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05 junho 2024

COMO É QUE O DISCURSO DE ISRAEL EVOLUIU EM 60 ANOS

5 de Junho de 1964. Numa sessão realizada no Overseas Press Club em Nova Iorque, o primeiro-ministro israelita da altura, Levi Eshkol (1895-1969), proferiu um discurso em que negava o expansionismo de Israel para além das fronteiras que alcançara em consequência da Guerra israelo-árabe de 1948. Convém explicar que o discurso fora proferido diante de uma audiência composta primordialmente por jornalistas, não apenas os correspondentes de outros países sediados nos Estados Unidos, que são a razão de ser do Clube OPC, mas também os próprios jornalistas americanos, todos interessados em compreender quais as intenções do governo israelita face aos seus vizinhos árabes. As passagens mais significativas do discurso apareciam publicadas na edição do dia seguinte do New York Times. E o que Eshkol dissera é que eram os líderes árabes que levantavam erradamente a perspectiva que os israelitas se queriam expandir para lá das fronteiras que haviam obtido, enquanto, paradoxalmente, se recusavam a garantir as fronteiras existentes. A garantia de Eshkol é que a expansão económica indústria e agrícola antevista por Israel não necessitava de mais espaço do que aquele que então dispunha, e que aquilo que Israel mais precisaria nessa fase era de evolução técnica e científica, não de expansionismo. À noite, Eshkol fora jantar com o embaixador americano nas Nações Unidas, o antigo candidato presidencial democrata Adlai Stevenson (1900-1965). O primeiro ministro de Israel aparecia naquela altura internacionalmente como uma pomba...

Outra história associada a Eshkol, que é mais vezes evocada, é que a intenção de Israel nesta época seria a de projectar internacionalmente uma imagem que lembrasse a figura de Sansão, com as sua forças e fraquezas bíblicas. Pessoalmente, prefiro esta outra história que aqui publico, porque não está trabalhada para efeitos de propaganda. Embora não se possa responsabilizar pessoalmente Levi Eshkol por tudo aquilo que veio a acontecer no Médio Oriente depois de 1964, este é um discurso que vale a pena ser recordado em toda a sua hipocrisia sessenta anos depois de ter sido proferido, neste momento em que as tropas israelitas continuam as suas operações militares em Gaza e continuam a proliferar os colonatos instalados pelos israelitas em toda a Cisjordânia, como se vê no mapa abaixo.

23 março 2024

PELOS VISTOS, HÁ VINTE ANOS ISRAEL JÁ HAVIA ARRUMADO O ASSUNTO DO HAMAS, «DECAPITANDO-O»...

23 de Março de 2004. Para simplicidade desta mensagem, vamo-nos descartar das questões de legitimidade e de moral que estiveram associadas ao assassinato por Israel do xeque Ahmed Yassim, fundador do Hamas. Concentremo-nos na funcionalidade do assassinato, condensada na mensagem posta a circular por Israel para se explicar perante o resto do Mundo e que aparece acima ao centro: «Israel decapita Hamas». Subentendido: foi um gesto brutal, mas um mal necessário para pôr fim à actividade terrorista de um Hamas que era assim «decapitado». Notoriamente, vinte anos decorrido estamos em condições de afirmar com toda a segurança que não pôs fim. E não terá sido anteontem que terá posto fim (ainda outra vez) ao mesmo Hamas... Os anúncios, de tão repetidos, descredibilizam-se. Visto à distância, Israel mantêm-se exactamente no mesmo sítio onde sempre esteve no que concerne às questões da segurança do seu Estado e dos seus cidadãos e, sobretudo, quanto ao problema de fundo da coexistência com os palestinianos. E no entretanto parece que os israelitas esgotaram quase todo o capital de simpatia de que gozaram durante os primeiros cinquenta anos de existência do seu Estado. Israel está cada vez mais isolado.

25 fevereiro 2024

O MASSACRE DO TÚMULO DOS PATRIARCAS

(Republicação com adendas)
25 de Fevereiro de 1994. Dá-se o Massacre do Túmulo dos Patriarcas na mesquita Ibrahim da cidade de Hébron, na Cisjordânia. Um israelita de origem norte-americana de 37 anos chamado Baruch Goldstein, militante de uma organização da extrema-direita religiosa entrou armado e amplamente municiado na mesquita à hora da oração (estava-se no 14º dia do Ramadão) e desatou a disparar sobre os fiéis. O tiroteio só acabou quando o atirador foi desarmado e morto à pancada pelos sobreviventes. A contagem das vítimas varia conforme as fontes, mas o número de mortos imediatos foram 29 e os feridos ultrapassaram a centena. Seguiram-se dias de confrontação entre palestinianos e autoridades israelitas que causaram um adicional de vítimas, sensivelmente tantas quantas as do massacre original, mas o episódio foi um descalabro em termos da imagem que Israel desejava projectar internacionalmente de razoabilidade perante o extremismo radical e não contemporizador da causa palestiniana, da OLP e do Hamas. O próprio primeiro-ministro israelita de então, Yitzhak Rabin, condenou o atentado, mas tornara-se óbvia a existência de uma muito activa facção ultra-radical entre os judeus que se mostrava contrária ao estabelecimento de qualquer acordo de Paz com os árabes. No ano seguinte, um outro membro dessa facção iria assassinar o próprio Rabin. Cinquenta anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, o capital de simpatia granjeado a Ocidente - ou, pelo menos, na Europa... - por aquelas que haviam sido as maiores vítimas do nazismo, já se esvaziara substancialmente. Não ajuda à simpatia pela causa israelita que os correlegionários do terrorista lhe tivessem erigido um santuário, que foi posteriormente destruído pelas próprias autoridades de Israel, nem que o local da sua sepultura continue a ser um local de peregrinação daqueles extremistas. É só engraçado pensar nas convulsões argumentativas que se produziriam se se tratasse da peregrinação à sepultura de Osama bin Laden (que foi enterrado no mar...) ou de qualquer um dos seus principais seguidores...

24 fevereiro 2024

A ASSINATURA DO PRIMEIRO ACORDO QUE CESSAVA AS HOSTILIDADES ENTRE O EGIPTO E ISRAEL

24 de Fevereiro de 1949. Dava-se conta da assinatura de um acordo que fazia cessar as hostilidades entre o Egipto e Israel, hostilidades que haviam eclodido entre árabes e judeus com o abandono da Palestina pelos britânicos em Maio de 1948, sem que houvesse qualquer acordo formal quanto ao destino a dar à região. Seguiu-se a primeira guerra israelo-árabe. E este era o acordo, assinado nove meses depois na ilha grega de Rodes, entre o jovem estado de Israel e o mais importante dos quatro beligerantes árabes, o Egipto. Seguir-se-ão acordos equivalentes assinados com os outros países árabes, o Líbano (a 23 de Março), a Jordânia (3 de Abril) e Síria (20 de Julho). O importante é recordar que, já há 75 anos, ficava a impressão para quem lesse a notícia (onde os termos do acordo são detalhados) que os israelitas haviam alcançado um acordo muito favorável. Notoriamente e visto a esta distância, percebe-se que lhes falta assinar um acordo com mais alguém.

13 setembro 2023

POSAR PARA A FOTOGRAFIA

(Republicação rectificada e adaptada)
A cerimónia que teve lugar em 13 de Setembro de 1993 em frente à Casa Branca em Washington ficou perpetuada para o futuro pela fotografia imediatamente abaixo, onde se vê o Primeiro-Ministro israelita à esquerda, Itzhak Rabin (1922-1995) a cumprimentar o Presidente da OLP (1), Yasser Arafat (1929-2004), à direita, sob o abraço virtual de mediador de Bill Clinton (1946- ), o Presidente dos Estados Unidos.
Contudo, a imagem teria sido muito mais simbólica e genuína se a fotografia escolhida para assinalar aquela cerimónia tivesse sido substituída pela que aparece abaixo, onde é evidente, através da leitura da linguagem corporal, a dimensão do cepticismo de Ytzhak Rabin quanto à concretização na prática dos Acordos de Oslo cuja assinatura se estava então a formalizar naquele momento...
As convicções profundas de Rabin tornam-se ainda mais evidentes neste breve vídeo do rematar da cerimónia, com a duração de apenas um minuto, onde o Primeiro-Ministro israelita parece dissociar-se fisicamente da coreografia das celebrações, das palmas e dos cumprimentos múltiplos que são depois trocados à sua volta…
Para os mais distraídos quanto à realidade internacional, refira-se que a História mais do que justificou o cepticismo então demonstrado por Itzhak Rabin. É verdade que Bill Clinton teve naquela tarde o seu grande momento televisivo como mediador dos conflitos internacionais, mas passados 30 anos sobre a cerimónia tudo parece continuar na mesma no Médio Oriente, senão mesmo pior.

09 abril 2023

OPERAÇÃO PRIMAVERA DA JUVENTUDE

9 de Abril de 1973. Destacamentos de três unidades de elite das forças armadas israelitas (Sayeret Matkal, Sayeret Tzanhanim e Shayetet 13*) realizam uma operação clandestina em Beirute, capital do Líbano. O seu alvo eram várias instalações da OLP que aí se localizavam, assim como três quadros da organização que aí residiam, numa operação de retaliação pelo que acontecera nos Jogos Olímpicos de Munique, sete meses antes. A coberto da noite, os soldados israelitas chegaram à área portuária de Beirute em barcos de borracha que haviam saído de lanchas rápidas estacionadas a 12 milhas ao largo. À chegada eram aguardados por agentes do Mossad que haviam alugados previamente carros para os conduzir até aos seus alvos e para depois os trazer de volta aos locais de desembarque para a extracção. Como em todas as operações do género, por maior que seja o treino, os intervenientes são confrontados com situações inesperadas. No computo global, os três dirigentes da OLP inicialmente visados foram abatidos, mas também terão morrido outras cinquenta pessoas, incluindo dois israelitas, três polícias libaneses e ainda quatro civis, um deles italiano. No filme Munique (2005) aparece uma reconstituição do ataque (acima). As imagens reais recolhidas pelos jornalistas no dia seguinte (abaixo) são bastante menos glamorosas.
* Informação precisa, no estilo de Nuno Rogeiro, mas absolutamente supérflua para a narrativa e para quem não se interesse minimamente pela designação dos corpos de elite das forças armadas de todo o mundo.

28 dezembro 2022

A OCUPAÇÃO DA EMBAIXADA ISRAELITA NA TAILÂNDIA

28 de Dezembro de 1972. Com o destaque de primeira página que a imagem acima documenta, «quatro guerrilheiros árabes (palestinianos), armados de metralhadoras ligeiras» haviam ocupado «a embaixada israelita em Bangkok, capital da Tailândia» mantendo «como reféns quatro ou cinco diplomatas judeus». Mesmo dispensando o resto dos detalhes, tratava-se de um daqueles acontecimentos que, para o jornalismo puro e duro, prometia grandes cachas jornalísticas. Palestinianos a sequestrar israelitas?! Bastava pensar no que acontecera em Munique apenas há três meses! E contudo, guardado para o dia seguinte estava um desfecho tão surpreendente quanto pacífico. Por iniciativa do embaixador egípcio na Tailândia, que persuadiu os sequestradores palestinianos a desistirem das suas reivindicações enquanto lhes prometia um salvo conduto até ao Cairo, o evento veio a terminar pacificamente no dia seguinte. A surpresa era tanto maior quando, à época, israelitas e egípcios eram inimigos acérrimos. E, num último retoque de inesperado, antes da partida dos palestinianos, os quatro homens armados e cinco diplomatas jantaram juntos dentro da embaixada! Como não morreu ninguém, hoje já ninguém se lembra disto, ao contrário do que aconteceu em Munique. Embora não o confessem, os jornalistas gostam é de sangue porque as histórias com um final feliz nunca dão boas notícias.

03 dezembro 2022

AINDA A PARTIÇÃO DA PALESTINA

As notícia que chegavam a 3 de Dezembro de 1947 de Jerusalém era que a decisão da partição fora muito mais mal acolhida entre a população árabe do que pela população judaica. Mais, a decisão desagradara sobremaneira aos estados árabes vizinhos. Setenta e cinco anos entretanto decorridos e os dados do problema inverteram-se completamente. Mas o problema continua a ser um problema.

29 novembro 2022

O 75º ANIVERSÁRIO DA APROVAÇÃO DA PARTIÇÃO DA PALESTINA

29 de Novembro de 1947. A assembleia geral da ONU aprova por maioria (33 votos a favor, 13 contra, 10 abstenções) a sua resolução nº 181, que preconiza a partição de uma futura Palestina independente (até aí fora ocupada pela Grã-Bretanha) em dois estados, um árabe e outro judeu. É uma decisão que irrita os árabes (primeira página do jornal do dia seguinte), satisfaz os judeus, mas o que importa aqui relembrar é a atitude da administração colonial britânica que, numa comparação particularmente apropriada dado se tratar da Terra Santa. lava do assunto as mãos, como um Pôncio Pilatos do século XX: A Grã-Bretanha tenciona retirar as suas tropas da Palestina o mais rapidamente possível é o que se lê no cabeçalho da página interior do lado direito acima, recordando mais outro episódio de um crepúsculo colonial pouco digno por parte dos britânicos.

29 outubro 2022

A RESOLUÇÃO ESTRANHAMENTE RÁPIDA DO SEQUESTRO DE UM BOEING 727 DA LUFTHANSA

29 de Outubro de 1972. O episódio começou de manhãzinha (cerca das 06H00 locais) pelo sequestro de um Boeing 727 da companhia aérea alemã Lufthansa, acabado de descolar de Beirute, no Líbano, e acabou à noitinha (cerca das 21H00 locais) com a libertação do avião, tripulantes e passageiros, depois de aterrarem em Tripoli, na Líbia. No entretanto, através desse périplo que havia levado o avião a Nicosia, em Chipre, e ainda a Zagreb, na Croácia, as autoridades alemãs haviam satisfeito com uma rapidez muito suspeita as exigências dos sequestradores, e libertado os três sobreviventes do comando palestiniano que havia cometido o atentado que ocorrera nos Jogos Olímpicos de Munique, menos de dois meses antes. Em escassas 16 horas, tudo terá decorrido de acordo com a cenografia desejada pelos alemães. Acima é a conferência de imprensa satisfeita, abaixo é o teor da notícia, também satisfeita, que chegou aos jornais no dia seguinte. Os alemães desembaraçavam-se dos terroristas sobrevivos de Munique e do aborrecimento político de os julgar - e condenar - sem irritarem os países árabes. Teria sido um final que teria deixado todos felizes, se a prontidão e disponibilidade excessiva demonstrada pelos alemães em se descartarem do assunto, não tivesse irritado profundamente os israelitas.

30 maio 2022

O MASSACRE DO AEROPORTO DE LOD

30 de Maio de 1972. Eram já 10 da noite quando três passageiros japoneses chegaram ao aeroporto de Lod vindos de Roma num voo da Air France. O aeroporto de Lod - hoje baptizado de Ben Gurion - é o principal aeroporto de Israel, servindo simultaneamente Tel Aviv, a capital administrativa, e Jerusalém, o principal destino turístico. Os três passageiros estavam vestidos discretamente, à ocidental, e traziam consigo, cada um, um estojo fino de violino. Ao chegarem à sala de espera, abriram-nos e de lá tiraram uma arma automática vz. 58 de concepção checa (abaixo) sem coronhas, para que coubessem nos estojos de violino. E começaram a disparar indiscriminadamente contra passageiros e funcionários do aeroporto, a começar por um grupo próximo de peregrinos (cristãos) de Porto Rico. Foi entre aquele grupo que se registaram 17 dos 26 mortos do ataque terrorista. Mas além dos mortos, o tiroteio provocou cerca de 80 feridos. No final, as autoridades israelitas nunca publicaram os resultados das perícias dos ferimentos, para que não se admitisse, pública e oficialmente que uma percentagem das vítimas havia sido alvejada por fogo das autoridades. Apenas um dos terroristas sobreviveu ao ataque.O processo de subcontratação dos atentados terroristas foi uma completa surpresa para os serviços de segurança de todo o mundo. A começar pelo Mossad, que é sempre tão cuidadoso a promover-se pelos seus sucessos. Mas o meu comentário final vai a fotografia acima, da sala de espera do aeroporto onde o tiroteio começou, com as bagagens perdidas e dispersas e onde o chão se encontra ainda sujo do sangue das vítimas, e em que, com grande probabilidade, o estojo do violino que se vê esquecido, teria pertencido a um dos assaltantes.

27 julho 2021

O PLANO QUE AINDA ESTÁ POR CONCLUIR

27 de Julho de 1946. O secretário de Estado norte-americano James F. Byrnes anunciava em conferência de imprensa em Washington que estava «concluído o plano para a partilha da Palestina». A História não se mostra muito simpática para Byrnes, que, aliás, só ocupou aquele cargo por ano e meio sob a presidência de Harry Truman, mas, neste caso, há que ser indulgente para com o seu optimismo ingénuo, que se veio a mostrar prematuro em - pelo menos - 75 anos. Ou, pelo menos, reconhecer que planos houve muitos: o que se tornou difícil foi implementá-los. À data, os técnicos batalhavam com os mapas da Palestina que mostravam a propriedade da terra em 1945 (ao centro - verde para árabes e vermelha para judeus) e também avaliavam as estimativas da população residente em 1946 (à direita - mais escuro para os judeus e mais claro para os árabes). A razão para a ingenuidade de Byrnes radicará provavelmente no parágrafo da notícia que sublinhei: «...esse plano tinha o apoio unânime dos delegados britânicos e americanos à conferência de Londres e fora igualmente aprovado pelo governo britânico.» Não se mencionam os árabes nem os judeus... Talvez devesse.

28 dezembro 2020

TERRORISMO JUDEU

28 de Dezembro de 1945. De Jerusalém, então capital do Mandato que os britânicos exerciam sobre a Palestina, chegavam notícias do resultado de um conjunto de acções que haviam sido desencadeadas pelas organizações clandestinas judaicas armadas Irgun e Lehi. Haviam sido visadas a sede do CID (Criminal Investigation Department) em Jerusalém, a delegação da mesma organização na cidade portuária de Jafa e ainda o depósito em Telavive do Real Corpo de Engenharia Eléctrica e Mecânica. No global, as acções saldaram-se, entre as forças de segurança, por dez mortos (seis polícias britânicos e quatro soldados das tropas coloniais africanas) e ainda doze feridos; do outro lado, houve apenas um membro do Irgun morto. O estilo das operações fazia recordar, de alguma forma, as acções clandestinas da resistência na Europa ocupada durante a Segunda Guerra Mundial que terminara há meses. Mas as circunstâncias eram absolutamente outras: os soldados alemães podiam permitir-se responder com uma crueldade e violência que agora estavam vedadas aos britânicos. Não apenas porque o Reino Unido era uma democracia e a Alemanha não o era, mas também e sobretudo, porque retaliar contra judeus seria um desastre de relações públicas, quando os judeus haviam sido as grandes vítimas da Segunda Guerra Mundial. As autoridades britânicas limitaram-se a reagir com uma gigantesca operação de buscas em Jerusalém e Telavive e a imposição do recolher obrigatório naquelas cidades até dia 5 de Janeiro. A situação da segurança na Palestina era complexa e a situação de quem era responsável por ela não era nada invejável.

16 setembro 2020

«SETEMBRO NEGRO»

16 de Setembro de 1970. O tão antecipado confronto militar entre as autoridades jordanas e as organizações palestinianas acantonadas no país tem finalmente lugar. Os combates ir-se-ão prolongar pelos próximos onze dias, até dia 27, período ao longo do qual o sangrento conflito foi acompanhado e se manteve em lugar destacado na comunicação social de todo o Mundo (abaixo). Tratou-se de um conflito de características essencialmente urbanas, em que o exército jordano procurava desalojar o inimigo dos bairros de refugiados palestinianos onde sempre haviam predominado. Os problemas dos jordanos, que gozavam de uma inegável superioridade material e que venceriam militarmente o conflito, eram de dois tipos: a) Prevenir a multiplicação de baixas civis, sobretudo entre os refugiados palestinianos, o que teria custos políticos no resto do mundo árabe; b) impedir que os militares iraquianos e sírios interviessem no conflito ao lado da OLP, contando para isso com a mediação do Egipto. Em última instância, a Jordânia apelou directa e ostensivamente aos Estados Unidos (abaixo), e isso é capaz de ter sido determinante para o desfecho deste «Setembro Negro». Quanto ao desfecho, do ponto de vista militar a vitória jordana foi incontestável: para além dos palestinianos subjugados, também os sírios apanharam uma pequena tareia. Do ponto de vista político, a vitória jordana teve uma aparência mais disfarçada, mas as organizações armadas que constituíam a OLP perderam a capacidade de operar autonomamente em território jordano. Com o tempo, elas foram-se transferindo gradualmente para o Líbano, transportando consigo um caos político-militar muito congénito. Em 1975 começava, por sua vez, uma Guerra Civil, neste último país, com a contribuição generosa dos palestinianos. Foi a validação final da decisão difícil do rei Hussein da Jordânia de os expulsar do seu país em Setembro de 1970.

06 setembro 2020

O SEQUESTRO MÚLTIPLO DE AVIÕES DE PASSAGEIROS OCIDENTAIS POR GUERRILHEIROS PALESTINIANOS

6 de Setembro de 1970. Neste dia os guerrilheiros da organização palestiniana radical da FPLP (Frente Popular para a Libertação da Palestina) realizaram simultaneamente três bem sucedidos sequestros de aviões de companhias ocidentais tendo falhado um quatro sequestro. O primeiro foi um Boeing 747 da Pan American que foi desviado para o Cairo e que foi dinamitado e destruído logo após o desembarque dos passageiros (primeira imagem). Outro foi um Boeing 707 da também americana TWA. Um terceiro foi um DC-8 da Swissair. Estes dois foram desviados para Dawson Field, uma antiga base britânica na Jordânia que se encontrava praticamente desactivada, onde passageiros e tripulação ficaram à guarda de membros da própria FPLP em terra. O último alvo era também um Boeing 707 da El Al (companhia de aviação israelita), mas aí o assalto fracassou porque o voo levava segurança armada: um dos terroristas foi morto, a outra capturada. No mesmo dia, o líder da FPLP George Habash, apresentou as exigências da sua organização em troca da libertação dos reféns que fizera, nomeadamente a libertação dos guerrilheiros palestinianos presos em Israel e na Alemanha Ocidental, Suíça e Reino Unido por acções anteriores de sequestro de aviões. Durante o decurso das negociações, três dias depois, como reforço de argumentação, um outro avião, um VC-10 da BOAC britânica foi também sequestrado e veio fazer companhia aos outros dois em Dawson Field (é a segunda imagem acima). Três dias passados sobre este último sequestro, no dia 12 de Setembro, a FPLP convoca a imprensa mundial para fazer explodir espectacularmente as três aeronaves (vazias! Mas são 20 milhões de dólares da época em material!) à frente de todas as televisões (abaixo). Lembro-me da cena e do quanto foi impressionante de assistir. Todas estas últimas peripécias se passaram em território jordano e percebendo-se à evidência que as autoridades do país não tinham conseguido interferir no evoluir dos acontecimentos. Em todo o processo e com a cumplicidade de egípcios, sírios e iraquianos, George Habash conseguira radicalizar a luta que opunha as autoridades jordanas aos palestinianos no seu próprio país. Conseguira-o à custa de as humilhar perante a comunidade internacional e as opiniões públicas de todo o mundo. A eclosão do «Setembro Negro» (muito negro para os palestinianos) está em verdadeira contagem decrescente.

04 setembro 2020

COMO DIRIA O CARLOS TÊ E CANTARIA O RUI VELOSO, A NOSSA CULTURA ATÉ FALA ESTRANGEIRO...

Eu compreendo porque é que os palestinianos que se manifestam, acrescentam às suas manifestações cartazes escritos em inglês. Afinal, os destinatários dos seus protestos são a opinião pública ocidental e, entre ela, poucos serão os que conseguem ler os que eles escrevem nos cartazes no seu próprio idioma, por muito gráficos que eles sejam (acima, à direita). Aliás, do outro lado, os israelitas, que também têm um alfabeto próprio que quase mais ninguém consegue ler, fazem precisamente a mesma coisa.
Agora, o que eu estou para perceber é porque é que a malta da cultura cá do sítio, deu em fazer uma coisa muito parecida, quando protesta à frente do ministério da dita (Cultura). Será que a classe cultural considera que os os agentes de pressão para as suas reinvidicações também é a opiinião pública ocidental, que não percebe português? Ou será, num assomo de globalização sofisticada, que estão convictos que a força do que pedem terá mais impacto se for pedido em estrangeiro?

30 agosto 2020

O PRENÚNCIO DE UM «SETEMBRO NEGRO»

30 de Agosto de 1970. Apesar de perdida numa página bem interior (25), esta notícia, oriunda de Amã, capital da Jordânia, seria a notícia mais preocupante da edição daquele dia do Diário de Lisboa. Com a sua leitura ficava-se a saber que o rei Hussein proferira no dia anterior um discurso na rádio e televisão locais, onde fizera uma espécie de ultimato aos guerrilheiros palestinianos da OLP que se acantonavam na Jordânia e um aviso às tropas iraquianas que estavam lá estacionadas desde 1967 para ajudar... os jordanos. Para além do conflito israelo-árabe, há um outro conflito prestes a eclodir entre as facções árabes mais moderadas, protagonizada pela Jordânia, e mais radicais, protagonizada pela OLP e pelos seus vizinhos sírio e iraquiano. Ao conjunto de combates, que se prolongarão por quase todo o mês seguinte, e que irão opor o exército jordano aos guerrilheiros palestinianos apoiados de forma descarada pelo exército sírio, ir-se-á dar o nome de «Setembro Negro». Os militares jordanos, que haviam sofrido quase 700 mortos durante a Guerra dos Seis Dias contra Israel, irão suportar agora cerca de 540 neste conflito para expulsar os palestinianos armados do seu território - são números que não dá muito jeito à propaganda da causa árabe que apareçam comparados...

23 maio 2020

O FIM DA AUTORIDADE FRANCESA SOBRE A SÍRIA E O LÍBANO

Ainda 23 de Maio de 1945. A reinstalação da autoridade francesa naqueles que haviam sido os seus mandatos no Próximo Oriente (Síria e Líbano) mostra-se mais do que problemática. Os dois países haviam aproveitado o período de extrema fraqueza da França depois da sua derrota de 1940 para ambos ganharem autonomia e até proclamarem a sua independência (1943 e 1944), sob a tutela das tropa de ocupação britânicas que ocupavam os países desde 1941. Com o fim da Guerra em 8 de Maio de 1945, pensara-se em Paris reencetar os programas de autonomia progressiva que haviam sido previsto ainda antes de 1939. Era esquecer cinco anos de acontecimentos decisivos, contar com a colaboração benévola dos britânicos, mais a solidariedade de americanos e russos, e ainda presumir a complacência benévola dos árabes. A França comportava-se como um daqueles seus aristocratas que foram corridos dos seus domínios por ocasião da Revolução de 1789 e que agora regressava a tomar posse dos seus palácios, pretendendo que nada de substantivo se alterara com os anos de ausência. Fica por saber se era ingenuidade ou se era apenas petulância gálica, mas iriam confrontar-se com uma resistência militar que superava a capacidade militar francesa em lhes fazer face - os exércitos coloniais locais haviam-se bandeado em peso (70% dos quadros e 40% dos soldados) para o lado das forças independentistas. Dia 28 de Maio os franceses viriam a receber uma nota americana a respeito da sua política na região e a 31 de Maio seriam os britânicos a exigir que os franceses aceitassem um cessar fogo. Os dias da França no Próximo Oriente estavam contados. Na revanche, nos anos que se seguiram, os franceses iriam cuidar de contribuir para emerdar o mais possível todas as iniciativas britânicas para resolver o problema palestiniano, do qual o Reino Unido iria sair dali por três anos e com o rabo entre as pernas...

30 junho 2019

O MUNDO DO AVESSO?

Dia 30 de Junho. De 1939 e de 1969. Nas notícias do primeiro desses dias, noticiava-se o terrorismo na Palestina. Só que as vítimas dos atentados eram árabes e os seus autores israelitas. E era sobre estes que a repressão incidia (a autoridade tutelar da Palestina era o Reino Unido). Nas notícias do segundo desses dias, os britânicos mostravam-se ansiosos por entrar para a Comunidade Económica Europeia; esperavam que a recente eleição de Georges Pompidou provocasse uma inflexão da atitude francesa que, com Charles de Gaulle, já por duas vezes vetara a admissão do Reino Unido. Que estas duas notícias são o oposto do que se passa na actualidade não restam dúvidas, mas, a tratar-se do Mundo do avesso, com israelitas a aterrorizar árabes com bombas e a serem presos, e britânicos a exercerem todas as pressões possíveis para se juntarem à Europa, qual é o avesso, qual é o direito?

22 janeiro 2019

O ASSASSINATO DO COMANDANTE OPERACIONAL DO SETEMBRO NEGRO


22 de Janeiro de 1979. Quem visse estas imagens recolhidas pela Associated Press no dia seguinte numa rua comercial de Beirute, com carros destruídos e edifícios danificados, jamais se poderia aperceber da importância do que ali acontecera. Ali Hassan Salameh (1940-1979) era o chefe de operações da organização palestiniana Setembro Negro cuja notoriedade mundial se produzira seis anos e meio antes (no Verão de 1972), ao patrocinar o sequestro em Munique da delegação israelita aos Jogos Olímpicos. A retaliação engendrada pelos israelitas sobre os autores do que veio a ser um massacre dos reféns, veio a ser popularizada pelo filme Munich de Steven Spielberg (2005). Mas nem mesmo esse filme exibe a operação retaliatória israelita de há quarenta anos contra Ali Salameh, aquele que terá sido o principal responsável operacional pelo que acontecera em Munique. A carrinha Chevrolet em que ele seguia naquela tarde (15:35) com os seguranças, passou mesmo ao lado de um Volkswagen carocha carregado com 100 kg de explosivos, que foram detonados à distância à sua passagem por um agente do Mossad. Quatro guarda-costas de Salameh e mais quatro transeuntes morreram na explosão. O visado ainda sobreviveu mas, apesar de transportado de imediato para um hospital, morreu meia hora depois enquanto estava a ser operado. Outras dezasseis pessoas ficaram feridas. A casualidade como os afectados parecem lidar com a situação no vídeo acima explica-se pelo facto de, desde há quatro anos, o Líbano viver uma destrutiva guerra civil em que tais incidentes eram comuns. O tempo veio demonstrar que Ali Hassan Salameh fora também um canal de comunicação entre a OLP e a CIA, e, por causa disso (mas não só...), especula-se que esse estatuto o terá levado a pensar que o colocaria razoavelmente a coberto das intenções vingativas dos israelitas. Enganou-se. Nas notícias do dia seguinte (abaixo), a OLP, numa raiva despeitada, proclamava que «decidira intensificar a luta contra Israel». E então?...