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01 abril 2024

UM PRIMEIRO DE ABRIL QUE NÃO FOI PROPRIAMENTE UMA PARTIDA

(Republicação)
1 de Abril de 1944. A notícia local, discreta, dá conta que algo de errado acontecera sobre a Suíça. O que acontecera e a causa para que tivesse acontecido só se veio a apurar depois. O núcleo principal de uma formação de bombardeiros B-24 da USAAF, cerca de 50 aviões, desorientara-se devido ao mau tempo e à nebulosidade sobre França. Por muito rudimentares que fossem então os sistemas de navegação, a distância entre o alvo pretendido (as indústrias químicas de Ludwigshafen am Rhein) e o alvo atingido (Schaffhausen), que se pode perceber no mapa abaixo (são cerca de 270 km...) mostra que aquela missão não terá sido um momento maior da perícia da aviação norte americana... Mais humilhante, a USAAF criara a doutrina de proceder aos seus bombardeamentos de dia, por uma questão de precisão. Naquele caso, quiçá explicável por se tratar do Dia das Mentiras, eles haviam-se enganado não apenas no alvo e na cidade, como até se haviam enganado no país... que era um dos poucos países neutrais da Europa.
Valha a verdade que, também do lado suíço, este sobrevoo de aeronaves começou por não ser levado a sério pelos suíços, tantos eram os falsos alarmes de aviões transviados de qualquer dos beligerantes. Como se lê mais acima, as sirenes tocaram nas cidades ameaçadas, como Zurique, mas os avisos não foram valorizados por muita gente que não se incomodou a abrigar-se. Mas, por esta vez, não se tratava de alguns aviões que se haviam transviado, antes uma robusta formação deles, que não sabia muito bem onde estava mas que largou 60 toneladas de bombas sobre a cidade suíça de Schaffhausen (25.000 habitantes), causando 40 mortos e 270 feridos entre a população local. Alguns meses depois, os Estados Unidos vieram a indemnizar a Suíça em 4 milhões de dólares. Foi o incidente mais grave deste género, envolvendo Aliados e a Suíça a ocorrer durante toda a Segunda Guerra Mundial.

10 fevereiro 2024

AS PEQUENAS BATALHAS DISCRETAS DA «GUERRA FRIA»

10 de Fevereiro de 1964. O desertor Yuri Nosenko tinha 36 anos e nascera na nomenklatura soviética. O seu pai fora o Comissário do Povo (ministro) para a Construção Naval da União Soviética entre 1940 e 1956. O seu filho Yuri entrara para os serviços secretos (KGB) em 1953. Quando desapareceu alcançara a patente de tenente-coronel na organização. Na altura da publicação desta notícia já Nosenko se encontrava nos Estados Unidos, numa discreta residência da CIA. A deserção de Yuri Nosenko vem a dar-se num momento pouco apropriado para o desertor: na CIA vive-se uma época de paranóia, depois da revelação que o britânico Kim Philby (que trabalhara intimamente com a agência americana), fora um espião soviético durante 30 anos. As revelações que Yuri Nosenko traz consigo não são consentâneas com aquilo que na CIA se considera que é verdade, a sua credibilidade é posta em causa, e chega a levantar-se a hipótese de Nosenko ser um falso desertor, destinado propositadamente a desinformar os americanos. Os interrogatórios a Nosenko arrastar-se-ão por três anos, período em que ele esteve detido à guarda da CIA. Só o libertarão em 1967, dando-lhe uma indemnização por causa dos anos de prisão e uma nova identidade. Viverá os quarenta anos seguintes, até à sua morte aos 80 anos, como um cidadão americano numa cidade do Sul dos Estados Unidos.

30 janeiro 2024

OS ASSUNTOS, TAL QUAL ELES SÃO, EM CONTRASTE COM A MANEIRA COMO NOS QUEREM CONTAR

30 de Janeiro de 1984. O Diário de Lisboa publica, via AFP, um artigo de opinião de um jovem (27 anos) sociólogo francês chamado Didier Lapeyronnie sobre a questão do sigilo bancário suíço (note-se que os dados que aqui forneço sobre a identidade do autor do artigo não eram então facultados ao leitor do jornal). Sobre o conteúdo do artigo, mesmo uma leitura menos atenta mostra quanto ele é inequívoco na condenação das práticas da banca suíça. Mas o próprio artigo acaba dando uma esperança contra tais práticas condenáveis, porque quase quatro meses depois, a 20 de Maio, «os eleitores helvéticos (iriam) ser chamados às urnas para se pronunciarem, por via de referendo sobre uma iniciativa socialista "contra o abuso do segredo bancário"». A impressão geral que se extraía do artigo - pelo menos, foi o que aconteceu comigo - é que os suíços teriam então uma oportunidade de se exprimir contra uma prática duvidosa, senão mesmo condenável, de proteger a identidade de depositantes que ali escondiam fortunas de origens inconfessáveis. Esta era a opinião de Didier Lapeyronnie com este seu artigo de há 40 anos, avalizado pela France Press. E depois... houve quem não se tivesse esquecido do assunto, e tivesse ficado atento aos resultados do referendo (abaixo). Numa proporção de quase 3 para 1, os suíços que se pronunciaram manifestaram-se a favor da manutenção do sigilo bancário. E foi assim que eu descobri que monsieur Lapeyronnie não estava afinal nada sintonizado com a opinião generalizada dos próprios suíços... Achava coisas. Era aquele tempo em que eu dava muita valia à opinião que vinha do estrangeiro, por vir do estrangeiro.

03 março 2023

FOI VOCÊ QUE NUNCA OUVIU FALAR DA «INICIATIVA MINDER»?

Originalmente publicado a 3 de Março de 2018, continua tão oportuno! Os tempos é que mudaram um bocado depois da pandemia, porque se nota que os colaboradores deixaram de ser tão colaborantes
3 de Março de 2013. Tinha lugar mais um dos referendos que se realizam com ignorada regularidade na Suíça. Este, porém, parecia muito mais engraçado do que a demasia. A iniciativa (denominada por extenso por «iniciativa popular contra as remunerações abusivas», mas se sintetizara para «iniciativa Minder» em atenção ao proponente que mais se expusera), nascera de uma reacção ultrajada da opinião pública suíça às cláusulas contratuais de uma data de executivos de topo de várias empresas suíças de destaque que, apesar das suas perdas colossais (UBS) ou até mesmo dos seus colapsos (Swissair), os protegiam financeiramente das consequências dos seus evidentes maus desempenhos. A vontade de alterar essa impunidade escandalosa, revestiu-se inicialmente de um abaixo assinado promovendo um referendo a uma alteração à Constituição suíça. O abaixo assinado foi subscrito por 118.583 pessoas, ultrapassando as 100.000 legalmente necessárias para que a proposta fosse submetida a referendo. O que aconteceu precisamente há cinco anos. A proposta para que as remunerações dos membros dos conselhos de administração das empresas suíças cotadas passasse a ser muito mais escrutinada ganhou com 67,9% dos votos. Geograficamente também saiu vencedora em todos os cantões (mapa acima). Pormenor curioso e indicativo de que nem sempre o dinheiro investido em campanhas é determinante para o desfecho das eleições: os apoiantes da proposta terão gasto 200 mil francos enquanto os seus oponentes terão despendido oito milhões de francos, ou seja quarenta vezes mais! E isto aconteceu na Suíça, país paradigma do capitalismo, sede da Nestlé e de tantas outras multinacionais. A proposta, que afinal apenas pretende reforçar o papel dos accionistas na negociação dos salários dos executivos de topo, foi incorporada na Constituição mas os executivos de topo das empresas, que continuam na prática a dominar os dois lados da mesa de negociações (é por isso que ganham o que querem...), já arranjaram formas de contornar a lei. Mas o que me parece maravilhoso foi a forma como depois não houve significativas ondas de choque da iniciativa, a comunicação social mal falou disso, tudo parece ter sido abafado, apesar de ter acontecido na Suíça. Tivesse sido uma proposta de Hugo Chávez lá na Venezuela e aí talvez tivéssemos ouvido falar dela... O que é engraçado é como este assunto tende a reaparecer em agenda, por muito que se perceba que, quem manda, o queira varrer para debaixo do tapete... Ainda a edição de hoje do Jornal de Notícias tem uma chamada de primeira página para o facto de que António Mexia ganha 52 vezes mais do que o empregado médio da EDP. Alguém está convencido que ele valha assim tanto mais que os outros... os colaboradores, como agora se diz?

27 janeiro 2023

APONTAMENTOS SOBRE A (NÃO) NEUTRALIDADE SUÍÇA DURANTE A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Existe a noção que a Suíça foi um país que permaneceu estritamente neutral durante a Segunda Guerra Mundial. É uma ideia tecnicamente correcta, mas cheia de nuances, algumas das quais (1) (2) (3) já me referi aqui neste blogue. O que se tornará surpreendente para o leitor, será descobrir que a Suíça chegou a prestar apoio material à Alemanha na Frente Leste durante o conflito. Embora a iniciativa não tivesse o apoio governamental (também não foi proibido...), o coronel Eugen Bircher (que também era um médico ortopedista reputado) encabeçou uma primeira «missão especial médica suíça» que partiu para a Frente Leste alemã em 15 de Outubro de 1941. Com a publicidade que a capa da revista acima mostra. Composta por 31 médicos, 30 enfermeiros e 19 outros de pessoal de apoio, os membros da missão ficaram instalados na cidade russa de Smolensk, que constituía o ápice do dispositivo médico da Wehrmacht na Frente Leste. Os membros da missão envergavam uniformes do exército suíço, assim como utilizavam o seu equipamento de transporte, embora desprovidos de quaisquer insígnias. Para além das razões ideológicas, o interesse dos militares suíços era o de acompanhar os últimos desenvolvimentos no campo da medicina militar – os suíços foram responsáveis, por exemplo, pela instalação de um banco de sangue em Smolensk, muito necessário já que a cidade albergava nada menos do que 12 hospitais (um deles o suíço). Depois da primeira missão, uma segunda partiu para a Frente Leste em 8 de Janeiro de 1942. Uma terceira missão seguiu-se em 18 de Junho de 1942. E uma quarta em 24 de Novembro de 1942.
Para além da mudança das sortes da Guerra (a batalha de Stalinegrado ocorreu durante a quarta missão), nem todos os membros das missões suíças participavam nelas por razões ideológicas, e os relatos que traziam da Rússia a respeito do tratamento que os alemães davam aos judeus, às populações e aos prisioneiros de guerra soviéticos (os suíços estavam proibidos de os tratar), tiveram que ser activamente abafados pelas autoridades governamentais antes que chegassem à comunicação social suíça (um livro contando a experiência de um dos membros de uma das missões só veio a ser publicado... em 1967). E paradoxalmente, o pessoal médico que fora destacado para apoiar o esforço de guerra alemão, estava também a fazer falta nos inúmeros campos de refugiados que a guerra fizera aparecer na própria Suíça. Não houve mais missões comandadas pelo coronel Bircher a partir de Março de 1943. Quando do fim da Segunda Guerra Mundial, e por muita discrição que se terá posto em não as mencionar, estas missões militares de apoio ao esforço de guerra alemão não puderam desaparecer dos registos, mas o que se notou foi um esforço oficial em distorcê-las, realçando o seu carácter humanitário, para que se esquecesse o ideológico. O que é mais uma daquelas grandes mistificações que alguns países conseguem injectar na História. Apesar da Suíça ser, não esqueçamos, o país sede da Cruz Vermelha Internacional, o que a Suíça tem para apresentar como acções de apoio humanitário à União Soviética em todos estes anos de guerra que acabámos de cobrir (1941/1942/1943), foi... nada. O que não é lá muito neutral.
Nestas duas últimas fotografias vemos o indispensável coronel-médico Bircher (reconhecível pelo quépi) com os seus anfitriões alemães em visita a Narva e à frente de Leninegrado em Agosto e Setembro de 1942.

16 outubro 2022

O RACIONAMENTO ATÉ PARA OS SUÍÇOS

16 de Outubro de 1942. Há oitenta anos e como se podia ler neste jornal de Neuchatel, na Suíça impunha-se o racionamento do pão e do leite. Não se pode dizer que a medida tivesse colhido os suíços de surpresa. Cercada por países em guerra e pelo impacto que isso tivera no comércio internacional, a Suíça evidenciava as fragilidades de quem sempre contara com o exterior para se alimentar. Como acontecia em Portugal, também por lá houve medidas de propaganda para aumentar a produção agrícola, aproveitando inclusive as superfícies urbanas: acima, na notícia ao lado da do anúncio do racionamento, o tema era a plantação de batatas nos jardins do Palácio Federal;
e nesta outra procede-se à colheita de cereal numa das praças centrais de Zurique (notem-se os basbaques - quem diria que na Suíça também há basbaques? - e o eléctrico em fundo). Todas essas iniciativas eram mais simbólicas que substantivas e não podiam, contudo, esconder a fraca produtividade dos terrenos agrícolas suíços e a consequente escassez de alguns produtos alimentares. O racionamento de outros produtos porém, caso do leite, surgia como uma enorme surpresa, a atender à tradicional imagem bucólica suíça das vacas e dos seus badalos, nos seus pastos de altitude. Em tempos de guerra, porém, os mitos e os bilhetes postais não serviam para alimentar a população.

30 novembro 2021

AS FALÊNCIAS QUE A DESVALORIZAÇÃO ACELERADA DO MARCO ORIGINAVA

30 de Novembro de 1921. O meu primeiro comentário, antes de apreciar o conteúdo desta notícia de há cem anos, vai para a forma, nomeadamente para a ignorância do jornalista do Diário de Lisboa que a traduziu do francês, ao dar a notícia como originária de Génova, na Suíça, quando o quereria dizer seria Genebra (Genève, no francês original), que era então, e continua a ser, o grande centro financeiro da Suíça francófona. Concordante com essa ignorância e provavelmente para lá das suas capacidades de dedução, logo na primeira linha do artigo, o mesmo jornalista não soube traduzir a cidade de Bâle (em francês, Basel no alemão local) para o nome em português: Basileia. Dois parágrafos mais abaixo, o mesmo erro para uma cidade belga, designada por Anvers (à francesa), mas conhecida em português por Antuérpia.
Ultrapassando todas estas ignorâncias ´(de palmatória!), o que a notícia nos conta é que a situação se afigurava difícil para todas aquelas instituições bancárias e para-bancárias europeias que operavam nos mercados cambiais. A culpa era do contínuo deslize do marco alemão face às restantes moedas. Como aqui neste blogue já se deu conta, a Alemanha vencida fora sancionada com um elevado montante de indemnizações, e a resistência passiva das autoridades alemãs traduzia-se numa desvalorização contínua e acentuada da sua moeda face às divisas dos países com quem tradicionalmente comerciava. Só que isso pagava-se. No comércio interno os alemães viviam com uma inflação cada vez mais alta, enquanto que no comércio externo era fortemente perturbado por câmbios cada vez mais instáveis: em Abril de 1919 um dólar americano valia 12 marcos alemães; no fim deste mês de Novembro de 1921, decorridos um pouco mais de dois anos e meio, o dólar passara a valer 263 marcos, ou seja 22 vezes mais! A verdade era que os operadores não estavam nada habituados a tal volatilidade de câmbios, e as operações mais arriscadas, quando corriam mal, pagavam-se seriamente: em falências! Ainda não se falava em inflação, mas os preços na Alemanha haviam subido quase 60% desde Janeiro de 1921.

E contudo, suprema ironia, desconhecido dos leitores deste jornal e, sobretudo, dos alemães em geral, o futuro ainda se viria a revelar ainda pior, verdadeiramente aterrador. No Outono de 1923, ou seja, dali por dois anos, e como aqui também já contei, o dólar viria a alcançar o valor de 4.200.000.000.000 marcos! A sociedade alemã regrediu para o nível da troca directa de bens, porque o papel moeda perdera completamente a sua função.

26 fevereiro 2021

O «PARAÍSO» SUÍÇO

26 de Fevereiro de 1946. Em mais uma notícia oriunda de Londres, e depois de uma outra notícia dois dias antes a respeito da Dinamarca (onde se comia pantagruelicamente e em conta), as invejas britânicas dirigem-se agora para terras da Confederação Helvética, outro país também poupado às devastações da Segunda Guerra Mundial devido à sua neutralidade. Segundo o que se podia ler, a Suíça «regressava à normalidade» e «materialmente, o país» apresentava-se «intacto e próspero». Talvez se possa criticar o autor da notícia por um certo excesso de entusiasmo quanto à definição de «prosperidade», uma vez que ele próprio, um pouco mais à frente no texto, se encarregava de esclarecer o leitor que se encontravam «ainda racionados o pão, a carne, o chocolate, o leite, o açúcar, o queijo, a manteiga, os óleos e as gorduras, incluindo o sabão.» E como «os preços (eram) o dobro de antes da guerra» - e os salários certamente não deviam ter aumentado na mesma proporção nesse mesmo período - os suíços em geral talvez não analisassem a situação com as mesmas cores róseas que eram empregues neste artigo por Boris Kidel, o correspondente da Reuters em Berna que assina a notícia. Mas, para os britânicos, a Suíça representaria outro «paraíso», depois do da Dinamarca. Parecia época em que os britânicos estavam com uma pulsão para ter inveja de outros povos mais poupados à guerra do que eles o haviam sido. Se fossemos nós, diríamos que estavam numa fase em consideravam que a galinha da vizinha é sempre melhor que a minha.

25 julho 2020

O RELATÓRIO DE RÜTLI

25 de Julho de 1940. Numa reunião magna, que juntava os 650 oficiais mais graduados do exército suíço, desde os comandantes dos corpos de exército até aos de batalhão, o general Henri Guisan (acima), Comandante em Chefe, expunha os seus planos para a contingência de uma invasão alemã, agora que os exércitos ocidentais (francês, britânico, belga, holandês) haviam sido derrotados e que o país se apresentava rodeado pela Wehrmacht ou pelos seus aliados italianos. O local escolhido para a reunião, Rütli, junto ao Lago Lucerna, possuía um significado reforçado na identidade suíça, pois fora ali que, em 1291, se pronunciara o juramento que forjara o primeiro pacto entre cantões que estivera na origem da confederação helvética. Os planos de contingência anunciados pelo general Guisan naquele dia previam à retirada do dispositivo militar que defendia as fronteiras da Suíça até um reduto nacional, ocupando o centro do país em caso de invasão. Ao contrário de tantos outros planos militares, incluindo-se neste caso, os do lado alemão, precisamente para invadir a Suíça (a operação Tannembaum), os planos e as intenções do alto comando militar suíço eram para ser conhecidos: internamente para animar os próprios suíços; e externamente para refrear as intenções dos potenciais inimigos - a Alemanha e a Itália. «Enquanto na Europa houver milhões em armas e enquanto houver forças importantes capazes de nos atacar a qualquer altura, este exército tem que permanecer mobilizado». A questão da mobilização do exército suíço era primordial, já que os seus efectivos, da ordem de mais de meio milhão de homens, só era possível de manter com a convocação dos reservistas para as fileiras. Mas havia mais um pormenor: «Não prestem atenção àqueles que, por ignorância ou más intenções, espalham notícias derrotistas e dúvidas. Devemos confiar não apenas no nosso direito mas também nas nossas capacidades, que nos possibilita, se todos manifestarmos uma vontade de ferro, defendermo-nos com sucesso.» O destinatário desta passagem era o presidente do Conselho Federal, Marcel Pilet-Golaz que, precisamente um mês antes (25 de Junho) e perante o que acontecera à França cinco dias antes, fizera um discurso radiofónico de conteúdo assaz acomodatício com aquilo que se tornara a nova realidade europeia - a hegemonia alemã. Tecnicamente, Rütli é um golpe militar, ainda para mais praticado na civilizadíssima Suíça: o poder militar subleva-se contra a condução da política externa praticada pelo poder político. Acresce-se à ironia da situação que o fascista ali seria Henri Guisan, simpatizante do SVV (Federação Patriótica Suíça), enquanto Marcel Pilet-Golaz era membro do partido Liberal. Avaliando-o pelo que sabemos agora, o Relatório de Rütli não constituiu um elemento de dissuasão: mesmo depois delas, Adolf Hitler nunca abandonou a ideia de vir a controlar a Suíça. Mas estas declarações de há oitenta anos de Henri Guisan, que deixaram Berlim em fúria, terão evidenciado em que circunstâncias é que os alemães o teriam que fazer, e eles tinham muitas outras prioridades militares para além da Suíça. Como aqui não me canso de frisar, os países que conseguiram permanecer neutrais durante toda a Segunda Guerra Mundial, para o conseguir, fizeram-no sempre em circunstâncias muito nebulosas. Já agora, e porque se trata da Suíça, vale a pena relembrar o Caso Dänicker, aqui contado em 2015.

03 maio 2020

O APARECIMENTO DA EFTA

3 de Maio de 1960. Quatro meses depois da assinatura do tratado em Estocolmo, a EFTA (European Free Trade Association) entra em vigor, associando a Áustria, a Dinamarca, a Noruega, Portugal, o Reino Unido, a Suécia e a Suíça. À época, a nova organização apresentava-se como uma espécie de CEE alternativa.

10 abril 2019

A EUROPA DE PREVENÇÃO

Há oitenta anos e na sequência da invasão italiana da Albânia, as notícias eram que os exércitos de toda a Europa haviam entrado de prevenção, atitude acompanhada de proclamações destinadas a auditores específicos. Note-se a página abaixo do Diário de Lisboa de 10 de Abril de 1939, em que as curiosidades maiores são a ausência de referências à Alemanha entre os países mencionados, ao mesmo tempo que o destaque principia em países que lhe são fronteiriços e que se sentirão mais directamente ameaçados por essa mesma Alemanha, como serão os casos da Holanda e da Suíça. Sem se nomear expressamente qualquer país, percebia-se claramente de onde seriam de esperar as perturbações ao status quo internacional.

12 novembro 2018

A GREVE GERAL NA SUÍÇA E A «SEMANA VERMELHA» NA HOLANDA

12 de Novembro de 1918. Na Suíça, um comité revolucionário convoca uma greve geral. A questão peculiar neste evocação não é a greve geral. É o facto de a greve ter ocorrido na Suíça e logo no dia seguinte à assinatura do armistício que pusera fim à Grande Guerra. A Suíça fora um país que permanecera neutral, não existia a comoção da derrota que costuma servir de explicação histórica aos movimentos revolucionários que eclodiram simultaneamente por toda a Alemanha. E contudo, a sua classe operária, especialmente nos cantões alemães reagiu desta forma, abstraindo-se das notícias da conclusão do conflito. Cerca de 250.000 trabalhadores aderiram à paralisação, um dos sectores mais afectados foi o ferroviário, um sector crucial naquelas circunstâncias em que a agilidade dos abastecimentos alimentares era uma pedra-de-toque da disposição das opiniões públicas. Mas note-se também, e porque a Suíça se mantivera afastada dos combates, que os militares não haviam sofrido o desgaste que ocorrera entre os beligerantes. As imagens oficiais dos acontecimentos transmitem-nos uma imagem de força, com 100.000 soldados nas ruas e nos pontos nevrálgicos (acima e abaixo). O desfecho acabou por ser favorável às autoridades federais. A greve durou 48 horas. Depois dela, mais de 3.500 grevistas foram presentes a tribunal militar, uma apreciável percentagem deles empregados dos caminhos de ferro, embora menos de 5% (147) fossem condenados.
Nesse mesmo dia 12 de Novembro e noutro país que também permanecera neutral, os Países Baixos (Holanda), o primeiro-ministro Ruijs de Beerenbrouck (abaixo, à direita) tentava amenizar o ambiente tenso que o país atravessava, com o anúncio do aumento da quantidade da ração de pão de 200 para 280 gramas/dia. Na Holanda vivia-se então a Semana Vermelha (De Roode Week no original - 9 a 14 de Novembro de 1918), uma tentativa dos socialistas locais (22% do parlamento), dirigidos por Pieter Jelles Troelstra (abaixo, à esquerda), para desencadearem uma acção insurrecional, ao bom jeito do que acontecera no ano anterior na Rússia. Também na Holanda, um exército que não sofrera o desgaste dos combates foi utilizado para enfrentar os revolucionários que, afinal, eram bem menos do que se pensara dos dois lados. Num daqueles combates pela memória como os acontecimentos vêm a ser evocados no futuro, a Semana Vermelha foi rebaptizada de Erro de Troelstra (Vergissing van Troelstra), como se tudo não tivesse passado de um erro de avaliação do líder socialista holandês, o que as evidências sugerem não ter sido bem o caso... Estes dois casos, que vemos muito raramente referidos, ambos ocorridos em países que haviam permanecido neutrais, mostram claramente que o ambiente social tenso que se vivia na Europa no Outono de 1918 transbordava dos países beligerantes para o resto do continente.

07 fevereiro 2018

O VOTO FEMININO NA SUÍÇA


7 de Fevereiro de 1971. Foi só há quarenta e sete anos, e através de um referendo realizado neste dia entre os eleitores masculinos, que as mulheres suíças receberam finalmente o seu direito de voto em eleições federais. A vitória foi significativa (65,7% de sins - cuja distribuição aparece assinalada no mapa abaixo pela intensidade da cor verde em cada um dos cantões), mas, mesmo assim, a não fazer esquecer o resultado de um referendo anterior sobre aquele mesmo tema, realizado doze anos antes, em que o resultado fora precisamente o oposto (66% de nãos). Como se percebe pela distribuição abaixo, a oposição mais conservadora ao voto feminino registava-se nos cantões germanófonos. Por curiosidade, refira-se que o direito de voto às mulheres em Portugal fora originalmente concedido de forma restrita em 1931, progressivamente alargado em 1946 e 1968.

03 junho 2015

CINCO CAMINHOS DISTINTOS PARA A PRESERVAÇÃO DA NEUTRALIDADE

Acabei por descobrir que, quando se debate a questão das neutralidades durante a Segunda Guerra Mundial é útil relembrar um truísmo: o de que num grande conflito com aquelas características só conseguiram permanecer neutrais os países que o conseguiram, não os que o desejaram e o proclamaram. Basta vermos uma lista dos países beligerantes da última Guerra (1939-45) para nos apercebemos do impressivo número de países europeus que se viram arrastados para ela, apesar das mais veementes profissões de neutralidade: Bélgica, Holanda, Luxemburgo, Dinamarca, Noruega, Grécia, Bulgária, etc. Ter permanecido neutral é assim considerado como uma demonstração de sucesso histórico em qualquer dos cinco países que conseguiram tal estatuto, com a notável excepção portuguesa. A Segunda Guerra Mundial acabou há 70 anos, período a que se seguiram 30 de encómios pela habilidade da acção de Salazar, até ao derrube do seu regime em 1974, a que se seguiram outros 40 de críticas e desvalorizações da conduta portuguesa durante o conflito. Creio que já vai sendo tempo de se ser razoável.

É evidente que, adoptando o ponto de vista da historiografia do pós-Guerra e de entre os cinco países que permaneceram neutrais, os mais antipáticos são as duas ditaduras ibéricas. Mesmo aí, a Espanha é para ser considerada pior que Portugal. Se, quanto aos dois blocos em conflito, do ponto de vista dos interesses estratégicos de ambos, as suas posições eram equívocas (mais a espanhola do que a portuguesa), não haveria dúvidas sobre o sentido das suas simpatias ideológicas, completamente enviesadas para o Eixo. Mais do que isso, no caso espanhol havia um passivo por saldar em relação aos dois grandes países (Alemanha e Itália) que o constituíam por causa do apoio recebido durante a Guerra Civil de 1936-39. De facto, a neutralidade espanhola teve muito mais de circunstancial do que aquilo que os adeptos do determinismo histórico gostarão de admitir. Se os resultados militares sobre os céus de Inglaterra se apresentassem mais favoráveis para a Luftwaffe no Outono de 1940, talvez Franco pudesse ter decidido de outra forma. Se Hitler tivesse outra disposição para com as ambições coloniais em África da Espanha (feitas a expensas da França), talvez Franco pudesse ter decidido de outra forma. Se Hitler não tivesse assinado o Pacto com Estaline em 1939, talvez Franco tivesse feito outra avaliação do líder alemão e pudesse ter decidido de outra forma. Sobretudo, se os espanhóis fossem menos espanhóis, e tivessem uma imagem mais realista da sua real importância no xadrez político europeu e talvez Franco pudesse ter decidido de outra forma. A conjugação de tudo isso, muito mais do que a habilidade de persuasão de Salazar sobre Franco, como sugeriu a propaganda posterior do nosso Estado Novo, fez com que a Espanha não se engajasse formalmente na Guerra. Do ponto de vista alemão, e se os espanhóis não se mostravam dispostos a dar esse passo, o status quo vigente era-lhes suficientemente vantajoso para que não valesse a pena rompê-lo por sua iniciativa, ocupando-o. Este foi um padrão de comportamento dos alemães tão válido em Espanha quanto na Suécia ou na Suíça, os três dos cinco países neutrais que estavam ao alcance directo das armas da Wehrmacht. Para mais, Hitler, que sempre valorizou os precedentes históricos nos seus processos de tomada de decisão, terá recordado o que acontecera aos exércitos napoleónicos de ocupação na Espanha dos primórdios do Século XIX.


E, por muito que a evidência nos melindre, o destino de Portugal estava indissociavelmente ligado ao que viesse a acontecer em Espanha. Enquanto Irlanda, Suécia e Suíça estavam geograficamente isoladas para resolver o problema da preservação da sua neutralidade por si sós, com as suas características autónomas, Portugal e Espanha eram o único cluster de neutrais, em que essa preservação era interdependente. Sem a predilecção que Adolf Hitler mostrava pela evocação da História, Salazar também saberia quais as lições a extrair dela: nunca haveria processo satisfatório da Alemanha ocupar directamente em Portugal sem a colaboração espanhola, como ficara aliás demonstrado durante o período napoleónico. Havia que evitar a todo o custo que a diplomacia alemã cravasse uma cunha entre os dois países, assinando o Pacto Ibérico mas sobretudo lembrando à Espanha que a cumplicidade em tal manobra lhe custaria certamente o estatuto de neutralidade por parte dos adversários da Alemanha. Era convicção de Salazar que, se os alemães entrassem na península, fosse a convite espanhol ou forçando a mão, as possibilidades de Portugal preservar a neutralidade com os alemães em Espanha tornar-se-iam praticamente nulas: ou Portugal se tornava num país-satélite do Eixo (uma Hungria) ou então tornar-se-ia em mais dos países ocupados (uma Grécia). Isto para a parcela continental, porque os seus três arquipélagos do Atlântico Norte (Açores, Cabo Verde e Madeira) iriam ser certamente disputados pelas potências beligerantes.

A questão do Portugal atlântico era o outro grande problema de Salazar. Não haviam os britânicos ocupado a Islândia (então dinamarquesa) em Maio de 1940, respondendo à ocupação da Dinamarca pelos alemães no mês anterior? E não haviam os norte-americanos ocupado a Gronelândia em Abril de 1941, oito meses antes da sua entrada na Guerra? Nos dois casos o Reino Unido e os Estados Unidos haviam-se mostrado muito ciosos do controle do espaço Atlântico, capazes de acções preventivas para preservar esse controle. No caso dinamarquês, os alemães haviam-se antecipado e ocupado a própria Dinamarca o que servira de justificação para a ocupação pelos Aliados das suas possessões atlânticas (Islândia e Gronelândia). Evitar que isso se repetisse em Portugal era o primeiro dos problemas de Salazar. O segundo dos problemas de Salazar era que o mesmo desfecho tivesse lugar, sendo as ocupações feitas pela ordem inversa: os anglo-saxónicos podiam ocupar primeiro os arquipélagos atlânticos e era isso que serviria de justificação para os alemães ocuparem o território continental. Conversações havidas no Rio de Janeiro entre norte-americanos e brasileiros para que entre essas eventuais forças de ocupação (dos Açores) houvesse um contingente brasileiro que, pela irmandade da língua, minorasse o impacto do gesto, só impressionavam em Lisboa pela ingenuidade; de resto, assustavam. Quando Salazar se decidiu finalmente a assinar um acordo com os britânicos, cedendo-lhes posições nos Açores, a tendência do desfecho da Guerra já era nítida. Os seus contornos rebuscados, invocando a (mais velha) Aliança agradarão às minúcias jurídicas de Salazar mas nada daquilo resistiria a um daqueles bons ultimatos de 48 horas de Adolf Hitler, fossem outras as circunstâncias. Em Agosto de 1943 os aliados acabavam de ocupar a Sicília e os soviéticos haviam terminado de vencer a batalha do Kursk. Mas ainda havia suficiente indefinição política para que o gesto de Salazar tivesse significado e reconhecimento: para comparação refira-se que só nesse mesmo mês é que os Estados Unidos e a União Soviética reconheceram estatuto ao CFLN (Comité Francês de Libertação Nacional) gaullista, que havia sido criado em Londres três anos antes!

É engraçada a pretensão de moralidade daquelas duas potências na forma como criticaram posteriormente à Guerra a conduta de todos os países que conseguiram permanecer neutrais, pelo egoísmo demonstrado por eles em preservar os seus interesses particulares em detrimento da segurança colectiva da Europa que a ascensão da Alemanha fazia perigar. É verdade que é a elas duas – União Soviética e Estados Unidos – que se deve primordialmente a vitória final no conflito, mas esse reconhecimento não nos pode fazer esquecer que, factualmente, ambas permaneceram neutrais o mais que puderam (dois anos a dois anos e meio) e que só entraram na Segunda Guerra Mundial quando foram arrastadas para o efeito, com a operação Barbarrossa e com o ataque a Pearl Harbour.

A Suécia terá sido, dos cinco países neutrais, o único em que não se personalizou numa única pessoa a condução política do país pelos caminhos tortuosos da neutralidade. A tarefa terá ficado dividida entre o primeiro-ministro social-democrata Per Albin Hansson e o rei Gustavo V. A contribuição e a importância de cada um dependerá da perspectiva de quem observa. É verdade que a Suécia era uma monarquia constitucional e que as responsabilidades recaíam todas no executivo e em que o chefiava mas também é verdade que a aristocracia sueca era, por norma, germanófila, de que um exemplo emblemático fora a primeira esposa de Hermann Göring, Carin. É razoável sintetizar que a pessoa do octogenário Gustav V, que subira ao trono em 1907, aportava à política externa sueca um capital de respeitabilidade que Hansson devia considerar muito bem-vindo.

Há que reconhecer que as opções em aberto para a conduta da Suécia a partir da Primavera de 1940 eram escassas. A Alemanha ocupara os outros dois países escandinavos (Dinamarca e Noruega) e a União Soviética fizera o mesmo com os três países bálticos (Estónia, Letónia e Lituânia). Os contactos marítimos de Estocolmo com o resto do Mundo passavam pelo Øresund (com 4 km de largura no seu ponto mais estreito), com a Wehrmacht posicionada do outro lado. Na península escandinava, ao contrário do que se passava na ibérica, a geografia permitia que a Alemanha pudesse ocupar o país da fachada atlântica (Noruega) sem precisar da conivência do seu vizinho. Claro que o reabastecimento logístico posterior do exército alemão seria muito mais facilitado se a Suécia, deixando-se de uma prática rigorosa da neutralidade, desse mostras de uma certa compreensão, o que veio de facto a acontecer. Toneladas de equipamento e munições e sobretudo muitos milhares de soldados da Wehrmacht em licença atravessaram regularmente o território sueco em comboios que, por serem cuidadosamente monitorizados pelos suecos, não deixavam por isso de ser violações flagrantes da neutralidade sueca. A forma como cada país escandinavo avaliou o comportamento dos seus dois outros parceiros durante a Guerra pôde ser avaliada em 1949, quando da formação da NATO: Dinamarca e Noruega aderiram, deixando a Suécia isolada na sua decisão de querer continuar a manter a neutralidade no Báltico durante a Guerra-Fria.

A ameaça dissuasora de Estocolmo em destruir as infra-estruturas das suas minas de ferro do norte que se revelavam muito convenientes, quase indispensáveis, para o esforço de guerra alemão, não teria produzido grandes efeitos de dissuasão se não houvesse garantias do outro lado que a conduta sueca seria cooperante para com a Alemanha sob o status quo que se acabara de formar na Primavera de 1940. Outra atitude da parte da Suécia teria provocado a guerra e a ocupação. Há uma estranha capa de opacidade em relação à Suécia de 1939-1945 e às formas como evoluíram as simpatias da sua opinião pública. Em 1945, não se sabe bem como, a germanofilia tradicional das suas elites havia desaparecido, o nacional-socialismo e as organizações fomentadas pelos alemães haviam tido apenas uma influência marginal na sociedade e é um trabalho laborioso tentar saber quantos voluntários suecos se apresentaram para combater nas Waffen-SS ou na Wehrmacht.
De todos os neutrais, a Suíça tinha a posição geográfica mais ingrata, a partir de Junho de 1940 ficara rodeada por todo o lado de entidades políticas pertencentes ou dependentes do Eixo. E uma situação administrativa peculiar. A situação internacional conferira um conjunto de poderes centrais extraordinários a um chefe militar, Henri Guisan, anormais num país que tradicionalmente os distribui pelas autoridades dos cantões da Confederação. Em fundo, havia a famosa neutralidade suíça, proclamada originalmente em 1516 e que fora galhardamente preservada até à Primeira Guerra Mundial (1914-18). Era um slogan, nem sempre verdadeiro. Na realidade, desde 1798 até ao fim do período das guerras napoleónicas em 1815, essa neutralidade fora pura e simplesmente esquecida pelos franceses. E podê-lo-ia voltar a ser facilmente, desta vez pelos alemães e por uma maioria de razão: uma ampla maioria (quase ¾) dos suíços era germanófona, o que viria a propósito do programa de quem se propusera reunir todos os alemães no mesmo Reich.

Nem de propósito, Henri Guisan pertencia à minoria francófona da Suíça. Era protestante. E politicamente seria de um conservadorismo musculado que não o distinguiria por aí além de Philippe Pétain. Mas as expectativas sobre Guisan e sobre o comportamento da Suíça eram muito menores do que as que se depositavam, de um lado e outro, sobre a França de Vichy. De uma Suíça economicamente muito aberta para o exterior e muito dependente dele (vale a pena recordar que a Suíça de então era conhecida por ser o maior produtor mundial de relógios – e que precisava de os exportar...), o que mais se lhe podia pedir – do lado dos Aliados – é que ela fosse o mais neutral possível. O critério de avaliação do comportamento dos suíços durante a guerra tem por isso que ser temperado. Aquilo que noutros países é considerado de uma neutralidade elementar, no caso da Suíça tem que ser valorizado doutro modo. As disputas a respeito dos direitos de circulação ferroviária entre a Alemanha e a Itália são um desses exemplos. A capacidade negocial da Suíça estava tolhida pela capacidade recíproca dos seus interlocutores em facilitar-lhe a ela o acesso a portos marítimos para o seu comércio externo com países terceiros.

Sendo o país politicamente neutral, os números do comércio externo da Suíça desses anos desmentem essa neutralidade do ponto de vista económico, fazendo da Suíça quase um satélite do Reich, produzindo para o seu esforço de guerra. Mas isso é compreensível, sendo a contrapartida de não o fazer o desemprego de uma boa parte da população vocacionada para dispersar a sua produção industrial para mercados que agora estavam fora de alcance. Muito menos compreensíveis seriam as transacções financeiras em que a Suíça reforçou o seu papel de plataforma central das menos transparentes. Em tudo isto, a importância de Henri Guisan vem a revelar-se muito mais simbólica que efectiva. Mas o Comandante-Chefe dos exércitos suíços foi precioso para lhes conferir a credibilidade de dissuasão suficiente para que os alemães não pensassem que a invasão da Suíça seria uma espécie de um Anschluss (anexação da Áustria) um pouco mais musculado

Ao contrário dos quatro casos anteriores o maior – senão mesmo o exclusivo – problema da preservação da neutralidade da Irlanda era o Reino Unido. Apresentado de uma forma prosaica, não se punha a questão dos irlandeses simpatizarem particularmente com os alemães – ainda na Grande Guerra precedente quase 50.000 irlandeses haviam perdido a vida combatendo-os – a questão é que os irlandeses detestavam ainda mais os britânicos que haviam sido a potência colonial na Irlanda até 1922. Houvera uma guerra civil e uma partição da ilha e muito ressentimento que os poucos anos transcorridos não apagaram.

A compreensão britânica quanto à atitude irlandesa era profundamente negativa e, se possível, só piorou quando Churchill se tornou primeiro-ministro em Maio de 1940. A Irlanda era um Domínio, fazia parte da Commonwealth e para um velho imperialista como Winston Churchill era um axioma que os problemas da Metrópole eram os problemas do Império. Se o Canadá, a Austrália, a África do Sul ou a Nova Zelândia haviam declarado guerra à Alemanha porque não o fizera a Irlanda? Eamon de Valera, o primeiro-ministro irlandês responder-lhe-ia que a questão não tinha nada a ver com a Irlanda.

E podia fazê-lo sem o receio das retaliações que abundavam no continente. A Irlanda era uma democracia, reivindicando-se dos mesmos valores pelos quais o Reino Unido dizia bater-se e seria um verdadeiro desastre de imagem se os britânicos forçassem de alguma forma violenta os vizinhos a alinharem-se numa posição externa de que o seu governo legítimo se havia distanciado. Por isso, ao contrário de uma Suécia, de uma Suíça e mesmo de um Portugal que teve que reforçar os contingentes militares nos seus arquipélagos atlânticos, a Irlanda pôde atravessar toda a Segunda Guerra Mundial sem precisar de investir num dispositivo militar que desse mais credibilidade à sua neutralidade.

Mas aquilo que não se podia fazer ostensivamente, podia fazer-se por omissão: o Reino Unido, que, como antiga potência, controlava praticamente todo o comércio externo da Irlanda, votou os irlandeses a uma verdadeira autarcia económica, apenas privilegiando aquilo que a Irlanda produzia e que conviria ao seu esforço de guerra. Para um país geograficamente afastado da guerra as carências de alguns artigos importados por que os irlandeses passaram durante esses anos assemelhavam-se às sofridas pelos habitantes dos países ocupados.

25 maio 2015

CONTRIBUTOS PARA UMA MELHOR COMPREENSÃO DA NEUTRALIDADE PORTUGUESA DURANTE A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL - A SUÍÇA E O CASO DÄNICKER

Alguém me sugeriu que, para que se pudesse analisar os países neutrais durante o período da Segunda Guerra Mundial com mais alguma profundidade, aqui inserisse algumas histórias de outros países para que o que aconteceu em Portugal, tantas vezes condenado, fosse visto numa perspectiva mais fundamentada. E é assim que me disponho a contar (naquele formato obrigatoriamente reduzido de um poste) o Caso Dänicker. Aconteceu na Suíça e envolveu um conjunto de manobras políticas entre as altas patentes militares locais. O coronel Gustav Dänicker (1896-1947) era, quando da eclosão da Segunda Guerra Mundial, um dos mais promissores oficiais do exército suíço. Comandava a Escola Prática de Artilharia em Walenstadt, funções que acumulava com uma cátedra de Ciências Militares na Universidade de Basileia. Um militar de reputação impecável com o único senão das suas conhecidas simpatias germanófilas – mas que incluíam um assisado e prudente distanciamento das formações políticas suíças pró-nazis. Logo após a derrota francesa a Ocidente em Junho de 1940 e da assinatura do Armistício, o Comandante-Chefe do exército suíço Henri Guisan (1874-1960, foto acima) proferiu um discurso diante de uma assembleia de oficiais reafirmando o compromisso da confederação em continuar a defender a sua conhecida neutralidade histórica (Rütlischwur) apesar da alteração das circunstâncias. As tendências pró-germânicas do coronel Dänicker – e possivelmente algum incentivo de Berlim – levaram-no a endereçar uma carta ao Comandante-Chefe informando-o que não acreditava nem no seu programa nem na sua capacidade para conduzir o país. A resposta de Guisan foi igualmente privada: satisfar-se-ia com a confiança pública do coronel.

Na Primavera de 1941, os alemães arranjaram um programa para que o coronel Dänicker visitasse o seu país de onde ele regressou mais convicto que nunca que a melhor conduta para a Suíça seria um reposicionamento mais conforme os interesses alemães. Num memorando que cuidadosamente redigiu em Maio de 1941, cinco dias depois do seu retorno, endereçado dessa vez às altas patentes militares mas também às figuras do topo da administração, ele defendeu que evitando resistir ao inevitável, a Confederação Helvética ainda poderia evitar a integração forçada na Ordem Nova europeia que surgiria com a vitória alemã. Porém, em vez de defender um pronunciamento militar ou uma Marcha sobre Berna (ao jeito da do fascismo italiano), o coronel Dänicker acabava por delegar ingenuamente em Ernst Hoffmann (1912-1986), o líder do maior partido nazi (o Nationale Bewegung der Schweiz), a tarefa de o transformar num poderoso movimento de massas que compelisse a actuação do governo federal nessa direcção (num jeito semelhante àquilo que Konrad Henlein fizera com o seu Sudetendeutsch Partei nos Sudetas checos até à sua anexação em 1938).

Convém explicar que Henri Guisan era suíço francófono (ao contrário de Dänicker que era de origem germânica), mas que também era militante da Schweizerischer Väterländischer Verband (traduzível por Federação Patriótica Suíça), uma organização de uma direita musculada, senão mesmo fascista. Haverá por isso muito pouco de ideológico e muito mais de pessoal e cultural a separar os dois homens, Guisan e Dänicker. Mas Guisan dessa vez, ao segundo desafio, resolveu contramanobrar e tornar conhecido da imprensa o memorando que recebera de Dänicker, para que houvesse um contar de espingardas que ele acreditava que se lhe iria revelar favorável. Dois dos seus comandantes de corpo assim como algumas patentes elevadas da aviação militar mostraram simpatias pelas posições de Dänicker. Mas o resto estava consigo. A posição de Guisan, embora mais perigosa a curto prazo, era muito mais bem acolhida pela opinião pública suíça (e o exército suíço é um exército de cidadãos), porque preconizava um país mais distanciado do conflito, um aspecto que ainda mais se veio reforçar quando, no mês seguinte a estes acontecimentos, a Alemanha desencadeou a Operação Barbarrosa (a invasão da União Soviética) e a guerra veio a envolver quase toda a Europa. Mas a reacção de Guisan à ameaça representada pela interferência alemã não teve nada da justiça poética do cumprimento de um desejo formulado pela maioria da população suíça: em primeiro lugar pôs os recursos do exército suíço ao serviço de um aparelho de propaganda em prol da preservação da neutralidade que defendia; havia sessões de propaganda para contrariar as dos nazis; em segundo lugar, a polícia e os serviços de informações militares acentuaram o seu controle (e infiltração) em cima das organizações de extrema-direita e pró-alemãs (note-se este último pormenor porque a SVV a que Guisan pertencia continuou a existir mesmo depois de 1945...); em Junho de 1941, 131 conhecidos nazis suíços foram presos; em terceiro lugar, os oficiais generais que haviam mostrado simpatias pelas posições de Dänicker, como o general Ulrich Wille Junior (1877-1959) foram afastados dos seus postos; e em último lugar, o próprio coronel que dá o nome ao caso, além de afastado, acabou ominosamente – estamos na Suíça! – condenado a 15 dias de detenção. A manobra alemã para, por dentro, fazer da Suíça uma aliada como o eram a Hungria, a Roménia, a Eslováquia ou a Bulgária, fracassara. Mas cadê as liberdades democráticas?...
Para quem conheça a realidade portuguesa, tudo o que acima se descreve, salvaguardadas pequenas adaptações, bem se poderia ter passado se os alemães tivessem estimulado uma figura de proa do Estado Novo conhecida pela sua germanofilia, como por exemplo o coronel Santos Costa (1899-1982), ministro do Exército, e ele se tivesse disposto a aceitar o estímulo. O desfecho, suspeito, não deveria ter sido muito diferente do que aconteceu na Suíça, com a prevalência do status quo (e de Salazar). Na Suíça, mesmo sabendo-se quanto os valores desses anos podem ser equívocos, veio a transformar-se Henri Guisan exageradamente no herói que preservou a neutralidade suíça (acima), esquecendo o resto. Em Portugal, sobre Salazar e quanto a esse mesmo assunto, o exagero é para o lado contrário, incluindo até quem tem outras obrigações por ter a pretensão de estar a falar de cátedra.

05 junho 2014

AS NEUTRALIDADES POSSÍVEIS DURANTE A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Basta olharmos para a localização dos cinco países que conseguiram permanecer neutrais durante a Segunda Guerra Mundial para nos apercebermos que as circunstâncias que rodearam a sua neutralidade foram obrigatoriamente distintas. Localizadas bem no centro da Europa de que a Alemanha assumira a hegemonia, Suécia e Suíça tiveram necessariamente que contemporizar muito mais com as exigências do III Reich do que os três restantes. Por sua vez, situadas na orla Atlântica, a Irlanda e Portugal (este muito por efeito do seu império ultramarino) tiveram a sua liberdade de acção muito mais condicionada pelos Aliados anglo-saxónicos que exerciam a sua hegemonia sobre os mares. As capacidades de coacção dependiam da geografia. Dos cinco países, pela localização e pela dimensão, apenas a Espanha, e apesar das simpatias ideológicas, possuiu a autonomia estratégica para assumir qualquer das condutas (o engajamento com o Eixo ou a neutralidade), prestando-se a ser persuadida pelos dois lados – e, mesmo assim, por vezes foi persuadida mas com argumentos contundentes, como demonstrei neste poste. Porém, terminada a Guerra, tornou-se inconveniente a todos os países neutros evidenciarem as facilidades que haviam sido prestadas aos vencidos. E essas facilidades, por força das circunstâncias acima descritas e mau grado aquilo que depois seja a reescrita da História, foram significativamente superiores entre suecos e suíços do que entre irlandeses e portugueses.
Daí um esforço propagandístico retrospectivo dos primeiros realçando as suas capacidades de auto-defesa (depois dessas capacidades não terem sido submetidas à prova...), que acompanharam alguns oportunos destaques de gestos pró-Aliados mas também algumas omissões quando os gestos beneficiaram os seus inimigos. Nestas fotografias acima, num desfile militar suíço vêem-se viaturas particulares a rebocar peças de artilharia, numa insinuação à mobilização dos recursos civis, e um soldado sueco armado controla soldados alemães em trânsito, esticando as pernas numa estação ferroviária do seu país. No último caso e apesar do que a fotografia possa sugerir, a Suécia permitiu entre 1940 e 1943 o trânsito pelo seu país de muitas centenas de milhares de soldados alemães e de dezenas de milhares de vagões carregados de abastecimentos e material de guerra, destinados às unidades militares alemãs que guarneciam o Norte da Noruega e que, aliados com os finlandeses, combatiam contra os soviéticos no extremo norte da União Soviética, tentando apoderar-se do porto de Murmansk (abaixo). À sua maneira tratava-se de facilidades semelhantes e simétricas às que Portugal concedia naqueles mesmos anos aos Aliados nos Açores, violações descaradas das leis estritas da neutralidade. Percebe-se que seja um tema que não envaideça os suecos e a que eles não deem grande destaque. Parece haver um pacto de silêncio compreensível estabelecido por suíços e suecos a respeito de muitos desses episódios mais conformados da Segunda Guerra Mundial.
O que me parece menos compreensível é como, em contraste, parece existir em Portugal um pacto ideológico de pessoas dedicadas a estudar este mesmo período da História e que se mostram sobretudo preocupadas em escarafunchar todos os indícios de colaboração do governo português com os países do Eixo, de preferência envolvendo (e culpando) António Salazar. É ridículo porque, quando se estuda o assunto dos países neutrais durante a Segunda Guerra para além daquilo que aconteceu nesta nossa paróquia portuguesa, constata-se naturalmente que a contribuição sueca (dirigida pelo impoluto 1º ministro social-democrata Per Albin Hansson) para o esforço de guerra nazi, foi muito superior à portuguesa, apesar de todo o fascismo e proximidade ideológica do seu homólogo António de Oliveira Salazar…

02 maio 2014

WILHELM GUSTLOFF

O nome de Wilhelm Gustloff (1895-1936) é relativamente desconhecido entre a constelação de pequenos führers europeus que emulavam o original. Gustloff (acima) foi o dirigente da sucursal suíça do nazismo. Foi assassinado a tiro em sua casa em Berna em Fevereiro de 1936 por um imigrante judeu croata. Tratando-se da Suíça, não surpreende que o assassino, com o nome de ressonâncias fortemente germânicas de David Frankfurter (1909-1982), tenha abandonado o local do crime para se ir apresentar à esquadra de polícia mais próxima para o confessar. O crime foi enormemente aproveitado pela propaganda nazi que transformou a vítima num mártir da causa. Mas não deixa de ser irónico nesse processo e sendo a Suíça um país sem saídas para o mar, que a maior notoriedade do nome de Wilhelm Gustloff se venha a dever ao facto desse nome ter pertencido a um navio de cruzeiro alemão (abaixo - há um vídeo com a sua viagem inaugural onde escalou Lisboa e o Funchal em 1938) que foi o protagonista do maior desastre marítimo de sempre, que causou cerca de 9.000 mortos em Janeiro de 1945, durante a Segunda Guerra Mundial.

12 fevereiro 2014

DEMOCRACIA O CARALHO

Os suíços são um povo de que não se gosta: são reservados, são xenófobos, são enfadonhos. Até o Astérix entre os Helvécios (acima) é uma aventura esforçada, por causa da falta de graça intrínseca dos nativos. Mas têm um sistema político arcaico e substantivamente mais democrático do que a maioria dos restantes países ocidentais. Estão sempre a organizar referendos para que os cidadãos se pronunciem sobre os mais variados assuntos, o que pode conduzir a resultados considerados absurdos: o voto das mulheres, por exemplo, só veio a ser adoptado para as eleições federais de 1971 ou então a adesão da Suíça (que até era a sede de alguns dos organismos da organização) à ONU que só veio a ter lugar em 2002 – ou seja, no mesmo ano da admissão de Timor-Leste! Mas a verdade é que a esmagadora maioria dos assuntos referendados não são tão controversos quanto os mencionados e as opções que são assumidas na sequência das votações referendárias possuem indiscutivelmente uma legitimidade política acrescida quando implementadas. É o sistema dos suíços, dão-se bem com ele e não parecem querer mudá-lo.
 
É um sistema que haveríamos de respeitar democraticamente, mesmo quando o seu resultado não viesse de encontro ao que desejamos. Já me cansei de ler por aí críticas, que vão desde as frontais até às abordagens de cernelha, ao resultado do referendo que teve lugar no fim-de-semana passado na Suíça, a propósito da imigração. E nada haveria a dizer das discordâncias: a) Se elas mostrassem o respeito devido à vontade popular expressa por intermédio do voto livre; b) Se a opinião fosse coerente com princípios enunciados no passado.

É por causa disso que dá gosto ler Daniel Oliveira a escrever sobre estes assuntos como se se tratasse de um assunto de futebol: É que podemos ler os argumentos como ele agora condena a decisão dos suíços em contradição completa com os argumentos que ele apresentou faz uns dois anos a propósito de um referendo (que não chegou a ter lugar) entre os gregos. Aquilo que foi por ele condenado naquela época - e bem - por não se ter dado oportunidade aos gregos de terem voz, é agora condenado pelo mesmo quando os suíços tiveram - felizmente - oportunidade de se exprimir, curiosamente com argumentos muito parecidos aos que então se opunham ao referendo grego. Na prática e por detrás de dois textos prolixos mas não coerentes, Daniel Oliveira mostra que a democracia directa é boa desde que o povo valide as opiniões dele. Ora quando a coerência e os princípios que deveriam estar por detrás dela chegam a este ponto não há melhor refutação do que a futebolística, seca e grossa, a mesma que Jorge Gabriel emprega no vídeo abaixo , em directo na TV, para rejeitar a opinião de Manuel José: o Daniel Oliveira é um democrata o caralho…

Adenda do dia seguinte: Uma investigação pericial às palavras de Jorge Gabriel mostrou que ele apenas concordou que o carácter havia sido morto, e não a imprecação que e eu e outros lhe atribuímos. Não é apenas a língua portuguesa que pode ser muito traiçoeira, a forma como as palavras são pronunciadas também, mas sobretudo – e penso que terá sido a explicação principal aqui – a predisposição de quem ouve.

11 fevereiro 2014

A SUÍÇA E A EUROPA, O NORTE E O SUL

No momento em que os cidadãos suíços se pronunciaram num referendo sobre imigração, mesmo que por uma escassa maioria, de uma forma que manifestamente terá desagradado aos interesses superiores do colosso económico – a União Europeia – que os cerca (acima), valerá a pena distender um pouco o ambiente e consolidar o Ideal europeu (que, ao contrário dos suíços, nós abraçámos sem esse empecilho dos referendos), através deste filme engraçado do italiano Bruno Bozzetto, uma reflexão sobre o que une e aparta os vizinhos alemães ao Norte da Suíça dos outros vizinhos ao Sul, os italianos.