursos civis, e um soldado sueco armado controla soldados alemães em trânsito, esticando as pernas numa estação ferroviária do seu país. No último caso e apesar do que a fotografia possa sugerir, a Suécia permitiu entre 1940 e 1943 o trânsito pelo seu país de muitas centenas de milhares de soldados alemães e de dezenas de milhares de vagões carregados de abastecimentos e material de guerra, destinados às unidades militares alemãs que guarneciam o Norte da Noruega e que, aliados com os finlandeses, combatiam contra os soviéticos no extremo norte da União Soviética, tentando apoderar-se do porto de Murmansk (abaixo). À sua maneira tratava-se de facilidades semelhantes e simétricas às que Portugal concedia naqueles mesmos anos aos Aliados nos Açores, violações descaradas das leis estritas da neutralidade. Percebe-se que seja um tema que não envaideça os suecos e a que eles não deem grande destaque. Parece haver um pacto de silêncio compreensível estabelecido por suíços e suecos a respeito de muitos desses episódios mais conformados da Segunda Guerra Mundial.
O que me parece menos compreensível é como, em contraste, parece existir em Portugal um pacto ideológico de pessoas dedicadas a estudar este mesmo período da História e que se mostram sobretudo preocupadas em escarafunchar todos os indícios de colaboração do governo português com os países do Eixo, de preferência envolvendo (e culpando) António Salazar. É ridículo porque, quando se estuda o assunto dos países neutrais durante a Segunda Guerra para além daquilo que aconteceu nesta nossa paróquia portuguesa, constata-se naturalmente que a contribuição sueca (dirigida pelo impoluto 1º ministro social-democrata Per Albin Hansson) para o esforço de guerra nazi, foi muito superior à portuguesa, apesar de todo o fascismo e proximidade ideológica do seu homólogo António de Oliveira Salazar…

02 maio 2014

WILHELM GUSTLOFF

O nome de Wilhelm Gustloff (1895-1936) é relativamente desconhecido entre a constelação de pequenos führers europeus que emulavam o original. Gustloff (acima) foi o dirigente da sucursal suíça do nazismo. Foi assassinado a tiro em sua casa em Berna em Fevereiro de 1936 por um imigrante judeu croata. Tratando-se da Suíça, não surpreende que o assassino, com o nome de ressonâncias fortemente germânicas de David Frankfurter (1909-1982), tenha abandonado o local do crime para se ir apresentar à esquadra de polícia mais próxima para o confessar. O crime foi enormemente aproveitado pela propaganda nazi que transformou a vítima num mártir da causa. Mas não deixa de ser irónico nesse processo e sendo a Suíça um país sem saídas para o mar, que a maior notoriedade do nome de Wilhelm Gustloff se venha a dever ao facto desse nome ter pertencido a um navio de cruzeiro alemão (abaixo - há um vídeo com a sua viagem inaugural onde escalou Lisboa e o Funchal em 1938) que foi o protagonista do maior desastre marítimo de sempre, que causou cerca de 9.000 mortos em Janeiro de 1945, durante a Segunda Guerra Mundial.

12 fevereiro 2014

DEMOCRACIA O CARALHO

Os suíços são um povo de que não se gosta: são reservados, são xenófobos, são enfadonhos. Até o Astérix entre os Helvécios (acima) é uma aventura esforçada, por causa da falta de graça intrínseca dos nativos. Mas têm um sistema político arcaico e substantivamente mais democrático do que a maioria dos restantes países ocidentais. Estão sempre a organizar referendos para que os cidadãos se pronunciem sobre os mais variados assuntos, o que pode conduzir a resultados considerados absurdos: o voto das mulheres, por exemplo, só veio a ser adoptado para as eleições federais de 1971 ou então a adesão da Suíça (que até era a sede de alguns dos organismos da organização) à ONU que só veio a ter lugar em 2002 – ou seja, no mesmo ano da admissão de Timor-Leste! Mas a verdade é que a esmagadora maioria dos assuntos referendados não são tão controversos quanto os mencionados e as opções que são assumidas na sequência das votações referendárias possuem indiscutivelmente uma legitimidade política acrescida quando implementadas. É o sistema dos suíços, dão-se bem com ele e não parecem querer mudá-lo.
 
É um sistema que haveríamos de respeitar democraticamente, mesmo quando o seu resultado não viesse de encontro ao que desejamos. Já me cansei de ler por aí críticas, que vão desde as frontais até às abordagens de cernelha, ao resultado do referendo que teve lugar no fim-de-semana passado na Suíça, a propósito da imigração. E nada haveria a dizer das discordâncias: a) Se elas mostrassem o respeito devido à vontade popular expressa por intermédio do voto livre; b) Se a opinião fosse coerente com princípios enunciados no passado.

É por causa disso que dá gosto ler Daniel Oliveira a escrever sobre estes assuntos como se se tratasse de um assunto de futebol: É que podemos ler os argumentos como ele agora condena a decisão dos suíços em contradição completa com os argumentos que ele apresentou faz uns dois anos a propósito de um referendo (que não chegou a ter lugar) entre os gregos. Aquilo que foi por ele condenado naquela época - e bem - por não se ter dado oportunidade aos gregos de terem voz, é agora condenado pelo mesmo quando os suíços tiveram - felizmente - oportunidade de se exprimir, curiosamente com argumentos muito parecidos aos que então se opunham ao referendo grego. Na prática e por detrás de dois textos prolixos mas não coerentes, Daniel Oliveira mostra que a democracia directa é boa desde que o povo valide as opiniões dele. Ora quando a coerência e os princípios que deveriam estar por detrás dela chegam a este ponto não há melhor refutação do que a futebolística, seca e grossa, a mesma que Jorge Gabriel emprega no vídeo abaixo , em directo na TV, para rejeitar a opinião de Manuel José: o Daniel Oliveira é um democrata o caralho…

Adenda do dia seguinte: Uma investigação pericial às palavras de Jorge Gabriel mostrou que ele apenas concordou que o carácter havia sido morto, e não a imprecação que e eu e outros lhe atribuímos. Não é apenas a língua portuguesa que pode ser muito traiçoeira, a forma como as palavras são pronunciadas também, mas sobretudo – e penso que terá sido a explicação principal aqui – a predisposição de quem ouve.

11 fevereiro 2014

A SUÍÇA E A EUROPA, O NORTE E O SUL

No momento em que os cidadãos suíços se pronunciaram num referendo sobre imigração, mesmo que por uma escassa maioria, de uma forma que manifestamente terá desagradado aos interesses superiores do colosso económico – a União Europeia – que os cerca (acima), valerá a pena distender um pouco o ambiente e consolidar o Ideal europeu (que, ao contrário dos suíços, nós abraçámos sem esse empecilho dos referendos), através deste filme engraçado do italiano Bruno Bozzetto, uma reflexão sobre o que une e aparta os vizinhos alemães ao Norte da Suíça dos outros vizinhos ao Sul, os italianos.

08 junho 2012

TEMPOS DE AUSTERIDADE DIANTE DE «MIRONES» SUÍÇOS

Evocando, a propósito deste que atravessamos, outros tempos de austeridade noutros locais que não Portugal, insiro esta fotografia dos anos da Segunda Guerra Mundial, onde se vê que até na Suíça neutral – a fotografia foi tirada em Zurique – se aproveitaram as praças públicas para plantar cereais. Sendo um país desenvolvido é evidente que a colheita é mecânica mas deixem-me acrescentar apenas uma nota final. Aquela linha de transeuntes parados ao fundo contradiz todos aqueles discursos auto-flagelantes que dão a entender que os suíços, por serem desenvolvidos, se comportam como deve ser e não como nós: por ali se vê que também os há daqueles que gostam de ver trabalhar os outros – o famoso mirone

17 novembro 2009

O PICO DAS TRÊS LÍNGUAS

Na fronteira que a sudeste a Suíça faz com a Itália encontra-se um pico de 2.843 metros de altitude (assinalado no mapa acima) que tem a particularidade de ser o ponto de intercepção das fronteiras linguísticas de três idiomas europeus: o alemão, o italiano e o romanche. Chama-se, utilizando a menos conhecida das três, apesar de se tratar da quarta língua oficial da Suíça, o Piz de las trais Linguas (leia-se a placa abaixo).
Como dará para deduzir, trata-se de um idioma neo-latino que é falado por apenas 0,9% da população suíça, embora os seus falantes se concentrem no Cantão dos Grisões, onde constituem quase ⅓ da população. Como acontece nas regiões compartimentadas, existem vários dialectos distintos e, como acontece com os idiomas neo-latinos, o seu vocabulário (compare-se neste quadro) tem bastantes semelhanças com o português.
Porém, como aconteceu com outras línguas europeias (na Península Ibérica, o caso mais conhecido é o do basco), o romanche também falhou a transição de idioma rural para a sofisticação de idioma urbano a partir do Século XIX, acompanhando a industrialização e a urbanização que transformaram a Europa. Quando o fez já era demasiado tarde e os mapas acima marcam a diminuição da influência do romanche (a grená) de 1860 para 2000.

23 outubro 2009

ESTADOS POLICIAIS...

Havendo muitos pormenores a distingui-los, os episódios filmados nos dois vídeos abaixo consistem essencialmente em situações idênticas: trata-se do exercício de uma violência das forças da ordem (que se percebe de uma forma mais do que evidente que é excessiva) sobre um dos membros da assistência durante um evento público. Os dois acontecimentos têm dois anos, o primeiro aconteceu na Suíça, por ocasião de um jogo de apresentação de pré-temporada do Benfica, o segundo nos Estados Unidos, por ocasião de um debate organizado na Universidade da Florida, com a presença do senador John Kerry.
Mas o que é substancialmente diferente para além dos pormenores já referidos e doutros são as reacções das duas plateias… Embora a Suíça seja considerada o país mais disciplinado da Europa, no caso do primeiro vídeo, considerada a previsível composição maioritariamente lusitana da assistência do jogo, talvez esse facto fosse irrelevante. Mas o importante é que a atitude abusiva dos seguranças gerou uma indignação tal fora do campo que provocou uma reacção em crescendo da assistência que se veio a tornar, por sua vez, disparatadamente violenta. O contraste não podia ser maior com aquilo que podemos ver no vídeo abaixo:
Na plateia civilizada da Universidade da Florida apenas se deixam ouvir, aqui e além, algumas expressões indignadas sobre o comportamento que os polícias estavam a assumir. Nem se vê qualquer reacção física aos pedidos de ajuda do detido. Ironizando, comparado com o dos Estados Unidos, é visivel que o poder da autoridade policial na Europa, mesmo na Suíça, parece ser uma brincadeira… Uma comparação interessante: vêem-se 4 seguranças nos incidentes no estádio suíço, mas são 6 os polícias presentes na detenção no auditório. Se calhar deviam lá estar todos porque eram democratas e tinham vindo ouvir John Kerry…

29 junho 2008

O MARAVILHOSO EXÉRCITO SUÍÇO

Durante todo o Século XX, incluindo o período da Guerra-Fria, o dispositivo de defesa nacional da Suíça era considerado uma das grandes maravilhas do Mundo. Numa época em que os números eram importantes, a legislação impunha que todos os cidadãos suíços que estivessem em boas condições físicas e que tivessem entre 20 e 50 anos de idade fizessem parte das Forças Armadas suíças, o que fazia com que os seus efectivos atingissem uma ordem de grandeza desproporcionada para a dimensão demográfica do país (10 a 12% da população total).
Normalmente, o período de serviço militar inicial na Suíça era constituído por quatro meses de instrução, em quartel, na forma tradicional como o serviço militar era cumprido nos restantes países europeus, mas seguido de 12 anos nas forças principais da reserva, complementado por mais 18 anos nas reservas secundárias. O que diferenciava o serviço militar suíço dos restantes era o treino e a reciclagem que eram regularmente dadas às forças dos reservistas, incluindo uma semana anual onde era obrigatório que fossem cumpridos exercícios de campo.
Feito da forma tradicional, estas reservas teriam uns custos logísticos proibitivos, mas a solução suíça era uma solução que só teria cabimento na Suíça: era o próprio cidadão que se responsabilizava pela manutenção do seu fardamento, calçado e… armamento. O que quer dizer que qualquer cidadão suíço em idade militar possuía uma arma de guerra em casa (a actual é a SG 550, da imagem abaixo) juntamente com uma caixa de 50 munições reais... Recentemente, desde 2007, deixaram de se distribuir as munições…
Mas todos os países que se quiseram inspirar no exemplo suíço recuaram perante a perspectiva das consequências sociais causadas pelo facto de haver mais de 10% da população a andar legalmente armada – nomeadamente o impacto na taxa de homicídios com armas de fogo… Só Israel – que, afinal, não tinha grande escolha… – acabou por adoptar um sistema semelhante e os dois países compartilham imagens como a de baixo, onde um reservista (neste caso suíço) aguarda pacientemente o seu comboio na sala de espera da estação, de metralhadora a tiracolo…
Historicamente, durante as Guerras Mundiais e procurando preservar a sua neutralidade, a Suíça conseguiu com este dispositivo de defesa nacional responder com uma enorme prontidão tanto em 1914 como em 1940, mobilizando quase 500 000 homens num espaço de dias, a tempo de dissuadir qualquer dos beligerantes, França ou Alemanha, de utilizar o território suíço para atacar o inimigo. Mas, durante a Segunda Guerra Mundial, a Suíça acabou por ficar cercada por territórios controlados pelo Eixo e os alemães chegaram a conceber planos para invadir a Suíça...
Embora se adiantem razões militares para que Adolf Hitler não tenha chegado a accionar esses planos, é muito mais plausível que tenham sido razões de outra ordem (diplomática e económica) a preservar a neutralidade suíça. É que afinal, e apesar das aparências, o excepcional dispositivo de defesa suíço, afastava quase ¼ da população economicamente activa das suas actividades normais, o que só é sustentável pelo espaço de um par de semanas. Foi com essa fraqueza que Israel, mobilizado para se defender dos ataques árabes, se confrontou em Junho de 1967, e que o forçou a desencadear a Guerra dos Seis Dias...

12 maio 2008

A SUÍÇA DO MÉDIO ORIENTE

Contou-me quem sabe que, numa reunião alargada com uma vintena de suíços mesmo que eles sejam todos originários dos cantões de língua alemã (que são a maioria: cerca de 75% da população), a primeira meia hora da reunião (e Deus sabe como eles são pontuais…) pode ser dedicada à escolha da versão cantonal oral do alemão suíço com que decorrerão os trabalhos. O debate não está aberto a estrangeiros (é o caso de quem me contou esta história, alemão de Hanôver, que preferiria uma versão oral das menos castiças…) mas ao fim daqueles 30 minutos a decisão é tomada e a reunião começa, de facto, com uma fluidez que nada tem a ver com as nossas tradicionais dispersões lusitanas.
O Líbano é frequentemente comparado com a Suíça e há alguns aspectos nos dois países que se assemelham, a começar pela geografia física (acima) que facilita a formação de agrupamentos cantonais distintos (abaixo), só que neste caso de carácter religioso. Mas as semelhanças por aqui se ficam. A hipotética vintena de libaneses da reunião do parágrafo acima não teria quaisquer problemas na escolha da língua de trabalho (árabe), mas a escolha sobre se se proferiria e quem proferiria uma oração antes da reunião teria sido o pretexto para os que queriam conduzir a reunião desencadeassem um debate que se tornaria mais importante do que os problemas que se procuravam resolver com aquela reunião.
Parece ser genético e fazer parte da gramática da disputa política local. É verdade que a localização geográfica do Líbano não ajuda à pacificação, entalado como está entre Israel e a Síria (abaixo), mas esse argumento aplicava-se também à Suíça na época das grandes rivalidades franco-alemãs e ela permaneceu neutral durante as duas Guerras Mundiais… Por outro lado, definido pelas comunidades religiosas, o quadro político libanês é mais complexo e confuso do que o suíço: até 1997, enquanto foi obrigatório mencionar a confissão religiosa do portador do bilhete de identidade, havia 17 comunidades distintas que eram legalmente reconhecidas… – 11 cristãs, 2 muçulmanas (xiita e sunita), druza, judia, ismaelita e alauíta.
É esta complexidade que torna mais fácil escreverem-se disparates quando se fala do Líbano, como o da coluna de opinião de hoje do Diário de Notícias, assinada por Manuel Queiroz, que se refere (final do parágrafo intermédio), aos cristãos de Nabih Berri, que é o presidente do Parlamento”. Ora, uma das primeiras coisas que se aprende quando se estuda o Líbano político são as cláusulas do Pacto Nacional de 1943 que repartiu os cargos do Estado libanês pelas confissões religiosas: um Presidente cristão maronita, um Primeiro-Ministro muçulmano sunita e um presidente do Parlamento, muçulmano xiita… Nabih Berri (abaixo), pelo cargo que ocupa, é obviamente xiita*. Manuel Queiroz até se podia ter informado
Já aqui na blogosfera, encontra-se uma outra abordagem para analisar estes recentes acontecimentos no Líbano, mais ideológica, mas mais defensiva, passando por alto o detalhe dos acontecimentos, e por isso menos propensa a cair nas armadilhas daqueles erros factuais. Decalcando os interesses israelitas, podem dar mais destaque à própria cobertura mediática do conflito actual, que é menor e menos enviesada do que quando Israel interveio no Líbano, ou então remetem para a incapacidade do governo libanês e da UNIFIL para derrotar o Hezbollah xiita. Mas, como já aqui escrevi e como se pode ler nos documentos originais que a mandatam, o objectivo da UNIFIL não é substituir o exército israelita…
Finalmente, lendo a substância das notícias do que aconteceu recentemente no Líbano, fica-se a saber que os recentes conflitos tiveram lugar tanto nos arredores de Beirute Ocidental** entre as milícias do Hezbollah xiita e do PSP*** druzo, como também nos arredores de Tripoli (cidade do Norte do Líbano) mas aqui entre milícias sunitas rivais, apoiantes e opositoras do governo. A vantagem parece ter pertencido à facção que aglutina as diversas forças que estão na oposição. Não é de excluir que se possa esperar uma nova invasão de tropas sírias. Só aí será apropriado fazer-se uma comparação com a cobertura informativa que foi dada aos acontecimentos do Verão de 2006. Mas até lá, a comparação parece-me excessiva…

* Embora xiita, Berri não pertence ao Hezbollah, mas sim a um partido concorrente, o Amal.
** É em Beirute Ocidental que se localizam os bairros de maioria muçulmana. Beirute Oriental é predominantemente cristã.
*** Partido Socialista Progressista. É o único caso que me lembro de um partido nitidamente étnico/confessional que é membro da Internacional Socialista. Já ouvi o seu dirigente, Walid Jumblatt, um senhor feudal típico, a receber grandes elogios de son ami Mário Soares…

16 maio 2007

EIN VOLK, EIN REICH, EIN FÜHRER!*

Há imensas razões inocentes para se usar esta representação do mapa da Europa agrupando os três países de língua alemã existentes no seu centro. Contudo, seria hipócrita negar o desconforto do significado político que ela pode produzir. As memórias também têm o seu tempo histórico para se esfumarem e talvez no final deste Século, já sejam poucos os que associem o mapa de cima a um senhor de franja e bigodinho curto. Afinal, o tempo tudo cura, nomeadamente as recordações traumáticas das ambições dos outros para dominar o continente, senão não seria coisa dos eruditos de hoje a explicação sobre a origem da expressão portuguesa ir para o maneta

* Um povo, um estado, um chefe! O slogan mais conhecido do nazismo.

06 abril 2007

OS MICRO-ESTADOS EUROPEUS – LIECHTENSTEIN

Na Europa sobrevivem actualmente cinco micro-estados que, ao contrário de ilhas e arquipélagos isolados no meio do oceano*, em que é a própria evidência da geografia que os justifica, só a história e alguma desatenção ou circunstância especial nos processos de unificação dos seus vizinhos no passado os consegue explicar. São eles: Andorra (71.000 Habitantes e 468 Km2), o Mónaco (35.000 e 2 Km2), o Liechtenstein (34.000 e 160 Km2), São Marino (28.000 e 61 Km2), e o Vaticano (800 habitantes e 44 hectares). A dimensão demográfica e territorial de um concelho médio português.

Cada um deles tem a sua história, e os registos da maioria deles começam na Idade Média, numa época em que a organização política em vigor na Europa (o feudalismo) fazia com que o continente estivesse politicamente retalhado numa miríade de centros de poder de uma dimensão reduzida, precisamente à mesma escala daqueles que foram enumerados acima. Vistos de uma certa forma, aqueles micro-estados serão como fósseis vivos de uma Europa política que há muito se extinguiu.
Pretendendo abordar cada um desses países curiosos mais em detalhe, resolvi começar por aquele que tem o nome mais impronunciável de todos: o Liechtenstein. A história do meu interesse mais a sério por tal lugar começa por uma sessão dos célebres Jogos sem Fronteiras em que, para meu espanto, a equipa suíça e os seus tradicionais dorsais com o CH pareciam ter desaparecido, embora substituídos por uma equipa identificada por um misterioso FL: Fürstentum Liechtenstein (Principado do Liechtenstein).

O Liechtenstein é assim uma daquelas tradicionais monarquias, ao contrário das duas repúblicas que o cercam, a Áustria e a Confederação Helvética (Suíça), país com o qual, aliás, o principado tem diversos acordos: aduaneiro, postal, de defesa e de relações exteriores. Tivesse a história sido um bocadinho diferente e o principado (mas sem príncipe…) seria hoje mais um dos cantões da confederação, ou então faria parte do pequeno estado federado austríaco de Vorarlberg.

As referências mais antigas aos feudos daquela região (Vaduz e Schellenberg) datam do século IX, e eram dependências do poderoso ducado da Suábia, cuja maioria do território ficava situado no sul da actual Alemanha. Com a execução do último duque, Conrado V de Hohenstaufen, em 1268, e o desaparecimento do titular, o vínculo dos vários feudos que constituíam o ducado passou a estabelecer-se directamente com o imperador reinante do Sacro Império Romano Germânico (o título era electivo).
Este século XIII viu também nascer, a leste e oeste do Liechtenstein, dois núcleos de agregação de feudos que mais tarde vieram a tornar-se nos países, respectivamente, da Áustria e da Suíça. O primeiro, mais convencional e monárquico, era protagonizado pelos Habsburgos, através de conquistas selectivas adicionadas a políticas matrimoniais maduramente reflectidas, sempre vocacionadas para a expansão dos seus domínios. Uma técnica que havia de culminar, no século XVI, na metade da Europa sob as várias coroas de Carlos V.

O modelo suíço era mais revolucionário, republicano, resultante de tratados de assistência militar mútua, firmados entre cantões em resistência ao expansionismo precisamente de dinastias ambiciosas como a dos Habsburgos. O território do actual Liechtenstein vogou durante séculos nessa espécie de terra de ninguém ideológica até que nos princípios do século XVIII, a família Liechtenstein, que era originária da Baixa Áustria, adquiriu os direitos dos dois feudos, reunindo-os e dando o nome ao país.
Ao contrário de outros casos, onde é o nome do país que se transmite à casa reinante, aqui passou-se precisamente o contrário, porque foi o principado que adquiriu o nome da família reinante. Na altura da aquisição, os Liechtenstein já eram enormes proprietários fundiários, na Áustria, República Checa, Polónia e Hungria (mais de 1.850 Km2, só nos três últimos países), mas foi o privilégio de passarem a ser súbditos directos do imperador austríaco (além de príncipes soberanos) que motivou a aquisição.

Os primeiros soberanos raramente visitaram o seu principado e a sua política externa era uma extensão da austríaca, o que originou alguns resultados engraçados. Durante a Guerra de 1866, que opôs a Áustria à Prússia, e vencida por esta última, mas com o Liechtenstein a alinhar com o lado vencido. Em primeiro lugar, o seu exército de 80 homens que foi mobilizado para lutar ao lado dos austríacos regressou com mais gente do que partiu: não chegou a combater e houve cidadãos que só depois se lhe juntaram…

Depois, o Tratado de Paz que se seguiu esqueceu-se de contemplar o Liechtenstein, que evidentemente também havia declarado guerra à Prússia. Não consigo garantir se os dois países continuaram por muitos anos tecnicamente em estado de guerra, mas asseguro que agora é bastante tarde para corrigir a situação: a Prússia, enquanto entidade jurídica de direito internacional deve ter desaparecido em 1918 com a abolição do Império Alemão. De certa maneira, o Liechtenstein venceu…

Pode ter sido por isso, que o Liechtenstein se deixou de belicismos e adoptou (a partir de 1918) a mesma política de neutralidade da vizinha Suíça, que o livrou de ter sido envolvido na Segunda Guerra Mundial. Numa certa perspectiva, o Liechtenstein é mais um cantão suíço, só que com algumas peculiaridades. Algumas são engraçadas: o país é um dos grandes produtores mundiais de próteses dentárias, vulgo dentes postiços. Outra grande produção industrial é a de tripa para salsichas…

Em contrapartida há aspectos que não têm assim tanta piada. Num assomo que se parece muito com o nosso caciquismo autárquico português, os poderes à disposição do monarca (Hans Adam II), foram até recentemente reforçados através de um referendo realizado em Março de 2003 e seriam, muito provavelmente, considerados como perfeitamente inaceitáveis por todas as outras monarquias constitucionais do continente. Mais impressionante ainda: só desde 1984 é que foi concedido o direito irrestrito de voto às mulheres…

* Como Kiribati, arquipélago do Pacífico (105.000 habitantes e 726 Km2), as Seychelles, arquipélago do Indico (81.000 e 455 Km2), ou São Tomé e Príncipe, duas ilhas no Atlântico (157.000 e 964 Km2).